GUERREIROS DA LUZ
O Treinamento
Volume 1

Isabela Mastral
Eduardo Daniel Mastral

Original de Daniel e Isabela Mastral
Publicado por Editora Nas Ltda.
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para usar ou reproduzir este livro, exceto para citaes breves em crticas, revistas ou artigos
Editorao eletrnica - Ubirajara Crespo
Capa - Nouveau
Reviso: Joo e Edna Guimares
Assunto - Biografia
Nmero de pginas  528 (no livro impresso)
ISBN - 85-88606-24-0
Primeira edio - outubro de 2O02
So Paulo, Brasil
E-mail do autor - danielmastral@hotmail.com

Nota dos autores

Somos adeptos do estilo "Romance" dentro da Literatura.
 uma agradvel e consistente maneira de aprender.
Esperamos que nossos leitores apreciem esta leitura passo a passo, 
momento a momento, tanto a histria quanto os ensinamentos dela.
Esta srie   composta por "Filho do Fogo" volumes I e II e "Guerreiros 
da Luz" volumes I e II, em associao ao livro de estudo "Tticas de 
Guerra",   condensa de maneira diferente os princpios da Batalha 
Espiritual e do forjar do Carter Cristo. Tanto se destina aos Cristos 
em geral, quanto queles cujo chamado  especfico para a Guerra. 
Embora extensa, desejamos-lhe uma boa leitura!

ndice:
DEDICATRIA        3
EDUARDO CONTA        4
PRLOGO        4
ISABELA CONTA        6
INTRODUO        6
CAPITULO 1        50
CAPTULO 2        69
CAPTULO 3        88
CAPTULO 4        108
CAPTULO 5        128
CAPTULO 6        145
EDUARDO CONTA        170
CAPTULO 7        170
CAPTULO 8        185
CAPTULO 9        199
CAPTULO 10        217
CAPTULO 11        237
CAPTULO 12        252
CAPTULO 13        268
CAPTULO 14        282
CAPTULO 15        305
CAPTULO 16        322
ISABELA CONTA        338
CAPTULO 17        338
CAPTULO 18        357
CAPTULO 19        374
CAPTULO 20        385
CAPTULO 21        405
CAPTULO 22        419
CAPTULO 23        433
EDUARDO CONTA        449
CAPTULO 24        449
CAPTULO 25        462
CAPTULO 26        476
CAPTULO 27        497
CAPTULO 28        510
CAPTULO 29        527
CAPTULO 30        549

Dedicatria

queles que merecem honra.

Bom aventurado o homem
que suporta com perseverana a 
provao;
Porque, depois de ter sido 
aprovado,
receber a Coroa da vida,
a qual o Senhor prometeu 
aos que O amam

Tiago 1:12



Esta  uma histria
baseada em
fatos reais.

Eduardo Conta
Prlogo
Houve um tempo na minha vida em que estive sentado diante de 
uma mesa farta, um verdadeiro banquete!
O deleite j comeava pelos olhos... o que eles contemplavam era 
algo lindo: uma mesa magnificamente adornada, taas de cristal com 
bordas e bases de ouro, bandejas de prata, louas das mais finas, 
arranjos florais belssimos! Ao estender as mos sentia na pele a maciez 
da toalha de seda.
Logo o jantar estaria servido, um sublime aroma subia pelos ares 
invadindo minhas narinas. Soberbo! O aroma prenunciava o restante... 
era difcil conter a expectativa, a vontade quase incontrolvel de saborear 
o quanto antes aquelas iguarias exticas, bem preparadas, de sabor 
certamente to inigualvel quanto o seu cheiro!
A nica coisa capaz de conter a ansiedade era reclinar-me nas 
confortveis poltronas que circundavam a grande mesa, revestidas de 
veludo vermelho. E escutar... ao fundo... uma melodia agradvel... 
suave... que me fazia experimentar uma tranqilidade na alma, uma 
sensao de acolhimento, e me punha viajando nos seus acordes 
diferentes, inumanos.
Enfim, o jantar!
Quando provei a primeira iguaria senti um sabor nunca antes 
experimentado!... Eu gostaria de continuar vivendo apenas para estar ali, 
naquele lugar, provando daquelas coisas.
Porm... muito tempo depois... soube que aquele banquete estava 
envenenado... nada visvel aos olhos, muito menos detectvel por 
qualquer sentido humano. Mas lentamente me matava, com veneno letal, 
fazendo-me sofrer cada dia mais... vagarosamente roubava a vida... 
sugava-a inexoravelmente... e com muita dor. Tudo aquilo pelo que vivi 
no me trouxe vida, mas morte.
Isso  o que o inimigo das nossas almas faz. Engana nossos 
sentidos. Nos faz crer que desfrutamos o melhor... quando na verdade 
estamos sendo contaminados por um veneno malvolo que nos levar  
Morte Eterna.
Quando sa da Irmandade, e as perseguies iniciais cessaram, 
acreditei que eles haviam desistido. Mas, depois, numa anlise mais 
cautelosa, imaginei que, por algum motivo eles realmente tinham 
acreditado na minha morte. Ou porque Deus me encobriu... ou porque os 
demnios mentiram l dentro... no saberia dizer. Fato  que nunca tinha 
visto, ou ouvido falar, de pessoas que tivessem conseguido escapar 
daquele Inferno, e sobreviveram!
No h perdo. O preo da traio  a morte!
Imaginei se, porventura, no haveria outros assim como eu... que 
escaparam tambm... e de alguma forma as Entidades foram enganadas, 
e foram levadas a acreditar que seus desertores estavam aniquilados!
Nada disso importava. No naquele momento. O que importava 
ento era apenas uma coisa, que eu era um sobrevivente!. Deus estava 
me guardando!
Nunca mais consegui falar com o Pastor Brintti, ou saber dele, at 
ento o outro "nico sobrevivente" que eu conhecia. O nico que no 
cara diante dos Encantamentos da Irmandade!
Ele sumiu... mas isto  outra histria.
Passei a freqentar uma Igreja prxima de minha casa, em 
Perdizes. Era excelente para mim! Tinha vrios amigos, a Palavra era 
boa, havia muito convvio entre ns! Me sentia como que fazendo parte 
de uma nova famlia!
E o que era melhor: ali nunca falavam do diabo! Era como se ele 
nem existisse! Afinal, a Bblia fala de tantas outras coisas, por que falar 
justo do diabo? Eu gostava daquilo! Me fez achar, ao meu modo, que ali 
era um lugar seguro para mim! Uma Igreja que nunca, jamais, a 
Irmandade pensaria em infiltrar. Conseqentemente... nunca me 
encontrariam novamente!
A Igreja era, sem dvida, um apoio e um refgio para mim. 
Comecei a conhecer cada vez mais Aquele que me resgatou do Inferno 
na Terra, Jesus Cristo!
E me senti protegido.
Mesmo assim... nunca saa sem meu 38 preso  cintura. Era 
minha "segurana extra".
Fui levando minha vida como qualquer outro, mas ainda com 
muitas seqelas das contaminaes a que fui submetido... tinha 
ocasionalmente pesadelos horrveis... certas noites e datas, quando eu 
sabia o que eles estariam fazendo... me apavorava s de pensar... s 
vezes era invadido por uma forte angstia...
Neste sentido estava s, terrivelmente s!
Decidi nunca contar para ningum o que tinha visto e vivido. 
Levaria aquele segredo para o tmulo comigo... se eu no falasse nada... 
no me localizariam... e poderia viver minha vida em paz. Finalmente em 
paz!
Meu pai faleceu... no ms nove... e em meio a este turbilho... a 
certeza de que eu seria o prximo! Mas ento conheci uma mulher! Uma 
mulher que Deus estava mandando para ficar ao meu lado!
Pela primeira vez, nem sei explicar o por que, decidi confiar a 
algum minha histria. Talvez me pesasse demais e eu nem tivesse me 
dado conta; ou talvez tivesse simplesmente chegado a hora. Ao menos 
algum mais iria saber... eu no seria mais o nico! Aquela solido 
terminaria.......
Desabafei... chorei... contei minha histria a ela, a Isabela! A 
histria de um ex-Filho do Fogo!
Esta mulher futuramente tornar-se-ia minha Auxiliadora, minha 
companheira, uma guerreira ao meu lado.

Mas, ento, um dia... fui localizado! No sei como... mas eles 
deixaram bem claro que haviam me achado. Fiquei apavorado! Senti 
muito medo, sabia exatamente qual era o destino dos traidores... teria 
uma morte horrvel e lenta... em breve viriam me buscar... tinha pouco 
tempo.... diante deles meu revlver seria to letal quanto uma arma de 
brinquedo... aquilo de nada valeria para me defender! E, mesmo que 
valesse... eles no tm medo de morrer pela "causa".
Nada poderia me livrar do meu terrvel destino...
Deus... Deus meu, ajude-me! Mas naquele momento parecia que o 
cu era de bronze... no conseguia crer que Deus pudesse me ouvir!
Esta  a histria que conta no apenas como Ele me ouviu, mas 
agiu...!
Isabela foi a primeira pessoa que foi colocada ao meu lado. E 
como tudo tem que comear por algum lugar...  muito importante 
apresent-la a vocs! Para que entendam o propsito de Deus em nos 
aproximar.
Gostaria que ela mesma fizesse isso.
Leiam com ateno estas linhas, pois a histria desta vida foi 
escrita por Deus!
Isabela Conta
Introduo
Meu  nome  Isabela.
Ou melhor, Isabela  o nome pelo qual vocs iro me conhecer 
porque, da mesma maneira que todos os demais, este tambm  fictcio. 
Antes de falar sobre mim mesma, comeando pelo comeo, quero que 
todos tenham um pequeno vislumbre dos estranhos dias que estamos 
vivendo como parte do nosso aprendizado, como conseqncia do 
destino que nos foi proposto.
No foi fcil, certamente que no foi... quando conheci Eduardo 
jamais poderia supor a trajetria que devia ser percorrida.
Hoje, no entanto... no escolheria outro caminho. Porque este, 
embora muito rduo, nos revelou o Senhor dos Exrcitos.
* * * *
Eu estava ali parada, pensando. Com a cabea apoiada nos 
braos olhava para a lua que estava quase cheia e aparecia bem  
minha frente no cu repleto de nuvens escuras. Em pouco mais de uma 
semana, Eduardo e eu completaramos nosso primeiro aniversrio de 
casamento.
Parecia at um milagre termos conseguido concretizar  enfim   
aquele nosso sonho.
Realmente, uma parte dele tinha sido alcanada, no restava 
dvida quanto a isso. Estvamos casados!
Mas... aquele primeiro ano tinha sido completamente atpico, alm 
de tudo quanto eu pudesse imaginar. Muito diferente do que eu tinha 
sonhado para mim! Bem, talvez "diferente" no seja exatamente a 
palavra certa,  antes um pequeno eufemismo, uma tentativa de deixar a 
coisa um pouco mais leve. A verdade  que vivemos um perodo muito 
duro, o que por certo no traduz o desejo do corao da maioria das 
moas. Perdemos muito de um lado... ainda que lucrssemos de outro!
Mas, sinceramente falando... j nem parecia que estvamos 
vivendo no mundo real. Quero dizer, nossa vida no parecia real, parecia 
um conto de fico alucinado, onde contracenvamos com personagens 
estranhssimos!
E onde a realidade parecia mais assustadora do que qualquer tipo 
de fantasia.
Foi com a cabea repleta destes pensamentos que me sentei ali 
fora, na varanda, naquela noite de vento fresco. Olhei para o reflexo 
tnue e ligeiramente prateado da luz da lua que caa sobre o jardim. As 
noites de lua cheia eram muito bonitas naquele lugar, por causa da 
luminosidade que causavam. Pena que agora houvesse nuvens demais 
no cu! O vento fazia com que deslizassem rapidamente, escuras e 
esfiapadas, e no se via quase estrela alguma.
Fiquei olhando o vaguear das nuvens no cu e as idias 
deslizaram pela minha mente quase to rpido quanto elas. Sem me dar 
conta de que estava novamente refletindo naquilo, aquela cascata mental 
continuou rolando  medida que meus olhos pulavam de um ponto a 
outro do jardim.
"Deus  fiel!... Ele no fez o que fez at agora para que, no ltimo 
instante, eles sejam vencedores".
Aquela sensao leve de expectativa vinha me acompanhando de 
forma mais intensa naqueles dias. Difcil traduzi-la em palavras. No era 
temor propriamente dito, nem dvida. Apenas aquela sensao estranha, 
incontida, totalmente nova, que nos cobria como um manto. E cuja 
palavra mais prxima para defini-la era aquela: expectativa.
Uma expectativa acompanhada da latejante pergunta:
"O que vai acontecer, afinal de contas?"
Porque, ao que parecia, diante de tudo o que foi vivido 
principalmente nos ltimos trs a quatro anos ... a bem da verdade 
qualquer coisa poderia acontecer!
Certamente que Deus vinha provando o Seu Poder e, 
principalmente, a Sua Fidelidade dia aps dia... mas parecia que, a partir 
daquele ms, e especialmente no desenrolar dos prximos dias... 
qualquer artimanha terrvel do inimigo no seria por demais estranha. 
Isso quer dizer que nada seria sobrenatural demais... ou irreal demais 
para ser verdade.
Nossa parte era confiar. E vigiar. Mas as emoes por vezes 
ficavam um pouco mais alvoroadas. E eu tinha a sensao de que algo 
de medonho estava por vir.
Eu e Eduardo nos sentamos como que dentro de um barco. H 
muito tempo que ns tnhamos entrado nele ao aceitar um chamado 
muito especial do Senhor. Fomos navegando ao sabor da correnteza 
dada pelo Esprito de Deus.
Mas  medida que comearam as chuvas e as tormentas daquele 
mar cada vez mais bravio, tivemos que ceder ao Senhor todas as coisas. 
Inclusive os nossos remos, por assim dizer. Deus estava no comando do 
barco, e j no havia como desembarcar dele. No havia como voltar 
atrs. A desistncia  o desembarque  significava a morte, to-
somente. No havia outra opo. Ou continuvamos descendo a 
correnteza naquele barco, nas Mos do Senhor... ou desistamos dando 
espao para a morte. O que estava feito, estava feito.
Agora  nos prximos dias  sobreviria a mais terrvel de todas 
as tempestades. E a ns cabia a f, to-somente. Nada havia para ser 
feito, apenas crer. Crer que o nosso Capito seria mais do que suficiente 
para nos livrar daquela horrvel situao, trazendo-nos a vitria e 
levando-nos ao almejado porto seguro.
Ergui os olhos para a mancha escura  minha frente, elevada um 
pouco acima do horizonte. Durante o dia ns podamos contemplar uma 
parte dos montes verdes que circundavam todo o Vale. Mas  noite estes 
nada mais eram do que manchas escuras com um ou outro ponto de luz.
"Elevo os olhos para os montes, de onde me vir o socorro? O 
meu socorro vem do Senhor, que fez os Cus e a Terra"!
Aquele versculo Bblico tinha se tornado uma espcie de Rhema 
para mim e ecoava dia aps dia, momento aps momento desde que nos 
havamos mudado para aquela casa. Pouco menos de um ms antes. 
Ele aparecia dentro de mim num sussurrar; antes mesmo que eu 
pudesse tomar tento, l estava ele:
"Elevo os olhos para os montes, de onde me vir o socorro? O 
meu socorro vem do Senhor, que fez os Cus e a Terra"!
Era engraado como Deus parecia falar atravs daquele texto, 
particularmente ali, naquele lugar. Rodeado de montes. E aquela 
promessa era o meu consolo, a minha esperana. De que o socorro viria, 
estaria presente. O Senhor dos Cus e da Terra traria o socorro no 
momento exato!
Me acomodei melhor na cadeira de balano puxando o capuz para 
bem perto do rosto. O ventinho estava frio. Lembranas e mais 
lembranas foram vagueando diante dos meus olhos. E lembrei-me da 
cidade de So Paulo, onde nasci e cresci, aonde no se vem os montes 
que o Criador formou, antes somente montes de pedra e concreto. 
Quanta diferena...
Desde que Deus confirmara Sua Vontade em nos trazer quele 
local no muito distante da capital eu no cessava de olhar  volta 
contemplando a natureza. Era tudo to bonito, to, to bonito!
Verde, verde por todos os lados, flores, rvores, terra, cheiro 
perfumado de mato. E aquele sol todo que fazia tudo brilhar e ficar ainda 
mais lindo. Logo nos primeiros dias comentei com Eduardo que Deus 
estava ali cumprindo um antigo desejo do meu corao. O campo 
sempre me fascinou!
Em So Paulo, sol e calor em demasia s tornam o dia-a-dia mais 
duro e sofrido. Cedo ou tarde as pessoas acabam tendo que sair da 
frente do ar-condicionado para enfrentar a vida. E que dizer da chuva? 
Ela s deixava o trnsito horrivelmente congestionado, os bairros 
perifricos alagados e s tragdia atrs de tragdia restava daquele belo 
espetculo da natureza.
No que eu no gostasse de So Paulo, mesmo com todas as 
suas agruras. Longe de mim! Gostava,  verdade. A grande metrpole 
tambm tinha seus encantos.
Mas em nossa nova casa era diferente. At os temporais, to 
comuns naquela poca do ano, eram maravilhosos. As nuvens densas e 
cinzentas fechavam o horizonte e podia-se perceber a chuva caindo ao 
longe. E logo o vento mudava, soprava forte trazendo a gua que 
respingava na varanda, mas que mesmo assim no me fazia ficar dentro 
de casa.
A chuva era bela, o sol era belo, a vista era bela. Deus tinha sido 
bom em nos levar quele lugar, mesmo contrariando todas as nossas 
probabilidades e possibilidades imediatas.
A deciso de nos mudarmos foi tomada completamente do dia 
para a noite.
No estvamos satisfeitos com o apartamento que alugamos para 
iniciar nossa vida de casados e apesar de, humanamente falando, no 
estarmos em condies de fazer a mudana, o Senhor havia 
providenciado tudo de uma forma rpida e perfeita. Pedimos um sinal 
claro da parte Dele antes de efetivarmos o contrato. E, frente  resposta 
positiva, realmente nos aventuramos a abandonar a cidade.
"Abandonar" tambm  modo de dizer: nossa vida continuava l, 
pelo menos trs vezes por semana amos a So Paulo. Mas agora 
tnhamos um novo refgio para chamar de lar. Alis, esse  um termo 
que nunca se encaixou muito bem no antigo apartamento.
Enfim... tudo estava bom, estava timo! Aquela casa era tudo o 
que estvamos precisando e querendo.
Sorri involuntariamente e lembrei-me do dia da mudana: eu 
estava to exausta que quando o caminho terminou de despejar as 
nossas coisas e ameaava uma garoinha leve, senti um n entupindo a 
garganta ao ver toda aquela baguna espalhada nos quatro cantos da 
enorme casa. No pude reter algumas lgrimas. Minha vontade, naquele 
momento, era voltar ao Shopping e a tudo o que eu conhecia.
Como explicar aquele sentimento estranho e contraditrio? Eu 
queria sair de So Paulo... mas agora parecia to estranho estar ali. To 
vazio! To cheio de inseguranas! No fundo eu j no conseguia 
reconhecer a minha vida, e isso nada tinha a ver com o fato de estar 
casada. Nem era culpa de Eduardo. Se ao menos nossa realidade 
pudesse ser classificada como "normal".
Mas nossos dias eram tudo, menos "normais".
Eduardo foi compreensivo e carinhoso diante das minhas lgrimas 
de desabafo e temor. Me abraou e riu um pouco, procurando 
descontrair a tenso, fazendo-me perceber que estvamos em nosso lar 
e tudo ia ficar bem. No sou de chorar, realmente no sou.  preciso 
uma boa dose de mal estar para me derrubar, mas aquela mudana to 
radical parecia ser apenas uma gotinha a mais de gua naquele copo j 
prestes a transbordar.
No entanto, aquele estado de nimo no durou muito. Me senti 
melhor logo, e tratamos de arrumar o mnimo de coisas para que 
pudssemos passar a noite. Ela chegou devagar por causa do horrio de 
vero. E, j noite fechada, depois de tomarmos um lanche, sentados na 
sala nos quedamos a escutar o silncio. Era bom demais! Nem televiso 
ns tnhamos ainda por falta de verba para comprar uma antena 
parablica.
A sala era enorme, de cho de ardsia verde. Nas paredes 
brancas havia dois janeles e uma porta de vidro de correr bem no meio, 
que dava para o jardim. De onde eu estava sentada, de costas para um 
dos janeles, podia ver parte da cozinha ampla, clara. Era gostosa 
aquela sensao de espao, os poucos mveis que tnhamos ficavam 
espalhados aqui e ali. Observei o meu piano encostado na parede perto 
da porta. Tinha sido presente do meu pai. Era quase estranho v-lo
ali, como se no fizesse parte daquele lugar.
Ficamos conversando e escutando o barulhinho dos grilos. Que 
barulhinho delicioso!
 Realmente... este lugar no tem um pingo de segurana!  
comentamos um com o outro l pelas tantas.
De fato. No havia grade alguma nas janelas!
 Melhor a gente no encucar com isso...
Apesar disso, antes de irmos deitar, Eduardo percorreu cada 
cmodo trancando portas e passando cadeados nas janelas. Tambm 
no parecia seguro deixar a porta de vidro que dava para o jardim aberta 
 noite. Olhei pela janela da sala e contemplei a alameda de terra batida 
e as casas silenciosas da vizinhana banhadas pela fraca luz da rua. Era 
um pouco assustador.
Nunca fui apavorada. Mas tambm nunca fui perseguida como 
acontecia agora. Agora era diferente. Havia pesadas ameaas que 
pairavam sobre as nossas cabeas..........
O dia seguinte espantou os fantasmas, com seu sol forte e 
luminoso. E o desconforto durou apenas mais uma ou duas noites. Eu 
continuava sorrindo sem querer ao recordar-me daqueles primeiros dias.
Ento comeamos a notar que o vizinho ao lado sequer trancava o 
porto, fosse dia ou fosse noite. Assim, aos poucos, Eduardo foi largando 
mo de passar cadeado em tudo, e eu aproveitava o ar fresco da noite 
enrolada no meu bluso azul, apelidado de "carneiro" porque era todo 
felpudo. Sentada no cho da varanda (ainda no tnhamos a cadeira de 
balano), eu apenas deixava o tempo passar, olhando a noite, olhando o 
cu, sentindo o cheiro perfumado daquele lugar, escutando os 
barulhinhos que s a noite no campo produz. Ficava ali durante muito 
tempo... s pensando... orando um pouco. Vigiando nossos gatinhos at 
que se acostumassem bem com o novo local.
Eu precisava de paz. Procurava por ela. Foi ali que comecei a 
experimentar um pouco daquilo que eu tanto ansiava.
Havia paz... e ainda que fosse aquela paz estranha no meio da 
tribulao, no meio da guerra, no meio do confronto... era paz. Paz no 
meio daquela sensao de expectativa.
O clmax estava prximo. O dia marcado. Dia nove de maro. O 
aniversrio de 33 anos de Eduardo estava s portas. Menos de vinte dias 
depois do nosso primeiro aniversrio de casamento.
Haveria um confronto de vida ou morte. A honra do prncipe das 
Trevas estava em jogo. Ele haveria de fazer tudo o que fosse possvel 
para cumprir o seu decreto e a sua maldio sobre as nossas 
vidas.............................
A lua foi encoberta quase completamente pelas nuvens e eu 
olhava para ela fixamente, sempre refletindo:
"Deus nos preparou para estes dias, tenho certeza disso... Ele nos 
forjou ao longo dos anos para que estivssemos prontos justamente para 
este tempo de agora. Prontos para a tempestade! Seja l o que for que 
v acontecer... vai acontecer porque Deus permitir. E porque estamos 
preparados.  isso. Deus conta conosco! Temos que estar firmes".
E embora no nos sentssemos to preparados assim, o esforo 
maior estava em nos apegarmos s promessas do Senhor.
Haveria confronto. Mas o Senhor dos Exrcitos iria adiante de ns!
...........................................................................................................
..
* * * *
Esta histria comeou bem antes. Mais de cinco anos 
distanciavam esta noite de lua cheia repleta de lembranas do dia em 
que conheci Eduardo.
Esta  a histria que vamos contar agora.
Ela fala sobre como Deus trabalhou para transformar duas 
pessoas. Um rapaz sado das profundezas do Satanismo e uma moa 
perfeitamente comum. Ele nos chamou, e fez com que atravessssemos 
um longo deserto. Nessa travessia, o inimigo chegou muito perto, com 
toda sorte de artimanhas, seduzindo algumas vezes, com muito furor em 
outras. Foi tambm neste deserto que o carter do Criador foi sendo 
revelado, dia a dia, num longo perodo de treinamento, que ainda no 
terminou.
Mas hoje podemos dizer, como o Salmista: "Foi-me bom ter 
passado pela aflio, porque antes andava errado. Mas agora guardo os 
Teus preceitos".
Deus est recrutando muitos. Da mesma forma como Ele nos 
recrutou, outros tantos esto sendo chamados. Haver um 
remanescente. Um grupo de soldados valentes, capazes de enfrentar a 
Guerra dos ltimos dias. Guerra contra Principados e Potestades, contra 
os verdadeiros adoradores do diabo.
Os Filhos do Fogo.
Sim, ser uma guerra sangrenta, sem trguas, sem clemncia. 
Para isso, o Senhor est levantando o Seu Exrcito!
Um Exrcito de homens e mulheres que conhecem 
verdadeiramente o Poderoso El-Shaddai, o Grande Eu Sou, o Deus 
acima de todos os Deuses; e O obedecem.
Que esto dispostos a pagar o preo que lhes for proposto.
E que sero chamados Guerreiros da Luz!
* * * *
Mas  voltemos ao princpio de nossa histria. Seria natural que eu 
quisesse adiantar o mais depressa possvel este relato, contar logo o que 
aconteceu depois que conheci Eduardo. Mas no seria o mais sbio no 
momento.  preciso que uma pequena parte do meu perfil humano seja 
colocado antes, um pouquinho da minha histria de vida. As razes da 
personalidade so to longnquas, no  mesmo? O modo de ser e agir 
vem das mais remotas fases da existncia.
Portanto, rapidamente eu terei que recuar ainda um pouco mais no 
calendrio, voltar anos e anos, dar uma olhadinha neles, observar alguns 
detalhes, tirar algumas concluses. O bom personagem de uma histria 
no  aquele que aparece e simplesmente acontece! Mas aquele cujas 
nuanas da alma tornam-se to desnudas, to transparentes, e cujos 
pensamentos e sentimentos so descortinados de tal modo que aqueles 
que lem quase podem adivinhar as suas aes e reaes. Porque esta 
alma tornou-se conhecida, quase explcita aos olhos de quem v.
Se tal descrio de carter tem valor num personagem de verdade, 
muito mais importante num ser humano que est fazendo as vezes de 
"personagem". Pois assim  que . Isabela acabou sendo uma pessoa 
que virou personagem desta histria, assim como Eduardo. Mas Isabela 
sente, como qualquer pessoa sente, alegria e dor. Ela gostaria de poder 
explicar o por que da alegria e da dor. Explicar quem ela . E isso leva 
um pouco de tempo.
Vamos a isso, portanto! Embora seja difcil para mim falar sobre 
mim... no h outra sada!
O desenrolar da minha vida foi muito diferente da vida de Eduardo. 
Mas acho que ns comeamos mais ou menos da mesma maneira. Ou 
seja: brincando. E, ao brincar, fomos descobrindo quem ns ramos e do 
que gostvamos.
Minha infncia foi muito boa, pelo que me recordo dela. Durante a 
semana meus pais trabalhavam, minha me era biloga, meu pai um 
funcionrio pblico que atuou em diversas reas dentro da Educao e 
do Esporte. Eu e meu irmo Marco ficvamos na escolinha pr-primria 
meio perodo. No outro perodo era hora de brincar em casa. A gente 
fazia praticamente tudo o que se podia fazer num quintal espaoso de 
uma casa de classe mdia paulistana. Correr, gritar, saracotear. Quase 
tudo era permitido. Em casa. Jamais na rua.
Geralmente ns nos dvamos muito bem. Eu era mais velha quase 
dois anos. Talvez por isso, vez por outra eu acabasse "judiando" um 
pouco dele, como quase todos os irmos mais velhos. Marco costumava 
acreditar que eu era muito boazinha. Sempre.
Mas nem sempre eu era to boazinha assim, e vivia inventando 
um jeito qualquer de me impor e levar vantagem sobre ele, que era mais 
plcido e mais inocente. Mas no fazia muitas maldades! No restante do 
tempo, ns aproveitvamos a companhia um do outro e brincvamos 
juntos. Sempre supervisionados por uma bab que fazia de tudo para pr 
ordem no pedao.
Nos finais de semana, amos brincar no Parque do Ibirapuera. 
Todos os domingos a gente saa para passear na companhia dos meus 
pais, que consideravam sagrado aquele tempo em famlia. Depois ns 
almovamos fora. Eu e meu irmo Marco dvamos palpite sobre qual 
restaurante seria melhor. Churrasco, comida chinesa, comida italiana, 
comida rabe eram as sugestes de sempre.
Nas frias recordo-me de longas viagens por todo o Brasil, de 
Gramado a Manaus e Ilha do Maraj, de Recife a Braslia. Muitos so os 
slides e fotografias desta poca que, para mim, so a recordao de um 
tempo perfeito.
Crescemos um pouco. Mudamos da "casa velha" para outra no 
to querida, mas tambm boa e espaosa. E comecei o primeiro ano da 
escola primria.
Quem me levou  escola no primeiro dia de aula foi meu pai, 
depois que minha me me fez entender porque eu no podia mais 
continuar na escolinha antiga. Ela s ia at o pr-primrio.
Cheguei um pouco tarde e os alunos que faziam parte da minha 
classe j estavam todos sentados nas suas carteiras. E no havia 
nenhuma para mim.
Ento meu pai foi, ele mesmo, buscar uma carteira em outra sala. 
Recordo-me como se fosse hoje, ele entrou com a pequena mesa nos 
braos e me ajeitou na primeira fila. Claro, aquele era meu pai! O meu 
heri, o meu dolo, o meu maior referencial. A pessoa mais importante.
Quando ele acenou, se despedindo, fiquei ali sozinha sem medo. 
Algumas crianas choravam todos os dias, mas eu sabia que ia ficar s 
apenas por um tempo. Fiz amizades com as meninas, me enturmei. Eu 
gostava da escola.
Quando eu estava na terceira srie, o Marco entrou na primeira. A 
partir da eu sempre procurava cuidar dele ao meu modo. E o defendia 
em eventuais brigas com os meninos, sempre muito fiel neste aspecto: 
ningum encostava a mo no meu irmozinho na minha frente.
Certa ocasio, no muito depois dessa poca, uma vez meu pai 
falou-me algo que guardei comigo pelo resto da vida:
 Fique sempre do lado do seu irmo. Ele  da sua famlia, o seu 
nico irmo. Mesmo que ele esteja errado, fique do lado dele. Em casa 
vocs acertam os erros.
Sim, certamente eu faria isso. Fosse a situao que fosse. Aprendi 
desde cedo que famlia  famlia, e o lao que une os membros de uma 
mesma casa  diferente de qualquer outra ligao.  uma aliana que 
deve, pelo menos em tese, ser indissolvel. Eu gostaria que fosse 
sempre assim...
Sei que meus pais primaram para que nosso lar fosse um refgio, 
no sentido literal da palavra. Procuraram criar ali um recanto de 
aconchego, compreenso, incentivo, amor. Assim foi durante a nossa 
infncia!
Como j disse, cresci dentro dos quadrantes da nossa casa, no 
nos era permitido brincar na rua. Mas as crianas da vizinhana podiam 
vir brincar no nosso quintal. O que aconteceu bastante nessa poca. Ns 
tnhamos bastante espao e muita alegria. Eram brincadeiras de todos os 
tipos: correrias de bicicleta, patins, bolas de vlei e futebol, uma balana 
para balanar, uma casinha de boneca para entrar dentro. E uma 
gritaria...
 Elefante colorido!  Que cor?!  Azul!!
 HHHHH!!!!!!!!
Correria. Gritos. Risadas. Haja ouvidos!
Quando criana, eu era irrequieta, inventadora de moda, arteira, 
cheia de energia, de idias, de criatividade. A alegria era minha maior 
marca. E o mais importante de tudo... inventar, inventar, inventar!
Sempre muito moleca, meus passatempos preferidos eram as 
brincadeiras de correr. Pega-pega, esconde-esconde, polcia e ladro, 
elefante colorido. No gostava de trocar roupinhas de bonecas, brincar 
de faz-de-conta e de fazer comidinha. Eu gostava de subirem muros... 
em rvores... em lajes... no telhado... e de desmontar as grandes 
almofadas do sof para construir casinhas e entrar dentro.
No raro meus pais chegavam e davam com a sala de pernas para 
o ar, os sofs depenados e ns dois embaixo de uma enorme casinha de 
almofades. Uma vez fizemos uma casinha com uma mesa empilhada 
sobre quatro banquetas, no quintal, e as paredes foram feitas de tbuas 
e toalhas presas em cima por tijolos mal posicionados. Se tudo aquilo 
desabasse sobre as nossas cabeas talvez no sobrasse muita coisa!
Em suma, estava sempre aprontando alguma, correndo, 
descabelada, descala, rindo, importunando, amolando, assobiando, 
gritando. Marco no ficava atrs, nessa idade ele queria me imitar em 
tudo. Eu era um referencial para ele.
Realmente minha infncia foi feliz. E acho que meus pais foram at 
que muito condescendentes conosco porque, afinal... estvamos em So 
Paulo e no  fcil criar filhos numa grande metrpole. E, apesar de no 
sair na rua, nunca me senti presa nem tolhida. Meu pai dizia que a rua 
no ensinava nada de bom. No que ele estava coberto de razo. Ou a 
gente brincava em casa, ou ia brincar na casa de algum.
Na verdade, nunca nos faltou companhia.
Meu pai tinha montado uma pequena escolinha de xadrez, por 
puro hobbie, e dava aulas em casa,  noite, para as crianas do pedao. 
As mesmas que vinham brincar de tarde voltavam  noite, de banho 
tomado e cabelinhos assentados. Nos idos de antigamente, meu pai 
tinha sido responsvel pela implantao do ensino de xadrez nas escolas 
pblicas de uma cidade do interior.
De resto,  medida que crescamos, eram muitas as oportunidades 
oferecidas a ns. Afinal, era preciso direcionar melhor a nossa energia de 
uma forma criativa, visando resultados mais proveitosos do que apenas 
uma casa de pernas para o ar. Foi aberto um leque de opes, e fiz de 
tudo um pouco, desde artes plsticas at diversos tipos de esportes. Mas 
tanto eu quanto Marco revelaramos em breve uma forte inclinao para 
a msica. Meus pais investiriam muito tempo e dinheiro nesse assunto.
Eu costumava escutar dos meus pais uma sincera explicao para 
tais investimentos. Eles diziam no ter grandes coisas para nos deixar de 
herana. Por esse motivo, nossa herana seria a melhor educao que 
fosse possvel a eles nos dar. Fomos muito estimulados em diversas 
reas, at que as habilidades natas comearam a aparecer. Ns dois 
ramos um tanto precoces, gostvamos de 
assuntos que normalmente as crianas no tm interesse. O fato 
de sermos caseiros ajudava. Aprendemos a ser caseiros, nossa vida era 
ali mesmo, e certamente que no era ruim estar em casa.
Alguns percalos familiares desta poca, problemas de 
relacionamento entre meus pais, aparentemente, acabaram sendo 
contornados e a vida continuou como dantes.
A adolescncia no me tirou a paixo pelas invencionices, pela 
brincadeira, pelo riso... ainda que tudo isso desse lugar, pouco a pouco, 
por outros aspectos do comportamento. Normalmente este  um 
processo natural, a gente vai crescendo, amadurecendo, e se 
descobrindo. A personalidade vai sendo delineada. s vezes h alguns 
acidentes de percurso que transtornam um pouco a formao do carter. 
Quer dizer, nem tudo que  puramente gentico sobrevive e se 
manifesta. O meio externo tambm tem sua participao.
Comigo no foi diferente...
Alguns problemas na escola, quando eu tinha 12 para 13 anos, me 
impactaram bastante negativamente pela primeira vez. Eu costumava ser 
muito faladeira e espevitada, engraada, e isso acabava arrebanhando 
sempre comigo um grupinho disposto a perturbar a aula. Foi assim 
durante todo o primrio, foi assim na quinta srie, na sexta...
Ento, quando amos comear a stima srie fui arrancada sem d 
da minha turma e colocada sozinha na outra classe. Aquilo foi terrvel! 
Todos as minhas inseparveis amigas ficaram longe de mim. E as 
inseparveis "Mosqueteiras" perderam uma grande aliada. Os 
professores e a direo da escola tinham achado por bem cortar o mal 
pela raiz e, segundo eles, separar a lder do motim sem dvida traria paz 
e sossego a todos.
Oh! Mas aquilo no me caiu bem! Fosse apenas a separao e 
talvez as conseqncias no fossem to ruins, mas acontece que a outra 
turma era tambm o reduto dos repetentes. E um grupo desses 
moleques achou de pegar no meu p. Foi muito difcil. Creio que aqueles 
meninos me queriam lambendo os seus ps, exatamente como a maioria 
das meninas de treze anos. Mas eu no ia com a cara deles, eram o que 
se poderia chamar de "barra meio pesada". E penso que, talvez at 
mesmo inconscientemente, eles tenham achado que deviam me dobrar.
At hoje penso porque tanta implicncia, e porque tanta maldade 
da parte deles. Eu nunca tinha feito nada contra ningum, por que no 
me deixavam em paz?
Juntando tudo, e o fato de estar em fase muito crtica do 
crescimento, foi a receita certa para me afetar bastante. O processo de 
introspeco durou dois anos. Foi lento e gradativo, ningum percebeu 
de pronto, nem eu mesma. Mas ao final do primeiro grau eu j estava 
bem diferente, e tinha tambm perdido boa parte de minha 
espontaneidade. Um dos traos de carter mais interessantes da minha 
pessoa. Nunca mais fui a mesma.
Quando meus pais comearam a dar pelo ocorrido, ainda no final 
da stima srie, algumas transformaes j tinham tido lugar. 
Naturalmente no posso atribuir toda a mudana aos problemas na 
escola, mas tambm fica muito difcil estabelecer a linha limite. E 
algumas vezes me ponho a pensar:
"E se nada daquilo tivesse acontecido? E se eu tivesse comeado 
a minha adolescncia normalmente, sentindo-me plenamente aceita 
como tinha sido at ento? E se eu no tivesse cruzado com aqueles 
meninos que diziam coisas horrveis, por vezes at obscenas, me 
incomodavam o tempo todo... ser que as razes da minha auto-estima 
teriam sido outras? Ser que eu olharia para o espelho e veria ali uma 
outra Isabela?!"
Eu me espantava porque agora conseguia passar a manh toda de 
boca fechada na sala de aula. Se aparecesse pouco, pensava eu, aquela 
turma repararia menos em mim e me deixaria em paz. Mas apesar 
daquele ostracismo auto-infligido, at mesmo meu pai teve que intervir, a 
seu modo, para pr ordem na situao. Uma vez que a Diretora da 
escola no tinha pulso muito firme.
Fui deixada quieta depois que a situao foi colocada em pratos 
limpos pelo mtodo mais eficaz de todos. Pelo medo. Algumas famlias 
daqueles meninos, os piores, foram procuradas pelo meu pai. Ele era 
muito enrgico e firme. E, diante de ameaas muito srias e bem claras, 
os pais deles acharam por bem manter seus filhos afastados de mim. E 
foram transferidos de escola. Aquilo de certa forma serviu de exemplo 
aos demais, e ningum se atreveu a passar novamente de pato a ganso 
comigo.
Meu pai me defendeu. Mas eu j no era a mesma Isabela de 
antes.
Fiz outras amigas, deixei as antigas. Me adaptei novamente. Um 
pouco da espontaneidade antiga voltou, mas aquela marca de rejeio 
ficou fincada muito fundo na minha alma. No me dei conta to cedo do 
quanto tinha sido ferida no corao, do quanto tinha olhado para mim 
mesma e me achado diferente, inadequada... e muito pior do que os 
demais.
Muito menos eu podia supor que no tinha sido por acaso, como 
veria muito, muito tempo depois.
Apesar disso, boa parte do que seria a minha personalidade no 
futuro estava formada. Eu era naturalmente estudiosa, por vezes 
pesquisava sozinha assuntos que me interessavam. Na escola, era 
quase sempre responsvel, mesmo sem muita cobrana. Observadora, 
mas dinmica na hora de pr a mo na massa. Firme, sem ser arrogante. 
Sonhadora, sim, mas sem tirar demais os ps no cho. Meu 
temperamento era fcil de lidar, mas sempre fui muito certa dos meus 
gostos pessoais. Aos poucos eu me tornaria algum de temperamento 
bastante forte. Forte at demais, e isso me atrapalharia algumas vezes.
Problemas  parte, nesta poca minha famlia tinha recm 
adquirido uma casa na praia, um sonho muito antigo. Nos primeiros anos 
foi muito bom, um paraso, amos para l quase todos os finais de 
semana, todas as frias; nas frias alguns primos e tios iam tambm.
E tudo continuava sendo, sempre, muito familiar. Os adultos 
descansavam. Ns, os adolescentes, fazamos longas jornadas de 
bicicleta, cavamos siris com o picar, pegvamos mariscos, 
aproveitvamos o sol e a praia, as noites iluminadas pela lua, os sorvetes 
(a nica sorveteria do Balnerio era tima!), a mesa de pingue-pongue, 
os passeios com a jangada... e eu adorava comprar tranqueiras na 
feirinha de artesanato. Pintar a cerca e caiar de branco os ps dos 
coqueiros era tambm um entretenimento no qual eu e Marco nos 
esmervamos.
E a Flicka! Que no parava de rebolar na areia, sempre latindo 
para todo mundo, correndo para pegar a nossa bola de tnis! E 
mergulhava no meio das ondas para trazer de volta seu basto de 
madeira. Quando a gente a deixava sozinha em casa era batata que no 
demorava muito e l vinha ela, correndo a milho com as orelhinhas para 
trs, louca para nos encontrar. Ela era muito esperta, s faltava falar, 
sabia exatamente onde ns estvamos na praia, por mais gente que 
tivesse  volta. Ela adorava entrar na gua e brincar com a gente.....ah! 
D saudades desse tempo to bom!
Meu pai estava sempre por ali capinando o jardim, com o seu 
chapelo de palha enfiado na careca, e no finalzinho da tarde s vezes ia 
 praia, quando o sol estava mais fraco. Ou ento, muito de manhzinha. 
Ele tinha a pele e os olhos muito claros e no podia de jeito nenhum com 
o sol. Alis, ele nem curtia muito essa histria de praia, mas a aquisio 
da casa foi para satisfazer a famlia. Antes do almoo tinha uma 
caipirinha de vez em quando, a casquinha de siri feita pela mame, ou 
mariscos bem temperados.
Era assim que era: sem arruaa, sem baguna, sem exageros. 
Apenas gostoso, divertido, ameno. Verdade que a vizinha incomodava 
bastante com a sua msica alta. Este foi um dos motivos que fizeram 
com que meu pai, almejando um lugar de descanso, se desencantasse 
com a casa. Outro problema foram os assaltos, to freqentes naquele 
lugar que s ficava cheio em poca de temporada. Aos poucos fomos 
deixando de ir tanto para l.
Mudei de Colgio aps um seleto "Vestibulinho" e comecei o 
primeiro ano do Colegial em escola particular. Era um dos melhores 
Colgios de So Paulo. Larguei a antiga rotina da escola que freqentei 
durante oito anos, todo o primeiro grau, e que tanto mal me tinha feito 
nos ltimos dois anos.
A mudana me fez bem. Agora era muito diferente, as pessoas 
eram diferentes e o estudo exigia muito mais. Meu dia-a-dia era a escola, 
as provas, o estudo de piano, o esporte, as amigas. Nos finais de 
semana normalmente no saa muito, estudava, lia, escrevia, desenhava. 
Ou ento a gente ia para a praia. Nessa, poca j no havia muita 
disposio dos meus pais em sair todos os finais de semana, nem era 
necessrio. A semana de todos j era corrida o suficiente.
Mas a adolescncia  uma fase difcil e cheia de contradies. Por 
mais que eu amasse meus pais, uma hora a gente comea a mudar. 
Comea a divergir, a defender
ideais, a querer ver a vida pelo prprio prisma e no somente pelo 
prisma deles. At ento eu tinha aceitado que a vida era o que era 
porque meus pais diziam que assim era. Mas comecei a ver com meus 
prprios olhos, comecei a enxergar simplesmente... diferente! No 
necessariamente pior ou melhor, apenas diferente. Comecei a ver o 
mundo com a lente dos meus olhos, e com a minha intuio, e com a 
minha personalidade, e atravs dos meus pensamentos.
Se por um lado eu era uma pessoa nica, criada de uma forma 
particular, por outro no era diferente de ningum: queria poder sair s 
vezes, chegar mais tarde, estar em turma, conhecer gente. Ter um 
namorado. E a comearam os problemas.

Quando saa, saa chateada, ou preocupada. Preocupada se ia 
haver, ou no, bronca depois. Por mais que avisasse, pedisse com 
antecedncia, e procurasse aceitar as imposies de horrios, nem 
sempre havia muita boa vontade. Compreendo que era uma questo de 
proteo e cuidado. Mas... parece que no estava havendo meio-termo.
Enfim, esse meu incio de "rebeldia"  que nem chegou a ser uma 
rebeldia propriamente dita  acabou logo. Primeiro porque normalmente 
eu acabava concordando com meus pais, no queria magoar ningum. 
Nunca foi minha inteno magoar ningum. E depois porque logo, aos 16 
anos, conheci Jesus. Da, minha nova vida com Deus ajudou, de certa 
forma, a coibir alguns tipos de comportamentos. Dentre eles aquela 
pseudo-rebeldia.
Embora meus pais tivessem aceitado Jesus na mesma poca, por 
causa de um mal entendido logo no primeiro Culto, nunca mais pisaram 
dentro de Igreja Protestante. Como novos convertidos que eram, 
compreendo que ficava difcil digerir certas coisas.
Ento eu ia sozinha, com Marco.
E eles estavam satisfeitos que tivssemos encontrado um caminho 
novo e, certamente, bom. Por isso permitiam que fssemos aos Cultos e 
acampamentos evanglicos sem problemas. Alm do que os programas 
da Igreja sempre terminavam cedo mesmo. Ento tudo se acertou e para 
mim estava bem.
Comeou um perodo ao qual novamente eu me adaptei, ainda 
que minha essncia alegre e criativa continuasse a mesma.
Todos os dias de manh meu pai me levava cedinho para o 
Colgio, eu tinha novas amigas inseparveis, e outros interesses. Estava 
de olho em um lindo menino da classe, curtia um amor platnico e 
infantil. Eu era muito romntica, sonhadora, sensvel, no via maldade 
nem imperfeies no amor, que era sincero e cheio de idealismos.
Fiquei de olho no menino. Mas s. Nunca deu em nada. Embora 
durante o terceiro ano do Colegial eu tivesse armado mil e uma 
"armadilhas" para fisg-lo, ele no caiu em nenhuma. Ou melhor, quase 
nenhuma! Ele danou comigo no Baile de Formatura. S comigo! Minhas 
amigas achavam-me super corajosa por tentar to ardentemente 
conquistar o inconquistvel. Realmente eu era muito fiel quele 
sentimento! Meus olhos e meu corao s tinham espao para ele.
At apareceram outros pretendentes, mas eles no despertaram o 
meu corao, embora fossem Cristos tambm. Mais de um pretendente, 
por sinal. Mas eu queria o menino da escola, no havia jeito.
"Que pena que no deu certo...", pensei comigo mesma por muito 
tempo.
Mas, coraes apaixonados  parte, nessa altura havia muito mais 
em que pensar. J tinha feito um pouco de vrias coisas: ginstica 
olmpica, natao e saltos ornamentais. Agora, com 16 anos, estava na 
fase do tae-kwon-do. Continuava levando o piano a srio e o Vestibular 
estava chegando. Isso quer dizer que eu tinha que estudar, de fato.
Meus 17 anos me pegaram em cheio levando uma vida bastante 
regrada. Mas no bitolada. Eu estudava o suficiente, sem exageros, sem 
achar que a vida era somente aquilo. Sempre detestei gente bitolada.
No entanto, as presses para fazer a escolha de uma futura 
carreira profissional comearam a perturbar minha alma. E comecei a 
impacientar-me em relao ao que prestaria no Vestibular. Eu tinha feito 
um "Teste de Interesses" no Colgio e o resultado no me surpreendeu. 
Estourou l em cima na rea de Msica, Artes e Literatura. A seguir, com 
pontuao no to surpreendente, veio a rea de Cincias Biolgicas.
Bem.... interesse  interesse, e a gente at pode ter! Mas qual 
carreira poderia encaixar-se dentro daquele perfil? Conversei com meus 
pais, procurei pensar bastante, orientar-me o melhor possvel. Por sinal 
era o que todos estavam fazendo no Colgio. Era um momento delicado 
e importantssimo das nossas vidas.
At uma certa altura de minha vida eu tivera pretenses de seguir 
a carreira de Msica. Mas um estudo deficiente do instrumento nos 
primeiros anos fez com que eu perdesse um tempo precioso na minha 
vida de musicista. E embora alguns professores garantissem que eu era 
talentosa, quando se fala em carreira profissional de Msica Erudita a 
coisa no  assim to simples. E o tempo da infncia  fundamental. 
Uma vez pouco aproveitado, isso pode custar caro. E, para mim, custou 
mesmo. Em se tratando de msica no profissional, cheguei mesmo a 
tocar bem. Mas isso nunca me serviu para nada.
Eu sabia que no estava apta a prestar um Vestibular 
imediatamente na rea de piano. Tambm no era vantajoso esperar. 
Alis, eu j no estava to certa assim que esse era o meu caminho.
Que me restava?
Bem, eu amava as Artes em geral! Alm da msica, fascinava-me 
especialmente a parte de Teatro e tudo o que se referia s Artes 
Cnicas. Eu gostaria muito de ter estudado algo nessa rea, no 
necessariamente eu me tornaria uma atriz a mais nessa vida... mas, 
quem sabe... roteirista, diretora, sei l...! Deveria haver algum campo 
para atuar! Bom... mas isso estava absolutamente fora de cogitao. 
Meu pai j me tinha feito perceber que essa tara teatral no era do seu 
agrado, em hiptese alguma. No adiantava querer bater de frente com 
ele outra vez e insistir naquilo.
A primeira vez em que nos pegamos nesta divergncia eu tinha 14 
anos e fazia Teatro na escola. Embora a princpio ele tivesse deixado, 
depois comeou a no gostar e foi uma poca de muita confuso em 
casa. No adianta querer discutir hoje quem tinha razo. Mas eu nunca 
fiz nada demais, nunca fiz nada to terrvel... no me drogava, no era 
leviana... dentro do possvel procurava ser o mais obediente que podia. 
Ele tambm poderia ter sido mais flexvel!
Ser adolescente no  fcil. Tambm no  fcil ser pai de 
adolescente! Mas o que se podia depreender disto tudo?
Em suma: eu sabia que aquela paixo tinha que ser sufocada. Meu 
pai tinha trabalhado um tempo em contato com grupos de Teatro quando 
estava mais ligado ao ensino do xadrez nas redes de ensino. E era 
categrico em afirmar que tudo de ruim vinha de dentro desses grupos. 
Ele preferia estar morto a me ver envolvida com algo assim, tinha 
verdadeira ojeriza pelo fato de que eu pudesse ser atriz.
Certamente no poderia ir em frente, ainda que houvesse muito a 
ser feito na rea das Artes Cnicas. Eu teria adorado ser, no atriz, mas 
diretora! J imaginou? Desde criana que eu montava peas em casa, 
tinha at escrito uma pea na poca em que participava do grupo de 
Teatro na escola. Mas, enfim... nem pensar! Sequer cogitei naquilo por 
mais do que alguns minutos. No seria aceita de qualquer forma.
Ento continuei pensando que rumo tomar na vida.
De resto... e a Literatura? Tambm ela no me oferecia grandes 
oportunidades em termos de profisso, pelo que conclu logo. Engraado 
pensar nisso, mas a primeira coisa que eu desejei "ser quando crescer" 
foi isso: escritora. Desde que a caneta me caiu nas mos, logo depois de 
alfabetizada, no parei mais de escrever. O mais interessante  que eu 
me empenhava naquilo de uma forma totalmente natural, sem pensar 
porque o fazia. Apenas escrevia. Por pura diverso! Para mim escrever 
era isso: diverso. Ainda criana ganhei um concurso de Literatura na 
escola, e recebi junto uma meno honrosa porque a minha histria  A 
Floresta Encantada  ficou encaixada dentro da categoria de "Livro", e 
no apenas "Conto".
Depois, ao longo dos anos, acabei por escrever mais trs livros  
trs romances  mas nunca os mostrei a ningum. No sabia se aquilo 
poderia ter ou no algum valor literrio de fato, mas a verdade  que 
aqueles montes e montes de folhas rabiscadas terminaram empurradas 
cuidadosamente para o fundo da gaveta. Alm destes, os vrios volumes 
de dirios ficavam guardados sigilosamente na escrivaninha. Era a 
histria da minha vida. Isto tambm contribuiu para aumentar o gosto e a 
destreza pela escrita, mas dentro daquele mundo certamente ningum 
teria entrada.
E a chavinha da gaveta jazia pendurada atrs do quadro de 
gatinhos, ano aps ano.
Ao longo da minha vida acadmica os professores costumavam 
elogiar minhas redaes, especialmente durante o Cursinho. Eu estava 
acostumada com os elogios, mas o que eu poderia fazer com isso, 
afinal? Escrever bem me serviria para alguma coisa? Quem sabe, 
talvez... Jornalismo??? Ora, ora.... acho que meu problema era gostar de 
muitas coisas ao mesmo tempo. E, pior do que isso, gostar de coisas que 
no me garantiriam nenhuma carreira promissora!!
Percebi logo que interesse  interesse, vocao  vocao... e 
profisso  profisso. Eu tinha que optar por algo que me garantisse a 
independncia e o sossego profissional depois. Meu pai vivia dizendo 
que seria muito bom se eu pudesse abraar uma carreira liberal, 
autnoma. Ele tinha razo, eu sabia. E estava falando com conhecimento 
de causa porque ele mesmo no era subalterno de ningum, antes 
aquele que dava as ordens, que tinha poder para resolver as coisas a 
seu modo.
Se eu fosse levar em conta apenas minha alegria e facilidade em 
criar coisas novas, o ideal teria sido mesmo partir para a rea de 
Propaganda e Marketing, Publicidade... mas naquela poca, tanto 
Jornalismo como Propaganda simplesmente caram no esquecimento. 
Nem me pergunte por qu. Talvez tenha sido por falta de informao. 
Talvez tenha sido um percalo do destino.
"Mas como?", vocs ho de me perguntar. "Se voc estava 
justamente procurando por isso?".
Sim, eu estava. Se fosse hoje, no teria dvidas quanto a seguir 
este rumo. Mas as informaes no chegaram de maneira imparcial 
naquela poca. Elas j vieram "viciadas", por assim dizer, porque eu fiz 
um terceiro ano voltado para Cincias Biolgicas em decorrncia do teste 
de interesses. E ali, 80% dos alunos ia fazer Medicina. Quase no havia 
informao despretensiosa e interessante sobre outros cursos, 
informao real. Durante o ano todo eu ouvi falar sobre a rea de Sade 
como sendo o nico caminho possvel.
Naquele ano havia apenas uma nica turma voltada para a rea de 
Humanas. Mas ela era visivelmente discriminada pelos demais, tanto os 
que faziam curso de Exatas e Biolgicas, quanto os das classes 
Unificadas. Eles eram apelidados nos bastidores de "Elite do Lixo", uma 
maldosa meno ao fato de pertencerem a um Colgio de elite mas 
estarem dispostos a se dedicar a carreiras "pouco nobres".
Tinha sido criado um rtulo, um esteretipo... um preconceito! Hoje 
percebo que isso pesou muito mal na minha prpria escolha.
Por outro lado, a opinio do meu pai contava muito. Por sinal, no 
tinha mais nada nesta vida que contasse tanto. A aprovao dele era 
tudo. Comecei a ver como iria resolver aquela parada. O que deveria 
escolher????
Eu poderia escolher qualquer coisa... desde que estivesse dentro 
da rea Biolgica. Nunca ningum me disse isso, nem imps isso. Mas 
acho que eu entendia assim, entendi que esse era o caminho correto a 
seguir. Deveria deixar de lado essa histria de Msica... Artes... 
Literatura... bobagens semelhantes.
Eu adorava animais, adorava e respeitava a natureza acima de 
tudo. Ento, num voto de misericrdia, pensei que poderia tentar unir o 
til ao agradvel. Veterinria, nem pensar. Eu gostava de animais 
saudveis. Mas ento, quem sabe, Oceanografia? Ou talvez... 
Agronomia?
O melhor Instituto para estudo da Oceanografia ficava, naquela 
poca, no Rio Grande do Sul. No me animei muito, ou sei l o que me 
fez vacilar. Tambm procurei informar-me melhor sobre Agronomia, at 
fui assistir a uma palestra sobre isso no Colgio. Mas me pareceu, 
depois do entusiasmo inicial, que aquilo tambm no era exatamente o 
que eu estava querendo.
Como meu perfil era completamente voltado para a rea de 
Humanas, mas eu no podia dar vazo a isso, foi um passo tentar fazer 
uma mistura das Cincias Biolgicas com as Humanas.
A primeira delas, e a que me pareceu mais interessante e 
promissora, foi Psicologia. Eu gostava muito das nuanas da mente 
humana, dos desvarios do id, tudo que dissesse respeito  psique. 
Desde adolescente, tinha andado s voltas com a prtica cientfica da 
hipnose e leituras como a "Psicanlise dos Contos de Fadas". Sim, agora 
parece que eu estava chegando perto!
Satisfeita, cheguei a anunciar o fato praticamente como uma 
deciso j tomada. Em casa, conversa vai, conversa vem, meus pais 
procuraram balizar da melhor forma. E acabamos chegando  concluso 
de que talvez fosse melhor prestar um Vestibular de Medicina. Eu 
poderia ser Mdica Psiquiatra.
E quando uma das minhas amigas de infncia, muito apreciada 
pelos meus pais, revelou sua deciso categrica pela rea Mdica notei 
a clara apreciao deles em relao a isso. Sem querer, demonstraram 
por ela o orgulho que eu queria que sentissem por mim. E mesmo 
gostando do mar profundo que era a alma humana, acabei vtima de um 
golpe do meu prprio inconsciente: em pouco tempo acabei optando 
tambm por seguir aquele caminho que desde o incio parecia ser um 
nico.
Engraado como a coisa acontece e a gente no se d conta. Se 
eu fosse parar para pensar, Medicina foi a nica opo que, em criana, 
recusei.
"Eu? Passar a minha vida toda dentro de um Hospital?. Deus me 
livre!"
No fim, tudo aquilo que tocava fundo o meu ser, que vinha de 
dentro e me despertava, e para o que eu sentia uma inclinao natural... 
deixei de lado, abandonei...
Naturalmente isso tambm no aconteceu por puro e mero acaso. 
Mas, fato  que assim aconteceu.
* * * *
Definido o meu objetivo, fui atrs dele. Fiz o melhor Cursinho da 
poca. E com 18 anos ingressei em uma das mais cobiadas Faculdades 
de Medicina do Brasil, aps um ano inteiro de muito, muito estudo. A 
poca das provas me pegou cansada e um pouco estressada, o primeiro 
dia de exame foi difcil. Passei o tempo todo com uma terrvel dor de 
estmago, mas mesmo assim me sa bem. Depois me acalmei para as 
prximas provas. O resultado foi que entrei em todas as Faculdades que 
prestei.
Claro que aquilo foi motivo de muita festa! E o incio do ano letivo 
tinha um sabor de conquista. Eu iria estudar exatamente aonde tinha me 
proposto.
Os anos na Faculdade terminariam por lapidar o meu ser. A 
experincia seria benfica em alguns sentidos. Nem to benfica em 
outros. A vida transforma a gente, no h dvida. Alguns se adaptam 
mais facilmente, outros so donos de personalidades incomuns e, por 
isso, sofrem mais. Mas a verdade  que todos so marcados! Mais uma 
vez... eu no fui diferente. Posso dizer que quela altura minha 
personalidade j estava praticamente formada. Descobri-me mais 
determinada do que antes, dona de uma mente racional e lgica. Em 
contrapartida, a sensibilidade, a intuio, uma certa introspeco 
melanclica. Precisava estar sozinha um pouco para manter o equilbrio. 
Mas adorava longos "papos-cabea" com alguma cabea interessante, e 
mantinha o interesse por aquilo que traz sabor  vida, ainda que no 
sirva para mais nada: a beleza da msica, das palavras, a alegria de uma 
boa gargalhada, o amor pela natureza.
E ali estava eu: uma das calouras da Medicina! No posso dizer 
que no estava gostando do curso, pelo contrrio. O estudo do corpo 
humano  fascinante! Conhecer seus processos bioqumicos e biofsicos, 
a fisiologia dos diversos sistemas, a intimidade de cada clula, a 
Anatomia... era tudo muito bonito! Futuramente, ser capaz de entender 
como funcionam os processos patolgicos e o que fazer para 
diagnostic-los no deixava de ser um estimulante exerccio mental.
Logo nas primeiras semanas eu ficava pensando em como se faria 
aquele milagre: aprendermos tudo aquilo, nos prepararmos para a vida 
de Mdicos.
Parecia realmente um milagre. Eu e os demais calouros 
escutvamos de orelhada a conversa dos veteranos no centro 
acadmico ou no nosso clube exclusivo, e eles falavam naturalmente 
tantos termos tcnicos misturados com a conversa do dia-a-dia que havia 
entre ns uma incomensurvel distncia!
 Ser que ns tambm vamos ficar assim? indagvamos uns 
aos outros.  Ser que ns tambm vamos falar desse jeito quando 
estivermos no mesmo estgio que eles?!
Era esperar para ver. O tempo e o esforo de cada um fariam o 
resto.
A Anatomia  matria que foi dada logo de cara no primeiro ano 
 no causou em nenhum de ns os seus to comentados efeitos. 
Aquelas histrias que ouvamos contar antes de ingressar efetivamente 
na Faculdade: mal estar, gente vomitando e desmaiando dentro do 
laboratrio repleto de cadveres. Acho que isso era mais comum nos 
idos de antigamente, quando as pessoas no estavam to acostumadas 
a um dia-a-dia recheado de sangue e violncia, coisas que a mdia faz 
questo de trazer para bem perto.
A bem da verdade, foi realmente muito divertido comprar nossos 
kits de bisturi e pinas, e colocar mos  obra! Ou melhor, mos ao 
cadver.
A mim me coube, como primeira tarefa, dissecar uma perna junto 
com mais duas moas. O primeiro bloco era de "Sistema Locomotor". 
Ensinaram-nos como separar a pele e a gordura da musculatura, e l 
fomos ns. O Atlas de Anatomia ficava apoiado na mesa e volta e meia 
um pingo de algum material orgnico caa ali acidentalmente. Ossos do 
ofcio! Sujar um Atlas lindo daqueles era at um crime...
Mas o fato  que depois de um tempo a gente podia at mesmo 
comer lanche no laboratrio, bem em cima das peas recm dissecadas, 
sem nenhum pudor. O nico incmodo real era mesmo aquele forte cheio 
de formol. Ningum ligava muito para o que estava ali, na nossa frente, 
em cima das mesas.
Somente uma vez, j no final do primeiro ano, quando passvamos 
pelo bloco de "Cabea e Pescoo", foi que parei para pensar um pouco 
mais no aspecto mrbido da situao.
Certa noite, aps as aulas, eu e mais dois colegas estvamos 
estudando para a prova final. A prova prtica consistia em identificar as 
estruturas nas prprias peas. Isto ... nos cadveres. Ento ns 
tnhamos que passar horas e horas debruados sobre eles, estudando 
cada fiozinho de nervo, veia e artria, cada msculo, cada pedacinho. 
Era necessrio ter tudo na ponta da lngua porque a prova prtica tinha 
bastante peso e muito pouco tempo para ser feita.
Antes do estudo propriamente dito eu e o Anderson no resistimos 
 tentao de assustar a Mariana. Apagamos todas as luzes do 
laboratrio e ficamos escondidos debaixo de uma das mesas, rindo 
baixinho. Mas ela no entrava nunca, ento cansamos de esperar. 
Fomos ver e Mariana estava emburrada l fora, cheia do nosso sumio. 
Deixamos de lado as brincadeiras e fomos estudar.
E l estavam elas, montes e montes de cabeas humanas dentro 
de uma caixa d'gua repleta de formol. O formol fazia a gente lacrimejar 
os olhos e dava um pouco de alergia, mas no havia outra soluo seno 
rebuscar no recipiente  cata das melhores.
 O que vocs acham desta?  perguntou o Anderson.
 No est boa, olha s, o nervo facial est arrebentado!
 Mas esta aqui t legal para estudar os vasos do pescoo. 
Depois a gente pega outra melhor para ver o facial!
Fui procurando tambm, era melhor j deixar todas as cabeas 
separadas sobre a mesa para depois comear o estudo. E quando eu 
pesquei uma delas pela orelha no pude conter um riso nervoso. E 
comentei com meus amigos:
 Pxa vida, o que  que ns estamos fazendo aqui, hein, 
pessoal?! Que coisa mais macabra!
A Faculdade estava mergulhada em silncio sepulcral, no havia 
ningum pelos corredores. Ento continuamos rindo e rindo para dissipar 
aquela sensao de estranheza. Realmente no era a coisa mais 
divertida e linda do mundo olhar para aqueles rostos.
Era muito diferente de ver um brao, um p, ou mesmo vsceras 
espalhadas. Um rosto era sempre um rosto! Era pessoal. E me fazia 
pensar um pouco. Onde estava o esprito daquelas pessoas naquele 
momento? O que restou dos seus corpos estava ali, naquele 
laboratrio... mas... e a vida que saiu do corpo?....
"Como  bom ser filha de Deus e saber para onde vai o meu 
esprito depois da minha morte!"
Alis, em relao a este aspecto, eu no fiz qualquer segredo 
diante da turma. Logo todos sabiam que eu era Crist. J nas primeiras 
semanas de aula cheguei inovando e fazendo uma pesquisa com os 
colegas sobre questes religiosas. O que pensavam sobre Deus, sobre 
alguns temas Bblicos, se acreditavam no diabo. Era engraado! Em 
Deus todo mundo dizia acreditar. Mas poucos pareciam preocupados 
com o diabo, antes deixavam esse tipo de assunto para os ignorantes e 
supersticiosos. Confesso que no foi muito sbio da minha parte expor-
me tanto logo de cara. Eu deveria ter me aberto mais devagar. Mas de 
qualquer forma aquilo serviu para identificar os Cristos da turma. S 
havia um: o rapaz japons que estranhou um pouco a abertura fcil da 
minha f. O Carlos. E at me disse para tomar cuidado:
 Voc pode ser julgada.
No liguei muito, mas ele tinha razo.
A maioria no estava nem a para esse tipo de coisa, e minha 
atitude gerou um certo afastamento de algumas pessoas, 
ostensivamente. Havia quem detestava taras religiosas. Ao longo dos 
anos eu teria que pagar um preo por isso. Desprezo de alguns, 
crticas... especialmente quando minha crena me impulsionava a agir de 
modo diferente da maioria.
Por exemplo: eu no colava nas provas nem passava cola. 
Durante toda a minha vida acadmica sentei nas barbas do professor, 
sempre na segunda ou terceira fileira, justamente para evitar esse tipo de 
coisa. No era questo de ser chata. Achava que isso desagradava a 
Deus, ento no fazia. E dizia porque no fazia. E pronto.
Uma vez conseguiram roubar uma prova em branco de Biofsica, 
uma matria que reprovava bastante. A avaliao seria dali a alguns dias 
e diversas resolues circularam pela classe, apavorada com as muitas 
notas baixas no primeiro teste. O prprio Carlos veio me oferecer uma 
das correes. Foi realmente uma tentao, mas fiz fora para no 
aceitar, no quis. No dei nem uma olhadinha, apesar de estar morrendo 
de medo da Biofsica! Fui a nica aluna da classe que fez isso.
Mas acabaram descobrindo depois, algum dedurou. Foi pior para 
todos e meio mundo ficou em recuperao. Eu tambm. E paguei o pato 
de ter que resolver uma prova muito mais difcil. Mas eu costumava 
confiar que Deus me daria a sabedoria necessria, a memria 
necessria. Me ajudaria a estudar as coisas que de fato iam cair. Porque 
geralmente era impossvel estudar tudo. A quantidade de matria era 
absurda, eram calhamaos e calhamaos de leituras e informaes, tinha 
que ser um estudo direcionado.
Houve vezes em que minutos antes das provas lia ainda um ponto 
ou outro, e aquele era exatamente o que caa na avaliao. s vezes eu 
orava e pedia a Deus que me fizesse estudar o mais importante, o que ia 
ser cobrado.
Muitas vezes no colei, e fui melhor do que os que colavam. 
Outras vezes, fui pior do que os que resolviam as provas em duplas. Mas 
estava com a conscincia limpa. No queria me enganar. E no tinha 
medo de ser diferente da maioria. Meus amigos mais prximos 
respeitavam. Cada um na sua.
Outro aspecto que acabou me separando um pouco da maneira de 
pensar do resto da turma foram as festas. Eu fui nas primeiras. Mas no 
ficava bbada. Nem "ficava" com ningum. Logo deixei de ir, porque para 
mim no trazia nenhum prazer. Deixou de me interessar. Porque no 
combinava com meu estilo de vida. O clima das festas era meio de 
baixaria, e eu no curtia esse tipo de coisa.
Tambm havia a questo do esporte. Desde o Colegial eu estava 
acostumada a participar das competies, gostava bastante. Quando 
entrei na Faculdade, era minha inteno continuar com aquela prtica. 
Entrei no time de vlei das calouras. Em relao ao jogo at que teria me 
dado bem, mas, que azar! No era mais como no Colgio, o pessoal 
ligado ao Centro Esportivo da Faculdade era terrvel. E todas as msicas 
de torcida eram cheias de palavres, simplesmente no dava para cantar 
aquilo! Eu era Crist! No dava mesmo! Me senti um peixe fora d'gua.
As grandes e famosas competies que reuniam as Escolas de 
Medicina de So Paulo eram, no meu entender, impossveis de 
freqentar. Acostumada com os acampamentos evanglicos... para mim 
era demais!! O pessoal bebia, aprontava e aproveitava para extravasar o 
lado mais obscuro da alma de uma forma ruim. A rivalidade entre as 
Escolas chegava s raias do exagero, no era saudvel. Os mais novos 
sofriam mais, coitado do calouro que no casse no gosto dos veteranos. 
As brincadeiras eram de mau gosto. Eu queria distncia daquilo.
Naturalmente que posturas assim, um tanto "extremas", criavam 
um desconforto de alguns em relao  minha pessoa. Eu no era "como 
eles". O simples fato de no estar  vontade, por mais que nada 
dissesse, soava como uma afronta. Tinha que pagar o preo tambm por 
isso. Mas tinha aprendido a fazer as minhas escolhas. Todo mundo j 
era praticamente adulto, todo mundo tem que aprender a tomar suas 
decises baseadas naquilo em que acredita. Eu fiz as minhas, nem por 
isso fui uma "excluda" da turma. Tinha quem pensasse como eu, mesmo 
no sendo Cristo; tinha tambm quem no pensasse como eu, mas 
ainda assim me respeitasse. E vice-versa. Como j falei, tambm 
respeitava os outros, no tinha nada a ver com o que eles escolhiam 
para eles mesmos.
Meus principais amigos eram todos diferentes da maioria. Tinha a 
Mariana, que tambm adorava Msica e Arte, era firme no seu jeito de 
ser, diferente. E foi uma das minhas alunas de piano. Tinha a Cntia, que 
veio comigo do Colegial, a gente j tinha histria junto.
Tinha o Anderson, pianista e romntico como eu, e que tambm 
queria ser Psiquiatra. A gente vivia competindo no piano, tocando um 
para o outro, vendo quem tocava melhor. Provando um ao outro porque 
os compositores Romnticos eram melhores do que os Clssicos e 
Barrocos... ou no\ Ele tocava Schubert, eu tambm. Ele tocava Chopin, 
eu tambm. Ele tocava Beethoven, eu tambm. Ele tocava Bach... mas 
no gostava muito de Bach. s vezes, eu tambm. Anderson caoava de 
mim quando me via ensaiando trechos da Rapsdia Hngara de Liszt:
 Isso no  msica pra mulher tocar... precisa de muita fora!
 Ah, sim? Essa  uma msica para bons pianistas, sabe?  eu 
dava risada de volta.  Voc, por acaso, toca a Rapsdia Hngara?
 Meu estilo  mais ortodoxo!
As pessoas passavam e s vezes paravam para escutar. A gente 
no ligava, continuvamos nas nossas acaloradas discusses. Mariana 
reclamava.
 Que tal vocs tocarem, hein?
Tinha tambm o Philippe, que gostava de Artes Marciais, era muito 
inteligente mas com umas idias filosficas meio fora de freqncia. 
Tinha at mesmo feito um pouco de Filosofia antes de partir para a 
Medicina. Mas queria ser Psiquiatra. E eu lhe dei um dos filhotes da 
Flycka.
E tinha tambm o Abreu, revoltadssimo com Religio e fundador 
de uma doutrina prpria batizada de Abreusmo. Uma aberrao! V se 
pode! Pura infantilidade, no fundo, e vontade de chamar a ateno. Para 
variar... Psiquiatria era seu lema! Os futuros Psiquiatras da turma eram, 
que a modstia me perdoe, muito mais interessantes e versteis do que 
o resto!
Eu tinha evangelizado todos os meus amigos, do meu jeito. 
Costumavam, a princpio, fazer muitas perguntas. E depois 
argumentavam, questionavam, retrucavam, filosofavam. Eu sempre 
rebatia numa boa, disposta a ouvir e a convenc-los de que eu estava 
certa. Sempre gostei de uma discusso produtiva. Eu no ia desprez-
los por pensarem diferente de mim, muito pelo contrrio, eram mentes 
inteligentes que precisavam de Jesus. Mas, mesmo que no tenham 
querido se envolver com Cristianismo, o fato  que a amizade ficou. Era 
gente boa, legal, e com quem convivi bastante.
Eles sempre acharam estranho que Deus pudesse fazer parte da 
minha vida daquela maneira. Era uma coisa nova. Mariana se 
incomodava menos mas os outros cutucavam, volta e meia vinham com 
seus questionamentos. O Anderson era o mais incomodado: quase todos 
os dias dava um jeito de me espetar, fazer deflagrar alguma discusso 
envolvendo o Cristianismo.
Eu percebia o quanto a sua alma estava rida...
Mas os meus amigos de verdade, aqueles que me foram 
realmente caros durante
a Faculdade, eram os que freqentavam o grupinho evanglico, a 
A.B.U.. No que a gente tenha sido acompanhado pela A.B.U. de 
verdade, no foi isso. Era uma coisa meio independente mas ns 
adotamos o nome. Nos reunamos duas vezes por semana, houve 
perodos em que at trs vezes. Para estudar a Palavra, louvar, orar 
juntos. Mais at do que isso, caminhar juntos!
Ali eu encontrei identidade, claro, como no poderia deixar de ser.
Quando cheguei, fui bem recebida, apesar de que o grupo estava 
quase em fase de extino. S tinha umas quatro pessoas. Tomei para 
mim a tarefa de mudar aquela realidade, comecei a inventar coisas 
novas, e no sei como foram aparecendo outros Cristos. Mais tarde 
ganhei o apelido de "Motorzinho" da A.B.U. por causa da minha vontade 
e facilidade em animar todo mundo.
Esse primeiro ncleo seria formado por pessoas especiais. Logo 
havia alunos de todos os anos e ali eu iria conhecer aqueles que seriam 
companheiros durante todos os anos que passaria na Faculdade. A 
empatia entre ns era total. Meus principais amigos eram a Mayra, a 
Daisy Liu, a Maria Alice, a Andreza, o Edlson, o Fabiano, a Lara, o 
Wilson e o Shin. Mas havia outros participantes. Dentre eles, o Carlos. 
Excetuando ele e eu, todos estavam mais adiantados. A Mayra e o Shin 
eram os mais velhos, estavam j no quinto ano!
Ah! Era um verdadeiro osis no meio daquele deserto.
Muito diferente dos amigos da classe, porque ns falvamos a 
mesma linguagem! E desde o incio fomos aprendendo os princpios 
bsicos do Cristianismo da melhor maneira: convivendo uns com os 
outros e procurando colocar em prtica o que a Bblia dizia.
Um incentivava e lapidava o outro. Um ensinava e aprendia com o 
outro. Apesar de cada um ter uma denominao diferente, e quase 
metade ser de orientais, principalmente chineses, vivamos em completa 
paz porque havia respeito. E porque o nosso denominador comum era 
Cristo.
Quarta-feira era dia de estudo na hora do almoo. Divididos em 
duplas, montvamos estudos muito bons para compartilhar com os 
demais. Quarta-feira era tambm dia de Evangelismo, ou seja, o dia em 
que estvamos preparados para receber visitas. Era praxe todos os 
estudos terminarem sempre com uma mensagem sobre a cruz, sobre a 
salvao, independente do tema.
Sexta-feira  noite era dia de Louvor e Orao. A gente se reunia 
s seis horas e sempre louvvamos ao Senhor durante quase uma hora. 
Era um momento incrivelmente especial, um momento de restaurao, 
de refrigrio, dei paz. Normalmente, o Shin ou o Wilson tocavam violo, 
s vezes o Carlos, e a gente ia pedindo esta ou aquela cano. 
Montamos at vrias pastas com as letras das msicas. Na hora da 
reunio, era s distribuir as pastas para todo mundo poder cantar 
acompanhando a letra.
Depois do Louvor, a gente compartilhava: a Faculdade, os 
problemas, a famlia, coisas que Deus estava falando, mostrando... 
pedindo, ensinando... desafios, expectativas... derrotas, vitrias... etc.
A a gente se dividia em grupinhos de trs ou quatro pessoas para 
orar pelos pedidos que tinham sido colocados. Era assim ms aps ms, 
ano aps ano.
A reunio de sexta-feira terminava l pelas nove horas da noite. A 
gente no tinha pressa de terminar porque aquele era um momento 
especial. E era especial porque no era fingido, no era hipcrita, 
ningum precisava "fazer de conta". Isso era o melhor de tudo!
Quando a gente entrava ali, podia ser a gente mesmo. As 
fraquezas, as dificuldades, os problemas, tudo isso que era natural do 
ser humano... no era desprezado, nem muito menos julgado. Ns no 
tratvamos nossa prpria humanidade como defeito. No era preciso 
esconder, o melhor era expor tudo isso e, juntos, com a ajuda de Cristo, 
tentar ser pessoas melhores!
Procurvamos realmente nos tratar um ao outro. As conquistas 
individuais eram motivo de alegria e no faltavam elogios quando algum 
conseguia superar uma barreira. Reinava entre ns uma interessante 
sinceridade, algo de fato diferente. Nunca mais experimentei isso em 
nenhum outro lugar. A gente se sentia mesmo fazendo parte de uma 
pequena famlia, se sentia aceito, se sentia cuidado. Deus cuidava de 
ns tendo como instrumento os amigos que estavam ali mesmo.
Pode at parecer uma viso potica, mas era assim mesmo. Foi 
assim. Foi real! Hoje me parecem tempos to, to distantes... como se 
outra pessoa os tivesse vivido. Mas ainda guardo na memria o bem que 
me acrescentou.
Claro que havia uma parte da A.B.U. que era "flutuante". Gente 
que vinha s vezes, gente que vinha de fora. Mas aquele miolo, aquele 
ncleo do qual eu fazia parte, esse era de fato muito unido. Talvez 
fssemos cerca de dez a doze pessoas que se tornaram muito amigas 
durante alguns anos.
Mas no somente ficvamos trancados dentro da nossa sala, 
dentro do "cirquinho" da Patologia. Os que j tinham mais viso nessa 
rea incentivavam aqueles que no tinham: "O sal no pode ficar dentro 
do saleiro se quiser salgar."
Ento, s vezes, a gente organizava cruzadas evangelsticas pelo 
Hospital.
Outras vezes, queramos alcanar os nossos prprios colegas de 
turma: da montamos um jornalzinho Cristo para circular na Faculdade, 
pena que s deu para lanar duas edies. Falta de verba. Mas valeu a 
tentativa! Algum barulho bem que a gente fez.
Outras ocasies favorecamos o convvio entre as vrias clulas de 
A.B.U. que existiam em outros cursos da Universidade. Acabamos 
conhecendo muita gente, e eles tambm nos conheceram. Todo 
entrosamento entre os Cristos era vlido! Eu gostava muito de estar no 
meio deles.
Doutra feita, montamos uma pea de Teatro evangelstica. Foi 
coisa da Andreza. Ia haver uma Semana Cultural na Faculdade e todo 
mundo podia participar com qualquer tipo de coisa. Sem mais essa nem 
aquela, Andreza primeiro inscreveu a A.B.U. e depois nos comunicou. 
Tnhamos menos de um ms para inventar algo e participar. Todo mundo 
deu duro, ajudando de uma forma ou de outra. Eu estava empolgada 
com a pea, no poupei esforos.
No dia da nossa apresentao o anfiteatro da Faculdade estava 
cheio. At meus pais foram tambm! E meu pai gostou muito da pea.
Com o passar do tempo, com o aumento das atividades 
acadmicas e a proximidade da Formatura, algumas pessoas deixavam 
de vir s reunies. Mas chegavam calouros e, dentre eles, sempre havia 
um Cristo.
No entanto, algumas destas amizades transcenderam as reunies. 
Tornaram-se mais slidas. Seria assim comigo e com Mayra durante um 
bom tempo. Ns duas, com Edlson e Cristiane, uma colega que fazia 
Terapia Ocupacional, encaramos seriamente o Evangelismo no Hospital. 
Uma vez por semana ns levvamos a Palavra aos doentes, e foi assim 
durante muito tempo. At depois da minha Formatura!
A A.B.U. tornou a Faculdade mais leve, sem sombra de dvida.
Mas, voltemos ao curso de Medicina!! J deu para explicar bem o 
que era a A.B.U.!
O primeiro e o segundo ano foram bastante tericos, uma carga 
imensa de teoria. Mas na segunda metade do terceiro ano comeamos a 
entrar em contato maior com os pacientes. E tivemos uma matria 
chamada Propedutica Mdica, ou seja, grosso modo, trata-se da arte de 
"colher uma histria clnica e examinar um paciente".
Pode parecer fcil, mas no comeo no era muito fcil. E os 
prprios doentes chegavam a esquecer-se um pouco das agruras da 
internao e divertiam-se em observar-nos, a ns, os alunos, cheios de 
cuidados e gentilezas, fazendo vez aps vez vrias perguntas 
semelhantes. Normalmente os pacientes eram realmente pacientes e 
no se importavam em gastar muito tempo conversando conosco. Aquilo 
que um Mdico experiente consegue em meia hora, ns levvamos mais 
ou menos uma hora e meia.
Era imprescindvel no deixar escapar nenhum detalhe importante! 
Mas, mesmo assim, eles escapavam.  porque, no comeo, ns no 
sabamos perguntar exatamente o que era importante, nem o que fazer 
para conduzir uma entrevista que nos levasse o mais perto possvel de 
algo que pudesse assemelhar-se a um diagnstico.
Mas errando, a gente aprendia. O normal era "tirar a histria" em 
duplas, ou trios, e depois as discutamos com os Assistentes. No incio, 
ao chegarmos com elas, os Mdicos Assistentes nos faziam perceber 
quantos dados fundamentais tinham sido esquecidos.
 A paciente teve dor? timo, e o que mais?
 Bom, comeou com a dor abdominal...
 Mas como foi essa dor? Quer dizer, era uma dor de que tipo? 
Era em clica, por exemplo, ou era constante?
 Bom, pelo que ela falou, parece que era em clica.
 Mas era, ou no era? Vocs no podem ter dvidas quanto a 
isso. Depois voltem l para perguntar. E como quantificar a intensidade 
desta dor? Era de fato algo importante? Dor  algo muito subjetivo.  
importante saber se a paciente suava frio ou tinha taquicardia durante as 
crises de dor, ou se no conseguia dormir, por exemplo. Via de regra, 
qualquer dor que no impea o sono no  muito significativa, por mais 
que o paciente insista em dizer que "doa muito". Percebem? E em que 
regio do abdome?
 Ah! Na parte de cima!
 Tem fatores de melhora, ou piora? Houve algum fator 
desencadeante?
 ?
 Quer dizer, piora com alimentos, por exemplo? Ou melhorou 
com algum tipo de medicao? H quanto tempo ela est tendo dor? 
Tem algum outro fator associado?
 Ela teve vmitos.
 Somente vmitos? Voc sabe se ela teve febre no mesmo 
perodo?
 Hum... no perguntamos.
 Ela teve diarria?
 Ah, sim, comentou sobre isso tambm.
 E o aspecto desta diarria?
 Pxa, no perguntamos.
  fundamental saber se tinha sangue, ou resduos, ou pus, e 
tambm a intensidade dela. Quantas vezes por dia ela ia mesmo no 
banheiro? Voltem l e melhorem a histria. Da vamos discutir o exame 
fsico!
E assim por diante. Dia a dia aprendamos como pode ser cheia de 
detalhes uma dor de barriga, ou uma dor de cabea. Pelo menos 
teoricamente. No havia muita prtica realmente falando, a gente ainda 
no conseguia juntar todas as informaes muito bem. O exame fsico 
era outro problema. No incio, examinar era muito difcil.
Mas chegou o quarto ano, e ele vinha cheio de desafios porque era 
o momento em que de fato entraramos em contato com Medicina. Pelo 
menos a pontinha dela!
Os primeiros trs anos deveriam ter dado base suficiente e nos 
preparado para compreender como a Patologia acontece, e que passos 
seguir para diagnostic-la. At o final do quarto ano no se espera que o 
aluno tenha em mente a teraputica, ou seja, o tratamento. Apenas uma 
boa avaliao clnica do paciente, indicao de exames laboratoriais e, 
se possvel, uma aproximao o mais fidedigna possvel da doena em 
questo.
No quarto ano a gente comea a perder o medo de entrar em 
contato com os doentes, de conversar com eles, examin-los. Os erros 
muito crassos tambm deixam de acontecer. Aos poucos comeamos a 
ganhar segurana.
Mas tambm nos deparamos com algumas matrias meio 
cabeludas, cheias de exigncias, e que tinham a fama de reprovar. Por 
exemplo, a Cadeira de Molstias Infecciosas, ou M.I., como ns a 
chamvamos.
As provas tericas eram bastante duras, muito especficas. Em 
seis semanas, por trs vezes fomos submetidos a quatro horas de escrita 
ininterrupta e apressada, o dedo terminava machucado pela caneta mas 
somente assim tnhamos chance de responder a prova toda.
A quantidade de matria  muita, vai alm do que  possvel 
assimilar de fato. Como os professores no esto muito preocupados em 
pegar na mozinha de ningum, eles querem mesmo  o resultado, cada 
aluno tem que acertar o seu ritmo, o seu jeito de estudar.
Cada final de semestre era sempre a mesma coisa: uma turma 
extenuada e cheia de gente com gripe. Excesso de trabalho e falta de 
sono fazem com que a imunidade caia um pouco.
Certa ocasio, na poca das provas prticas da Cadeira de Clnica 
Mdica do quarto ano, aps muitas aulas e estudo, estvamos reunidos 
para o grande desafio: a avaliao final daquele curso. E o pior: era 
individual! Quem no passasse perdia a chance de comear o Internato 
(perodo do quinto e sexto anos) com a turma. Durante o Internato a 
turma toda seria dividida em grupos fixos de 14 a 16 alunos e, durante os 
dois prximos anos, rodaramos juntos por todas as clnicas do Hospital. 
A reprovao fazia com que o estudante que "casse de turma" perdesse 
o seu grupo. A sua Panela. E isso era uma horrorosa e medonha 
possibilidade, um fantasma terrvel, algo realmente inominvel!!!
Veja bem, o clima dentro da Faculdade era de muita 
competitividade. Na verdade, as amizades leais e sinceras eram poucas. 
Por isso, cair de turma significava deixar de lado os amigos e colegas 
com os quais voc j conviveu durante quatro anos e se adaptou, para 
ser obrigado a passar os dois prximos anos com pessoas que, a 
princpio, so desconhecidas... bem, certamente esse no era o prato 
predileto de ningum! Aquelas provas, ao lado do curso de Molstias 
Infecciosas, eram as grandes barreiras para o incio do Internato.
Eu gostava de Clnica, e M.I. tambm era muito interessante. 
Estudei muito. No queria correr riscos! Fechei minha nota antes da 
ltima prova em quase todas as disciplinas da M.I. e sa-me bem  
Graas a Deus!  nas provas de Clnica.
Na ltima delas peguei um doente de bom nvel, que informava 
bem, e ele contou-me uma histria clara. Examinei-o depois e ele no 
tinha nenhuma alterao de exame fsico no momento. No era bem o 
que eu estava esperando daquela prova porque os Professores 
garantiram que ia cair, principalmente, casos de cardiologia, pneumologia 
e nefrologia. Matrias que tinham sido mais vistas durante o curso 
terico.
Mas como eram muitos os alunos no foi possvel que todos 
recebessem um caso desses. Eu no fui uma das privilegiadas, como 
logo notei ao tirar a histria do meu paciente. Me veio uma batedeira no 
peito, mas procurei me controlar.
"O que ser que esse cara teve???", indaguei de mim para mim 
assim que ouvi as queixas de febre e convulses.
Procurei fazer uma boa histria e um bom exame. Sabia que no 
me exigiriam o diagnstico porque o caso no era cardaco, nem 
pulmonar, nem nefrolgico. Ento, sindromizei bem o quadro neurolgico 
e apresentei bem o caso. Depois, durante a discusso, quase bati o 
martelo na meningite. Fui aprovada, bem como os meus colegas de 
Panela. E fechamos bem o quarto ano!
A medida que avanvamos na nossa carreira Mdica as frias 
tambm progressivamente diminuam assustadoramente. Enquanto 
todos os demais cursos da Universidade contavam com mais de trs 
meses de frias por ano, depois do quarto ano, ns, da Medicina, 
tnhamos apenas um. Dividido entre as frias de julho e dezembro. No 
precisa nem dizer que no dava para descansar muito! Era s um coffee-
break.
E l estvamos, prontos para dar incio ao Internato. Ms aps 
ms eu iria conviver apenas com aquelas mesmas pessoas que faziam 
parte do meu grupo.
As rivalidades dentro desses grupos  as "Panelas"  existiam, e 
por vezes podiam chegar s raias do insuportvel. Nossos colegas de 
Panela seriam mais prximos do que membros da famlia. Passaramos 
dia e noite juntos.
O entrosamento, portanto, era condio fundamental para se 
conseguir sobreviver quele perodo. Ns j no ramos responsveis 
apenas por ns mesmos, como tinha sido at ento, mas teramos que 
aprender a trabalhar em grupo de verdade. A Panela deveria mover-se 
de forma sincronizada, sendo uns pelos outros em toda diviso de 
trabalho. E Plantes. Porque, agora, ns no nos livraramos mais deles. 
A partir dali, trabalho rduo no ia faltar. Por isso a sincronia entre ns 
faria o dia-a-dia mais harmonioso e enfrentaramos mais facilmente as 
dificuldades do Hospital. As Panelas tambm recebiam nota pelo 
entrosamento e trabalho em equipe. Gente problemtica influenciava 
todo o resto.
H basicamente dois tipos de pessoas com quem trabalhar: 
aqueles que aprendem a conviver bem com a presso emocional e fsica, 
a lidar com o seu prprio estresse; que sabem que no esto sozinhos 
no mundo e que um dia vem sempre aps o outro... e os que s pensam 
em si mesmos, em como levar vantagem, em como sair na frente, em 
como bajular melhor este ou aquele "poderoso". Sempre interesseiros. 
Egostas. Neurotizados. Robotizados. Nunca facilitam nada para 
ningum.
Pxa vida, nem sempre era fcil! Trabalhar dentro de uma Panela 
problemtica podia ser uma tarefa herclea e infeliz. Eu sabia que minha 
Panela reunia gente muito diferente e alguns eram, decididamente, 
difceis de lidar. Mas somente o correr dos dias revelaria de fato quem 
era quem. No Internato fica muito difcil esconder a verdadeira cara. 
Cedo ou tarde tudo fica patente aos olhos de todos, porque o tempo de 
convivncia  maior, muito maior do que com qualquer outra pessoa. 
Inclusive, como j falei, a famlia. Podia-se dizer que nossa famlia era a 
Panela para os prximos dois anos!
Eu aprendi que  melhor dividir o trabalho, ser uns pelos outros em 
tudo o que for possvel, facilitar as trocas de plantes, ser flexvel, prestar 
favores com generosidade. Porque, no outro estgio, eu  que podia 
estar precisando de uma cobertura. O mais triste  quando se faz um 
favor vrias vezes e, quando se precisa, aquele que recebeu no tem 
boa vontade para retribuir.
Realmente enfrenta-se todo tipo de presso dentro do Hospital. 
Toda presso  naturalmente maior quando o cansao fsico  grande, e 
esse era o feijo com arroz. A  tempo de aprender  ou no  a lidar 
com isso! Com a exausto, com o estresse, com o excesso de trabalho, 
com condies de trabalho inspitas.
No ms de janeiro daquele ano comeamos pela Obstetrcia, a 
primeira Clnica do Internato. Foi o primeiro dia em que pudemos vestir 
roupas brancas de verdade, ao invs de apenas o avental sobre a roupa 
comum! Era um grande privilgio, um lugar conquistado! Finalmente 
tnhamos tambm o direito de pendurar o estetoscpio no pescoo, 
agora um verdadeiro instrumento de trabalho.
Ningum se atreveria a fazer tais coisas antes do quinto ano. Seria 
motivo de chacotas infindveis porque todo mundo sabe que, at ento, 
 ridculo querer "parecer Mdico". Somos bem zero  esquerda, 
conhecendo a coisa meio terica, meio prtica, mas muito aqum do 
necessrio para estar integrados  rotina do Hospital.
Mas, detalhes  parte, o Internato  um perodo importantssimo 
que reserva um sem-nmero de experincias que, finalmente, nos 
capacitaro a receber o ttulo de Doutores.
No h como contar muito sobre isso, traduzir em poucas linhas. 
S quem esteve dentro de um Hospital, estudou Medicina, sabe do que 
eu falo. Para estes certamente eu no precisaria contar como  passar a 
noite numa UTI, onde tudo pode virar de pernas pro ar em pouco tempo 
porque pacientes graves so instveis... ou na porta do Pronto-Socorro 
Cirrgico, onde a gente percebe que politraumatizados gravssimos 
existem, e aparecem toda hora, de todo jeito: motoqueiros arrebentados, 
atropelados, baleados, esfaqueados. s vezes a polcia vem junto e fica 
por ali. Um dia, na hora do almoo, um jovem bem barbeado e bem 
vestido chegou com um tiro direto no corao. No deu para fazer nada. 
Estragou o planto de muita gente.
Eu tambm no precisaria contar como  o dia-a-dia numa 
enfermaria infantil, ou numa enfermaria de pacientes terminais, ou numa 
enfermaria de pacientes psiquitricos. Ou naquela onde esto os 
pacientes que, embora no morram, nunca mais andaro pelas prprias 
pernas.
Particularmente estressante  a rotina nos boxes do Pronto-
Socorro da Clnica Mdica, onde tem tanta AIDS, tantos pacientes 
encacados ao mesmo tempo, tantos e tantos casos raros ou estranhos 
que no conseguem internao, e acabam morrendo ali mesmo.
 difcil olhar pela primeira vez nos olhos da famlia que acaba de 
perder um ente querido, ou acompanhar de perto o processo de morte 
daquele mesmo paciente. Ver os seus exames lentamente piorando  
medida que o corpo tambm deteriora, e o estado de conscincia 
rebaixa.
Por outro lado,  especial a emoo de acompanhar de perto um 
trabalho de parto e receber nos braos um recm-nascido saudvel. Ou 
no. Da mesma maneira, faltam palavras precisas para descrever aquela 
sensao de alegria sutil que nos sobrevm quando aquele doente que 
passou semanas sendo tratado finalmente recebe alta. E se despede 
com lgrimas nos olhos, e agradece.
Nessas horas a gente olha e acha que vale a pena...
Mas h tambm os momentos duros, quando percebemos que a 
Panela est com problemas, que as brigas esto se avolumando, que 
no h tempo suficiente para estudar tudo, que os Mdicos Assistentes 
no tm educao para tratar conosco, nem o pessoal de enfermagem, e 
at mesmo os pacientes exigem alm da conta. Quando o cansao  
tanto que parece que nada mais existe alm dele. Quando o sof duro do 
PSC  o nico lugar de "descanso" numa noite de trabalho infernal e 
interminvel, alternando entre o Centro Cirrgico e o atendimento das 
fichas. Pxa, no  justo ter que viver assim...
Nessas horas a gente olha e acha que no vale a pena!
O desnimo dura um dia, ou dois... ou at mesmo trs ou quatro. 
Mas a a gente olha para frente e continua caminhando, continua lutando, 
continua aprendendo. Fazendo a nossa parte.
Durante o Internato, seja qual for a educao que tenhamos 
recebido, sejamos duros na queda ou sensveis, a verdade  que um 
vrus acaba nos contaminando com quase cem por cento de certeza.  
muito difcil escapar de ser infectado por ele, o processo  quase natural. 
 o vrus da frieza, da indiferena.
Difcil dizer se  uma forma inconsciente de autoproteo diante da 
dor e do sofrimento humano, ou se simplesmente o contato freqente 
com a doena e a morte nos deixa com a mente cauterizada.
Normalmente deixamos de nos importar muito com o paciente em 
si, com o ser humano. E pensamos somente na doena. No raro, 
embora os professores procurem manter acesa um mnimo a chama da 
misericrdia, durante as visitas os pacientes so tratados como "o 
linfoma do leito 12", ou aquele "estranho lpus", ou "o aneurisma de 
aorta abdominal". s vezes escapava, mesmo sem querer. Algumas 
vezes na frente do pobre doente.
Era preciso tomar cuidado.
O ano letivo foi caminhando e poucos meses depois do incio do 
Internato, ainda no primeiro semestre, uma coisa estranha passou a 
acontecer comigo. Pela primeira vez comecei a pensar algo totalmente 
absurdo: parar um pouco os estudos, trancar a matrcula. Nem eu sei 
bem o que desencadeou aquela torrente de sentimentos estranhos. E 
inexplicveis!
Mas a verdade  que, de repente, eu me via pensando nisso.
Procurei entender o que estava acontecendo. Talvez houvesse 
explicaes lgicas. Tinha que ter uma explicao para aquele desejo 
que comeou a me perseguir.
Bom,  verdade que eu vinha cansada demais, saturada demais! 
Minha Panela estava passando por conflitos bem srios, todo mundo 
brigava com todo mundo, o ambiente de trabalho estava pssimo! E isso 
 um eufemismo!
Mas no era desculpa, at a gente se adaptar levava um tempo 
mesmo. Eu no podia simplesmente culpar as circunstncias externas, 
claro que elas tinham o seu valor, mas no era esse o verdadeiro 
motivo...
Levei um tempo para conseguir formular uma opinio que me 
parecesse fidedigna, que realmente traduzisse aquilo que eu sentia no 
corao. O que mais me pesava era aquela sensao indistinta, latente, 
meio sem forma, bem l no fundo... e que dizia... ou melhor, berrava... l 
dentro... e eu no tinha querido ouvir at ento:
"A Medicina est me roubando!!!"
Sim, era isso, era fato! Como continuar fazendo vistas grossas, 
deixar que ela continuasse dominando toda a minha vida?! Tudo o que 
eu tinha de melhor ela acabou tirando de mim, aos poucos  verdade, 
mas sem um pingo de compaixo, de trgua!
A Medicina  exclusivista, no aceita concorrentes. Eu havia 
parado de estudar piano h quase dois anos, e tambm a natao que 
fazia  noite. J no escrevia, no pintava quadros, no lia muito (a no 
ser livros de Medicina), no tinha tempo para mais nada que no se 
referisse ao Hospital, aos doentes, aos Plantes,  profisso. No tinha 
outros programas, no tinha amigos que no fossem Mdicos. No tinha 
tempo, no tinha tempo, no tinha tempo para nada!!!
Muito bem. Nada mais justo, no ? Afinal, era "assim mesmo".
Mas tinha um pequeno detalhe: acontece que eu no estava 
satisfeita! E, quando dei por mim, ali estava eu com aquele lamentoso 
queixume, com aquela triste constatao:
"Puxa vida! Quando escolhi estudar Medicina era para isso me 
acrescentar algo! No escolhi desfazer-me de todo o resto da minha vida 
em funo dela, jogar tudo fora!".
Ento contemplei a realidade da minha escolha, observei 
aterrorizada o que aquilo significava de fato. No haveria outra 
alternativa, esse era o destino de todo Mdico: dedicar-se e render-se 
exclusivamente  "Deusa"! E nada mais. Nada escapava ao domnio da 
Medicina. Ela era a prioridade absoluta na nossa vida, tudo que no se 
encaixasse com ela tinha que ser simplesmente banido.
Dia aps dia, semana aps semana, ms aps ms aquela certeza 
me consumia, me perseguia. E eu comeava a fazer comparaes, claro, 
com exemplo que estava mais prximo de mim. Meu irmo.
H um ano, Marco tinha ido estudar msica no exterior. Aquilo me 
doa um pouco no corao. No pelo fato dele estar l, mas pelo fato de 
eu no ter conseguido a mesma felicidade em relao ao meu futuro. Ele 
estava seguindo o instinto do seu corao, dando vazo a si mesmo... e 
eu... ainda que gostasse do que fazia... aquilo nunca tinha queimado no 
meu corao como outras coisas queimaram!
Eu sempre morri de vontade de estudar fora, sair um pouco do 
Pas. Marco no. Mas agora ele estava fora, e eu presa no Hospital! 
Literalmente presa, cada vez mais!
O futuro se me anunciava sombrio. Se quisesse levar uma vida 
"normal", fazendo tudo o que tinha vontade, no mnimo teria que me 
desdobrar em duas ou trs. Impossvel. Mas uma vida apenas como 
Mdica no seria gratificante, nem mesmo suportvel, no me faria feliz! 
Pelo prisma desta perspectiva o futuro me entristecia e assustava ao 
mesmo tempo.
"Quem corre por gosto no cansa", no  assim que diz o ditado 
popular? Est a uma grande verdade. Comecei a perceber, embora 
fizesse fora para empurrar aquilo de volta para dentro, que talvez eu 
no estivesse "correndo por gosto".
Mas o que eu podia fazer, meu Deus?!! Estava no quinto ano!
Aquilo me corroa por dentro, aquela insatisfao. Eu estava com 
22 anos e tinha investido todo o meu esforo para percorrer aquele 
caminho. Me desfiz de tudo o mais que pudesse atrapalhar, inclusive 
sonhos de infncia, talentos naturais e outros projetos de vida. Como 
podia ser que agora eu no estava encontrando alegria na minha 
carreira?! No, no, no!!! Eu no podia me dar ao luxo de desistir.
Durante alguns meses, at mais ou menos o final do quinto ano, fiz 
fora para deglutir, esquecer, amarrar, sublimar, destruir aqueles 
sentimentos indiscretos e incoerentes. Eu no ia jogar fora aqueles 
suados cinco anos de Faculdade e comear tudo de novo. Era 
impensvel!
Mas algo no estava bem, decididamente no estava bem. E 
estava sendo mais forte do que eu...
Associado a isso, havia um outro problema. Desta vez relacionado 
 questo familiar. Eu comia, dormia, tomava banho e tinha minha vida 
quase toda centralizada no Hospital. Quando estava em casa, estava 
podre de cansada, sem pacincia com ningum. A convivncia familiar 
agora era muito pouca. Com certeza no era mais como na infncia, ou 
mesmo na adolescncia. Ou at mesmo nos primeiros anos da 
Faculdade. Eu tinha perdido tambm aquela parte.
Hoje vejo isso com maior clareza, mas na poca aquela sensao 
de amargura simplesmente me dominava. Eu vinha agressiva, irritada, 
angustiada. E minha personalidade muito forte, igualzinha  do meu pai, 
comeou certa altura a fazer com que ns dois entrssemos em srias 
divergncias.
Comeou... quando teria comeado? Hoje  muito difcil saber. 
Havia coisas to antigas e to incrustadas no nosso relacionamento que 
j no sabamos encontrar os verdadeiros por qus de cada problema. 
Divergncias eu tive com ele desde a adolescncia, apesar do meu 
chamego, mas foi mais fcil contornar. Havia mais vlvulas de escape!
Meu pai era bom, muito bom, vivia para a famlia. Era generoso, 
interessado nos filhos, incentivador. Mas compreendo melhor agora que 
uma coisa ele nunca incentivou: o dilogo franco. Sei que certamente 
isso foi resqucio da sua prpria educao, vinda de uma famlia italiana 
e de um pai bastante duro e austero. Ento cresci vendo que problemas 
maiores nunca eram solucionados de fato, antes eram abafados em 
nome de algo maior: o amor e a paz em famlia.
Esse era um bom motivo. A gente acabava por esquecer, deixava 
para l.
Mas a alma no esquece, a  que est! Achar que problemas 
resolvem-se por si mesmos, passam, so simplesmente esquecidos... 
belo equvoco! Na verdade no se resolvem... acabam acumulados, 
constroem imensas muralhas no inconsciente...e voltam  tona com fora 
multiplicada. Muitas vezes de formas incompreensveis.
No vi como foi que aconteceu, no sei como aconteceu, mas de 
repente me deparei com o fato consumado: as coisas estavam mudadas 
entre ns. Especialmente entre mim e meu pai. Torno a dizer, no sei 
quando foi que mudou.
Simplesmente percebi um abismo, um afastamento. Eu no me 
sentia compreendida de forma alguma. Parecia que tinha sido esquecida, 
deixada de lado em prol do Marco, a estrela da famlia desde que foi para 
o exterior.
Em contrapartida, talvez eles possam refutar o que digo afirmando 
que fui eu que me afastei, fui eu que me tornei intratvel, indiferente, 
irritvel, sempre com uma boa resposta na ponta da lngua para 
desacatar a todos.
Nisso tero razo. Toda histria tem dois lados, certamente eles 
tambm tm o seu ponto de vista. De fato no estava sendo boazinha 
muitas vezes. Mas ningum podia supor o que me ia alma a dentro... e 
esse  o meu ponto de vista!
Acho que o que eu sentia, no fundo, era falta dos meus pais; 
principalmente do meu pai, em quem fui sempre to ligada. Sempre tive 
adorao por ele!
No entanto, afastado do servio por licena Mdica, agora ele 
passara a cuidar exclusivamente das coisas do Marco, dos seus 
concertos e recitais, da temporada nas frias.
E eu estava sempre distante de tudo e todos. Era apenas um 
reflexo de algo maior.
No foi intencional por parte de ningum, antes puramente 
circunstancial. E como eu j disse: quase nunca estava em casa, 
passava o dia todo fora, s vezes algumas noites, outras vezes boa parte 
do final de semana, as frias eram muito curtas... alm disso, minha 
angstia interna me fazia intratvel. Pode parecer infantil, mas tambm 
no consegui lidar com o fato de ter sido deixada de lado. No que isso 
fosse real de fato... mas foi real para mim.
E foi uma somatria.
Acho que a coisa comeou a degringolar mais ou menos por a. 
Estava tudo aparentemente equilibrado at ento, mas a estrutura do 
castelo de cartas era frgil. Aquele equilbrio no era real.
Em certo momento, mesmo sem perceber, acho que comecei a 
culpar os meus pais por causa da minha deciso pela Medicina. Mais 
ainda, culpei-os por ter sido tolhida na minha liberdade de escolher outra 
coisa. Foi um processo inconsciente naquele momento. As fichas s 
comearam a cair muito tempo depois.
Ento eu percebi aquilo que era obscuro anos atrs: no fundo, o 
que queria a todo custo era a aprovao deles. Queria que tivessem 
orgulho por mim e pelo que eu fazia. Quando criana eu tinha sido a 
Princesa "folheada a ouro" (por causa das sardas), sem dvida a 
queridinha do papai. Mas o Marco tomou o meu lugar, desviava para si 
todas as atenes, o tempo todo.
Comecei a ver que o esforo que eu estava fazendo para continuar 
sendo a "queridinha" no estava mais dando em nada. Estava pagando 
um alto preo, muito alto mesmo, que era estudar Medicina! E no tinha 
o que mais queria. Ateno. Aprovao.
No era culpa deles! Eu sei disso. Nem dos meus pais, nem do 
Marco. Algumas vezes me disseram que meu problema era justamente 
esse, inveja do meu irmo. Grande erro: eu tinha, sim, muito orgulho da 
conquista dele, de corao! Era sempre a primeira a sair batendo palmas 
nos recitais. Mas queria ter conseguido conquistar algo semelhante. Isto 
, a alegria de fazer o que se gosta... e ainda ser aplaudido por isso! Eu 
no estava fazendo o que realmente gostava, e muito menos era 
aplaudida. Triste sina... se pelo menos eu no fosse aplaudida, mas 
tivesse me tornado uma alegre Publicitria...
Mas ali estava eu: irrevogavelmente destituda do meu lugar de 
Princesa. E sem opes na manga.
No pretendo achar culpados porque, a bem da verdade, no creio 
que existam. Mas agora estava presa numa gaiolinha dourada. Ou 
melhor, super dourada porque os de fora sempre ficavam muito 
admirados da minha capacidade em enfrentar a Faculdade de Medicina. 
Era uma massagem no ego, apesar de que nunca liguei para isso.
No obstante, todo o esforo que tinha feito at ento no 
mantivera o meu posto, e as brigas e divergncias j faziam com que eu 
e meu pai no tivssemos muitas coisas em comum.
O quinto ano terminou, mas eu estava infeliz com tudo.
Apesar de que volta e meia meu pai prometia labutar por uma 
bolsa no exterior para a minha Residncia Mdica, exatamente como 
tinha feito com o Marco, eu no conseguia me entusiasmar com aquilo.
 Voc s precisa dizer que especialidade quer seguir  falava 
ele.
 Pxa!  que eu ainda no decidi.
"Como se eu soubesse!", pensava depois com meus botes.
A verdade  que eu no queria ir para o exterior estudar Medicina, 
aquilo simplesmente me trancaria mais ainda dentro de uma existncia 
que eu j no estava certa de querer. Estava perdendo anos da minha 
vida que no voltariam mais, desperdiando a chance de mudar de rumo. 
Se  que essa possibilidade ainda existia.
"Mas mudar de rumo como! Como posso mudar a ordem das 
coisas? Como ter de volta uma vida que me agrade?!"
Houve uma sutil manipulao velada na poca do Vestibular. Claro 
que eles queriam o melhor! Mas erramos. E eu estava colhendo os frutos 
de toda aquela confuso! E, de quebra... eles tambm!
Eu tinha escolhido ser Mdica por causa deles, mas agora era 
obrigada a carregar aquela cruz... por que eles no poderiam ter 
carregado a cruz de me deixar escolher livremente? O que pelo menos 
me daria uma chance maior de ser feliz depois?
Decidi trancar a matrcula.
No foi uma deciso fcil, oh! No, de modo algum! Eu me via 
entre a cruz e a caldeirinha, completamente dividida.
De repente, me bateu a louca e no quis pensar mais. Se 
pensasse muito, no fazia. Ento tranquei a matrcula pouco menos de 
11 meses antes da Formatura. Foi uma verdadeira loucura parar o ritmo 
alucinante em que vivia, em pleno incio de sexto ano!
Aquela era uma tentativa quase desesperada de coordenar um 
pouco as emoes, pensar, buscar orientao de Deus. Eu precisava 
parar um pouco, colocar a cabea no lugar, me aconselhar. Para depois 
conseguir terminar, e terminar bem, o meu curso.
Os primeiros dias foram difceis. Viajei correndo para um 
Congresso Evanglico que duraria uma semana. Se eu faltasse durante 
uma semana, nem que quisesse poderia voltar atrs na minha deciso.
Quando voltei, e me vi em casa, senti-me entre aliviada e 
apavorada ao mesmo tempo. Era muito estranho ter todo o tempo livre.
Ningum entendeu nada. Mas meus pais procuraram respeitar 
minha deciso, pelo menos de incio. Mas, decididamente, eles no 
entenderam. Comentei que desejava fazer um pouco de Terapia, 
conversar, buscar entender melhor o momento que estava vivendo.
Procuramos uma psicloga Crist. J nem me recordo quem deu a 
indicao. Mas fui ao encontro dela. Numa das primeiras sesses 
lembro-me que ela comentou comigo as palavras do meu pai:
 Queremos que voc possa ajudar a nossa filha!  tinha dito 
ele.
Aquele "nossa filha" me tocou muito, muito. Nem posso dizer 
quanto!....
Que bom que meu pai estava querendo que eu melhorasse e 
procurava respeitar minhas dificuldades, mesmo que minha atitude 
extrema fosse literalmente incompreensvel para ele. Sei que eles 
procuraram fazer o melhor por mim. Mas o problema  que, tempo 
demais em casa, confuso armada. Por mais que nos esforssemos. 
Pelas menores coisas.
Aquele foi um ano muito difcil. No gosto de recordar-me dele. 
Mais para a frente o Senhor revelaria o cerne disso tudo, o quanto boa 
parte do meu caminho tinha sido traado pelo inimigo das nossas almas. 
Graas a Deus, o Senhor em tudo era Soberano desde aquela poca, 
mas isso no me isentou de passar por um contexto espiritual muito 
forte. E que no vem ao caso agora.
Aquele ano foi triste em todos os aspectos. Foram muitas 
incertezas, desiluses, amarguras, desapontamentos e frustraes. Alm 
disso, algumas circunstncias fugiram ao meu controle, o meu lado 
emocional suplantou o racional e acabei por bater completamente de 
frente com o meu pai. Dessa vez foi de frente mesmo. Como meu pai 
costumava ser inflexvel quando confrontado na sua maneira de ser, no 
havia meio termo possvel para o nosso impasse. Foi pior ter parado a 
Faculdade do que ter continuado.
Embora continuasse orando, indo  Igreja, procurando acertar, 
procurando ajuda.... foi mais forte do que pude suportar!
S vim a entender anos mais tarde. Pena que certas coisas no 
podem voltar atrs, e ser simplesmente apagadas. Um rastro maligno 
ficaria na minha vida. Essa poca foi marcada por traumas profundos, 
um revestimento ruim e amargo cobriu a minha vida. Eu me sentia pior, 
muito pior. Devastada por dentro. Com a alma  beira de um colapso.
Posso resumir tudo numa linha: mesmo sem querer, as 
circunstncias naquele ano colaboraram para que eu fizesse muito mal 
ao meu pai; e ele fez muito mal a mim.
O meu corao acreditava naquilo: que eu era a causadora de 
todos os males, a destruidora da famlia, o pomo da discrdia, a ovelha 
negra, a ingrata e todos os demais adjetivos pejorativos que pudesse 
encontrar. Realmente comecei a acreditar que era ruim. Ruim de fato! E 
que nada de bom poderia me acontecer; eu teria, de alguma forma, que 
pagar por todo o mal que tinha feito.
Foi basicamente nesta poca que passei a no confiar muito nas 
pessoas, especialmente nos Cristos. Aqueles de quem sempre tive 
vontade de estar perto j me pareciam diferentes. No o pessoal da 
A.B.U., que j tinha se formado e cuidava da vida, mas aqueles que 
conheci melhor na Igreja que passei a freqentar. Parecia tudo uma 
grande falsidade!
De fato, o ser humano  difcil de lidar. Especialmente aqueles que 
se julgam grandes detentores da Verdade. O melhor a fazer era estar 
sempre precavida, bem precavida. At prova em contrrio, todos tm um 
enorme potencial de magoar. Decepes sucessivas com a Igreja, com 
os lderes que supostamente poderiam me ajudar... mas no o fizeram... 
os irmos com quem eu poderia ter contado... mas no pude... tudo isso 
terminou resultando numa briga com o prprio Deus. Eu me sentia 
magoada at mesmo com Ele.
Em suma, no queria saber de mais nada. Foi um perodo longo, 
difcil e muito solitrio. Todos os dias assaltava-me aquela terrvel 
sensao de que era melhor estar morta. A sensao de morte me 
perseguia dia aps dia.
Retomei os estudos no ano seguinte.
Mas o problema principal, o familiar, no tinha sido resolvido. 
Tentei me ajustar com minha famlia. Tentei. Mas no consegui. Agora 
era mais comum no que antes meu pai estar totalmente fechado para 
mim. Podia passar dias, at semanas sem me olhar, mesmo que eu 
falasse com ele. A indiferena era dez vezes mais insuportvel do que 
gritos e discusses! Nada tinha o poder de me arruinar mais do que 
aquilo. Imagino que ele tambm sofresse com esse estado de coisa, mas 
no demonstrava. A impresso que me dava  que podia estar morta e 
isso no faria diferena alguma. Como me anular mais ainda? O que eu 
devia fazer? At quando ia pagar pelos meus erros?!
A melhor coisa era mesmo retomar os estudos, j chegava mesmo 
o tempo. Estava cansada de viver aos trambolhes, sem objetivo. A 
Terapia no estava acrescentando nada, eu no tinha nenhuma 
perspectiva de fazer algum outro curso, ou mesmo viajar, ficar fora um 
pouco. Tudo isto somado me fez olhar com novos olhos para a 
Faculdade. Fiquei com vontade de retornar, talvez antes eu estivesse 
apenas cansada e o cansao me fez ver as coisas distorcidas.
Agora era "vai ou racha". Terminaria o sexto ano.
Tive a grande sorte de pegar uma Panela muito boa, entrosada, 
responsvel. Maravilhosa. A adaptao foi quase imediata, sem dvida 
muito melhor do que com a anterior. Felizmente agora tinha um bom 
grupo de trabalho e algumas pessoas que, como eu, eram bastante 
adeptas do riso. No importava o que carregava na alma. Ainda existia 
um pouco de criana em mim. Estar perto deles fez-me lembrar um 
pouco dos meus antigos tempos de menina. Eu adorava uma 
baguncinha, uma palhaada, uma brincadeira. Quem me conhece, sabe 
disso. Se me deixassem  vontade, meu natural era ser alegre.
Na hora do almoo ns nunca falvamos dos doentes, mas 
sempre de outras coisas. E ramos, ramos a mais no poder. Era at um 
riso nervoso, puramente para espantar o estresse, liberar as profundezas 
contidas do ser (e tambm algumas endorfinas).
Uma vez, no meio do riso comecei a chorar, no sabia nem por 
qu. E depois voltei a rir, no meio do choro.
Uma das minhas colegas, rindo tambm, comentou:
 Acho que voc no est muito bem, hein?!
Mas como rir era uma verdadeira Terapia.................... vivas ao 
riso!
Em abril daquele ano tive uma perda importante, o falecimento de 
um amigo que tinha AIDS e que eu vinha acompanhando espiritualmente 
h um bom tempo. Grande parte dos meus problemas em casa foi por 
sua causa, mas quando ele finalmente morreu foi praticamente 
impossvel que eu me conformasse com aquilo.
Eu estava comeando o estgio mais puxado do sexto ano, o 
Pronto-Socorro Cirrgico. Durante trs semanas podamos esquecer o 
que era descanso no sentido literal da palavra. Ali naquele lugar s havia 
cama para os Mdicos mais graduados. Para os internos  ns  no 
havia nem sequer uma cadeira. Sinal que, ns caovamos, espera-se 
que no PSC voc sequer pense em sentar! Alis, de madrugada, quando 
a exausto era demais... tinha o sof...
E me afundei no servio para anestesiar os sentimentos ruins.
No entanto fiz um bom sexto ano.
Uma vez, quando eu estava de planto na chamada "Retaguarda" 
do Pronto-Socorro da Clnica Mdica, uma espcie de semi-intensiva que 
variava o nmero de leitos de acordo com o prprio movimento do PS, 
recebi sincero elogio de um dos Assistentes que foi passar a visita 
comigo.
Na verdade, quem passava a visita era eu, isto , falava sobre 
todos os pacientes internados e discutia com ele as diretrizes para 
conduzi-los o resto do perodo. Eu estava sinceramente ligada nos 
pacientes, interessada em aprender e, ao final da visita, diante dos 
comentrios que eu mesma fazia dos doentes e das condutas, ele disse:
 Muito bem. Voc est com uma boa viso de Clnica!
Passei feliz o resto do planto por causa daquilo. Era bom ser 
reconhecida nos meus conhecimentos. Fui dormir tarde, embalada pelo 
som dos dois "Birds" que insuflavam ar nos pulmes dos meus doentes. 
Se o som mudasse, acordava imediatamente.
Em outras duas ou trs ocasies, pessoas diferentes comentaram 
sobre a facilidade que eu tinha com os procedimentos cirrgicos.
 Voc tem mo boa, firme!  comentou uma vez um Residente 
que me ensinava a passar um tipo de cateter endovenoso: o intracath.  
Voc devia fazer Cirurgia!
E isso no era cantada.
Uma Assistente da Obstetrcia falou mais de uma vez a mesma 
coisa, que eu tinha uma mo privilegiada. E que os meus pontos ficavam 
bonitos!
Talvez fosse por causa do piano, a gente aprende a ter um bom 
controle dos dedos, acho que era isso! Mas uma outra coisa que ajudava 
era o fato de eu ser muito calma para fazer esse tipo de coisa. 
Normalmente ouvia antes as instrues e fazia sem medo de errar 
porque, se errasse, o erro tambm faz parte. E normalmente me dava 
bem.
At mesmo Mayra, que j era Residente, uma ou outra vez 
elogiou, ao me ver com o livro de Clnica Mdica debaixo do brao:
 Voc gosta de estudar, n? T sempre com esse livro!
Ela foi sempre minha amiga. Na verdade, uma das minhas 
melhores amigas, algum de quem nunca tinha me distanciado. Nessa 
poca eu compartilhava praticamente tudo com a Mayra, com o Edlson. 
No me afastei deles mesmo durante o tempo em que estive com a 
matrcula trancada. No fosse essa vlvula de escape, a presena 
destes amigos, nem sei...
Embora parecesse que eu tinha conseguido dar a volta por cima, 
afinal retomara os estudos e, mais do que isso, estava indo bem, s 
vezes tinha uma recada. Eram momentos de profunda tristeza, e 
desnimo, e dor, e solido. Um profundo desejo de morrer me 
assaltava... mas eu jamais teria coragem de fazer algo contra mim 
mesma.
No entanto podia sumir por um tempo, esquecer, apagar... quando 
tudo parecia insuportvel demais e eu nem sabia por que, quando estar 
perto daqueles que sorriam parecia ser indescritivelmente doloroso.....
No segundo semestre daquele ano o Brasil ganhou a Copa do 
Mundo. No assisti ao jogo. Estava no meu quarto, dormindo, depois de 
uma boa dose de vinho e comprimidos para dormir. Naquele dia tinha 
visita em casa, nem sei se ficaram sabendo, muito menos o que 
pensaram. No mnimo, que eu era uma desequilibrada. Perdi um dia de 
Faculdade, nem consegui acordar, e isso me rendeu um planto extra. E 
s. A vida continuava. Meu pai no me falou nada, acho que ele levava 
aquilo como uma afronta pessoal.
Eu queria deixar de sentir aquela dor. Aquele desconforto. Aquela 
decepo. Aquela solido to intensa. Aquele sentimento horrvel de 
desvalia! Que aparecia do nada... e tambm ia embora sem motivo 
aparente.
Eu achava que a maior parte das vezes tais sentimentos ruins 
eram fruto das brigas que iam e vinham dentro de casa, vez aps outra, 
por motivos que j nem entendia. Meu amigo tinha morrido... ele j no 
era causa de desavenas, ento... que estava acontecendo? Que motivo 
podia ser to forte assim?! Eu tinha retomado os estudos. Mas no era 
perfeita! Nunca poderia ser perfeita, ser que no podiam me dar um 
desconto?
Eu sei que errei em muita coisa, briguei, desrespeitei, bati o p. 
Mas... eu tambm no compensava tudo isso, de uma certa forma? No 
virava as noites na rua, no aparecia grvida em casa, no usava 
drogas, no bebia, no namorava, quase nunca chegava tarde, e quando 
chegava, avisava. Alm disso, era um motivo de orgulho aparente, no 
era? Afinal... estava prestes a formar-me Doutora por uma das melhores 
Faculdades.
O que mais? Quanta perda...! No valeu a pena tanta desavena. 
Quanta vida perdida. Quanta mgoa. Mas no era s isso... qual seria a 
causa maior que tanta angstia?
O resultado disso: quer fosse verdade, ou no, eu me sentia 
excluda, julgada e, pior do que tudo: condenada. Nada que eu fizesse 
poderia me redimir.
Sentia muita culpa. Culpa por tudo. Por querer, por no querer; por 
falar, por no falar; por agir, por reagir; por ser... por no ser. Nada 
parecia estar bom.
Que pena. Ns tnhamos tudo para dar certo. Para ir bem, de 
vento em popa. Eu amava meus pais. Eles me amavam. Mas alguma 
coisa saiu errada. Muito errada. E j no havia como descobrir o que 
tinha dado errado.
* * * *
Essa histria  muito mais comprida, muito mais cheia de detalhes 
e muito mais profunda do que pude narrar at aqui. Mas isto  o 
suficiente.
Eu no sabia que algumas das facetas da minha personalidade 
estavam sendo marcadas. De um lado, elas foram marcadas por Deus. 
No futuro eu teria capacidade de viver sob grande presso, conseguiria 
caminhar e ir adiante com perseverana, mesmo a despeito das 
circunstncias, das dificuldades, da dor e da tristeza. Esse trao de 
carter precisaria existir.
De outro lado, embora sequer suspeitasse, minha vida estava 
sendo tambm marcada pelo inimigo. O motivo? Levaria ainda um bom 
par de anos para que ele me fosse revelado.
E foi exatamente assim que cheguei quela Igreja l para os lados 
de Perdizes.
* * * *
Capitulo 1
Mayra, que j estava formada h quatro anos, vinha freqentando 
aquela Igreja em Perdizes h algum tempo e garantiu-me que valia a 
pena conhecer. Quem sabe no dava certo de freqentarmos juntas?
Fui. Estava na hora de fazer as pazes com Deus, e no queria 
mais freqentar a antiga. Num domingo, apareci. Era um lugar grande 
freqentado por gente, na maioria, de classe mdia, bem apessoada. O 
Louvor foi bom. No me recordo da pregao, mas o fato da minha 
amiga estar ali do lado era o que realmente contava.
Mas naquela primeira vez as pessoas no me pareceram 
interessantes, nem eu queria conhecer ningum. No entanto, havia a 
possibilidade de comear um aconselhamento com um dos Pastores. 
Mayra tinha falado muito bem dele. E eu nunca fugi disso, ao contrrio. 
Sempre busquei muito aconselhamento, sempre busquei estar perto 
daqueles que podiam ajudar-me a balizar a vida. Pena que no era 
sempre que pessoas estivessem  disposio.
Ela apresentou-me o Pastor William logo naquele primeiro 
domingo e ele percebeu, pela minha cara, que o negcio deveria ser 
srio. Mayra j tinha dito que ia trazer uma amiga que estava precisando 
de ajuda. E ele disse logo:
 Vamos comear o quanto antes. No vamos deixar passar mais 
tempo. Ns estamos aqui para te ajudar  a voz dele soou bondosa, at 
paternal.
Quase abri as lgrimas ali mesmo, mas me contive a tempo. 
Marcamos ento o horrio e eu realmente fui nas datas marcadas. O 
Pastor William costumava atender com um outro colega na sala, o Pastor 
Ronaldo. Era prudente essa atitude por isso no me incomodei, ainda 
que aquele outro fosse um pouco seco. Meu discurso era sempre o 
mesmo. O grande n na minha vida era um s! E no se tratava 
exatamente do problema com a Medicina pois, no momento, a alegria 
pela proximidade da Formatura me mantinha sob controle.
A questo era aquela mesmo: eu s queria conseguir resolver o 
conflito familiar e viver em paz! Alis, "paz" era uma palavra que no 
fazia parte do meu vocabulrio h muito tempo, embora em tudo 
procurasse fazer o meu melhor. Era difcil entender porque Deus no me 
atendia, porque no me ajudava, porque aquela situao no mudava, 
ano aps ano.
Passei a freqentar os Cultos e esforcei-me em dar a volta por 
cima. Essa foi sempre uma caracterstica minha. Eu dificilmente me 
deixaria sucumbir. Meu corao podia estar arrasado por dentro, mas por 
fora eu continuava levando a vida. Tinha meus amigos e meus afazeres. 
Uma hora tudo iria se acertar. Pelo menos eu assim esperava. Fosse 
como fosse a tempestade, eu me esforava para sair dela!
Fui conhecendo pessoas na Igreja, enturmando-me na medida do 
possvel. A comeou a ficar gostoso, porque os relacionamentos  que 
deixam tudo mais colorido. Um dia fomos todos ao Teatro assistir 
"Carmen". Isso foi pouco depois que Mayra comeou a namorar um 
moo da Igreja. Ela veio me contar a novidade certa tarde, ali mesmo na 
rua, na calada em frente  Igreja. Eu estava encostada em um dos 
carros estacionados na guia. Cruzei os braos e fui sincera:
  Puxa, fico contente por voc, Mayra... mas muito chateada por 
mim.  disse sem muitos rodeios.  Voc sabe, n?
Ela sabia, melhor do que ningum. Entendeu. Eu estava com 25 
anos recm-completados e j duvidava no meu ntimo de que Deus 
tivesse realmente um companheiro separado para mim. Mas quis saber 
os detalhes, curiosa:
 E a? Quando  que vocs comearam?
Mayra foi contando e eu fiquei feliz por ela. Muitas vezes ns duas 
batemos papo falando sobre os nossos sonhos de namorados, 
casamento, filhos.
 E quando  que eu vou conhecer o dito cujo, hein?
 Ah, hoje! Hoje ele vai estar a! Era meados do ms de agosto e 
o tempo logo comearia a esquentar. Ficamos
conversando ali na porta na Igreja at a hora do Louvor. Ento 
entramos e participamos do Culto.
Naquele dia, depois que fui devidamente apresentada ao 
namorado da Mayra, ns estvamos por ali mesmo conversando com 
outros amigos, fazendo parte do burburinho e do passa-passa de gente 
no final da pregao. Ento chegou o Alberto. Ele era uma das pessoas 
que me ciceroneavam na Igreja, com a Mayra, para me ajudar na 
integrao com os outros. No fazia muito tempo ns tnhamos ido juntos 
a uma festa na casa de um casal de diconos. Ele era muito simptico 
comigo, mas veio com um pedido impossvel de atender:
 Sabe o que ?  e comunicou-me que estava tentando ajudar 
um rapaz da Igreja cujo pai vinha doente, internado numa das UTIs de 
minha Faculdade.
 Ele no est aqui hoje, seno te apresentava. Ser que dava 
para voc passar l de vez em quando? Fazer uma visita para o pai 
dele?
Era impossvel. No era corpo mole, no. Era de fato impossvel. 
Humanamente falando, eu estava completamente sem tempo. 
Principalmente porque o lugar onde estava internado o pai dele ficava 
tremendamente distante de onde eu passava os meus dias e noites.
 Pxa... sem chance! Se isso tivesse sido h dois meses, at 
que teria tempo. Mas agora estou diametralmente oposta! Me desculpa, 
Alberto...
Eu no queria recusar, mas tinha pela frente os blocos de "pior" 
fama na Faculdade. Isto , aqueles que "arrancavam o couro" dos pobres 
sextoanistas que j estavam com um p para fora da Graduao e com o 
outro dentro da Residncia Mdica.
 Ah! Tudo bem, ento. Eu pensei que ficava fcil.
 Ficaria... se eu estivesse mais perto. Mas estou mesmo muito 
longe. No tenho tempo para sair. No me custaria nada, estou at 
acostumada a visitar os doentes com o pessoal do grupinho de 
evangelismo, mas...
Ele me tranqilizou.
 No esquenta, no. Tem gente que est indo!
Depois disso o tempo voou, nem pude estar todos os domingos no 
Culto por causa dos plantes. Deu para ir s uns dois domingos naquele 
ms de agosto. Ento entrou o ms de setembro. Eu j tinha at 
esquecido do tal rapaz com o pai doente.
Mas num dos domingos de setembro, um dos Pastores avisou todo 
mundo, antes do incio do Culto:
 Antes de comearmos a nossa pregao de hoje quero dar 
oportunidade para que o Eduardo venha at aqui. Nosso irmo me pediu 
que abrisse este espao porque ele queria agradecer publicamente  
Igreja pelos prstimos que recebeu durante a enfermidade do seu pai  
e o Pastor fez um gesto amigvel com a mo.  Pode vir aqui, Eduardo!
Estiquei o pescoo do lugar onde eu estava sentada ao lado de 
Mayra e mais alguns conhecidos.
 Ah! Esse era aquele que o Alberto falou, n?
  ele sim. Voc no o conhecia?
 No, no houve oportunidade, eu no podia ir visitar o pai dele. 
Parece que ele faleceu, no foi?
 , faz uns dias, avisaram a Igreja... Eu estava um tanto 
condoda com a situao. "Coitado", pensei eu.
Ento vi uma cabea que deslizou ali na frente, ao longe, pelo lado 
direito. Ele subiu ao plpito aceitando o microfone que lhe estenderam e 
falou com voz firme, sem muitas delongas, mas em tom que revelava de 
fato um sentimento de gratido:
 Realmente eu queria estar agradecendo pela dedicao de 
alguns irmos, por toda a colaborao que deram  minha famlia. Deus 
levou o meu pai, mas estamos em paz, com o corao tranqilo, 
sabendo que ele foi liberto das suas dores. E agradeo tambm a todos 
vocs, pelas suas oraes, pelas palavras de incentivo, pelo carinho da 
Igreja.
Enquanto Eduardo falava, eu fiquei olhando longamente para ele. 
Observei-o atentamente quando entregou de volta o microfone e desceu. 
Eu o segui com os olhos at que se sentasse, desaparecendo da minha 
vista.
Alguma coisa nele mexeu comigo.
"Puxa, que rapaz simptico esse... realmente foi uma pena que 
no pude fazer nada para ajudar. C pra ns: teria tido a oportunidade de 
conhecer o bambino! E bem simptico, bonito! Realmente, realmente....  
uma pena!"
Acabou o Culto. Quando ia saindo ao lado de Mayra, depois de um 
bate-papo rpido com o pessoal, vi Eduardo outra vez, cercado por 
vrias pessoas numa roda. Olhei de longe, e fui embora.
Mas dali para frente eu estava sempre de olho nele. E comentava 
com Mayra, entre risos:
 Esse Eduardo  uma graa!
Mas no houve nenhum ensejo para qualquer aproximao.
Foi assim at uma certa tarde de sbado, quando eu estava na 
Igreja participando do ensaio do coral. Cantar em corais sempre foi um 
dos meus fracos, por isso quando avisaram da Cantata de Natal, achei 
um espao para vir participar tambm. Troquei meus plantes, ajeitei 
meu horrio de forma a ter a maior parte dos sbados livre. No resisti 
mesmo, eu gostava muito de cantar. Vide que eu, Mayra, Edlson e Cris 
continuvamos cantando no Hospital.
Outro motivo para participar era o fato de que aquilo me ajudaria 
mais ainda a entrosar-me depressa com o pessoal.
E bem que a gente se divertia! Eu era contrai to. No havia muitas 
contraltos, e nem todas realmente tinham vocao para o negcio. Mas 
todo mundo estava se esmerando, ia realmente ficar lindo! At porque 
aquele tenor que destoava dos demais, cantando muito alto, j parecia 
ter sido enfim domesticado. E a gente j no ouvia a voz dele 
sobressaindo por cima das outras. Que legal!
Estvamos orgulhosos da nossa Cantata! Aquele foi um dos 
primeiros ensaios em que realmente nossa voz ressoou bonita nos ares 
do grande salo vazio da Igreja. Como o cho era de cimento, sem 
carpetes, e as paredes estavam nuas, isso ajudava mais ainda a fazer o 
som ressoar.
Quando estvamos quase no fim do ensaio, quem  que eu vejo 
entrar no enorme salo? Uma figura j conhecida. Bem, conhecida de 
vista. Era Eduardo que vinha chegando, sozinho, e sentou-se l no 
fundo, numa das ltimas cadeiras. E ficou quietinho escutando.
No demorou muito e fomos dispensados pelo Pastor William (que 
tambm estava dando uma de maestro). Logo o som de canto foi 
substitudo pelo barulho de vozes e risadas do pessoal, em grupos, 
animado.
Conversa vai e vem, eu estava numa rodinha com o Alberto, a 
Alicinha e a Car, que usava um enorme brinco com uma pena de arara. 
E mais um ou dois. Mayra no participava do coral, portanto nesse dia 
ela no estava. Alicinha tinha me convidado para ir at sua casa aps o 
ensaio, ia reunir um pequeno grupo para jogar conversa fora e comer 
pizza. Eu j havia aceitado, de bom grado, disposta a aproveitar um 
pouco com o pessoal.
Vi que Eduardo rodava no meio das pessoas com aparente bom 
humor, rindo e sorrindo abertamente. Eu olhava de vez em quando, mas 
no fiz nenhuma meno de forar um encontro. J sabia por experincia 
prpria que esse tipo de coisa no d muito certo. Nada de arrumar 
confuso!
Mas, de repente, sem mais essa nem aquela, Eduardo rodopiou 
tanto que acabou chegando bem ali no grupo em que eu estava.
 E a, Beto?  veio ele falando e batendo no ombro do Alberto.
 Fala, Edu... tudo em cima?
Ele no precisou de convite para chegar, muito menos para ficar 
conversando na nossa roda. Era extrovertido e muito dado.
" bonito esse moo!", eu continuava admirando, mas totalmente 
na minha. Poupei-me de fazer uma entrada triunfal e exagerada, de 
demonstrar interesse de graa. Continuei conversando como se nada 
fosse.
Depois de alguns minutos, o Alberto virou para a Alicinha e 
comentou:  Precisamos ir, no?
 Pois ! V pra mim se vai mais algum? ! Eu s preciso falar 
com a Alessandra um minutinho!
 Nossa! Cad o Pastor William?  exclamou a Caro balanando 
a pena de arara  Tenho que falar com ele tambm.
Nem sei como o pessoal debandou to rpido, em segundos todo 
mundo tinha mais o que fazer e saram deixando-me frente a frente com 
Eduardo. Parecia at combinado, mas foi totalmente espontneo. E to 
rpido que nem eu nem ele soubemos o que fazer, visivelmente 
"abandonados".
Antes que pudssemos dizer qualquer coisa, o Alberto, num gesto 
casual, voltou o corpo na nossa direo como quem se esqueceu de 
algo. Logo aps ter dado alguns poucos passos, olhou para trs e 
perguntou cortesmente:
 Vocs j se conhecem?
Sorri ao mesmo tempo em que Eduardo. E respondemos em coro:
 No! No nos conhecemos.
 Boa hora para se conhecerem, ento!
E fez as honras da casa. Alberto continuava no papel de bom 
anfitrio. Mesmo depois da festa na casa dos diconos, sempre que 
podia, continuava a apresentar-me devidamente a todo mundo. Pois ele 
era do tipo que "conhecia todo mundo". Agora, para minha alegria, ele 
dava uma totalmente dentro mesmo sem saber!
Pediu licena e disse que j voltava. Ele tambm ia  casa da 
Alicinha.
"Que deixa, hein?!!!", refleti, ao mesmo tempo em que me voltava 
para o jovem  minha frente.
Comeamos a conversar e, para ser sincera, recordo-me muito 
pouco do que dissemos um ao outro logo de cara. Mas certamente que 
no me esqueci da sensao diferente, muito rpida e sutil, que invadiu 
meu corao como um sopro de afirmao e logo dissipou:
"Mais tarde eu vou dizer que foi o Esprito de Deus que nos 
colocou frente a frente nessa Igreja..."
Lembro-me desta frase que me brotou na mente ainda antes que 
eu pudesse armar o melhor sorriso e uma boa frase de incio. No sou de 
ter esse tipo de coisa, foi at esquisito. Mas no dei bola.
Trocamos algumas amenidades. Ele perguntou h quanto tempo 
eu estava na Igreja, se estava gostando, coisa e tal. Eduardo j no era 
to novato quanto eu, freqentava ali j havia mais ou menos um ano. 
Depois ele perguntou algo sobre se eu trabalhava, ou estudava, e ficou 
sabendo que eu estava para me formar na Faculdade de Medicina. Eu j 
sabia que este tipo de informao s vezes assustava um pouco os 
rapazes que no eram do meu crculo. No queria ter dito logo de cara, 
mas ele perguntou... ento tive que responder.
Eduardo no pareceu espantado nem coagido diante daquilo, 
achou muito legal e perguntou logo em qual Faculdade eu estudava.
Eu expliquei, e uma vez tocado no assunto Medicina, foi um passo 
para ele falar do pai que tinha estado internado no Hospital. Eu comentei 
que j sabia, dei minhas condolncias da melhor forma.
 Mas eu estou bem agora  reiterou Eduardo.  Ele estava 
sofrendo muito, e foi melhor assim. Tenho um amigo que  Mdico, ele 
est no primeiro ano da Residncia e estava estagiando na UTI neste 
perodo. Nos ajudou muito! Ser que voc no conhece ele?
 Ah! Bom... a Faculdade  grande.  difcil conhecer as pessoas 
pelo nome, a no ser que sejam da nossa prpria turma. Qual  o nome 
dele?
 Alosio Aretti.
 Nossa, mas que mundo pequeno! Ele se formou no ano 
passado, no foi? Eu conheo, sim, foi da minha turma...  que eu 
tranquei a matrcula, sabe? Ento fiquei um ano atrasada. No  ele que 
namora uma chinesa?
 Isso mesmo! A Yi! Pxa, que coincidncia. Ele  meu amigo h 
muito tempo, foi meu aluno de Arte Marcial.
 Arte Marcial? Voc tem alguma coisa a ver com isso? Voc 
pratica?
 Pratico Kung Fu.
 Mas que legal! Srio que voc faz isso mesmo?
 Lgico que  srio!
Continuamos conversando um pouco sobre aquilo. Mas depois ele 
acabou por tocar num assunto pouco interessante. Para mim,  claro! 
Pois comentou da noiva. Alguma coisa sobre comprar, ou ter comprado 
um coelho para ela, que morava em Ribeiro Preto. O coelho era o que 
menos importava, mas aquela histria de noiva.....!
 Ah, que jia!  comentei, toda sorridente e me fazendo de tola. 
No deixei transparecer minha decepo em hiptese alguma.
"Pxa... eu que estava sendo muito inocente em pensar que um 
pozinho desses ia estar dando sopa por a at agora!"
E fiquei frustrada.
No demorou muito e Alberto voltou para avisar-me que um casal 
que ia  casa da Alicinha no poderia mais nos acompanhar no 
programa e que, portanto, podamos nos aviar.  OK! A ele se voltou 
para Eduardo:
 Voc no faz parte do coral e apareceu aqui de gaiato, agora 
bem que podia vir junto com a gente, no quer?
 Ah! Alberto, no sei, no... eu precisava ficar em casa um 
pouco, descansar...
 Que  isso? No vai ficar em casa sozinho, no! Em pleno 
sbado? Conta a que programo que voc descolou pra hoje! Ver o 
"Sabado Sertanejo"? Vamos com a gente! Espairece um pouco a 
cabea, vai! Nada de ficar sozinho curtindo fossa.
Ele no demorou muito pensando, e concordou.
 T bom, fui convencido. S vou at em casa, ento, e j volto.
 Vai at em casa?!   estranhei.
  que eu moro aqui em cima mesmo, s algumas casas pra 
cima, ali na esquina da rua.
 Ento vai l, avisa sua me que ns estamos te esperando.  
retrucou o Alberto meio afoito. E j sumiu de novo.
Eduardo despediu-se de mim com educao e falou:
 Isabela  o seu nome, n? At mais, ento, a gente se v. Voc 
vai tambm, n?
 Vou. Vou!
Naquele momento realmente eu acreditei que ele estava indo dar 
satisfaes  sua me. Mal sabia eu que h muito Eduardo no tinha 
desses hbitos, mais ou menos uns 75 anos! Muito mais tarde fiquei 
sabendo a sua verdadeira inteno: pentear o cabelo, escovar os 
dentes... estar apresentvel para o caso de "pintar uma oportunidade".
Olha s se pode! Mesmo convertido, Eduardo ainda guardava 
aquela maneira antiga de pensar e agir. Como diziam seus amigos, " 
melhor estar sempre prevenido". Ele subiu a rua pensando:
"Minha primeira impresso? Bom...  uma moa bonita.  Mdica, 
 crente! Pode ser um bom partido".
E acrescentaria, anos mais tarde:
  verdade que no reparei demais, estava chateado por causa 
do meu pai. Mas estava vivo, n?!
E eu nem desconfiei. Tambm, desconfiar do qu? Ele era noivo, 
no era?
Justamente por isso tratei de ir saindo logo. Combinei com Alberto 
que seguiria o carro da Alicinha, ela estava lhe dando carona e imaginei 
que Eduardo tambm iria junto com eles. Nem fiquei esperando na porta 
da Igreja porque no queria forar a barra para que Eduardo viesse 
comigo. Afinal, aquela histria de noiva era fria! Eu no queria nenhum 
tipo de encrenca para o meu lado.
 T bom, esperamos voc ali na esquina, segue o Escort preto!
 Falou!
Fui pegar o meu carro: um fusquinha vermelho que era uma 
verdadeira relquia de famlia, com quase 30 anos de uso, e que estava 
parado na descida l embaixo.
Quando eu estava descendo a rua aps ter me despedido de 
algumas pessoas, reparei que Eduardo tinha surgido nem sei de onde, e 
vinha atrs de mim, todo lampeiro. E convidou-se sem cerimnia. Na 
verdade, nem se convidou; antes afirmou, sorridente:
 Vou com voc.
No me dei por achada. Respondi sem pestanejar:
 Tudo bem vir comigo, mas no sei se voc vai achar o meu 
carro muito confortvel. Voc pode ir com eles!  e refleti: "Por que  
que ele no vai com os outros?"
 No.  disse Eduardo.  Seno voc vai sozinha.
 T bom. Vamos l. Ele est ali embaixo, na esquina!
A partir da comearia uma sucesso de fatos que, certamente, 
no fosse a interveno Divina... no teriam resultado em coisa alguma! 
Bem mais uma sucesso de desencontros do que de encontros.
Era o incio de uma noite quente na boca da Primavera.
No caminho a conversa continuou, e acabamos de novo 
mencionando o Alosio, nico elo entre ns. Mas eu no estava a fim de 
falar de Alosio, ento perguntei do Kung Fu. E Eduardo foi falando e 
falando do que parecia ser uma grande paixo. Contou que praticava h 
muitos anos, contou dos ttulos conquistados. E que seu sonho era ter 
uma Academia.
 Pxa! Muito jia voc ter ganhado estes campeonatos! Ento 
voc deve ser bom mesmo, hein?  perguntei com curiosidade.
 Agora estou um pouco fora de forma. Tive que largar durante 
um tempo por causa do servio, mas estou retomando.
Eu, sinceramente, achei mesmo muito jia tudo aquilo. E no foi 
para fazer mdia. Eu apreciava a beleza do Kung Fu, conhecia dos 
mesmos filmes de TV que Eduardo j tinha cansado de ver. Eu tambm 
tinha praticado tae-kwon-do. Da foi a vez dele quase no acreditar. Fez 
a pergunta visivelmente espantado:
 Ento voc gosta mesmo disso? Est mesmo falando srio!
 U! Por que a surpresa?
 Xiii,  porque em casa todos detestam! At mesmo a minha 
noiva. Depois que ganhei os ttulos estava classificado para disputar o 
Mundial em Taiwan, no deixa de ser uma conquista, n? Mas eles nem 
ligam pra isso. Logo que comecei, tive que quebrar algumas lanas para 
levar adiante o Kung Fu.
 Pxa... mas que coisa.... era para todos eles terem orgulho de 
voc.  achei super esquisito, mas no me cabia fazer qualquer 
comentrio.  Mas e a? Voc foi para Taiwan?
 No tive patrocnio.  ele respondeu meio jururu. E mudou de 
assunto.
Mais tarde eu viria saber porque lhe faltara o patrocnio.
S ento reparei melhor na cala de moletom surrada e nas 
sapatilhas design chins. Dei uma risadinha significativa.
 Pelo visto voc estava praticando antes de chegar  Igreja 
hoje...
 Pois , costumo treinar bastante aos sbados. Mas hoje quando 
cheguei escutei o coral cantando. Estava bem bonito, sabia?
  mesmo, ? Dava pra escutar l da sua casa?!
 Direitinho! Da perdi a vontade de ficar em casa, resolvi subir 
at aqui. s vezes eu fao isso, sabe? Sempre sei o que est rolando na 
Igreja porque escuto tudo l de casa!  e riu.
Eduardo estava sempre rindo, sorrindo. Era simptico. O que ser 
que ele fazia? Ento perguntei.
 Voc trabalha com qu?
 Sou Analista Financeiro numa Multinacional  respondeu ele.
Eu nem sabia o que era aquilo. Minha cultura fora do mbito da 
Medicina no era das melhores.
 E que Faculdade voc fez?  a pergunta era bvia.
Ele me explicou da melhor maneira que pde porque no tinha 
curso superior. Naquela altura no me convenceu muito, ainda que 
Eduardo procurasse ser muito convincente. Pelo menos foi sincero.
 Eu at entrei na Faculdade, sabe? Queria muito fazer 
Administrao de Empresas, mas eu ia me casar na poca... e minha 
noiva no me incentivou a levar adiante essa histria.
Outra vez me custou compreender aquela postura. At franzi as 
sobrancelhas.
 Pxa, mas o que uma coisa tem a ver com outra? Desde 
quando estudo  uma coisa suprflua? Que pena!...
 Pois ! Mas no me faz muita falta...
No futuro eu veria que realmente ele estava falando a verdade. 
No lhe fazia muita falta mesmo. Eduardo tivera uma maneira muito 
peculiar de aprender tudo que era necessrio para desempenhar bem 
sua funo. Como eu mesma viria a constatar.
 E voc no pensa em voltar a estudar?
 Hoje j fica mais difcil, n?... Quando passa o tempo da gente 
fazer alguma coisa, ele no volta mais. Mas eu j aprendi o que 
precisava aprender.
A conversa continuou rolando sem paradas at a casa da nossa 
amiga.
Ela morava num lugar legal, uma casa bonita, espaosa, de bom 
gosto. Tinha at uma piscina no meio de um pequeno jardim cheio de 
plantas. Foi exatamente naquele lugar que ns nos acomodamos, depois 
de sermos recebidos alegremente pelo pai dela. Na varanda, sentados 
em cadeiras  volta de uma mesa, aquele foi um encontro extremamente 
agradvel.
Alicinha estava recebendo em casa um rapaz que tinha vindo da 
Frana, uma espcie de intercmbio. O objetivo de reunir o grupinho era 
justamente para que o francs pudesse conhecer melhor alguns 
brasileiros. O pai dela zanzou um pouco por ali, conversando 
amistosamente e fazendo as honras da casa. Ele me fez lembrar do meu 
pai, que tambm gostava de receber gente em casa, de oferecer uma 
bebidinha, fazer todo mundo se sentir bem recebido,  vontade.
Sinceramente falando... aquela noite teve um colorido todo 
especial! O clima estava diferente, gostoso, informal, acolhedor. As 
pessoas eram agradveis, a conversa foi agradvel, nos entrosamos 
muito bem, tudo estava muito bom. Conversamos, demos risada, falamos 
de tudo um pouco ao som suave de MPB, depois do Louvor.
Fazia calor, mesmo ali no quintal cheio de plantas. Quando 
chegaram as nossas pizzas comemos ao ar livre. A tnica da noite, 
durante todo o tempo, era confraternizar e estar juntos.
Foi gostoso demais! Mais tarde a conversa mudou de rumo e cada 
um acabou falando um pouco de si mesmo, do trabalho, dos estudos, 
dos planos para o futuro. Todos eles eram um pouco mais velhos do que 
eu, e cada um tinha uma vida bem peculiar, bem diferente da minha.
Alicinha dava aulas particulares de lnguas: ingls, francs e 
italiano. Fazia tradues tambm. O Alberto era psicomotricista. O tal 
francs tentava enrolar um portugus bem falho e no conseguia 
terminar as frases, ento Alicinha ajudava. Parece que, assim como ela, 
ele tambm era professor.
Mas Eduardo, sem dvida, pelo menos para mim, era o mais 
interessante.
Lembro-me que enquanto ele falava de si mesmo, primeiro do 
servio e depois dos Mestres de Kung Fu, eu admirava o seu rosto e me 
convencia definitivamente de que ele era uma pessoa muito interessante!
Educado, bonito, desenvolto, simptico... mas que coisa! Ele tinha 
uma noiva, ento nada de ficar animada! S de pensar em arrumar um 
interesse qualquer por algum compromissado j me fazia estremecer. 
Por isso eu o tratei normalmente, da mesma maneira que os demais, e 
nem sentei ao lado dele. Fiquei perto da Alicinha.
Eduardo falava com tanto entusiasmo e com tanto conhecimento 
do Kung Fu que, mesmo se de antemo eu no gostasse daquilo, sairia 
gostando, s pela maneira como ele falava.
Depois algum falou alguma coisa sobre a sua namorada. 
(Perdo, a noiva)! Eles j a conheciam porque mais de uma vez ela tinha 
vindo visitar a Igreja junto com Eduardo. Da procurei prestar bastante 
ateno quando o Alberto perguntou, ingenuamente, quando  que ele 
casava. Eduardo falou, explicou, mas no ficou bem claro.
Em suma: ela estava em Ribeiro, ele estava aqui... havia uma 
longa distncia... portanto... e Eduardo logo mudava de assunto.
Sempre fui muito sensvel, de pescar as coisas no ar. A verdade  
que na minha mente ficou uma estranha dvida, uma sensao leve...
"Que esquisito esse jeito de falar... nem parece que ele gosta 
dela..."
Quem ama e est noivo e pretende casar-se deveria, pelo menos 
em tese, falar sobre a noiva com certo gosto. E ele nem mencionava a 
moa para nada. Parecia no ter prazer naquele assunto.
Mas, fosse como fosse... ele era noivo! E ponto final!
Tocava um CD bem gostoso, msicas do Caetano, da Gal, da 
Betnia. Depois que terminamos a sobremesa Alicinha acabou tocando 
um pouquinho de piano. Eu fui obrigada a enrolar tambm, apesar de 
que estava parada h mais de dois anos.
 Voc toca bem, hein, menina?!  elogiou Eduardo.
  s impresso. No est mais to bom quanto antes!
 Imagine se no est bom!  fez o Alberto com o jeito dele.  
Se eu sentasse nesse piano, ento voc ia ver s que coisa!
 Quer dizer que voc parou de estudar? Mas est to bom!
 Bom!! Voc tambm no acha que seu Kung Fu no  mais 
como antes, como voc mesmo disse? No falou que est destreinado?
 E estou mesmo!
 Pois comigo  a mesma coisa.
  verdade, os outros at podem se derreter, n? Mas a gente  
que sabe se est legal ou no o que fazemos.
Fiquei quieta, mas ele continuou puxando conversa enquanto a 
Alicinha voltava para o piano. Eu no queria dar muita trela. "Noivo, 
noivo, noivo, noivo!" Mas ele parecia gostar de conversar comigo. Ento 
continuou:
  que para estar em forma, as coisas vo muito alm do que a 
maioria pensa, no ?
Concordei.
 Acho que em se tratando do atleta deve ser at mais difcil, 
porque o corpo tem que acompanhar o ritmo. Eu no preciso treinar 
muita aerbica para tocar!
 Isso l  mesmo! Na poca das competies at a dieta  
fundamental. Pra mim era um sufoco ficar sem Coca-Cola, por exemplo! 
Mas tem umas outras coisinhas que ajudavam um pouco quando eu 
roubava na dieta.
 Ah, ? Como o qu, por exemplo?
 P!  e Eduardo sorriu com ar maroto.  P?... no entendi.
 . Umas droguinhas.
Olhei bem para ele. No parecia ter pinta de quem fizesse tal 
coisa, fiquei at admirada.
 Voc usou isso!
 Ah! Antes! Faz muito tempo. Agora eu sou convertido, n?
 Pois .  retruquei.  Faz muito bem.
O pessoal comeou a cantar um Louvor enquanto a Alicinha 
acompanhava no piano. Cantamos tambm, um aps o outro. Depois 
veio mais uma rodada de refrigerante e o pai da Alicinha ofereceu um 
licorzinho a todo mundo. Ento escutei o cachorro latindo no quintal. Sa 
para dar uma espiada nele.
Era um Pastorzo que estava preso atrs de um portozinho. O 
porto parecia pequeno demais para conter aquele cachorro enorme e 
cheio de maus bofes. Eu adorava animais, mas no cheguei muito perto. 
Logo Eduardo veio atrs e comeou a comentar algo sobre o cachorro. 
Fez algumas brincadeiras, e comecei a rir. Ele era engraado!
Novamente, muito mais tarde, eu acabaria por saber tambm o 
rumo dos seus pensamentos:
"Caramba... essa moa  at interessante. Tem o prprio carro, 
sinal que  independente. Gosto disso! Toca piano...  talentosa! Mas 
como  difcil de dar bola! Qualquer outra j estaria demonstrando um 
pingo de interesse, trocando uns olhares. Mas ela no me d bola. Que 
coisa!!"
Logo o pessoal estava de volta, vieram atrs da gente:
 Ah, vocs esto a!
Apesar de estar uma delcia aquele convido com o pessoal, 
comeou a ficar tarde e achei que era melhor ir me despedindo.
 Ah,  cedo!  falou a Alicinha.
 Tambm acho, mas no d. Tenho mesmo que ir. Seno acaba 
dando confuso em casa!
Como o francs no tinha que ir pra casa, e o Alberto tinha vindo 
de carona com a Alicinha, e Eduardo comigo... estavam os dois a p. 
Restava a possibilidade de voltarem comigo aproveitando a carona at 
uma parte do caminho.
 Ento ns vamos contigo, Isabela!  falou logo o Alberto.  
Voc pode nos deixar l por perto da Igreja?
 Claro!  respondi.  Vamos l!
Fomos todos descendo as escadas juntos. Na frente da casa, ao 
lado do pai, Alicinha explicou como fazamos para sair dali.  Entendi, 
fcil!
 Tchau!
 Tchau, tchau! E eu pisei no acelerador. Normalmente eu 
costumava correr um pouco, mesmo sem perceber, e Alberto logo se 
rebelou:
 Isabela, vai mais devagar, que eu quero chegar vivo!  ele 
chacoalhava no banco de trs depois que passei rpido sobre uma 
lombada meio encoberta.  Acho que  por isso que o Senhor no te d 
outro carro, sabia? J imaginou? Era capaz de voc no sobreviver!
Dei risada com gosto. Alberto tambm, Eduardo tambm. E fomos 
o resto do caminho conversando e rindo na maior alegria.
Tinha sido realmente uma noite como h tempos no acontecia. 
Deu mesmo para descontrair! S o tanto de risada que demos... e nisso 
todo mundo se conheceu melhor. Mas o melhor de tudo  que no tinha 
sido nada premeditado!
Especialmente no que se referia a Eduardo, fiquei com a 
conscincia super tranqila. Aconteceu porque aconteceu.
Comentei o quanto antes com Mayra.
 Ah, sabia da ltima, Mayra? Conheci aquele Eduardo to 
gracinha que eu j tinha te falado! Mas, puxa vida, que droga, ele tem 
uma noiva, que pena...
 Acho que eu at sei quem . Vi a tal uma vez com ele!
 Mas foi to estranho! Ele fala muito pouco da coitada, fala sem 
sentimento, parece uma coisa to fria! Ser que  s coisa da minha 
cabea? Parece que ele nem gosta dela, sabe? Algum que est em vias 
de se casar deveria falar da prpria noiva com mais alegria.
 Sabe que voc est falando... como eu disse, lembro dessa 
moa, um dia destes ela estava a na Igreja. Perguntaram do casamento, 
para quando que era. Ela ainda tentou brincar um pouco, falou alguma 
coisa do tipo: "Olha a, Eduardo. T vendo?" Alguma coisa nesse 
sentido. Mas ele nem respondeu, ficou roxo, super constrangido, e no 
fez comentrios. Parece mesmo uma coisa estranha.
Dei de ombros. Mas no resisti:
 E como  que ela ? Muito bonitona?
 Ah, eu no diria "bonitona"... ela  normal!
 Tambm, eu no tenho nada com isso! Para todos os efeitos, 
ele est noivo e eu no vou atrs de ningum.
Mayra concordou.
  Acho mesmo muito sbio da sua parte!  exclamou, 
sorridente, com conhecimento de causa.
Ela conhecia o meu lado romntico impulsivo-inusitado-
incontrolado. Algumas vezes ela tivera o privilgio de ver-me embevecida 
por algum, e sabia que eu no media muito as conseqncias quando o 
corao estava em jogo. Era meio maluquinha nesse sentido.
E eu me esforcei para no ficar pensando.
 * * * *
No final de semana seguinte, na Igreja, para variar eu estava 
conversando com Mayra e Car na porta, esperando o Culto comear, 
quando vi Eduardo descendo a rua. Logo estava ali pertinho. Ele 
cumprimentava as pessoas, a me viu de longe e acenou. Veio direto 
para o nosso lado.
 Oi, Isabela, tudo bem? Como foi a semana?
 A minha tudo bem. E a sua?
 Tudo bem tambm.
 Voc j conhece a Mayra?
Os dois sorriram rapidamente um para o outro. E Eduardo falou:
 Acho que de vista!
Ento, eu apresentei minha amiga devidamente. Ficamos 
conversando um pouquinho at que ele pediu licena para ir falar com 
outras pessoas. Nos prximos dois domingos ele agiria assim: chegava 
todo sorridente, solcito. Nunca me ignorava. Mas no dava tempo da 
gente trocar mais do que meia dzia de frases porque logo ele explicava:
 D uma licencinha, amiga? Eu preciso falar com aquela pessoa.
 Fica a vontade!  eu respondia sem deixar de sorrir, e sem 
aparentar nenhum desconforto.
Por que deveria me importar?
"Ele  noivo. No corro atrs de noivo. Pois ele que v falar com 
quem quiser, e eu com isso? Quem veio me cumprimentar foi ele!"
Apesar disso, aquela atitude me magoava ligeiramente. Eu era, 
para ele, aquilo mesmo: uma amiga, nada mais.
No futuro os pensamentos de Eduardo seriam desnudados:
" isso que eu tenho que fazer para ela vir atrs de mim. Dou uma 
trelinha, uma corda! E saio de cena. Tenho certeza que ela vem correndo 
atrs para puxar conversa!"
Era assim que ele pensava. Eu, ao contrrio, sequer cogitava 
nisso. O seu tiro saiu pela culatra, ele caiu do cavalo porque no fui 
puxar conversa. Pela primeira vez, a sua "tcnica" no parecia funcionar.
Ele estava jogando. Eu no.
Ento ia sentar-me, prestar ateno no Louvor que estava quase 
comeando. Acomodava-me no lugar de sempre, perto de Mayra. Nunca 
sequer mudei de lugar, procurando um mais estratgico.
Num certo dia, no muito depois do encontro na casa da Alicinha, 
Eduardo me largou sozinha depois de ter sido super simptico, como 
sempre. Foi falar com no sei quem. E eu no pensei mais em nada, 
sentei, fechei os olhos, comecei a cantar, a participar do Louvor. Mas 
ento senti algum encostar no meu ombro. Era Eduardo, que apareceu 
de repente com seu eterno sorriso. Eu estava sentada na ponta da fileira, 
mas Mayra rapidamente pulou uma cadeira e deixou propositadamente 
espao para que ele sentasse ao meu lado.
Depois de um tempo, ela cochichou.
 Ele estava ali pertinho, na outra fileira, e estava olhando para 
c. Ento fiz sinal para que ele viesse sentar com a gente.
 Voc! Sua espertinha.
Assim comeou meu relacionamento com Eduardo, de maneira 
bem natural, sem forar nada. Ningum planejou aquilo! Como Alberto j 
fazia parte do meu crculo de amizades, e Eduardo tinha ficado muito 
amigo dele por causa do seu pai, foi um passo para que todos ns nos 
enturmssemos. Alicinha tambm fazia parte do meu grupo de amigos 
mais prximos, assim como a Car e mais alguns colegas do coral.
Eduardo acabou sendo aceito naturalmente na nossa turma, pois 
se entrosava fcil. O fato de ser muito extrovertido ajudava. Alis, reparei 
que ele conhecia muita gente. Alis... gente at demais, para o meu 
gosto! Com isso quero dizer: mulheres at demais! Tinha em especial um 
trio de amigas que no desgrudava dele, e elas no me pareciam l 
muito confiveis. Entendam o que eu quero dizer sem que eu tenha que 
dizer. No eram confiveis. Era s dar uma olhadinha e sacar.
Um dia Eduardo apresentou-me uma delas. A Babi. Que estava 
treinando Kung Fu com ele no parque. Uma vez por semana.
 Ah.  mesmo?!  indaguei.
E minha vontade imediata foi convidar-me para ir tambm. Mas 
resisti em tempo, antes de dar mancada.
"Que bobagem  essa que voc est fazendo, dona Isabela? Esse 
rapaz  noivo!!! Enfia isso na sua cabea!"
A outra me observava. Deu para notar que ela no bateu muito 
bem comigo, mas procurou no demonstrar. Sei l o que pensava. Vai 
ver achou que eu ia ser sua rival! Porque estava na cara que ela queria 
curtir um pouco com ele. Fiquei na minha.
E Eduardo pensava consigo mesmo, desapontado:
"Tudo bem, a Babi sempre flertou comigo, mas provocar cimes 
parece que tambm no  o caminho com essa garota...".
Sinceramente... em momento algum achei que ele estivesse 
tentando despertar algum tipo de cimes em mim. Por que em mim? No 
era difcil perceber o quanto Eduardo era perseguido na Igreja. 
Descaradamente. E no somente as moas mais velhas iam atrs. At 
mesmo algumas adolescentes ficavam de cochichos e risadinhas quando 
ele estava por perto. 
Eu cochichava com Mayra, observando de longe:
 Parecem borboletinhas esvoaando ao redor dele! Ela meneava 
a cabea, concordando.
 So umas menininhas bobinhas, n?  Bobinhas, sim!Hum!
Aquelas que  treinavam Kung Fu com ele ali mesmo na Igreja eram 
especialmente as mais risonhas. A Igreja tinha um programa esportivo, 
uma espcie de escolinha de esportes. E convidaram Eduardo para dar 
aula. E  mas que estranha "coincidncia"  o grupo dele s tinha 
alunas!
Num futuro bem prximo eu viria a tirar um baratinho com ele por 
causa disso.   Onde j se viu? Nenhum varo da Igreja estava 
interessado na Arte da Guerra? Somente as doces menininhas?"
Por causa dessas e outras  que eu procurava me abster ao 
mximo e manter meu relacionamento nos padres puros da amizade. O 
jogo de gato e rato ficou naquilo. Eu pensava que eu era o gato (e, alis, 
fazia fora para no seguir os instintos felinos). Mas estava enganada, 
ele era o gato.
S que eu no percebi.
Foi assim durante um ms e pouco, talvez.
At que eu e Mayra resolvemos montar ali na Igreja, para o final do 
ano que se aproximava, a mesma pea que havamos encenado na 
Faculdade durante a Semana Cultural com a A.B.U, h uns trs anos. 
Tinha ficado muito bonita, legal mesmo. E era uma maneira de fazermos 
alguma coisa diferente para a Igreja, alm de nos divertirmos um pouco.
A pea precisava de oito participantes. Eu, Mayra, e mais seis. A 
Alicinha, claro. Alberto, embora convidado, no quis participar da pea. 
Achava que no era o seu meti. Mas indicou outros colegas, o Heliton e 
o Slvio. Pedimos autorizao ao Pastor William, que foi simples e 
categrico na resposta depois que explicamos do que se tratava.
 Eu confio no que vocs fizerem. O que fizerem, certamente ser 
bem feito. Podem montar a pea.
 Oba, oba, oba!!!  ns duas samos radiantes.
Talvez no fosse o melhor momento para aquilo. Mayra j 
trabalhava, mas eu estava quase no final do sexto ano. S que alguma 
coisa para ajudar a refrescar a cuca ia bem, sem dvida. Eu estava 
necessitada daquele refrigrio! De fato estava me adaptando bem  nova 
Igreja.
Ento ns nos reunimos. Eu, Mayra, Alicinha, Heliton e Slvio. E 
pensamos em que pessoas poderiam ser convidadas para fazer os 
outros personagens. Nessa ocasio ns estvamos passando o dia todo 
na Igreja, era um sbado e estava havendo uma conferncia evanglica. 
No intervalo, ns nos reunimos.
 Precisamos de algum para ser o personagem principal. Outro 
faz o papel de Deus, outro  o diabo. As outras cinco pessoas, que 
somos ns, tero cada uma a sua prpria cena.  expliquei com 
entusiasmo.  Quem vocs sugerem? Quem gosta de Teatro?
E fomos atrs dos outros participantes, conforme sugerido: o 
Mrcio e o Walter. Faltava um. J nem sei quem sugeriu. Mas acho que 
foi a Alicinha quem falou:
 Essa cena do esportista... quem sabe no pode ser algum outro 
esporte? Vocs estavam acostumados a fazer com um jogador de 
basquete, mas poderia ser um artista marcial, por exemplo. Da 
podamos convidar o Eduardo!
Fiquei quieta e deixei o pessoal decidir. Nem pus a colher torta no 
meio.
 E ser que ele  chegado nessas coisas?  conjeturou o 
Slvio.  No sei se ele tem jeito de quem gosta de Teatro!
 Mas no custa tentar!  reiterou a Mayra, sem perder a deixa.
Era a hora do almoo. A tarde haveria uma parte especial do curso 
na qual seramos divididos em grupos. Alicinha, Mayra e eu combinamos, 
ento, que acabando o curso iramos juntas bater na casa de Eduardo. 
No me culpei por aquilo, no tinha sido idia minha.
Meu grupo foi um dos primeiros a terminar, e fiquei esperando 
pelas duas. Mas no acabava, no acabava.... e o tempo estava 
fechando, j comeava a garoar. Eu no queria ir sozinha at l, mas 
diante do mau tempo no resisti e resolvi adiantar o expediente. Sa 
caminhando apressada os poucos metros que separavam a Igreja da 
casa de Eduardo.
Toquei a campainha um tantinho tensa. A garoinha estava fina e 
ventava um pouco. Foi ele mesmo quem abriu a janela da sala para 
receber-me com um sorriso:
 Ol, amiga! Que traz voc aqui?
 Oi, Eduardo! Tudo bem? Na verdade  rapidinho, essa chuvinha 
atrapalha e j estou indo. Vou direto ao assunto: tenho um convite para 
te fazer.
 Espera a que eu vou abrir a porta pra voc entrar.
 No, no!  recusei polidamente.  Est tendo um curso na 
Igreja e no vou demorar. Sabe o que ? Ns estamos pretendendo 
montar uma pea muito jia, e est faltando uma pessoa para fazer o 
papel do esportista. Se voc estiver a fim... poderia fazer uma 
coreografia de Kung Fu, eu acho que ia ficar muito bom!
Expliquei em rpidas palavras do que se tratava e vi que ele 
concordou sinceramente de bom grado. Ficou at que bem animado.
 Ah! Eu quero participar, sim! Que bom que vocs lembraram de 
mim.
 Ento ficamos combinados. Vamos marcar um dia para todo o 
grupo se reunir e comeamos os ensaios. Ns avisamos voc, t?
 T timo. Fico aguardando. Voc no quer mesmo entrar?
 No, hoje no d mesmo. J tenho que voltar pra Igreja. 
Obrigada!
 Eu  que agradeo! Tchau, hein?  Tchau!
E voltei. Super contente!
Quanto a ele... Eduardo voltaria para dentro de casa com a 
sensao meio turva de que Deus talvez estivesse respondendo s suas 
oraes. Eu no sabia a quantas andava o relacionamento dele com a 
noiva, mas naquele exato momento em que toquei a campainha, 
interrompi suas oraes.
Oraes que pediam ao Pai por uma companheira de verdade, 
uma mulher que fosse escolhida e trazida por Deus. O seu antigo 
relacionamento estava falido h muito tempo. Muitas vezes ele 
comentaria isso comigo mais tarde: que eu interrompi a sua orao com 
a campainha!
"Puxa, Deus... ser que  ela?"
Mesmo sem perceber ele acabou fazendo uma comparao 
involuntria com... bem... com Thalya. Embora a essa altura eu nem 
soubesse quem era Thalya. Ela tambm era independente, tocava piano, 
pintava quadros, era inteligente. (Leia Filho do Fogo).
Aconteceu no incio, mas logo Eduardo iria perceber que havia 
gritantes diferenas. E estas diferenas, fariam a diferena. Thalya seria 
esquecida de uma vez por todas!
Ns no tnhamos como saber naquele dia, mas estvamos 
marcados um para outro. Desde o primeiro instante ficou a marca. 
Invisvel, sim... mas indelvel.
* * * *
Captulo 2
J nem sei como fiquei sabendo. No entanto, logo escutei o boato. 
Que no era bem boato, era verdade, segundo Eduardo mesmo 
confirmou. Eu nunca perguntava nada diretamente a ele, era melhor 
deixar que os outros fizessem perguntas. No achava prudente entrar 
com questionamentos demais. Mas sempre tinha um dito cujo por perto 
que acabava fazendo as perguntas que eu no fazia e que tinha tanta 
vontade de ver respondidas.
 Quer dizer que voc terminou mesmo o seu noivado, Eduardo?
Foi no ensaio da pea mesmo, o Alberto que acabou trazendo o 
assunto  baila.
Eduardo no fez segredos. Respondeu alto e claro enquanto todos 
desviavam para ele os olhos. Eu inclusive.
 Meu noivado era virtual, estava falido h anos  explicou 
Eduardo sem traumas.  Desta vez o ponto final  de verdade. J 
estvamos afastados h um bom tempo, eu ia para Ribeiro s de vez 
em quando. Para cumprir um protocolo. A gente tinha se acostumado 
com essa situao. Mas agora  definitivo.
Vi que Mayra deu-me uma discreta olhadinha e eu fiz cara de 
quem no est nem a, mas por dentro achando que era demais para ser 
verdade.
Depois daquele dia eu me sentia mais  vontade com ele. O 
caminho estava livre.
Certamente que o problema agora eram aquelas "borboletas" 
todas. Especialmente agora elas esvoaavam mais, afinal ele estava 
"free" outra vez! Realmente Eduardo atraa atenes femininas. Quando 
vim a questionar, muito depois, ele explicou-me sinceramente e sem 
divagaes:
 Eu estava com a guarda aberta. Estava procurando!
 No precisava estar to aberto assim!  eu retrucava. Para 
mim, era fato. E irritava-me! Que bando de mulherada!
Certa ocasio, depois do trmino do Culto, algumas pessoas iam a 
uma pizzaria e eu tambm tinha sido convidada. Fiquei sabendo que 
Eduardo recusara o convite dizendo que j tinha combinado antes um 
outro programa. Quando entrei no carro, vi pelo espelho retrovisor ele ir 
subindo a rua junto com aquele trio de moas que moravam juntas e 
faziam Kung Fu no parque. Ele vivia l na casa delas.
Senti o sangue me subir  cabea e decidi que Eduardo era 
mulherengo demais para o meu gosto. E era melhor deixar ele pra l!!!
Numa outra ocasio, toda a mocidade da Igreja estava animada 
para ir a um barzinho porque um dos caras do Louvor tocava ali de vez 
em quando. Fui com Mayra e Alicinha. Quando chegamos, assim que 
terminei de subir as escadas e rumei para a mesa onde estava o pessoal 
da Igreja, dei de cara com Eduardo. Estava sentado logo na ponta, perto 
de Elaine, uma das moas daquele trio, uma moreninha de cabelo 
encaracolado. Eles estavam num papo s deles, muito ntimo, pareceu-
me. E ela estava com uma cara meio sria.
Fiz questo de sentar bem longe. Ele olhou para mim, eu acenei 
de volta apenas para ser educada. Fui me acomodar na outra 
extremidade da mesa, perto do palco. Era bom cortar aquela histria de 
vez, e pela raiz!
Eu estava brava, e um tanto frustrada. Eduardo contou-me depois 
a sua prpria reao:
 Quando vi voc entrar, tive tanta vontade de ir sentar l na 
frente com voc...! Ficava s olhando voc de costas, ao lado da Mayra.
 Mas no foi. Por que no foi???
Ele estava tentando desvencilhar-se da Elaine. Como era ela uma 
amiga mais antiga teve mais tempo para sentir esperanas em relao 
ao Eduardo. De fato durante algumas semanas ele havia dado um pouco 
de corda, se aberto um pouco mais para ela. Ficaram no banho-maria, 
mas Elaine estava cansada de esperar pelos finalmente. E literalmente 
"atacou" Eduardo dentro da sua casa. O ataque no surtiu o efeito 
desejado, e ela estava muito brava pelas suas constantes recusas. De 
modo que naquele dia Eduardo estava pondo os "pingos nos is" de forma 
definitiva.
Mas a verdade  que eu no tinha bola de cristal e, na minha 
viso, achei que ele estava era paquerando a moa. Quantos 
desencontros!
Quando acabou o show e todo mundo foi descendo, saindo na rua 
para pegar os carros, nem vi mais Eduardo. Ou melhor: depois que fiz o 
contorno com meu prprio carro e ia voltando sozinha pela avenida, para 
pegar o rumo de casa, eu o vi caminhando junto com mais quatro 
pessoas, dentre elas a moreninha. Olhei de novo pelo retrovisor e s vi 
quando ele passou o brao pelos ombros dela. Confesso que fiquei 
arrasada:
"Ser que ele j est namorando de novo??"
Eduardo daria muita risada das minhas interpretaes:
 Que nada. Aquele abrao foi o prmio de consolao! Eu estava 
dizendo: continuamos amigos, e s amigos, t?
Mas eu fui para casa na fossa. Que pena! Que pena! Depois, nem 
quis saber se ele estava mesmo namorando, ou no. Que me importava?
 * * * *
Nossos ensaios continuaram normalmente. Eu coordenava a pea 
de forma incansvel, ensinava o melhor possvel como cada um deveria 
fazer o seu papel. Nunca era difcil ficar at mais tarde ou marcar ensaios 
extra, s vezes para uma ou duas pessoas apenas, aqueles que estavam 
encontrando mais dificuldade no papel. O importante era termos um bom 
resultado.
Acho que todo o grupo me via mais ou menos como diretora 
porque: tudo o que tinha que ser resolvido, e as sugestes que 
apareciam, vinham parar direto nas minhas mos. E perguntavam o que 
eu achava. Namorando ou no, Eduardo no desgrudava muito. Se 
tivesse marcado ensaiou extra com um ou dois, logo ele aparecia, vindo 
do nada. Quase sempre. Eis a uma smula dos seus pensamentos, 
totalmente desconhecidos para mim: "Via o fusca chegando na Igreja e 
logo ia tomar banho, me perfumar para chegar l... por acaso... deixei 
rolar... estava bom!"
Naquela tarde fomos subindo alegremente as escadas que nos 
levavam ao andar superior, para a sala onde estvamos acostumados a 
ensaiar. Tinha mais gente na Igreja, cuidando de outras coisas, mas ns 
no permitamos que ningum viesse assistir os ensaios. Queramos que 
fosse uma completa surpresa!
Alicinha carregava nos braos o rdio-gravador, item totalmente 
indispensvel por causa da importante trilha sonora.
 Olha s, Isabela, pensei nisso aqui para incrementar a roupa da 
roqueira!  falou ela.
Mayra era a roqueira, e estava literalmente adorando o papel. 
Assim como eu, ela adorava esse tipo de atividade. Ns duas tnhamos 
muito em comum, a mesma vontade de bagunar, de agitar uma coisa 
diferente.
 O que foi que voc trouxe?
Mayra foi correndo espiar enquanto eu ajudava Walter a tirar as 
cadeiras no meio do caminho e abrir espao. Ele e Alicinha iam fazer 
papel de Mdico e enfermeira. Para Alicinha era algo novo, mas Walter 
tambm era Mdico, Residente de Cirurgia da nossa Faculdade.
Enquanto a gente esperava pelos outros, no faltavam risadas e 
todo tipo de brincadeira. Um falava mais alto que o outro, todo mundo 
estava entusiasmado com o progresso da pea e fazamos planos para 
melhorar este ou aquele detalhe.
No demorou muito e o Heliton foi chegando. Estava com um 
sorriso de orelha a orelha, e trazia consigo uma sacola.
 Gente! Agora que vocs vo ver como a minha fantasia t legal! 
Arrumei um negcio jia!
Ele ia fazer o papel de diabo e levava mesmo muito jeito. Era o 
melhor ator! Todo mundo chegou perto dele para ver. Cada vez mais o 
grupo se unia, se divertia, se ajudava mutuamente em prol de um 
objetivo comum. Para muitos de ns, aquele era o melhor momento da 
semana!
Em seguida foi a vez de Slvio chegar junto com o Mrcio. Slvio 
fazia o papel de Jesus. E Mrcio ficou com o papel principal. No comeo 
ele no estava se saindo muito bem porque tinha de participar de todas 
as cenas, mas agora j estava mais  vontade. Todo mundo tinha 
incentivado, todo mundo tinha ajudado, todo mundo tinha orado para que 
ele conseguisse dar de si o melhor.
Dessa vez Eduardo chegou por ltimo. No meio do trana-trana e 
do fala-fala e do mexe-mexe do pessoal eu estava muito ocupada para 
dar-lhe qualquer ateno exclusiva. Todo mundo falava comigo de todos 
os lados. E ento uma voz decretou que talvez j fosse hora de comear.
 J t todo mundo aqui! Vamos comear?
  isso a! Vamos!
Era uma coisa bonita aquela pea! No tinha dilogos, somente 
msica o tempo todo, havia uma maneira toda peculiar da gente 
comunicar o enredo sem precisar falar nada. Alguns recursos especiais 
como slides e luzes ajudavam em momentos especiais; por exemplo, 
durante a criao do mundo. Dava at arrepio de to lindo!
Sem dvida que no foi difcil logo todos estarem apaixonados 
pela pea. E davam sangue, suor, lgrimas  e tempo!  para montar 
aqueles pouco mais de 25 minutos de apresentao. Eu adorava estar 
envolvida com aquilo. A expresso da arte, da docilidade, da beleza. Um 
pouco da alma de cada um se expressava atravs daquele trabalho. 
Cada vez que meus ps pisavam em um palco eu sentia como se fosse 
um momento mgico, incrivelmente especial.
Mas antes que efetivamente a gente comeasse a ensaiar, 
Eduardo fez questo de mostrar-me a coreografia que estava 
preparando.
 Isabela, queria que voc desse uma olhada...  ele se afastou 
um pouco mais para o canto da sala. E mostrou rapidamente o que sabia 
fazer.
Observei sinceramente admirada.
 Uau! Est super lindo, Eduardo!  falei ainda antes dele 
terminar, sem me conter. At esqueci da Elaine.
E no era demagogia. No  que ele sabia mesmo aquela coisa de 
Kung Fu e tinha uma invejvel performance?! Eduardo deu um chute alto 
de giro no fim.
 Est super legal! Super legal, de verdade! Vai incrementar pra 
caramba a apresentao!
 Eu posso colocar tambm uma coreografia com alguma arma, 
se voc quiser. O que voc acha? Que tal espada? Ou nunchaku?
 Eu acho que no precisa mudar nada, mas se voc achar que 
vale a pena, timo, vai ficar melhor ainda. Prepare isso para a prxima 
vez!
Na outra vez ele trouxe o nunchaku. Todo mundo reuniu-se em 
volta para ver como  que ele "mexia aquela coisa". Eu conhecia um 
pouco por causa dos filmes. Mas quando Eduardo comeou, todo o 
pessoal saiu correndo e foi ficar a uma distncia segura. Ficaram 
encolhidinhos, fingindo-se de muito assustados s para mexer com ele.
Eduardo parou e fez uma cara engraada:
 No precisa fugir, gente!
 Caramba!  falou o Heliton.  Se arrebentar essa corrente a 
algum est morto! Com a velocidade desses pauzinhos ...
 No tem perigo! Pelo visto s a Isabela confia em mim, foi a 
nica que no correu para longe!
 OK! OK! Vamos orar para comear o ensaio!  eu falei logo.  
Temos que ver se essa seqncia vai encaixar com a msica, Edu! No 
sei se no vai ficar fora do ritmo. Voc tentou treinar com a msica?
Durante o ensaio tratamos de experimentar. Todo mundo opinou e 
palpitou. O nunchaku s tem graa se for veloz e no ornou bem com o 
tipo de melodia. Mas quando Eduardo mostrou uma outra seqncia de 
movimentos, dessa vez feitos com espada... ficou demais! Todo mundo 
bateu palmas com entusiasmo.
 T dez, cara!  exclamou o Marcio.  S no sei como  que 
eu vou te acompanhar, nem adianta querer que eu faa qualquer um 
desses movimentos.
Uma das necessidades da pea era que Mrcio de certa forma 
imitasse, ou acompanhasse, cada um dos outros personagens.
  No tem problema!  sugeriu a Mayra  Voc podia ensinar 
alguns movimentos de corpo bem fceis para ele, Eduardo!
Todo mundo achou que essa era a soluo. Os dois marcaram de 
se encontrar durante a semana para ensaiarem juntos e, no prximo 
ensaio, tudo j estaria pronto.
Alis, havia muita coisa para correr atrs, dentre elas a trilha 
sonora, que precisava ser adaptada. No final do ensaio eu estava 
combinando como faria para gravar as msicas, porque elas tinham que 
ser cuidadosamente encaixadas com as cenas. Muita coisa tinha sido 
mudada, especialmente na cena do Eduardo e do Walter, na minha 
tambm. Eu fazia o papel da "menina bonita" da pea. Essa minha cena 
tinha sido bem incrementada com uma dana, acabamos criando em 
conjunto, todo mundo foi dando opinies e no fim estava tudo bem 
diferente do que no comeo. Estava super legal!
De forma que era necessrio gravar uma outra fita. Dava muito 
trabalho, pxa, como dava! Eu j tinha confeccionado a primeira trilha 
sonora h trs anos, para a apresentao da Faculdade junto com o 
pessoal da A.B.U., e sabia muito bem disso. Eu e o Edlson levamos 
quase o dia todo para gravar vinte minutos de fita. Alm do qu era 
preciso uma aparelhagem especial, no serviam gravadores caseiros.
Fomos atrs dos recursos e um dos rapazes do Louvor tinha a 
aparelhagem necessria em sua casa. A qual ofereceu gentilmente. 
Enquanto eu acertava os detalhes, combinando dias e horrios, Eduardo 
ofereceu-se para ir comigo.
 No  justo voc fazer todo o trabalho sozinha. Vou junto para 
te ajudar. Fiquei espantada com tanta boa vontade. Mas realmente no 
seria necessrio.
 Eu fao tudo sozinha numa boa, eu adoro lidar com isso. Pra 
mim no  trabalho nenhum!
 Mas eu tenho tempo para te acompanhar, voc no quer 
companhia. "Bom... fazer o qu, n? Vou recusar esse gentil 
oferecimento?!" Ento aceitei de bom grado e marcamos uma data 
comum.
Muito tempo depois Eduardo me contaria a verdade:
 Eu me ofereci antes que outro fizesse. Especialmente o Walter! 
No queria voc muito perto daquele Mdico!
Muito esperto. Muito esperto.
Ento eu levei aquela pilha de discos e passamos uma tarde 
inteira no estdio do jovem do Louvor. Trabalhamos bastante, 
cronometrando tempos, juntando pedaos e mais pedaos de msicas 
diferentes, tornando as junes entre elas praticamente imperceptveis. 
At que a trilha sonora da pea ficou um luxo! Jia, muito jia!
S quando o trabalho j estava muito bem encaminhado foi que, l 
pelas tantas, lembrei de tirar da bolsa um chocolato de 200 gramas que 
fez Eduardo arregalar os olhos. E fizemos uma pequena pausa para 
esfriar a cabea.
 Pxa vida, voc  precavida!
Foi uma tarde tima, demos muita risada, conversamos bastante. 
 noite o rapaz e sua jovem esposa encomendaram uma pizza e 
comemos todos juntos. Para variar, perguntaram pela noiva de Eduardo. 
E ele explicou novamente que no estava mais compromissado.
Quando cheguei em casa, estava um pouco preocupada. Era a 
primeira vez que ns dois tnhamos tido tanto tempo juntos. Eduardo era 
muito legal, um cara interessantssimo, simptico, bonito, inteligente... 
mas... e se aquilo no nos levasse a nada? No meu corao, amizade 
no bastava.
Dei um suspiro e continuei sentindo um leve mal estar diante das 
possibilidades. Eu no podia correr o risco de me envolver demais e ficar 
de cabea virada logo s portas do final do ano, s portas da prova de 
Residncia. Que loucura! Eu me conhecia.
Era to difcil crer que fosse dar certo...
* * * *
J estvamos no incio de novembro e em poucos dias terminaria 
o ltimo estgio do sexto ano. Obstetrcia.
Uau, eu estava cansada! Em poucas semanas viria a primeira fase 
da prova de Residncia. Mas, pelo menos os compromissos no Hospital 
estavam terminando, e a era s estudar.
Na Igreja, tudo continuou como antes. Ou melhor... quase como 
antes. Algumas coisas aos pouquinhos estavam mudando. Estariam 
mesmo? Eu no podia afirmar que sim com 100% de certeza. No 
domingo seguinte, depois do Culto, eu conversava com Eduardo sobre 
algumas necessidades da pea, e ento ele comentou. Finalmente!
 Pxa, mas a gente s conversa de "trabalho", n, Isabela? Bem 
que a gente podia sair um dia destes para conversar de outras coisas, o 
que voc acha?
O convite foi plenamente casual. Podia no ser nada demais, 
simplesmente um amigo convidando uma amiga. Eu tinha vrios amigos 
com quem sa mais de
uma vez. Eu acreditava que podia existir amizade entre homem e 
mulher, talvez realmente fosse apenas isso. Mas no ntimo senti acender 
uma luzinha. Ser?... No tinha porque recusar. Apesar de tudo, fiz 
questo de aceitar com uma evasiva:
 , quem sabe... um dia destes pode at ser mesmo. Questo da 
gente combinar.  tambm no podia ser evasiva demais.
Eduardo no perdeu a deixa e continuou, naturalmente:
 Sbado, ento, depois do ensaio da pea. Tudo bem pra voc?
 Hum... preciso dar uma olhadinha na minha escala de plantes. 
Se estiver de "pr-planto" no  muito bom, mas se estiver livre pode 
ser!
Ele esperou que eu consultasse a agenda. Eu sabia que no tinha 
nenhum planto. Sempre muito falador e bem humorado, Eduardo 
despediu-se de mim e foi conversar com outras pessoas depois que nos 
acertamos.
Esperei pelo sbado com certa expectativa. Despedimos do 
pessoal e fomos comer no "Viena" do Shopping Paulista. Agora a gente 
j se conhecia bem melhor e o tempo passou ultra rpido.
Foi muito, muito bom. Pedimos a "cestinha aperitivo", que vinha 
com diversos tipos de salgadinhos, e refrigerantes. Aproveitei para saber 
mais sobre ele, sobre o Kung Fu, sobre o noivado terminado. Sobre o 
trabalho.
 Acabei de sair da Empresa aonde trabalhava. Meu contrato era 
temporrio!
 Ah, ? O que  isso?
 Eu fui contratado porque a Empresa estava desenvolvendo um 
trabalho especfico. Fui contratado por seis meses, e agora esse trabalho 
j acabou. Agora me ponho em campo para arrumar outra coisa!
 Pxa, que pena...
 Mas no tem problema, no! Isso  assim mesmo.
Quis saber um pouco mais sobre o que era ser Analista 
Econmico-Financeiro. Eduardo foi falando, eu escutava com interesse e 
ateno. Era gostoso conversar com ele. Para ser sincera, nem vi quem 
estava sentado ao nosso lado. No podia mais negar que estava ficando 
a fim de verdade.
Dei um jeito de perguntar sutilmente se ele estava namorando 
Elaine, ainda que tal questionamento me parecesse dispensvel... afinal, 
o que estaria ele fazendo comigo em plena noite de sbado se tivesse 
namorada?
Mas eu queria ter certeza. Eduardo no sabia que eu tinha visto 
aquela sua sada triunfal do barzinho, abraado com ela, duas semanas 
antes. Sempre  bom saber em que terreno se est pisando.
Ele riu um pouco.
 Por que voc acha que eu estou namorando?
Procurei no dar bandeira. Eu tinha ficado louca da vida por causa 
daquele dia, mas no podia admitir isso. No queria admitir que tinha 
reparado neles.
 Bom... s me pareceu que vocs estavam namorando.
Mas Eduardo entendeu.
 De fato a gente procurou se conhecer melhor, e por ela 
estaramos juntos agora. Mas no deu muito certo pra mim. Achei melhor 
me afastar um pouco.
Eu assenti com a cabea, meio sorridente. J sabia o que queria. 
E mudamos de rumo. Eduardo deu a deixa:
 Mas me fala um pouco de voc, Isabela. Eu no sei nada e 
voc j sabe bastante sobre mim.
 Hum... no tem muito que falar de mim, Eduardo! E depois, 
voc j sabe, sim! Estou quase me formando, estou na dvida se presto 
Psiquiatria ou M.I. na Residncia. Deveria estar estudando mais, mas 
no estou. Estudei piano, e larguei... que mais?!?
 Pxa, como se isso no fosse nada, hein?  difcil conhecer 
algum como voc! Voc  uma pessoa diferente.
 Voc acha?
 Eu acho, sim. Normalmente as pessoas so to... previsveis!
 E eu no sou?
 Nem um pouco.
Ele quis saber um pouco da Faculdade. Fui falando. Depois pulei 
para a Prova de Residncia, meu atual motivo de preocupao.
 Depois de terminar a Residncia ganhamos o ttulo de 
especialista na rea. Mas estou muito na dvida. Se prestar Psiquiatria, 
que gosto bastante, isso significa abandonar a Clnica para sempre. 
Quando entrei na Faculdade, entrei para fazer Psiquiatria. Mas agora j 
no sei se  exatamente isso que eu quero. Tambm gosto de Clnica. 
Por outro lado, posso prestar M.I. porque estarei em contato com Clnica 
por mais tempo.
 Voc tem que decidir logo, n?
 E como! Tenho dois amigos prximos que esto tambm na 
Infectologia. Talvez eu encare tambm! De certa forma, eu j estou 
bastante familiarizada com ela por causa do nosso trabalho de 
evangelismo no Hospital.
 Vocs evangelizam no Hospital ? Me empolguei e comecei a 
explicar:
  Desde o primeiro ano da Faculdade que fao parte de um 
grupinho de Cristos, um grupinho de A.B.U.. Conheci a Mayra l, 
quando estava no primeiro ano. Quase toda a minha experincia Crist 
vem dali. Desde que eu estava no segundo ano que procuramos fazer 
aquilo que Deus diz: "Pregar o Evangelho a toda criatura". Fizemos o 
possvel para ser bno ali. Eu, a Mayra, o Edlson e a Cris formamos 
um grupinho para levar a Palavra at os doentes. Uma vez por semana.
  mesmo, , Isabela?  Eduardo parecia achar interessante de 
verdade.  Esse  um trabalho diferente!
  E hoje  um trabalho at mais consciente do que antes.  
medida que comeamos a ficar mais tempo dentro do Hospital e menos 
tempo na Faculdade,  natural que algumas coisas acabem mudando. 
Aquela gente precisa disso, o que  uma noite por semana? Ns 
costumamos visitar os pacientes da M.I., quase sempre os doentes com 
AIDS. Convivemos muito com eles, acho que Deus colocou um peso 
todo especial no nosso corao. No  todo mundo que consegue estar 
ali. Temos visto Deus fazer muita coisa!
 Eles se convertem mesmo? Voc j viu isso?
 Muita gente se converte, sim! A gente usa um jeito meio 
diferente para evangelizar, sabe? Com msica! O Edlson toca violo e 
ns trs cantamos, usamos as canes como veculo para as nossas 
mensagens. Sempre que voc comea com msica o caminho  mais 
fcil!  diferente de voc chegar e simplesmente ir falando. A msica 
prepara os coraes, a mensagem depois parte da prpria letra. Eu, a 
Mayra e a Cris temos um tom de voz bem parecido, fcil da gente se 
entrosar, e o Edlson faz uma boa segunda voz. Nem precisa muito 
ensaio. Os doentes gostam bastante! Aqueles que ficam muito tempo 
internados esperam a gente semana aps semana. Deus tem tempo de 
trabalhar, os mais duros tm tempo para quebrantar-se. Se bem que, 
olha, por um outro lado... quando a pessoa no quer, pode estar 
morrendo que no muda de idia, no se abre para Deus.
 ?
 J vi acontecer. Certa ocasio... nessa poca a gente ainda 
evangelizava na Enfermaria do Pronto-Socorro... tinha uma mulher 
internada ali que era meio esquisita. Ela veio de dentro da Igreja 
Protestante, veio de famlia evanglica. Mas estava to cauterizada, to 
amarga e to cheia de doutrinas paralelas super estranhas que no 
escutava o que a gente dizia. Chegava a ser rude com a gente! 
Desacatava, atrapalhava as visitas, respondia torto. E no queria orar 
nem receber oraes. Um dia, a Andreza ficou um tempo com ela 
enquanto a gente cantava, explicou o plano da salvao, quis orar... mas 
no adiantou! Depois soubemos que ela morreu na noite seguinte. E no 
se reconciliou com Deus, por mais que a gente tivesse falado...
 Isso  uma coisa que acontece...
 Em compensao, outros esto super abertos. Parece que 
esto ali apenas para se converter... e morrer! Uma vez oramos numa 
noite com um paciente que estava muito mal. Mas Deus permitiu que ele 
tivesse lucidez suficiente para entender. No dia seguinte, tinha ido. Uma 
outra paciente, eu me lembro bem, ela tinha sndrome hepato-renal e 
estava confusa, faz parte do quadro... gastei um tempo enorme para 
faz-la compreender o plano da salvao e confessar Jesus. Pouco 
tempo depois ela tambm entrou em coma, e morreu. Uma outra 
paciente dessa mesma poca era arredia no comeo e costumava 
atrapalhar a gente quando amos at l. Eu j estava at irritada com ela, 
todas as semanas era a mesma coisa. S que um dia entrei no quarto e 
ela estava sozinha. No podia virar as costas, simplesmente, ento me 
aproximei e comecei a conversar. Em pouco tempo ela estava to 
quebrantada que chorava, e repetia a toda hora: "Pxa, mas isso que 
voc est falando est me ajudando tanto!" E se converteu. Depois 
adorava a gente.
 Pxa... quantas experincias voc tem!
 Ah! Nem digo que tenho "experincia'... mas a gente at que 
tem algumas histrias pra contar desses pacientes.  interessante ver 
como Deus prepara as pessoas e as situaes. Uma vez eu estava 
dando acompanhamento para um paciente aidtico recm convertido. 
Ele j ia ter alta. Uns dias antes da alta transferiram um rapaz de outro 
quarto, e puseram bem ali ao lado dele.  medida que eu tentava passar 
um pouco das bases do Amor de Deus, o tal do recm-chegado no 
conseguia nem disfarar o interesse! Incrvel, Eduardo! Ele quase caa 
da cama de tanto se inclinar para o nosso lado!  at dei risada me 
lembrando.  Ele s faltava me pedir: "fala comigo tambm!". Ento fui 
conversando com ele, perguntei seu nome, h quanto tempo estava 
internado... e seja conhecia Jesus! Quase no precisou mais nada, o 
rapaz se derreteu todo, de verdade, to sedento estava! Deu at d. Quis 
orar, aceitar Jesus. Depois, os dois oravam juntos no quarto. Um dia fui 
visit-lo, depois que o outro teve alta. O leito estava vazio. Fiquei 
sabendo que ele tinha complicado durante a noite, foi para a U.T.I. e 
morreu! Voc v, n? Deus o levou quele quarto s para ouvir a Palavra 
e se converter.
 Que legal.... conta mais alguma histria!
 Voc acha isso legal? J no cansou de escutar?
 No, estou achando bacana,  uma coisa diferente para mim.
 Teve uma outra paciente.... esta foi a primeira pessoa que eu 
levei a Cristo! Estava ainda no segundo ano da Faculdade. Foi l no 
Pronto Socorro. Ia ter aula mais tarde naquela manh e ento aproveitei 
para ir ao Hospital falar de Jesus. Falei a manh toda e ningum se 
converteu. Quando j estava para ir embora, com o horrio estourando, 
evangelizei s mais uma paciente. Mas, Edu, srio! Se eu soubesse de 
antemo o que a mulher tinha, nem teria chegado perto, naquelas 
alturas. No estava acostumada com as doenas graves, com a morte... 
e ela sofria de uma doena rara e muito sria.  difcil isso, n? S 
mesmo por Deus para a gente ter o que dizer para esses pacientes. 
Afinal... que coisa boa voc pode dizer para algum que vai morrer? Mas 
a mulher se converteu genuinamente, e eu passei quase 40 dias 
acompanhando, levando a Palavra duas ou trs vezes por semana.
Eduardo escutava e eu estava falante:
 Especialmente esses pacientes com AIDS, eles sofrem muito. 
AIDS  uma doena daquelas! Alis, um desses pacientes ficou muito 
meu amigo, e... infelizmente acabei tendo uns problemas. Meu pai no 
me perdoou at hoje.
 Por qu?
 Ele no gostava que eu tivesse muito contato com eles.
Pxa, mas voc trabalha no Hospital!  Sim, mas fora do horrio 
de servio, a ttulo de evangelismo... ele no estava l muito satisfeito. 
Acabei desobedecendo muito  minha famlia por causa desse amigo, 
com quem convivi muito. Ele morreu h seis meses... no foi um pedao 
fcil. Eu gostava muito dele.
E achei melhor encurtar aquela conversa.
 Mas...  gratificante esse negcio de evangelismo. J 
evangelizei em favela, em praa pblica, no meio da rua, em praia 
tambm. Faz quase um ano que participei de um trabalho com aquela 
Misso JOCUM, como voluntria. Fui em dois "Impactos", como ele 
dizem! Por sinal o ltimo foi no Carnaval. Passamos quatro dias no 
sambdromo. E o primeiro dia foi debaixo de chuva!
Eduardo me olhava compenetrado. Pelo visto ele nunca tinha 
conhecido ningum que fizesse isso. Ser que achava algum tipo de 
fanatismo?
 Voc j ouviu falar da JOCUM, no? Ele balanou a cabea 
negativamente.
 Nunca fui muito ligado nessas coisas...
 Alis... sabe que eu entreguei minha vida para isso mesmo?  
falei meio que sem pensar, numa atitude de confiana.
 Como assim?
 Desde que eu me converti que todo apelo missionrio me toca 
muito. E at engraado, mas sempre que escutava algum desafiando e 
falando para a gente entregar a vida para Misses... l estava eu, indo  
frente. Lembro-me que fiz isso muitas vezes. Inclusive...  e parei um 
pouco, relembrando ... eu no estava ainda na Faculdade, j faz 
bastante tempo. Uma vez participei de um acampamento para jovens na 
primeira Igreja que freqentei, onde fui batizada. No ltimo dia teve um 
Culto da fogueira. Estava um frio danado! A pessoa que dirigiu o Culto 
convidou todo mundo a fazer um ato proftico no final. Quem quisesse 
participar, que pegasse um graveto do cho e jogasse na fogueira. 
Simbolizando uma entrega total da sua vida a Cristo. Mesmo que a 
fornalha fosse quente, muito quente! Aquele ato queria dizer que 
estvamos dispostos a enfrentar essa fornalha. Lembro que fiz isso com 
o corao sincero!
Fiquei um pouco quieta, at que ele perguntou:
 E ento?
 Bem... s vezes fico pensando... talvez Deus no tenha 
aceitado a minha entrega, porque, afinal de contas, no sou e nem vou 
ser Missionria. Eu fiz Medicina. No  isso?!
J se tinham passado muitos anos. Os sonhos antigos tinham 
passado.
 Enfim... Deus  quem sabe, no?  acabei sorrindo de novo, 
recordando-me.  Acho que meus pais tinham um pouco de medo 
dessa minha tara! Eu s vezes dizia que ia ser Missionria. A, depois 
que viajei com a JOCUM conheci vrios Missionrios. Teve um de quem 
me aproximei, um cara muito jia, ficamos bem amigos. Uma vez ele at 
veio assistir comigo um concerto de violinistas que meu pai organizou. 
Mas meu pai no foi muito com ele e fez um pouco de birra, tratou o 
coitado meio mal. Acho que de puro medo! Vai saber, n? De repente, se 
algo mais acontecesse entre a gente eu acabava concretizando o meu 
sonho de ser Missionria antes do que todo mundo pensava. Porque se 
eu no tinha estudado para ser Missionria... casando com um deles... 
tudo se resolvia! Eduardo sorria de leve enquanto observava melhor o 
meu rosto.
 E no deu certo?
 No! Uma das minhas sinas  ser meio desencontrada nesse 
aspecto. Se eu gosto, ele no gosta... se ele gosta... eu no gosto! Mais 
ou menos por a.
 E quantos namorados voc j teve?
 J te respondi. Nunca namorei. V!
 Srio, p! Voc no acredita?
Ele ficou quieto e eu procurava imaginar no que estaria pensando. 
Vai ver pensando que eu era alguma extraterrestre!
 Voc acha que eu sou uma extraterrestre?  brinquei.  Pra 
ficar com o cara errado, melhor no ficar, voc no acha? Oportunidade 
todo mundo sempre tem! Eu tambm tive.
A Eduardo concordou:
 Bom... nisso voc tem toda razo. Eu tambm no gosto dessa 
coisa de "ficar por ficar". Legal que voc tambm pense assim! Depois... 
nunca ter namorado no  nenhum motivo de vergonha  respondeu ele 
com sinceridade.   bem melhor assim do que ao contrrio.
 Conheci um moo que me disse exatamente isso. Ele achava 
isso uma virtude! Quase rolou. Ficou no quase!
 T na hora de sair do quase, hein? Encostei a mo na cabea, 
meio sem jeito.
 Quem  que sabe? Ou melhor, Deus sabe!  passei a peteca 
pra ele.  E voc? Quantas dzias j namorou?  lembrei-me do 
quanto eu o achava mulherengo.
 Dzias?! Um pouquinho menos do que isso. No muitas. De 
verdade umas trs ou quatro.
Continuei cutucando-o e rindo. Como se ele me enganasse!
 E de mentirinha? Quantas? Eduardo riu um pouco tambm.
 Algumas. Mas veja, essa minha noiva, a Camila... ex-noiva! 
Ficamos juntos quase doze anos.
Quase ca da cadeira.
 Doze?!!! T brincando, hein? E por que vocs no casaram?
Ele comeou a contar um pouco sobre o relacionamento com ela, 
e explicou melhor porque tinha terminado. Voltou a repetir:
 J tinha acabado h muito tempo. Terminei de uma vez por 
todas agora!
 Pxa, que barra pra essa menina tambm, n, Eduardo? No 
deve ter sido fcil pra ela... j que gostava de voc ainda.
 Mas no dava mais, Isabela! Eu estava orando, pedindo a Deus 
para me ajudar nisso. Quanto mais eu continuasse, pior ia ficar. Nosso 
relacionamento no tinha mais futuro.
Nem toquei mais no assunto. Que coisa mais complicada! E a 
conversa mudou de rumo de novo, mais centrada nele do que em mim. 
Eu gostava de escutar, mas por fim j estava tarde e eu disse que era 
melhor irmos andando. No queria me atrasar muito para chegar em 
casa.
Samos lado a lado, satisfeitos, ainda rindo, tornando aquele 
momento muito agradvel. Na verdade eu no conseguia parar de sorrir 
perto de Eduardo.
Pegamos o carro no estacionamento, eu ofereci carona. Era 
caminho mesmo.
A Avenida Paulista foi curta demais naquela noite. O vento entrava 
quente pelas janelas escancaradas e eu queria poder continuar 
conversando at o dia seguinte. Mas logo parei o carro em frente  casa 
de Eduardo. Ele no tinha carro, mas j estava at meio acostumado 
com o meu fusquinha. Ao despedir-se, comentou casualmente:
 Hoje foi muito legal. Mas no deu tempo de voc me contar tudo 
sobre voc. Contou s do Hospital, do Evangelismo. Isso  muito pouco! 
Precisamos repetir, e a voc vai falar de voc mesma desde o incio. 
Que tal no outro final de semana?
Abri o sorriso e dessa vez no me fiz de rogada. Ele no estava 
mesmo namorando com Elaine.
 T bom! Qualquer coisa voc me liga, mas se a gente no se 
falar mais, fica combinado assim: sexta-feira, no mesmo horrio e no 
mesmo lugar! Boa sorte na sua procura de emprego!
Fui para casa pensando, tinha sido tudo to legal...
* * * *
Da segunda vez que voltamos ao Viena, jantamos de verdade. 
Enquanto eu passava manteiga no pozinho ciabatta, Eduardo fez 
questo que eu comeasse logo a falar de mim mesma. Fui falando, 
compartilhando, totalmente  vontade, sendo eu mesma. Dificilmente eu 
fazia "tipo", nunca fui do tipo que "faz tipo". Uma das minhas principais 
caractersticas era ser transparente, verdadeiramente transparente.
Assim foi naquela noite. Estvamos vivendo uma fase muito 
gostosa, a de descobrir um ao outro!
Falei sobre como tinha sido e como era a minha vida, meus 
desejos para o futuro, meus planos, meus sentimentos. Ele falava dele, 
vez por outra. Aos poucos foi comentando um pouco do seu passado, e 
contou algumas das suas peripcias na "29" (Leia Filho do Fogo).
Aquele dia foi o dia das risadas! Rimos muito das histrias de 
Eduardo! Era to difcil de acreditar! Olhando para aquele simptico 
moo de 27 anos parado ali na minha frente, quem podia dizer o quanto 
tinha aprontado1.!!
 Edu, voc era terrvel! Como que sua famlia suportou?
 Eles no suportaram. Chegou uma hora que eles largaram mo!
s vezes eu ria. s vezes ficava condoda. s vezes espantada. 
Comecei a conhecer o verdadeiro Eduardo. O Eduardo que tinha usado 
drogas, roubado... o Eduardo explosivo, violento, incontido...
Mas tambm o Eduardo engraado, bem-humorado, de bom 
corao... especial! O lado rebelde e inconseqente dele, no fundo, me 
punha animada e me lavava a alma. Porque, sem dvida alguma, eu 
gostaria de ter feito algo semelhante. No me entendam mal, no estou 
falando necessariamente de roubar, espancar os outros ou algo assim. 
Mas a minha alma bem que teve vontade, mais de uma vez, de chutar 
para o alto os protocolos.
Como seria ter coragem de no estar nem a para o sistema?
 Eu te entendo, pode crer...!  falei. E entendia mesmo.
A diferena entre ns dois  que eu tinha ficado quieta. E ele tinha 
gritado bem alto! Para quem olhava de fora, podia parecer que ns no 
tnhamos muita coisa em comum: o "rebelde" e a "certinha". Mas no era 
bem assim. No fundo do meu sangue corria, vez por outra, a mesma 
insatisfao, a mesma revolta, uma certa poro de ira, de tormento, de 
furor. Para mim tinha faltado apenas a coragem de gritar, de explodir... 
no a vontade!
Por incrvel que parea eu podia compreender em parte as razes 
que levaram Eduardo a fazer o que fez na poca da "29". E no o 
culpava! Quem era eu pra isso?!
Mas eu constatava algo que se tornava cada vez mais claro.
Nossas vidas tinham seguido por trilhas diferentes, mas em muitos 
aspectos acabaram por produzir o mesmo tipo de sentimento. Para dizer 
a verdade, o conhecimento mtuo nos fazia bem mais prximos do que 
distantes. Eu percebia que as diferenas no eram tantas assim. Creio 
que ele tambm!
E voltava a pensar, enquanto observava Eduardo falando. Ele era 
inteligente, carismtico, educado, muito cavalheiro. Mas o que ser que 
estava pretendendo em relao a mim???
A certa altura ele me olhou e falou em tom sincero, mas custei a 
acreditar. Seria mesmo verdade ou s brincadeira?
 Quanto mais eu te conheo mais vejo o seu valor, sabe, 
Isabela?  como se eu tivesse achado uma arca de tesouro. E quanto 
mais rebuscasse l dentro, mais coisas preciosas descobrisse.
 Nossa, que exagero, Edu! At parece, vai!
 No duvide. Estou falando srio.
Balancei vrias vezes a cabea, meio desconfiada.
 Bem... OK, ento... obrigada!  e no soube o que mais dizer.
Meu problema estava em ser precavida demais. Eduardo estava 
mesmo falando srio. Por mais que naquela hora eu no pudesse sondar 
perfeitamente seu corao, era assim que ele estava pensando:
"Convidei-a pra sair, mas no estava botando f... achava que 
preferisse o outro, o Walter, o Mdico. Mas ela est aqui comigo... eu 
falo, e ela entende. Entendei E tambm entendeu quando falei da teoria 
da relatividade! Ela aceitou sair comigo... tudo bem, isso  bom e trgico 
ao mesmo tempo. Bom porque aceitou... trgico porque no tenho muito 
dinheiro... nem tenho carro... nem emprego... sou pobre! A dama que vai 
me levar pra casa! Vou ter que procurar minha honra durante semanas! 
Embora tenha outras opes para escolher, s tenho olhos para ela. No 
tem ningum decente  minha volta... as outras meninas da Igreja so 
fteis, vulgares, fceis. Isabela no. Ela  direita, no parece volvel, seu 
vocabulrio  polido, tem modos! E...  imprevisvel como a Thalya, no? 
Um pouco louquinha... como Thalya tambm era. Mas  muito mais 
inteligente! Depois... Isabela no  aquela crente bitoladona... no fundo, 
no fundo parece que no d muito valor para as regras. Parece querer 
conhecer outras coisas, no se prende numa caixinha.... est aberta! 
Desde que seja lcito. Gosto disso! Quanto mais conheo ela, mais 
descubro um conjunto de valores especiais... valores raros... preciosos... 
que, pxa vida, eu nunca encontrei em uma nica pessoa! Tem senso de 
lealdade,  esforada, no se conforma com os erros, procura acertar...  
Crist, toma atitudes que me agradam!  bem-humorada, meiga, sincera. 
No  orgulhosa, no vive andando o tempo todo de branco, com 
estetoscpio no pescoo, falando que  Mdica. Metida! Gosta de 
esportes! E tem urna carinha de boneca......".
Pode parecer bastante, mas  ele quem est dizendo.
Nosso encontro terminou mais uma vez com gosto de pouco. 
Parecia haver muita coisa a ser dita, muito a ser dividido, muito a ser 
percebido. Mas muito pouco tempo para isso.
Em casa, durante a noite, fiquei meio inquieta, incomodada.  
medida que meu interesse crescia eu ficava ansiosa em saber o que 
estaria se passando com ele. Seria correspondida... ou no? Eu no 
sabia exatamente o que ele estava pensando. Hesitava em ser dada 
demais, mas no podia dizer que no estava envolvida.
Desabafei com Mayra no dia seguinte:
 O que ser que ele quer comigo? Cheguei no ponto sem 
retorno, Mayra... agora estou interessada mesmo! E ele, que ser que vai 
dar, hein?
Mayra balizava:
 Ihh, Chopi! (s vezes ela me chamava assim).  V se vai com 
calma! Ponha a cabea no lugar.
Eu dava risada e me remexia.
  Mas est difcil! Agora a coisa pegou!  e dava mais risada de 
puro nervosismo.  Que hora para tudo isso acontecer, tenho que 
estudar! Ai, meu Deus!
Mayra tambm dava risada.
 Se acalma!
  isso! Mas e se eu perder a cabea, Mayra?
 No.... no vai perder, no.  Mayra conhecia esse meu 
lado J tinha visto algumas vezes.  Chopi, trata de ficar boazinha.
 T! Vou fazer o possvel.
Nesse dia, sbado, estava havendo ensaio do coral na Igreja. 
Eduardo estava zanzando por l desde o incio, e havia muito mais gente 
porque lg depois ja era o horrio do Culto dos Jovens.
Qual no foi minha surpresa quando vi Eduardo sentado a 
distncia, l no fundo do salo, no maior papo com uma moa da Igreja!! 
Eu sabia muito bem que ela estava " procura" do seu futuro marido e 
no gostei nada, nada.
Quase no conseguia mais cantar, s olhava de esguelha, 
procurando no dar a menor importncia. E sem deix-lo perceber,  
lgico!!! Mas intimamente furiosa com tanta desfaatez.
"Eu sabia! Esse cara no  diferente de nenhum outro!! Passa 
horas conversando comigo num dia, e no dia seguinte j est todo 
derretido com outra. Ele deve fazer isso com todas, eu no sou nada de 
especial para ele. Que safado... E ainda bem debaixo do meu nariz! Arca 
de tesouro, hein? Pois sim.
Nem bem terminou o ensaio e eu sabia que ele deveria vir falar 
comigo, como sempre. E veio, o salafrrio, acompanhado justamente da 
dita cuja. Ele estava particularmente animado e sorria muito. Mas no me 
cativou! Procurei me conter ao mximo para no deixar passar nenhuma 
impresso do meu descontentamento. No ia lhe dar todo este ponto!!
Eu me convencia a mim mesma:
"Isabela, no banque a troglodita. Mas deixe-o a falando sozinho! 
Que fique de conversinha com essa fulana, pouco me importa. Ele que 
no me merece! .
E alto:
 Oi, Eduardo! Oi, Luana! Tudo bem?
Eduardo ria e me abraou carinhosamente. Foi a primeira vez que 
ele fez isso. Mas no fiquei muito tempo no abrao e j pedi licena:
 Tenho que falar com a Mayra!
No banheiro, com ela, explodi de raiva.
 E pode isso? Ontem ficou comigo at tarde e hoje passou o 
ensaio inteiro de
conversa com essa Luana?
 Calma! No vai perder a cabea!
Mayra deu conselho certo.
 Est tudo indo to bem! No coloca tudo a perder, n?  
continuou ela. piquei quieta. Mas nem procurei Eduardo depois. Sorte 
que no precisei esperar
muito. Logo ele estava ali na minha frente, acompanhado do 
Alberto.
Algo ele deve ter lido no meu semblante. To logo Alberto desviou 
sua ateno para falar outra pessoa, Eduardo declarou com sinceridade:
 Eu gostei muito mais de conversar com voc...  e deu-me um 
bombom! Com um sorriso maravilhoso.
Bom observador. Ele tinha percebido a bobagem.
Quem resiste? No consegui conter um sorriso meio encabulado, 
meio aliviado, meio denunciador dos meus sentimentos.
 Hum.
E tudo voltou a ficar s boas.
O que eu no sabia  que tinha sido de propsito. Eduardo 
tambm estava tentando dar a cartada final, s que na certeza. Depois 
que realmente comeamos a namorar ele me contou sua verdadeira 
inteno:
 Eu queria ter certeza que voc tinha algum interesse real em 
mim!  disse-me Eduardo.  Era difcil afirmar ao certo porque o seu 
jeito de agir era muito, muito diferente do costumeiro. Mesmo dentro da 
Igreja nunca vi ningum agir com tanta integridade, tanta discrio. Eu 
sei perceber quando uma mulher est dando bola! Mas voc no era 
clara em momento algum, que coisa! Que raio de mulher difcil!! E eu no 
queria quebrar a cara. No queria arriscar sem ter certeza. Afinal...  e 
nesse momento Eduardo assumia o seu olhar maroto.  Eu nunca levei 
um "no"! Claro que no queria que justamente agora, com voc, fosse a 
primeira vez. Porque estava mesmo gostando de voc! Nada melhor do 
que uns cimes bem feitos para ver se te desestabilizava um pouco, pelo 
menos!
 Te garanto que voc usou o mtodo errado! Quase que deu o 
efeito contrrio!
 Mas eu tinha que usar algum mtodo. Nada parecia funcionar, 
eu j estava querendo dar o "bote"!  brincou ele.
Foram muitos os nossos "desencontros". Nem d para contar tudo! 
Mas o tempo todo foi assim: ele fazendo alguma coisa e eu entendendo 
outra, eu achando que estava demonstrando interesse, e ele no 
percebendo!
Um dia samos todos juntos com uma galera da Igreja para comer 
pizza. Tudo termina em pizza no Brasil, n? Eu e Eduardo sentamos na 
ponta da mesa e conversamos tanto que o pessoal comeou a pegar no 
nosso p. Elaine estava numa diagonal, de frente para Eduardo, e s 
faltava nos fuzilar.  que o trio de amigas tinha oferecido carona a 
Eduardo para ir  pizzaria, mas ele dispensou Porque ia comigo. Elaine 
no se conformou, depois desse dia nem olhava na minha cara.
Nosso interesse parecia mtuo, mas ningum dava o primeiro 
passo! Durante todo este perodo eu orava a Deus pedindo que Ele no 
deixasse eu me enganar, no me deixasse ficar sofrendo  toa. E se 
realmente Eduardo e eu tnhamos alguma coisa em comum, que 
pudssemos nos acertar de uma vez por todas.
Finalmente... ningum agenta mais tanta novela...
A definio s veio no comeo de dezembro. Um dia, ele quase 
falou!
A gente estava conversando na porta da Igreja, depois do Culto. E 
conversamos tanto que s ficamos ns dois ali, junto com o porteiro. 
Quando finalmente nos despedimos, Eduardo disse alguma coisa sobre 
ter sido flechado.
 Flechado? Tem alguma flecha voando por a?  perguntei, 
entendendo.
 Tem, sim. E dessa vez foi um "ataque apache"!... Sorri 
abertamente, mas no disse nada.
Nem dormi direito.
* * * *
Captulo 3
Depois daquele planto terrvel na UTI da Clnica Mdica eu 
estava literalmente exausta. Durante o dia os pacientes ficaram 
compensados, bonzinhos... mas  noite, justo no meu horrio, todos 
resolveram complicar e foi impossvel pregar olho. passei a noite toda s 
correndo para cima e para baixo, "buchando" (gria que quer dizer, 
literalmente, "descascar o abacaxi").
Sa do Hospital depois de 36 horas, minha cabea latejava 
levemente e a viso parecia um pouco turva. Uma sensao a que eu j 
estava acostumada. Quando eu estava cansada demais levava mais 
tempo para conseguir relaxar. Pelo menos comigo acontecia assim, 
apesar da exausto eu no conseguia desligar e era difcil conciliar o 
sono. Normalmente s nos recuperamos bem de um planto desses 
depois de dois dias.
Antes de deitar, Eduardo ligou e acabamos ficando bastante tempo 
no telefone. A desculpa dele era falar algo sobre a coreografia de Kung 
Fu na pea, mas depois enveredamos para outros assuntos. Foi nesse 
dia que, pela primeira vez, acabei perguntando algo sobre a sua 
converso.
 Desde quando voc  convertido, Eduardo?
 H uns trs anos, por a  e no disse mais nada. Pelo que 
perguntei novamente:
 Mas... e antes de voc se converter? Voc seguia alguma outra 
religio, acreditava em alguma coisa? Ou era s como a maioria, um 
catlico no praticante?
Pergunta-chave. Mas eu no sabia. Eduardo foi sincero, to 
sincero que nem ele mesmo entendeu. E acabou respondendo em tom 
de voz at corriqueiro.
 Ah... antes de me converter eu andei dando uma olhada em 
tudo quanto  coisa, sabe? Conheci mesmo um pouco de tudo: 
mrmons, espritas, umbandistas, testemunha de Jeov, Rosa Cruz... 
Budismo tambm, claro! Por causa do Kung Fu! Sempre fui meio 
andarilho!
 E mesmo, ? Pxa...
Mas ele no tinha acabado. E sem que eu perguntasse 
acrescentou algo, aparentemente o dado mais importante:
 Mas eu no me identifiquei com nada disso, por incrvel que 
parea... aquilo Que mais mexeu comigo foi mesmo o Satanismo.
Pausa. De ambos os lados.
Procurei no mudar meu tom de voz, mas aquela declarao me 
soou completamente estranha, esdrxula. At mesmo inusitada.
 Ah. Satanismo?!  eu tinha que dizer alguma coisa.  
Caramba... mas... voc tambm foi atrs disso, Eduardo?
Minha cabea no tinha uma idia formada sobre aquilo, nenhuma 
mesmo.
 "Deve ser alguma espcie de seita, que coisa mais louca!" 
Imediatamente formei uma imagem mental sombria e imaginei um lugar 
que pessoas que gostam de hard rock deviam adorar. Flashes de 
conjuntos de rock brotaram diante dos meus olhos, muita gritaria, 
mscaras horrveis e msicas horrveis, algumas orgias... essa foi a idia 
mais Satnica que pude conceber naquela hora.
 Mas.... e ento?!.  inquiri  guisa de resposta.
 Bom...  Eduardo foi categrico:  Deixa pra falar sobre isso 
numa outra ocasio. Hoje j est tarde, e voc est cansada do planto.
Suspirei. Ele tinha razo. Deixei pra l aquela histria de 
Satanismo. Eduardo tinha sido to maluquinho, pelo que eu j conhecia 
dele, que aquilo s poderia ser mais uma das suas peripcias sem 
maiores conseqncias.
Antes de me despedir pra valer, anunciei:
 Eu deixei uma msica aqui  mo, gravada no toca-fitas. Vou 
colocar pra voc escutar um pouco, pra dormir que nem um anjo.  super 
linda, quer ouvir um pouco?
 Claro...
Apoiei o telefone sobre a caixa de som e coloquei a msica. Era 
to, to linda, ficamos os dois ouvindo, um de cada lado da linha.
Eu gostava de todo tipo de msica, desde que fosse agradvel de 
ouvir. Sendo assim, qualquer coisa servia: erudita de todos os tipos, 
especialmente os romnticos e barrocos; pera; MPB; msicas tpicas de 
outros pases; canes nostlgicas de outras dcadas... fossem 
romnticas ou agitadas, ou esquisitas, chiques ou bregas... at aquilo 
que ningum ouvia... se eu gostasse, eu ouvia. Mas no curtia sertanejo 
nem rock pesado.
Quando acabou j estava bem sonolenta. Peguei o fone de volta:
 E a? Gostou? Gravei pra voc!
A voz dele estava diferente, sensibilizada. Emocionada.
 Pxa, se gostei... nunca ningum fez isso pra mim, colocar uma 
msica pra ouvir no telefone! Gostei mesmo, Gata!
Acho que foi a primeira vez que ele me chamou assim dessa 
forma.  Tchau, um beijo!
Fui dormir satisfeita pensando se ele costumava chamar todas as 
moas de gata.
* * * *
Hoje sei que Eduardo tentou um pouco de tudo para abrir caminho 
at o meu corao. Sem perceber que j era dele desde o primeiro 
momento!
Apelou para cimes, indiferena. Tentou pegar pelo lado 
"materno", da brincava com as crianas da Igreja na minha frente. 
Tentou ser "bonzinho", e ento comeou a participar de um dos 
programas de assistncia social que a Igreja desenvolvia. E ver se isso 
surtia algum tipo de resultado positivo da minha arte. Logo que via o meu 
fusquinha estacionado por perto, saa de casa e voava para l.
Usou de todos os meios. Eu no conhecia Eduardo to bem assim, 
no sabia que nunca ele tinha gasto tanto tempo para conquistar algum.
Para encurtar a histria: finalmente foi dado o xeque-mate. Quase 
trs meses de caa-caa!
Ns j ramos amigos, e certo final de tarde amos ao cinema. 
Eduardo estava novamente trabalhando, portanto muito mais abonado. E 
foi encontrar-se comigo aps o servio no Shopping Paulista. 
Infelizmente peguei um trnsito monstruoso, atrasei-me muito. O coitado 
estava l, todo lindo de terno e gravata, com uma sacolinha na mo. Mas 
a carinha, que vi de longe, revelava o quanto estava cheio de esperar.
Cheguei apressada.
 Oi, me desculpe, Eduardo! O trnsito estava um horror. A 
carinha passou de enfadada para satisfeita.
 Tudo bem, no faz mal. Voc quer jantar antes do cinema? 
Vamos comer no Viena? Estou morto de fome.
 Vamos indo. E como foi o seu dia? Fomos tagarelando at l.
Fizemos os pedidos, comemos muito bem, o tempo foi passando. 
Eu observava Eduardo encher o seu prato de ketchup, foi com ele que 
aprendi a comer ketchup. Antes eu s gostava de mostarda.
Meu suco de abacaxi com hortel j estava no fim, e eu estava 
ansiosa em me acertar com ele. J estava cansada de tanta enrolao!
O suco acabou, bem no momento em que Eduardo fazia uma 
longa pregao astronmica, falando sobre seus conhecimentos da 
rbita dos planetas e seus satlites. Eu olhava para ele tentando 
adivinhar aonde ele queria chegar com aquela lenga toda. Eu sabia que 
volta e meia Eduardo engrenava nesse tipo de assunto, ele ficava 
encantado porque eu entendia o que ele falava.
Mas naquele dia... realmente... bom, deixa pra l!
Pedimos a sobremesa: pudim de leite condensado. L no fundo da 
alma eu orava ao Senhor.
"Deus, se o Senhor preparou alguma coisa entre a gente, que essa 
situao de indeciso chegue logo ao fim! No estou mais agentando... 
"
Pedimos nosso cafezinho e a Eduardo finalmente disse alguma 
coisa com segundas intenes.
 Voc sabe que a Lua gira ao redor da Terra, n? E nunca se 
afasta dela, o tempo pode passar, mas a Lua sempre vai continuar 
girando em torno da Terra.  compreendi perfeitamente o que ele queria 
dizer. Ele estava dando voltas para chegar justamente ali.
Nem parei pra pensar e impulsivamente reclamei, sorrindo:
 Tudo bem essa conversa toda, Eduardo, que nunca se afasta! 
Mas tambm nunca se aproxima, no , fica o tempo todo s rodando 
sem chegar a lugar nenhum!!
TUM! Pela expresso do rosto dele, imediatamente vi que tinha 
falado demais. E fiquei quieta, talvez tivesse dado a deixa fora de hora. 
Tratei de terminar meu caf rapidamente para disfarar um pouco. 
Eduardo tambm ficou mudo durante alguns segundos, os quais me 
pareceram interminveis. Mas no deixou passar a oportunidade. Dessa 
vez ele tinha certeza.
E ento falou logo:
 Eu ainda no estava certo se era recproco...
 Voc acha que eu ia ficar saindo sempre com voc, e tudo o 
mais, se no tivesse nada em mente? O que voc acha que estou 
fazendo aqui com voc?  tive que sorrir. Era incontrolvel.
 Mas, Isabela, voc no demonstrou muito. Eu ainda estava na 
dvida, e eu no queria fazer nada na dvida. Voc  uma pessoa 
importante pra mim, no queria tomar nenhuma atitude que pudesse 
estragar o que a gente construiu at agora.
Ele pegou de leve na minha mo e completou, sorrindo, mas ao 
mesmo tempo com seriedade:
 E... mas de hoje no ia passar, no! Eu j tinha decidido que ia 
pr tudo a limpo.  e sorriu mais abertamente, com aquele ar maroto.  
Voc sabe o que  isso?!.
Olhei para a sacola que ele puxou da cadeira. Estendeu-a para 
mim.   pra voc!
 Caramba, obrigada!  e eu estava sem jeito. No achava que 
fosse para mim.
Dentro dela estava um embrulho grande e muito bonito, meio fofo. 
Acompanhado de um carto do Garfield, que li meio sem graa. Ento 
abri o pacote e era um enorme bicho de pelcia, um porquinho cor de 
salmo vestido com jaquetinha e bon de couro preto.
 Nossa, mas que graa, Eduardo! Super lindo! Adorei!
 Eu no queria dar ursinho,  tudo a mesma coisa. Queria te dar 
alguma coisa diferente. Quando vi esse porco, no resisti. Como voc 
pode notar... de hoje no passava!
Eu continuava olhando para o porquinho, apertando-o, e meu rosto 
certamente demonstrava uma parte da alegria que estava por dentro.
 Tem um pouco a ver com voc, no?  perguntei a ele.  
Essa jaqueta de couro.... esse bonezinho... acho que ele  um porquinho 
meio malandro, n? Um porquinho rebelde!
 Acho que tem um pouco a ver comigo, sim! Mas agora eu no 
sou mais um malandro, um rebelde!  e ele ria.  Agora eu sou 
convertido! Esse porquinho  um rebelde bonzinho.
Eduardo segurava na minha mo e eu fiquei olhando para ele com 
uma mistura de sentimentos. Alegria, segurana e insegurana ao 
mesmo tempo, certeza... incredulidade!...  isso! Nem parecia que a 
gente estava mesmo ali, que a gente estava namorando. Eu tinha 
esperado muito por esse dia. Finalmente os desencontros tinham 
chegado ao fim.
Depois do jantar fomos ao cinema e o filme foi um verdadeiro 
abacaxi. J no agentava mais. No demoraria muito a perceber que 
Eduardo tinha uma enorme capacidade de optar por filmes horrveis. Eu 
detestava fico cientfica! Junto comigo ele aprenderia a gostar de 
filmes melhores, filmes de vida, com alguma mensagem boa.
Voltamos juntos, ele despediu-se e me convidou para ir ao 
aniversrio da sua prima no dia seguinte. Aceitei de bom grado e 
Eduardo deu-me um beijinho de leve.
Na volta para casa, dirigi quase sem ver o caminho. Fui dormir 
literalmente nas nuvens. Ou melhor... nem dormi! Passei a noite toda 
pensando que tinha dado certo!
"Eu orei. Deus atendeu! Ento  porque ele deve ser... aquele!
Aquele... de quem o Senhor j havia falado, tantos anos antes. 
Nove anos antes, para ser exata, no dia da minha converso.
 Deus est guardando o seu namorado  tinham me dito.
Fiquei quieta. Isso era coisa para se dizer? Mas naquele mesmo 
ano, eu no sabia... Eduardo tinha passado pelo Rito de Iniciao. (Leia 
Filho do Fogo).
Ao longo dos anos, Deus repetiria mais duas vezes sobre o 
homem que estava guardando para mim. Como eu nunca tinha 
namorado... no meu ntimo ficava claro... Eduardo era ele!
* * * *
Naquela semana deveriam comear as nossas apresentaes do 
Coral. Alm de cantar na Igreja duas vezes, o Pastor William tinha 
agendado algumas apresentaes em alguns shoppings de So Paulo. A 
primeira ia ser no Shopping Eldorado.
Embora eu houvesse comentado com Mayra sobre o incio do 
namoro com Eduardo, ainda no era do conhecimento da Igreja. Eu 
sabia que Eduardo tinha terminado com Camila oficialmente h quase 
dois meses, mas acho que pouca gente da nossa Igreja estava a par 
disso. O pessoal do grupo de Teatro sabia, e mais algum que tinha 
conhecido Camila pessoalmente. Eu mesma nunca a tinha visto.
Naquele dia depois do servio, Eduardo acompanhou-me  
apresentao no Shopping Eldorado. Ia ser l pelas sete e meia, oito 
horas da noite, e como a Cantata inteira durava uns 45 minutos, 
podamos at mesmo passear um pouco no Shopping mais tarde.
Chegamos de mos dadas para assumir publicamente o 
relacionamento. Para mim era realmente diferente estar junto com 
algum, e perceber que as pessoas  nossa volta percebiam isso. E 
tiravam, lgico, suas concluses.
Era ainda um pouco estranho, eu me sentia observada e 
analisada. Mas procurei no me incomodar porque, afinal de contas, era 
algo natural. Ns ramos um novo casal chegando no pedao!
Comeamos a conversar com o pessoal do Coral, todo mundo 
circulava por ali, uniformizado, rindo, confraternizando. Muitos membros 
da Igreja tambm estavam presentes somente para assistir  estria. 
Mas somente alguns colegas do grupo de Teatro  que vieram nos dar 
os parabns pelo namoro.
E a aconteceu algo muito desagradvel. Para minha surpresa, 
assim que as pessoas comearam a tomar posio em seus lugares, o 
Pastor Lus, muito chegado do Pastor William, chamou-me de lado.
 Isabela, por favor, no leve a mal o que eu vou dizer... mas eu 
preciso te transmitir um recado dos Pastores. Hoje ns gostaramos de 
pedir que voc no cantasse na apresentao.
Ele procurou falar brandamente. Mas no entendi de pronto.
 Por qu?  indaguei.
 Bem, acontece que vocs dois apareceram aqui de mos 
dadas... e isso infelizmente est gerando um pouco de questionamentos. 
Vamos conversar melhor depois, mas pelo que eu tinha entendido do 
Eduardo...
Eduardo adiantou-se e nem o deixou continuar, ainda que 
procurasse manter-se controlado:
 Sim, imagino o que vocs devem estar pensando, mas gostaria 
de deixar claro que isso est sendo um engano. A Isabela comeou a 
namorar comigo h dias, e eu j terminei com Camila h quase dois 
meses.
 Mas veja bem, Eduardo, em momento algum voc nos 
comunicou isso. Para todos os efeitos Camila continua sendo sua noiva 
 tornou o Pastor Lus.
Aquilo foi como uma ducha de gua fria. Eduardo ia continuar 
questionando, mas procurei interromper logo.
"Para bom entendedor, meia palavra basta" No  o que diz o 
ditado? Ento me adiantei:
 Tudo bem, Pastor. Pode ficar despreocupado porque no vou 
cantar.
Ele ainda me pediu desculpas, e afastou-se. Fiquei muito passada. 
Justo eu, que procurava ser irrepreensvel nesse aspecto. Eu no tinha 
feito nada errado!... Eduardo estava muito irritado.
 Mas que afronta! Pxa, que espcie de comportamento  esse? 
Desde quando eu preciso comunicar  Igreja que terminei um noivado e 
comecei um outro namoro?! Nunca soube que precisava dar esse tipo de 
satisfao. Mesmo porque, no era segredo pra ningum, tinha muita 
gente que j sabia! Que falta de considerao com voc! Foi a todos os 
ensaios e agora no pode cantar?!
Eu nunca tinha visto Eduardo to irritado at ento. Procurei 
acalm-lo, apesar de que estava muito entristecida. Nem entendi muito 
bem o porqu daquela postura.
 Tudo bem, olha, no tem problema......
  Vamos embora! No vamos mais ficar aqui!  reclamou ele 
categoricamente, impulsivo.
 No, no, no! No podemos fazer isso, vai soar como uma 
afronta. Ns no temos nada a temer, no estamos fazendo nada errado. 
Olha, veja de outra maneira... tente entender por outro lado... afinal, eles 
no podem adivinhar, n?
   Mas isso  uma injustia com voc! Voc no precisa passar 
por esse constrangimento todo de graa. O melhor  a gente ir embora!
 Mas, Eduardo, eles so Lderes, so os responsveis pela 
Igreja, pelo Coral. Se por acaso eles viram alguma coisa que levantou 
poeira, a obrigao  averiguar. Isso pesa sobre a Liderana, entenda 
que se eles vem algo "estranho", e no fazem nada... Deus vai cobrar 
deles depois! Isso  muito srio.
Eduardo no estava para muita conversa, injuriado com aquela 
desfeita. Mas procurei conversar e balizar a situao dos Pastores, evitar 
que ele se exaltasse. Eu ainda no conhecia aquele lado da Igreja, do 
povo evanglico. Conhecia, sim, a indiferena, a hipocrisia. Mas no futuro 
eu iria ver muito dessa outra coisa: para julgar, "enxergar plo em ovo" 
todo mundo est sempre pronto.
 Entende isso?  continuei.  Eles tm que tomar cuidado com 
todas as coisas.
 Mas  muito injusto com voc!  insistia Eduardo.  Por mim a 
gente ia embora.
 Mas eu quero ver o Coral cantar. Afinal, eu vim aqui pra isso!
E ficamos ali. Assisti meus colegas se apresentarem. Olhando de 
longe para mim, estranhavam que eu tivesse participado dos ensaios e 
agora no estivesse ali no meio deles. Ficou um burburinho meio chato, 
uns olhares aqui e ali. Agentei o constrangimento, chateada. No final da 
Cantata o pessoal nos cumprimentava, mas dava para sentir um certo 
arzinho de julgamento no ar. Eu cumprimentava de volta, sorrindo. Mas 
fiquei magoada. E Eduardo ficou indignado.
Realmente nenhum de ns tinha julgado necessrio informar nada, 
se soubssemos teramos feito. Nem meus pais conheciam Eduardo 
ainda! Fomos pegos de surpresa.
No meio do tumulto, depois da apresentao, o Pastor Neliton e a 
esposa chegaram perto de ns para tentar remediar a situao. Mas sa 
dali sentindo-me mal, com uma sensao de estar fazendo algo errado. 
Uma sensao de culpa.
 Pxa, ficou uma impresso to ruim... parece at que eu estou 
fazendo uma coisa ilcita.
 Fica tranqila! Vou conversar com eles e esclarecer tudo.
Eduardo conversou com os Pastores durante a semana. No 
domingo, no final do Culto, o Pastor William veio at mim. E pediu perdo 
em nome de todos com luvas de pelica. Eu s escutei, mas depois deixei 
bem claro, numa boa:
 Tudo bem... eu no sou a outra de ningum, no, viu, Pastor?
 Foi necessrio. Mas voc est liberada para voltar ao Coral.
Esse foi o primeiro de muitos percalos que ainda teria por causa 
do nosso namoro. Somente muito mais tarde fomos perceber  e 
entender  que j havia um contexto espiritual maligno pairando sobre 
ns. Desde aquela poca. Desde o primeiro momento. Nenhum de ns 
dois sabia o que ainda teramos que enfrentar.
Mas, por hora, graas a Deus, tudo parecia resolvido.
O pessoal do Teatro tinha percebido o problema. No outro ensaio 
tivemos que explicar tudo em poucas palavras. O pessoal at se absteve 
de comentar muito, ficaram meio chocados porque eram nossos amigos. 
E acharam, muito in off, que tinha sido "excesso de zelo Pastoral".
Enfim... deixamos pra l.
Agora era tratar de me acostumar com aquela nova condio: a de 
namorada! Claro que era preciso eu me acostumar, nunca tinha passado 
por aquilo que antes.
Mas a comeou o segundo captulo. Foi durante a semana 
mesmo, e s fiquei sabendo depois, pelo Eduardo.
Camila tinha telefonado casualmente para a casa dele e, falando 
com dona Odete, comentou que Eduardo estava demorando muito em 
voltar a Ribeiro para v-la. E queria saber quando  que ele ia.
  Mas, Eduardo, voc no tinha terminado o namoro?  
perguntei meio indignada e querendo saber muito bem daquela histria.
 Terminei, Gatinha, terminei! Pxa vida! Lembra aquele dia em 
que teve um show de msica na Igreja? Com aquele cantor que veio de 
fora, lembra?
 Ah! Lembro bem! Lembro mesmo.
"E como no lembrar??"
Continuei falando:
 No final eu a chamei para ir com o pessoal comer uma comida 
italiana, todo mundo ia... mas voc disse que tinha compromisso. At 
estavam com voc uns amigos que no eram convertidos. Lembro que 
um deles era bem cabeludo!
 Foi isso mesmo! Eu tinha chamado os meus amigos pra assistir 
o show justamente na inteno de evangelizar. Sabe como , n? Eles 
no viriam  Igreja escutar uma pregao, mas para o show bem que 
vieram! Como o cara ia cantar msicas evanglicas junto com msica 
popular, achei uma boa oportunidade. Mas a Camila apareceu do nada 
nessa ocasio, veio para So Paulo atrs de mim sem me avisar. Eu 
tinha terminado com ela j naquela poca. Mas esse era o jeito dela 
mesmo, ela nunca aceitava o fim do namoro. Deixava passar um tempo e 
vinha atrs de novo. Ento tive que deixar meus amigos depois do show 
e resolver aquela parada. A ltima vez que estive em Ribeiro tinha 
deixado bem claro que no ia mais voltar, que estava acabado..., mas 
Camila no escuta, no entende! E agora, mesmo assim ela ainda veio 
me procurar de novo...
 Mas voc deixou claro mesmo?! Ele sorriu e tentou explicar:
 Eu j no te disse como  que foi o nosso relacionamento? Ns 
terminamos o namoro um truzilho de vezes! Na cabea dela, era s 
mais um piripaque meu Mas naquela noite no show ns samos, fomos 
tomar um caf. E pus fim de novo! Terminei! Acabei! Isso j faz uns dois 
meses, exatamente como te falei. Mas agora ela achou de ligar pra 
minha me como se nada tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse 
dito nadai Foi perguntando se ela sabia quando eu ia pra l, pediu o 
telefone do meu novo servio, assim, desse jeito!
 E o que foi que sua me disse?
 Ela explicou que eu estava namorando.  E a? Eduardo tinha 
um ar de enfado. Sacudiu a cabea, um pouco contrariado.
 Camila ficou enfurecida e imediatamente mandou uma carta 
para o Pastor Neliton. Ele  um conhecido antigo da famlia, do Pastor 
Srgio, irmo dela. Em suma: o Pastor Neliton marcou um encontro 
comigo, para "conversarmos". Isso foi ontem  noite. Mostrou a carta. S 
a que fiquei sabendo da carta.
 OK, e o que ela dizia nessa carta?
 Bem, o que voc acha? Foi aquela ladainha! Que ns ficamos 
juntos durante quase 12 anos, que somos praticamente casados, v s 
se pode! E que terminar um noivado assim no tinha cabimento, afinal de 
contas, ela no tinha dito "no"! S eu que falei "no"!...
 U, ela acha que precisa de um advogado para vocs se 
separarem? Ser praticamente casada no  ser casada de fato.
 Pois , na carta Camila explica o que ela acha. Que a nossa 
separao  mais ou menos como um divrcio, e se ela no disse "no", 
ento eu tenho que continuar atrelado.  Eduardo suspirou.  Olha s a 
que ponto chegou... eu expliquei como dava. Fiz o Pastor entender que 
esse noivado estava terminado h meses, mas Camila ainda no 
entendeu e nem aceitou a situao. O questionamento dele  outro... o 
tempo todo ele me perguntava se eu tinha mesmo certeza do que estava 
fazendo, se valia a pena jogar fora aqueles 12 anos... pra pensar melhor, 
essas coisas.
Escutei, mas nem fiz questo de especular muito. A nica coisa 
que me interessava saber no momento foi aquilo que perguntei:
 E voc...? Pretende voltar para ela, como das outras vezes? 
Eduardo sorriu e me abraou com carinho. Como sempre.
  claro que no, Gatinha! De jeito nenhum. Agora eu encontrei 
a mulher certa.
Aquilo era o que me bastava. Eu compreendia que um namoro de 
tantos anos deveria realmente causar um baque emocional muito grande. 
Eu compreendia que ela deveria estar sofrendo. Mas... o que podia 
fazer? Apenas esperar que o   Voc explicou tudo para o Pastor 
Neliton? Seno, vamos acabar tendo problema...
 Eu expliquei. Contei como era o nosso relacionamento, que no 
dava mais, que ns nunca seramos felizes. Mas no sei se ele 
entendeu... ele conhece Camila h muito tempo, j tem uma opinio pr-
formada. At o final ele continuava dizendo para eu orar a respeito, 
pensar melhor, conversar com ela...  Eduardo sacudiu a cabea.  
Mas eu no tenho mais nada pra conversar com Camila. Quanto mais 
mexer nessa situao, pior!
Mas, mesmo sem mexer, a situao piorou ainda mais. At aquele 
momento eu no sabia que dona Odete punha lenha na fogueira. Em vez 
de desestimular Camila, ela a incentivava a continuar tentando.
Alguns dias depois deixei Eduardo em casa antes de voltar para a 
minha. Somente no dia seguinte  que fiquei sabendo. Eduardo nem 
pde ficar ali. Camila tinha vindo de Ribeiro novamente e estava 
acampada na casa da "sogra", exatamente como tinha se acostumado a 
fazer. Como se o relacionamento dos dois continuasse em p.
Quando Eduardo entrou, ela estava sentada na sala toda 
sorridente, e j foi pedindo para sair. Ele ficou bravo e recusou-se a 
conversar outra vez.
 Tudo o que eu tinha pra te dizer eu j disse, Camila!  e foi 
dormir em casa da av.
Custei a acreditar no que ouvia, mas no me intrometi. No era da 
minha alada.
"Mas que coisa", pensei comigo mesma.
Como sua primeira estratgia no tinha dado certo, ento Camila 
foi pessoalmente falar com o Pastor Neliton. Que, para todos os efeitos, 
estava do lado dela. Chorou, chorou as pitangas... e continuava cercando 
Eduardo por todos os lados, inclusive no servio. Mas como ele 
continuasse se recusando a encontr-la, Camila teve que voltar para 
Ribeiro.
Ento telefonava, mas Eduardo desligava dizendo mais uma vez 
que eles j tinham conversado o necessrio. A Camila passou a mandar 
cartas, as quais Eduardo me mostrava.
Eu sentia uma ponta de pena. Tentei sugerir:
 No seria melhor voc ir at Ribeiro e conversar de novo com 
ela?
 No. Eu j conversei. No tem mais o que conversar. Eu 
conheo Camila. Agora ela tem  que entendeu!
E no arredou p.
Mas na Igreja ficou uma situao delicada por causa do bafaf que 
ela criou diante do Pastor Neliton. E as fofocas comearam logo. O 
problema  que em momento algum as pessoas vieram falar comigo, 
nem mesmo os Pastores. Para todos os efeitos, eu estava sendo a pedra 
de tropeo.
Ficava sabendo de tudo o que falavam, todos os comentrios 
maldosos, todos os julgamentos, todas as opinies... porque dona Odete 
gentilmente incumbia-se de repassar tudo ao Eduardo. Ela tambm 
freqentava a Igreja, embora no fosse convertida, e discutir o nosso 
relacionamento tornou-se assunto de primeira linha.
Fui ficando extremamente chateada. Escutei de tudo um pouco. 
Quase sempre de pessoas que conheciam muito pouco do contexto de 
Eduardo e Camila. E  pior!  menos ainda do meu com ele.
 Ah! Mas o seu filho  um louco de jogar fora um namoro to 
longo, to antigo! Que absurdo! Esse tipo de coisa com a outra no tem a 
menor chance de dar certo.  especulavam com dona Odete.
Ou ento:
 A Camila  uma moa to boa, o que est acontecendo com 
Eduardo? Mas o pior de tudo eram as comparaes. Camila era uma 
pessoa, eu era outra. Ela gostava de um tipo de coisa, eu gostava de 
outra.
Por exemplo, para Camila roupa tinha que ser "certinha". O meu 
estilo j era mais despojado. Pois at da minha roupa falaram! Do meu 
jeito de ser, de tudo! Tudo foi colocado em cheque. Tudo foi comparado. 
E, claro... naturalmente Camila era melhor em tudo.
Pelo menos era assim que dona Odete repassava ao Eduardo. S 
que ela repassava apenas o que convinha.
Alis, o aspecto familiar foi outro captulo. E esse eu nunca 
consegui entender direito...! Na casa de Eduardo fui tratada de uma 
forma, no mnimo, muito estranha.
Nem bem comecei o namoro e procurei fazer o melhor possvel, 
usei das boas maneiras que aprendi em casa. Da boa educao que 
todo ser humano deve ter. Como estivesse perto do Natal presenteei a 
me dele e a av com uma lembrancinha, como manda o protocolo da 
boa etiqueta.
Sempre gostei da av de Eduardo; e procurava conversar bastante 
com dona Odete, no comeo eu a achava simptica. Mas na primeira 
reunio de famlia, um aniversrio, percebi que ningum perdeu muito 
tempo comigo. Afinal, eu era somente "mais uma". Os irmos dele no 
fizeram nenhuma questo de que eu me sentisse  vontade, e uma das 
primas, que sempre foi apaixonada por Eduardo, fez questo de jogar 
seu charminho na minha frente.
Achei um comportamento meio esquisito, mas realmente no 
liguei, outra vez. Para mim era suficiente o desejo de Eduardo em querer 
permanecer comigo. Tudo aquilo ia passar. Pelo menos foi assim que 
pensei.
Os comentrios logo comearam tambm ali dentro.
"Ela  estranha...  estranho ver Eduardo com ela. Camila j fazia 
parte da famlia."
Eduardo no teve muita sabedoria na sua sinceridade. Ao querer 
manter-me inteirada daquele bombardeio a que ele tambm estava 
sendo submetido logo de cara, sem querer envolveu-me naquela 
delicada e desagradvel situao.
No imaginei que ia encontrar tanta resistncia por parte das 
pessoas no nosso namoro. Para mim aquele deveria ter sido um perodo 
especial, gostoso... eu tinha imaginado tudo diferente! Sempre pensei 
como seria ter cunhados, cunhadas, sogra, sogro... como seria pertencer 
tambm a outra famlia! Ser recebida por outra famlia.
Mas aquele estado de coisa foi criando dentro de mim um 
sentimento de desalento e desconforto. Havia no ar uma rejeio 
gratuita, um julgamento precipitado... eles nem se deram ao trabalho de 
me conhecer, de saber quem eu era, como eu era.
E se no era realmente "estranha" antes, acabei ficando depois,  
claro. Nunca eu sabia que espcie de comentrios fariam assim que eu 
virasse as costas.
Por um lado, eu compreendo que a substituio era difcil para 
todos eles. Especialmente depois de 12 anos. Por outro, era injusto 
comigo porque eu estava acabando de chegar, completamente alheia a 
esse contexto, e era to gente quanto Camila.
Se era difcil para eles, muito mais para mim! Que estava entrando 
em contato pela primeira vez com a famlia de um namorado.
Mas, problemas  parte... nosso relacionamento estava indo de 
vento em popa! As atitudes sinceras de Eduardo me faziam sentir segura 
e tranqila da sua escolha.
* * * *
Mexericos  parte... a vida continuava e eu tinha mais com o que 
me preocupar. Ainda bem que agora j no tinha mais aula e nem 
plantes.
Finalmente acabou o sexto ano, e agora toda a correria e esforo 
eram por causa da prova de Residncia.
Estava havendo uma srie de aulas-dica, como ns as 
chamvamos, uma espcie de reviso rpida das principais Clnicas. No 
entanto, a grande verdade era simples: o que a gente sabia, sabia. O que 
no sabia, era melhor nem estressar muito. O tempo era curtssimo para 
rever e relembrar os pontos mais importantes.
Levantava-me pela manh e j tratava de me pr em campo para 
estudar. Logo chegaria a primeira fase. Era imprescindvel que eu me 
concentrasse.
Mas como estava sendo difcil!!! Esforcei-me bastante naqueles 
dias, mas no foi exatamente como deveria. Somando-se ao cansao 
natural do fim do ano, eu estava toda hora a me pegar com a cabea nas 
nuvens, s pensando em Eduardo.
A primeira fase era uma prova de cem questes de mltipla 
escolha que englobava tudo de tudo.
Estudei o que deu. Principalmente Obstetrcia e Ginecologia, que 
tinha menos matria mas cairia a mesma quantidade de questes a 
respeito. Estudei bastante Cirurgia, principalmente Geral, Urgncias e 
Gstrica. Um pouco de Pediatria. Relembrei algumas frmulas para 
calcular os soros de hidratao infantil, pontos quentes. Clnica nem 
peguei, ia confiar naquilo que tinha aprendido na prtica durante a 
Faculdade e as provas. Medicina Preventiva tambm nem olhei. Dei uma 
relembrada em coisas importantes de Otorrino e Oftalmo, que por vezes 
caam uma ou outra questo. Dermatologia tambm precisava dar uma 
vista d'olhos.
Durante esses dias costumava ficar em casa estudando o dia 
inteiro, s saa para as aulas de reviso. No final do dia encontrava com 
Eduardo, afinal precisava manter minha sanidade mental, era importante 
estar bem descansada na prova. Mas no consegui estudar o quanto 
gostaria, infelizmente. Minha mente estava cansada, meu corpo estava 
cansado.
No era privilgio meu. Meus amigos da Panela e os colegas de 
turma no estavam menos exaustos. A maioria ia levando no piloto 
automtico, sem parar muito pra pensar. Era melhor no pensar, no 
respirar, no fazer nada a no ser estudar para a primeira fase.
E chegou o dia! No sou estressada, nem nervosa, nem 
desesperada. Mas a responsabilidade era muita e no dormi bem  noite, 
acabei indo bem mal dormida, isso sim! Minha vista pesava e eu sentia 
aquela leve dor de cabea logo cedo, fruto do cansao.
Fiz a prova. No sa l muito satisfeita, mas agora estava feito. O 
resultado viria em duas semanas, logo depois da Colao de Grau. Os 
aprovados deveriam ento preparar-se para a segunda fase, especfica 
da rea que cada um estava prestando. Eu tinha me decidido pela M.I., e 
deveria fazer uma prova que duraria dois dias no incio de janeiro. Isto , 
se fosse aprovada na primeira fase, a prova de conhecimentos gerais.
Descansei um ou dois dias e j comecei a estudar para a outra 
etapa. No dava para esperar sair o resultado. Agora era menos matria, 
apenas M.I.. No entanto, a prova era bem mais especfica.
* * * *
Estava quase chegando o dia da Colao de Grau. Mas eu no me 
sentia completamente feliz porque, para variar, eu e meu pai estvamos 
brigados. Nem me pergunte o motivo, eu j no sabia. At mesmo 
durante aquele perodo de provas importantes ele no estava falando 
comigo.
Eu tinha ficado muito triste porque depois do meu ltimo dia de 
aula, quando efetivamente terminei o sexto ano, minha me fez surpresa 
comprando um lindo bolo da "Brunella" e uma champagne ros (que eu 
adoro) para comemorar. Mas ele nem falou comigo! No quis participar. 
No me deu os parabns!...
Cortamos o bolo sozinhas, apenas eu e ela, e tudo aquilo no teve 
gosto de celebrao. Meu corao tambm tinha sido cortado. A atitude 
dele me fazia questionar todo aquele meu esforo, a vitria de ter 
terminado a Faculdade... como se aquilo no significasse nada. Embora 
devesse significar algo, afinal... ele tambm queria aquilo, no era?
Lembrei da poca do Vestibular, quando eu tinha escolhido fazer 
aquele curso tambm para dar alegria a eles. O mais incrvel  que 
durante as provas do Vestibular meu pai tambm estava brigado comigo! 
Que estranha coincidncia!
Durante quase todo o perodo de exame ns nem nos falamos... 
ele nem me olhava... no ntimo torcia pela minha aprovao mas, por 
fora... me ignorava!
Eu estava esgotada daquilo. O ano todo tinha sido arrastado pelas 
brigas. Vez por outra, minha me o acompanhava no silncio. Uma hora 
resolvia, depois piorava de novo. A resolvia... piorava... Pxa vida! Eu 
realmente no sabia mais o que fazer, no queria magoar meu pai. Eu j 
havia conversado com ele uma ou duas vezes, procurava me explicar, 
me desculpar, entend-lo e me fazer entender. Mas logo a situao 
voltava  estaca zero. No sei porque a gente vivia assim. Onde estavam 
os motivos reais? Sim, porque tudo bem, eu no era perfeita... mas quem 
? Quem ?!
Comentei com Eduardo minha preocupao:
 Minha Formatura no vai ter o menor sentido se meu pai estiver 
mudo comigo... j no sei o que fazer sobre isso. Meu irmo tambm no 
vai estar, s vai conseguir vir do exterior na boca do Natal! Que grande 
significado isso pode ter assim desse jeito?!!
 Voc no pode conversar com ele sobre isso?
 Eu j conversei! No sei mais o que dizer! Mas depois fiquei 
pensando e resolvi tentar mais uma vez.
Um dia eu estava na cozinha de casa estudando  tarde, 
aproveitando o sol gostoso que batia ali naquela hora. A ele abriu a 
porta e entrou, em silncio.
O incmodo silncio se manteve por alguns instantes, enquanto 
ele enchia um copo de gua. Criei coragem e comecei:
 Pai... eu queria te dizer que a Formatura  na semana que vem. 
Mas se voc estiver brigado comigo no vai ter significado pra mim, vai 
estar tudo estragado. Eu... no quero estar brigada com voc...  e j 
nem conseguia falar direito, com a voz embargada. Como aquela 
situao me fazia mal!  Se eu estou magoando voc por algum motivo, 
quero te pedir desculpas... porque eu no quero magoar ningum. Seja o 
que for que eu tenha feito, no estou fazendo de propsito. Voc pode 
pensar que  de propsito, mas no !
E continuei ainda, at que ele disse que tudo bem, que estava tudo 
bem.
Eu realmente creio que meu pai se esforava para me perdoar. 
Pelo menos, parecia ser assim. Mas como era grande a sua dificuldade 
em dialogar, por mais que sofresse com a situao ele tambm no dava 
o brao a torcer.
s vezes me ponho tentando explicar o inexplicvel, fico 
pensando... e tiro minhas concluses.
De um lado, tinha a frustrao dele: constatar que nem sempre eu 
era
exatamente aquilo com que ele tinha sonhado. Talvez meu pai 
olhasse para mim e percebesse outras coisas, coisas com as quais ele 
no sabia lidar. Outras maneiras de pensar, de agir, de ver o mundo. 
Acho que ele no aceitou as minhas diferenas, no conseguiu abdicar 
do seu prprio sonho de ter uma filha perfeita.
Eu no era perfeita, eu era apenas eu, apenas Isabela!
Em nenhum momento da minha vida meu pai realmente conversou 
comigo, procurou me conhecer, saber quem eu era. Ele precisaria ter 
olhado para dentro daquela menininha que ele viu nascer, a "Princesa 
folheada a ouro", e em quem depositou tantas expectativas... querendo 
enxergar o que de fato estava ali, a pessoa que eu realmente era.
Era necessrio meu pai ter visto a realidade, e aceitado essa 
realidade mesmo sabendo que nem sempre a realidade  como se 
gostaria! Creio que todas as vezes que ele esperou algo de mim, sonhou 
com algo, e no fim isso no se concretizou, acabou havendo uma 
decepo. Essa decepo aconteceu no porque eu fosse uma filha m, 
mas porque era uma expectativa irreal dele, uma expectativa falsa. A 
esperana de algum que no chegou a me conhecer bem, mas sonhou 
muitas coisas para mim... e acreditou no sonho!
Ele acabava se decepcionando e creio que, at mesmo, me 
culpando por no ser a Isabela que ele queria. Como sei que fui uma 
filha muito esperada, muito desejada... parece que nas minhas mos 
ficou indiretamente a misso de faz-lo feliz. Mas eu no fui capaz. No 
totalmente. No retinha nas mos todo este poder!
E a vinha a minha parte, o meu lado da questo. Eu me frustrava 
por isso, por decepcion-lo. E, decepcionando-o, pagava o preo por 
isso. Era roubada do lugar de "princesa", dos sorrisos, dos aplausos, do 
incentivo. Ficava frustrada por ser privada da totalidade do seu amor!
Meu pai era tudo pra mim... a pessoa mais importante da minha 
vida... por isso era to difcil. Mas depois daquela breve conversa na 
cozinha as coisas melhoraram novamente, e ele voltou a falar comigo.
No dia da Formatura todo mundo estava chique e animado. E 
embora o Marco no pudesse vir, alguns parentes do interior de So 
Paulo deveriam estar presentes.
Samos no comeo da noite, eu, meu pai e minha me. No local da 
Formatura os fotgrafos no paravam de nos iluminar com seus flashes 
desde a hora em que descamos do carro. Durante todo o tempo eles 
nos fotografavam no saguo, dando dicas, fazendo seu trabalho com 
esmero para, depois, termos muitas opes para montar o lbum de 
Formatura. Havia luzes por todos os lados, pessoas bem vestidas, 
sorridentes, de peito estufado por fazerem parte da famlia de algum 
formando. Beijos, mil beijos; e abraos, abraos e mais abraos, e 
festejos de todas as formas!
Nossa beca era muito bonita, elegante, de boa qualidade, ornada 
com aqueles babados brancos e a faixa verde da Medicina. Sei que sou 
suspeita para falar, mas ns estvamos muito bonitos! Isso!
 muito difcil expressar em palavras a alegria e orgulho daquele 
momento, o sabor daquela conquista. Agora eu estava feliz, agora minha 
satisfao era completa e eu podia experimentar com gosto aquela 
sensao: eu era Mdica!
Mais feliz ainda eu estava porque haveria ali mais uma pessoa que 
j me era cara ao corao. Eduardo.
Nesse dia iria apresent-lo  minha famlia. D para imaginar como 
tudo estava sendo realmente especial para mim!
Eduardo viria com o Slvio, do nosso grupo de Teatro, para 
aproveitar a carona. Eu no o vi antes de entrar no salo imenso onde 
efetivamente se daria a Colao de Grau. Tudo que eu sabia era que ele 
estaria ali, em algum lugar no meio daquela multido, meu namorado 
estaria ali para participar comigo daquela data!
O pessoal da turma estava particularmente efusivo naquela noite, 
particularmente radiante. Todo mundo sabia que preo tinha sido pago 
para ocupar um lugar naquele grupo.
Quando fomos entrando por uma das laterais levemente 
iluminadas, tentando nos manter em fila, indo em direo aos nossos 
lugares, ao me voltar para a direita dei de cara com meu pai. Ele estava 
na ponta da passarela bem ali ao lado, xeretando em tudo, observando, 
como era de seu costume.
Todo mundo estava mais solto nesse dia, eu tambm. Por isso 
gritei para chamar a ateno dele. Foi espontneo, quase um ato reflexo, 
completamente impensado:
 Pai!!!  e acenei para ele.
Ele retribuiu o aceno de forma espontnea tambm, natural... 
quase um ato reflexo. E naquele momento to desprevenido de encontro, 
de repente pareceu que tudo estava como antes: eu era a filhota, e ele 
era meu orgulhoso Papai, sempre satisfeito com tudo o que eu fazia.
Fiquei pensando, depois, na expresso dos nossos rostos durante 
o instante que durou aquele gesto to simples, to sincero! Um aceno... 
mas que tirou de ns dois uma breve expresso daquele amor de 
antigamente.
A figura do meu pai era sempre fundamental. Nada poderia 
sobrepuj-lo, encobri-lo, ofusc-lo. Quer me aprovasse, quer me 
desaprovasse. Quer para o bem, quer para o mal.
Em alguns momentos ele determinava, de certa forma, boa parte 
do meu estado de esprito. Podia determinar a minha felicidade ou a 
minha tristeza... a minha vitria... ou minha derrota!
* * * *
Durou um tempo enorme a Colao. Naturalmente foi bem nos 
conformes, exatamente como deve ser: infindvel e cheia de discursos 
dos Doutores, dos Mestres, dos Figures da Universidade.
Quando fui chamada para ir  frente, recebi meu diploma e o anel 
foi colocado simbolicamente no meu dedo.
 E conferimos a voc, Isabela Rolti, o Grau de Mdico! Que 
coisa!!
Depois que encerrou a Formatura, Eduardo acabou me achando 
no meio da minha parentela; no meio da confuso, dos apertos de mo, 
dos beijos, dos abraos e dos sorrisos de orelha a orelha. Agora eu era a 
"Doutora Isabela" e todos pareciam satisfeitos.
 Oi, Eduardo, que bom que voc apareceu!
No meio de mais fotos com a famlia, tirei com ele tambm, com a 
Mayra, o irmo dela e o Slvio. Mas como a confuso estivesse muita 
naquele momento, ainda no era hora de apresentar Eduardo aos meus 
pais.
 Alis, onde ser que esto os meus pais? J me perdi deles!
 No, olha ali, eles esto ali conversando!  falou a Mayra.  
Ah,  mesmo! Meus pais conversavam com os parentes que no viam j 
h algum tempo.
Eles ainda no sabiam quem era Eduardo, eu estava cercada de 
pessoas e Eduardo era apenas mais um.
Ento finalmente era hora de ir embora. Eduardo estava l um 
pouco apreensivo quando despediu-se do Slvio, eu percebi. Mas 
procurava manter o tom descontrado de sempre, fez uma brincadeirinha, 
procurou relaxar.
 V orando por mim no caminho de volta porque vou conhecer o 
pai dela, a famlia toda!  brincou ele para o Slvio.
 Vai tranqilo, bonito desse jeito que voc est todo mundo vai 
te adorar!  Slvio tambm no perdeu a oportunidade de retribuir a 
brincadeira.
Era verdade que Eduardo ia mesmo ser apresentado na melhor 
hora, at para os parentes do interior, tudo de uma vez.
Eu j tinha conhecido a famlia dele no tal aniversrio, mas 
Eduardo sempre teve uma namorada a tiracolo desde que saiu das 
fraldas. Quando no era Camila, tinha sempre alguma outra! Portanto, 
para eles no era nenhuma novidade Eduardo estar namorando!
Muito diferente era o meu caso, ns sabamos. Claro que todos 
estavam na expectativa de quem seria o tal pretendente!
Dias antes, quando meu pai indagou-me querendo saber o que 
Eduardo fazia profissionalmente, eu no consegui explicar muito bem. 
No lembrava direito daquele termo "Analista Econmico Financeiro". 
Meu pai talvez no tenha entendido muito bem, mas deixou passar e 
esperou pela hora oportuna. Que era agora!
Depois de muito bem despedidos de todos, eu e Eduardo nos 
encaramos sorridentes e com uma leve sensao de expectativa. Era 
tocar para a segunda parte, irmos atrs de minha famlia.
Sa de brao dado com ele para encontrar todo mundo l fora. Eles 
estavam parados numa roda, conversando enquanto esperavam por 
mim. Eu senti os olhares a distncia, at que foi engraado. Acho que 
talvez meus pais j tivessem comentado algo com os outros, e todos logo 
olharam na nossa direo. Na cabea deles estava a questo:
"Ento... esse que  o cara!"
Eduardo estava muito elegante no seu terno e gravata, e percebi 
uma certa admirao misturada com curiosidade por parte de alguns 
parentes. Meu pai estava muito  vontade. Veio ao nosso encontro, 
sorrindo, junto com minha me. E apertaram cordialmente a mo de 
Eduardo.
 Pai... Me... este  o Eduardo!  apresentei. As mesuras foram 
trocadas adequadamente. Ento meu pai perguntou:
 Vamos indo? Voc janta com a gente, n? Eduardo assentiu.
Eu e ele caminhamos de mos dadas at o carro, trocando olhares 
significativos vez por outra. Embora eu nada dissesse, sabia que 
Eduardo tinha causado boa impresso.
No houve muito tempo nem oportunidade, mas foi isso mesmo: 
ele agradou  primeira vista. O jantar transcorreu normalmente apesar de 
que ficamos sentados perto de minhas primas, longe dos meus pais. 
Como meu pai fosse um exmio observador, dotado de uma "anteninha" 
extremamente sensvel e aguada, certamente estava radiografando 
tudo!
Eduardo fez questo de mostrar-se sensvel e solcito comigo. At 
na hora em que comecei a sentir frio, ele foi o primeiro a oferecer-me o 
seu bliser.
No final da noite, meu pai o deixou em casa. Naquela hora eu no 
falei nada, mas no dia seguinte sorrateiramente perguntei o que ele tinha 
achado do Eduardo. E meu pai respondeu:
 Parece ser um moo simptico!
Suspirei de alvio. Embora no acrescentasse maiores comentrios 
eu sabia que aquilo, partindo dele, era bom sinal.
Quando me lembrava daquele missionrio da JOCUM ficava at 
com pena...
Captulo 4
No dia em que saa o resultado da primeira fase da prova de 
Residncia eu estava numa tremenda expectativa! A coisa mais terrvel 
que podia acontecer a um sextoanista era no conseguir vaga no curso 
escolhido.
Tive que sair com minha me pela manh para resolver algumas 
coisas. Depois aproveitamos para passar na Faculdade porque o 
resultado estaria afixado ali a partir das 11 horas. Ela estacionou em 
frente, ficou me esperando no carro, e eu entrei sozinha. Sentia o 
corao batendo na garganta. Aquilo significava tanta coisa!
Vi logo um burburinho diferente ali na entrada, tinha um bom 
nmero de pessoas aglomeradas, empilhando-se prximas umas das 
outras procurando nas vrias listas os seus nmeros. De fato a parede 
inteira estava repleta de papis cheios de listagens de nmeros. Vi que 
no seriam colocados os nomes dos alunos, apenas os nossos nmeros 
de inscrio.
Dei uma olhada no meu nmero, que era bem comprido, com uns 
seis ou sete dgitos, e passei a procur-lo na listagem. Enfiei a cabea no 
meio de outras cabeas igualmente ansiosas e percorri os olhos 
apressadamente. Minhas mos j estavam frias e a boca meio seca. Os 
que j tinham passado zanzavam ainda por ali, com largos sorrisos, 
comentando a vitria uns com os outros e atrapalhando quem queria ver 
o seu prprio resultado.
Finalmente enxerguei uma numerao prxima daquela que eu 
tinha em mos. Mas, para minha surpresa e infelicidade, a listagem 
pulava o meu nmero e continuava adiante. Olhei e olhei, diversas 
vezes, sentindo de imediato uma tristeza incalculvel.
Como realmente no encontrasse o meu nmero, afastei-me das 
listas ainda completamente baratinada, com a cabea rodando. Eu 
procurava entender o que tinha acontecido. A nota de corte estava 
publicada... pxa, o que teria acontecido? Ser que eu no tinha 
conseguido atingir nem aquela pontuao?
Uma colega de classe veio toda sorridente para mim, mostrando 
no ar alegre que tinha sido aprovada, e perguntou:
 E a, Isabela, foi bem? Eu no soube o que responder:
 Ah.... mais ou menos...
Ela compreendeu imediatamente o que aquela resposta significava 
e nem conseguiu dizer mais nada, afastou-se sem maiores comentrios. 
Eu me sentia pssima.
Tive que sair o quanto antes dali e voltei para o carro. Minha me 
me aguardava cheia de ansiedade.
 E ento?  perguntou-me ela.
Com a cara um tanto apreensiva, respondi:
 No deu. No passei.
Ela ficou visivelmente chateada. E no sabia o que dizer.
 No me diga uma coisa dessas...
 Pois . Por essa eu tambm no esperava.  e fiquei muda.
Ningum esperava por isso. Eu nunca tinha sido reprovada em 
prova alguma de importncia. Tinha que acontecer isso justamente 
agora, num ponto to crtico da minha existncia?!
Mas no entrei em crise. Cheguei em casa e procurei no pensar 
no assunto. No fiquei chorando nem arrancando os cabelos, como eu 
sabia que muitos faziam. Mais tarde comunicamos ao meu pai, que ficou 
muito chateado tambm. Mas ningum me culpou e nem me acusou de 
nada. Foi somente um momento de profunda tristeza.
Agora eu s precisaria descansar um pouco, pr a cabea no 
lugar. Resfriar a tenso. Nem parei para pensar no que aquilo significava 
e o que eu faria no ano seguinte.
 noite fiquei um tempo no telefone. Eu no tinha vontade de ligar 
para ningum e dar uma notcia daquela. Mas as pessoas me ligaram.
Primeiro falei com Eduardo, que procurou animar-me o melhor 
possvel e me fazer ver que no era o fim do mundo. Ele sempre tinha 
uma viso otimista das coisas, e conseguiu levantar um pouco meu 
astral. Me consolou, me animou, e fiquei melhorzinha. Mayra ligou depois 
e tive que contar que no tinha dado certo. Edilson, que tambm j era 
Residente, ligou tambm. E ficou decepcionado.
Que droga!!!
Em trs dias era vspera de Natal. Marco chegou bem de viagem 
e todos ns procuramos esquecer aquele mau pedao.
Foi a que aconteceu uma reviravolta pela qual eu no esperava! 
Deus que salvou a situao, porque eu nem estava mais pensando 
naquilo, j estava conformada. Mas precisava pegar uns documentos na 
Faculdade antes de dar o ano por encerrado.
Fui logo depois do Natal. Enquanto eu esperava que 
providenciassem o que precisava, fiquei ali mesmo ao lado da listagem 
dos aprovados para a segunda fase da Residncia. Meus olhos 
vagueavam  toa, eu olhava distrada ora para os quadros na parede, ora 
para as prprias paredes, ora para as janelas, ora para o cho. Ora para 
quem passava por ali.
Ento olhei para a listagem...  toa... e ento... simplesmente meus 
olhos deram bem em cima do meu nmero!!! Isso mesmo, nada mais, 
nada menos do que ele mesmo, bem ali no meio de um sem-nmero de 
outros pequenos nmeros. S mesmo Deus para fazer desviar meu olhar 
e bater bem ali em cima!
Voei para l sem acreditar! E s ento percebi o que tinha 
acontecido de errado. Havia duas listagens, s que no estava escrito 
isso em nenhum lugar, pelo menos que eu tivesse visto. Uma das 
listagens tinha como referncia dois zeros antes do incio da seqncia 
numrica. A outra tinha trs zeros de referncia. E eu estava inserida 
nesta segunda classificao. Ali estava o meu nmero! Tinha sido 
aprovada!
Sa de l esfuziante, super alegre, e fui correndo contar a todo 
mundo que tinha ficado decepcionado antes. Estudei com mais afinco do 
que se tivesse sabido antes do Natal! Alis, se perdesse mais alguns 
dias estaria ferrada do mesmo jeito, porque no haveria tempo hbil para 
estudar toda a matria da segunda fase. Todo mundo ficou satisfeito.
Deu tudo certo! Fui para as provas confiante aps ter estudado 
bastante e estar bem preparada. Sa-me bem, o meu caso clnico foi o 
segundo melhor discutido, caiu uma Endocardite Bacteriana cheia de 
rococs; e tambm respondi bem s questes escritas. Logo o resultado 
saiu. Eu era um dos oito Residentes escolhidos para comear a trabalhar 
no incio de fevereiro.
De alma lavada, aproveitei o resto do ms de janeiro  trs 
semanas  para recuperar-me daquele ano atribulado e cheio de 
percalos. Que tinha, graas a Deus, terminado muito bem! Pois agora 
eu no estava mais sozinha, tinha Eduardo ao meu lado; e fechara com 
chave de ouro a minha Faculdade.
Naquele ms de janeiro Eduardo conheceu meu irmo Marco que, 
alm de descansar, preparava-se para uma temporada de concertos pelo 
interior de So Paulo. Ele veio em companhia de uma moa estrangeira, 
uma jovenzinha loira e magricela, bem bonitinha, tambm estudante de 
msica, e que iria acompanh-lo nos concertos.
Ns nos conhecemos no PlayCenter. Marco ia levar sua amiga e 
ento eu e Eduardo combinamos de encontr-los l. Marco e Eduardo se 
conheceram naquele dia. Acho que meu irmo estava ainda desconfiado 
com meu namorado. Mas, diferente do meu pai, a sua primeira pergunta 
em relao a ele foi "se era Cristo".
"Sim", eu tinha respondido, "ele  Cristo".
Virada esta pgina, a partir da acho que o maior interesse de 
Marco era ouvir sobre o Kung Fu pessoalmente. Eu j havia comentado 
sobre isso, pois ele tambm gostava.
Marco era muito espontneo, ento, logo aps as apresentaes, 
na fila de um dos brinquedos, lanou a sua primeira pergunta:
 Voc fala chins?
 No, s arranho umas palavras.
 Voc sabe como se diz idiota em chins? Eduardo at achou 
graa e riu.
 Por qu? Voc t me chamando de idiota?!
A foi a vez de Marco rir, e o ambiente descontraiu.
Embora Eduardo no comentasse nada comigo, ele estava curioso 
para conhecer o Msico de quem j tinha tanto ouvido falar em minha 
casa. Como falavam muito, imaginou que Marco se achasse o "tal". Aos 
poucos os dois se conheceriam melhor e a primeira impresso seria 
balizada. Eduardo percebeu que Marco tinha hbitos diferentes,  
verdade, mas um bom corao, e era simples como pessoa.
Alis, naquele primeiro encontro, falando em "hbitos diferentes" 
Eduardo s estranhou a roupa: Marco estava usando uma bermuda 
estampada com uma camiseta de gola plo fechada at em cima 
(naquele sol de rachar), e meias sociais pretas com tnis! Realmente, s 
vezes Marco no prestava muita ateno nas roupas que escolhia.
Eduardo pensou no fundo:
"Bom...  Msico, n? Msico  assim...".
Ainda naquele ms de janeiro Eduardo e eu fomos assistir a um 
dos concertos. A convite do meu pai. Viajamos de nibus para encontrar 
minha famlia numa cidade do interior. Passamos o final de semana na 
companhia deles. No era possvel ficar mais porque Eduardo trabalhava 
na segunda-feira, mas ele voltou muito entusiasmado e satisfeito por ter 
sido to bem tratado pelos meus pais. Comemos bem, passeamos, 
aproveitamos a piscina do Hotel.
O restante daquelas frias serviu para consolidar o incio do nosso 
namoro, e tambm foi tempo suficiente para que Eduardo acabasse 
plenamente aceito por minha famlia. Logo ele tinha opinio formada:
O Seu Orpheu  uma pessoa distinta, me tratou super bem, foi 
amvel e acessvel... me surpreendeu, pensei que fosse me deparar com 
uma pessoa dura... convidou-me para ir  churrascaria duas vezes, no 
me julgou e nem me encheu de perguntas, no fez da nossa convivncia 
um interrogatrio. No ficou forando situaes para ver como eu 
reagia... tudo isso me deixou lisonjeado. Na churrascaria, at cantou 
junto com o dueto que tocava msica nas mesas. Foi muito simptico. 
Dona Mrcia tambm me pareceu uma pessoa distinta. Ela apenas me 
olhava bastante, sem falar muito. Observava... devia gostar muito de 
plantas porque uma vez, em casa de Isabela, Marco me pediu para 
mostrar como se mexia o nunchaku. Fiz alguns movimentos e aceitei de 
leve algumas folhas da samambaia. Marco ficou em pnico, me avisou 
para tomar cuidado. Eu achei estranho... no eram s umas folhinhas??? 
Depois o Marco tambm mostrou o que sabia fazer. Tocar. Eu fingi que 
adorei! Mas era muito distante do meu mundo. Percebi que eles no 
falavam muito de Isabela, e a melhor maneira de agradar a famlia era 
falar sobre as coisas do Marco. Toda famlia tem dessas coisas. Em 
termos gerais, fiquei bastante satisfeito!"
Passou o ms de janeiro.
Voltei para o Hospital, comecei a Residncia. Eduardo estava 
trabalhando como Analista Econmico-Financeiro num lugar bom, de 
fcil acesso, e j com a promessa de, em um ano, substituir seu chefe 
(que esperava completar o tempo para aposentadoria) na rea de 
Superviso. Meu salrio aumentou como Residente, ainda que fosse 
uma quantia simblica, e Eduardo tambm j tinha recebido seu primeiro 
pagamento na nova Empresa.
Logo fiquei sabendo a seqncia dos meus estgios e como 
ficariam os plantes. Que no eram muitos no primeiro ano. Por isso eu e 
Eduardo normalmente nos vamos quase todo dia. Em suma: tudo estava 
muito bem!
Pouco antes do carnaval, Marco foi embora de novo. Eduardo veio 
conhecer nosso trabalho de Evangelismo no Hospital, visitou alguns 
doentes conosco, viu de perto que campo enorme era aquele. Ele gostou 
bastante, conheceu melhor o Edilson e a Cris, conviveu mais com a 
Mayra. Nessa poca ela estava namorando com Walter, pois aquele 
antigo namoro no tinha dado certo.
Edlson foi muito simptico com os nossos namorados que no 
sabiam cantar, eram super desafinados e estragavam a harmonia do 
nosso conjunto. Ele procurou ensaiar bastante com Eduardo e Walter. 
Mas realmente no surtiu muito efeito, apesar da pacincia do Edlson os 
dois no tinham nascido para ser cantores.
Edlson at brincava:
 Acho que  melhor a gente arrumar um chocalho e um tringulo 
para eles tocarem!
Todo mundo ria e concordava. Mas algumas msicas bem que 
eles aprenderam e nos ajudaram.
Apesar de que volta e meia meu pai implicava que eu estava 
vendo demais o Eduardo, e que isso no era bom, tudo estava sob 
controle. Mas,  medida que correu o ms de fevereiro, eu e meu pai 
voltamos a nos desentender.
Quase tudo era motivo para um campo de batalha... mas o 
principal motivo continuava sendo meu horrio de chegada. Ele 
continuava implicante em relao a isso, mesmo quando eu avisava. O 
que sempre fazia. E nem era sempre que chegava mais tarde. E mais 
tarde era pouco depois da meia-noite!
Pxa, no era muito para uma paulistana de 25 anos, Mdica, 
adulta, Crist, com a cabea no lugar. Que trabalhava o dia inteiro. 
Aquilo realmente me revoltava! Ele podia me deixar viver sem tanta 
presso...
Nos finais de semana eu e Eduardo saamos um pouco, amos a 
algum lugar diferente, jantvamos fora. Durante a semana a gente se 
acostumou a comer no Shopping, bater papo, olhar umas vitrinas... nada 
de mais! A eu o deixava em casa e ia para a minha.
Mas meu pai me queria em casa s dez e pouco no mximo, e no 
dava! Era um horrio meio impraticvel de cumprir, no melhor da 
conversa, no melhor do programa, tinha que interromper tudo e voltar 
correndo. Ento procurava telefonar, dizer onde estava, e que ia atrasar 
um pouquinho.
Talvez eu pudesse ter cedido um pouco mais..., mas no meu 
corao achava que j tinha cedido muito. E aquela implicncia, para 
mim, era gratuita. Ento meu pai ora falava comigo, ora no falava... ah, 
meu Deus!...
Um outro pequeno percalo aconteceu mais ou menos na mesma 
poca. Eduardo tinha me contado sobre uma certa moa. Thalya. Com 
quem tivera um relacionamento h algum tempo e que freqentara a 
"Seita".
Impressionou-me saber que ela ainda freqentava tal lugar, 
mesmo que eu no soubesse exatamente que lugar era aquele. Ainda. 
Eduardo nunca entrou em muitos detalhes no incio do nosso namoro 
sobre aquela histria de Satanismo. Falou s um pouco. Mas certamente 
a tal Thalya deve ter sido importante de alguma forma. Seno Eduardo 
no teria com ele um xrox grande de uma foto dela.
Logo no comeo do namoro ele mostrou-me a gravura. No me 
enciumei, no havia motivo para isso. O percalo mesmo veio depois.
 Ela  bonita!  eu havia dito.  Por que voc no tem a foto de 
verdade?
 Eu joguei fora todas elas j faz tempo. Guardei esse xrox nem 
sei porque. Mas agora vou jogar tambm!
E um dia, no finalzinho de fevereiro, Eduardo saiu do servio com 
uma histria e tanto para me contar. Naquela tarde eu tinha sado mais 
cedo do Hospital e fui busc-lo. Ele foi falando logo de cara:
 Sabe quem esteve aqui? Apareceu do nada, e veio me ver? 
No dava para adivinhar, ento esperei.
 Thalya.  declarou ele.
 Srio?! Mas o que ela veio fazer aqui? Ou melhor... como ela 
descobriu que voc trabalhava aqui?
Eu viria a saber que Satanistas no precisam que ningum lhes 
fornea nenhum tipo de endereo. Mas Eduardo desconversou.
 Deve ter sido a minha me.
 E ento? Qual foi a dela?  eu no entendia o significado 
daquilo, muito menos consegui perceber as conseqncias. Estas 
ltimas eu iria entender somente anos mais tarde.
Eduardo contou mais ou menos. Muita coisa ele omitiu, contou o 
que era possvel contar naquelas alturas.
 Bem, ela apareceu com um carro importado e vestida de um 
jeito que parou a Empresa. O segurana da portaria nem questionou 
nada, simplesmente deixou ela entrar... quando dei por mim j estava na 
porta da minha sala! O segurana tinha acabado de interfonar. Disse que 
minha namorada estava subindo, ento pensei que fosse voc.
Dei de ombros, um pouco indignada. Mais at com o segurana do 
que com ela.
 O porteiro sabe muito bem quem  sua namorada! Que cara de 
pau, hein?
 Pois . Mas sabe como  que , n? "Homem  tudo igual", no 
 o que dizem? Pois ele no achou nada de mais eu ter vrias 
namoradas. Depois, ela tambm no fez nenhuma questo de passar 
despercebida. E... em suma, me convidou para voltar.
 Ah, sim, voltar pra ela. Que graa!
 Eu no quis dar trela, na verdade nem deixei ela entrar na 
minha sala, no deixei nem sentar! Foi uma conversa rpida, curta e 
grossa, em outra sala. E definitiva.  ento Eduardo afirmou 
categoricamente:  No se preocupe... ela no vai mais me procurar!
Percebi que ele estava um tanto irado, com o semblante fechado, 
carrancudo.
 Bom, mas foi s isso, assim, sem mais nem menos? O que 
mais que ela te disse?
  Foi muita desfaatez! Disse que eu no precisava de nada 
daquilo, de empreguinho idiota, chefe, salarinho no fim do ms. Que 
podia sair dali com ela naquele instante e mudar a minha vida. Voltar a 
ter o que eu tinha. Voltar para a famlia que eu tinha. Ao lado dela nada 
iria me faltar. De fato, Thalya est podre de rica! Falou do meu 
aniversrio. Que eu podia pedir a ela o que quisesse, coisas que faz 
muito tempo que no tenho... que ela era a mulher certa pra mim, que 
me queria outra vez, que eu tinha sido o melhor dos amantes etc. .. etc. 
...! Estou falando s porque voc perguntou! Agora diz que no pode 
viver sem mim. Mas isso  s o jogo dela. J veio se insinuando, mas 
no aceitei esses golpes sujos! Por sinal, est viva, imagine s!
 Mas ela tinha casado?
 Tinha. H uns dois anos, mais ou menos. Mas foi arranjado. Era 
estratgico. Eu no entendia bem o que ele estava dizendo.
 Estratgico?
 . O cara era um europeu, algum de muita posio. Ela 
precisava estar perto dele. Entende? Mas agora ele morreu. 
Estrategicamente.
Fiquei quieta, tentando absorver as informaes.
 Voc quer dizer que... mataram o tal cara? Eduardo no se fez 
de rogado.
 Isso  muito comum.
 Meu Deus do cu! Mas que espcie de "seita"  essa? E agora 
ela est atrs de voc de novo?!
  Mas no se preocupe, j disse. Ela entendeu bem dessa vez! 
Eu soube machucar um pouco, eu a conheo. Disse aquilo que sabia que 
ia ferir. Ela j sabia que estou com outra pessoa. Ofendeu muito voc. 
Tem muita raiva. No gostei do que ela disse, da atitude dela! Devolvi  
altura.
Eduardo estava amenizando bastante. Mas at ento eu no podia 
saber, no conhecia o contexto, no conhecia o passado. Pensei que era 
apenas um "cime recolhido", algo como Camila estava tendo.
Por isso achei que aquela raiva de Thalya era puramente crise de 
cimes. Algo humano. Compreensvel. Mas como eu estava enganada! 
No era uma raiva humana, de forma alguma, como eu viria saber. Era 
uma ira demonaca!
Eduardo sabia com o que estava lidando e o que significava a ida 
dela at ele. Depois de tanto tempo. Ento sua postura foi o mais firme 
possvel. Mas, por dentro, ele se sentiu abalado. Porque tinha sido 
encontrado.
Eduardo terminou de contar o ocorrido:
 Ela quase chorou com o que eu te disse. E no foi fingimento, 
no, realmente eu consegui atingir no lugar certo.
 E da?
 Levei-a pra porta, at l embaixo, pra fora da Empresa.
 Hum, vai dizer que voc no deu nem um beijinho, nem pra 
cumprimentar?
 Claro que no! Ela bem que tentou ir alm, mas no deixei.  e 
Eduardo estava sendo muito sincero. Seu semblante continuava irritado. 
 S encostei nela pra apertar bem o seu brao, com fora mesmo, para 
lev-la para a rua. Me irritou muito!! Nunca tinha sentido raiva dela, at 
hoje! Ficou at a marca no seu brao. E todos viram isso.
 E no entenderam porque voc dispensava assim uma mulher 
to magnfica  falei com ar significativo.
 Mas isso  assim mesmo.  o esperado. At fizeram 
comentrios na Empresa. No fiquei enciumada. Acreditava nele. E no 
liguei muito, apenas perguntei meio curiosa:
 E como  que ela est hoje, hein, Edu? Continua como antes? 
Ele no me enganou:
 Mais bonita ainda do que antes. Mas  uma beleza que j no 
me atrai. Ela  feia por dentro! No tem nada no corao,  uma pessoa 
ruim. E ela acelerou o seu carro importado e saiu cantando o pneu. Disse 
que no voltaria mais, que eu no a veria mais.
 Acho isso timo! Que grude que certas pessoas tm com voc.
Aquilo passou, e no dei mais importncia. Porm eu fiquei na 
ignorncia de uma parte dos fatos que, naturalmente, Eduardo no 
contou. Ou melhor, contou de forma amenizada. Ele omitiu que Thalya 
saiu cega de dio, ameaando, fazendo Eduardo lembrar-se de certos 
textos da Bblia Satnica.
"Poder  fora, morte aos fracos", tinha dito a moa. "Ela  fraca! E 
vai experimentar o Poder da nossa fora!"
Naquele completo descontrole, Thalya vomitou todo o seu dio 
contra mim.
"Ela vai pagar por isso!! Ela est pensando que vai tomar o meu 
lugar! Ningum fica com o lugar que  meu. Essa (...) vai ser 
completamente destruda. Ela e tudo o que  dela. Ns vamos nos 
empenhar nisso!"
Thalya voltaria a ligar para Eduardo alguns dias depois. Disse que 
estava de partida para a Europa novamente. E que no pretendia voltar. 
Novamente ele guardou consigo o resto:
"Mas aguarda pra ver o que acontece... vocs dois vo se 
arrepender!"
* * * *
Depois daquilo, cutuquei um pouco o Eduardo sobre aquela 
histria de Satanismo. Ele era sempre um pouco reticente em abrir 
aquele quarto escuro do seu passado, mesmo para mim, mas respondia 
s minhas perguntas.
 Eduardo, alguma vez voc j contou pra algum sobre essas 
coisas?
 Muito pouco. Eu at tentei, sabe? Comentei de leve com o 
Pastor Neliton.
Mas ele no parece acreditar muito, no parece entender. No 
parece disposto a me escutar. Talvez seja at melhor! At agora tinha 
imaginado que se no falasse sobre isso... posso fazer de conta que no 
aconteceu. Tudo o que eu quero  no me lembrar disso! Passei muito 
tempo tentando esquecer... esquecer de tudo.
 Mas esquecer por qu? No  bom ficar guardando assim esse 
tipo de coisa. No era melhor tentar conversar sobre isso? Voc no 
acha?
 No gosto de falar nesse assunto.  que no foi um tempo bom 
na minha vida, sabe?
Eu cutucava um pouco mais. Estava longe de ser uma mera 
questo de curiosidade da minha parte, mas no meu ntimo eu parecia 
perceber, sentir... que Eduardo carregava uma espcie de cruz, algo que 
lhe fazia mal. Parecia guardar com ele alguma coisa terrvel.
Muito aos pouquinhos,  medida que eu perguntava com 
delicadeza, com jeito, ele foi contando algumas coisas sobre a 
Irmandade. Mas no falou que era a "Irmandade". Nunca usava esse 
nome, dizia apenas "a Seita". E me explicava devagar um aspecto ou 
outro. Se abria muito aos poucos.
Aos poucos, sim, Eduardo era evasivo, arredio. Mesmo assim, eu 
percebia que aquela era uma necessidade premente, ele precisava falar 
mas no tinha ainda encontrado um ouvido fiel para ouvir. Ento eu 
escutei. Porque queria ajud-lo. Eduardo precisava dessa ajuda, 
compreendi a necessidade e a importncia de que ele pusesse tudo para 
fora.
E ele pensava l com seus botes, pesando a situao:
"Isabela  muito leal e muito honesta. So os pilares do seu 
carter. Seu senso de lealdade  fantstico, acima at dos Satanistas. 
Sob este aspecto poderia compar-la a uma Satanista, que engraado! 
Isso me d confiana para falar... sinto que no vou ser julgado, ou 
condenado. No vou ser tratado com preconceito. Preciso de algum 
para me abrir... acho que ela  pessoa certa, sempre me tratou diferente, 
com respeito".                                                                                           
Quanto a mim, quanto ao que escutei...  difcil dizer o que pensei 
sobre aquilo. Para ser sincera imaginava que algumas daquelas coisas 
estivessem fora de moda desde a Idade Mdia. Nunca me passou pela 
cabea que algo assim pudesse acontecer no nosso tempo, muito 
menos... no nosso Pas!
Era uma realidade assustadora, mas eu ainda estava entrando em 
contato com a periferia daquela histria. Nem dormi bem por alguns dias, 
pensando no pouco que ele me contara. Naqueles primrdios eu estava 
longe de compreender o que era de fato a Irmandade. O conhecimento 
viria aos poucos, muito aos poucos.
Um dia ele me falou sobre o Rito de Iniciao. E enquanto falava, 
de repente mordeu a lngua to forte que depois no parava mais de 
sangrar. Ns dois ficamos quietos, como se aquilo fosse uma espcie de 
aviso. De que ele estava falando demais.
Entreolhamo-nos com ar srio depois que Eduardo voltou do 
banheiro. Aquilo tudo parecia muito estranho. Eu no tinha uma idia real 
do Reino Espiritual, pelo menos no a idia que eu viria ter mais tarde. 
Sabia o que a maioria dos Cristos costuma saber, acreditava no que a 
maioria costuma acreditar. Por isso no imaginei que demnios 
pudessem realmente estar ali  nossa volta, espionando, monitorando 
nossos passos, ouvindo, interferindo. Levando informaes!
Sim, hoje sei que todos os nossos passos estavam sendo 
observados.
Eduardo conhecia esse lado muito bem, e desde o encontro com 
Thalya tinha certeza que seus antigos amigos  agora inimigos?  
estavam bem perto. No obstante, ele no tinha a menor idia do que 
fazer para se defender...
Naqueles dias nasceu a idia. No era ainda o momento certo, 
ainda no era a hora de pr mos  obra... mas a idia vinha em primeiro 
lugar do corao de Deus! Ns  que no sabamos disso ainda.
E comentei com Eduardo:
 Talvez voc devesse escrever um livro sobre a sua vida. Acho 
que seria de muita valia para muita gente...
 Quem sabe?  e Eduardo no achava que isso fosse 
realmente acontecer algum dia.
 Estou falando srio! O que voc acha? Eu posso escrever! Voc 
me conta, e eu escrevo.
No deixava de ser uma idia. Mas, mesmo parecendo boa, no 
fundo do meu corao no acreditei realmente naquilo. Que um dia esse 
livro chegasse mesmo  existncia. Na verdade, nem sei porque falei, 
nem sei porque sugeri. E um dia decidimos comear.
 Vamos comear pelo comeo!  disse eu.  Pelo comeo 
mesmo! Quer dizer... pela sua infncia. Vamos conversar um pouco 
sobre isso? Me conta a, vai! Me fala de voc mesmo.
E Eduardo comeou. Percebi de imediato que no tinha me 
enganado, parecia fazer-lhe bem falar sobre si mesmo. Ele nunca tinha 
parado para fazer isso, no daquele jeito. Ns dois gostvamos daqueles 
momentos de viagem ao passado.
Eu no sabia exatamente o que ia encontrar. A gente foi 
simplesmente falando: muita coisa ele dizia e eu anotava o que era 
importante. Eduardo me contou histrias da infncia, da adolescncia... 
eu fazia perguntas... minhas perguntas faziam com que ele pensasse... e 
reavaliasse muita coisa.
Juntos ns descobrimos algumas razes ocultas da personalidade, 
algumas lembranas j quase esquecidas, alguns detalhes que se 
revelariam importantes. Nem tudo o que ele falou virou livro. Mas serviu 
para que a gente se conhecesse bem melhor.
E finalmente dei o pontap inicial. Comecei a pr tudo no papel.  
medida que desenvolvia os temas, ia descobrindo outras coisas por mim 
mesma, sem querer analisava intuitivamente tudo o que ele tinha me 
contado.
 Sabe o que eu penso disso? Me corrija se eu estiver errada...  
voltava eu depois para ele.   Ser que isso aqui que aconteceu l atrs 
no serviu para gerar outras coisas em voc?
E percebia aqueles aspectos do comportamento que Eduardo 
nunca tinha mencionado. Coisas que ele no tinha falado diretamente. 
Que nem ele mesmo tinha percebido.
 Sabe que eu acho que voc tem razo? Nunca tinha parado pra 
pensar nisso!
Mas acho que  por a.
E fomos como que montando um quebra-cabea, remexendo em 
coisas antigas, procurando pedaos daquela histria.
Se escrever um livro e conhecer melhor Eduardo no fossem 
motivo suficiente para as nossas conversas, havia ainda um ltimo 
motivo: eu adorava ouvir ele falar! Nunca encontrei algum com tanta 
coisa pra contar! Gostava mesmo de ficar na escuta.
Ele tinha experincias e mais experincias, casos e mais casos 
para dividir comigo, tantas e tantas coisas. Eu queria rebuscar mesmo no 
meio daquilo tudo.
Foi um tempo muito gostoso aquele em que Eduardo me contou 
pela primeira vez da sua infncia e adolescncia, seu Kung Fu, suas 
namoradas, Camila, a "29" as brigas, as bagunas.... era tanta coisa que 
no caberia num livro s!
Eduardo tinha em mim uma ouvinte incansvel. E raro era o dia em 
que a gente sentava para jantar ou tomar um sorvete, que eu no 
pedisse:
 Ah Nen! Me conta alguma histria? Me conta uma histria 
engraada. Vamos morrer de dar risada? Conta da "29"!
Nen era o apelido que eu tinha dado a ele. Porque Eduardo, para 
mim, tinha carinha de nen. E ficou Nen!
A a gente conversava, conversava, conversava. Pra ele tambm 
foi bom, uma verdadeira terapia. Ele precisava falar. Eu tinha o tempo e a 
vontade de ouvir.
* * * *
No princpio de maro Eduardo completou 28 anos, e eu procurei 
paparic-lo bastante. Fui comprar uma camisa nova e perfume francs, 
tambm escrevi um cartozinho todo especial que eu mesma 
confeccionei. Estava muito feliz com nosso namoro! Ele era especial!
Um dia, tomando sorvete no Shopping, ele me disse algo diferente 
num relampejo de sinceridade:
 Sabe, Gatinha... a gente se conhece h pouco tempo mas eu 
acho que estou comeando a te amar.
Eu no conhecia Eduardo o suficiente para alcanar melhor o 
significado de tal declarao. Ele nunca tinha sido fiel a ningum, nunca 
tinha se importado com ningum de verdade. Nunca tinha amado 
ningum. Certamente aquele era um sentimento novo par:a ele. Um 
sentimento ainda no experimentado, e que ele pde perceber como 
sendo amor.
Mas eu no sabia disso ainda!
E aquela frase meio de supeto, apesar de me agradar, assustou 
um pouco tambm. De modo que retruquei, meio rpida:
 Ah, Edu... acho que voc no sabe bem o que est dizendo. 
Afinal, o que  o amor? O amor de verdade!  cedo para dizer isso, 
acreditar nisso. Voc nem me conhece direito ainda.
 Mas voc  diferente. Voc pode at no saber, mas eu sei!
 Se daqui a um ano, ou dois, voc continuar sentindo a mesma 
coisa,  porque  verdadeiro. Mas tudo o que sentimos hoje... pode no 
ser! S o tempo faz a gente saber se ama ou no algum.
Mesmo porque, eu no tinha outros parmetros, Eduardo era o 
primeiro. Ficava difcil saber ao certo se aquilo era o verdadeiro amor.
Ele ficou calado um pouco mas no deu mostras de chatear-se, 
apenas mudou de assunto e no repetiu aquelas palavras. Pelo menos, 
no de imediato.
Eu no queria me iludir, nem iludi-lo. A extrema sinceridade do 
meu corao me fazia tomar muito cuidado com as palavras. Palavras 
tocam o corao dos outros. Por isso precisam ser verdadeiras, ser bem 
escolhidas! Eu no queria brincar com corao de ningum. Gostava, 
sim, de Eduardo, bastante! Estava muito satisfeita com o namoro, com 
tudo o que representava para mim. No tinha dvidas do nosso 
relacionamento. E confiava bastante em Eduardo.
No entanto o amor verdadeiro precisa ser provado. Se ele fosse 
provado... e subsistisse... ento  porque era amor de fato!
E ns no tnhamos passado ainda por isso, estvamos na fase 
doce do relacionamento, onde tudo so flores, e sorrisos e amenidades. 
Onde a paixo deixa tudo cor-de-rosa!
O nosso amor seria provado no futuro. Extremamente provado! E 
isso nos faria perceber quanto amor havia entre ns. Somente o amor, e 
a Mo Protetora do Altssimo nos permitiria atravessar tudo aquilo.
Mas naquele momento me faltavam realmente os parmetros, eu 
no tinha experincia nenhuma. Por isso contava com o tempo. E torcia, 
intimamente, que aquele amor fosse de fato verdadeiro.
Naquela tarde Eduardo no disse, mas depois eu viria saber o que 
ele estava sentindo. A princpio, no tinha querido se envolver de novo 
com algum, no to cedo. Eduardo imaginava um relacionamento como 
algo que j nasce morto e s piora com tempo. No tinha sido boa a 
experincia anterior. Ele preferia no repetir mais isso e aproveitar sua 
vida de solteiro.
Mas...
 Passei a experimentar um sentimento novo...  diria ele, muito 
tempo depois  e gostei do que estava descobrindo. Com as outras eu 
queria apenas o momento, no tinha a expectativa do prximo encontro. 
Com a Thalya, por exemplo... no ficava ansiando pela presena dela. 
Tanto fazia... se tivesse um bom momento num dia, no ficava na 
expectativa de que no prximo dia aquilo fosse se repetir... era como ir a 
um parque, ou um cinema... naquele momento era bom, me divertia... 
mas depois esquecia, no ficava pensando em como o filme tinha sido 
legal, logo tudo se esvaa da minha mente. Com Isabela senti um pouco 
de medo... pois percebi que estava ansiando pela presena dela... e eu 
no queria isso para mim, via meus amigos sofrendo por causa de 
mulheres, no queria ficar assim! No ter controle sobre os sentimentos 
faz com que a gente se torne escravo deles. Mas com Isabela... eu ficava 
na expectativa... no tinha outro jeito.
No entanto minha ingenuidade atrapalhou um pouco no incio. E 
um certo padro de comportamento meu veio incomodar muito Eduardo. 
Depois que a onda perigosa passou, acabei sabendo ao certo o que 
tinha acarretado. Isto : que Eduardo quase mudasse de idia em 
relao a mim.
Comeou assim: no tinha com quem conversar sobre aquele meu 
amigo que tinha morrido de AIDS.
Por muito tempo a imagem dele ainda ficou presente, e presente a 
dor da perda! E eu acabava falando demais no assunto, mas porque 
confiava tanto em Eduardo que no via motivo para esconder meus 
sentimentos e pensamentos. Eu s queria compartilhar, desafogar, 
vomitar aquilo tudo. Era teraputico, hoje percebo isso. Ia me fazendo 
arrancar a lembrana do corao... o sofrimento, a tristeza, a angstia de 
ver algum querido morrendo diante dos seus olhos. Porque ele era 
muito querido para mim, at demais... demais a ponto de parte do meu 
corao ser dele.
Nunca escondi isso. Foi isso tambm o que meu pai viu, e ficou 
horrorizado. Por isso ele queria me impedir de continuar a ver meu 
amigo, mas eu no consegui obedecer, no pude concordar. Nunca 
entramos em acordo.
Acima de tudo me perseguia um senso de dever. Meu amigo tinha 
se convertido verdadeiramente, e pelas minhas mos... mas no havia 
ningum para acompanh-lo. Eu o tinha levado  Igreja, tinha tentado 
dividir aquela responsabilidade com algum. Mas no havia ningum. 
Ningum gosta de trabalhos assim.
Como eu poderia isentar-me tambm? Viraria as costas como todo 
mundo? Fecharia os olhos para no ter que ver algo to terrvel?! Eu no 
podia me comportar dessa maneira... fui adiante. Vivi um perodo 
gratificante por um lado, mas tenebroso por outro.
E o pior  que agora Eduardo estava interpretando tudo muito mal! 
Via as fotos do Renato no quarto, alguns pertences, presentes... e ficava 
achando que ele mesmo no passava de um mero substituto, algum 
que eu estava usando para esquecer aquele que no ia mais voltar.
O "amor da minha vida", segundo Eduardo.
Quando ouvi isso fiquei at indignada. Quanto engano! Que 
bobagem!
Um dia conversamos sobre isso, e Eduardo disse que no queria 
mais falar sobre aquilo, explicou como enxergava a situao. Fiquei 
muito magoada, ele estava vendo tudo distorcido.
Era difcil compreender porque eu tinha que apagar pedaos da 
minha vida por causa do namoro. Tinha sido uma coisa passageira, 
exatamente como outras tantas vezes.
Era um cime tolo, e se eu fosse dar de me implicar em relao a 
Camila e todas as outras? Ou com a tal da Thalya?!
 Mas eu no falo de Camila o tempo todo  falou Eduardo.  
No tenho mais nada com Thalya tambm!
 Eu tambm no falo dele o tempo todo,  puro exagero seu, 
n?! Na verdade, falar sobre ele  um voto de confiana que dou a voc. 
A quem mais posso contar uma histria louca dessas?! A quantas 
pessoas voc pensa que eu contei isso? No pensei que precisasse ter 
segredos com voc, nem esconder nada. Isso foi uma coisa sria na 
minha vida, foi por isso que briguei tanto com meu pai no ano em que 
tranquei a matrcula! Como voc pode ter cimes de algum que no 
existe mais?!?
  difcil competir com essas coisas idealizadas. Eu terminei com 
Camila, mas voc escolheria quem se Deus tivesse curado o seu amigo? 
 retrucava Eduardo.  Voc ficava comigo ou com ele?
 Voc no entende. So coisas diferentes!  claro que eu ia ficar 
com voc, voc e ele so coisas que no se comparam. O que eu sinto 
por voc  totalmente diferente!
Foi a nossa primeira divergncia. Mas tratei de compreender, de 
respeitar aquilo. Desculpei-me e procurei fazer diferente. Eduardo tinha 
entendido mal aquele meu momento, era a sua limitao.
Ento fui deixando de falar, enterrando a lembrana. Saindo do 
luto. Nunca mais fui ao cemitrio levar flores no tmulo dele. Aos poucos 
retirei as fotos, me desfiz dos objetos. Aos poucos.
Na medida em que foi deixando de ter importncia.
Mas aquilo balanou o relacionamento recm iniciado. Se Eduardo 
soubesse... entendesse...! Ele sempre seria o escolhido!
* * * *
Mas ningum poderia prever que uma sombra muito grande viria 
sobre a minha famlia pouco antes do trmino daquele ms de maro. 
No gosto de falar sobre isso, portanto vou ser bem breve.
Naquela semana meu pai viajou alguns dias com minha me, 
estavam no interior, na casa de uma das suas irms. Ele no passou 
muito bem, j tinha alguns problemas de sade, tomava medicao, mas 
aparentemente foi algo isolado.
Mesmo assim, logo na outra semana voltou ao Mdico, ao 
cardiologista que o acompanhava ali mesmo num departamento do 
Hospital da Faculdade. No pude estar presente na consulta por causa 
do meu horrio, mas dei uma passada l, disse um "oi" pra eles e 
adiantei os exames tanto quanto consegui. Meu pai tinha esquecido a 
chave trancada dentro do carro. Tive pena deles por causa daquele 
transtorno e dei um jeito de, eu mesma, arrumar um arame e abrir o vidro 
por fora. Tinha uma frestinha, e consegui sem demora.
Da corri l de volta, entreguei a chave e fui cuidar dos meus 
afazeres. Um dos exames ficou marcado para aquela sexta-feira, ento 
nesse dia eu acompanhei os dois, meu pai e minha me. Papai fez um 
ultra-som de aorta abdominal. No deu nada de errado, conversei depois 
com Mdico que fez o exame. Tambm aproveitei aquele tempo para 
acertar com outro cardiologista, um Professor, para que o acompanhasse 
de perto. Ficou tudo combinado.
Samos de l no horrio de almoo. Estava garoando fininho e tive 
que voltar logo para a UTI sem almoar, nem nada. Tinha usado o 
perodo do almoo para correr atrs daqueles exames e daqueles 
Mdicos.
Passei o resto do dia ocupada e sa tarde, apareceu internao de 
ltima hora. Como era sexta-feira, Eduardo estava  minha espera na 
porta do prdio principal. Eram quase sete horas da noite.
Fomos direto refrescar a cabea, jantamos e eu telefonei pra casa 
dizendo que ia atrasar um pouco. Cheguei um pouco alm do que meu 
pai gostaria.
Abri a porta, cumprimentei. Mas ele no me respondeu. Eu estava 
muito cansada e fui logo deitar. No dia seguinte acordei tarde, minha 
me estava na cozinha e me pediu que fosse at o quarto ver porque 
meu pai estava demorando. Ele sempre tinha sido madrugador.
Entrei. Chamei-o. Mas j no se podia fazer mais nada. Ele tinha 
falecido no comeo da manh. Tive que providenciar tudo sozinha, junto 
com Eduardo. Mayra ajudou fornecendo o atestado de bito e ficando 
conosco a maior parte do tempo.
* * * *
Os sentimentos ficam amortecidos por causa do impacto. No 
existem palavras para explicar o que se passa por dentro.
Mas depois aquilo tudo comea a borbulhar, sobe  tona, se 
derrama numa torrente de sentimentos profusos e terrveis.
Marco quase teve uma comoo nervosa do outro lado do mundo, 
e no havia o que pudesse ser feito. Ele s pde vir uma semana depois.
Nada parecia ser capaz de consol-lo. Minha me tambm no 
estava bem, e eu tentei ser a mais forte de todos. No ficar chorando 
pelos cantos da casa e, ao invs disso, procurar ser um esteio para eles.
Mas longe deles, sozinha com Eduardo, ficava chorando sem 
saber direito o que sentia.
Passei alguns dias afastada do Hospital. Eduardo visitou-nos 
diariamente. Meu pai era o sustentculo da famlia e no espervamos 
um falecimento to sbito. Todos estavam completamente sem cho. 
Como seria dali para frente?
Voltei para o Hospital depois daqueles dias de recluso e trabalhei 
mais uma semana na UTI.
Mas no conseguia me concentrar em nada, nada, nada. Sempre 
com boa memria, agora eu tinha que anotar tudo num papel e passava 
o dia inteiro relembrando quem era quem, qual exame era de qual 
paciente, e que medicao cada um tomava. No conseguia guardar, 
no conseguia saber direito o que estava fazendo, era impossvel. 
Estava alm das minhas foras.
Fora isso, o Residente do terceiro ano que estava passando pelo 
estgio comigo no era dos mais compreensivos. Sem pacincia, s me 
enchia o dia todo, pegava no p de todo mundo criando um pssimo 
ambiente de trabalho. Conversei com a outra Residente e acabei 
optando por conversar com o Preceptor da UTI. E pedi um afastamento 
mais prolongado.
Passei talvez umas duas semanas em casa, talvez trs. At que 
encerrasse aquele estgio que eu j tinha perdido. Ento, num pice de 
esforo, retomei o trabalho. Passei pela enfermaria da M.I., mas no 
conseguia estudar, tudo parecia tedioso, pesado, insuportvel.
Mesmo assim, terminei o estgio. S que, para azar da minha 
sorte, a escala levou-me ao bloco mais puxado do primeiro ano, a UTI da 
Pneumologia. Fui levando como deu, usei de todas as minhas foras e 
determinao. Finquei p e dei todos os plantes.
* * * *
No foi nada fcil. Quando me lembro daquele perodo sinto at 
um mal-estar.
s vezes tinha planto de 12 horas no sbado e no domingo. No 
saa pra nada, ficava das sete da manh s sete da noite no Hospital, 
para emendar direto com outra semana. Durante a semana todos os dias 
eram iguais, das sete da manh at sete da noite. Quando tinha planto 
no meio da semana emendava 24 horas.
Algumas vezes, quando eu estava de planto  noite e ia dormir no 
Hospital, Eduardo dava um jeito de vir visitar-me. Um dia chegou l pelas 
nove da noite na companhia de um primo. Eu tinha deixado com ele um 
avental, ento Eduardo entrou decidido pelo PS, dizendo ao segurana:
 Ele est comigo!  referindo-se ao primo.
Assim pensavam que o primo era paciente do "Doutor" Eduardo. 
Naquela noite ele me trouxe pes de queijo e Coca-Cola! Os dois foram 
muito bem-vindos: Eduardo e o lanche!
Era to bom que ele aparecesse, quebrava um pouco a minha 
rotina, me ajudava a levantar a cabea. E lembrar que existiam outras 
coisas alm daquela UTI. Mas nunca dava tempo de ficar no bl-bl-bl, 
tinham que ser visitinhas rpidas. Pois no podia me atrasar com os 
pacientes, no mais tardar umas dez horas da noite passava com o 
Mdico Assistente a ltima visita.
Da a gente torcia para que os pacientes no complicassem.
Mas de noite quase sempre era impossvel dormir. Os Mdicos 
Assistentes dormiam em outro lugar, mas ns, os Residentes, tnhamos 
um nico quarto. E o nico quarto era dividido com o Residente da UTI 
ao lado, a da Clnica Mdica. Isso queria dizer que o sono girava tambm 
em funo disso, se qualquer um dos pacientes complicasse, ningum 
dormia.
Claro que esse era exatamente o esperado, oito pacientes graves 
sempre tm muita chance de perturbar  noite. Se a minha UTI estivesse 
calma era quase certo que a UTI da Clnica complicava, e vice-versa. E 
ento a enfermagem no parava de entrar no nosso quarto para nos 
chamar.
Como eu vinha cansada... ! s vezes no me julgava capaz de dar 
andamento na minha vida, no meu trabalho, por mais que me esforasse. 
Eu simplesmente estava em outro mundo.
Mesmo as visitas de Eduardo no eram suficientes para me ajudar 
completamente. E havia vezes em que ele perdia a viagem.
Um dia Eduardo combinou de visitar-me  noite e tudo estava 
lindamente calmo por ali, sem nada de especial para fazer. Daria tempo 
para a gente ficar conversando bastante tempo ali na salinha ao lado. 
Isso certamente tornaria aquele planto mais leve.
Mas pouco antes dele chegar, uma paciente que estava em 
choque sptico precisou de um Swan-Ganz e o Residente do terceiro 
ano ficaria ali comigo at que dssemos o trabalho por encerrado. Ia 
demorar um bom tempo, o Swan-Ganz  um tipo bastante complicado de 
cateter. E ento eu disse para Eduardo nem esperar.
Outra vez ele chegou e eu estava com um dos ventiladores 
artificiais pifados, bombeando ar manualmente para os pulmes de um 
paciente. A enfermeira avisou que ia demorar para arrumar outro 
aparelho. Novamente no valia a pena ele ficar ali esperando.
De vez em quando Eduardo cruzava com outros Mdicos ali na 
salinha. Eles cumprimentavam e acabavam perguntando:
 Voc tambm  Mdico?
 No sou, no... he he he !  respondia Eduardo meio sem 
graa. E para mim, cochichando, mais tarde:
 Essa histria de me disfarar de Mdico! Quando perguntam, d 
vontade de responder que "sou pai de santo"!
Eu tinha que rir com suas piadinhas. Sei l o que os outros 
pensavam de v-lo daquele jeito.
Apesar de tudo, foi um estgio muito bom, daqueles em que d pra 
aprender bastante. Estudava,  fato, mas estava sem muita vontade, 
sem pacincia com nada e nem ningum. No parecia haver sentido 
naquela existncia que estava levando! Fazia por fazer; estudava por 
estudar.
Quando terminei aquele ms de UTI, percebi que aquela idia no 
me saa da cabea, e mais ainda... tinha ganhado corpo: eu estava 
novamente pensando em jogar tudo pro alto. No conseguia me livrar 
daquela sensao ruim, desgastante... j no via motivo em continuar 
indo ao Hospital todos os dias. Um peso de toneladas me esmagava os 
ombros.
Ento, uma tarde, conversando com Eduardo, acabei tomando a 
deciso: queria largar a Residncia.
At hoje no sei o que me deu, e nem porque ele concordou 
comigo. No consegui entender porque concretizei minhas intenes de 
fato.
Algum tempo depois eu me perguntaria se tinha sido uma espcie 
de punio inconsciente...
"Meu pai morreu, eu era Mdica e no pude fazer nada, no pude 
mudar esse destino... meu pai morreu, e morreu entristecido comigo... 
ele no est mais aqui e eu no posso me restaurar... "
Mesmo que nem tudo fosse verdade, naquele momento de 
instabilidade emocional meu inconsciente armazenou essas informaes. 
A perda do meu pai fez com que eu mesma introjetasse dentro de mim 
estas sensaes, essas idias, essas afirmaes, essas concluses... e 
depois mais um monte delas... desvairadas... cortantes... completamente 
indigestas. Engolir tudo aquilo foi como beber veneno!
O veneno ia comear a circular pelo meu corpo. Eu faria coisas 
estranhas em funo dele. A primeira delas foi abandonar a Residncia. 
Uma conseqncia de estar envenenada.
Ento fui conversar com os professores e, apesar de que ainda 
foram condescendentes e quiseram novamente dar-me licena, recusei. 
Tornei definitiva a minha deciso. Abandonei a M.I.
No sei se foi o certo. Mas no consegui tomar outra atitude, nem 
escolher outro caminho.
Tempos depois fiquei pensando em uma segunda possibilidade, 
uma outra forma de explicar para mim mesma porque fiz aquilo.
"A ausncia do meu pai talvez tenha me libertado desta vida de 
Mdica de uma vez por todas. Se ele estivesse vivo eu jamais largaria a 
Residncia. Sei disso."
Ento entendi que minha deciso era fruto destas duas coisas. Era 
fruto desta somatria.
No entanto, havia algo mais. Faltavam dados para mim.
Aquele era um tambm o incio da destruio prometida. S que 
eu no sabia...
Eduardo no me falou... mas sabia que algo ia acontecer. Tentou 
achar o Pastor Brintti novamente, sem sucesso (Leia Filho do Fogo). 
Sabia que qualquer pessoa lhe daria uma resposta padro: "Deus  
maior!"
Ele torceu para que no acontecesse nada. Mas sentia como se 
viesse um meteoro em nossas direes, e nada houvesse para impedi-lo.
Como se defender?
* * * *
Captulo 5
A partir da comearia um dos perodos mais difceis da minha 
vida. Pouco a pouco veria tudo desmoronar, tudo em que eu tinha 
investido tempo e dedicao. Eduardo era a pea-chave que me ajudou 
a permanecer em p.
Ele continuava trabalhando normalmente, de forma que eu 
passava os dias sozinha at o horrio de sada dele. Arrumei ento um 
emprego de meio perodo que pagava bem, em relao  Residncia.
Aquele emprego no me desgastaria como o trabalho no Hospital 
e ainda me garantiria sustento pessoal que, naquela hora, era a nica 
coisa que importava. No houve nenhuma dificuldade em empregar-me, 
bastou uma curta conversa com o responsvel, e logo assumi o lugar.
Trabalhava dezoito horas semanais divididas em trs vezes num 
"Servio de Remoo". Ou seja, eu somente tinha que transportar 
pacientes de um lado para o outro, de ambulncia. Meu papel era 
exclusivamente no deixar que nada acontecesse durante o trajeto.
Mas como o tal emprego era chatssimo!
No agentei por muito tempo. Normalmente eles faziam a gente 
ficar alm do horrio e no pagavam hora extra. O tempo que eu 
passava l esperando as remoes era insuportvel, nem tinha uma sala 
confortvel para ficar. O mais interessante mesmo era empoleirar na 
mureta de entrada para ver o movimento da rua, ver passar os 
transeuntes. Isso me distraa e fazia com que o tempo passasse mais 
rpido. s vezes eu comprava um picol e ficava ali no solzinho da 
manh.
Sa logo dali e fui fazer um outro "bico". Trabalhei ento numa rede 
de Ambulatrios escolares que era coordenada por um Mdico Pediatra. 
Meu servio era atender aos estudantes. Que normalmente no tinham 
nada e estavam s a fim de sair da aula para um passeiozinho! Eram s 
dores de cabea, clicas, crises de asma, bobagens assim... e eu tinha 
que ter toda a pacincia do mundo. Confesso que pacincia no estava 
sendo o meu forte naqueles dias!
Claro que tambm no suportei aquele servio infame!
Ento acabei trabalhando numa Academia que me pagava at que 
bastante bem. Fazia exames Mdicos. Era super tranqilo, sem estresse 
nenhum... e to repetitivo e tedioso que... enfim, o inevitvel... acabei 
largando!
E desta vez foi de verdade. Nem eu me reconhecia! No 
conseguia mais levar adiante a minha vida, e muito menos aqueles 
empregos tolos e aborrecidos. Precisava parar. Era preciso atender s 
gritantes solicitaes da minha alma. Dificilmente abandono as coisas 
sem tentar muito antes. Aquele era o meu limite.
Embora no percebesse claramente, minhas atitudes e 
incapacidade de avanar de forma coerente revelavam o quanto estava 
desestruturada. A melhor opo foi o refgio da minha casa. Ento foi o 
que fiz: larguei tudo o que dizia respeito  prtica clnica. E simplesmente 
fiquei em casa.
No incio foi bem difcil. Era estranhssimo no ter nada para fazer. 
Bom... mas eu no conseguiria mesmo fazer nada, nem que quisesse. 
Me sentia extremamente cansada de tudo. Continuava sem conseguir 
me concentrar em nada, me entreter com nada. No conseguia querer 
nada. Essa era a verdade. Eu no queria nadai S que o tempo 
passasse e, passando, me trouxesse paz de alguma forma.
Todo esse processo que acontecia comigo no era consciente. 
No era algo que eu tivesse parado pra pensar e decidisse por mim 
mesma. A realidade  que no escolhi as coisas dessa maneira, apenas 
aconteceu assim. Foi o curso natural. E eu me vi numa espcie de 
deserto, um tempo de recluso, de fuga, de um desespero silencioso. 
Interno. S meu.
No se exteriorizou muito. A primeira e principal conseqncia 
daquela agonia interna foi a incapacidade de desenvolver qualquer 
atividade til. Mas no creio que eu me desse conta desta agonia, deste 
sofrimento. Estava ali. Mas no tinha passado plenamente para a 
conscincia. Estava guardado. Escondido. Amortecido. Eu no me dava 
conta plenamente. Estava muito abaixo da superfcie.
Tudo o que consegui perceber foram os seus efeitos... eu vivia em 
funo deles... porque eram mais fortes do que eu. Por fora, 
aparentemente, estava bem. Uma boa parte do tempo. Em outros 
momentos, estava mal. Passava do riso ao mau humor, tinha as 
emoes instveis.
Estar com Eduardo era a nica vlvula de escape, a nica sada 
possvel. No creio que conseguisse suportar aquela fase sozinha, 
quanto mais superar.
Ele foi to importante naquele tempo que, para mim, o dia s 
comeava na hora em que eu o encontrava, depois do servio. Quando a 
gente saa para comer, conversar, dar um pouco de risada, e ele me 
contava coisas do servio, do dia-a-dia.
Eduardo foi muito presente em todos os sentidos. Foi paciente e 
amoroso, nunca economizava esforos para me agradar, tudo o que eu 
precisasse e estivesse ao seu alcance ele procurava dar e fazer. 
Eduardo no economizou em ateno, em carinho, em compreenso.
Agora j me conhecia melhor. Gostava de mim por mim mesma, e 
j no fazia nenhuma comparao inconsciente com Thalya. Eu a havia 
suplantado.
Naquele perodo, Eduardo tambm foi muito solcito para com 
minha me. Comeou a freqentar minha casa mais assiduamente 
porque sentia intimamente ser necessria a sua presena. Agora ramos 
apenas ns duas e a casa parecia muito vazia. Marco estava novamente 
fora e s voltaria no meio do ano.
Minha me desdobrou-se como pde para continuar dando 
andamento na agenda de concertos de meu irmo, coisa que antes era 
funo do meu pai. Aos poucos aquilo comeou a minguar, e realmente 
os ltimos concertos agendados foram naquele ms de julho. Depois 
parece que as portas se fecharam completamente. Todo o esforo de 
minha me em continuar aquele trabalho foi cada vez mais dando em 
nada. Ia comear um perodo muito difcil para minha famlia, certamente 
o mais difcil de todos. E era apenas o comeo.
Mas Mame apegou-se  Igreja. O que nunca tinha acontecido, 
aconteceu ento. E, como recm convertida, ela teve assistncia durante 
um tempo da minha antiga Igreja.
E que mais...?
Eu tinha comeado uma Terapia com uma Psicloga Crist h 
alguns meses. Ela foi indicada por alguns irmos da nossa Igreja que 
tambm faziam anlise. As referncias que recebi foram timas, ela 
parecia ser uma pessoa de muita confiana. A prpria esposa do Pastor 
William, que tambm era Psicloga, tinha me aconselhado a fazer aquele 
tipo de trabalho.
Ento, ao invs de continuar conversando com o Pastor William e 
o Pastor Ronaldo, passei a pagar pelas consultas com a Psicloga. 
Nossa Igreja julgava muito importante e benfico aquele tratamento da 
alma.
Eu estava gostando bastante da Terapia, era melhor do que 
aquela que tinha comeado na poca em que tranquei a matrcula. Agora 
parecia ser uma coisa mais profunda, o que era bom, porque aos poucos 
a gente vai aprendendo a se conhecer melhor.
Foi importante especialmente naquele momento difcil.
No final de junho comentei com Eduardo:
 Meu irmo vem para as frias com uma amiga de novo, uma 
pianista. Apesar de haver poucos concertos. Mas no era bem quem ele 
queria, a amiga dele no poder vir, no sei por que. Ele vem com essa 
outra moa meio que de ltima hora.
De fato a tal da moa veio. Mas era to estranha, to esquisita... e 
acabou ficando quase trs meses em casa! S deu confuso. O clima foi 
mesmo daqueles, porque tudo estava horrvel, ns tambm estvamos 
horrveis com os recentes acontecimentos. Ter algum estranho dentro 
de casa era pesado, pelo menos para mim. A moa no falava ingls 
fluente, nem ns. Foi difcil ter que conviver com algum que no falava a 
minha lngua e o tempo todo estava ali. Porque agora eu tambm estava 
ali o tempo todo! E aquilo me incomodava bastante. No gostava de 
sentir-me observada, tirava minha liberdade.
Sei que para minha me tambm no devia ser fcil!
Depois de dois meses, quando finalmente ela ia embora, um ou 
dois dias antes do embarque, tudo acertado... e de repente apareceram 
aquelas leses de catapora no seu corpo. E no pde embarcar. Aquilo 
custou mais um ms no Brasil, e o restante das frias do Marco.
Confesso que eu no agentava mais! Trs meses  muito tempo. 
Por mais boa vontade que se possa ter... todo mundo  humano, tem 
limitaes.
Bastava estar sentada  mesa e saa alguma confuso, 
normalmente eu acabava sendo acusada de alguma coisa, porque o 
normal era que eu fosse a errada. Marco era o filho que estava fora, o 
filho esperado. O bom filho. J eu era a que tinha jogado tudo fora. A 
filha m!
Mesmo sem perceber, minha famlia acabava me pondo na tribuna 
dos rus. Por causa disso eu estava sempre envolvida em uma cena de 
constrangimento atrs da outra. Em quase todas as confuses l estava 
eu, a destruidora de lares. Agora imaginem s os olhares daquela 
menina estranha, as caras de julgamento.  fcil fazer ar de santo e 
apenas observar o circo pegar fogo! Isso era o que mais me 
exasperava...
Minha me no se conformava que eu estivesse em casa sem 
fazer nada, e mais de uma vez ela me mandou arrumar um emprego e 
trabalhar. Eu no tinha dinheiro para nada. Aquilo era uma coisa 
constrangedora porque dependia de minha me para tudo. Quem pagava 
agora minha Terapia era ela. E no era barato. Eduardo supria uma boa 
parte das minhas necessidades de bom grado. Comprava roupas, 
cosmticos, objetos de uso pessoal.
Engordei, o que era terrvel, o pior de todos os castigos.
Eu me sentia um lixo, um verdadeiro lixo, nada mais do que um 
lixo! Minha depresso foi to grande que a Psicloga achou por bem 
mandar-me a um colega Psiquiatra para uma avaliao. Ela achava que 
eu deveria tomar medicao, mas somente o Mdico poderia receit-la.
No dia da entrevista fui sozinha at o consultrio dele. L pelas 
tantas no resisti e perguntei:
  Quanto disso que eu estou vivendo hoje pode ser... digamos 
assim... "espiritual"? Pergunto isso porque sei que o senhor tambm  
Cristo e entende que nem tudo  apenas problema da alma...
Ele parou de escrever durante um tempo mas no hesitou na 
resposta.
 Olha, no acho que isso tenha alguma coisa a ver com 
demnios, se  isso que voc est dizendo. Minha opinio sobre isso 
est formada, na verdade essa histria de demnios  fruto 
principalmente da cultura afro que est impregnada no nosso povo. 
Jesus j venceu na cruz e a batalha j terminou. O Amor de Deus 
permeia tudo.
Entendi bem o que ele quis dizer, para bom entendedor meia 
palavra basta. Que opinio mais estranha!... Completamente fora de tudo 
o que eu j tinha ouvido. Como que ele podia acreditar em algo assim?!
Em outras palavras:
  Demnios no existem. So fruto de imaginaes frteis, de 
pessoas ignorantes, de culturas msticas...  continuou ele.
 Ah!  procurei dar um tom de voz normal  interjeio. Fiquei 
quieta e deixei de lado.
"Nesse aspecto acho que ele no est muito apto para opinar, 
no... "
Mas o que eu vinha sentindo no parecia ser s uma depresso. 
Mesmo sem saber das ameaas de Thalya, tinha que haver uma 
influncia espiritual maligna em algum lugar. No era possvel... eu 
conhecia os sinais clnicos da depresso; e, mesmo que no fosse s 
isso, compreendia que estava tambm passando pelo luto. Mas parecia ir 
alm. Alm disso!
S eu sei como me senti. Caindo num poo que no tinha fundo, 
sem conseguir contemplar nada. Mas, mesmo que houvesse um fundo 
espiritual no meu caso, eu no tinha nenhuma idia de como lidar com 
isso. Alis... no tinha condies de fazer nada; orar, jejuar, buscar 
ajuda.
Sa do consultrio Mdico com a receita, eu tomaria remdios 
durante mais de um ano. No foi somente aquele remdio que eu tomei 
naquele perodo. Ao todo eram sete tipos diferentes: para emagrecer, 
para dormir, para tratar distrbios hormonais...
Esses distrbios hormonais apareceram e demoraram muito a 
resolver. J em se tratando de distrbios do sono, isso era coisa antiga. 
Eu nunca tinha sido mesmo uma pessoa de dormir bem, exatamente 
como meu pai.
Mas ento o problema cresceu vertiginosamente e as situaes de 
desconforto potencializaram assombrosamente. Todo tipo de alterao 
eu consegui ter: ou no conseguia pegar no sono... ou acordava muito 
tempo antes do horrio, e no voltava a dormir... ou acordava vezes sem 
conta durante a noite. Essa foi a pior de todas, eu chegava a acordar 
seis, sete vezes durante a noite. No dormia mais do que uma hora, uma 
hora e meia seguidas. E essa mutilao de sono durou meses. D para 
imaginar o quanto eu estava cansada? Mais ainda do que antes, porque 
agora o fato de ficar em casa estava muito longe de ser sinnimo de 
descanso.
As pessoas olhavam de fora e talvez pensassem que eu era mais 
uma daquelas vagabundas que encostam o corpo e so parasitas da 
famlia. Mas s eu sei o que passei. Uma coisa  certa: sempre fui ativa e 
dinmica. Aquele marasmo no combinava comigo. Quem me conhecia 
melhor, sabia que alguma coisa estava errada.
Bem... mas se por um lado eu vivia isso, era no meu ntimo que 
vivia. Comentava com a terapeuta todas as coisas, desabafava, contava 
como estava me sentindo. Quanto a Eduardo, encontrei nele um 
companheiro fiel e um corao disposto a ajudar. Ele ajudava na medida 
em que, ao seu lado, eu encontrava sossego, descontraa e, 
principalmente, podia ser eu mesma!
Podia brincar, rir, falar sobre qualquer coisa... e tambm chorar se 
fosse preciso. Ele conheceu todas as facetas da minha personalidade, 
ele viu o que mais ningum viu. Eduardo viu a verdadeira Isabela. O bom 
e o ruim.
Na verdade, ele foi, antes de tudo, um grande amigo. Era isso o 
que eu mais precisava. Porque os namorados primeiro tm que ser 
grandes e indispensveis amigos. Se assim no for, acho que o 
relacionamento no tem o menor futuro.
* * * *
Passaram-se os meses. Agora j se podia dizer que o nosso 
relacionamento tinha futuro. A gente se via com muita freqncia. Isto 
quer dizer: todos os dias. Todos os dias eu o esperava na sada do 
servio. A gente jantava no Shopping nos dias em que ele no dava aula 
de Kung Fu. H alguns meses Eduardo retomara a prtica do Kung Fu. E 
dava aulas numa pequena academia de ginstica perto do trabalho. E, 
pasmem! Eu era sua aluna!
Adorei, foi bem legal. Primeiro porque achava o mximo ver 
Eduardo dar aula, meu namorado era um chuchu! Depois, porque tinha 
vantagens em ser a "primeira-dama das Artes Marciais": Eduardo tinha 
desconto na minha mensalidade.
Ele reclamava que eu era indisciplinada pacas, numa boa, e no 
tinha um pingo de respeito por ele como Professor. No que sou obrigada 
a discordar! Eduardo queria que eu pedisse licena para sair e entrar na 
sala, como qualquer aluno. No me importava de fazer isso, mas s 
vezes ficava parada na porta esperando, e ele nem olhava para mim. 
Ento, fazer o qu...? Entrava e saa ao meu bel-prazer.
 Isabela, voc  aluna, tem que se comportar como aluna! Como 
fica minha moral na frente dos outros alunos?  Eduardo pegava no 
meu p.
 Ento olha pra mim! Alm de ser aluna, em primeiro lugar sou 
namorada, t? No me deixa parada na porta!
Ele no ligava muito, nem eu. Mas procurei fazer como ele queria. 
Eduardo procurou tambm olhar com mais rapidez na minha direo. 
Fora isso, ele costumava elogiar:
 Voc  uma boa aluna, com facilidade em aprender e que no 
tem medo de jogar o corpo no cho. Como voc gosta de dar mortal, 
hein?
 Pois , Nen, eu adoro! Pena que no sai muito bom, voc tem 
que me segurar...
 Mas v se no fica dando muito palpite no meu esquema de 
aula, voc gosta de sugerir que eu d aquilo que voc gosta de fazer.
 At parece!
 Voc tem que parar de ser indisciplinada, no gosta de fazer 
flexo de brao, eu vejo muito bem, sempre fica fazendo abdominal 
nessa hora.
 No gosto de flexo de brao. Mas como esto as minhas 
seqncias, hein? Hein? Os Toy Cha? Vou poder fazer exame? Eu 
aprendi tudo, tudinho, estou sabendo tudo!
 Sem flexo de brao voc no passa  dizia Eduardo com ar 
irnico. Eu fazia bico. A ele voltava a dar uma opinio sincera:
 Os Toy Cha esto bons, sua postura est boa e voc tem boa 
coordenao motora. Aprende fcil! Mas vai cair flexo de brao...
Treinei flexo de brao.
Eu tambm adorava organizar os "eventos" de Eduardo. Ia ter uma 
apresentao de todas as modalidades da academia, e ele iria 
participar fazendo uma demonstrao. Me empolguei com o assunto, 
ajudei em tudo, insisti que Eduardo contasse toda a histria da Arte 
Marcial para contextualizar a apresentao. E isso em perfeita sincronia 
com a msica. Eu organizei tanto o texto quanto a msica.
Eduardo reclamava:
 Mal chego na sua casa... e tome ensaio do texto, com 
musiquinha de fundo... aiiiii!
S queria ajudar.
Fora isso, eu tambm podia fazer outras aulas alm do Kung Fu. 
Costumava sumir de propsito s para mexer com Eduardo que, quando 
assustava, j no sabia mais onde eu estava. Podia estar fazendo 
flamenco, ou crdiofunk. As donas da academia j estavam meio 
implicadas comigo. E questionavam com Eduardo:
 Sua namorada est fazendo todas as aulas de todas as 
modalidades que temos aqui... ns oferecemos apenas uma aula de 
demonstrao em uma modalidade... ela fez um monte de aulas!
Eduardo ria, e eu tambm. Ele no me dava bronca.
 Basta ter uma regrinha para voc desrespeitar, Isabela!
 Eu no sabia, eu pedi aos professores, como eles deixaram... 
no foi de propsito!
Logo depois, Eduardo recebia outra reclamao da namorada:
 Ela est monopolizando a nica esteira da academia... ela no 
pode usar os aparelhos de musculao...
Como eu tinha muita resistncia, ficava s vezes uma hora na 
esteira. E realmente experimentei um pouquinho da musculao.
Novamente Eduardo dava risada, nos bastidores,  claro. E me 
pedia para usar a esteira em horrios que tivessem poucos alunos. E 
explicava:
 A musculao  s mesmo para quem faz matrcula.
Obedeci.
Falando em alunos, fizemos amizade com alguns daqueles que 
faziam Kung Fu. Dentre eles, uma menina que era minha companheira. 
Uma vez todos ns samos para comer pizza e tomar sangria. A gente 
dava tanta risada que no conseguia nem comer!
Realmente Eduardo e eu ramos muito amigos, no existiam 
segredos um com o outro. Brigas aconteciam s vezes, mas eram por 
motivos pouco consistentes. E pouco freqentes.
Novamente chegou dezembro e a poca das festas de fim de ano. 
Eduardo e eu completamos um ano de namoro. Estvamos animados 
para comemorar a data.
H seis meses tnhamos comprado alianas de prata. A aliana de 
compromisso. Bonita, e com o nome gravado dentro, era gostoso t-la no 
dedo. Agora, no incio do segundo ano de relacionamento, comeamos a 
pensar realmente no noivado. Ns nos conhecamos melhor e sabamos 
que valia a pena investir um no outro. Por incrvel que parea... Eduardo 
era fiel a mim!
Claro, eu achava isso muito natural. Nem podia ser diferente. Ele 
era extremamente sincero e devotado a mim, e vice-versa. Mas antes ele 
nunca tinha sido desse jeito. "Fidelidade" era uma palavra que no 
existia no seu vocabulrio. No entanto agora que eu conhecia bem 
Eduardo, percebia o quanto ele estava mudado nesse aspecto. O quanto 
ele tinha sido transformado!
Obviamente que ele continuava levando as suas cantadas, as 
moas continuavam atrs dele. Mas Eduardo j no queria se envolver, 
no dava a mnima abertura. Era engraado ver  e ouvir contar  as 
cortadas que ele dava de vez em quando na mulherada mais ousada. 
No dava espao mesmo, no brincava. Era srio de verdade! E eu 
estava satisfeita.
Ento, por tudo isso, e por muito mais... a gente estava super feliz 
em comemorar um ano!! Combinamos direitinho aonde a gente ia, um 
barzinho super gostoso, aconchegante, com mesinhas ao ar livre, l nos 
Jardins.
Nessa poca eu e Eduardo ainda gostvamos dessa onda de 
barzinho, de vez em quando bem que a gente ia. Hoje j no tem mais 
graa, a gente cresce e muda a cabea. Mas naquelas alturas...
A transformao de carter, essa coisa de deixar o mundo e 
abraar mais e mais a vida Crist acontece na medida em que vemos 
necessidade de fazer isso. O ser humano nunca v essa necessidade 
sem ser confrontado antes, sem ser colocado em xeque. Sem perceber 
as conseqncias funestas dos seus atos.
Ns dois ramos Cristos e queramos levar o Cristianismo a srio. 
Isso era fato. Mas ainda havia em ns um monte de coisas a serem 
lapidadas. Coisas que a gente no enxergava. Tudo isso foi um 
processo. Essa transformao. No aconteceu do dia para a noite!
Por sinal, os barzinhos acabaram sendo outra fonte de "desabafo" 
para mim. Porque, apesar do perodo crtico ter passado, eu ainda sentia 
a minha vida em runas e, vez por outra, um certo mal-estar me pegava. 
Mas eu tinha aprendido, sem querer, que beber um pouco alm da conta 
dava uma tremenda aliviada na tenso!
Foi sem querer mesmo! At aquele poca da minha vida eu nunca 
tinha bebido de verdade, no via graa. Mas um dia a gente estava 
fazendo um pouco de hora no SESC, depois do servio de Eduardo, e 
resolvemos ir comer alguma coisa ali na chopperia. Olhando para o 
cardpio vi aqueles todos, com nomes pitorescos, e a descrio bem 
embaixo.
Eu gostava de bebidas doces ento resolvi provar um deles. 
Escolhi um tal de "Ondas Tropicais", preparado com curaau blue e 
tequila. Eduardo no fez caso que eu pedisse o meu drink. Ento pedi 
mesmo!
Tinha realmente uma cor bonita, azulado de verdade, cheio de 
gelo e enfeitado com um chapeuzinho colorido. O gosto era melhor 
ainda, nem parecia forte! Por isso fui tomando sem cuidado nenhum. 
Desceu liso, maravilhoso...
"Mas como essas bebidas enganam... eu no sabia disso... acho 
que est subindo um pouquinho. S um pouquinho..!
Continuamos conversando, comendo uma tbua de frios para 
acompanhar. Os frios no serviram para atenuar o efeito e ento eu senti 
aquela sensao pela primeira vez: tudo estava meio diferente, estava 
mais colorido, mais engraado... a cabea parecia um pouco leve, me 
sentia animada...
Quando fui pegar no sei o qu na bolsa, ela pareceu mais pesada 
do que o normal e caiu no cho.
E aquilo foi a coisa literalmente mais engraada, mais engraada 
do mundo!
Comecei a rir. Tanto que no conseguia mais parar. E ria, ria, ria, 
apoiava a cabea na mo, na mesa, e era s qu, qu, qu!
 Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah!!! Ai... que graa!
J estava passando mal de tanto rir, as lgrimas j pulavam dos 
olhos.
Eduardo achou graa, e at mesmo o garom que estava nos 
servindo tambm parecia se divertir porque eu j tinha passado da conta.
Realmente...! Mas como aquela sensao era divertida! Como 
tirava dos ombros um peso incrvel, como fazia a vida parecer bem 
melhor... como aliviava!!!
Eduardo pagou a conta depois que rimos muito, e quando samos 
para a rua eu ainda estava alegre, cantarolando e pulando, feliz da vida. 
Ia saltitante pela calada.
Depois disso volta e meia eu queria experimentar de novo a 
mesma sensao. E bebia mesmo!
Naquela poca, Eduardo no via mal. J tinha visto coisa pior na 
"29", j tinha ele mesmo bebido muito. Ento deixava eu aproveitar 
porque no achava que fosse nada demais. Desde que ele estivesse 
sbrio.
 Algum tem que estar sbrio!  ele dizia sem pruridos.
Eduardo sabia que eu no estava num dos dez melhores 
momentos da minha existncia. Se aquilo me deixava mais aliviada, ele 
concordava tambm.
Hoje vejo quo perto eu andei do precipcio...!
De repente, eu podia desenvolver de fato alguma dependncia 
qumica, ficar dependente do lcool de verdade! No fundo, no fundo 
aquilo era uma literal exploso da minha alma. Essa exploso se 
manifestou de vrias formas: o abandono do trabalho, os problemas de 
sade, de sono, de depresso, as brigas familiares... e, agora, a ltima 
delas. Encher a lata!
Em ltima anlise, todo o meu comportamento podia ser traduzido 
em uma s palavra. Um grito agudo. Um desabafo de quem passou 
muito tempo com a vlvula da panela de presso entupida.
A morte do meu pai foi o estopim da exploso.
E a exploso, ruidosa, no  bonita de se ver. Faz o maior estrago, 
a maior sujeira, a maior mixrdia. E pode machucar quem est por perto.
Mas nem eu nem Eduardo queramos perder tempo filosofando 
nisso. A gente queria s poder curtir um pouco! Naquela comemorao 
de um ano no foi diferente. Ou melhor, em certo sentido foi diferente. Eu 
no imaginava que ia acontecer como aconteceu.
Samos os dois da minha casa no comeo da noite, embonecados, 
bem vestidos, e fomos para o tal barzinho nos Jardins. H alguns dias 
Eduardo tinha me dado o seu presente, no conseguia esperar pelo dia. 
Ele nunca conseguia fazer surpresa, sempre estragava antes.
Deu-me um lindo bicho de pelcia, um macaco que eu tinha 
achado uma graa, e uma linda corrente de ouro com um pingente muito 
delicado, de ouro com esmeralda. Tudo acompanhado de carto, uma 
belezinha!
Naquele ano no tinha dinheiro prprio para comprar presente 
para Eduardo, ento comprei duas camisas com o dinheiro dele mesmo. 
Eu gostava muito de dar-lhe presentes, nem precisava ser uma data 
especial. Mas... naquele dia no dava!
A noite estava quente. Descemos do carro, caminhamos de mos 
dadas at aquele lugarzinho gostoso, bem freqentado, sem baguna, 
com uma msica agradvel.
Fizemos planos para o noivado. Para o ano que estava vindo. E 
decidimos que nos casaramos o quanto antes. Ficamos sonhando e 
fazendo castelos no ar durante um tempo, embalados pelo vento e pela 
msica.
Mas Eduardo voltou  realidade comentando novamente o quanto 
estava insatisfeito na Empresa em que trabalhava. Apesar de ter sido j 
promovido a Supervisor de Produto, o salrio no compensava tanto. 
Mas o pior mesmo  que o seu antigo chefe no estava querendo se 
aposentar de verdade. O cargo era oficial na carteira de trabalho de 
Eduardo, mas no na prtica. Pelo que ele estava enviando currculos 
para outras Empresas.
 Pxa, se eu ganhasse numa Empresa na mesma proporo que 
ganho dando aulas de Kung Fu...  suspirou Eduardo.
Ele estava coberto de razo.
 Isso l  verdade, Nen! Proporcionalmente falando, o Kung Fu 
compensa bem mais. Se voc tivesse muitos alunos e se dedicasse em 
tempo integral... j imaginou como no seria?!
Eduardo ficou meio quieto, pensativo.
 Mas no  uma coisa muito convencional, voc sabe, n?
 Ah! Mas e da? Por que precisa ser convencional? Por que voc 
no tenta mandar o seu currculo de Kung Fu para grandes Academias, 
Eduardo? Voc tem que pensar grande, j parou pra pensar que o seu 
perfil  perfeito para isso? Voc tem um currculo invejvel, conquistou 
ttulos, tem anos de experincia. O que mais podero querer? Alm 
disso, Nen  gato,  lindo!  passei a mo de leve no seu rosto.  A 
boa aparncia conta quando se trata de publico classe A! Comecei a me 
animar.
 Ento?... Por que voc no tenta?
Eduardo parou um pouco para pensar. Seu semblante se 
iluminava aos poucos:
 Ser mesmo que daria certo? Nunca parei pra pensar nas 
grandes redes de Academias, essas Academias de elite... ser que daria 
certo?
 No custa nada voc tentar, manda o currculo, Nen. O 
mximo que pode acontecer  no te aceitarem. Mas no vejo por que 
no aceitariam. J imaginou?! Seria to jia pra gente...
  to bom fazer algo de que se gosta muito!
 Eu sei. Voc foi legal comigo naquele impasse de Medicina. Eu 
quero que voc tenha tambm a chance de dar um outro rumo na sua 
vida. Quem sabe no  por a? Olha s... j imaginou se voc desse 
aulas na Mega Athletic Center, por exemplo? Ou na Thriatlon ? Ou na 
Coliseum? Hein, hein?!
 ! Essas Academias funcionam mesmo como uma grande 
Empresa, sabia? Os Professores tm todos os benefcios trabalhistas, 
todas as garantias.
 Vamos fazer assim... eu estou com mais tempo que voc. Vou 
organizar o seu currculo de Artes Marciais, t bom? Fao um currculo 
bem legal, e comeamos a distribuir. Aguardamos pra ver no que d!
 Pxa, Gatinha, Legal!  isso a!
 E, olha, Eduardo! Vou te dar um conselho construtivo... eu 
assisti  sua aula terica l na Academia.  bom, sem dvida, ter umas 
aulas tericas.  um super diferencial! Mas deixa um pouco a desejar em 
didtica. Voc tem contedo, mas precisa aprender a passar bem este 
contedo. Por que a gente no tenta desenvolver um curso terico 
mesmo? Um curso de verdade?
Minha cabea deu voltas diante da idia inusitada, mas que 
pareceu tremenda de boa. Eduardo tambm se entusiasmou logo de 
cara. Continuamos matraqueando enquanto comamos, nos contagiando 
mutuamente com as idias.
At a, nada de mais. Eram sonhos lcitos, planos plausveis. A 
gente procurava dar um rumo ao nosso futuro com as ferramentas que 
tnhamos nas mos. Se desse certo eu no precisaria mais voltar  
Medicina, e Eduardo faria algo totalmente aprazvel. Parecia um caminho 
lgico a seguir.
 Voc podia desenvolver uma apostila direcionada ao curso de 
Kung Fu.  continuei.  De tempos em tempos os alunos teriam as 
aulas. Continua valendo aquela pequena avaliao terica para mudar 
de estgio, como voc j esta acostumado. Mas eles teriam um bom 
material de estudo! Podemos tambm diversificar um pouco, ensinar no 
somente a histria do Kung Fu e das armas, mas tambm um pouco de 
fisiologia do esporte, noes de Anatomia e nutrio, coisas prticas 
voltadas para a prtica esportiva. Uma coisa bacana de verdade. O que 
voc acha?!!
Diante da nova proposta Eduardo pareceu animado.
 Sabe que voc tem razo? Isso vai dar todo um diferencial para 
o meu curso,  algo  difcil de encontrar. Alis, quem deveria dar essas 
aulas de fisiologia, Anatomia, noes bsicas do esporte, dentro do 
contexto Mdico... deveria ser voc! Inclusive, se eu disser que o curso  
supervisionado por uma Mdica...
 A j no sei, Nen.  interrompi.  No gosto muito de me 
expor na frente. A gente at pode pensar nisso depois, s que vai ser 
voc que vai dar as aulas, a princpio! Mas no tenho nada contra 
organizar tudo no papel. Quer dizer, montar a apostila. Me passa o 
material que eu vou organizar as aulas de Kung Fu, t? Tambm monto 
as outras, monto o curso todo e te ensino a parte Mdica... vai ser legal! 
Assim arrumo uma boa coisa pra fazer! Ficar olhando para as paredes  
que no d!
 Tudo bem. Eu tenho um monte de textos, xrox de pedaos de 
livros,  da que eu tiro as informaes.
 Sim, timo que voc tem o material. Mas isso tem que ser 
mastigado, no adianta passar os textos integrais para os alunos. Eu vou 
montar as aulas de forma a que elas sejam, na verdade, uma espcie de 
"aula resumida", esquematizada apenas. Nada que dispense a sua aula, 
entendeu? E vou montar umas coisa legais de Medicina tambm. Coisas 
prticas. Acho que vai ficar muito bom! E quando voc oferecer o 
trabalho nas grandes Academias, j pode dizer que voc tambm d 
uma parte terica. Vai fazer a diferena! Pode crer!
Ficamos ainda um bom tempo nos deleitando com aquela idia 
que tinha nascido ali, do nada. Podia mesmo ser algo bom. Eduardo era 
um timo professor, paciente, interessado... e um timo atleta. Tinha tudo 
para dar certo. Eu ia ajud-lo no que podia para dar mais certo ainda!
 Quem sabe no futuro ns no teremos a nossa prpria 
Academia?  exclamei.
 Esse sempre foi o meu sonho!  exclamou Eduardo de volta, 
realmente animado.
 Mas no  uma idia impossvel! J parou pra pensar nisso? 
Voc tem tudo o que precisa. E eu sou Mdica, sem dvida ajuda. A 
gente pode conseguir!
 . Acho que podemos, sim!
 Mas tem que ser uma Academia diferente, Eduardo! Em outros 
moldes, com padres diferentes. Sabe? Um lugar onde as pessoas 
aprendessem a cuidar da sade em primeiro lugar, onde fossem 
informadas de verdade, onde existissem outros cursos paralelos. At 
mesmo uma Biblioteca!
Nos deleitamos naquela idia. Aquele seria um sonho que 
caminharia conosco durante um bom tempo. Mas era preciso comear do 
comeo. Eu montaria a apostila.
A noite estava sendo agradvel, mas l pelas tantas cansamos de 
ficar ali. Pagamos a conta e samos novamente em direo ao carro, 
abraados, curtindo a nossa comemorao. Mas ainda estava cedo e eu 
tinha permisso para ficar fora mais tempo naquele dia. Aquele negcio 
de horrio continuava me irritando. Tinha a sensao de que nunca podia 
fazer nada!
 Pxa, est muito cedo para a gente voltar, Nen! Vamos fazer 
alguma outra coisa... temos que aproveitar esse dia, no ?
Eduardo estava no volante e olhou pra mim, condescendente:
 E o que voc quer fazer, "M"?
 Ah, sei l! E se a gente fosse em outro barzinho? Vamos fazer 
um "tour" de barzinho?
 Voc quer?  Eduardo ria.
 Hum... e por que no?
Ele concordou de pronto.
 Se Gatinha quer.
 Ento ganha!  completei.  Oba! Oba!
  isso a! E vamos onde?
 Que tal ali na Praa Pan-americana? No Senzala?
Volta e meia a gente ia l. Os preos eram acessveis e o lugar, 
gostozinho se estivesse calor. As mesinhas eram ao ar livre. Fomos. 
Estava cheio de gente, faltava at vaga para estacionar perto. J estava 
mais tarde ento era a hora do "point" mesmo. Caminhamos um pouco, 
eu estava animadssima com a perspectiva da Academia e queria 
comemorar.
 Eduardo, vamos comemorar a nossa idia!
Entramos, conseguimos uma mesa. Pegamos os cardpios. Eu 
tambm estava alegrssima por fazer algo diferente. E rebelde! Para os 
meus padres. Estava cansada de fazer tudo certo. Ningum parecia dar 
muito valor quando eu fazia tudo certo! Agora podiam falar com vontade, 
me crucificar  vontade... ia fazer errado mesmo! E pronto!
 O que vai ser?  perguntou o garom.
 Uma poro de fritas e coquetel de morango.
Eu j tinha bebido um pouquinho no outro barzinho. Mas no 
estava nem a. Bebi o meu coquetel rapidinho, depois bebi at o de 
Eduardo. Aquela sensao hilariante comeou a me invadir de novo. E 
comecei a perder a noo do aceitvel. Por isso no ficamos l muito 
tempo:
 Vamos continuar!  falei, decidida.
 Ao "tour" de barzinho!
Antes de sairmos, Eduardo comprou um terceiro coquetel para 
viagem. De coco. No demorou nada, nada e enxuguei o terceiro 
coquetel sem d nenhuma. Quase duma vez.
 Me d um gole?  pediu Eduardo na direo do carro.
 Muito tarde!  e aspirei o canudinho ruidosamente  
SSHHRRRRUUUPPP!!!  Voc j bebeu tudo, Isabela? Meu Deus, mas 
que rapidez!
 OK! Edu! Vamos para outro barzinho! Vamos l no Pantanal!
 Olha... tem certeza?
  isso a! Vamos encher a cara!  eu j estava travada.
Exatamente aquela sensao que era boa! Queria prolong-la ao 
mximo. Tinha que continuar bebendo!
Como eu disse, Eduardo achava que eu precisava extravasar de 
vez em quando, ento nem sequer hesitou. No fui capaz de descer no 
Pantanal, um outro lugar que amos s vezes, na verdade nem fazia 
diferena. Eu j estava to grogue que fiquei sozinha dentro do carro 
enquanto ele foi comprar a bebida para mim. E me diverti muito bem, 
sozinha, colocando a mo no teto do carro e me debruando sobre o 
vidro da frente, e achando aquilo tudo muito legal.
Ele entrou no carro e eu comentei com ele:
 Fiquei aqui cantando, e pus a mo no teto!
 Pxa, que legal, hein? Voc quer mesmo tomar um porre, n?
 Quero!!  isso a! O que  que voc me trouxe, Nen?! D a!
 Uma caipirinha de vodka!
Enxuguei em instantes a tal caipirinha. Ento Eduardo achou que 
eu j tinha bebido bastante, e decretou:
 Bom, vamos indo pra casa, t? At l voc j vai estar boa.
Quanta iluso... no meio do caminho a graa acabou. E comecei a 
sentir um terrvel mal-estar. Minha vista estava turva e eu no me sentia 
bem. Na porta da casa de Eduardo a coisa piorou. Eu sentia muita 
vontade de ir ao banheiro, mas no conseguia descer para ir at l. 
Minhas lembranas ficaram um pouco turvas nesse pedao, mas 
Eduardo contou que eu chorava e pedia que ele no fosse embora.
 T tudo assim, .....!  e eu mostrava com as duas mos que 
estava tudo girando.
E eu travei mesmo, falava mole, enrolava a lngua. O pior  que 
comecei a sentir enjo de estmago. Da a coisa apagava, minha noo 
de tempo foi para o espao. Eduardo j estava sem entender. Eu j tinha 
bebido outras vezes na mesma proporo sem ter tido aquele revertrio. 
Eu capotava, dormia, acordava, falava bobagens, voltava a dormir. 
Reclamava do estmago.
E assim passou uma hora. Nem me dei conta.
Ento Eduardo resolveu que tinha que me levar em casa. Mas a 
ficava difcil para ele voltar, estava tarde e no haveria mais nibus. 
Ento pediu ao Roberto, seu irmo, que o acompanhasse at minha 
casa. Para traz-lo de volta depois.
Lembro-me pouco da viagem. Apenas percebi que, volta e meia, 
minha cabea sacolejava pendurada pela janela.
 Eu abri a janela pra voc respirar melhor. Achei que ia fazer 
bem.  comentou Eduardo depois.  Voc estava travada demais, no 
achei que fosse acontecer isso. Pensei que ia ser como das outras 
vezes, que logo voc j estava bem de novo.
Mas a verdade  que nem eu e nem ele nos lembramos que eu 
vinha tomando uma medicao forte para dormir naqueles dias. Acho 
que deu uma potencializada daquelas. Eu no tinha bebido tanto assim!
Na porta de minha casa foi outro drama. Eduardo queria que eu 
descesse, mas era impossvel.
 Eu no consigo, Nen, no consigo! No consigo...  eu me 
desesperava sempre com aquela voz pastosa.  No d pra levantar. 
Quero ir ao banheiro!
Nisso passou mais quase uma hora, segundo contou Eduardo no 
dia seguinte. Ento ele resolveu me carregar at l dentro. O Roberto j 
estava dormindo no seu carro, estacionado em frente. Eduardo teve 
realmente que me carregar, eu no conseguia dar um passo. Meu corpo 
parecia feito de chumbo. Minha me estava deitada e no apareceu 
quando entramos na sala e ele me ps no sof.
 Voc precisa de um caf bem forte!  lembro-me que ouvi 
Eduardo comentar. Escutei vagamente os barulhos na cozinha, o "plim" 
do microondas quando o Nescaf fortssimo ficou pronto. Eduardo trouxe 
e me ajudou a beber uns goles.
Estava intragvel!!
O efeito foi imediato, em segundos vomitei tudo ali mesmo, no sof 
e no tapete. O alvio foi instantneo tambm, senti-me bem melhor. Mas 
no deu tempo de mais nada, minha me entrou na sala.
 Meu Deus, mas o que aconteceu?  escutei-a dizer. Eduardo 
tentou explicar, eu tentei explicar.
 Acho que comi algo que me fez mal.  tentei parecer o mais 
normal possvel.
Misso impossvel.
Eduardo fez coro ao meu argumento e ela deixou por menos 
naquele instante. Embora fosse perfeitamente capaz de adivinhar o que 
estava acontecendo, a julgar pelo adorvel cheiro que inundou a sala. 
Vmito de bebida  realmente adorvel!!!
Eduardo tratou de limpar tudo, eu capotei no sof. No conseguia 
abrir os olhos. De vez em quando a conscincia aparecia, no meio de 
uma nvoa conseguia vislumbrar Eduardo com um balde... com um 
pano...
Ningum tentou me colocar na cama, e embora eu estivesse a 
ponto de estourar de vontade de ir ao banheiro, nem pensei em tentar 
tambm. Sentia-me incapaz de mexer um msculo.
Dormi ali mesmo at quase o amanhecer. Acordei desesperada de 
vontade de fazer xixi. Fui. Depois deitei no quartinho dos fundos, meu 
atual lugar de recolhimento. H alguns meses a dona da casa ao lado da 
minha, que estava para alugar, colocou ali uma caseira. Ela tinha uma 
filha e um cachorro, e berrava com ambos o dia todo. Comeava s sete 
da manh, de domingo a domingo.
E se havia algo que me deixava muitssimo irritada era ser 
acordada por ela todos os dias. Como meu sono vinha extremamente 
mutilado, tive que me mudar para o quartinho de despejo, no fundo do 
quintal, numa desesperada tentativa de ter sossego.
Realmente dali eu no escutava nada, pena que o local no fosse 
nada aconchegante. Tinha uma cama, mas muita baguna em volta. 
Fiquei por ali at que minha me investiu pesado e comprou uma janela 
e uma porta anti-rudo. Foi a minha sorte! E eu tambm dormia com 
rolhas nos ouvidos.
No dia seguinte eu estava cansada e com o estmago ruim, o 
intestino tambm. Mas como minha me deixou por menos, eu tambm 
no liguei muito. Mas fiquei espantada com o acontecido. Eu tinha 
tomado um porre daqueles! Nunca imaginei que pudesse acontecer 
comigo...
* * * *
Captulo 6
Apesar de que a nossa idia de montar um curso diferenciado de 
Kung Fu fosse boa, naquela poca do ano era bobagem ir atrs. Logo 
viria o Natal e a passagem do ano. Ningum faz nada nessa poca, 
portanto deixamos para o outro ano.
Alis, falando do ano que chegava, prefiro at dispensar 
comentrios sobre as comemoraes. Marco no pde vir, de forma que 
a famlia de meu pai, que morava no interior, convidou-nos para as 
festas. Foi muito gentil da parte deles, mas sem meu pai aquilo tudo 
perdia boa parte do brilho. Minha me estava triste, e eu mesma me 
recordo muito pouco de tudo.
Eduardo foi conosco, o que ajudou um pouco a diluir a sensao 
de desconforto. Mas eu queria mais era que tudo passasse logo e a vida 
voltasse ao normal, no incio de janeiro.
A entrada do novo ano me ps bem mais aflita em relao ao que 
eu iria fazer de minha vida. No havia uma cobrana plenamente aberta, 
mas tudo o que  velado causa mais tormento. Sei que minha me devia 
estar to aflita quanto eu, pois de vez em quando ela perguntava algo, ou 
dava umas indiretas.
Mas eu prpria me cobrava bastante! Era extremamente difcil para 
algum que nunca parou na vida ficar sem saber que rumo dar nas 
coisas. No sabia em que direo apontar o leme. Estava   bvio  
muito pouco satisfeita com a situao presente, mas tambm 
completamente sem saber o que fazer.
Sentia-me  deriva, perdida, confusa. Eu queria fazer algo... era 
preciso fazer algo, dar um sentido maior para os meus dias. Mas o qu! 
Era uma grande, uma enorme dificuldade... tinha perdido a capacidade 
de saber o que me daria prazer. Profissionalmente falando, quero dizer.
Porque o prazer pelo prazer no podia ser. A profisso tem que ter 
uma faceta til, porque seno tambm deixa de ser prazerosa. Pelo 
menos eu pensava assim. Mas estava incerta quanto ao meu futuro 
como Mdica e no conseguia sequer pensar em arrumar um emprego 
nas mesmas bases daqueles que tinha acabado de experimentar.
Ento fui  Faculdade informar-me sobre alguns cursos. A 
Andreza, minha amiga da A.B.U., nessa altura tambm Residente, me 
dera timas referncias sobre um curso de Acupuntura. Seria uma 
maneira de diversificar os meus conhecimentos e, quem sabe, no futuro, 
aquilo no me seria uma outra fonte de trabalho?
Fiz a inscrio, por sorte, no ltimo dia. E tambm interessei-me 
por um curso de Medicina Esportiva. Seria timo, porque se ns 
realmente investssemos naquela coisa da Academia eu estaria com a 
minha vida profissional feita. No havia curso melhor do que aquele para 
dar continuidade aos meus conhecimentos. Parecia realmente uma 
direo vinda de Deus! A soluo!!!
Ambos os cursos tinham durao de um ano, mas a carga horria 
da Acupuntura era trs vezes menor do que a do outro curso.
Em fevereiro, comecei as aulas animada.
 medida que o curso de Acupuntura avanava, comecei a pensar 
um pouco mais sobre aquilo. Embora tivesse l meus questionamentos 
sobre aquela prtica, porque j tinha "ouvido falar", fiquei pensando se 
aquilo teria alguma influncia subliminar ou no. Procurei conversar com 
os Cristos, informar-me melhor. Mas ningum parecia querer saber, ou 
importar-se com aquilo.
Apenas Andreza, que j tinha at mesmo se formado naquele 
curso e agora era instrutora, falou sobre sua opinio pessoal:
 Alguns pontos eu prefiro no agulhar.
Mayra e Lara tambm participavam comigo das aulas. Mas no 
chegamos a nenhuma concluso.
Um dia perguntei a Eduardo:
 Voc algum dia ouviu algo sobre a Acupuntura, na Seita?
Ele me explicou um pouco sobre o conceito dos chakras, e dos 
Portais, coisas at ento pouco familiares para mim.
 Caramba, mas por que voc no disse isso antes? Me deixa ir 
fazer um curso assim?
 O problema no  a Acupuntura em si, entende? Na verdade, a 
cincia  milenar e as bases cientficas de fato existem. Mas voc sabe 
que o diabo pode se aproveitar de coisas que lhe interessam, 
especialmente se for de fcil manipulao. E onde h o desconhecimento 
de Deus,  fcil para o diabo agir. Lgico que se a manipulao foi feita 
por Cristos, no creio que haja problema!
 Nossa... mas ento... que coisa!
Na verdade, estava procurando uma desculpinha. Eu no estava 
gostando daquele curso, sem dvida o de Medicina Esportiva era muito 
mais interessante. Acabei largando a Acupuntura e fiquei s com o outro. 
Estava aprendendo coisas legais, coisas teis, e quando tivssemos a 
Academia eu ia poder fazer muito bom uso daquele conhecimento.
O ano continuou correndo sem grandes novidades no primeiro 
semestre. Acabei montando a tal da apostila para Eduardo, o curso de 
Medicina Esportiva ajudou-me muito com conceitos e informaes 
utilssimas. Montei tambm um belo currculo para ele.
Pouco antes que tudo ficasse pronto, Eduardo resolveu voltar a 
treinar firme. Se pretendia investir num futuro que levasse em conta a 
Arte Marcial, tinha que estar em forma plenamente. E isso ele no ia 
conseguir apenas se desse aulas. Precisava treinar, e treinar pra valer. 
Eu dei todo o incentivo, realmente orgulhava-me dele e queria v-lo 
novamente no pice da forma.
 Vou atrs de um antigo Mestre, o Mestre Zhy!  comentou ele 
comigo certo dia.  Depois que terminei o Ton Long comecei um terceiro 
estilo, e treinei com ele.  conceituadssimo!
 Pxa, Nen, vai mesmo! Legal!... U? Voc fez outro estilo?
 Fiz. Mas no me formei. Agora ele precisa me aceitar de volta, e 
isso no  to fcil. Tem sempre uma fila de espera. Ele no aceita 
alunos principiantes. Vou ter que conversar... antigamente ele gostava 
muito de mim!
 Como foi que voc comeou a treinar este estilo? Faz tempo?
 Eu no era ainda convertido. Estava na Seita. Na poca eu era 
Professor da ADINK e dava o meu curso de armas, aquele que eu te 
falei. Isso fazia com que eu fosse um dos Professores mais respeitados e 
requisitados naquela academia. Era uma academia de porte mesmo, 
com mais de 2000 alunos! Mas a nosso Mestre regional teve um 
problema com seus superiores, os responsveis pela rede de academias 
da ADINK. E foi afastado. Muitos Professores da ADINK acabaram 
saindo de l por causa disso. A administrao da academia viu-se obri-
gada a permitir que alguns Professores assumissem mais horrios. Eu fui 
um dos selecionados para dar mais aulas, o que foi timo para mim! 
Nesse nterim, foi requisitado um novo Mestre para assumir a academia, 
que foi desligada da rede ADINK, e tornou-se independente. Mestre 
Zhyang aceitou o posto. Ele era Mestre do estilo Serpente, e logo tratou 
de agendar uma reunio com todos os Professores. Lembro-me bem que 
era um sbado. Camila foi terminantemente contra que eu fosse. Ela j 
ficava sozinha a maior parte da semana e era muito justa sua recusa. 
Mas eu precisava estar l!
 Voc, hein? Coitada...
 Pela manh eu havia dado cobertura a um Professor amigo 
meu, e a a me dela ligou, aflita, dizendo que Camila tinha se 
machucado. A raiva dela era tanta com minha reunio que, ao bater uma 
porta com toda a fora, prendeu o dedo do p e ficou sem a unha. Assim 
que conseguiu se acalmar e cuidar da primeira dor, cismou que um vaso 
estava esteticamente mal posicionado. Resolveu mudar de lugar. Deu 
um mau jeito nas costas, e travou a coluna. Estava imvel estirava no 
cho da sala, com muita dor, e explodindo de raiva! Eu conseguia 
escut-la falando: "Se ele estivesse aqui, eu no precisava ter mudado o 
vaso de lugar, agora eu que me ferro, enquanto ele d aulas para as 
galinhas da academia. Aquilo no  academia  uma 'granja'". Tive que ir 
embora por causa disso. Depois fiquei sabendo que naquela reunio o 
Mestre Zhy, dentre outras coisas, criticou meu curso de armas. Como o 
curso despertava cimes na maioria, ningum me defendeu. A alegao 
dele era que as armas so caractersticas de estilos prprios. O que eu 
ensinava, embora fosse de fato um estilo "livre", estava embasado na 
filosofia do tradicional Shaolin. Shaolin quer dizer "jovem floresta". Assim 
como acontece na natureza, que  livre, o estilo Shaolin tambm . 
Assim eu via e entendia. Mas Mestre Zhy ficou com uma m impresso a 
meu respeito, s que no pde extinguir meu curso.
 Pxa... foi uma implicncia meio de graa!
 Depois que ele pichou injustamente o meu curso, eu tambm 
fiquei de ovo virado para ele! E esperei a primeira oportunidade para 
termos uma conversa "casual". Claro que eu no queria ter que ir atrs 
dele! Apesar de conhecer seu renome e respeit-lo pela sua Arte Marcial, 
de puro orgulho no fui ter aula de imediato com ele. Mas estava 
frustrado! Mestre Zhy tinha aberto uma classe especial s para alunos de 
elite, para comearem o estilo da Serpente. Queria muito participar 
daquelas aulas, mas tambm no queria dar o brao a torcer. Ento, 
tentei fazer com que ele percebesse em mim potencial a ponto de me 
querer como discpulo. Eu sabia a que horas ele costumava chegar na 
academia, da chegava um pouco antes, me aquecia, e ficava perto do 
Mudjong. Esperando. Assim que percebia que ele estava chegando, 
comeava minha performance com todo o mpeto. Eu era bom naquilo. 
No nunchaku tambm, podia usar os dois para chamar sua ateno.  Vi 
que ele dava umas olhadinhas e logo virava de costas. No falava nada. 
Neca do Mestre Zhy abrir a boca. Nem ligava...
Eu j estava rindo. Eduardo continuou.
 Ele no olhava muito na minha cara e nem eu na dele. Depois 
que viu minhas habilidades com o nunchaku achei que pelo menos viria 
falar comigo. Nada! Eu detestava ser ignorado! Como nada aconteceu, 
chamei meu amigo Frank para uma luta amistosa bem diante dos olhos 
do Mestre Zhy. Ele era seu aluno predileto. Eu no machucaria Frank e 
nem ele a mim, mas seria tima oportunidade para demonstrar tudo o 
que eu sabia. Neste dia, ainda fiquei falando alto e mostrando a medalha 
que tinha ganhado em outros campeonatos, brincando com Frank, e 
dizendo: "Voc vai ter a honra de lutar com um campeo". Tinha que 
chamar a ateno do Mestre a todo custo. Fiz poses, desferi meus 
golpes mais bonitos, pulei, voei, saltei, chutei, quase distendi a perna, 
mas estava dando o mximo! Mas ele simplesmente olhou com desprezo 
e foi embora... que raiva senti dele!
 Quero s ver como vai terminar essa histria.
 Um dia, no meio de uma aula dele, pedi licena para atravessar 
o salo. Ele deve ter pensado que eu s ia at o vestirio ali atrs, e 
permitiu. Qual no foi sua surpresa quanto comecei a chutar 
compulsivamente o saco de pancada.
 Eduardo! Que absurdo! No meio da aula do cara!
 Eu estava ficando nervoso... p! Ele olhou pra mim com um ar 
frio. Ah! Parecia que enfim ia me dar ateno. S que se limitou a dizer 
que eu no poderia usar o saco de pancada durante sua aula. Que 
droga! J estava ficando alucinado! No havia outro jeito, eu teria mesmo 
que falar com ele! Ento fui chegando como quem no quer nada, mas 
com todo respeito. E disse: "Mestre! Posso te fazer uma pergunta?". Ele 
no respondeu, s fez que sim com a cabea, srio. Fui adiante: "Voc 
acha que a lana pode vencer o nunchaku? Porque com o nunchaku nas 
mos eu sou muito bom, e acho muito difcil existir uma arma capaz de 
me vencer se eu estiver com o nunchaku nas mos".
 Pouco arrogante, hein? Como voc era... modesto!
 Mas escuta s... ele estava vestindo uma jaqueta sobre a 
camisa. Tirou e respondeu: "Pois eu no preciso de mais nada alm 
disso aqui". E me mostrou a jaqueta. Claro que eu tive que dar risada! 
"Quer dizer que voc pode me vencer com uma jaqueta! A mim? E 
armado com o nunchaku? Ah, ah, ah, ah, ah, ah!".
Eu tambm ri, Eduardo tinha umas histrias engraadas. E foi 
adiante:
 "Pegue seu nunchaku", foi tudo o que ele disse. "No, no... 
Mestre.... eu no quero machuc-lo!", fui respondendo. Eu sabia que um 
s golpe racharia um crnio em dois. Um osso humano se rompe com o 
impacto de seis libras. O nunchaku pode chegar a ter um impacto de 
mais de 800 libras quando usado em alta velocidade! A brinquei: "Vou 
pegar o nunchaku de espuma, t?" E ele: "No. Pegue o seu nunchaku". 
"Mestre! E melhor eu pegar o de espuma. No preciso machuc-lo". O 
Mestre Zhy ficou apenas parado, olhando pra mim, com a jaqueta 
apoiada nas costas. "Quando quiser", falou de novo. Eu tinha certeza de 
que ia machucar ele. No era bem mais fcil apenas me responder  
pergunta: nunchaku versus lana... quem vence?
 E a?
 Ainda insisti mais um pouquinho: "Bom... Mestre... ento pelo 
menos tira o culos, n?!". Ele sequer se alterou. E ainda falou grosso: 
"Pra com isso. Voc vai ou no usar logo o que sabe?" Faltava 
amabilidade naquela atitude. Bom... estava pedindo. Se se machucasse, 
o problema era dele. O mximo que podia acontecer era eu ficar no lugar 
dele como Mestre da academia. " isso que voc quer? Voc pediu!" Me 
senti seguro, afinal tinha gente olhando. Ele era o Mestre, no iria me 
machucar. Para todos os efeitos, eu era o "discpulo". S que eu podia 
machuc-lo... e pensei: "Vou com tudo em cima. Quando correr a notcia 
de que eu destru o Mestre Zhy... quebrei uma costela... ou um brao... 
ou o joelho... claro, no vou atacar na cabea, mas quem sabe se eu tirar 
os culos dele com uma chakada...". Ento saquei meu nunchaku e fiz 
vrias manobras diante dele, rasgando o ar. Eu queria impressionar e  
minha volta todos cochichavam. S o Mestre Zhy continuava quieto, 
esperando. Parti para cima dele com toda a agressividade, e... nem vi o 
que aconteceu! At hoje no sei direito como ele fez aquilo, nem 
percebi... mas o fato  que quando dei por mim eu j estava sem o 
nunchaku... cado no cho... e enforcado com a manga da jaqueta!!!!!
 Ah, ah, ah, ah, ah! Levou a pior!
 Quando bati nele tive a impresso de bater numa espuma; o 
nunchaku perdeu a fora e a velocidade, algo o puxou das minhas mos 
com fora... em milsimos de segundo j me senti voando para o cho... 
a conscincia plena s me voltou quando Mestre Zhy educadamente 
desenrolou a jaqueta do meu pescoo. E com calma, virou de costas foi 
embora. No falou nada! A humilhao do dia... da semana... do ms.... 
no, no, no!!!! Todos olharam mas eu corri atrs dele. E gritei, um 
pouco irritado: "Mestre!!! Espere! Mais uma vez! Eu usei a estratgia 
errada!". Ele me ignorou e continuou indo embora. "Mestre! Me d mais 
uma chance, mais uma chance s. Ou voc t com medo?!"
 Eduardo, que teimosia! Ah, ah, ah, ah, ah, ah!
 Pois ... mas fiquei inconformado. Ento ele voltou o rosto para 
mim, deu uma risadinha e falou, desta vez em outro tom: "Mas voc  
teimoso, n?".
 No falei?
 Aquilo no era possvel!!! Nem liguei. J fui falando de novo: 
"Ento? T pronto?! T?". Mestre Zhy pegou sua jaqueta e jogou no 
ombro do mesmo jeito. Eu pensei comigo: "Desta vez vou envergonh-lo. 
Uso uma finta, finjo que vou atacar no rosto e ataco embaixo!  
impossvel ele no cair nessa, isso sempre funciona". E fiz. Ataquei 
ferozmente e com toda minha fora. Como ele conseguiu, s ele mesmo 
 que sabe, Isabela! Fiz que ia desferir um golpe no seu rosto e chutei 
violentamente o joelho, mas Mestre Zhy ergueu a perna de uma maneira 
que no pude ver... e chutou meu rosto! Isto , s encostou, deu um 
tapinha leve. De efeito moral. Eu me assustei e perdi o rebolado, e ele, 
sem esperar mais nada, me deu um rodo por trs que me ps espatifado 
no cho. PLOFT! E de novo virou as costas e foi embora! Eu fiquei 
completamente aturdido, indignado. Ento Frank bateu no meu ombro, 
falando com aquela voz resignada: "Eduardo....o Zhy  formado na 
China. Ele  um Mestre chins. No viaja" Levantei impressionado.
 E o que voc fez?
 Deixei passar dois dias... s dois. Mestre Zhy nem olhava pra 
mim. Ento fui atrs dele de novo: "Mestre! Olha... luta comigo. S no 
brao! Usando as pernas pode ser que voc seja melhor, mas com os 
braos... voc me viu treinando no Mudjong, no viu? Duvido que voc 
tenha a coragem de treinar comigo. Luta comigo... usando s os 
punhos!".
 L vai!
 Mestre Zhy deu risada bem-humorado. Talvez estivesse 
comeando a ir com a minha cara. Realmente eu era teimoso mesmo! 
Lutamos. Eu me esfalfando com golpes e mais golpes, e ele na maior 
tranqilidade. E me provocava: "Isso  tudo que voc sabe? Acabou?" 
Fiquei furioso, e atacava mais ainda, com mais ferocidade. Mas no 
consegui venc-lo! E toda hora voltava  carga, dando risada: "Isso  o 
mximo que voc pode fazer? ?" E TUM! Me acertou um nico golpe. 
Fiquei sem respirar de dor. Mestre Zhy nem bateu com fora... s tocou. 
Que coisa absurda. Fiquei irritadssimo. Assim que me recuperei, estava 
mais enfezado: "No  possvel! Valendo perna, ento!"  Eduardo at 
gesticulava, revivendo a indignao do momento.  Da ele disse que 
para mim podia estar valendo, mas ele no ia usar as pernas. Parece 
que gostava daquilo, da minha insistncia. No esperei segunda ordem, 
fui para cima dele babando. Eu tinha que conseguir acertar um golpe, um 
golpe s!!! Mas quem me dera! Foi ele que me acertou mais um 
tranco no brao, no nervo. No doeu, mas fiquei com o brao 
dormente, paralisado. Travou. Para Mestre Zhy foi o que bastou. Ento 
ele falou comigo pela primeira vez: "Voc quer aprender Kung Fu?" Dei 
um muxoxo, vencido. E disse que sim, perguntei humildemente se ele 
podia me ensinar. Ento me chamou para participar do treino de elite. Foi 
o que fiz. No sbado l estava eu para participar. Desfilando com meu 
novo uniforme colorido, que alguns ainda debochavam chamando de 
"Capito Amrica". Qual no foi minha surpresa... l vem ele: "Muito 
bem, sente e assista". "No. Eu vim treinar!"; "Hoje voc assiste". Fiquei 
assistindo aula por um ms, ele no me deixava participar. Depois, 
minha forma de participar foi guardando as coisas usadas em aula. 
Dando uma varridinha na sala. J fazia dois meses que eu estava 
esperando para iniciar meu aprendizado no estilo da Serpente. Mas 
finalmente chegou a hora, e comecei. Na Irmandade j tinham me 
avisado que o conhecimento adquirido nas tcnicas do estilo da Serpente 
seria muito benfico para mim, seria um Kung Fu do qual Lcifer se 
agradaria mais do que os outros anteriores. (Leia Filho do Fogo). No 
entanto, Mestre Zhy acabou no ficando muito tempo na ADINK. Passou 
a dar aulas no bairro da Liberdade, para um grupo extremamente seleto. 
Fui aceito neste grupo. O estilo da Serpente tem seis estgios. Eu 
cheguei ao quarto estgio, um grau bastante avanado. Aqui no Brasil, 
naquela poca, o aluno mais antigo do Mestre Zhy estava no quinto 
estgio. At mesmo Frank ficou para trs, estava no terceiro estgio 
quando eu j tinha passado para o quarto.
 Que legal, Nen!
 Mas a, o pior... um pouco antes da minha converso ao 
Cristianismo Mestre Zhy expulsou-me da academia.
 Nossa! Mas por qu?
 Aquele meu amigo Frank tinha me mostrado um movimento 
lindo com a lana, mas no me ensinou como fazer. Disse que no podia 
me ensinar, que era o Zhy que ia fazer isso, um aluno no podia ensinar 
a outro aluno, seno era problema na certa. Alm disso... j por vrias 
vezes Mestre Zhy tinha me advertido para no usar a lana! Mas, juro, eu 
nem dormia mais pensando em como fazer aquele lindo movimento. Da, 
numa hora em que ele no estava olhando, peguei a lana para tentar 
imitar. Toda hora dava um jeitinho de chegar antes do Zhy na academia 
s para pegar aquela arma. No comeo ele s me dava umas olhadas 
tortas, mas como eu insistisse, ento me advertiu verbalmente. 
Reclamei: "Pxa, eu s estou querendo treinar esse movimento!"  Que 
teimoso...
 Pois . Mestre Zhy deixou claro que no queria ser contestado. 
Mas eu continuei treinando escondido dele, da consegui a proeza e 
aprendi sozinho aquele movimento! Um dia, to feliz estava porque havia 
conseguido, que rodava a lana para cima e para baixo, sozinho no 
salo, depois que os alunos tinham sado e a academia estava vazia. De 
repente... oh, azar! Na minha empolgao acabei deixando a lana voar 
bem em cima do altar, e derrubei a fotografia do venervel pai do Mestre 
Zhy! O porta-retrato quebrou e aquilo era algo inominvel! Senti meu 
sangue gelar e corri para recolher os cacos antes que algum 
aparecesse. Mas no deu tempo, enquanto tentava encobrir a baguna 
ouvi os passos do Mestre Zhy. Levantei com a lana debaixo do brao e 
os cacos na mo. Na pressa da agitao ainda tropecei e acabei caindo 
para trs, um vexame! A ponta da lana espetou e furou o saco de 
pancada, outro acidente que no podia ter acontecido em hiptese 
nenhuma!
 Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah!!!!
 Em suma... Mestre Zhy perdeu a compostura ao ver a foto do 
seu pai no cho e o altar desarrumado. Expulsou-me aos berros, 
acusando-me de ter desonrado a memria do seu pai. Sa de l chocado, 
sem ter tempo de dizer nem uma palavra, explicar nada, muito menos 
implorar clemncia. Acabei ficando uns meses sem treinar, mais logo eu 
me converti. Ento esse acabou sendo um detalhe de menor 
importncia.
 Que histria! Ser que ele vai te aceitar de novo agora?
 Vou tentar, n?
Eduardo foi atrs e acabou sendo aceito facilmente, pulou uma fila 
de espera enorme, passou na frente de todos. Depois de ter feito um 
teste prtico. Acho que o tal mestre Zhy realmente gostava dele!
Era hora de entrar em forma de novo! Eduardo estava felicssimo e 
eu tambm. Estvamos caminhando no rumo certo!
A nica chatice  que eu nunca podia ver os treinos, como 
gostaria. A Academia no era aberta ao pblico. Apenas uma vez por 
ms, se fosse avisado antes e recebssemos permisso, algumas 
pessoas podiam entrar para ver. Mas nesses dias, conforme Eduardo 
comentou, nunca se treinava nada de importante. Nada de tcnicas 
avanadas. Nada de muitas acrobacias.
Fui assistir umas duas vezes, louca de curiosidade. O lugar era 
muito diferente, tinha sempre uma musiquinha chinesa de pano de fundo, 
a luminosidade no era das melhores. Havia instrumentos engraados 
espalhados por todo o recinto, coisas que os guerreiros usavam para 
treinar desde os primrdios da Arte Marcial. Havia um altar que ficava l 
na frente, cheio de coisas.
E eu mantinha os olhos bem abertos para no perder nada.
Havia duas ou trs moas apenas, mas que eram boas atletas, 
pelo que pude perceber. E para falar a verdade, todo mundo ali era bom 
no que fazia. Parecia um mundo  parte. Para mim foi bem divertido e o 
tempo passou logo.
Num desses dias, eles treinaram um pouco da tcnica de Chikow, 
achei esquisitssimo! (Leia Filho do Fogo). Uma ou outra pessoa parecia 
estar em transe, pareciam manipular uma energia qualquer. Ela parecia 
estar ali, no ar, a volta deles, plenamente palpvel!
Esquisito!...
E embora algo muito no ntimo nos alertasse sobre aquilo, no foi 
nada a que dssemos muito ouvido. Deus j estava nos sinalizando 
alguma coisa. Uma espcie de sinal vermelho. Mas no paramos para 
ouvir, muito menos para obedecer. Se Eduardo largasse o Kung Fu, que 
seria dos nossos sonhos?!? Deus no podia querer isso.....
* * * *
Embora Eduardo continuasse praticando Kung Fu com seriedade, 
levando em conta nossos planos futuros... d para acreditar que eu no 
consegui levar adiante o curso de Medicina Esportiva, apesar do 
entusiasmo com a possibilidade da Academia? Nem eu mesma me 
reconhecia! Da Acupuntura j tinha desistido. E mais ou menos no meio 
do ano o de Medicina Esportiva, mesmo sendo muito legal, tambm me 
desinteressou.
Hoje compreendo perfeitamente o que aconteceu. O curso era 
dividido em vrios mdulos, cada mdulo acontecia em um departamento 
diferente da Faculdade. Um dos blocos, durante um ms, aconteceria 
justamente num departamento do Hospital que eu no conseguia entrar. 
Pelo menos, no naquele momento.
Naquele lugar meu pai tinha passado os seus ltimos dias, tinha 
feito os seus ltimos exames. Ali ele tinha estado na vspera da sua 
morte. Eu no tinha foras em mim mesma para entrar naquele local, 
quanto mais durante um ms inteiro.
Na poca inventei mil desculpas para mim mesma, no fundo eu 
sabia qual era o verdadeiro motivo. Mas no importava, eu no queria 
entrar l. No queria, no conseguiria! Aquilo me travou completamente.
Logo depois do falecimento do meu pai, eu sonhava todas as 
noites com o Mdico que o atendera naquela semana. Que no fizera um 
diagnstico preciso, sei l!
Aquilo foi um tormento to grande para mim, e os sonhos se 
repetiram tanto, que minha Psicloga orientou-me a ir at o Hospital. 
Falar com ele. Este episdio tinha acontecido alguns meses antes do 
comeo do curso, quase um ano depois da morte dele.
Hesitei, hesitei. Mas fui. Primeiro atrs do pronturio. Encontrei, 
mas no a informao que eu queria. Achei at estranho porque mais de 
uma vez eu tinha visto o pronturio do meu pai. Finalmente criei coragem 
para procurar o tal do Mdico. Fui at meio rude, chorei, perguntei por 
que ele no tinha pedido pelo menos um Raio X de trax diante daquele 
quadro.
Foi um mau pedao.....a explicao dele  o que menos importa, 
no mudaria as coisas... mas depois disso pelo menos eu deixei de 
sonhar com o Mdico.
Por causa de tudo isso eu no queria entrar naquele prdio. A 
possibilidade de ver aquele Mdico, de ver pacientes com problemas 
semelhantes......... impossvel!
E larguei o curso.
Na primeira semana o Coordenador me procurou, pediu que eu 
fosse conversar com ele. Eu praticamente no tinha faltas, certamente 
ele me convenceria a continuar. Por isso no fui, ignorei completamente. 
Larguei tudo outra vez, pouco depois do meio do ano.
As coisas somente pioraram. Eu estava de novo na estaca zero!!! 
Todo o meu esforo dava em nada. Novamente vieram as cobranas 
porque agora estava novamente em casa, sem fazer nada. Eu ainda no 
estava bem, no estava bem mesmo! Continuava com meus tratamentos 
de sade, tomando medicao, dormindo muito mal.
Nunca sonhava nada bom. Freqentemente meu pai estava nos 
meus sonhos, mas sempre brigando, ele estava sempre contrariado 
comigo. Acordava com uma sensao horrvel no peito. Estes sonhos 
foram assim durante muito tempo. Muito tempo.
Naquele ano, meu aniversrio passou em brancas nuvens, com 
todos preocupados com o concerto do Marco, que seria no mesmo dia. 
Minha me saiu logo cedo, e estava tambm brigada comigo, pra variar. 
Eu fiquei fechada no meu quarto a maior parte do dia, at que Eduardo 
chegasse do servio.
Me encontrou chorando e muito deprimida naquele dia de muita 
descompensao. Ele foi o meu consolo, o nico que conseguiu me 
animar. E  noite, quando fomos todos para o concerto, eu j estava um 
pouco melhor. No fim da apresentao Marco dedicou-me a ltima 
msica.
Haveria um coquetel depois. Era um clube muito chique de So 
Paulo e aqueles concertos haviam chegado em boa hora. Duas moas 
estrangeiras tinham vindo com Marco para acompanh-lo nos concertos. 
Eu me esforava muito para conviver, mas no era fcil para mim. 
Mesmo porque durante todo aquele ano uma de minhas primas do 
interior morou em casa tambm. Estava fazendo um curso e precisava 
ficar em So Paulo.
Isso queria dizer que a casa estava cheia.
Qualquer problema, qualquer situao desagradvel em famlia e 
quase sempre eu tinha que estar envolvida. Ou melhor: tinha que ficar 
exposta! Eu estava chata, ningum tinha obrigao de ser paciente 
comigo. Por isso s queria ficar sozinha. Era melhor assim, eu no me 
sentia compreendida, antes me sentia julgada.
Apesar de no querer me expor, no tinha onde ficar! O que mais 
me incomodava era o fato de que todo mundo estava ali, presenciando 
aquela situao ruim. O perodo em que larguei o curso coincidiu 
exatamente com o momento em que a casa estava mais lotada. Era 
horrvel esbarrar com pessoas estranhas o tempo todo!
Foram perodos de muita dor e solido naquele ano. Excetuando o 
companheirismo de Eduardo e os encontros com Mayra, no suportaria 
aquele perodo to sombrio e to incerto, de tantas cobranas e tantas 
desavenas. A Terapia tambm ajudava. Mas no fazia milagres, claro!
Naquele dia do meu 27 aniversrio aproveitei para tomar outro 
belssimo porre. No coquetel depois do concerto, imprudentemente eles 
serviram excesso de bebidas alcolicas com muito pouco alimento 
slido. Eu fui bebendo, misturei champagne com vinho branco e com 
whiskey. Nunca tinha tomado whiskey, mas rindo e rindo com Eduardo e 
minha prima (que tambm enxugava), nem me dei conta de que era 
melhor reduzir a dose.
Aquela risada compulsiva tinha um indescritvel poder relaxante!!
Quase que o vexame foi ali mesmo. At a hora de sairmos no 
tnhamos feito nada grave, embora minha prima bebesse bastante 
tambm. Mas quando entramos no carro, capotei no banco de trs e 
comecei logo a sentir aquele forte enjo.
Tentei por toda lei controlar-me ao mximo. Entrei em casa 
sentindo o estmago virar e nem deu para chegar at o meu destino: o 
banheiro. Vomitei foi ali mesmo, na sala, e Eduardo e minha me tiveram 
que cuidar da sujeira enquanto eu caa que nem morta na cama.
Tinha virado hbito. Sempre que eu podia, exagerava mesmo. Na 
semana seguinte Mayra tinha acertado de fazer uma festinha danante 
no salo de festas da casa dela.
Mayra inaugurou aquele moda na Igreja, e fizemos vrios bailinhos 
gostosos em sua casa com o pessoal da Mocidade. Mayra era louca para 
danar, assim como eu e mais alguns colegas. Dentre estes, a maioria 
dos nossos colegas do grupo de Teatro.
Eu tinha feito dana de salo durante um ano, antes de conhecer 
Eduardo, mas depois tive que parar por motivo de fora maior. Eduardo 
no gostava! Mas ali, nas nossas festinhas, ele no se incomodava, 
inclusive participava.
Nossas festas eram super relaxantes! A gente danava sem parar, 
o ambiente era familiar e acolhedor, todo mundo conhecia todo mundo. 
Cada um trazia um prato de qualquer coisa, alguns refrigerantes e gua, 
e pronto! A noite estava completa! Ali eu podia at mesmo danar com 
alguns amigos do Teatro, sozinha, em grupo.
E era uma excelente vlvula de escape para todo mundo. Todo 
mundo concordava que no tinha nada melhor do que gastar energia 
danando! L pelas tantas tinha quem acabasse tirando o sapato para 
poder danar at no ter mais perna para danar. Eu era uma das 
adeptas desse mtodo.
Combinamos de fazer mais uma, com a desculpa do meu 
aniversrio, apesar de que j tinha passado. Mas a verdade  que nesse 
dia cada um acabou trazendo mais algum. Acabou tendo mais gente de 
fora do que de dentro. Minha prima que estava morando em casa, que 
no era crente, foi junto na festa. Levou sua irm com o namorado 
tambm. Eles trouxeram escondido algumas bebidas. Foi o suficiente 
para beber bastante!
Nem me importava muito. Desde que me ajudasse a sair da 
realidade por algumas horas.
* * * *
No segundo semestre, nosso plano de ir atrs das grandes 
Academias tinha que se concretizar. No estava no nosso destino... mas 
a gente no sabia disso. Mandamos os currculos esperanosos. No 
levou muito tempo e logo comearam a chegar as respostas.
No comeo nem acreditamos que aquilo poderia ser verdade!
Os resultados estavam sendo muito positivos, os coordenadores 
de Esportes Marciais das Academias logo entravam em contato com 
Eduardo, interessados em marcar entrevistas. Ele vinha cheio de 
notcias:
 Olha s, Gatinha, adivinhe com quem falei hoje! Boas notcias!
 Conta a, conta a!
 Me ligaram daquela enorme Academia, a Mega Athletic Center, 
e marcaram uma entrevista. Esto bastante interessados.
 Oba! No te disse que voc tem tudo para dar certo nessa 
rea?! Fomos juntos  entrevista. Era dentro de um Shopping. Enquanto 
ele
conversava, eu fiquei xeretando pela Academia. Era tudo enorme, 
nunca tinha entrado naqueles lugares onde tudo  de ltima gerao, 
tudo elitizado, tudo super bem montado, as salas lindas, cheias de 
espelhos, de cores. Era realmente de babar, pra quem gosta disso  um 
prato cheio!
Eduardo saiu da entrevista com uma cara tima, fomos tomar um 
caf para conversarmos. Eu estava exultante.
 Adivinha s de quanto  o salrio!
Nem dava para acreditar! Eduardo foi falando, contando os 
benefcios. Era de fato uma tima oportunidade.
 Estou praticamente contratado. Gostaram muito de mim, do 
meu currculo e s vo esperar um dos coordenadores voltar de frias. 
Ento fechamos o contrato. Adoraram a idia do curso terico! Encheram 
a bola, que meu perfil  excelente, minha experincia  excelente, 
enfim... sou tudo o que eles estavam precisando para lidar com o pblico 
que freqenta essa Academia. Disseram que  difcil achar um Professor 
de Arte Marcial que possa trabalhar aqui porque o esporte em si sempre 
foi coisa que atrai outra classe de pessoas! Mas que eu sou excelente... 
etc. .. etc. ...!
Eu no cabia em mim de contente. Aquele era um futuro perfeito 
para ns dois!
Logo outras entrevistas aconteceram. Numa das Academias, a 
Thriatlon, iam comear imediatamente a divulgao do novo curso, 
chegaram a pedir fotos de Eduardo para fazer cartazes, e marcaram uma 
apresentao. Tiramos montanhas de fotos artsticas, lindas! Na outra, a 
melhor de todas, aquela que ns estvamos realmente cobiando com 
todas as foras, a Coliseum, o coordenador afirmou com todas as letras:
 Considere-se professor desta Academia, pode at vir aqui 
treinar todos os dias, se quiser. Voc j tem entrada livre! Estamos 
apenas terminando a reforma de uma das alas novas, vamos ter ainda 
mais espao, coisa de um ms mais ou menos. Ento vamos abrir o seu 
curso na ala nova.
Foi super simptico e at mesmo levou Eduardo para conhecer a 
sala que seria dele. Estava realmente quase pronta. A Academia era o 
sonho de todo Professor, e de todo aluno. Um verdadeiro show! Tinha de 
tudo, e tudo era mega! Ficamos esperando para comemorar de verdade 
quando o contrato fosse efetivado! Fazia tempo que a gente no se 
sentia to animado com alguma coisa. Eduardo j estava pleiteando um 
novo emprego h algum tempo, escolhendo com calma, sem pressa nem 
precipitao. Quando sasse do cargo de Supervisor de Produto queria 
ter o p no cho e a cabea fria, consciente de haver ganhado na 
mudana.
Mas diante da nossa quase absoluta certeza de que ele seria 
aceito como professor da Coliseum, Eduardo fez um acordo na Empresa. 
Foi mandado embora sem problemas, o seu chefe at lamentou a 
deciso. E Eduardo recebeu todos os seus direitos contratuais.
Da ficamos  espera das confirmaes. Enquanto isso, Eduardo 
continuou treinando com mestre Zhy trs vezes por semana  noite, e 
dando aulas na pequena academia da qual j fazia parte e aonde eu era 
sua aluna. Duas vezes por semana. Foi a que aconteceu uma coisa 
estranha...
Todas as Academias, antes to interessadas e j praticamente 
fechando os contratos, comearam subitamente a dar pra trs.
O coordenador da Mega Athletic Center que voltou de frias no 
se empolgou em contratar mais um Professor, embora os demais 
tivessem garantido que ele iria adorar. As fotos e cartazes, a 
apresentao marcada na Thriatlon... foi tudo cancelado do nada. E a tal 
reforma da Coliseum nunca mais que acabava.
No entanto, como o responsvel da Coliseum continuava 
incentivando Eduardo, sempre reafirmando as mesmas coisas cada vez 
que ele telefonava, continuamos na expectativa. Para todos os efeitos, 
Eduardo logo estaria ativo na Academia, o coordenador chegou mesmo a 
apresent-lo a outros professores...  Este  o nosso futuro colega, o 
professor Eduardo! Parecia muito estranho que, de repente, tudo desse 
errado daquela maneira. No podia ser que fosse acontecer a mesma 
coisa com a Coliseum!
Diante da incerteza, passamos a orar pedindo a Deus que ele 
confirmasse a vaga. E que, se no fosse propsito Dele, que fechasse 
suas portas de vez. Claro que esse no era o nosso desejo, mas alguma 
coisa parecia estar errada. Que horrvel que era a indeciso! No 
podamos esperar a vida toda!
Embora a resciso contratual e o salrio da academia onde 
Eduardo dava aulas suprissem nossas necessidades, aquele dinheiro 
extra no ia durar para sempre. Apenas o salrio da academia no seria 
suficiente porque Eduardo ganhava por aluno, no tinha salrio fixo como 
acontecia nas grandes Academias.
No queramos desistir da idia. A nica possibilidade que sobrava 
seria investir um pouco mais em marketing. Ou seja, organizamos uma 
apresentao.
Isso talvez trouxesse mais alunos ali na academia de bairro. Assim 
ganharamos tempo esperando pela resposta da Coliseum e talvez 
Eduardo no precisasse procurar servio em outra Empresa.
No ficamos com medo do trabalho duro, nem de tentar uma coisa 
nova. Tanto Eduardo quanto eu tnhamos coragem suficiente para tentar 
o inusitado! Ento fomos atrs, fizemos a divulgao por ns mesmos, 
passamos vrios dias distribuindo panfletos nos faris e nas portas das 
escolas do bairro, no Shopping, nos arredores. Procurando arrebanhar 
gente para a tal apresentao.
Passamos alguns dias nessa tarefa inslita, debaixo de sol e at 
de chuva. Se a gente no corresse atrs do que queria, ningum faria 
isso por ns!...
Enquanto isso, a gente ia orando.
No dia da apresentao, apesar dos nossos esforos, no tinha 
praticamente ningum. Eduardo saiu-se bem, mas incrivelmente teve um 
mal-estar no meio da coisa, do nada. Algo totalmente incomum. Sentiu 
vertigens, vista escura, taquicardia e falta de ar.
No final das contas, todo aquele esforo foi em vo. Frustrados, 
comeamos a achar que no ia ter outro jeito a no ser Eduardo voltar a 
trabalhar normalmente numa Empresa. Ele no tinha nada contra o 
trabalho na rea Financeira, mas  lgico que ele estaria muito mais feliz 
trabalhando com o Kung Fu.
Ser que o diabo estava impedindo Eduardo de fazer o que ele 
gostava, de ter um bom emprego? No nosso ntimo  claro que existia 
essa possibilidade, o diabo sempre quer atrapalhar a vida dos Cristos. 
Mas l no fundo comeamos a imaginar que talvez fosse Deus que no 
quisesse esse caminho para ele. Para ns.
Mesmo assim, ns ainda no estvamos dispostos a levar isso 
muito a srio.
A Coliseum acabou dando uma resposta tola. De repente 
comearam a achar que o curso de Eduardo iria conflitar com o curso de 
Kung Fu que j existia. Mesmo tendo acabado a reforma, telefonaram e 
optaram por no contrat-lo de imediato. Uma maneira polida de recusar!
Foi realmente uma grande decepo! Aquela comemorao que 
ns queramos fazer nunca aconteceu. A apostila que eu desenvolvi no 
estava servindo para nada. Tudo parecia atravancado! Que frustrao 
enorme! Nada dava certo!
No poderamos continuar assim, de forma que Eduardo foi 
novamente em busca de emprego. E continuou dando aulas naquela 
academiazinha, no deixava de ser um bico para ganhar um pouco mais.
Naquela poca ele no tinha nenhuma dificuldade em empregar-
se, apesar de no ter o curso superior. Ele me explicava o milagre:
 Eu aprendi na prtica, no h problema quanto a isso! Mas 
acontece que, para participar de qualquer processo de seleo, preciso 
apresentar o diploma. Para que me deixem pelo menos concorrer  vaga, 
preciso do diploma do curso superior.
  Sim, j sei dessa histria.  eu sabia de uma parte dos 
mtodos pouco convencionais que Eduardo teve para ascender 
profissionalmente. (Leia Filho do Fogo).
 E voc vai usar o mesmo recurso de sempre?   perguntei.
 Sim, claro, n? Afinal, trata-se apenas de um pedao de papel. 
O importante  que eu saiba o que  preciso saber.
Concordei.
Ns sabamos que aquilo era algo delicado. Nos perguntvamos 
se agradava a Deus. No entanto, o que fazer?! Estas eram as regras. A 
gente tinha que danar segundo as regras, e no havia nenhuma chance 
de Eduardo conseguir um cargo como o que ele estava acostumado... 
sem ter feito Faculdade.
Eduardo tinha como comprovar o curso que ele nunca fizera. 
Wang  seu antigo amigo chins  tinha podido ajud-lo nisso, o que 
fizera de bom grado. Os dois falsificaram vrios diplomas, de vrios 
cursos. Era o que Eduardo precisava para apresentar nas entrevistas.
Muitas coisas seriam confrontadas nas nossas vidas. Mas ainda 
no tinha chegado o tempo! Estava prximo, ns no sabamos, mas 
estava vindo. Ns teramos que deixar de lado muita coisa.
Como eu j disse, embora fssemos Cristos, muita coisa em 
nossas vidas ainda no tinha sido confrontada. Enquanto isso no 
acontecesse de forma mais impactante, ns no poderamos discernir 
muito bem como agia e reagia o Mundo Espiritual  nossa volta.
Eduardo havia contado bastante sobre a tal da Seita, mas nada 
muito profundo, ele mesmo tinha receio de tocar no assunto. Longe de 
ns viver em funo daquilo, a gente tinha mais o que fazer. Como cuidar 
da vida, pensar no futuro, fazer planos. No paramos para pensar no que 
Deus queria do futuro. Ou o que o diabo estava inventando.
Eu sabia daquele tal decreto, por exemplo, aquela maldio  de 
que Eduardo no completaria 33 anos de idade. Embora aquilo 
incomodasse, procurava pensar como todos os Cristos pensam:
"Mas Deus  mais Poderoso!"
Realmente Deus  mais Poderoso. Mas aquela era uma atitude 
simplista e, mais ainda... conformista! Um tanto triunfalista... em outras 
palavras: errada!
Porque nos isenta de toda a responsabilidade. Dizemos "Deus  
quem faz" e, indiretamente, nos acomodamos. O conhecimento da letra, 
da Palavra Logos, no nos traz revelao  necessariamente  de 
quem  o Criador. Ouvir falar Dele no  o mesmo que andar com Ele.
Para que isso acontea, para que a gente saia da letra para a 
Vida,  preciso acontecer alguma coisa! Quem transforma  o Esprito 
Santo, claro, mas muitas vezes as ferramentas do processo so as mais 
diferentes possveis. At mesmo o inimigo serve para isso.
Conosco no ia ser diferente. Estava chegando o tempo. Teria que 
haver algo mais que se tornasse mola propulsora da transformao. A 
mola propulsora seria aquele rio, caudaloso, de guas barrentas, com 
corredeiras fortes que arrastam tudo que vem pela frente. Um rio que 
estava nascendo no corao da Irmandade, e nos abalroaria. Dele 
jorrariam uma srie de eventos intempestivos que mudariam nossas 
vidas.
Essa tormenta veio da Irmandade. Sim. Mas o processo como um 
todo nasceu no corao de Deus! Era exatamente isso que ns no 
tnhamos a menor idia naquela poca. Ento... como haveramos de 
aprender? Ou melhor, o que havia para ser aprendido? Como aprender 
aquilo que a gente no sabe que tem que aprender?
O Cristianismo que eu conhecia era aquele, no havia outro! Meu 
corao sempre esteve disposto a agradar a Deus. Nem sempre 
conseguia fazer certo, s que eu queria fazer certo! Queria muito, 
sinceramente.
Mas naquela vida que levava com Deus havia uma zona nebulosa, 
cheia de aspectos pouco compreendidos. Eu sabia que havia um algo 
mais. Algo mais parecido com a vida abundante mencionada na Palavra. 
Mas e a? A gente quase nunca via quem experimentasse isso de fato! 
Parecia ser algo para uns poucos privilegiados, os grandes Pregadores, 
os Profetas de Deus... no era em todo lugar que se podia encontrar 
pessoas que viveram grandes coisas com o Senhor.
No fazia parte do dia-a-dia dos reles mortais!
Alm disso, por mais que antigamente eu tivesse pensado num 
futuro como Missionria, nada acontecera em minha vida que trouxesse 
direo neste sentido. E Eduardo, decididamente, no era a pessoa mais 
disposta a encarar algo semelhante.
Que fazer?.....
Nada melhor do que ir levando a nossa vidinha, fazendo os nossos 
planos. No havia por que mudar.
Tinha voltado a escrever o livro da vida de Eduardo, mas em ritmo 
de cruzeiro, dedicando-me principalmente ao comeo, isto , s 
experincias com a "29". Depois passava meses sem escrever nada. 
No acreditava que aquilo fosse virar um livro de verdade, um dia. Era 
melhor esquecer tudo. Nosso futuro era montar uma Academia, essa era 
a verdade. E ponto final!
O melhor era cuidar da vida!!
Esse era o meu modo de pensar. amos viver o melhor possvel 
como Cristos, mas ningum tinha que ficar em funo daquele passado 
vivido na Seita. Naquela poca, embora eu no soubesse, Eduardo 
pensava diferente. Ele achava que no viveria. Que realmente no 
escaparia. Que, uma vez chegado o seu tempo, nada poderia livr-lo da 
vingana de Lcifer.                                                                                                                                             
                                            
* * * *
Eduardo no demorou a estar muito bem empregado novamente. 
Numa conhecida Multinacional, como Analista Econmico-Financeiro. 
Um belo emprego!
Eu observava aquele bom desempenho e, embora no me 
agradasse o diploma falso, orgulhava-me de Eduardo por sua inteligncia 
e versatilidade. O diploma era falso, mas a sua inteligncia, real. 
Concorreu com mais de oitenta candidatos e passou por uma peneira 
fina bastante difcil. Fez dois testes muito especficos, alm das 
entrevistas. Todos os outros candidatos tinham a Faculdade, alguns at 
mesmo duas Faculdades.
Mas foi Eduardo que ocupou uma das trs vagas disponveis. A 
outra foi tambm preenchida, mas a terceira ficou em aberto porque no 
encontraram algum  altura. Aquela era uma Empresa reconhecida por 
ser criteriosa na escolha dos funcionrios.
No dia em que Eduardo tinha a ltima entrevista, fui esper-lo na 
sada. Aquele dia seria decisivo. Ele veio ao meu encontro satisfeito por 
poder dar-me a boa notcia:
 Tive hoje a entrevista com aquele diretor todo-poderoso. Ele me 
elogiou bastante... fui bem! E estou empregado. Eu fiquei muito feliz, 
orgulhosa dele.
 Pxa, mas que bom, Nen! A gente tem que comemorar! 
Vamos comemorar?
 Pode ser, vamos jantar no Viena?! Durante o caminho fomos 
conversando.
 Realmente voc sabe mesmo, hein? Sabe, tenho que te 
confessar... eu no acreditava muito nessa sua histria, no! De ter 
aprendido sem estudar. Mas agora tive que acreditar, vi com meus olhos. 
Voc conseguiu um emprego muito bom! Se no soubesse realmente, 
no ia ter a mnima chance.
 Sem estudar, em termos... eu estudei, s que de maneira pouco 
convencional! O diretor disse que eu sou muito promissor, tenho futuro... 
 Eduardo at ficou emocionado, quase derrubou uma lgrima. No era 
sempre que as pessoas viam algum valor nele.
 Coitadinho!...  falei dando uns tapinhas no seu ombro 
enquanto dirigia, procurando brincar.  Mas no fica assim, isso  timo, 
... t vendo como voc  uma pessoa de valor?! Uma pessoa especial, 
inteligente, capaz? Viu?
 Pois , "M", pois ! Que bom!
E assim Eduardo comeou a trabalhar ali. A segunda metade do 
segundo semestre daquele ano j tinha comeado. Quando saiu o 
primeiro salrio dele, resolvemos comemorar de novo e fazer um 
programa diferente.
Eu gostava muito de Teatro e de dana, isso no  novidade para 
ningum. Ento me interessei por uma pea associada com dana 
flamenca. No era muito barato, mas ficaria poucos dias em cartaz. 
Despertou-me muito o interesse. Chamava-se "O Amor Bruxo".
Combinamos com mais trs ou quatro pessoas da Igreja, 
compramos os ingressos com antecedncia e arrumamos um timo 
lugar.
Foi divertido, e a apresentao, maravilhosa. Eu gostei bastante!
Mas nesse dia comecei a perceber melhor uma faceta de Eduardo 
que at ento eu no conhecia. No seria bem uma faceta, talvez no 
seja esse o termo, era antes uma deficincia... um problema!
Eu sabia que o problema existia, mas no tinha visto necessidade 
de parar pra pensar mais tempo no assunto. No parecia ser um 
problema muito importante. Mas naquela ocasio comecei a imaginar 
que talvez fosse apenas a ponta de um iceberg...
Naquela noite, samos do Teatro e eu o deixei em casa antes de ir 
para a minha. Como de costume. Liguei pra ele em seguida, avisei que 
tinha chegado bem, demos boa noite um ao outro e fomos dormir.
"Dormir", modo de dizer! Desde que deixara o curso de Medicina 
Esportiva que novamente quase inverti o dia pela noite. Eu gostava muito 
de ficar acordada at de madrugada, at trs, quatro horas da manh. E 
acordava tardssimo no outro dia.
No deixava de ser uma espcie de fuga, porque no meu ntimo eu 
pensava: "Para que acordar cedo? Eu no tenho nada para fazer... vou 
ficar olhando para as paredes o dia todo!"
At ento, tinha estado ocupada com a apostila de Kung Fu. Mas 
agora j terminara aquele trabalho que me custou algumas semanas. O 
livro da histria de Eduardo eu simplesmente no escrevia mais, tinha 
parado de novo.
Ento acordava tarde mesmo, j ia direto para o almoo. Enrolava 
um pouco de tarde, via TV. No conseguia fazer nada de produtivo, no 
tinha nenhuma vontade. A tomava banho e ia ao encontro de Eduardo 
no final da tarde. Assim foram os meus dias em todo o restante daquele 
ano to incerto, naqueles trs meses que se seguiram  entrada de 
Eduardo no emprego.
No dia seguinte  apresentao de Flamenco, liguei para Eduardo 
 tarde, para dar um "oi", como sempre. Fiz a pergunta costumeira:
 Voc descansou bem, Nen? Dormiu bem? E a resposta veio 
meio cansada, meio evasiva:
 Ah! Mais ou menos, no dormi muito bem, no...
Eu estava sempre preocupada com o descanso de Eduardo, com 
sua sade, de forma que fiz a pergunta bvia:
 Pxa, mas voc estava to cansado ontem... o que foi que 
aconteceu?
 Sei l.  comeou ele.  Acho que tive uma insnia... Mas o 
tom de voz dele no me convenceu.
 Insnia?! V! Voc nunca tem insnia! O que aconteceu, 
Eduardo? Seus irmos fizeram barulho, ou a sua me?
Insisti um pouco ainda, at que finalmente veio a verdadeira 
resposta.
 E que aquele espetculo de ontem... algumas partes me 
lembraram um pouco dos Rituais.
 Da Seita?
  ! Sabe, aquela parte quando teve toda aquela fumaa, aquela 
luz avermelhada. No me causou uma boa sensao... e depois acabei 
sonhando coisas ruins.
 Mas que tipo de coisas ruins, Nen? Pxa vida... j no  a 
primeira vez que acontece, n?  eu estava condoda e preocupada ao 
mesmo tempo.
 Volta e meia eu acabo sonhando. s vezes alguma coisa do 
dia-a-dia me desperta a lembrana, e depois... sabe como  que  o 
subconsciente, o inconsciente...
Eu queria poder ajud-lo. No era bom que ele vivesse daquele 
jeito, atormentado por fantasmas do passado.
 Tudo aquilo foi muito traumtico, n, Nen? Mas olha... deve ter 
uma maneira de melhorar isso. No digo que uma Terapia, porque voc 
no pode sair por a contando essas coisas para um terapeuta... mas 
quem sabe uma Cura Interior? Voc j ouviu falar sobre isso?
 Cura Interior?! O que  isso?
 Bom, a nossa Igreja no tem essa viso, mas na minha antiga 
Igreja eles ensinavam um pouco. Eu aprendi l. Atravs da orao, 
confessando pecados antigos, renunciando envolvimentos com coisas do 
diabo, voc obtm uma cura que, de outra forma, no aconteceria! 
Entende?
 Mais ou menos. Nunca ouvi falar disso.
 No so todas as Igrejas que tm esse conhecimento. Mas 
talvez a gente pudesse tentar ir atrs. Voc no pode viver assim, na pior 
das hipteses a nica coisa que pode acontecer  no dar certo. Mas 
temos que tentar buscar uma soluo, voc no pode carregar esse peso 
todo com voc. Deus pode te curar! Ele no quer que voc viva assim!
Eduardo no parecia muito convencido, e murmurou meio 
contrariado:
 Mas eu fiz de tudo pra esquecer o que aconteceu. Durante anos 
lutei comigo mesmo para simplesmente apagar da minha mente essa 
histria, esquecer que isso um dia existiu, que fez parte da minha vida. 
Lutei muito! E acho que consegui. No me lembro facilmente dessas 
coisas, s quando alguma coisa puxa o fio da meada...
 Ento, t vendo?  sinal de que ainda est tudo l.  eu 
procurava convenc-lo.  Sabe... isso que voc tem feito  uma fuga, eu 
compreendo que esse foi o melhor caminho at agora. Esquecer, 
simplesmente. Mas pense bem... voc no  uma pessoa 
"desmemoriada". Quer dizer, por mais esforo que faa pra esquecer, 
no vai esquecer de verdade. Vai somente fazer de conta que aquilo no 
est mais l. Mas por mais que voc se esforce, essas lembranas 
nunca vo te dar paz, porque no foram tratadas, entende? Cedo ou 
tarde voc vai acabar sendo influenciado por elas, se  que j no . 
Falar sobre isso talvez seja uma boa maneira de voc ser curado. 
Podemos pedir pra Deus trazer cura  sua alma! Para que voc fique 
livre desse tormento nas lembranas, desse peso... e ento, mais tarde 
quando voc estiver bem, elas vo acontecer naturalmente. Os seus 
sentimentos em relao s lembranas  que tero mudado. E no vo 
mais te causar mal!
Eu acreditava que aquilo poderia ser soluo de fato. Seno, 
nunca teria incentivado Eduardo a isso.
Ele parece que ficou pensativo, mesmo assim ainda tentou achar 
argumentos contra:
 Voc sabe que eu no posso falar sobre isso com qualquer um. 
 uma coisa muito sria. Vou falar com quem? Depois... sempre ouvi 
dizer que Cristo j me perdoou. Eu no preciso ficar falando sobre isso, 
Ele j no me perdoou?
 Claro que j te perdoou, voc  filho de Deus! Mas voc est 
colhendo conseqncias da sua vida pregressa. E Deus quer que voc 
esteja bem, que viva em paz. Como voc pode viver em paz tendo 
pesadelos, sonhando com Rituais, sendo incomodado por coisas at 
bobas no cotidiano? Um pouco de sangue, combinaes de cores, certas 
msicas... sabe o que tudo isso me mostra?
 Hum?
 Que por mais esforo que voc tenha feito, tudo isso est muito 
vivo a dentro. E voc precisa da libertao dessas coisas!
 Mas Cristo no pode me curar se eu pedir?
 Poder, pode. Mas acho que, de certa forma, nas nossas 
oraes ns sempre temos pedido por isso, no ? Voc j  convertido 
h vrios anos, j foi batizado, j confessou seus pecados, freqenta 
uma Igreja, procura levar uma vida reta, limpa, j foi muito transformado, 
j no  mais a mesma pessoa de antes... aparentemente... no est 
faltando nada, n?! Mas eu te conheo, eu sei que voc no est 
mentindo quando diz o quanto certas coisas tm o poder de te perturbar. 
No  sempre, mas acontece.
 E?
 No  mesmo?  isso que estou dizendo, talvez voc precise 
de mais alguma coisa. No seu caso, talvez seja preciso. L no texto de 
Tiago diz para que a gente "confesse os pecados uns aos outros, para 
sermos curados". Sinal que existem certos aspectos da nossa vida, 
certas prticas, certas influncias anteriores que necessitam de uma 
ao especial do Esprito de Deus para que a gente tenha a cura. Talvez 
voc tenha que confessar o seu pecado a algum... para receber essa 
cura.
Eduardo ficou de pensar melhor a respeito. E eu fiquei tambm 
com aquilo na cabea. Eu no saberia explicar porque aquele era o 
caminho certo, mas na minha cabea, era o certo!
Sim, eu conhecia e tinha ouvido falar de vrios Ministrios para os 
quais a palavra "Ministrao" j soava como heresia. Mas no era essa a 
minha viso, nem o que eu tinha aprendido at ento. Eu sabia que a 
quebra de vnculos e de 
maldies tinha sua importncia. Eu mesma j tinha passado por 
aquilo. Sentia que Eduardo precisava da mesma coisa.
Ficava a grande questo. Era preciso encontrar algum com 
capacidade de fazer isso, e fazer bem feito. Algum que tivesse um 
Ministrio srio naquela rea, que tivesse bastante experincia.
Deus precisava pr a Sua Mo naquela histria sem p nem 
cabea de Eduardo Eu sabia pouco, como falei antes ele nunca tinha 
nem sequer mencionado a palavra "Irmandade". Sempre se referia como 
sendo "a Seita", ou "a Church".
Por isso no tinha uma idia global de tudo o que acontecera com 
ele, apenas episdios isolados, conceitos isolados. Nunca tinha ouvido 
falar melhor sobre a intensidade de tudo aquilo, daquela vida estranha 
que ele tinha levado durante seis anos.
s vezes Eduardo tambm mencionava Marlon, mas nunca tinha 
dito nada sobre os outros. Comentava muito superficialmente sobre 
Thalya. E ia ficando por isso mesmo. Eduardo era evasivo o suficiente 
para parecer que falava bastante, mas sem entrar a fundo.
Mas de repente eu sentia no meu ntimo aquela necessidade: 
Eduardo precisava ser ministrado. Precisava!
E concordou em pedir uma sugesto ao Pastor da Igreja que 
minha me freqentava, que eu e Marco tambm tnhamos freqentado 
antigamente.
Nossa atual Igreja no tinha essa viso nessa rea. Eu e Eduardo 
sabamos disso. Eles tinham vises especiais de outras reas, por 
exemplo, a questo da assistncia social, da comunho entre os irmos. 
Esse era um ponto positivo e forte ali entre eles.
S que desde que Eduardo tinha em vo tentado conversar com o 
Pastor Neliton que nunca mais abriu a boca.
 Respeito muito os Pastores da nossa Igreja, eles me acolheram 
e procuraram fazer o melhor por mim dentro daquilo que julgaram 
necessrio. Dentro daquilo que eles conhecem! Mas eu sei que no tm 
viso dessa parte de Batalha Espiritual e desses negcios de 
Ministrao... alis, no comeo eu vim freqentar esta Igreja justamente 
por causa disso. Parecia ser um timo esconderijo. Embora a pregao 
fosse boa, eles nunca mencionavam o diabo, a luta, essas coisas. A 
"Church" nunca se incomodaria com uma Igreja assim. Portanto, era um 
timo lugar para me entrosar... jogar bola... conviver. Mas estaria 
escondido! O Culto era dinmico, alegre, agitado... eu gostava... e sabia 
que nunca iam me achar ali!
Fomos ento conversar com o Pastor titular da outra Igreja. Eu no 
achava que ele mesmo iria ministrar Eduardo, mas queria ouvir sua 
opinio. Queria ter o aval de algum para procurar outra pessoa que 
tinha em mente. No podia fazer nada s loucas, de forma nenhuma!
Assim foi. Eduardo j tinha conversado uma ou outra vez com o 
Pastor da Igreja de Mame, tnhamos estado l algumas vezes. Mas 
naquele dia ns fomos ao seu encontro com a pergunta nos lbios. 
Explicamos em poucas palavras que tipo de envolvimento Eduardo tivera 
no passado.
 E achamos que ele est precisando passar por uma 
Ministrao, ser libertos desses traumas, desse jugo... o que o senhor 
acha?
 Eu acho que  muito vlido!  respondeu ele de imediato e 
com seriedade.  Pelo que vocs esto dizendo, acho at que  
fundamental.
Era o que eu queria escutar. Realmente era o caminho, no 
importava o que pensavam os nossos prprios Pastores.
 Mas no sei se eu seria a pessoa ideal.  continuou ele, talvez 
pensando que fssemos lhe pedir aquilo.  Embora compartilhe da 
viso e da necessidade da Ministrao, tenho muito pouca experincia 
na rea. E pelo pouco que vocs esto falando, d para ver que foi um 
envolvimento muito pesado.
 O senhor tem razo!  continuei.  Se no for pra fazer bem 
feito, o melhor  nem mexer, no ?
Ele assentiu vrias vezes com a cabea, ainda sem dizer nada. 
Sem sugerir ningum. Ento perguntei:
 Olha... eu no conheo pessoalmente essa pessoa... mas j 
ouvi falar bastante dela. E queria sua opinio, a opinio de mais algum. 
Pensei em ir atrs da Grace.
O nome era familiar para a maioria dos Evanglicos, embora as 
opinies se dividissem muito a respeito dela. Havia quem fosse 
terminantemente a favor e quem fosse terminantemente contra.
 O que o senhor acha?!  indaguei sem mais rodeios. Ele no 
titubeou.
 Acho perfeito! Vocs devem mesmo procur-la. Talvez seja a 
pessoa ideal, e j que voc mesma teve essa direo...
 Bom... no d pra dizer que foi uma "direo", mas no 
consegui pensar em mais ningum.
De fato. Grace era um nome chave.
 Procurem a Grace. Procurem! Certamente vai ser bom para 
vocs.  concluiu o Pastor.
Samos de l com sentimentos ainda um pouco divididos. Eu 
estava decidida em ir atrs do Ministrio da Grace. Mas Eduardo estava 
um pouco confuso, um pouco temeroso sobre o que aconteceria se eu 
tivesse sucesso na minha empreitada.
 Voc tem certeza de que isso  mesmo necessrio?  falou ele 
demonstrando preocupao.  Eu estou bem! Pra que ficar mexendo 
nisso?
 Ah, Nen! Eu no tenho tanta certeza assim de que voc est 
bem. E eu quero que voc fique bem... tudo o que eu quero  isso! Voc 
acha que vou fazer alguma coisa para te prejudicar? Mas voc precisa 
contar essa histria pra algum nem que seja uma vez s.  preciso 
colocar tudo pra fora, Nen! Tenho certeza de que vai ser teraputico, vai 
fazer bem! Deixa eu tentar encontrar essa mulher, v! Se depois de 
conhec-la ela no te inspirar confiana, sempre  tempo de voltar atrs 
e procurar outra pessoa. No ?
Procurei falar com todo o carinho e boa vontade do mundo. 
Concordo que era uma deciso difcil e delicada para ele. Para ns dois, 
a bem da verdade, porque aquilo era um desconforto tambm para mim. 
Alm da responsabilidade, lgico, porque se no fosse a minha 
insistncia Eduardo nunca pensaria em desnudar-se assim.
 Edu... voc no tem que carregar esse peso sozinho. Est 
muito pesado pra voc, eu sei. Por mais que voc no fale a respeito, eu 
sei disso. Algumas atitudes, alguns "deslizes", por assim dizer, contam 
muito mais do que voc diz. E acho que  importante a gente procurar 
ajuda. No se preocupe. Vamos estar juntos nessa coisa toda! Eu vou 
estar junto com voc.
Ento ele concordou:
 T bom. Tenta encontrar essa tal de Grace. E a veremos!
* * * *
Eduardo Conta
Captulo 7
Eu pensei que Isabela no teria sucesso, e que no encontraria 
Grace. Por isso fiquei mais tranqilo. No entanto, no foi to difcil quanto 
pensei. Grace tinha alguns livros publicados e Isabela foi pelo caminho 
certo, ligou para a Editora, ficou sabendo a que Ministrio ela estava 
ligada. Grace era, antes de tudo, uma Missionria.
Da Isabela ligou para o Ministrio do qual ela fazia parte. Ali, 
rodando um pouco de pessoa em pessoa, logo conseguiu um nmero 
que, conforme lhe disseram, era da sua secretria. E ligou para tomar 
informaes.
De fato era da secretria da Grace.
Isabela logo estava de posse dos dados que precisvamos. Veio 
me contar, toda satisfeita.
  Ela me disse que, antes de passar pela Ministrao, a pessoa 
interessada tem que fazer um curso dirigido pela Grace. Dura um final de 
semana.
  Ah! Ento no tem jeito mesmo da gente marcar uma entrevista 
antes?
  No tem jeito. E assim que funciona, ela s ministra depois que 
as pessoas fazem o curso.
  Bom... e quando  que  o curso?
- Aqui em So Paulo no tem mais nenhum esse ano. Pra gente, o 
mais prximo  em Santo Andr. Em dezembro.
  Pxa... s em dezembro?  intimamente eu estava aliviado.
  S em dezembro. Os outros so completamente fora de mo, 
em cidades bem mais distantes.
  Me passa ento a data para anotar na agenda.
  Ela me deu os dias, vai ser no incio de dezembro. Ou seja, 
ainda tem bastante tempo.
Nada havia a fazer seno esperar.
Eu no liguei a mnima, pelo contrrio, pensei que tinha me livrado 
da boa. Marquei a data na agenda e tratei de esquecer delas. Mas 
estava era enganado que Isabela me deixasse comer broa.
A vida continuou rolando normalmente. Eu j estava adaptado no 
emprego, mas Isabela se estressava porque o fim do ano estava prximo 
e ela no tinha a mnima idia do que faria quando chegasse o novo ano. 
Eu tentava ajudar da melhor maneira que podia, e no meu entender o 
melhor era no forar nenhuma deciso precipitada. No que dependia de 
mim, ela teria o tempo que precisasse para voltar a estar bem e pensar 
com calma.
Qual no foi minha surpresa quando ela me contou a inteno de 
prestar novamente uma Residncia. Psiquiatria. A partir da, at tentou 
estudar um pouco. Nesse nterim, entrou o ms de novembro.
Certa tarde eu estava no servio e, de repente, Isabela me ligou 
pela segunda vez. A gente j tinha se falado "oi"... o que ser que ela 
queria?
 Oi, "M"! Que foi?
 Oi, Nen, sabe que ? Eu estava aqui em casa e, de repente, 
do nada... me veio uma sensao sobre o tal curso da Grace. Relativizei 
um pouco, afinal faltam ainda vrias semanas. Quer dizer, faltavam! 
Resolvi dar uma ligadinha para a secretria, s por desencargo de 
conscincia. Pra saber em que p andava o curso, se era aquilo mesmo. 
Sei l! E para meu espanto e indignao: o curso foi antecipado, vai ser 
neste mesmo final de semana. Isto , daqui a dois dias!
 Puxa vida! Mas j?! Mas no era em dezembro?
 Seria, mas a data foi mudada. Fiquei aflita que no desse tempo 
de fazer a inscrio!
 Ento a gente no vai, n?
 Vaaaaamos, sim! Pode fazer por telefone, ou mesmo na hora.
 Tem que pagar alguma coisa?
 O preo  praticamente simblico.
 Ah, timo!  mas eu no estava nem um pouco satisfeito.
Isabela conseguiu me convencer. Mas no antes que eu 
retrucasse um pouco.
  Eu estava programando outra coisa para o fim de semana!  
reclamei.  Queria levar voc para comer algo diferente, voc precisa 
espairecer a cabea. No precisa?
Mas ela nem me deixava continuar muito.
 Mas, Eduardo, isso a gente pode fazer em qualquer outro final 
de semana. Neste  melhor que a gente v pra Santo Andr. Afinal, 
tnhamos combinado assim, no foi?
 Mas, caramba! Eu no esperava que fosse ser agoral Precisava 
me preparar psicologicamente para isso!!!
 Eu sei, mas foi um imprevisto. E se eu no tivesse ligado hoje? 
J imaginou? Foi Deus quem no deixou a gente perder esse curso, sinal 
que deve ser mesmo a direo certa. Vai... no complica... eu vou estar 
junto com voc!
Concordei meio a contragosto.
 Puxa, isso vai ser jogo duro. Comea quando mesmo?
 Sexta-feira  noite.
 Sexta??? E a gente vai se mandar na sexta pra esse fim de 
mundo?
 D um jeitinho de sair mais cedo, Nen. No  o fim do mundo. 
Diz que voc vai fazer um curso, inventa alguma coisa, n?  por uma 
boa causa!
Suspirei fundo, mas no tive outra alternativa seno concordar.
Desliguei o telefone ainda suspirando. E intimamente torcendo 
para que realmente Grace no fosse aquilo que espervamos e nem 
pudesse nos ajudar, pretendia me esquivar a todo custo, e se ela me 
decepcionasse logo de cara, seria difcil Isabela convencer-me a uma 
segunda tentativa.
Bem l no fundo da alma eu tinha uma mnima esperana de que 
aquilo me ajudasse. Bem mnima. No deixava de ser um risco. Eu 
estava no escuro.
"Puxa vida! Mais essa...!"
 * * * *
Samos com bastante antecedncia na sexta-feira. Eu realmente 
procurei me esforar, mas no estava muito animado. Isabela tentou por 
toda lei incentivar-me e deixar-me  vontade.
 Mas o que a gente est mesmo indo fazer l?  perguntei meio 
mal-humorado.
 Nen, ns j no conversamos sobre isso? Esqueceu? Vamos 
procurar algum que possa ajudar voc. Voc precisa de ajuda, s no 
quer admitir isso.
Isabela sempre teve uma sensibilidade  flor da pele. No 
adiantava querer esconder, dar uma de Joo-sem-brao. Era muito difcil 
que eu admitisse uma fraqueza, at mesmo para mim. Mas tudo o que 
eu no dizia, Isabela acabava pressentindo. Eu sabia que ela estava com 
a razo, mas estava muito receoso do que poderia acontecer.
Depois, tudo podia acabar numa enorme perda de tempo!
Pelejamos bastante para descobrir o caminho, estava muito 
trnsito, estava tudo catico! Mas afinal achamos a tal da Igreja. Era 
pequena. Pequena mesmo, quase uma casinha. Uma Assemblia de 
Deus.
Olhei para a fachada azul e branca, j estava escurecendo. Que 
vontade de dar meia-volta! No fosse a curiosidade de conhecer a to 
falada Grace. Chegamos perto para tomar informaes, havia ali na porta 
um burburinho de pessoas. Nos acotovelamos no meio do pessoal que 
se aglomerava em torno de uma mesinha.
 Acho que ali esto fazendo as inscries.  murmurou Isabela. 
Era fato.
Nossos crachs j estavam  disposio porque Isabela tinha 
passado os dados por telefone. Eu paguei e ns nos acomodamos. 
Faltava ainda um certo tempo para comear. Eu nunca tinha estado 
numa Igreja to pequena. No demorou muito e a Igrejinha praticamente 
lotou. E comeou o Louvor.
 Eu estou curiosa para saber quem  a Grace....  cochichou 
Isabela antes de se concentrar no Louvor.  Ser que ela j est a?
 Deve estar, j est quase na hora!
Logo fomos satisfeitos na nossa curiosidade. Esticamos um 
pescoo comprido quando percebemos que o Louvor terminava e os 
responsveis pelo curso tomavam lugar  frente.
Grace era bem diferente do que imaginvamos, uma senhora 
pequenina, que falava baixo, com o cabelo todo arrumadinho. Naquela 
noite houve uma introduo do assunto. Samos tarde, voltamos para 
So Paulo sabendo que no dia seguinte teramos uma viso mais 
completa de tudo.
O curso comeava cedinho, de forma que nem deu para dormir 
muito.
Confesso que eu estava interessado em saber que tipo de coisa 
ela iria falar, o que ela sabia, afinal. Mas no foi tudo que compreendi 
logo de cara. Algumas coisas me tocaram bastante, outras nada me 
disseram. Gostei especialmente da palavra da prpria Grace, mas havia 
outras pessoas com quem ela dividia os horrios das palestras.
A parte que ns estvamos esperando, a Ministrao, foi explicada 
logo cedo no sbado. Cada participante preencheria uma ficha bastante 
extensa que abordava de tudo. Respondendo quele questionrio 
haveria um desnudamento dos tipos de envolvimentos e prticas 
significativas que a pessoa tivera no passado.
Por exemplo: a ficha abordava todo tipo de seitas e prticas 
religiosas, desde as mais comuns, at as esotricas, ou j indo mais para 
o lado satnico da coisa. Um segundo aspecto eram as outras coisas 
que a pessoa tinha feito, e que no necessariamente tinham a ver com 
prticas religiosas. Todo tipo de perverses e prticas ilcitas. 
Prostituio, adultrios, homossexualismo, estupros, etc. ..
A terceira parte importante da ficha dizia respeito a sentimentos 
pessoais. Se ramos constantemente perseguidos por este ou aquele 
tipo de sentimentos negativos, ou por sonhos repetitivos. Coisas tais 
como angstia, depresso, medos diversos, vontade de morrer, etc. .. 
deveriam ser citados.
Segundo nos foi explicado, aquela ficha enorme deveria ser 
preenchida com o mximo de detalhes e o mais sinceramente possvel 
para que a equipe de Grace pudesse ajudar a todos o melhor possvel. 
Esclareceram que todas as prticas descritas na ficha tinham sido 
exaustivamente pesquisadas e biblicamente comprovadas.
Isto , se a pessoa tinha entrado em contato com aqueles tipos de 
prticas e situaes abriram o que chamaram de "legalidade". A partir da 
haveria um canal aberto para a atuao de demnios. O diabo  legalista 
e uma vez que tenhamos aberto a porta, ele entra para ficar. Quando 
renunciamos quelas prticas, confessando os pecados e pedindo 
perdo ao Pai, as portas de entrada so cobertas pelo sangue do 
Cordeiro. E os demnios no podem mais atuar.
Isabela j conhecia a doutrina, e eu tambm no questionei nada. 
Aquilo parecia lgico. Eu sbia perfeitamente que os demnios eram 
legalistas! E como eram!
Fiquei mais tranqilo ao perceber que Grace tinha uma outra 
noo do mundo espiritual, no era uma louca a mais no mundo. S no 
sabia se a Ministrao ia funcionar do jeito como ela estava falando. Eu 
conhecia os demnios....
Quanto a isso, a experincia seda totalmente nova para mim.
 No  possvel que a equipe ministre individualmente todas as 
pessoas. Seria algo impossvel!  explicou um senhor logo que 
recebemos as fichas.  Mas todos os formulrios sero analisados e 
vocs podem ser selecionados para uma Ministrao individual. Se voc 
no for selecionado, no se preocupe. Deus est no controle de tudo, e 
certamente as renncias coletivas j produziro coisas novas na sua 
vida. E se voc for selecionado, se seu nome for mencionado, levante o 
brao e confirme a sua presena quando ns chamarmos.
Preenchemos a ficha e entregamos de volta ainda no sbado de 
manh para serem analisadas e selecionadas. Mas, independentemente 
disso, todos que estavam participando do curso seriam levados a fazer 
todas as renncias coletivamente.
Eu tinha preenchido minha ficha com esmero, criei coragem para 
ser razoavelmente sincero diante daquelas pessoas que no conhecia. 
Minha ficha ficou recheada de informaes justamente na sesso em que 
 creio  a maioria no tem nada a dizer. Tudo relacionado ao 
Ocultismo e  Magia Negra. O que no havia na ficha, eu mesmo 
acrescentei.
Isabela tambm preencheu a sua e imaginou que no seria 
selecionada, embora no ntimo at quisesse. Passou boa parte do 
sbado, o almoo inclusive, e nos preparamos para outro perodo.  
tarde houve mais uma palestra e uma pessoa da equipe comeou a falar 
os nomes daqueles que seriam ministrados ainda naquele dia Os demais 
poderiam ir embora.
Isabela torcia muito, no seu corao, para que eu fosse logo 
selecionado. Ela no achava possvel que a minha ficha passasse em 
branco. No que eu tambm concordava...                                                                  
Mas no fui selecionado no sbado. Provavelmente seria no dia 
seguinte. Isabela, sem dar-se por achada, no meio do empurra-empurra 
para sair da Igreja viu Grace de longe. E me cutucou:
 Olha l Eduardo! Vamos l falar com ela?!
Concordei sem muitas palavras, e nos esforamos para chegar l. 
Isabela bateu no seu ombro:
 Grace!? Oi, tudo bem?  ela no sabia o que dizer, Grace 
parecia muito apressada e nos olhou de passagem.
Ento Isabela resolveu ir direto ao assunto de uma vez:
 Sabe o que ?  e apontou para mim.  Ele foi Satanista e 
ns queramos muito falar com voc sobre isso e...
Grace interrompeu sem deix-la concluir a frase.                               
(
 Agora no posso conversar com vocs. Preencham a ficha.
E continuou o seu caminho sem mais essa nem aquela. Isabela 
ficou super frustrada, mas ainda assim procurou continuar me 
incentivando. No queria que o meu corao fosse contaminado com 
nada.
Mesmo assim eu no entendi a atitude da Grace:
 Eu j imaginava essa atitude  respondi com certa amargura, 
demonstrando despeito e um tantinho de irritao ao mesmo tempo.
Confesso que eu estava com muita m vontade. Por que tinha que 
me expor com uma pessoa que nem parava para falar comigo?
Isabela foi branda.
 P, Eduardo, voc nem a conhece. Vai ver est com pressa 
mesmo, muito ocupada! Se todo mundo par-la no corredor, como  que 
fica tambm? Depois... no se preocupe. Quando a Grace ler a sua ficha 
vai querer te conhecer, pode crer! No tem outra possibilidade!
Nem respondi.
Se ela no me chamasse, quem chamaria???!
* * * *
Madrugamos no domingo, porque naquele manh ns faramos as 
principais renncias coletivas.
 Oi, "Mo", bom dia!  falei ao entrar no carro cumprimentando 
Isabela. Ela no perderia as renncias em hiptese alguma e passou 
com o carro em minha casa bem cedinho.
 Oi, Nen!
A manh parecia que ia entrar com tudo, fazer um solzo 
daqueles. Mas por hora ainda estava fresquinho, gostoso, e ningum 
precisava colocar agasalho.
 Dormiu bem, Nen?
 Dormi, sim.
 Ento... caminho da roa!
O caminho da roa era pegar a Praa Panamericana e depois a 
Marginal Pinheiros, e foi o que Isabela fez. Fomos conversando pelo 
caminho.
 Interessante aquilo que foi dito ontem sobre aquele assunto, 
n? Eu concordava em parte.
 Em algumas coisas eles tm razo, mas no em tudo. Sabe 
aquilo que tambm foi comentado...  e eu opinava.
Mas em ltima anlise ns estvamos satisfeitos em estar 
concluindo o curso. E, claro, na expectativa quanto  Ministrao.
De repente, o carro comeou a fazer um barulho horroroso. 
"BRRRRRRRRRRRRRRRRR"!
 Nossa! Que que  isso?!!  exclamou Isabela.  Olha s, at o 
painel est chacoalhando!
O barulho era tanto que parecia que o motor estava a ponto de 
explodir.
 Olha s, Edu! Olha a direo!
 Caramba, t tremendo!
 Vou parar!
Isabela deu seta e foi encostando. E o barulho continuava, bem 
como a vibrao:
"BRRRRRRRRRRRRRRRRR" |
Ela parou o fusca e eu desci. Estvamos no comeo da Marginal e 
os carros passavam por ns a toda velocidade.
 Vou dar uma olhadinha. No tem porque fazer isso.
  verdade! Esse tipo de barulho nunca aconteceu! Era s o que 
faltava!  continuou Isabela pondo a cabea para fora da janela.
Ela ficou dentro do carro enquanto abri o capo. Eu pensava 
comigo, meio apreensivo:
"Era mesmo s o que faltava....! Meu Deus do Cu!"
No porque estivesse receoso em perder o curso, seria por causa 
de uma fatalidade. Mas ficar ali parado na Marginal, isso sim, era terrvel! 
Voltei para dentro:
 No estou vendo nada de errado. Vamos continuar.
Isabela deu a partida de novo e embicou para a pista. Nos 
primeiros segundos... nada. Eu e ela nos entreolhamos. Mas no deu 
outra!
"BRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!"
 Nossa! Parece que vai explodir o carro!
Isabela encostou de novo. E j estava meio exaltada.
 Eduardo, vamos orar. Vamos orar porque desse jeito ns no 
vamos conseguir chegar a lugar nenhum! E isso no  possvel!!!
 OK! Vamos orar!
Eu comecei e ela concluiu. E pediu l do seu jeito, meio nervosa:
 Pai! Que toda retaliao e impedimento do inimigo caiam por 
terra. Porque ns precisamos chegar no curso da Grace! Ento nos 
ajuda e faz esse carro andar em segurana.
Oramos mais um pouco. Mas no ntimo do corao ns tnhamos 
l nossas dvidas se no estvamos tomando uma atitude extremista e 
ridcula. Vai ver era uma coisa totalmente natural e ns  que estvamos 
viajando na maionese, influenciados pelas palestras recm escutadas.
Nos sentimos um tantinho ridculos,  verdade.
Olhamos um para a cara do outro sem dizer palavra alguma e 
Isabela tornou a dar partida no carro. Girou a chave fortemente. Ns dois 
estvamos com o corao na mo. E a verdade  que, influncia 
espiritual ou no, no tivemos mais problema algum at o nosso destino. 
E nem depois, durante a semana. Nunca mais o carro fez um rudo como 
aquele.
Somente quando descemos na porta da Igreja foi que comentamos 
um com o outro:
 ... parece que o diabo no queria mesmo que a gente viesse... 
 comecei eu, um pouco impressionado.
Isabela balanou a cabea repetidas vezes, com nfase:
 Pois no  mesmo?! Acho que devia ser isso mesmo!
 Que coisa, n? Ento  porque ns estamos no lugar certo. Ela 
olhou bem para mim, aliviada:
 , Nen. Acho que sim, n?...
E fomos nos sentar, pois j estava quase dando o horrio do incio 
do Louvor. O povo estava mais animado do que no comeo. O ltimo dia 
sempre  melhor do que o primeiro, pelo menos Isabela dizia que era 
assim. Eu no tinha tanta experincia, mas dava para notar que 
realmente o pessoal estava diferente.
E finalmente chegou o momento da Ministrao coletiva. Eu no 
sabia exatamente o que aquelas oraes poderiam mudar em nossas 
vidas... mas no fundo do peito eu esperava que aquele fosse realmente o 
caminho. Isabela estava convencida da necessidade daquilo. Ela estava 
ali por minha causa, essa era a verdade. E eu somente esperava que ela 
estivesse certa!
Ento, toda a Igreja ficou de p. A ficha que todos ns tnhamos 
preenchido na vspera seria agora lida do incio at o fim, em atitude de 
orao. E, como Igreja, todos ns pediramos perdo por aqueles 
pecados, renunciaramos quelas prticas.
 Mesmo que voc em especial no tenha cometido todos esses 
pecados, ore do mesmo jeito.  explicou algum l na frente.  Uma 
vez confessados os pecados, vamos pedir que Deus feche essas portas 
em nossas vidas e nos liberte de toda influncia maligna. Esse  um 
momento muito importante!
Ento, assim como Neemias identificou-se com o pecado do povo 
de Israel, e como levou o povo a pedir perdo coletivamente, naquele 
momento ns faramos algo semelhante.
 Eu vou orar e toda a Congregao repetir depois de mim!  
continuou instruindo a pessoa l na frente.  Os ministradores vo estar 
circulando todo o tempo, se algum sentir algo diferente, ou algum mal-
estar, pode chamar a pessoa mais prxima de voc.
Comeamos a orar, repetindo conforme o dirigente conduzia. 
Fomos passando e renunciando s mais diferentes prticas e 
envolvimentos, explcitas ou implcitas.
Tudo foi correndo normalmente, passamos por diferentes aspectos 
dentro do Catolicismo, Espiritismo, Umbanda, Quimbanda, Candombl, 
Nova Era e prticas esotricas das mais diversas. At que comeamos a 
entrar nas questes mais ligadas ao Ocultismo e  Magia.
Comecei ento a sentir algo estranho. Uma leve vertigem, uma 
sensao leve de falta de ar. Procurei me apoiar no encosto do banco da 
frente. Nem reparei que estava deixando de repetir as palavras da 
orao. Foi a que escutei a voz de Isabela no meio daquela sensao 
incmoda:
 Repete, Eduardo, repete...!
Isso me trouxe um pouco de volta para a realidade, ento repeti a 
ltima frase. Mas me sentia meio zonzo, perdi um pouco do equilbrio. 
Isabela me amparou com seu prprio corpo e continuou incentivando:
 Vai, continua repetindo! Senhor, ajuda ele!
Nem percebi que era ela que me dava sustentao, s fiquei 
sabendo mais tarde, quando ela comentou comigo. O tempo todo eu 
estive meio fora de sintonia, mas acho que consegui repetir tudo, apesar 
da dificuldade.
Quando terminou, Isabela estava um pouco impressionada, e 
perguntou-me o que tinha acontecido.
 O que aconteceu?
 Como assim?
 Voc se sentiu incomodado com essa parte da orao?
 No... acho que no sei dizer... acho que um pouco!
Ela parecia ter tido uma idia melhor do que acontecera. Ao que 
parece, eu no me recordava muito bem de tudo. As recentes sensaes 
pareciam estar meio fora de foco, meio apagadas na minha mente.
Isabela estava satisfeita com o resultado, embora ligeiramente 
apreensiva. Aquela renncia tinha incomodado os demnios. Sinal que 
realmente havia problemas de ordem espiritual no tratados. E isso 
significava que realmente estvamos seguindo a trilha certa. Tudo o que 
tinha acontecido naquela manh confirmava isso. O problema com o 
carro parecia agora muito mais claro, os demnios no queriam que eu 
fizesse aquela renncia.
Pouco antes do almoo foi lida a lista de pessoas que seriam 
ministradas naquela tarde. Tanto eu quanto Isabela estvamos includos.
 Olha a! Viu s como voc foi chamado?  exclamou Isabela, 
satisfeita, enquanto amos caminhando devagar em direo  porta, 
depois do encerramento das atividades.  At eu fui chamada! Nem 
pensei que isso fosse acontecer!
 Bom... isso  bom! Ento vamos tratar de almoar alguma 
coisa.
 Isso! Logo temos que estar de volta.
Foi difcil achar aonde comer ali naquele fim de mundo, em pleno 
domingo. A comida no estava das melhores, mas foi a nica coisa que 
achamos.
Voltamos. Isabela, na expectativa. Eu j no era um dos dez mais 
 vontade.
 Mas o que ser que vai acontecer? Ns j no renunciamos 
tudo de manh? O que mais tem para ser feito?!  eu perguntava, volta 
e meia.
 Bom, provavelmente eles vo fazer algo mais minucioso, mais 
detalhado. Te dar uma ateno especial.
Eu sorria de leve, procurando esconder o desconforto daquela 
situao nova. Isabela procurava tranqilizar-me.
 Olha, no fica pensando assim, no. Com medo do que vai 
acontecer. Pensa que  importante tudo isso, e voc vai simplesmente 
estar orando junto com servos de Deus. Orando por um objetivo comum. 
Que mal pode fazer isso, no ? Mal no vai fazer. Depois voc tem que 
pensar que  Deus que vai atuar, no so as pessoas. Certamente isso 
vai te fazer bem, no vai acontecer nada de ruim. Ao contrrio.
 . Acho que voc tem razo. Estou preocupado  toa. Depois... 
se isso no fosse de Deus, o diabo no estaria incomodado. E j deu pra 
perceber que ele est incomodado!
Descemos do carro, entramos novamente no Templo. Sentamos 
para esperar.
A Igreja estava agora praticamente vazia, silenciosa, e o calor 
pairava no ar, quieto, pesado, sonolento. Algumas pessoas que iam ser 
ministradas aglomeravam-se pelos bancos, liam a Bblia ou conversavam 
baixo entre si. Duas mulheres l no fundo estavam orando e ns, mais na 
frente, escutvamos vez por outra algumas palavras.
Ficamos trocando impresses, observando, tecendo expectativas, 
procurando no deixar que o assento ficasse duro demais. Por isso mais 
de uma vez levantamos, fomos xeretar no quadro de avisos da Igreja, 
fomos ao banheiro. Sentamos de novo.
As pessoas iam sendo chamadas devagar para serem ministradas. 
Isabela lutava um pouco com o sono. Eu estava cansado, mas ansioso. 
Finalmente algum apareceu e chamou o nome de Isabela.
 Tchau, Edu!  despediu-se ela rapidamente.  Boa sorte para 
voc na sua Ministrao.
Eu sorri de volta.
 Tchau!
Fiquei esperando ainda mais quase uma hora e meia. J estava 
cansando de esperar, observando as pessoas irem entrando. J quase 
no havia mais ningum ali, s eu. Quando dei por mim, Isabela estava 
de volta.
 Voc ainda no foi?  indagou ela espantada.
 Ainda no. Mas me conte como foi!
 Ah, acho que foi bom. Tenho que receber pela f o que Deus 
fez! Mas no d pra dizer que a gente no fica se sentindo um pouco 
desconfortvel, meio receosa na frente de pessoas desconhecidas. 
Apesar de j ter passado antes por isso, na minha antiga Igreja. Foi um 
senhor que me ministrou, tinha tambm uma mulher que ficou orando o 
tempo todo. Ele conduziu os pontos da Ministrao. Na minha ficha os 
mais importantes eram uma srie de sentimentos ruins, as prticas 
antigas no so das mais relevantes. Mas o que doa mais fundo na 
minha alma era por causa do meu pai, n?...  e Isabela tinha 
dificuldade para falar naquilo.  Custei pra falar que no conseguia 
entender porque tinha sido daquele jeito... mas quase no consegui falar 
muito sobre isso.
Eu fui escutando sem falar nada.
 Expliquei como pude sobre ele, e oramos tambm por isso. 
Depois que acabou, ele me ungiu com leo e a mulher que intercedia 
falou comigo antes que eu sasse da sala: "O seu pai no morreu. Ele 
somente adormeceu. Deus quer que voc saiba disso!".
Era difcil para Isabela entender. No sei se era o tempo de 
entender. Era tempo de sentir dor por causa daquilo. Um dia ela haveria 
de ficar livre daquela dor.
Algum me chamou! Levantei como uma mola, quase sem escutar 
o que Isabela estava me dizendo. Ela me conhecia o suficiente para 
saber que eu estava um pouco apreensivo.  Vou indo!
 Vai, Nen, vai com Deus. T aqui esperando.
* * * *
Entrei na sala e j levei um susto, dei de cara com um monte de 
gente. Imaginei que, assim como tinha sido com Isabela, algum estaria 
ali para me ministrar junto com apenas mais uma pessoa. No entanto, 
para minha surpresa, a sala estava cheia!
Estranhei um pouco. A Grace mesmo estava l, e me recebeu 
bem, com um sorriso:
 Pode sentar aqui, fica  vontade!
 Obrigado.  pensei que ela fosse mandar os outros sarem... 
mas que nada! Sentei e esperei. Eles ficaram todos l, olhando para 
mim, quietos, enquanto
Grace conversava comigo. No entendi o por que daquele ar 
interrogativo que tinham no semblante.
 Tudo o que voc escreveu  verdade?  comeou Grace, de 
sola.
No entendi exatamente o que ela queria, mas respondi.  medida 
que Grace ia perguntando e eu respondendo, percebi que os demais 
ainda no sabiam exatamente o que eu tinha escrito na ficha e nem 
quem eu era.
Grace fez mais algumas perguntas a respeito da ficha, testando o 
entendimento.
 Quem escreveu a Bblia Satnica?
Quando falei, ela imediatamente deu-se por satisfeita. E explicou:
  necessrio eu te perguntar isso porque s vezes encontro 
pessoas que se dizem Satanistas, mas quando vou averiguar de perto, 
vejo que no  bem isso.
Acho que eu devia estar com uma cara de interrogao porque 
Grace continuou esclarecendo:
 Essas pessoas vo ficar aqui para interceder em concordncia, 
e tambm para me ajudar caso seja necessrio.
Fiquei imaginando o que ela queria dizer com isso.
"Ajudar em qu? Ser que eles acham que eu posso ficar 
possesso?!"
Observei um pouco melhor e, pelo nmero de pessoas presentes, 
acho que eles estavam julgando isso algo muito provvel! Encarei os 
rostos que me olhavam e percebi que havia um clima de temor entre 
eles. Em Grace no... mas os demais agora pareciam estar com medo 
de mim.
Antes de comearmos a Ministrao propriamente dita, Grace 
colocou na minha frente um cesto de lixo.
 Se voc sentir vontade de vomitar, pode usar isso aqui. 
Continuei quieto. Mas intimamente eu j no entendia mais nada.
"Que coisa mais louca! Por que cargas d'gua eu teria vontade de 
vomitar?"
Acho que eu ainda devia estar olhando para o cesto de lixo 
quando, de repente, todo mundo comeou a orar junto. Procurei ter uma 
atitude condizente, mas achei a orao to estranha quanto o resto.
Grace pedia cercos de anjos, e muralhas de fogo, e tapetes de 
fogo, e "selava" o lugar. O pessoal que estava junto orava com mpeto, 
agitando os braos, s vezes tinha at quem sapateasse mais forte, ou 
batesse palmas. No entendi a metade. Mas mantive a cabea baixa, me 
contive um pouco. No estava acostumado com aquilo.
"Ser que todo esse pessoal sabe mesmo o que est fazendo? 
Olha s onde eu vim parar!"
Mas a verdade  que foi criado ali um clima diferente. Pude 
perceber.
Depois aquele clamor diminuiu e eles passaram a interceder baixo. 
Somente Grace comeou a conduzir a Ministrao. Ela me tratou bem 
durante todo o tempo, foi bastante simptica.
 Voc j participou da Ministrao coletiva, j sabe como .  
disse ela.  Vamos fazer a mesma coisa com o que voc escreveu alm 
disso.
E ento eu fui renunciando a todas as prticas que eu tinha escrito. 
E ela ia me ungindo com leo tambm. Nesses momentos Grace orava 
sozinha e eu mantinha os olhos fechados a maior parte do tempo.
Mas num determinado momento... aconteceu um negcio 
estranho...
 Estenda a sua mo que eu vou ungir tambm a marca que 
fizeram...  pediu Grace (Leia Filho do Fogo).
Estendi a mo sem abrir os olhos. J fazia tempo que no havia 
nenhum clamor, estava todo mundo orando baixinho. O ambiente estava 
calmo, nada havia que pudesse ter de alguma forma me sugestionado, 
causado alguma "alucinao".
  Senhor Deus, queima agora essa cicatriz, destri essa marca 
no Reino Espiritual.
Senti que ela pegava minha mo, mas a, quando Grace ungiu a 
marca que eu tinha na mo esquerda e que foi feita no Rito de 
Iniciao... eu senti literalmente queimar! Quando ela colocou o leo, 
senti como se o leo estivesse quente! Queimou mesmo, de verdade. 
Senti dor fsica!
 Aii! Voc queimou a minha mo!
E pulei de susto, arrancando a mo.
 Mas tem que queimar mesmo, irmo! Fiquei indignado.
 Voc colocou leo fervendo na minha mo?!  invoquei com a 
Grace, reclamando meio irado.  Puxa vida, voc jogou leo quente na 
minha mo? Mas isso tem cabimento?!!
 O leo no est quente, no... est igual, como antes.  
respondeu Grace, super calma.  Quer ver?
Eu no conseguia acreditar e tive mesmo que ver de perto. Peguei 
o frasco, pus o leo na minha mo. Nem sabia o que dizer. Fiquei mudo.
 Puxa vida, est normal...
 Agora o diabo no vai mais ver essa marca.  como se ela no 
existisse mais.
Fiquei super encafifado, mas a Ministrao continuou 
normalmente.
O mais interessante  que o Ministrador que estava sentado na 
minha frente passou mal. Foi ele quem teve vontade de vomitar, e quase 
aconteceu mesmo. Mais tarde eu iria entender que esse tipo de coisa  
comum: os intercessores podem ter reaes de identificao com a 
pessoa que est sendo ministrada. O mover do Reino Espiritual causa 
reaes fsicas muitas vezes.
Eu no senti nada, mas o intercessor sentiu no meu lugar! Essa 
manifestao, somada  sensao de ter sido queimado pelo leo, foram 
dois sinais que Deus usou naquele dia para me mostrar que estava 
realmente agindo.
Quando sa de l, j tinham passado quase duas horas e meia. 
Isabela estava ansiosa, me aguardando sozinha nos bancos da Igreja. A 
tarde tinha corrido vagarosa e modorrenta para ela, mas quando me viu 
de longe, descendo as escadas do plpito, saindo da salinha l de trs, 
logo abriu um largo sorriso.
Levantou, veio ao meu encontro. E olhava para mim tentando 
adivinhar tudo de uma vez.
 Puxa, voc est com uma carinha to feliz!! Como  que foi?! 
Demorou pra caramba, Nen, mas pelo jeito foi bom, heim?! Me conta, 
me conta! Voc precisa esperar por mais alguma coisa?
 No, no. Podemos ir embora!
Fomos saindo em passos largos, abraados e animados.
 Conta, Nen, conta! Eu orei por voc enquanto voc estava l 
dentro. Orei pela Ministrao, para que Deus fizesse o que tinha que 
fazer, e usasse os Ministradores para cumprir o Seu propsito. E que 
voc pudesse ser curado na sua alma. Depois fiquei a tarde toda vendo 
as pessoas que entravam e saam, e o salo que ia esvaziando. s 
vezes eu voltava a orar, e me perguntava o que estaria rolando l dentro, 
o que ser que estava acontecendo pra demorar tanto!
 Obrigado, Gatinha, realmente foi bom, sabe...? Eu no 
esperava que fosse ser assim. Agora estou me sentindo bem melhor!
Uma vez na rua, indo em direo ao carro, Isabela me olhou 
melhor.
 ... deve ter sido uma coisa bem intensa... voc est todo 
suado!
 Ah!  dei risada com vontade.  Est quente, mas isso no  
suor, no! E leo. Fui ungido, quase que tomei um banho de leo.
Ela passou a mo no meu cabelo. O resduo cheiroso do leo de 
uno ficou impregnado nos seus dedos.
 Puxa,  leo mesmo! Puxa, te encharcaram mesmo. No vai ser 
por falta de leo que voc no vai ser liberto! Mas sabe que voc est 
com uma expresso diferente mesmo, Edu? Bem diferente de quando 
voc entrou... no sei dizer... bem mais feliz. Parece at que 
rejuvenesceu alguns anos. Est mais Nen do que antes...
 ?  fiquei com os olhos um pouco marejados.  Mas eu 
estou feliz mesmo! Entramos no carro e ela pediu novamente, desta vez 
mais enftica:
 Mas agora me conta tudo! Desde o comeo, direitinho, tudo o 
que aconteceu!
 ... a gente fez certo. Realmente Deus provou pra mim que 
fizemos certo. Pode ter certeza que alguma coisa vai mudar depois 
desse fim de semana.
Agora eu estava to convicto quanto ela. Isabela me olhava e 
olhava, de uma maneira diferente, percebendo algo novo em mim.
 Deus fez alguma coisa nova, diferente.... foi muito bom a gente 
ter vindo  continuei.
 E pensar que quase que a gente no chegava aqui hoje, hein? 
Mas graas a Deus deu tudo certo! Que alvio que d!
 A Grace acha que ainda tem algumas coisas para Ministrar. 
Pediu que eu entrasse em contato com a secretria dela no comeo do 
ano que vem. Esse ano ela est com todo o tempo tomado, mas acho 
que ainda vamos nos encontrar.
 T bom, mas agora conta!
Enquanto Isabela dirigia, eu fui contando tudo. Em mais de um 
momento me senti emocionado. Estava certo de que Deus tinha feito 
coisas novas na minha vida, no me sentia merecedor, mas estava feliz 
porque Deus tinha feito mesmo assim...
Ele sabia que eu precisava de algumas evidncias palpveis. 
Tinha tido! Foi algo muito novo.
* * * *
Captulo 8
Durante a semana, fiquei pensando. Apesar de sentir que alguma 
coisa tinha mudado eu no sabia exatamente o que tinha mudado. 
Somente uma coisa me deixou refletindo um pouco, levemente 
apreensivo:
"Ser que falei alguma coisa que no devia? Ser que falei alguma 
coisa que possa criar problema pra mim??"
Eu sabia o que poderia criar problemas: revelar os segredos!
Falar que dentro da Irmandade acontecem sacrifcios humanos... 
bom, isso e at primrio! Todo mundo sabe que o Satanismo tem dessas 
coisas, at mesmo seitas simpatizantes do Ocultismo fazem isso. Quer 
dizer... Grace j sabia, no era novidade alguma para ela! Equivale a 
dizer algo mais ou menos do tipo: Fiz parte de uma quadrilha, e essa 
quadrilha assaltava!"
Ou seja essa informao  bvia, todo mundo sabe que bandido 
assalta, mata. Da mesma forma, Grace no precisava ir muito longe para 
saber que dentro do Satanismo acontecem mortes de pessoas.
Isso  uma coisa. Eu sabia muito bem.
Mas se eu dissesse  "Fiz parte de uma quadrilha, e essa 
quadrilha tinha envolvimento com o Presidente da Repblica, e ns o 
subornvamos, de forma que fazia tudo o que ns queramos".
Aqui j  bem diferente. Trata-se de um segredo do crime 
organizado.
Revelar segredos da Irmandade estava fora de cogitao. Isso, 
sim, me assustava muito... falar da estratgia, do planejamento para o 
final dos tempos, articulaes polticas, os processos de alguns Ritos 
especiais, at sacudi a cabea. Eu no tinha inteno alguma de fazer 
isso! (Leia Filho do Fogo).
Isabela tinha razo, falar seria muito importante para mim, seria 
teraputico! Dividir um pouco aquela experincia haveria de fazer com 
que eu me sentisse melhor Mas longe de mim entrar em detalhes 
comprometedores!
"Se eu ficar apenas na periferia da coisa, tudo bem... s no posso 
chegar no corao da Irmandade. Acho que assim eles no vo se sentir 
nem ofendidos, nem incomodados com o fato de eu estar falando."
Apesar de Isabela estar sempre comigo, eu sentia muita falta de 
um grupo de apoio. Eu sempre fiz parte de grupos: a "29", o Kung Fu,a 
Irmandade. Por isso o que eu mais queria era estar novamente dentro de 
um grupo, um grupo de verdade! Pessoas em quem eu pudesse confiar e 
que me ajudassem a por para fora as dores da minha alma.
Mesmo que eu no tivesse inteno de falar tudo, eu achava que 
apenas uma pessoa  no caso, Grace  no teria condies de 
carregar sozinha aquele peso. Quer dizer eu me sentia carregando 200 
quilos nas costas... mesmo que dividisse isso com algum, e passasse 
100 quilos para essa pessoa, ainda assim seria pesado para mim e para 
ela.
Mas num grupo  diferente: cada um fica com uma parte, com uma 
frao daqueles 200 quilos. Eu experimentei na minha vida. E sempre 
soube que  muito mais fcil para um grupo enfrentar uma situao 
difcil, carregar muito peso, do que apenas duas ou trs pessoas 
sozinhas! Nesse sentido eu tinha uma remotssima esperana. Estava 
procurando. E esperando!
Ainda no tinha aparecido ningum. S a Isabela!
* * * *
Realmente nossos caminhos iriam cruzar muito com os da Grace, 
embora ainda no soubssemos disso.
Chegou o Natal e entrou mais um ano. Eu e Isabela completamos 
dois anos de relacionamento. Agora ela j no era apenas minha 
namorada, j estvamos noivos h dez meses.
Agora ns amos muito pouco  nossa Igreja. Algumas situaes 
de constrangimento haviam feito com que deixssemos de nos sentir 
plenamente  vontade naquele lugar. E a gente ia cada vez menos. Os 
problemas criados no comeo do nosso namoro por causa de Camila e 
tambm por causa da minha famlia haviam deixado seqelas.
O principal deles  que Isabela no foi plenamente aceita tanto 
pela Igreja como pela minha famlia. E isso gerava vrias situaes 
desagradveis. Na Igreja, algumas pessoas com quem eu tivera amizade 
antes de conhecer Isabela continuavam me cumprimentando 
normalmente. Mas nem olhavam para ela.
s vezes ns chegvamos de mos dadas, e pessoas 
cumprimentavam-me fazendo de conta que ela no estava ali. 
Especialmente as mulheres faziam questo de ignor-la! Isso era um 
pouco de despeito, eu sei, mas mesmo casais mais velhos e algumas 
pessoas da liderana pareciam olhar para Isabela de forma estranha. Em 
todos os sentidos ela parecia ser uma pea fora do contexto, uma 
intrusa, algum que no devia estar ali ao meu lado. Algum que tinha 
"destrudo" meu relacionamento com Camila.
O fato de estarmos noivos e usarmos uma aliana bastante 
chamativa no parecia fazer a menor diferena. Hoje eu percebo 
claramente o quanto isso era uma influncia espiritual... mas naquela 
poca o clima foi ficando ruim para o nosso lado, especialmente para o 
lado dela.
Minha me em especial criava algumas confuses. Uma delas foi 
queixar-se diretamente com o Pastor Lus sobre ns dois. Acho que ele 
percebeu que a histria estava mal contada, ento marcou um encontro 
com todos ns: eu, Isabela, minha me... e ele!
Ficou claro, depois da exposio, aonde estavam os pontos 
obscuros e quem tinha razo. Depois da conversa, Isabela procurou pr 
um ponto final naquela situao, tratou de perdoar minha me e conviver 
bem.
No era nossa inteno mudar de Igreja, nem sabamos para onde 
ir. Mas estava uma coisa chata. Ento passamos a freqentar o Culto de 
vez em quando s vezes j estvamos na porta da Igreja, estacionando 
o carro... e Isabela comeava a chorar, indisposta com a situao que 
teria de enfrentar. Um problema a mais no meio de tantos. E a gente 
acabava no indo!
No tivemos frias em janeiro, eu continuei trabalhando e Isabela, 
mesmo em casa, estava longe de ter descansado muito. Alis, 
preocupada em colocar sua vida em ordem, ainda naquele ms arrumou 
um emprego decente. Tinha tentado prestar Psiquiatria, mas no passou.
Isabela fazia fora para recuperar-se. Decidiu-se a retomar as 
rdeas de sua vida e foi contratada com facilidade por um Convnio 
Mdico para atuar meio perodo num Ambulatrio de Empresa.
Parecia algo bom, mas Isabela estava tremendamente receosa de 
no conseguir levar adiante, como j tinha sido at ento, em todas as 
suas tentativas. Ela orou bastante para que Deus a ajudasse em sua vida 
profissional. Seu maior temor era acabar largando aquele emprego em 
poucas semanas. Mas isso no podia acontecer.
A maior vantagem era que, embora longe de sua casa, seu 
trabalho ficava muito perto do meu trabalho. Muitas vezes ela saa do 
servio e vinha almoar comigo antes de voltar para casa.
Logo nos primeiros dias eu perguntava como ela estava indo, 
procurando incentivar.
 Est tudo bem...  disse ela.  O nico "seno"  essa 
sensao de que no vou conseguir levar adiante sem a ajuda de Deus. 
Praticamente todos os dias eu vou orando pelo caminho, pedindo que 
Deus me d fora e capacidade para manter o meu emprego. Porque 
realmente eu no encontro essa fora em mim mesma. Tenho muito 
medo de jogar tudo pro alto outra vez! No quero fazer isso... no quero 
ficar em casa sem fazer nada... quero me esforar para que tudo fique 
bem!
Se foi ou no efeito da Ministrao, isso no podemos afirmar com 
certeza... mas o fato  que Isabela conseguiu voltar ao trabalho. Ela 
voltou e manteve o seu emprego durante um bom tempo.
No final do ms de janeiro ns dois j tnhamos entrado em 
contato com a secretria da Grace. Ficamos sabendo que em maro iria 
comear um curso dado por ela. Isabela teve vontade de fazer, e 
acabamos sendo incentivados pela prpria Grace.
Para isso era necessrio a aprovao dos Pastores da nossa 
Igreja; eles deviam enviar uma carta de autorizao para que a gente 
pudesse se inscrever. Mas eles no pareciam dispostos a aprovar nosso 
pedido. No tinham muita simpatia pelo Ministrio da Grace e, como 
insistssemos, apesar de no nos proibirem... tambm no incentivaram.
Conversamos com Grace sobre aquela dificuldade, pelo telefone, 
falamos que eles nos tinham dado uma aprovao verbal. Ento ela 
aprovou assim mesmo a nossa inscrio.
No primeiro dia do curso ns estvamos l. Embora tivesse estado 
com ela pessoalmente apenas uma vez, Grace lembrava-se de mim e 
quis orar comigo antes de comear a aula. Nesse dia ela conheceu 
efetivamente Isabela. Conversamos um pouco, ela quis saber se 
estvamos bem. Depois orou.
Fazia pouqussimo tempo que eu tinha comeado a orar em 
lnguas. (Efeito da Ministrao???). Tinha acontecido de uma maneira 
peculiar, enquanto eu orava sozinho, em casa. Foi bastante diferente 
porque nunca tinha escutado aquilo. Na Igreja no havia uma posio 
doutrinria que desse nfase aos dons do Esprito, por isso desde a 
minha converso no tinha aprendido quase nada sobre tais coisas. Nem 
conhecido ningum que orasse em lnguas. Conhecia s de "orelhada".
Mas naquela noite, no meu quarto, de repente comecei a falar 
coisas estranhas. E ainda que relativizasse um pouco, comecei aprender 
a dar vazo quela manifestao.
Isabela j tinha sido batizada no Esprito Santo anos antes, foi ela 
que me incentivou e explicou o que significava aquilo. Fomos prudentes 
em pedir que Deus trouxesse confirmao. Eu no queria falar nada que 
no viesse Dele!
Naquele dia, orando com Grace, sem querer eu e ela 
pronunciamos uma frase inteira em lnguas, da mesma forma, ao mesmo 
tempo. At mesmo Grace olhou para mim e sorriu.
Mas a verdade  que depois daquele dia nunca mais voltamos ao 
curso. Nem me lembro mais qual foi o impedimento. Talvez no fosse 
mesmo o tempo. No entanto isso serviu para nos aproximarmos mais de 
Grace. Logo viriam outras etapas a serem cumpridas, cada uma no 
devido tempo.
* * * *
Quando chegou perto do Carnaval, Isabela estava empenhada em 
convencer-me a ir para o Acampamento. Fazia talvez uns dois anos que 
ela no aparecia  por causa dos afazeres da Faculdade  mas agora 
daria certo porque no trabalharia no feriado. E nem eu!
Isabela e Marco participavam daquele encontro h cerca de dez 
anos, todo ano. Tinham um vnculo todo especial com aquela Igreja 
Presbiteriana de uma cidadezinha do interior.
 A gente se converteu l! Quer dizer, eu j tinha aceitado Jesus 
em orao, mas foi l que entendi melhor e realmente fiz minha deciso! 
A Mocidade dessa Igreja  a maior da regio, e realmente tem algo de 
diferente no relacionamento deles. Uma coisa sincera, especial. Algo que 
no se encontra na cidade grande, sabe? Acho que  um pouco por isso 
que eu e o Marco gostamos tanto daquele "pedacinho de cu".
Mas eu ainda no compreendia bem o contexto de Acampamento. 
Embora Isabela falasse e elogiasse, eu tinha a impresso de que devia 
ser algo chato.
Lembrei das Igrejas tradicionais que freqentei na poca que 
namorava Camila...
 Mas, puxa vida... ser que  legal mesmo?
 Ns j no somos to "jovens" assim, o pessoal mudou desde a 
poca em que eu era adolescente... mas com certeza vai ser muito 
melhor do que ficar por aqui.  melhor a gente receber um pouco da 
Palavra. No temos ido muito ao Culto!
 Eu j vi os preparativos que a nossa Igreja faz quando tem 
Acampamento! E  um pouco diferente do que voc est contando!
Ela deu de ombros.
 Os Acampamentos que a nossa Igreja organiza so muito 
elitistas! Custam os olhos da cara e  mais um evento social do que 
espiritual. No  por a. A gente est indo to pouco  nossa Igreja... 
vamos nesse que voc vai gostar.
 Voc disse que as acomodaes so pssimas...
 Isso l so mesmo.  uma verdadeira "Favela", sabe? Todo 
mundo empilhado. Mas talvez a gente consiga ficar na casa de algum. 
O Marco disse que v isso se a gente for.
 E o que mais a gente faz em Acampamento alm de dormir 
empilhado?
 Ah, Nen,  legal! Tem estudo toda manh e toda noite, durante 
o dia tem jogos, confraternizao. O pessoal  bacana. E seria bom sair 
daqui um pouco!
Eu no estava muito convencido, mas acabei concordando.
 Tudo isso  muito novo pra mim. Nunca fui a nenhum 
Acampamento.
 Puxa, mas a Camila no ia? Vai dizer que ela nunca te arrastou 
pra nenhum?!
 Ela no ia.
 Bom... mas agora voc vai. Tentei contestar mais um pouco:
 E mesmo quando tinha, eu sei que os lugares eram da hora! 
Nada que no tivesse piscina, cavalos, quadras de tnis. Mas nessa tal 
cidade no tem nada! Voc disse que l no tem nada!
 E sabe que isso  que  o melhor? A gente tem tempo para 
conviver uns com os outros. Tem s um campinho de futebol. De terra.  
s uma chcara pequena! Tem um salozinho aonde fazem os Cultos. E 
mais dois alojamentos com "treliches".
 Que so "treliches"?
 So camas de trs andares! Mas antes no tinha nem isso. 
Quando eu era adolescente tinha s uma casinha aonde as meninas 
dormiam no cho. E uma outra casinha, menor ainda, onde dormiam os 
meninos. Eles tambm montavam umas barracas de acampar, porque 
no cabia todo mundo na casinha. Era s isso. Mas era to bom!... A 
gente se divertia muito, alm de aprender!
 Nossa... d at medo de chegar nesse Acampamento.  
pensei um pouco mais.  Mas voc est certa. Vamos receber um 
pouco da Palavra de Deus. Depois pode ser que a gente nem tenha que 
dormir l.
 Isso eu at que espero mesmo. Porque  jogo duro! Na 
verdade, ningum dorme nada, e no ltimo dia est todo mundo o p!
 E isso  que  o bom?
 Era bom, sim! No dormir tambm faz parte! Na ltima noite 
normalmente tinha peas de Teatro e havia serenata de madrugada. 
Talvez seja assim at hoje. Eu gostava de participar das pecinhas... e era 
uma delcia tambm sair enrolada no cobertor pra fazer serenata na 
porta dos meninos. Normalmente eles j tinham vindo fazer tambm, no 
dia anterior. Uma vez o Marco fez uma serenata s dele. Foi tocando nas 
janelas do nosso alojamento. A mulherada s faltava se dependurar pra 
fora, cochichando e tendo piripaques.
Dei risada.
 E da?
 Da, nada. O mximo que voc pode fazer  acender e apagar a 
luz.  o sinal pra dizer que estamos gostando. As meninas no podiam 
aparecer de pijama na frente dos meninos e vice-versa! Isso a direo do 
acampamento no ia gostar nem um pouco...
Dessa vez fiz um comentrio sincero:  Parece legal...
  E era, viu, Nen? Sabe o que era melhor?  que as 
brincadeiras eram inocentes! Tinha regra e normalmente as regras eram 
cumpridas. Mas dava pra se divertir do mesmo jeito, a gente se divertia 
de uma maneira mais pura! Ver aqueles adolescentes se comportarem 
bem foi uma lio de vida para mim e para o Marco na poca da nossa 
converso. Acabamos vendo na prtica que Jesus podia fazer diferena 
na vida de muita gente! Aquilo falou muito mais alto do que 100 
pregaes.
 OK! Ento est decidido. Vamos pro Acampamento!
 Legal!
E fomos mesmo. Marco tinha arrumado um lugar para a gente 
ficar. Isabela pousaria na casa de uma antiga amiga que agora j estava 
casada. E eu ficaria na casa de outro casal de nossa idade. Mas s para 
dormir. Durante todo o dia ficaramos na chcara.
Para Isabela foi bom rever uma parte daquela antiga Mocidade, 
daqueles jovens e adolescentes que agora j eram adultos e tinham feito 
parte de momentos importantes da sua vida. Os Acampamentos tinham 
sido momentos importantes para ela. Fui sendo apresentado. Alguns 
agora estavam at casados, formados. Outros tinham sado da cidade e 
estudavam fora. Mas vieram para casa durante o Carnaval. E pintavam 
por ali para participar um pouco.
A grande maioria era de gente mais nova, pessoas que Isabela 
no conhecia.
 Aquele ar de famlia que tinha aqui j  diferente hoje... o 
Acampamento cresceu, o clima mudou um pouco... no  mais a mesma 
coisa. Eu tambm mudei! Mas rever algumas caras antigas me d uma 
sensao de nostalgia. De saudade!
Ela se divertia relembrando o que tinha acontecido em anos 
anteriores! Certa mente aquela Igreja e aquelas pessoas tinham tido um 
sabor todo especial para Marco e Isabela... foram ingredientes de Deus 
nas suas vidas, de uma maneira que nenhuma outra Igreja de So Paulo 
tinha conseguido ser.
* * * *
Na noite do domingo ns dois estvamos na fila da janta. Isabela 
conversava com Karine e mais uma ou duas meninas da sua poca. Eu 
acabei sendo alvo das atenes do Pastor que estava palestrando no 
Acampamento, mesmo sem querer.
Pura coincidncia, diria eu, porque ele tambm tinha que esperar 
que a fila, meio morosa, caminhasse. A melhor coisa para fazer o tempo 
passar era puxar conversa com o indivduo mais prximo. E pelo visto, 
aquele Pastor gostava de falar, puxou conversa comigo, e logo estava 
entretido no maior bate-papo. Como eu respondesse bem e tambm 
fizesse perguntas, ele no parava mais.
Volta e meia Isabela dava umas olhadas. Ela sabia que eu tambm 
era bom de prosa, no precisava dar muita corda. Comecei mesmo a 
falar e falar, como se j o conhecesse h tempos.
Finalmente a fila andou e chegamos ao nosso destino. Macarro, 
frango, salada de tomate, beterraba, essas coisas. Eu e Isabela 
sentamos para comer numa das pontas de uma mesa. No meio da 
confuso de vozes que se misturavam e a gritaria peculiar de alguns 
grupos de adolescentes mais efusivos, Isabela me perguntou:
 Voc e o Pastor engrenaram a maior conversa, hein? O que 
vocs tanto falavam?
 Ah, nada de mais... no comeo! Mas voc sabe que ele veio 
com uma conversa meio esquisita, do nada. Imagina que comeou a me 
dizer, sem mais essa nem aquela, que volta e meia tinha que lidar com 
casos de pessoas endemoninhadas.
 U? Mas assim, sem mais nem menos?!
  , nem sei porque a conversa tomou esse rumo... a gente 
estava s comentando do Acampamento, coisas assim. Mas a ele disse 
que Deus queria ensinar alguma coisa pra ele nessa rea, que sempre 
que tinha algum envolvido com demnio acabava vindo parar na sua 
mo, etc. .. etc. .. e que ele no sabia o que fazer sobre isso! Foi mais 
um desabafo...
Isabela deu mais uma garfada na comida, retrucando:
 Justo com quem ele vai comentar isso...
 Pois , eu s escutei. Mas ele parecia to sincero e to humilde 
em assumir que no sabia lidar com esse tipo de coisa que at deu d...
Isabela olhou bem para mim mudando um pouco o tom de voz:
 Mas voc no foi falar nada pra ele, no , Eduardo?!
 Ah, Gatinha, quando vi, j tinha falado.
 Eduardooo!
  Sim, mas no  o que voc est pensando. Eu no disse nada 
assim, comprometedor... s falei que realmente Deus deveria estar 
querendo ensinar-lhe alguma coisa. Comentei que tinha feito parte de 
uma Seita, mas no entrei em nenhum detalhe de nada. E que o Mundo 
Espiritual era real... ele parecia to perdido nos seus questionamentos.
 Hum. E da?
 Ele ficou embasbacado com a minha colocao! Achou que 
Deus deveria ter me colocado ali perto dele, na fila, s pra dizer isso. E 
que se eu tinha alguma experincia nessa rea era para poder ensin-lo, 
ajud-lo a resolver as suas dvidas. Eu falei que tambm no era 
assim... quem era eu pra ensinar alguma coisa a ele? Um Pastor? Mas j 
comeou a me encher de perguntas. Coisas bsicas, tolas... 
questionamentos at primrios sobre o diabo.
 Ai, ai, ai, ai, ai... ser que isso  certo? Ser que  tempo de 
voc sair falando sobre isso? Talvez at v chegar o tempo de voc falar, 
mas voc mal comeou a ser Ministrado, mal comeou a sua libertao. 
No sei o que pensar....
Eu tinha deixado a parte crtica para o final. No queria deixar 
Isabela nervosa, tentei no deixar o tiro sair pela culatra. E acrescentei, 
em tom neutro, cutucando o frango. Como quem no est dizendo nada 
demais:
 Ele at cogitou que eu desse um testemunho aqui no 
Acampamento...
 Testemunho?!!  exclamou Isabela, indignada.
 Alguma coisa bsica. Ele acha que isso  direo de Deus.
 Eu no sei se isso  direo de Deus, no!  ela j estava 
comeando a se exaltar.  No vai me dizer que voc concordou!
 No concordei coisa nenhuma. Ao contrrio. Disse que achava 
que no era o tempo! Ns at poderamos conversar melhor sobre o 
assunto, no sentido de esclarecer algumas dvidas. Mas da a falar para 
toda a Igreja...
 Bom, realmente espero que tenha encerrado por a.....
 No sei se ele entendeu bem. Ele cr terminantemente que eu 
tenho que dar um testemunho. E que ia colocar isso em orao hoje  
noite com mais pessoas.
Isabela nem conseguiu comer direito, no se sentia  vontade com 
aquela situao. Eu tambm estava meio inquieto. Por outro lado, ns 
tambm no queramos correr o risco de impedir Deus de fazer algo, 
sermos empecilhos contra a obra de Deus. Ela no sabia o que pensar, 
eu muito menos.
Isabela acabou comentando com Marco, que sabia um pouquinho 
da minha histria. E para minha surpresa ele achou que podia mesmo 
ser at providncia Divina.
 Afinal...  disse ele.  Para que o Eduardo teria passado por 
tudo o que passou? Se no for para edificar a Igreja agora?
 Eu sei disso, mas a gente tem que pensar que deve existir um 
preparo para isso, n?
Realmente, ns no conhecamos muito sobre um tema simples: o 
tempo de Deus! Uma coisa era certa, se Deus tinha me resgatado, algum 
propsito Ele havia de ter. Isso era inquestionvel, ainda que ns no 
soubssemos qual era esse propsito. Mas creio que erramos ao nos 
precipitarmos em relao ao momento e  maneira de fazer.
Diz o ditado que "Deus escreve certo por linhas tortas". Mas ditado 
popular no  o mesmo que princpio Bblico. Isabela estava inclinada a 
achar que realmente no era o tempo certo. Mas a verdade  que todo 
mundo ficou de orar por aquilo naquela noite para buscar de Deus a 
direo.
Naquela poca ns tnhamos uma idia diferente da Igreja e do 
povo de Deus. Uma idia mais potica. Como que se Deus falasse quase 
audivelmente com os lderes, especialmente com os Pastores. E que a 
direo que Deus desse a eles era praticamente incontestvel.
Mais tarde, a gente veria que nem sempre  assim. E que mesmo 
os lderes podem ouvir o que querem. s vezes o que ouvem pode no 
ser a vontade de Deus, mas a deles.
Mas quem iria questionar isso? No seria eu, muito menos Isabela. 
Portanto, acabamos ficando um pouco  merc daquela situao. Fomos 
coagidos a fazer uma coisa com a qual no sentamos paz, com a 
desculpa de que aquilo era vontade de Deus...  fcil para os outros 
espiritualizarem tudo, mesmo que o faam de boa vontade! Ns ramos 
ingnuos naquele tempo...
No dia seguinte, o Pastor Dcio veio falar comigo.
 O grupo de orao orou muito durante a noite. Tenha certeza 
absoluta de que esta  a direo do Esprito Santo: que voc 
testemunhe! Esse  o propsito da sua vinda ao Acampamento.
Eu e Isabela acabamos por concordar. E ficou marcado para a 
manh do dia seguinte, o ltimo dia do Acampamento.
  Pobre Eduardo...  falou Isabela resignada.  Voc ficou 
realmente preocupado, n?
 Mas quem sou eu pra contestar?  respondi.  Ele  o Pastor, 
deve saber ouvir a voz de Deus melhor do que ns...
Ela ficou quieta por alguns instantes, pensando. No fim acabou por 
convencer-se.
 Talvez seja ento a vontade de Deus mesmo, Nen. Talvez seja 
mesmo a direo certa...
Oramos um pouquinho juntos, para que Deus desse as palavras 
certas. Isabela no fazia idia real do que realmente tinha sido aquilo. Eu 
no queria envolver-me com aquele passado novamente, um passado 
que eu pensava estar completamente enterrado. S queria mexer nisso 
para ser Ministrado! Logo perceberia que tudo aquilo no estava to 
morto e to enterrado. Foi um erro ter aceitado aquela imposio do 
Pastor!...
Divulgaram a mudana na programao do Acampamento, no 
seria o Pastor Dcio a pregar na ltima manh. Comearam a circular os 
buchichos: algum que tinha tido um envolvimento com as Trevas viria 
dar o seu testemunho.
Eu no contestei mais nada, apenas aceitei. Teria que enfrentar 
aquela situao, falar de coisas que me atemorizavam muito, continuar 
desenterrando uma histria que preferia ver esquecida. Isabela era a 
nica que percebia meu sofrimento... a nica que enxergava melhor o 
meu interior, o meu corao.
Nem eu mesmo conseguia vislumbrar quanta dor e quanto medo 
ainda estavam abrigados ali dentro.
* * * *
A manh da tera-feira de Carnaval amanheceu belssima, 
ensolarada.
Isabela j estava diante do seu po com manteiga e do seu caf 
com leite quando apareci. Ela veio direto ao meu encontro. Queria ver 
como estava o meu estado de nimo.
 E a, dormiu bem? Como  que voc t?!
 Dormi mais ou menos... fiquei um pouco preocupado!  
procurei amenizar de leve.
Ela tambm procurava fazer parecer que estava tudo bem, mas 
olhou para mim um tanto penalizada. No seu ntimo, Isabela preocupava-
se comigo. "Tadinho....", pensava consigo mesma. Mas falou alto:
 No se preocupe, vai dar tudo certo....  ela no sabia mais o 
que dizer.  Olha, Deus est no controle... ns oramos, no foi?
!
 Ento... tudo vai dar certo! Agora no pense mais nisso, venha 
tomar o seu caf.
Marco apareceu logo, procurou tambm me animar do seu jeito.
E por fim chegou a hora do Louvor que daria incio ao Culto da 
manh. Toda hora Isabela me olhava procurando adivinhar o rumo dos 
meus pensamentos e sentimentos. Eu no queria que ela ficasse 
preocupada, mas foi impossvel... estava mais quieto do que de costume. 
Sentia-me progressivamente enregelando, a perturbao crescendo, e 
eu orava no meu corao frases atropeladas e um pouco perdidas.
Mesmo que eu no estivesse to quieto, Isabela teria percebido. 
Dificilmente ela deixava de sentir o clima que pairava no ar. Por este 
motivo tambm pedia por mim silenciosamente... que Deus nos 
guardasse, acalmasse e direcionasse.
Sentamo-nos no nosso lugar de costume, perto da porta de 
entrada. Isabela segurou minha mo para que a gente pudesse orar 
juntos um pouco.
 Nossa, Edu!! Sua mo est gelada!
 Ah, s um pouquinho... j vai passar. Ela me conhecia.
 Se vai passar ou no, isso no pode ficar assim! No  justo 
com voc, no  certo! Ningum est se preocupando com voc. Temos 
que orar junto com o Pastor, onde j se viu?
Ela olhava ao redor procurando por ele. Nesse exato minuto o 
Pastor Dcio estava passando ali perto, l fora, em direo ao 
alojamento. Isabela no pensou duas vezes, pulou da cadeira e correu 
atrs imediatamente. Eu estava petrificado a cadeira, e petrificado fiquei. 
Observei Isabela gesticulando ao mesmo tempo em que falava com ele.
 Pastor, ns temos que orar com o Eduardo! Ele no pode 
testemunhar assim, est bem nervoso, eu conheo ele.  Isabela me 
contou depois qual foi sua "sutil" abordagem.
Ele passava a mo na cabea, num jeito calmo e simples. Foi 
tambm direto na resposta:
 Ah.....! Voc tem razo. Eu me esqueci! Vou reunir o pessoal.
 , faa isso mesmo Pastor, no podemos deix-lo sozinho 
desse jeito. Enquanto o Pastor Dcio ia atrs do grupo de orao, 
Isabela voltou para me chamar. Fez sinal de longe tambm para Marco e 
Karine. Em pouco tempo, enquanto o Louvor continuava adiante, um 
grupo de jovens se reuniu nos pedriscos perto do salo. Seria aquele o 
grupo de orao?!?
 Queria pedir desculpas ao Eduardo porque realmente me 
esqueci de orar junto com ele!
Eu assenti com a cabea enquanto Isabela voltava segurar minha 
mo com fora. Ento oramos todos juntos, pedindo que Deus guardasse 
aquele lugar e usasse a minha vida. E que o diabo fosse impedido de 
agir.
Depois da orao, parece que me senti melhor. Mas eu e Isabela 
ainda estvamos um pouco tensos com aquela iminente exposio. 
Agora... era vai ou racha! Num futuro no muito distante eu comearia a 
aprender que no bastam boas intenes para efetivamente resistir ao 
inimigo.
Realmente testemunhei. Contei algumas coisas, alertei para a 
realidade da ao do inimigo, contei como entrei e como sa da 
Irmandade. Sem usar o nome "Irmandade", me referia como sendo a 
"Seita". Fui falando e, em dado momento, acabei comentando sobre algo 
que, talvez, foi o que causou mais impacto naquela platia.
 A Maonaria  um dos braos do Satanismo.  nem sei como 
cheguei quela informao, muito menos por que usei daquela 
informao.
E na hora nem cogitei que repercusso aquilo teria. A Palavra de 
Deus no volta vazia... embora naquele momento eu estivesse debaixo 
de uma Vontade permissiva de Deus  e no da sua Vontade perfeita  
Ele usou aquele momento para trazer bno. Confrontou vidas... salvou 
vidas... e trouxe revelao quela Igreja!
Depois de mais ou menos uma hora e meia de silncio e ateno 
absoluta, acabei. Eu no sabia o que fazer depois, se devia orar, se 
devia fazer apelo... por sorte o Pastor tomou logo a liderana. Orou, fez 
apelo. E Deus usou aquele momento para realizar muitas coisas.
No resto do dia eu quase no consegui ver a cara da minha noiva. 
E nem ela, a minha. Eu literalmente fiquei envolvido por uma roda de 
pessoas curiosas e cheias de perguntas que me assediavam como 
abelhas em torno de um pote de mel. Isabela foi muito paciente e deixou-
me responder o que podia, alertar, orar... alm de esquivar-me das 
perguntas mais impertinentes e especulativas.
Fomos embora  noite, debaixo de uma chuva calorosa de abraos 
e palavras de incentivo. De repente, eu tinha virado o heri do 
Acampamento. Gostei do carinho, fazia muito tempo que as pessoas no 
me tratavam daquele jeito. Sei que havia muita carncia na minha alma. 
Eu queria um grupo, precisava de um grupo! Isso fazia com que muitas 
vezes eu confundisse as coisas e aceitasse quase ser sugado vivo pelos 
outros. Especialmente Isabela, neste aspecto com os ps mais no cho 
do que eu, saiu um pouco cansada de tanto as pessoas correrem atrs 
de mim.
Durante a viagem de volta fomos conversando, animados com o 
que Deus tinha feito.
 Acho que eu devia retomar a escrita do nosso livro, n, Edu?  
perguntou ela.  Voc j parou pra pensar que talvez Deus tenha um 
Ministrio pra voc?
Suspirei:
 Pode at ser. Mas, da minha parte... eu no quero Ministrio 
nenhum, no! Minha vida est boa do jeito que est!
 Se Deus te chamasse para o Ministrio hoje voc no ia querer, 
ento?
  uma pergunta difcil de responder. Mas se dependesse de 
mim  hoje!  eu no queria. No estou preparado pra isso.  uma 
coisa diferente, uma coisa nova. Mas a princpio... eu no quero!
 ... se Deus quiser isso vai ter muito o que trabalhar primeiro. 
 ela tambm suspirou um pouco.  Mas sabe que eu no vejo isso 
com maus olhos? De repente... vai saber, n?
"Ela diz isso porque no sabe bem do que est falando...", pensei 
comigo mesmo.
E nem toquei mais nesse assunto. Voltamos para So Paulo e 
para nossa vida. Agora era retomar o dia-a-dia, o trabalho, os afazeres 
de sempre.
* * * *
Captulo 9
Em poucas semanas acabamos sabendo o que vinha rolando 
naquela Igreja depois do meu testemunho. Nem sei bem quem falou, ou 
como a informao chegou at ns.
Creio que foi mais ou menos na poca da Pscoa. Naquele feriado 
ns resolvemos fazer o curso de "Batalha Espiritual a Nvel Estratgico" 
que nos foi indicado pela Grace.
Isabela no sabia exatamente o que queria dizer aquela expresso 
toda, mas estava empenhada em me ajudar. E como o incentivo tinha 
vindo da prpria Grace  que at estaria presente no evento de quatro 
dias  ela insistiu bastante comigo.
 Ns precisamos aprender mais.
 Vai ser aquela canseira! O curso dura o dia inteiro, e so quatro 
dias...
 Melhor nem pensar nisso. Se a gente ficar pensando que temos 
que trabalhar na segunda-feira nem vamos descansar no feriado... 
melhor no ficar pensando! Vamos fazer e pronto!
Ento fizemos a inscrio para o curso que seria dado, na maior 
parte, por um preletor internacional. O programa foi mesmo bem puxado, 
da manh at altas horas da noite.
Resolvi entrar em contato com o Pastor Dcio, afinal no era ele 
que estava procurando saber mais justamente sobre Batalha Espiritual? 
Liguei e convidei-o para vir. Marco j estava no exterior, mas Dona 
Mrcia concordou em hosped-lo.
E ento ele veio. Todas as manhs, bem cedinho, ns saamos os 
trs juntos para o curso, no centro da cidade. Geralmente Isabela dirigia 
e Pastor Dcio ia conversando comigo, emendando um assunto no outro. 
Ele era extremamente falante. Falava at demais, inclusive no meio das 
palestras, desviando a minha ateno.
J acostumada s aulas da Faculdade, Isabela se mantinha 
concentrada o tempo todo. Alguns aspectos da abordagem daquele 
assunto a tinham fascinado, especialmente a vasta bagagem daquele 
preletor que conhecia culturas e culturas em todo o mundo.
Acho que Pastor Dcio no escutou muito. Volta e meia Isabela 
fazia um leve comentrio:
 Ssshhhhh!..
A viso daquele homem era interessante, parecia conhecer bem o 
mundo espiritual povoado pelos demnios. Era o primeiro que sabia 
melhor do que falava, o primeiro que eu percebi ter uma viso com um 
pouco mais de alcance. Isabela comeou a entender como demnios 
podem infiltrar-se numa cultura, como podem dominar um territrio. At 
ento, esse tipo de informao era totalmente novo para ela.
Mas no para mim... espantei-me que aquele homem pudesse 
saber daquelas coisas!
Isabela anotou tudo o que foi possvel, e at emprestou suas 
anotaes para que o Pastor Dcio copiasse o que ele tinha perdido 
enquanto conversava.
Mais tarde comentou comigo sobre o seu entusiasmo com o 
assunto:
 Interessante o que ele comentou, no acha?
 O mais interessante  como eles sabem disso.  retruquei. Ela 
pegou a afirmao na unha:
 Como assim?! O que voc quer dizer com isso? Quer dizer que 
ele est certo no que disse?!
Isabela era esperta! Desconversei um pouco, sorrindo.
 ... ele falou com propriedade. Nunca vi nenhum Cristo que 
tivesse uma viso assim dessa questo dos demnios territoriais. 
Realmente... ele acertou muita coisa!
Eu ainda conhecia pouco a maneira de Deus agir, pois sempre 
estive dentro de Igrejas tradicionais e sem viso de Batalha Espiritual. J 
no questionava o fato de que Deus era o Criador de tudo, portanto 
muito mais Poderoso do que o diabo. Mas eu no entendia ainda como  
que Deus se comunicava com seus filhos.
 Bom, no  s o diabo que fala com os seus seguidores, n? 
Tal seria! Deus tambm fala! E tambm traz revelaes. Ele no 
"acertou" pura e simplesmente, como se tivesse adivinhado. Talvez pela 
primeira vez voc esteja tendo contato com lderes que realmente ouvem 
a voz de Deus e recebem informaes valiosas do Esprito Santo  falou 
Isabela espevitada.
 . Realmente  algo novo. Ele no podia ter adivinhado. De 
fato... ele acertou em muita coisa!
* * * *
Alm de gostar muito do curso, foi a que ficamos sabendo o que 
tinha acontecido na Igreja.
Ali havia uma aliana com a Maonaria! O Pastor titular era 
Maom, bem como grande parte da liderana. Como eu tinha falado 
sobre a relao entre Satanismo e Maonaria, ainda que sutilmente, 
aquilo acabou caindo como uma bomba no meio daquele povo.
Burburinhos cada vez maiores e uma grande desconfiana 
comearam a se alastrar.
Mas a coisa no parou por a.
Embora essa no fosse a viso geral da Igreja, muita gente 
comeou a perceber que Luz e Trevas no podem estar misturadas.
Vieram  luz as bases em que aquela Igreja era conduzida pelo 
Pastor Maom. Realmente havia um grande jugo. Por exemplo, no 
havia mais reunio de orao. Afinal...
"Orar para qu? Deus  Pai e sabe do que precisamos."
Esse foi o argumento do Pastor para acabar com a reunio. Os 
jovens reuniam-se na casa de um membro abastado financeiramente 
toda semana... e que era Maom.
O lder do Louvor... era Maom tambm. Havia Maons entre os 
presbteros e entre os membros. As mscaras comearam a cair. Ficou 
claro para muitos que aquilo no podia continuar. Tudo bem que os 
Maons assistissem ao Culto, afinal podiam converter-se dessa maneira. 
Mas da a exercer aquela enorme quantidade de cargos de liderana... 
isso era completamente fora do propsito de Deus.
At a, tudo bem. O problema era que no se podia destituir 
ningum porque no havia Poder para isso. O Pastor titular ainda tinha a 
supremacia. Os meses foram passando.
Marco, que veio nas frias do meio do ano, conseguiu convencer 
uma parte dos jovens a comear uma viglia de orao uma vez por 
semana. Ele mesmo encabeou a lista e foi o grande incentivador do 
projeto. Realmente a viglia comeou a acontecer na casa de algum, e 
estavam firmes. Apesar das perseguies e insinuaes dos Maons, 
que no estavam gostando nem um pouco da situao.
Marco leu sobre Maonaria e montou uma apostila sobre o 
assunto. Levou e distribuiu ao pessoal da viglia. Ver como funcionava a 
Maonaria s fez com que eles se empenhassem mais.
Montes e montes de sujeira comearam a aparecer, Ministrios e 
lderes totalmente contaminados e vinculados com o pecado por anos a 
fio. Mas enfim... uma vitria! O Pastor titular acabou sendo deposto pelo 
Conselho e o Pastor Dcio assumiu o seu lugar em um ano.
Mas as retaliaes vieram muito pesadas, de todas as formas.
E a verdade  que eles no conseguiram segurar o rojo. No se 
submeteram a Deus. Talvez tenham dado a luta por encerrada uma vez 
que o Pastor Dcio assumiu o cargo. Mas a guerra mal tinha comeado, 
havia tanto a fazer.......
Vrias vezes falamos para o Pastor Dcio convidar a equipe da 
Grace para visitar sua Igreja e ajud-los na libertao. Mas no parecia 
haver interesse. Eles foram alertados vezes sem conta durante todo o 
processo, que foi moroso e cheio de detalhes. Mas infelizmente faltou 
pulso firme e vontade de fazer a Vontade de Deus.
A reunio de orao acabou por desfazer-se, os jovens voltaram a 
reunir-se na casa do tal "irmo" Maom. O Pastor Dcio sofreu ameaas, 
seu filho teve um acidente e foi operado. E ele acabou com medo de 
continuar confrontando os Maons.
Alm do que, como ir contra eles? Eram os mais bem dotados 
financeiramente falando. E ele no confiou que Deus o honraria no final 
daquela luta. Ficou em cima do muro, tentando agradar a gregos e 
troianos. Isso tudo acabou fazendo com que o seu corao se 
contaminasse, e ele perdesse o prumo da viso.
Aquele estado de coisas tambm no durou muito. No adiantou 
tentar colocar panos quentes naquele vespeiro em polvorosa. A Igreja 
rachou, perdeu membros e ficou pior do que antes. O Culto continuou 
frio, amarrado e terrvel.
Deus havia trazido toda a podrido  tona. Era papel deles 
entristecer-se com aquilo, pedir perdo e colocar todo o lixo do diabo 
para fora. At mesmo aquele Templo aonde eles se reuniam estava 
cheio de smbolos Maons espalhados por todo o recinto. J tinha sido 
construdo com aquele propsito. Toda sua fundao estava 
contaminada.
Mas nada foi feito. Uma pena.
A verdade  que, quando Deus revela os intentos ocultos do 
maligno, o inimigo se enfurece. Vem uma luta terrvel, um confronto de 
foras. E  nesse perodo em que temos que nos submeter 
completamente  vontade e direo de Deus.  tempo de confessar o 
pecado e abandon-lo, de fechar as brechas.
O pecado revelado e no devidamente tratado traz derrota e 
desgraa.
* * * *
Quanto a ns... depois que esbarramos naquela Igreja mais do que 
contaminada, e sem querer cutucamos o ninho das vespas... quando os 
abalos comearam a repercutir... chegaram, sem dvida, at ns. Mas 
levaria ainda algumas semanas. Depois da Pscoa eu e Isabela 
estvamos decididos a encontrar uma nova Igreja. No era possvel que 
ficssemos soltos por a? ns tnhamos comentado com Grace a respeito 
da posio dos nossos Pastores, um pouco contra tudo aquilo que 
estvamos aprendendo.
 ....  fez Grace devagar.  Vocs no podem mesmo ficar 
perdidos por a, vocs tm que fazer parte de um Ministrio que est 
engajado em Batalha Espiritual.
Ela parou e pensou um pouco. Grace conhecia uma quantidade 
enorme de Igrejas!
 Por que vocs no vo visitar a Igreja do Pastor Joel? Ele no  
o titular, mas  um guerreiro! Tenho muita expectativa nele, Eduardo 
precisa de algum que o acompanhe de perto... algum ombro a ombro. 
Acho que ele  a pessoa certa, e tambm fica bem fcil pra vocs, a 
Igreja  perto de onde vocs moram.
Eu e Isabela ficamos animados porque de fato aquela Igreja ficava 
a meio caminho entre a casa dela e a minha. Era de muito fcil acesso! 
Achamos que aquela indicao tinha sido preparada por Deus.
Certo domingo do ms de abril resolvemos ento dar um pulo at 
l. Na "Comunidade Evanglica Nova Videira".
Chegamos quando o Louvor estava comeando. Era uma igreja 
mais ou menos do mesmo porte da nossa, com mais ou menos a mesma 
quantidade de membros e do mesmo poder scio-econmico. Gostamos 
muito do Louvor e tambm da pregao. Estvamos curiosos em 
conhecer o Pastor titular e fazamos imagens dentro da nossa cabea.
Quando efetivamente ele apareceu, e pregou, superou nossas 
expectativas. Trouxe uma Palavra bastante abenoada! Naquele dia 
ainda no descobrimos quem era o Pastor Joel, mas no faltaria 
oportunidade. Ento comeamos a freqentar aquela Igreja durante 
algumas semanas.
Ao final delas, estvamos satisfeitos. O Louvor era gostoso, a 
Palavra era edificante... apesar de ainda no conhecermos ningum, 
resolvemos realmente ficar por ali!
Eu estava sentindo falta dos amigos que tinha deixado na outra 
Igreja. Mas sabia que era fundamental estarmos num lugar com outra 
viso... os novos amigos haveriam de vir. Quem sabe no estava 
chegando o tempo de pertencer quele novo grupo? Aquele grupo que 
eu tanto almejava, um grupo de apoio?
Enquanto isso no acontecia, Isabela e eu fomos atrs de dois 
lderes que ela conhecia. Um era Pastor da Igreja de Dona Mrcia, e 
outro era Missionrio da JOCUM. Hoje ficamos pensando porque fizemos 
isso...
Na nossa alma parecia haver uma certa urgncia, uma 
necessidade grande de falar com algum. Eu compartilhei a periferia da 
minha histria com eles, uma pontinha de nada. Me receberam bem, 
escutaram, oraram conosco, incentivaram... foram muito solcitos e 
amorosos! Mas a verdade  que ningum sabia dizer algo alm do que 
eu estava acostumado a ouvir. Eu conhecia as promessas da Bblia, e 
sabia do Poder maior de Deus. Mas queria tanto escutar alguma outra 
coisa!
Eu tinha visto Grace duas ou trs vezes, e havia passado por uma 
Ministrao. Apesar de aquilo ser fundamental, era pouco para a minha 
alma. Precisava muito de outras pessoas perto de mim! Ah, meu Deus, 
como precisava! Grace estava sempre viajando, ela no podia "tomar 
conta" de ns.
 difcil explicar... mas eu sentia alguma coisa diferente no ar... 
sentia cheiro de fumaa no ar! Mais ou menos como se houvesse algum 
 espreita, e eu estivesse vulnervel... e a qualquer momento um golpe 
pudesse ser desferido contra mim, e acabasse comigo. No era 
exatamente uma sensao na alma... ia alm disso, parecia ser uma 
percepo alm do natural. Havia alguma coisa que eu no sabia dizer o 
que era, nem o que poderia me fazer... por perto!
No me lembro de ter comentado estas impresses com Isabela, 
mas creio que ela tambm no se sentia em paz. Assim como eu, no seu 
ntimo havia um sinal de alerta, um sinal de perigo, um sinal de fogo. 
Tanto  que partiu dela a sugesto de procurar aqueles lderes.
No fundo, no fundo da nossa alma havia uma necessidade. A 
necessidade de escutar de algum que "tudo daria certo", mas no de 
uma maneira simplista. Havia uma ameaa de morte que pairava no ar, 
havia um decreto... ns dois no falvamos muito sobre isso, mas aquilo 
incomodava.
"Voc no vai completar 33 anos de idade....."
Eu me julgava escondido. Mas, e se algum dia eles me achassem? 
Eu estava tendo que falar algumas coisas, por mais que fossem coisas 
sem muita importncia, e se um dia eles me encontrassem?! No haveria 
escapatria possvel... eu conhecia o Poder do Encantamento!
Por isso, e por muito mais, ns queramos estar dentro de um 
peloto do Exrcito de Deus. Dentro dele estaramos seguros... mas, 
fora... fora no h proteo! No obstante, parecia estar demorando 
muito para encontrar aquele peloto! Fazer parte dele!
J fazia algumas semanas que estvamos freqentando a nova 
Igreja.
"Mas ainda no conhecemos ningum...", e aquilo me incomodava.
s vezes, em casa de minha me, costumava descer at o poro 
para fazer alguma coisa, para pegar um livro ou outra coisa qualquer, e 
me sentia mal ali embaixo. Era como se Abraxas estivesse me olhando, 
me observando. Ele no aparecia, no se materializava... mas eu me 
sentia observado.
"Ser que isso  coisa da minha cabea?..."
Nesse tempo eu no sabia conceituar o que era uma opresso, 
no tinha idia do que fosse isso. Tinha poucas ferramentas para usar 
em prol de mim mesmo no Reino Espiritual.
Mas aquela sensao continuava, eu sentia que ele estava ali. De 
repente, agora era como se eu no fosse mais bem vindo quele lugar, 
dentro da minha prpria casa! Fosse persona non grata l dentro.
Uma sensao esquisita...
Fora isso, algumas vezes aconteciam outras coisas que me davam 
a impresso de "cheiro de fumaa". De haver algo esquisito no ar...
A primeira delas, se bem me lembro, foi em junho.
Ia haver uma festa especial da Empresa para comemorar o dia dos 
namorados. Seria no Club Hom's, na Avenida Paulista, e os convites j 
estavam  venda. To logo soube do evento  que o Club Hom 's seria 
fechado para os funcionrios da minha Empresa  fiquei entusiasmado. 
Mais por Isabela do que por mim. Eu ainda me lembrava das aulas de 
dana que ela quase que tinha me "obrigado" a freqentar.
No tinha dado muito certo, na poca, por motivos bvios: no 
conseguia ver Isabela danar com mais ningum que no fosse eu. 
Mesmo assim, eu tinha aprendido os passos bsicos de vrios ritmos. 
Isso queria dizer que ns podamos nos divertir bastante!
Cheguei para contar a novidade, todo animado:  Olha s, "M"! 
Vai ter um baile dos namorados no Club Hom's!
Isabela se interessou de imediato.
 Srio, ? Puxa vida, que legal!
  s para os funcionrios da Empresa. Voc vai querer ir?
 Puxa, mas nem! A gente podia tambm chamar mais algum, 
mais algum casal. Quem sabe a Mayra no est a fim de ir?
 E quem a gente chama pra fazer par com ela?
Mayra no estava mais namorando com Walter. Ento Isabela 
sugeriu:
 Ser que o Alberto no gostaria? Ele tambm gosta de danar!
 Ento vou convid-lo! Voc chama a Mayra.
Isabela ficou bastante feliz com a oportunidade, e embora danar 
no fosse a mais prazerosa atividade para mim, fiquei contente em poder 
fazer minha noiva contente. Assim combinados, entrei logo em contato 
com Alberto. Isabela fez o mesmo com a Mayra.
Como os dois toparam o programa, comprei os convites.
Da ficamos fazendo planos para a grande noite.
 Vai ser um baile de verdade mesmo! No vai ser discoteca, vai 
ser dana de salo. Bem do jeito que voc gosta, hein, menina?!
 Pois , j faz tempo que a gente no arruma um bailinho na 
casa da Mayra, agora esse veio de encomenda!
 Todo mundo vai. Todo mundo do meu departamento.
Assim ficamos esperando pela data. Ia cair numa sexta-feira, dia 
13. Data sugestiva para os supersticiosos! Mas no para a gente, era s 
mais uma sexta-feira como outra qualquer. Naquela poca do ano j 
estava fazendo um friozinho, ia ser gostoso sair  noite.
Fui para o servio na sexta-feira como fazia todos os dias, ia de 
nibus fretado. L pelo meio da manh liguei para Isabela no seu 
servio. Ela entrava bem cedinho, s sete horas, mas depois das nove j 
estava mais livre.
 Oi, Gatinha! Bom dia! E a, como  que est o trampo?
 Oi, Nen, t tudo bem... o pessoal j t comeando a ficar 
gripado, sabe como que , n? E voc?
 Aqui tudo normal, hoje foi dia de reunio logo cedo. Aquela 
histria do RDF!  dei at umas risadinhas.  Meu chefe quer atingir a 
meta de qualquer jeito neste ms! Hoje  dia de "vamos l"!
 Vocs e essas metas que nunca do certo...
 T animada pro baile?
 Com o baile eu estou, e voc? Descansou bem  noite? Hoje o 
Nen vai ter que danar muuuito com a Gatinha!
 O Nen vai danar, fica tranqila, Gatinha! Mais tarde te ligo na 
sua casa, pra gente combinar melhor o horrio. Combinei com o Alberto 
na porta do Club.
 T bom, Nen... deixa eu desligar que tem ficha aqui...  Fal, 
"M"!
O restante da manh transcorreu sem novidades. Veio a hora do 
almoo, mais ou menos meio-dia. Descemos todos, almoamos, 
descontramos. Eu subi um pouco antes dos meus colegas ao 
departamento para fazer umas coisinhas.
Logo eles vieram entrando. A um deles olhou para mim e falou:
 Sua cara t esquisita! T vermelha!
O pessoal do meu departamento tinha o hbito de tirar sarro de 
tudo. Por isso, no liguei para o comentrio:
 E da?
 No, no  brincadeira... sua cara t vermelha mesmo, t meio 
empipocada. Um outro concordou com o primeiro:
  mesmo, Mastral! Vai dar uma olhada no banheiro.
Parecia que eles estavam falando srio, ento fui ver. Olhando no 
espelho, percebi que minha pele apresentava uma reao parecida com 
urticria. S no rosto e no pescoo.
"U... que negcio mais estranho... ser que estou com alguma 
alergia?"
Relembrei mentalmente se tinha passado alguma coisa diferente 
no rosto. No tinha. Eu estava usando os mesmos cosmticos e as 
mesmas roupas de sempre.
"Bom, acho que vai passar sozinho".
Voltei para o setor e continuei trabalhando normalmente. L pelo 
meio da tarde, embora me sentisse bem, a tal reao no melhorou.
Um dos meus colegas me olhou melhor.
 Gozado... voc no estava assim h pouco tempo. Parece que 
est mais vermelho ainda... ser que foi alguma coisa que voc comeu?
 Acho que no. No deu nem tempo de absorver a refeio e j 
tinha aparecido isso. O pessoal notou logo que subiram do refeitrio!
 Se voc no melhorar, d um pulinho at a enfermaria! Mesmo 
assim, no quis dar o brao a torcer.
 Ah, no deve ser nada! Acho que j, j passa.
No paravam de comentar. Quem passava perto dava o alarido 
aps olhar para mim rapidamente:
 Eduardo, seu rosto est todo vermelho! Voc est se sentindo 
bem?
 A bem da verdade, at que estou... s est meio calor aqui, 
no?
 Nossa, vai at  enfermaria! No fica aqui desse jeito, d uma 
passadinha no Mdico.
Ento acabei concordando. No estava melhorando, o que seria 
aquilo? Meu chefe nem estrilou, apesar do RDF e das metas, e me 
mandou  enfermaria. O Mdico no estava naquele horrio, mas a 
enfermeira me garantiu que ele chegaria logo.
 Ser que voc est com sarampo?  indagou ela.
 No estou sentindo nada. No pode ser sarampo!
Subi para o departamento outra vez sem dar maior ateno para 
aquilo. Eu no estava me sentindo mal, no podia ser nada grave. Voltei 
mais tarde para falar com o Mdico.
Logo de cara ele achou que podia ser uma reao alrgica. Mas, 
ao verificar a temperatura, descartou a hiptese. Eu estava com febre de 
39.
 Mas eu estou me sentindo bem! S est meio calor.
 Deixa eu ver a sua garganta. Hummm...  ele me olhou de 
volta.  Sua garganta est tima! Esse rash cutneo, com essa febre, 
bem podia mesmo ser um sarampo at mesmo uma rubola. Mas voc 
s tem leses no rosto, teria que estar aparecendo no corpo todo. Essas 
doenas infantis, quando acontecem no adulto, so at que bem floridas, 
voc ia ficar cheio de gnglios... estaria com a garganta ruim... se fosse 
sarampo ia aparecer uma leso caracterstica na garganta. Esquisito! Por 
outro lado, reao alrgica no d esse febro. Voc tem certeza que 
no passou nada diferente no rosto?
 Certeza absoluta! No fiz nada de diferente...
 Muito menos foi o almoo, no?
 Acho que no... todo mundo comeu a mesma coisa, no tinha 
nada de especial... e assim que subi para o departamento j estava com 
o rosto assim.
Ele me examinou muito bem e me encheu de perguntas. No final, 
com um sinal de interrogao no semblante, apenas medicou a febre e 
explicou:
 Tem coisas em Medicina que a gente no consegue explicar 
bem. O seu quadro  estranho, no parece ser alrgico, mas tambm 
no d para a gente afirmar que  uma doena infecciosa. Vou te 
dispensar hoje, e se voc no melhorar... a gente investiga melhor.
Voltei para minha sala pensativo.
Por dentro parecia que alguma coisa me incomodava. Aquele 
versculo do Salmo 91, o que fala sobre "a seta que voa ao meio-dia", 
ecoava no meu esprito.
No dei ateno. Aquilo no tinha o menor senso, a menor lgica!
"Seta que voa ao meio-dia..."
No gastei mais do que alguns segundos lembrando daquilo, eu 
conhecia aquele demnio, era familiar para mim. Trata-se de um 
Principado forte... mas por que eu estaria sendo vtima de um 
Encantamento, se eles no sabiam onde eu estava?...
No orei, recusei-me a pensar naquilo. E, uma vez de volta ao 
departamento, tratei de cuidar dos meus afazeres. Logo era hora de ir 
embora e Isabela viria buscar-me, portanto nem iria usar o atestado 
Mdico.
"No est melhorando... eu queria que melhorasse... hoje  sexta-
feira, dia 13, mas... no! Me recuso a aceitar essa hiptese!"
Mesmo assim, aquela histria de "seta que voa ao meio-dia" 
continuava na minha cabea.
Quando deu o horrio de sada, desci e Isabela j estava parada l 
na frente, dentro do fusquinha. Assim que abri a porta e ela olhou para 
mim, notou as leses.
 Nen! O que voc fez no rosto?  Nem eu sei...
Ela se inclinou para olhar melhor.
 Parece urna reao alrgica...
Fui explicando tudo para ela enquanto pegvamos a Marginal. 
Quando acabei de falar, Isabela indagou logo:
 E voc orou? Orou depois que lembrou do versculo?  No.
 Mas, Nen... puxa... voc devia ter orado! Voc passou a tarde 
toda assim, e nem sequer colocou isso para Deus? E se for mesmo um 
ataque?
 Ah. No orei...
Mais tarde ns dois oramos juntos porque Isabela fez questo. Eu 
no estava no melhor da minha forma fsica, mas mesmo assim fomos  
festa. Embora Isabela estivesse preocupada com meu estado de sade, 
eu no quis frustr-la e nem desmarcar com os nossos amigos.
 Eu estou bem!
 Voc tem certeza? A gente pode no ir!
 No, no... estou bem.
A festa foi boa, deu pra gente danar bastante, dar umas boas 
risadas junto com Mayra e Alberto. Mas aquilo ficou na minha cabea.
"Ser...?"
Algumas datas so mais fortes do que outras para demnios 
atuarem, alguns horrios tambm. Se eu fosse levar em conta a 
Numerologia, uma sexta - treze tinha um contexto espiritual mais forte do 
que uma outra data qualquer...
O fato  que no dia seguinte a reao j era praticamente 
inexistente. Parecia que eu tinha tomado um banho de sol. No outro dia 
no tinha mais nada.
Se este fosse um fato isolado, no daria maior importncia a ele. 
Mas a verdade  que nas ltimas semanas eu e Isabela comeamos a 
ter estranhas brigas, sempre nos finais de semana. Isso no era comum. 
Durante a semana, quando havia pouco tempo para estarmos juntos, 
tudo corria s mil maravilhas. Mas nos fins de semana, quando era 
tempo de relaxarmos nossa cabea, brigas aconteciam e nos roubavam 
a paz. O descanso era prejudicado de uma forma tremenda.
Nossa sade estava sempre abalada por gripes que se sucediam. 
Volta e meia eu comecei a ter dores de estmago fortes e inexplicveis.
Aquilo parecia mais do que coincidncia.
Mas ns no pudemos, naquele momento, fazer qualquer tipo de 
associao destes fatos com o evento do testemunho que dei no 
Carnaval. Afinal, fazia quatro meses que tinha acontecido! Quem ia 
pensar nessa associao?!
Acho mais plausvel acreditar que tenha sido uma somatria.
Primeiro, claro, houve a minha Ministrao com a Grace, no final 
do ano passado. Sem dvida alguma aquelas renncias, confisses e 
oraes de guerra tinham causado seu abalo no Reino Espiritual.
Depois, aquele testemunho que acabou trazendo revelaes 
importantes para uma Igreja no podia ser desconsiderado.
E ainda, em terceiro lugar, Deus nos havia mostrado nossa nova 
Igreja. Agora estvamos freqentando um lugar aparentemente bem 
diferente daquele de onde tnhamos vindo.
O Reino das Trevas comeou a mover-se. Mas... eu no estava 
escondido?...
Se ns tivssemos nos limitado a participar da Ministrao e ido 
em busca de uma nova Igreja, creio que Deus talvez nos tivesse mantido 
escondidos por mais tempo. Mas a precipitao em testemunhar, em 
fazer aquilo que Deus no tinha mandado fazer, acabou sendo a brecha 
para que a Irmandade me localizasse.
O entendimento destas coisas demorou a vir. Na verdade, s veio 
muito tempo depois. As coisas comearam a acontecer, mas, enquanto 
aconteciam, mais assemelhavam-se a fatos isolados, coincidncias, 
acasos... nada que ns enxergssemos como fazendo parte de um todo, 
de um processo novo que comeava em nossas vidas.
Ns no estvamos entendendo nada. Muito menos associando 
isso a alguma espcie de ataque do inimigo.
Mas a aconteceu um fato novo.
* * * *
Era um comeo de noite, Isabela e eu entramos no Fran 's Caf 
para fugir do ventinho gelado do comeo do inverno. A gente adorava ir 
l para tomar capuccino e comer po de batata.
Nada tinha acontecido de especial naquele dia, mas eu me sentia 
um pouco estranho, meio apreensivo. Isabela costumava notar essas 
mudanas de humor com facilidade porque no faziam parte do meu 
temperamento cotidiano.
Normalmente eu estava alegre, brincando. Mas j fazia algum 
tempo que estava mais calado, introspectivo, meio alheio a tudo. Desde 
a tarde que vinha assim.
Isabela estava falante enquanto desembrulhava uma das 
mentinhas de chocolate que acompanhavam o caf. Estvamos 
sentados numa mesinha perto da porta e dali dava para perceber o vento 
que agitava tudo  volta. Talvez chovesse mais tarde. Na avenida Heitor 
Penteado o fluxo de automveis e coletivos iria at tarde.
 T tudo bem mesmo, Nen?  perguntou Isabela mais uma 
vez. Ela j havia perguntado vrias vezes.
Olhei para ela, notei seu rosto apreensivo. Naquele dia Isabela 
usava um casaco jeans por cima da roupa branca que lhe dava um ar 
despojado. Dessa vez, demorei um pouco mais na resposta.
 No sei... hum.....Gatinha.  olhei em derredor sem entender 
direito aquela sensao que me assaltava to de repente.  Eu acho 
que preciso telefonar para a minha casa agora.
Naturalmente que ela no entendeu o meu senso de urgncia, mas 
continuou sentada na mesinha enquanto eu caminhei rapidamente em 
direo ao telefone pblico ali no canto.
Aquela sensao que tinha me invadido de repente, enquanto eu 
tomava o meu caf, era algo totalmente diferente de tudo que eu j tinha 
sentido. Que seria aquilo, meu Deus?!! Parecia que uma luz vermelha 
tinha acendido dentro de mim, um sinal de alerta.
Foi mais ou menos como se eu pudesse pressentir um perigo no 
ar, mas no da maneira humana. Todo mundo j teve um pressentimento 
pelo menos uma vez na vida, isso  uma caracterstica da alma humana. 
Mas no era um pressentimento daquele tipo, no era o tal do "sexto 
sentido". O ser humano liga seu sistema de alerta quando os seus 
sentidos fsicos percebem o perigo  volta. Por exemplo, na iminncia de 
um acidente, todo mundo  capaz de antecipar que algo ruim vai 
acontecer.
Mas no era isso. De alguma forma que no poderia explicar, eu 
estava captando aquela iminncia de perigo, mas no sabia qual dos 
meus sentidos estava sendo usado para me trazer aquela informao. 
Podia realmente pressentir o perigo, mesmo sem v-lo. No era uma 
sensao vaga, antes bastante intensa, bastante certeira. E tinha certeza 
daquilo, de alguma maneira eu tinha certeza absoluta... mas no era uma 
informao que vinha da minha alma; vinha do meu esprito, mas eu no 
sabia disso ainda.
No tinha idia, nunca tinha ouvido falar e muito menos sabia o 
que era o discernimento espiritual. Por isso nem pensei nisso, sequer me 
passou pela cabea que Deus pudesse estar me dizendo algo, 
sinalizando algo.
Ento liguei, falei com minha me. Voltei para nossa mesa em 
poucos minutos. Isabela se assustou com a expresso do meu rosto. Era 
difcil falar qualquer coisa, ela notava que eu estava diferente, alguma 
coisa dentro de mim alterou minhas feies.
 Est tudo bem?  perguntou ela meio preocupada.  O que 
aconteceu? Aconteceu alguma coisa?
No respondi de imediato. Peguei o cardpio nas mos somente 
para ter o que pegar.
 Eu j te explico. Deixa s eu metabolizar um pouco...
 Meu Deus, aconteceu alguma coisa ruim?!
 No, no... s foi.... diferente,  isso. Foi uma coisa diferente!
Ela me deixou comigo mesmo por um tempo, pedimos outros 
capuccinos. Isabela, apreensiva com o que poderia estar ocorrendo, no 
agentou e perguntou de novo.
 Mas o que aconteceu, Edu? T tudo bem mesmo?! Me conta o 
que est acontecendo, vai... desse jeito no consigo nem aproveitar o 
caf!
Ento falei. Mas devagar, escolhendo as palavras, um pouco 
confuso ainda com o que tinha acontecido.
 Eu no sei te explicar bem o que foi. Mas logo que a gente 
entrou aqui, fui invadido por uma sensao diferente. Como se algo me 
dissesse que eu tinha que ligar pra casa.
 Como assim?!
 No sei explicar. Uma sensao... como se algum me 
dissesse: "Liga pra casa... tem algo l que voc precisa saber agora".
Era isso mesmo. Aquela sensao me mostrava, alm do perigo, 
que havia algo na minha casa que eu precisava saber naquele momento.
 Mas quando foi isso, foi aqui mesmo?
 Isso. Aqui mesmo, quando a gente entrou. A prxima pergunta 
dela era bvia:
 Bom.... e tinha algo que voc precisava saber?
Balancei afirmativamente a cabea. Nem eu conseguia entender 
aquilo, tinha acontecido comigo, mas eu no sabia explicar como tinha 
acontecido!
 Tinha mesmo.  E o que era?!!
 Uma carta. Tem uma carta pra mim l. Chegou hoje. Uma carta 
dos Estados Unidos.
Fiquei mudo e ela tambm. Isabela no queria perguntar mais 
nada embora dessa vez fosse a sua vez de mudar a expresso do rosto. 
Acompanhei seus pensamentos:
"S tem um lugar de onde pode ter partido essa carta...".
Mas eu no queria aceitar de imediato a hiptese.
.  E voc conhece algum nos Estados Unidos...?  perguntou 
Isabela, apenas por perguntar.
Ns dois nos entreolhamos desconfortavelmente. Eu ainda tentava 
filtrar tudo aquilo, no conseguia entender, por que eu tinha ficado 
sabendo da carta antes de ver?
 Bem... algum, no.
Isabela suspirou de leve, cheia da mesma sensao de mal estar 
que tambm teimava em invadir-me:
 Eduardo, no vai me dizer que isso a  da Church!  exclamou 
ela.
 Pois , acho que , sim. Minha me leu no envelope que veio 
de So Francisco. Ela no sabia o que dizer. Nossos capuccinos jaziam 
esquecidos sobre a mesa.
 Mas por que isso agora, meu Deus? Por que ser?!
 No sei. Mas olha, no vamos pensar nisso. Vamos tomar o 
nosso caf e depois ficamos sabendo.
Mas ela no conseguia parar de conjeturar a respeito.
 E como ser que voc ficou sabendo antes de ver carta? Ser 
que foi mesmo Deus que avisou?
 Eu no sei o que pensar, Isabela. Depois pensamos nisso. No 
deve ser nada de importante.  e eu sorri procurando tranqiliz-la.  
Agora vamos aproveitar o nosso caf!
"Ser que  Deus falando comigo?"
Mas no imaginava que Deus pudesse falar daquela maneira. 
Ento, naturalmente... no tinha sido Deus! Tinha sido um 
pressentimento, apenas isso. A gente sempre escuta aquela coisa das 
pessoas falando: "Estou tendo um mau pressentimento". Isso  fato,  
comum!
Era isso.
Mas aquela sensao indistinta e totalmente mpar que tive, pela 
primeira vez naquela noite, viria a confirmar-se vez aps vez. Foi a 
primeira manifestao do Dom de Discernimento que o Senhor estava 
me dando. Ns viramos a precisar disso no futuro!
Como no adiantava mesmo ficar pensando naquilo, acabamos 
por deixar de lado o assunto. Era melhor aproveitamos o momento de 
descontrao um com o outro.
Quando samos, estava frio e caa uma chuvinha. Isabela me 
deixou em casa, que era bem pertinho dali. Ns nos despedimos com um 
beijo e um abrao. Sempre me olhando significativamente, com um certo 
pesar, Isabela esperou que eu destrancasse o porto antes de acelerar o 
carro. Acenou de longe e certamente foi para sua casa pensando que 
naquele momento eu deveria estar abrindo o envelope que tinha vindo 
dos Estados Unidos.
Foi exatamente o que fiz assim que pus os ps em casa.
Antes disso, perguntei a minha me:
 Est tudo bem?
 T, sim. Por qu?  Ah! Por nada...
E fui direto xeretar na estante onde ficava a correspondncia. 
Assim que olhei o envelope, toda e qualquer dvida que ainda pudesse 
existir no meu corao se desvaneceu. Eu conhecia aquele material, 
conhecia aquele tipo de papel... era um envelope pardo, mais grosso do 
que o convencional e um pouco maior. Num dos cantos estava impresso 
um pequeno logotipo... que eu tambm conhecia...
"Mister Daniel Mastral......hum..."
A primeira idia que me veio  mente foi aquela mesmo: 
"Localizado..."
Mas a pensei melhor, talvez eles estivessem apenas jogando 
verde pra colher maduro. Talvez eles quisessem ter certeza de que eu 
estava morto... porque, no meu corao, eu tinha uma forte convico de 
que realmente eles pensaram que eu estava morto. Eles sempre me 
disseram que os poucos gatos pingados que tentaram escapar da 
Irmandade tinham morrido. O fato de Thalya ter me procurado parecia 
no existir. No fazer diferena. Tinha sido h tanto tempo, uma 
manifestao to isolada...
"Eu sei que eles foram enganados, eu sei que os demnios foram 
enganados e eles pensam que eu morri."
Eu acreditava que, se ficasse quieto, se no falasse nada de 
importante, se no chamasse a ateno de ningum... eles nunca iriam 
me descobrir!
Olhei para o envelope antes de abrir. No adiantava esperar mais, 
rasguei-o e abri. Esperava ansiosamente que fosse um engano, 
esperava que no passasse de um alarme falso.
Mas no era.
Desdobrei o papel parecido com um pergaminho. No alto da 
pgina, o pentagrama. Inspirei fundo. Estava em ingls. Eram frases 
curtas, escritas com letras grandes.
"Por que cargas d'gua eles esto fazendo contato?? Depois de 
tantos anos...!?"
Muito difcil dizer o que senti ao tomar nas mos o contedo da 
carta. O que tanto temi, enfim acontecia. No era como a visita isolada 
de Thalya. Era uma manifestao mais formal. No havia a menor 
sombra de dvida. Eles tinham me encontrado... a partir da, eu sabia, 
era uma contagem regressiva e inexorvel.
Hoje percebo com mais clareza porque Deus me sinalizou antes, 
daquela maneira estranha, fazendo-me sentir o perigo exalando no ar. 
Era porque a carta estava consagrada, aquilo no era somente papel. 
Deveramos ter orado antes. Logo observei aquelas manchas em tom 
marrom, como que respingadas sobre o papel. Eram manchas de 
sangue, eu sabia disso, mas... naquela hora estava perdido! O que 
deveria fazer a respeito?
Nem parei para pensar naquele sangue, muito menos para orar 
quebrando o Encantamento. Alis, eu no sabia como fazer isso, no 
sabia o que fazer para lidar com aquela situao. Eu no sabia como 
lutar! Tudo em que conseguia pensar era aquilo, que eles tinham me 
achado!...
Esforcei-me para tentar entender com rapidez de que se tratava 
aquilo. Estava meio assustado e no conseguia traduzir literalmente, mas 
entendi uma ou outra coisa.
"Deve haver um dicionrio de ingls em algum lugar..."
Enquanto eu procurava, o telefone tocou. Mais depressa do que de 
costume.
Era Isabela que tinha chegado em casa e me ligava 
imediatamente.
 E a? Leu?
 Mais ou menos. Est em ingls.
O meu ingls continuava to bom quanto antes. Isso ... 
continuava pssimo. O dela tambm no era muito bom, mas Isabela 
reclamou, ansiosa:
 L a, ento! Vamos tentar ver o que diz.
Comecei a ler e ela tentava entender. Mas foi impossvel!
Ento ficou para o dia seguinte. Se eu tivesse comentado com 
Isabela sobre as manchas de sangue, sobre a certeza que eu tinha de 
que aquilo estava consagrado, certamente ns teramos orado. Ela tinha 
uma viso a mais de Batalha Espiritual, ela sabia melhor o que fazer, 
pelo menos teoricamente. Mas eu quis poup-la dos detalhes. No 
entanto, todo o meu esforo seria vo, eu queria poup-la de algo que o 
prprio Deus no a pouparia.
No servio, tirei um xrox do pergaminho que exibia o smbolo da 
Alta Magia e passei a cpia para Isabela em casa, por fax. To logo 
traduziu a carta, ela me ligou no servio. Leu o texto todo. O que estava 
escrito queria dizer, em poucas palavras: "Ns te achamos. Ns 
sabemos que voc esta ai."
Depois dessa constatao, procuramos ser otimistas e no nos 
deixarmos levar.
 Em suma...  uma espcie de evocao bem suave do 
passado, voc no acha? Esto sendo bem sutis...  comeou Isabela.
  mais ou menos por a. Nas entrelinhas eles querem tocar no 
lado emocional da coisa e me convencer do quanto errei em abandonar a 
Irmandade. "Abandonei aqueles por quem fui amado... etc. ..etc. .."
 E o Poder que isso representava...
 Muito educadamente esto alertando para eu ficar com a boca 
fechada, no sei se voc percebeu.
 Percebi, sim. "Conservar o silncio  conservar a vida".  no 
era o fim do mundo, ela procurava se convencer disso.  No  
intimidadora s claras, nem grosseira. Eu acho mesmo o mximo essa 
histria de procurarem lembrar do quanto voc foi "amado".  
brincadeira!  a voz dela soava num misto de inconformismo e espanto. 
E completou:  O que eles querem dizer com isso aqui: "Voc se lembra 
daquele dia no Teatro? Aquilo era Poder de fato?" Do que esto falando, 
voc sabe?
 Sei, sei... j nem me lembrava mais. Depois eu te falo, agora 
no d.
 T bom, Nen... mas, olha... no vamos dar bola pra isso, n? 
 ela queria sentir o quanto aquilo poderia ter me abalado a alma.
 Claro que no! Mas o que eles disseram era previsvel.
 Por que ser que fizeram isso?
 No sei.
 E a carta de verdade?
 J joguei fora. Queimei! No queria ficar com aquilo mais 
tempo.
 Puxa, eu queria ter visto.
 Parecia um papiro. Mas no era bom guardar comigo at o fim 
do dia. Essas coisas vm contaminadas!
Isabela ainda no entendia bem o contexto dos objetos 
consagrados e dos Encantamentos. Mas concordou. Embora um pouco 
frustrada. Mais tarde eu lhe explicaria tudo direitinho...
Fiquei pensando muito depois. Eu conhecia a Irmandade. Aquela 
carta parecia muito mais uma advertncia de um amigo, do que uma 
clara ameaa da Organizao. Pensei inclusive que ela poderia ter 
partido do prprio Marlon. O burburinho gerado dentro daquela Igreja 
toda contaminada com Maonaria deveria ter despertado alguma 
suspeita. A que s a alta cpula da Irmandade teria acesso!
A alta cpula da Irmandade me conhecia, e algum deve ter 
percebido que eu estava comeando a "pr as manguinhas de fora". Por 
esse motivo, penso que aquela carta no foi realmente uma ameaa, 
mas uma orientao de um amigo. Um sinal de "tome cuidado".
Hoje eu percebo que de fato Deus tinha me preservado, tinha me 
mantido escondido. Claro, desde que comecei a namorar Isabela que o 
Reino Espiritual estava se movendo, os demnios estavam alertas... mas 
eles no tinham autorizao de contar isso para os Filhos do Fogo! 
Porque a Histria est nas mos de Deus!
Porm, a partir do momento em que, de forma imprudente, me 
expus... fiz o que no devia fazer... aquela proteo de Deus foi retirada. 
E a Irmandade pde me ver, pde seguir o meu rastro. Isso ia acontecer 
de qualquer maneira, em algum momento. Mas talvez acontecesse mais 
tarde, no sei. Talvez fosse de outra maneira.
Mas o fato  que foi assim.
Alm disso, eu tinha comeado a ser ministrado pela Grace... tinha 
mudado de Igreja......hoje eu consigo somar as peas. Mas no naquele  
momento, naquele momento eu no entendia porque eles haviam 
conseguido me encontrar.
Aquela carta foi um marco. Estava comeando um novo perodo. 
Naturalmente... a gente no tinha a menor condio de se dar conta 
disso!
 * * * *
Captulo 10
Naquele ms de junho, na vspera do aniversrio de Isabela, 
Grace tinha marcado uma nova Ministrao. Ns no questionamos 
aquilo... parecia estar claro para todos que havia muito a ser tratado na 
minha vida. A prpria Grace demonstrava uma especial preocupao 
para comigo, um senso de responsabilidade, por assim dizer.
Afinal, eu tinha ido parar bem ali, bem nas suas mos. J se 
haviam passado mais de seis meses desde o curso, desde nosso 
primeiro encontro. Mas como ela mesma explicou, a Ministrao que 
acontece dentro dos seminrios  mais ou menos como um pronto-
socorro.
 A gente faz o que  possvel dentro do tempo que dispomos... 
Deus usa, Deus age... mas, Eduardo, no seu caso vamos ter que fazer 
um trabalho mais minucioso, talvez mais prolongado. Talvez voc precise 
de mais de uma Ministrao.
Grace estava com a agenda cheia, lotada de afazeres, de viagens. 
Depois que ela nos viu no Congresso de Batalha Espiritual, na poca da 
Pscoa, parece que aquele senso de responsabilidade voltou a falar 
mais alto. E logo ela marcou uma data para nos encontrarmos e 
efetivamente darmos continuidade  Ministrao.
E era naquele dia. Na vspera do aniversrio de Isabela.
No questionamos dia e hora, simplesmente demos um jeito de 
estar l. Era importante.
* * * *
Cerca de um ms depois deste episdio, uma nova pessoa entrou 
em cena na minha vida e na vida de Isabela. A princpio, ns no 
imaginamos o quanto ela seria importante.
Aconteceu assim: certo dia estvamos na nova Igreja, a 
Comunidade Evanglica Nova Videira, e Marco, que estava passando 
frias no Brasil, foi conosco para conhecer.
Nessa ocasio, num determinado momento do Culto, uma senhora 
teve a palavra para compartilhar um breve testemunho. Nada demais, 
ficamos olhando enquanto aquela senhora ligeiramente gordinha e de 
cabelos pretos subiu ao plpito. A ela foi falando, sem delongar-se 
excessivamente, foi contando sobre uma viagem que ela tinha acabado 
de fazer. Tinha sido uma viagem Missionria e, neste Pas ao qual ela se 
referia, os vnculos com a Maonaria eram muito fortes.
At a, tudo bem. Quando chegou o final do Culto, Marco correu 
atrs da mulher todo entusiasmado.
 Que legal que ela tem experincia com Maonaria! Pode servir 
para aqueles nossos amigos do interior!
Eu e Isabela no ligamos muito, nem fomos junto com ele. 
Observei que Marco conversava com a tal senhora, mas de longe. No 
foi nada que tivesse me chamado a ateno. No entanto, para nossa 
surpresa, ele marcou uma conversa com ela para um outro dia. E fez 
questo que Isabela e eu estivssemos junto.
 Quem sabe ela no pode ajudar voc tambm, Eduardo? 
Parece que ela tem experincia nessa rea.
Nem sei porque concordamos. A verdade  que a gente precisava 
conhecer algum naquela Igreja, por que no comear com aquela 
diaconisa? O objetivo principal era esse, conhecermos algum, 
comearmos por algum lugar...
Assim, ficou ento combinado e marcado.
Mas fomos ao encontro sem qualquer expectativa maior, na 
verdade era Marco quem tinha mais interesse naquela mulher por causa 
da Maonaria. E, para ser sincero, na verdade ela no tinha realmente 
experincia nessa rea, foi apenas um testemunho isolado, fruto de uma 
viagem. Ela no lidava com isso no dia-a-dia! Nem sequer estava 
exibindo aquele rtulo de quem tem alguma coisa a ver com Batalha 
Espiritual.
Ento, se formos parar pra pensar... nosso encontro aconteceu 
quase que do nada! Aconteceu porque tinha que acontecer.
No dia do encontro, sentamos todos numa salinha ali mesmo na 
Igreja, em roda, e foi Marco que comeou a falar. Isabela estava muda, e 
eu tambm. Embora Dona Clara me tivesse parecido uma pessoa boa, 
eu no tinha nada para conversar com ela.
Marco foi discutindo aquela coisa toda de Maonaria, contando da 
Igreja dos seus amigos, e ns fomos ouvindo. S que l pelas tantas ela 
falou:
 Mas, olha... quem se envolve com uma coisa dessas est 
perdido... no tem mais jeito! No tem volta!
Eu j estava calado, mas nessa altura fiquei completamente 
estarrecido. Acho que Isabela sentiu-se exatamente do mesmo jeito.
"Puxa,  melhor eu nem falar nada mesmo...", cochichei para meus 
botes.
Marco percebeu que a coisa ia ficar feia, ento cortou o assunto de 
Maonaria e explicou:
 Bom, vamos logo ao que interessa... a verdade  que ns 
marcamos essa reunio com a senhora no s por causa disso que eu 
estou falando. Mas  que o Eduardo foi Satanista... e acho que ele 
precisa de ajuda.... e ento....
Justamente nessa hora Dona Clara mudou a expresso do rosto e 
exclamou:
 Fiquem aqui e orem em lnguas porque est vindo um ataque! O 
ataque esta aqui!  da levantou e saiu da sala aos trancos e barrancos, 
rapidamente.
No entendi nada, sinceramente. Eu no estava acostumado com 
essa linguagem meio pentecostal e, na minha cabea, eu pensei que 
aquilo fosse literal. Fiquei completamente aparvalhado, sem saber o que 
fazer. O que ela queria dizer com "o ataque est aqui"?!
Tudo em que pude pensar foi que devia ter gente estranha na 
porta da Igreja. E como ela tinha se manifestado daquele jeito 
exatamente na hora em que Marco falou de Satanismo...
"Meu Deus... acho que acharam a gente! Ser que acharam a 
gente?"
Como para mim o ataque era literal e devia haver pessoas 
invadindo a Igreja naquele exato instante, certamente Dona Clara saiu 
correndo para ir... em defesa, o que mais!? Ou melhor, talvez tivesse ido 
chamar algum que pudesse defender a Igreja do ataque. Chamar mais 
gente, chamar a polcia... talvez Dona Clara tivesse recebido uma ordem 
clara de Deus e estivesse indo trancar a porta, ou avisar algum!
Naqueles poucos segundos que sucederam a sada dela tudo isso 
passou pela minha mente, em flashes. Eu tinha certeza que no era algo 
espiritual, do jeito que ela falou tinha que ser uma coisa fsica realmente, 
havia pessoas ali.
No entanto, logo me dei conta do meu erro. Olhei para Isabela que, 
apesar de estranhar um pouco aquela atitude, orava em lnguas baixinho. 
Marco fazia a mesma coisa. A sala jazia em silncio, eles no 
conversavam entre eles, mas no pareciam preocupados. Eu no sabia o 
que fazer! Apesar de ter acontecido comigo algumas vezes, aquela coisa 
de orao em lnguas, eu continuava relativizando tudo, achando que 
fosse mais fruto da alma do que realmente manifestao de Deus.
Quando finalmente Dona Clara voltou, tratou de explicar com mais 
calma:
 Tive que ir ao banheiro... senti na hora que era um ataque, eu 
estava bem antes!
Ao perceber do que se tratava, fiquei um pouco frustrado. Quebrou 
um pouco o meu respeito inicial por ela...
Mesmo assim, retomamos o assunto e ela explicou melhor o que 
tinha querido dizer sobre "no ter mais jeito" para pessoas que se 
envolveram com Maonaria:
 Eu quis dizer que "no tem mais jeito" quando falta o 
arrependimento. Porque pessoas que vo to a fundo nessas coisas 
normalmente acabam perdendo a capacidade de se arrepender. 
Entraram to de cabea, e a lavagem cerebral foi to grande que eles 
no conseguem mais ouvir e nem acreditar na Palavra de Deus. Mas  
claro que se acontecer da pessoa se arrepender, sempre tem jeito, sim! 
Deus sempre vai libertar e fazer uma coisa nova na vida dessa pessoa. 
Entenderam?
Fizemos que sim com a cabea, um pouco mais aliviados. Se ela 
acreditasse mesmo naquilo no ia ter como irmos adiante na conversa. 
Ento Dona Clara quis saber melhor de que se tratava o meu 
envolvimento. Mas eu no estava disposto a falar, ento falei muito 
pouco, abri muito pouco, dei uma plida idia. Isabela, prudente, tambm 
no entrou em qualquer detalhe.
Fiquei olhando fixamente para ela, sondando suas reaes. E, 
incrivelmente... ela no me olhou como um objeto de curiosidade! Isso 
me espantou!
Ela simplesmente terminou a reunio orando conosco. E disse que 
durante a semana conversaria com o Senhor para saber que atitude 
tomar em relao a ns. "Ns", ela queria dizer: eu e Isabela.
 Eu entendo que a situao de vocs  muito delicada e sria. J 
que vocs de certa forma vieram procurar ajuda, tenho que buscar do 
Senhor a estratgia certa.
Quando samos de l, Isabela comentou comigo:
 O que voc achou dela?
  uma senhora simptica... e voc?
  simptica.
Jamais nos passou pela cabea a resposta que Dona Clara teria 
para nos dar no prximo domingo. Ela realmente nos surpreendeu:
 O Senhor me mandou acompanhar vocs, orar com vocs uma 
vez por semana.
E falou aquilo simplesmente, com simplicidade mesmo, como se 
no estivesse fazendo nada de mais. Apenas cumprindo uma ordem de 
Deus.
Aceitamos. Nem sei porque aceitamos. Aconteceu porque tinha 
que acontecer!
* * * *
Foi assim que eu me aproximei tanto de Grace quanto de Dona 
Clara. Parece que Deus tinha mesmo inclinado o corao delas na nossa 
direo. No que a gente visse isso com esta clareza naquela poca, 
naquele momento. Vemos isso hoje, porque o passar dos anos nos 
mostrou aquilo que naquele momento ns no tnhamos condio de 
perceber.
Ou seja: no aconteceu por vontade humana, nem nossa nem 
delas. Mas foi vontade de Deus. Ele tinha um propsito muito especial 
em colocar aquelas duas senhoras, aquelas duas mulheres perto de ns. 
O tempo mostraria isso!
Ns amos precisar daquela sustentao.
* * * *
Eu no conhecia a Grace ainda. Tinham sido apenas dois 
encontros! A princpio, no tinha muito que afirmar sobre ela. Quer dizer, 
excetuando o fato de que me pareceu uma pessoa cheia de idias meio 
estranhas, Grace parecia ser boa pessoa.
A despeito disso, no comeo eu achava tudo muito esquisito. 
Partindo do seu prprio linguajar: ela estava acostumada a usar termos 
muito simblicos, falava em escudos espirituais, em "amarras", em "fios", 
etc. E eu no conhecia essa linguagem, no conhecia essa "liturgia", por 
assim dizer.
Tambm tinha aqueles termos estranhos: amarrado, 
amordaado... acorrentado. No incio, eu entendia isso literalmente. E 
imaginava o demnio realmente acorrentado. Mas, por outro lado, 
achava muito difcil que isso realmente estivesse acontecendo.
Aos poucos fui percebendo que existia uma restrio de 
vocabulrio humano para descrever estas situaes; ento, aquele 
jargo na verdade significava muito mais do que a palavra em si podia 
expressar.
Entendi que termos como "amarrar", "acorrentar" eram apenas 
fora de expresso. Aquilo queria dizer, em outras palavras, que ns 
estvamos impedindo um demnio de agir, ou pelo menos estvamos 
restringindo os seus movimentos, a sua atuao. Equivale a dizer 
"amarrei o seu carro"; e isso no quer dizer que passamos correntes em 
volta dele. Quer dizer que tiramos a gasolina, ou tiramos uma pea 
fundamental do motor...
No entanto, logo de cara, durante o curso que tnhamos feito no 
ano passado, em alguns momentos eu tinha a impresso de que estava 
lidando com pessoas que beiravam o fanatismo. Estranhei muito o 
Louvor de Palmas que fizemos no curso e tambm o contedo das 
vises que as pessoas diziam ter.
No entanto, quando fiquei frente a frente com ela na sala pela 
primeira vez, Grace me tratou bem. Me tratou com carinho, com respeito 
e com amor. Deu-me ateno. Eu no estava acostumado a receber 
esse tipo de tratamento por parte dos Cristos. Por isso a atitude 
humana de Grace me fez enxerg-la de outra maneira.
"Independente do que ela possa crer, est me tratando como 
pessoa."
Foi isso que me fez dar um passo em direo a ela, aceitar bem a 
primeira Ministrao e me permitir participar de outra. Na pior das 
hipteses, aquilo ia servir para que eu pudesse conhec-la melhor.
Essa foi minha impresso inicial. Depois, eu iria encontrar Grace 
ainda umas trs ou quatro vezes naquele ano. O conhecimento veio aos 
poucos, lgico... eu via Grace raramente, quando muito conversava com 
ela pelo telefone.
Era comum que ela me fizesse algumas perguntas. Por exemplo:
 Mas o que esse demnio faz?
Vrias vezes Grace me indagou sobre esse tipo de coisa durante 
as Ministraes. E eu no conseguia entender direito esse tipo de 
questionamento.
"No  assim que funciona...", eu refletia.
Ento procurava explicar da melhor maneira, mas na minha mente 
a resposta mais adequada para esse tipo de pergunta seria:
"Bem, demnio faz maldade."
Perguntar o que o demnio faz parecia suprfluo, no parecia ser 
digno de nota. Me soava mais ou menos como tentar explicar que o 
peixe nada, e que o leo mata para comer porque  um carnvoro...
Estava me parecendo que a maioria dos Cristos pensava que os 
demnios s fizessem uma determinada coisa, e somente aquilo! E no 
 assim que funciona. Assim como seres humanos fazem muitas coisas, 
tm capacidade para desenvolver vrias atividades ao longo da sua 
existncia, assim tambm os demnios.
Comecei a perceber que os Cristos tinham mesmo essa idia 
errnea: que existe um demnio que causa doenas, outro demnio que 
mata, outro demnio que induz ao homossexualismo, por exemplo. E que 
o demnio que mata, s faz isso... e o que induz ao homossexualismo 
tambm s faz isso.
Na verdade, todos eles podem fazer tudo isso, especialmente 
quando se trata de Principados e Potestades. Eu tinha convivido com 
eles, eu sabia disso. Ento, aquilo que Grace entendia como sendo uma 
exclusividade de um demnio, na verdade era a sua especialidade! 
Porque um determinado demnio que faz muitas coisas  como destruir, 
causar doenas, produzir inclinaes lascivas num ser humano  pode 
ter um talento maior para causar loucura, por exemplo. Ou seja, causar 
loucura, causar perturbaes mentais  a especialidade dele. Aquilo que 
ele faz melhor.
Do mesmo jeito os seres humanos tambm tm seus talentos: 
algum pode ter uma facilidade especial para a msica, ou para o 
esporte. Mas essa pessoa no passa a vida inteira apenas tocando, ou 
praticando esportes. Nesse sentido, os demnios se comportam da 
mesma maneira, eles no so robs condenados a fazer a mesma coisa 
durante toda a Eternidade. Seria subestimar muito a Criao de Deus. 
Inclusive eles tm o livre-arbtrio, tm vontade prpria. Tm sentimentos 
e personalidades diferentes uns dos outros. No so clones uns dos 
outros! Eles podem escolher fazer ou no determinada coisa.
Porm, claro que a essncia deles  sempre a mesma, isto , 
destruir aquilo que Deus criou, destruir a obra-prima de Deus que  o 
homem. Por esse motivo eu achava to estranho quando Grace me 
perguntava o que um determinado demnio fazia.
Essa foi a primeira das constataes que fiz naquela poca, a 
primeira das idias equivocadas difundidas entre o povo de Deus. Isso 
certamente trazia conseqncias na interpretao do mover espiritual. 
Por exemplo: s vezes, em seminrios ou congressos, eu ouvia pessoas 
contando testemunhos e histrias de como este ou aquele demnio havia 
sido derrotado em uma comunidade. Ou em um bairro ou uma cidade.
 Era um demnio que agia atravs das drogas. Mas ento esse 
demnio foi identificado e confrontado, ento teve que sair daquele lugar. 
Durante meses no se sentiu mais cheiro de droga ali naquele bairro, ou 
naquela cidade.
No entanto, aquela porta que tinha sido fechada  as drogas  
era apenas uma das maneiras daqueles demnios agirem naquela 
regio. Aquela porta tinha sido fechada, e nisso o povo de Deus se 
julgava vencedor daquela batalha. Relaxavam. Mas a os demnios 
continuavam agindo: sem confrontao, comeavam, por exemplo, a 
aumentar a prostituio. E atravs disso novamente as drogas eram 
introduzidas na regio.
Era preciso que os Cristos aprendessem a olhar para os 
demnios de uma maneira mais global. Eles no so seres tolos, 
desprovido de inteligncia e estratgia. Quanto mais alta a patente, mais 
mordazes, astutos e imprevisveis eles se tornam. Por esse motivo, 
muitas vezes o terreno que  ganho pelo Povo de Deus acaba sendo 
entregue novamente nas mos do inimigo. E a situao volta a piorar!
 E Dagom? Quem  Dagom?  indagaram-me certa vez.
Respondi que era considerado um prncipe dos ares e que uma 
das suas especialidades era causar fenmenos da natureza, 
tempestades, vendavais, esse tipo de coisa.
Foi a que comecei a perceber dentro do povo de Deus outra coisa 
estranha. Muitas vezes as pessoas falavam coisas do tipo:
 Aquele fulano ficou possesso por Belzebu! Ou:
 Enfrentamos Mengueleshe.
Ou:
 Destronamos Leviathan!
Informaes como essas, s vezes, eram usadas a nvel individual 
e de forma literal. Quer dizer, no havia uma idia clara da questo 
hierrquica dentro dos exrcitos demonacos. Dentro daquilo que vi e 
aprendi na Irmandade, essas trs afirmaes so falsas se formos levar 
em conta que estamos tratando de pessoas. Por exemplo, numa guerra 
qualquer, dentro do mbito humano,  verdadeiro dizer:
 Derrotamos Napoleo! Ele foi derrotado!
Isso quer dizer que foram destrudas algumas tropas, ou mesmo 
um peloto inteiro de Napoleo. Mas no quer dizer que todo o seu 
exrcito foi derrotado, e muito menos que ele mesmo foi derrotado! 
Porque normalmente os grandes lderes de um exrcito sequer vo para 
o campo de batalha. No h confronto direto com o general!
No Reino Espiritual  a mesma coisa, normalmente os Grandes 
Prncipes do Inferno, os grandes Principados e Potestades no saem do 
seu posto para ir atrs de pessoas. Eles tm uma posio muito mais 
estratgica do que braal. Um Principado s sai do seu ponto estratgico 
se a batalha for extremamente sria, se estiver em jogo alguma coisa 
muito especial, e sempre referente  Irmandade.
O prprio presidente e os grandes lderes dos Estados Unidos no 
foram lutar no Vietn, ou em outros pases que participaram da Segunda 
Guerra Mundial. Quem guerreava nestes lugares eram os soldados, 
capites, tenentes do Exrcito. As ordens partiam de cima, mas os 
grandes figures no intervinham pessoalmente. Teria que acontecer 
uma tragdia serssima para o presidente americano ir ao campo de 
guerra.
Traduzindo: jamais um demnio de alta hierarquia sairia para 
visitar um crente qualquer dentro da sua casa... ou invadiria uma Igreja 
qualquer. Ele fica no seu quartel-general dando ordens aos seus 
comandados. Estes, sim, podem ter contato fsico e direto com pessoas, 
causando endemoninhamento. Estes, sim, so alvos mais fceis de 
serem confrontados.
Um Principado tem muita relao com regies, mas eles tambm 
no ficam l o tempo todo, pregados no cho, no esto assim to 
disponveis. Por mais que um grande general ou um presidente sejam 
to humanos quanto os demais, isso no se aplica aos demnios. O 
Poder de um Principado  infinitamente maior do que o dos seus 
subalternos. Se ele se fizesse presente em algum lugar, a situao seria 
muito diferente... muito diferente mesmo!
Para realmente incomodar um demnio destes, o futuro da 
Irmandade dentro desta regio tem que estar em jogo. s vezes o povo 
de Deus tem "vitrias aparentes" quando so fechados muitos terreiros 
de umbanda, ou muitos centros espritas de uma determinada regio.
Mas isso no importa para a Irmandade. Isso no tem valor em si 
mesmo! Ento, quando comecei a perceber essas idias difundidas entre 
o povo de Deus, fiquei um pouco abismado, um pouco chocado. Porque 
elas me pareciam primrias!
Tomemos por base o antigo exrcito romano: uma legio era 
composta por seis mil homens. Mas entre eles existiam arqueiros, 
flecheiros, infantaria, cavalaria, etc. Ou seja, h vrias divises.
Com os demnios  da mesma maneira: cada um tem sua 
especializao de ofensiva, cada um utiliza suas armas peculiares, seu 
jeito prprio de agir. Isto pode ser comparvel s divises encontradas 
dentro do exrcito romano. Isto , alguns atuaro mais na mente, outros 
mais nas emoes, outros podem causar destruio em todos os 
sentidos. Destruio da alma, do esprito, do corpo. Dos bens.
Cada um tem uma especializao dentro de uma rea, e grupos de 
demnios que tm a mesma especialidade estaro debaixo da 
orientao de um comandante. Normalmente esses comandantes so 
Principados e Potestades. Mas estes ltimos no entram diretamente na 
guerra, pelo menos no na guerra do dia-a-dia dos Cristos. Para um 
Principado ou uma Potestade sair do seu quartel-general e dirigir-se a 
um Cristo, pessoalmente...  algo muito srio e que no acontece com 
freqncia.
A Igreja de Cristo, na grande maioria das lutas dirias, enfrenta 
subalternos destes demnios. Embora muitos insistam em dizer que 
foram visitados "pelo prprio Satans", s o que tm a contar sobre a 
forma de agir desse opositor j descarta de pronto esta possibilidade.
A  que entra o nosso engano. Por exemplo, uma "cavalaria" 
espiritual que conta com 300 demnios tem por comandante Abadom. 
Um destes cavaleiros est numa casa, ou numa Igreja, e acaba sendo 
identificado. Apenas um destes 300 que compem aquela cavalaria  
confrontado e expulso. Nem por isso podemos esquecer dos outros 299, 
e muito menos dizer que Abadom foi derrotado. Isso e uma coisa 
totalmente diferente! Em momento algum aquele exrcito foi venci o e 
muito menos o prprio Abadom.
Foi no congresso de Batalha Espiritual a Nvel Estratgico que 
comecei a ouvir algo mais fidedigno. O preletor era muito inteligente e 
falou com propriedade. Percebi logo que ele tinha uma boa noo da 
questo "legalidade", entendia melhor como funcionava o domnio 
territorial, e at mesmo experincias com materializaes demonacas 
ele tinha tido.
O que mais me chamou a ateno  que ele falava muito na 
questo de "retirar a legalidade". E esse era o ponto chave! Bingo! No 
adianta mandar um demnio embora, ainda que corretamente 
identificado, sem retirar a legalidade das mos dele.
Naquela altura no somei as informaes, era muito cedo para 
isso. Mas  medida que ia conhecendo Grace, percebi que ela fazia 
aquilo que aquele preletor tinha explicado. Quer dizer, por mais que de 
incio no entendesse suas idias, na prtica ela fazia exatamente isso: 
retirava a legalidade.
Como os demnios so seres legalistas, ela ia de encontro ao 
cerne da questo. Batia exatamente no ponto certo. Mas isso eu s fui 
perceber realmente muito mais para frente.
Porque... para ser sincero...
A Ministrao era uma verdadeira incgnita para mim! Pelo menos 
foi assim logo no comeo.
Estava ali uma prtica cheia de uma srie de coisas que eu no 
entendia! No entendia como ex-Satanista nem como Cristo. Desde o 
linguajar at mesmo alguns aspectos do ritualismo que parecia haver ali.
Essa histria de "rito" me incomodou um pouco. Eu sabia 
perfeitamente o que era um rito e qual a necessidade deles dentro do 
contexto da Irmandade.
Quando se faz um rito para um demnio, o que  aquilo? Na 
verdade  uma sinalizao espiritual, voc est dizendo para aquele 
demnio: eu estou aqui! Isso  necessrio porque os demnios no so 
onipresentes. Mas Deus  onipresente, ento o rito  dispensvel, ns 
podemos orar em qualquer lugar e Deus responde pela Graa, em todo 
lugar.
Mas na Ministrao parecia haver um "rito", era preciso preencher 
a ficha, era necessrio fazer aquelas oraes de renncia olhando para 
os olhos de outra pessoa... muitas vezes tinha que repetir a orao que 
Grace fazia com minha prpria boca. Tudo isso acabava de certa forma 
confrontando com aquilo que eu j tinha aprendido sobre Deus.
Por que Deus precisava daquele "rito" para operar? Quem precisa 
dessa sinalizao espiritual  o diabo, no Deus. Quer dizer, eu no 
precisaria necessariamente estar ali, passar a tarde inteira junto com 
Grace, junto com um intercessor, ser ungido com leo, repetir todas 
aquelas oraes, confessar todas aquelas coisas, uma por uma, naquela 
sesso desgastante... eu poderia orar no nibus, orar na calada da 
minha casa... e no ia ser a mesma coisa?
No comeo, esse foi o meu principal questionamento. Eu no 
entendia. Mas obedeci, porque precisava da ajuda de algum, queria ser 
curado. Pensei comigo mesmo:
"No vou questionar. Muita gente faz isso, muita gente no se 
submete  Ministrao... Isabela mesmo disse isso! No importa, vou 
fazer! Tem tanto louco por a que se submete a cada absurdo, que usa 
de terapias alternativas, dorme com pirmide na cabea... e eu no vou 
fazer uma coisa simples como conversar, compartilhar, orar em 
concordncia?... No vai me fazer nenhum mal!"
Aquele foi o meu livre-arbtrio. Assim eu fiz.
Grace vrias vezes falou sobre os textos que dizem para ns 
levarmos as cargas uns dos outros, confessarmos os pecados uns aos 
outros para sermos curados.
No havia dvida de que o fato de falar fazia bem para mim.
No entanto, aquela histria do "rito" ficou na minha cabea durante 
um bom tempo. Eu queria pelo menos entender porque precisava ser 
assim, porque no teria o mesmo efeito se eu orasse sozinho. Em outras 
palavras, porque era necessrio o "rito" da Ministrao.
A obedincia foi a porta de entrada para que eu compreendesse. 
Deus no respondeu ao meu questionamento de imediato. Foi somente 
por meio da obedincia em me submeter que eu fui percebendo, na 
prtica, que seguir aqueles passos fazia com que Ele operasse de outra 
maneira. De uma maneira que eu nunca tinha experimentado.
Esse foi um primeiro aspecto, aquilo que eu experimentei na 
prtica. Mas a, de repente, Deus deixou de lado aquela experincia 
prtica e me mostrou que havia outros "ritos" que Ele tinha institudo. Por 
exemplo, Jesus instituiu a Ceia e ns fazemos isso at hoje. O Batismo  
um outro rito.
Essas prticas nada mais so do que sinalizaes espirituais de 
Verdades maiores. Ningum nunca tinha me falado isso, mas em 
determinado momento me enxerguei compreendendo essa Verdade. Um 
dia eu estava lendo a Bblia e vi ali o rito: a Ceia. E Jesus disse para 
fazermos aquilo, exatamente daquele jeito, em memria dEle at a sua 
volta. Ou seja,  como se Deus nos dissesse:
"Faa isso porque voc gosta de Mim, porque voc Me conhece, 
porque voc tem aliana Comigo".
Todo Cristo sabe que somente assim a Ceia tem valor.  um 
externar da nossa f, no se trata do rito pelo rito.
Ento compreendi que Deus no estava descartando certos tipos 
de rito, desde que eles no sejam fruto de pura religiosidade. Eles tm 
que ser expresso de algo maior que est dentro do nosso esprito. 
Apenas a liturgia da coisa no tem nenhum valor, ento entendi que a 
Ministrao tinha esse "qu" de "rito", mas no era um "rito" propriamente 
dito. No se tratava de uma frmula mgica, na verdade era a maneira 
que Grace encontrou de padronizar aqueles momentos. De no se 
esquecer de fazer nada que fosse importante, de tornar mais fcil o 
entendimento e aplicao daquilo que ela tinha recolhido durante anos e 
anos de experincia.
"Rito" foi o nome que eu dei, na minha ignorncia inicial. Mas 
estava longe de o ser na realidade. Visto que normalmente Grace  nem 
se programava para as minhas Ministraes. Ns nos esquecemos 
completamente da ficha, ela no tinha nenhum valor no meu caso. Grace 
trabalhava de acordo com a direo que Deus dava em cada momento, 
dentro daquilo que ela compreendia como sendo fundamental, mas 
sempre embasada nas informaes que eu trazia na hora. Sempre 
atenta s direes dos intercessores.
E eu queria me libertar.... isso era um fato incontestvel. Para isso 
eu tinha procurando Grace. Ento usei de um raciocnio lgico. Da 
mesma forma como um leigo no tem condies de entender grande 
parte dos procedimentos Mdicos, mas ainda assim aceita a direo que 
lhe  dada sem contestar... eu podia fazer a mesma coisa.
Mesmo no entendendo, todo doente que quer melhorar, obedece. 
E eu tinha comeado a ver Grace como uma espcie de "Mdica 
Espiritual", algum que me mandava fazer algumas coisas que eu no 
entendia. Mas decidi obedecer, porque precisava ser curado. Como 
leigo, no ia questionar a direo da Mdica. E no questionei. Em 
algum eu precisava confiar, e Grace tinha me conquistado pelo mtodo 
mais simples de todos. Pelo amor.
E eu tambm confiava em Isabela, e Isabela insistia em afirmar 
que tudo aquilo tinha seu valor, que era importante.
Ento me entreguei de corpo e alma. Repetia aquelas oraes, 
fazia aquelas renncias, orava e orava com Grace, aceitava a direo 
que me era dada. Percebi que,  medida que eu me submetia, 
confessava, orava, me permitia ser ungido com leo... Deus operava de 
outra forma.
Agora eu j no achava que a Ministrao fosse um "rito", eu 
percebia que era uma forma especial de pedir e dar vazo ao mover de 
Deus.
Os resultados no vieram de imediato. No foi na primeira, nem na 
segunda nem na terceira vez. Mas.....uma hora eles comearam a 
chegar! Mesmo sem eu perceber, mesmo sem me dar conta...
Quando vislumbrei os primeiros resultados na minha vida, isso foi 
o passo inicial para finalmente comear a juntar as peas daquele 
quebra-cabea. Comecei a perceber como funcionava a Ministrao. 
Que resultados eram esses?
De repente, eu ia dormir e j no acordava mais no meio da noite 
com pesadelos  de repente parece que o medo se dissipava; de 
repente... minha confiana em Deus j no era a mesma, estava 
diferente, eu conseguia ver Deus de uma outra maneira.
Comecei tambm a sentir uma restaurao verdadeira de Deus, eu 
percebia que a sua cura estava se derramando sobre mim, sobre a 
minha vida.
Durante as Ministraes, muitas vezes senti a presena de Deus 
naquele lugar. Comecei a ver melhor quem Ele era, e quem eu era para 
Ele. Mas no de uma maneira subjetiva, no como se fosse o delrio de 
um corao sedento. Sempre fui muito racional, mas as visitaes do 
Senhor durante as Ministraes fizeram com que eu desse crdito real 
quilo.
Havia momentos em que eu chorava por lembrar das coisas que 
queria esquecer, Mas a partir de um determinado momento, que no sei 
precisar exatamente quando comeou... o meu choro j no era 
simplesmente pela lembrana de coisas ruins, mas era um choro de 
quebrantamento, de arrependimento. E isso foi muito novo para mim 
porque eu no imaginava que pudesse experimentar isso. O 
convencimento genuno do pecado, da justia e do juzo.
No sei como explicar... mas comearam a vir  tona na minha 
alma sentimentos at ento desconhecidos para mim, e que eu no 
imaginava que pudessem existir. Eram outros sentimentos, no parecia 
que partiam de mim mesmo. Especialmente o arrependimento.
Certa ocasio, eu comentei sobre uma investida da Irmandade e 
das suas conseqncias funestas. Eu falei apenas por falar, porque 
precisava confessar aquilo, liberar aquilo. Quando orei pedindo perdo, 
mesmo sem perceber, fiz a coisa meio da boca para fora, de maneira at 
automtica.
Ento, depois Grace orou tambm, e desta vez, ao invs de levar 
adiante a Ministrao, ela pediu que Deus derramasse sobre mim o 
esprito de arrependimento.
Isabela, que sempre estava comigo nas Ministraes, comentou 
mais tarde que tambm ela orou nesse mesmo sentido.
Eu fiquei quieto, de olhos fechados, acompanhando a orao da 
Grace... e, de repente, fui invadido por uma sensao completamente 
nova... uma verdadeira conscientizao do mal....! Naquele momento eu 
percebi que tinha sido uma ferramenta nas mos do diabo para 
prejudicar aquelas pessoas, para causar destruio. De repente, foi 
como se eu pudesse imaginar as cenas que eu no tinha vivido, o 
impacto daquilo tudo. Um monte de coisas me passava pela cabea, e 
ento veio o arrependimento. De verdade.
Quando tive conscincia daquilo, eu me sentia indigno at mesmo 
de pedir perdo a Deus. Achava que no merecia perdo, que o mal com 
o qual estive envolvido no poderia mais ser perdoado. Pensei comigo 
mesmo:
"Se algum fizesse isso pra mim, eu no ia perdoar... ento, como 
Deus pode me perdoar agora?"
Naquele choro que me brotou da garganta, eu s chorava e 
chorava, no conseguia falar nada. Escutei, no meio do meu prprio 
tormento, a voz de Grace. Ela orava novamente, s que agora era para 
que eu pudesse receber e aceitar o perdo do Pai.
Mesmo assim no parei de chorar; era um choro diferente, quase 
compulsivo, sfrego... um choro de quem sente que no h mais 
soluo. Como se Deus fosse me virar as costas. Naquele momento, 
ento, compreendi a Graa de Deus. Aquilo que antes era terico, se 
tornou real. O que era letra se me tornou em vida! Nada que eu pudesse 
fazer poderia me libertar daquele horror, apenas a Graa de Deus 
atravs de Jesus Cristo.
Demorou um pouco, mas enfim consegui pedir perdo... e tambm 
receber o perdo do Pai.
Foi uma experincia real, foi um contato real com a presena de 
Deus, com o Amor Dele, e tambm com a sua Justia.
Por tudo isso e um pouco mais  que eu comecei a ver que havia 
uma Fora muito grande, uma fora muito maior por trs daqueles gestos 
da Grace, por trs daquelas palavras de renncia, por trs daquele "rito" 
que se chamava Ministrao. A Fora do Deus Todo-Poderoso!
Notei, espantado, que certas coisas que antes me causavam muito 
mal  simples lembrana, agora j no tinham o mesmo efeito. Parece 
que o impacto das lembranas ia sendo atenuado progressivamente. 
Deus no estava me desmemoriando, eu continuava lembrando de todas 
as coisas. Embora tivesse pedido a Ele muitas vezes que me fizesse 
esquecer de toda aquela histria, essa foi uma graa que Ele no me 
concedeu. Mas o meu posicionamento diante da lembrana comeou a 
ser outro.
Foi tambm nas Ministraes que comecei a ver o sobrenatural de 
Deus pela primeira vez. Como se tudo isso que eu j disse no pudesse 
ser classificado de sobrenatural! Mas estou falando de outro tipo de 
sobrenatural...
At ento, eu apenas tinha visto o sobrenatural do lado do diabo. 
Mas os intercessores, todas as vezes, traziam alguma coisa especfica, 
fruto de revelao (conforme eles diziam) e que no podiam ser 
conhecidas de antemo.
Eu ficava muito encafifado no comeo, muito admirado para ser 
sincero. Porque apenas eu e os demnios sabamos de certas coisas, 
coisas que volta e meia eles estavam falando. Mas eles no tinham 
entrado em contato com os demnios... portanto, como podiam saber? 
Como  que algum que no esteve cercado de demnios podia saber 
aquilo que s eu sabia?
Claro, eu j conhecia uma parte da essncia de Deus, a sua 
Oniscincia. No questionava isso de forma alguma, sabia que Ele era 
muito maior... e, Ele sim, sabia de todas as coisas! O que realmente me 
surpreendia  que at ento eu nunca tinha encontrado ningum que 
fosse de fato usado por Deus quele ponto. Que tivesse contato com Ele 
dessa forma!
Os intercessores traziam palavras de conhecimento, traziam 
vises, acertavam em cheio no ponto certo, falavam de situaes que eu 
tinha vivido, at mesmo de promessas que eu recebi dentro da 
Irmandade.
"Que coisa mais incrvel! Deus fala mesmo com eles!" Da ficavam 
outros questionamentos de outra ordem:
"Por que Deus mostrou? E por que mostrou com tantos detalhes?"
Mas ainda no era hora de compreender isso. Nem mesmo de 
saber que aquele tipo de manifestao do Esprito de Deus no era 
privilgio de alguns.
Alm das revelaes, um daqueles intercessores, Ricardo, falava 
tambm das dores de estmago que sentia, especialmente nos dias da 
Ministrao. Exatamente iguais s minhas. Era mais uma vez aquela 
coisa da identificao que o intercessor pode sentir com a pessoa 
ministrada. Igualzinho como foi na minha primeira Ministrao, com o 
homem que quase vomitou no balde.
Agora eu percebia isso sem a menor sombra de dvida, que 
aqueles momentos da Ministrao se tornavam palco de um confronto de 
foras. Eu entendia que, de certa forma, essas foras estavam me 
disputando. Disputar no era bem a palavra, mas havia um mover muito 
forte do Reino Espiritual.
De um lado havia uma somatria de autoridade humana, porque 
estvamos num pequeno grupo, com um propsito especfico, e Deus 
usava isso para trazer  luz o seu prprio mover. E havia a fora 
contrria... dos demnios.
Por que isso acontecia?
Havia claramente uma insistncia do inimigo em no querer que eu 
estivesse l, em no querer que as Ministraes acontecessem. Por 
outro lado, havia tambm uma insistncia de Deus em querer justamente 
o contrrio. De repente, eu me vi no centro daquele confronto. E eu sabia 
muito bem que os demnios no se manifestam sem motivo.
Se havia um confronto to claro, sinal que havia Poder na 
Ministrao, aquilo que estvamos fazendo realmente mexia com o 
Mundo Espiritual.
Pela primeira vez eu enxergava o confronto de um outro ngulo. 
At ento eu o tinha visto apenas pelo ngulo da Irmandade e, por esse 
ngulo, ningum nunca prevaleceu, pelo menos que eu tivesse visto. 
Excetuando o Brintti. Mas eu no sabia aonde ele estava. Nem mesmo 
se estava vivo.
Agora, pela primeira vez eu estava vendo como o Poder do Inferno 
podia ser confrontado e at mesmo anulado por aquela guerreira de 
Deus, a Grace. Antes das Ministraes eu no tinha a menor idia do 
que fazer para resistir  fora e ao Poder que a Irmandade representava.
Deus me queria pelo Amor, pelo Amor que Ele tinha por mim... e a 
Irmandade me queria porque eu era o traidor... ou porque eu era 
estratgico. Ningum sabia disso ainda, somente eu. E ali estavam 
aquelas duas foras... um dos lados, o lado do inimigo, oferecia 
resistncia... o outro lado, o lado do Pai, me atraa pelo Amor... eu queria 
ficar do lado do Pai.
Grace podia me ajudar... agora eu percebia que somente ela podia 
fazer isso.
Ela me apresentava a algo novo.
A cada encontro eu via um pouco deste Amor de Deus na vida da 
Grace. Pela maneira como ela falava comigo, pela maneira como me 
tratava, me olhava. Algumas vezes, com muita admirao, eu enxerguei 
nela um vislumbre daquilo que eu tinha visto no Pastor Brintti, naquele 
dia... naquele confronto! (Leia Filho do Fogo).
Foi inevitvel fazer a comparao, de repente, num relance, eu vi... 
aquele brilho. At ento nunca tinha visto nenhum Cristo com aquele 
brilho.
Foi ento que aquele pensamento inicial desapareceu 
completamente, aquela idia que eu tinha tido a respeito dela, de uma 
pessoa fantica e cheia de idias esquisitas. Aquele sofisma, aquela 
fortaleza mental desabou, a resistncia inicial caiu por terra.
Agora eu no obedecia a Grace apenas por obedecer. Agora eu 
queria obedecer porque ela era realmente um instrumento de Deus! 
Comecei a ver tudo com outros olhos, comecei a ver aquela mulher como 
algum que amava muito a Deus, como uma pessoa sincera que Deus 
tinha indiscutivelmente separado para me ajudar.
Grace sempre me cativou pela sua humildade, pela sua 
simplicidade... no era altiva nem orgulhosa, eu estava acostumado com 
outro tipo de gente. Sempre tinha visto um outro tipo de postura dos 
Cristos. Normalmente os Cristos eram pessoas de peito empinado, 
cheios de quererem se achar donos da verdade. "Eu sei tudo!" Era assim 
desde o tempo em que eu freqentava a Irmandade.
Mas Grace muitas vezes se colocava como aprendiz, e explicava:
 Olha, eu vou ter que te fazer umas perguntas... porque o seu 
caso  novo para mim. No leve a mal, t?
No me incomodava.
Eu estava sentindo a diferena na minha vida, era algo real, 
palpvel! E novamente me veio aquela idia do Mdico: s vezes ele 
manda fazer um tratamento que parece ser uma loucura aos olhos 
humanos. Mas a a gente faz, e melhora...  curado! O que mais h para 
questionar?
A meu ver, nada.
E isso no quer dizer que ao longo das Ministraes no haveria 
muitas experincias que eu poderia chamar de "estranhas". Mas todas 
elas traduziram o Amor de Deus por mim, a alegria que Ele mesmo 
sentia ao presenciar aquela libertao, o desejo de me restaurar. Eu 
precisava destas sinalizaes de Deus. Traziam paz e edificao. 
Traziam direo. Tiravam o peso.
Nunca uma Ministrao foi igual  outra... e nunca eu sa de l sem 
ter recebido um toque especial da parte do Senhor. Houve momentos 
muito difceis, outros quase sublimes...
A partir de um dado momento eu j no me sentia mais falando 
para as portas ou para as paredes, ou apenas para as pessoas que 
estavam ali. No... era muito diferente... como se de fato Deus estivesse 
ali naquela sala me ouvindo, se alegrando com a minha restaurao.
Isso me mostrava quanto era querido, quanto era especial para o 
Pai. Era quase como se Deus estivesse me montando de novo! Como se 
tivesse sido quebrado, partido em pedaos, e Ele estivesse recolhendo 
esses pedaos, pea por pea, para montar outra vez.
E eu experimentava esse mover, sabia que era uma montagem 
feita com carinho, com pacincia, com perseverana, com amor, com 
tolerncia... e de uma forma que eu no tinha experimentado com mais 
ningum. Era uma coisa totalmente nica, uma coisa sem parmetros.
A Ministrao, para mim, foi isso: um remontar. Eu no imaginava 
que pudesse existir algo assim, que Deus pudesse fazer algo assim 
comigo. Ele permitiu que eu fosse quebrado pelo diabo e pelo pecado... 
depois, quebrantado pelo arrependimento... e ento Ele interveio e fez 
uma coisa totalmente nova. Atravs da Graa e do Amor. E a, quando 
Deus faz de novo... quando Ele reconstri algum, fica sem emendas... 
Ele faz o impossvel!
Tem um ditado popular que diz que quando um vaso de cristal 
quebra, depois de colado j no  a mesma coisa. Mas com Deus no  
assim, com Deus fica mais perfeito ainda do que antes.
* * * *
Durante aqueles perodos de Ministraes, comecei tambm a ver 
outras facetas do carter de Isabela. Agora eu a via como algum muito 
perseverante, pois estava ao meu lado em cada minuto destas 
Ministraes. No como uma mera espectadora, mas como algum 
participante daquilo. Percebi que Isabela me amava de verdade. No 
conseguia imaginar outra pessoa que pudesse escutar aquelas coisas e 
ainda assim continuar ao meu lado, sem me condenar, sem me criticar, 
sem apontar o dedo.
Ela nunca fez isso. Isso me fez perceber que o seu amor era 
genuno, era verdadeiro. Ela no estava comigo por interesse, alis, 
interesse no qu? O que eu tinha para oferecer, para dar? O que eu era 
na ordem das coisas?
"Puxa, Deus colocou a pessoa certa do meu lado..."
E aquilo me trazia segurana. Quem mais poderia estar passando 
por tudo aquilo comigo? Eu no conseguia imaginar ningum...
Por sinal, muitas coisas que eu j tinha comentado com Isabela 
antes da Ministrao, por alto a princpio, agora estavam claras e 
patentes porque a Ministrao  um processo muito detalhista. Certos 
detalhes das primeiras Ministraes eu sabia to bem quanto ela que 
nunca tinha comentado.
A ficava um pouquinho apreensivo.
"Nossa, agora ela vai entrar em estado de choque...", pensava eu 
comigo mesmo algumas vezes.
Realmente, Isabela ficava chocada. Na hora da Ministrao. Mas 
depois, ela me espantava pelas atitudes que tomava, porque no eram 
atitudes pr-moldadas, eram realmente sinceras, realmente espelho do 
seu corao. E ela dizia:
 Que bom que Deus restaurou, que bom que voc est melhor...
E era sempre assim. Ela nunca me acusava. Nunca queria saber 
detalhes mrbidos, nunca ficava me incomodando com coisas nada a 
ver. S queria a minha cura, o meu bem-estar!
* * * *
Quanto a Dona Clara, embora ela fosse uma pessoa simples, a 
gente percebia isso at mesmo pelo seu vocabulrio, tinha um 
Cristianismo que espelhava muita firmeza. Logo de cara, foi a f que 
Dona Clara tinha o que mais me impressionou!
 medida que passavam as semanas e ns nos encontrvamos 
para orar, comeamos a conhec-la melhor. Eu percebi que f firme ela 
tinha! Percebi que ela realmente acreditava naquilo que estava falando. 
Isto , sabia do que estava falando e falava com muita convico. Essa 
foi outra caracterstica que eu no estava acostumado a encontrar nos 
Cristos. At ento eu tinha conhecido pessoas de f mais instvel; 
quando se trata de coisas muito importantes, ou que envolvam realmente 
o sobrenatural de Deus, a tendncia  titubear um pouco.
Mas Dona Clara no era assim. A sua maneira de falar era sempre 
convicta sempre falava com muita sabedoria e com muita certeza... com 
tanta certeza... que eu a admirava muito por isso! Ela nunca falava "eu 
acho"... ou "quem sabe". ou "talvez".... quando se tratava da Palavra de 
Deus ela sempre afirmava categoricamente que " assim", ou " isso".
Alm disso, Dona Clara simplesmente nos acolheu. A mim e a 
Isabela. E isso era bom! Por causa disso, assim como Grace, demos um 
voto de confiana para Dona Clara. Valia a pena estar perto dela. 
Bastava eu no delatar nada de importante.
Claro que a confiana veio aos poucos tambm. Mesmo porque 
com ela ns no tratvamos dos mesmos assuntos que tratvamos com 
Grace, era outra coisa. Eram coisas pessoais, coisas do dia-a-dia, 
problemas pessoais, problemas familiares, problemas profissionais, 
conselhos...
Ela trazia uma segurana toda especial, trazia urna tranqilidade. 
Ns sentamos conforto nisso, sentamos que havia mais algum 
conosco.
"Ns no estamos sozinhos, tem mais algum conosco, e algum 
firme..."
Perto dela realmente a gente parava de sentir medo, parava de 
sentir receio, conseguia enxergar as coisas por um outro prisma. Eu e 
Isabela muitas, e muitas vezes comentamos isso. Ela conseguia trazer 
para ns aquela esperana, aquela coisa nova que eu tinha tanto querido 
encontrar em um grupo de apoio. E nisso eu fui vendo a grandeza de 
Deus... o que elas eram? Grace e Dona Clara? Mulheres!
Humanamente falando, elas no ofereciam perigo para ningum... 
mas espiritualmente falando, eram pessoas muito ousadas e usadas. De 
incio, ainda que eu no as tivesse visto como guerreiras,  medida que a 
presso foi aumentando e tudo foi afunilando... elas foram as nicas que 
ficaram de p, em momento algum elas recuaram. Souberam lidar com 
aquela situao de presso e continuar olhando adiante, continuar 
olhando para Deus. E nisso elas foram tambm sustentculo para ns.
Aquilo me surpreendeu.
Nisso eu vi a Fora de Deus, aquilo tinha que ser expresso da 
Fora de Deus.
 medida que as Ministraes foram correndo, e os 
aconselhamentos com Dona Clara tambm, eu ficava de olho nelas. 
Queria saber o que ia acontecer com elas. E, embora viessem presses 
e retaliaes, elas ficaram em p. Isso me fez ver que Deus realmente 
tinha colocado a mim e a Isabela perto de pessoas fiis, perto de dois 
pilares de sustentao. Eu tinha imaginado um grupo maior, com 
homens... nunca pensei em duas senhoras... nisso Deus mostrou Sua 
Grandeza! Ele usa o corao que est disposto.
Se fosse pensar bem, Isabela tinha sido o primeiro sustentculo, 
sem o qual eu no teria encontrado os outros dois. Ela tambm no 
recuou, mas permaneceu ao meu lado.
Tambm tinha uma f especial, mas de uma outra maneira. O seu 
corao era puro, ela queria agradar a Deus de verdade. Mesmo que 
nem sempre conseguisse, ela queria. E Isabela, a despeito de todas as 
dificuldades que enfrentou, no desistia! No desistia de Deus, no 
desistia de tentar.
Nisso percebi que estava cercado, no por um peloto de 
guerreiros como tinha imaginado, como eu tinha em mente... mas por 
trs mulheres!
* * * *
Captulo 11
Agora que j apresentei devidamente aquelas que iam caminhar 
conosco durante um bom tempo, Grace e Dona Clara, posso retomar 
nossa histria. Realmente a carta da Irmandade tinha sido um marco. 
Tudo iria mudar aos poucos depois dela...
Poucos dias antes da gente conhecer Dona Clara, eu e Isabela 
brigamos por algum motivo tolo. Nossas brigas eram assim: comeavam 
por alguma bobagem e se estendiam por horas a fio. A gente no 
conseguia se acertar muito rpido, um assunto puxava outro e a coisa 
no saa do lugar. Isso foi numa sexta-feira do ms de julho daquele ano. 
Mais precisamente, dia 18 de julho. Outra data significativa.
Eu estava cansado de uma semana inteira de servio, e Isabela 
tambm. Mas finalmente conseguimos nos resolver mais ou menos antes 
que eu fosse para minha casa.
Cheguei super cansado, um pouco estressado. No queria saber 
de mais nada e fui logo dormir. No entanto, aquela noite seria diferente 
das outras noites.
Para comear, dormi mal. Era muito difcil que isso acontecesse, 
em geral eu pegava no sono facilmente e s acordava no dia seguinte. 
Por algum motivo fiquei me remexendo, cochilava e acordava de novo.
Ento eu dormi. Dormi de vez.
L pelas tantas, no saberia precisar o horrio, talvez umas trs da 
manh, e aquele barulhinho comeou a me incomodar.
 TTTRRRRRIIIIMMM!!! TTRRRIIIMMMM! TTTTRRRIIIIMMM!
Foi to insistente que de repente me vi desperto. No comeo no 
consegui identificar o que era, totalmente zonzo.
 TTRRRRIIIIMMMM!!!
Pulei da cama aos trambolhes. Meus irmos resmungaram um 
pouco, reclamando do telefone. Se eles j estavam deitados, era sinal de 
que a hora estava de fato avanada. Minha me pelo visto no acordou, 
seno teria atendido em seu prprio quarto. Ou ento, ela no estava 
mesmo a fim de atender.
Ento desci a escada para pegar o telefone da sala.
"Que droga... no pra de tocar! Ser que  o Wang?!", raciocinei 
rapidamente. (Leia Filho do Fogo).
Wang costumava fazer isso vez por outra, ele viajava muito e me 
ligava de madrugada porque nos Estados Unidos ainda era cedo. Ele 
dava pouca importncia ao fuso horrio, e me ligava pra bater papo, para 
contar como estava indo, essas coisas.
 TTRRIIMMMMM!
 Al!?
No primeiro instante ningum respondeu. Por algum motivo 
qualquer eu sabia que no era Wang, alguma intuio l no fundo me 
dizia que era outra coisa... e ento ouvi a voz dele. Igualzinha como era, 
parecia que nada havia mudado, quase como se eu tivesse falado ontem 
com ele... um eco do passado.
A voz de Marlon soou clarssima pelo telefone numa conhecida 
saudao em aramaico.
Meu susto foi to grande que emudeci. Senti um arrepio me 
percorrendo pela coluna, o estmago contraiu imediatamente. No achei 
nenhuma palavra para dizer. Sentia somente as batidas surdas do meu 
corao. Tanto tempo havia passado... eu pensava que eles tinham 
esquecido de mim... por que ele estava ligando?!...
Senti minha mente sendo bombardeada por uma profuso de 
pensamentos incoerentes, sentimentos desordenados brotaram do meu 
corao. Aquela sensao durou alguns segundos que me pareceram 
interminveis.
Eu deveria ter respondido  saudao com outro cumprimento.
Quando algum te diz "Bom-dia", voc responde "Bom-dia"... 
quando os muulmanos dizem "Assalam Aleikum", deve-se responder 
"Aleikum Assalam"...
Mas eu no pude dizer nada nesse sentido. Embora a resposta 
daquele cumprimento em aramaico me brotasse na mente, jamais 
poderia transform-la em palavras. Ento ele continuou:
 Eu fico muito contente em saber que voc est bem...  
continuou Marlon ento, tranqilo, amigo, paternal.
Parecia realmente que Marlon tinha recm descoberto que eu 
ainda existia e estava feliz com isso. Minhas suspeitas se confirmaram, 
durante todos aqueles anos Marlon e os outros tinham ficado pensando 
que eu estava morto. Por que Thalya nada dissera?
  voc, Marlon?
 Claro! Quem mais poderia ser?
 Como  que voc me achou?
 ... levou um tempo... algum tempo! Mas estou muito feliz em 
saber que voc est bem, que voc est vivo! E que, de alguma forma, 
voc est sendo preservado.
 Deus est me preservando!
 No... voc est sendo preservado por aquele que  o seu 
verdadeiro pai... Lcifer. Ele sempre soube de tudo, os demnios da mais 
alta hierarquia sempre souberam que voc estava vivo. Eles preferiram 
te preservar por algum tempo para te oferecer uma nova chance. E na 
verdade  isso! Chegou o tempo, e voc ter essa nova chance. Lcifer 
esperou para fazer mais ou menos como foi com o filho prdigo. Quando 
ele quebrou a cara, voltou correndo para casa. J que voc queria tanto, 
agora voc experimentou como  vagar pelo mundo...
Percebi naquele momento que talvez eles tivessem dado uma boa 
explicao sobre meu paradeiro dentro da Irmandade. Talvez a minha 
fuga tivesse sido encoberta e se eu aceitasse o convite para retornar... 
seria como se nunca tivesse sado! A grande maioria das pessoas talvez 
no tenha tido acesso quela informao. A histria da minha fuga deve 
ter sido guardada a sete chaves.
Realmente... no eram muitas as pessoas que sabiam daquela 
minha desavena com o Brintti! (Leia Filho do Fogo). Teria sido muito 
fcil para Zrdico, para Marlon, para o meu grupo de Fire's Sons ter 
ficado com a boca fechada... se isso tivesse sido exigido pelos demnios! 
Eles inventariam que eu tive que viajar para ser treinado em outro pas, 
por exemplo, ou qualquer coisa que o valha. No seria muito difcil 
explicar a minha ausncia. E a coisa nunca sairia da alta cpula.
 Escuta... ento voc quer dizer... que eu s estou vivo porque o 
diabo no quis me matar?
 Mas  claro. Ou voc acha que teria algum obstculo pra isso?
 Se ele no quer me matar, ento  sinal que Lcifer gosta de 
mim...
 Lgico! Ele sempre te amou, sempre vai te amar. Ns te 
amamos muito! Alis, voc est fazendo muita falta no nosso meio. 
Agora a gente sempre comenta de voc, voc est fazendo falta nas 
nossas rodas de conversa.
Comeou a contar do pessoal, falou sobre Zrdico, sobre Thalya...
 Olha    est chegando o tempo de voc ser lanado no mbito 
poltico. O fim do Terceiro Ciclo est a mesmo!  o tom de voz dele 
mudou de entusiasmado para ligeiramente melanclico.  Por que voc 
fez isso...? O que foi que fizeram com voc? O que que aconteceu?
Marlon falou em tom to paternal que aquilo me comoveu um 
pouco. O tom da voz dele me fazia sentir saudade daquilo que eu no 
tinha mais, a companhia de algum... apesar de no ter tido grandes 
decepes com a Igreja (ainda), me sentia s s vezes. Com a mudana 
para a Comunidade, eu tinha perdido o contato com aqueles antigos 
colegas. E acho que eu estava particularmente sensvel naquele 
momento tambm porque tinha brigado com Isabela.
Mesmo assim, no ia admitir nada para ele:
 Mas eu estou bem!
 No... voc est dizendo pra voc mesmo que est bem, mas 
na realidade voc no est! Se voc olhar  sua volta vai ver que no 
est bem... o que  "estar bem" pra voc? Ns queremos o seu bem, eu 
sei o que  melhor pra voc. O seu pai sabe o que  o melhor! Voc sabe 
muito bem que no est bem... afinal, s tem sido subtrado das coisas, e 
ns, ao contrrio! Ns sempre acrescentamos coisas  sua vida, nunca 
subtramos nada. Hoje a sua paz est sendo subtrada, a sua 
tranqilidade, a sua harmonia, pessoas da sua famlia...
Nesse momento no entendi se ele estava se referindo ao meu 
pai, ou era apenas o fato de minha me e meus irmos nunca terem 
entendido a minha converso. Pelas minhas costas, eu era sempre a 
chacota da famlia por ter "virado crente". Quando eu era Satanista 
estava bem de vida, tinha bastante dinheiro, um emprego maravilhoso... 
era para isso, para esses esteretipos que minha famlia olhava. Nesse 
sentido, sim, eu podia me considerar uma pessoa  parte deles
Lembro-me que certa vez, muito de leve, comentei com minha me 
que tinha ficado "possesso". Ela achou aquilo uma arrematada loucura! 
No entender deles, eu estava mais louco do que antes. Embora tivesse 
compartilhado minha f, e embora tivesse mudado muito de vida... 
nenhum deles quis abraar o Cristianismo. E eu era visto de uma forma 
negativa por ser Cristo.
Marlon continuou no seu tom nostlgico e paternal, relembrando 
momentos que passamos juntos. Parecia sincero no seu falar. No 
questiono as ordens que ele certamente recebeu por trs... dos 
demnios e da hierarquia. Mas Marlon, como pessoa, gostava de mim e 
sentia sinceras saudades. Assim como eu tambm sentia saudades, no 
da Irmandade, mas dele.
Embora tudo aquilo mexesse um pouco comigo, no quis escutar 
mais. Eu estava determinado em seguir adiante pelo caminho que 
achava certo, queria continuar caminhando com Deus. Deus tinha me 
resgatado... e eu tambm tinha visto a Fora Dele no Brintti. Pelo que 
retruquei:
 Mas aquele Pastor vocs no derrubaram.
 E voc sabe dele? Voc procurou saber como ele est hoje?  
dessa vez a voz de Marlon veio sarcstica, debochada.  Ou voc acha 
que ele est em p ainda?
Aquela foi a gota d'gua para me deixar na dvida. Alterei o tom de 
voz, um tanto indignado:
 Ah! Quer saber, Marlon? No quero mais falar com voc! Vou 
desligar, vou dormir... me d licena!
 T bom... eu s vou te dar um ltimo aviso: voc no  mais 
filho do Fogo. Agora... o Fogo pode te queimar!
E desligou. Tinha lanado uma semente.
Subi as escadas devagar, refletindo. Ele tinha vindo me oferecer 
uma chance, uma nova chance.
"Ser mesmo que as portas ainda esto abertas pra mim?"
Por um lado eu achava que sim; por outro, no acreditava que 
pudesse ser perdoado pelo que fiz. Mas se fosse pensar bem...
"Eu no fiz nada demais, no contei os segredos, estou quieto no 
meu canto... eles podem muito bem estar vendo isso como uma recada, 
um erro igualzinho a outros que cometi enquanto ainda estava l."
Fiquei com a hiptese da porta aberta. Se eu tivesse sido apenas 
mais um dentro da Irmandade, tenho certeza que Lcifer adoraria beber 
meu sangue. Mas eu no tinha sido qualquer um... eu era uma pea 
importante, uma pea-chave. Por esse motivo talvez Lcifer ainda me 
quisesse realmente, por isso manteve encoberto o meu "deslize".
"O Terceiro Ciclo ainda no terminou... para todos os efeitos, ainda 
h tempo hbil para o meu retorno."
 totalmente dispensvel dizer que o que restou da noite serviu 
para tudo, menos para o meu descanso. Fiquei com tudo aquilo na 
cabea.
"Agora eles sabem que eu estou vivo...  s uma questo de 
tempo... se eu no aceitar regressar..."
Ainda antes de pegar no sono, pensei comigo mesmo que se a 
minha nova opo de vida  ser Cristo , no desse em nada, ainda 
teria chance de recuar.
"Eu ainda no cheguei no ponto sem retorno. E, se tiver me 
enganado, se a vida Crist no for tudo aquilo que estou pensando... 
talvez eu volte!"
Na manh seguinte, no me sentia bem. No fundo, eu sabia que 
no queria aceitar a proposta. Por mais que Marlon tivesse procurado me 
fazer ver o quanto eu tinha perdido, a verdade  que eu no queria voltar 
 Irmandade. Eu no conseguia acreditar que tinha me enganado ao 
tornar-me Cristo, eu estava bem, estava gostando daquela vida!
Mesmo que no tivesse mais o dinheiro, o glamour, cheio de 
amigos ao meu redor... eu estava gostando de ser Cristo! Por causa de 
Deus! Ele estava me conquistando. Eu queria aprender mais, conhecer 
mais de Deus, estava aberto para isso.
"Deus no pode ser uma farsa!"
E estava tambm comeando a conhecer um outro lado do meio 
evanglico: o lado da Batalha. At ento, eu tinha conhecido uma Igreja 
mais voltada para o lado social do Cristianismo. Mas ao lado de Grace eu 
teria condies de ver melhor como um Cristo pode se defender dos 
ataques do diabo. Pela primeira vez eu ia ver como isso funcionava.
Por outro lado, sabia que, se recusasse, colheria terrveis 
conseqncias. Estava descoberto agora, eles sabiam de mim...
No sbado, sa logo cedo e fui dar uma volta no parque perto de 
casa. Pensei bastante, orei. Mas nada pareceu me ajudar. Na hora do 
almoo falei com Isabela pelo telefone e combinamos de nos 
encontrarmos. Fui para a casa dela de nibus.
Logo ela percebeu que eu no estava muito bem. Mas a princpio 
pensou que fosse por causa da briga do dia anterior.
 Nen, no fica assim, no! Olha, agora j t tudo bem de novo.
Ainda que eu no fosse dizer a ela que sentia meus dias chegando 
ao fim, a iminncia de um tempo terrvel, tinha que contar sobre o 
telefonema. Ento abri o jogo:
 Eles me ligaram ontem...
A expresso do seu rosto mudou. Ela sabia do que eu estava 
falando.
 Como assim?!... Ontem  noite?
 De madrugada.
 Mas por qu?  o seu semblante demonstrava desalento e 
temor.  O que foi que  eles te disseram?
 Foi rpido. Mas deram o recado  suspirei e contei exatamente 
como tinha sido.
 E quem que te ligou...?
 O Marlon.
Ela ficou olhando pra mim, eu fiquei olhando pra ela. Eram 
situaes totalmente novas. Dizer o que diante daquilo? Procuramos orar 
juntos e no nos deixarmos influenciar. Deus era maior, isso era um fato. 
Era um fato que entendamos com a nossa mente. Mas as emoes 
ficam um pouco em polvorosa diante de um perigo real.
 fcil dizer que "Deus  maior" quando nada nos ameaa, nem 
perturba. Muito diferente  ver o meteoro vindo em sua direo. A a 
gente pensa: "Deus  mesmo maior do que esse meteoro?... E mesmo 
que seja... se houver um propsito em... deix-lo passar?"
No final do dia eu e ela nos sentamos um pouco melhor.
 J entregamos pra Deus... no vamos mais ficar pensando 
nisso!
* * * *
Outros quatro telefonemas sucederiam a este. Marlon ligou-me em 
casa de Isabela e no servio, sempre em datas cabalsticas, sempre 
depois de alguma situao de desconforto entre Isabela e eu. Mais ou 
menos um por ms, de julho a outubro, o ltimo no dia 31 de outubro.
As conversas foram curtas e se resumiam em mostrar-me que eu 
tinha feito a escolha errada. Marlon procurou me fazer ver que as coisas 
iriam piorar caso continuasse me recusando a atend-los.
Muitas vezes foi deixado bem claro:
 No adianta. Ningum vai te ajudar! Ningum vai ficar do seu 
lado, voc est no meio de um grupo dividido. Entrou num exrcito 
dividido, e esse exrcito dividido no vai prevalecer. Ns somos unidos, 
por isso somos fortes. Lembra do "Poder  fora, morte aos fracos"? Ns 
temos Poder porque somos unidos, a unio gera a fora. E o Poder  
acrescentado a ela! Mas voc est num meio dividido, num meio fraco. O 
que  a Igreja? Que loucura  essa? Um briga com o outro, um apunhala 
o outro. Voc nunca vai ter apoio, nunca vai ter amigos. Nunca ningum 
vai estar do seu lado, inclusive seu Pastor! Pode escrever o que estou te 
dizendo: voc nunca vai ser acolhido ali porque ali no  o seu lugar! Ns 
somos a sua verdadeira famlia. Pare de resistir contra isso!
Eu achei aquilo uma afronta.
 Pois voc vai ver!  Ento veremos!
Notei que o tom das nossas conversas estava mudando. Ele j no 
me saudava em aramaico e estava implicado com a minha postura de 
recusa.
* * * *
Grace queria que ns repetssemos o curso dela, ento 
aproveitamos porque ia haver um outro em So Paulo mesmo. Na 
vspera do curso, novamente tive um rash cutneo, s que dessa vez foi 
sarampo. Eu tinha tomado vacina, e tive a doena atenuada. Mas com 
isso, gorou o curso.
Se foi coincidncia ou no, no sei. Mas aconteceu no dia 18 de 
agosto. No final do ms de agosto, Grace marcou outra Ministrao. 
Havia tanta coisa a ser trabalhada que em dez dias ela marcou mais 
uma.
Agora Isabela e eu realmente passamos a pedir muito mais a Deus 
pela nossa proteo. Normalmente era ela quem me convidava a orar, 
que comeava as oraes. A despeito disso, coincidncia ou no, nossas 
brigas aumentaram.
Coincidncia ou no, o intercessor tinha visto uma nuvem de 
demnios ao nosso redor na ltima Ministrao. Alm disso, ele tivera 
uma viso com dois demnios, um maior do que o outro, e que os dois 
estavam furiosos comigo.
Coincidncia ou no, eu tinha tido um sonho poucos dias antes, e 
nesse sonho havia dois cachorros prestes a me atacar. Mas no eram 
cachorros comuns, eram quase dois monstros.
Grace procurava ganhar terreno nas Ministraes. Esse era o 
nico caminho possvel, completar a minha libertao.
Isabela estava muito cansada, s vezes passava mal. Certa noite, 
depois do Culto, vomitou sem qualquer motivo aparente. Novamente, 
coincidncia ou no, ela tambm comeou a ter problemas no seu 
emprego.
Ns estvamos mais conscientes de que havia uma batalha ao 
nosso redor. Dona Clara nos incentivava e ela mesma tambm orava 
conosco todas as semanas. Alis, nesse perodo comeamos a nos 
tornar bastante amigos, da maneira como um casal jovem pode ser 
amigo de uma senhora mais idosa.
Durante a semana, do nosso jeito, ns fazamos as nossas 
oraes de guerra, sempre pedindo a proteo e pedindo que Deus 
cancelasse as maldies que porventura estivessem sendo lanadas 
contra a minha vida. Afinal, eles tinham me descoberto. E se tinham 
descoberto, certamente no iam ficar parados.
Tudo o que estava acontecendo, se fssemos olhar isoladamente, 
no era motivo para preocupao. Afinal... sonhos, brigas, enfermidades, 
problemas no emprego, cansao fsico, cansao emocional... no se 
pode culpar o diabo por tudo!
Mas havia aquela sensao de ameaa pairando no ar, e no era 
somente comigo. Isabela tambm sabia que alguma coisa parecia estar 
sendo armada em torno de ns. Ns no queramos ficar elucubrando 
nada, mas parecia difcil caminhar. Tudo parecia ficar mais difcil.
Em setembro, exatamente no dia da Festa da Primavera, ns dois 
oramos muito. Nesse dia, recebi mais um telefonema da Irmandade. No 
demorou muito desde o ltimo. Ns j estvamos at ficando 
acostumados! Desta vez foi Zrdico quem ligou. E foi em casa de 
Isabela!!!
Ns estvamos nos preparando para almoar, no domingo. Dona 
Mrcia preparava o frango assado na cozinha e ns conversvamos 
diante da mesa cheia de petiscos. O Wolfi, o Gorbie e a Bitinha, os 
cachorros, estavam animadssimos na porta esperando pelas guloseimas 
que Isabela lanava toda hora.
O telefone tocou e ela foi atender. Mas a pessoa do outro lado no 
se manifestou
 Al? Al?
Nada. Ento desligou.
Alguns minutos depois, tocou de novo. Eu j ia levantando, mas 
ela foi mais rpida.
 Deixa que eu atendo...  foi novamente at a sala.  Al?
E ento outra vez ningum se manifestou. Isabela tornou a 
desligar, mas dessa vez entrou na cozinha com uma expresso diferente 
no rosto. Ela parecia adivinhar de que se tratava. No me falou nada, 
mas eu li no seu olhar, e ela certamente leu no meu. J tinha acontecido 
por trs vezes, com Marlon.
Dona Mrcia, alheia a tudo isso, abria a porta do forno para regar o 
frango com molho novamente. Tentamos continuar o nosso aperitivo, 
intimamente esperando que o telefone no tornasse a tocar. Mas no 
adiantou. Menos de cinco minutos depois fomos outra vez interrompidos 
pelo toque. Dessa vez eu me adiantei. Atendi.
Senti um mal-estar invadindo meu corao. Era exatamente aquilo 
que suspeitvamos, mas eu no esperava ouvir a voz de Zrdico. 
Escutei Isabela falando at mais alto e puxando conversa com Dona 
Mrcia, para disfarar. Ela nem percebeu. Mas Isabela notou que eu 
fiquei uns minutos no telefone e desliguei sem dizer palavra.
Entrei na cozinha de novo e olhei para ela. E ela para mim. Aquela 
troca de olhares dizia tudo.
Assim que pudemos nos falar sem que Dona Mrcia percebesse, 
ela perguntou:
 Quem era?
 Era algum de l.
 Mas quem? Voc conhecia?
 No tenho muita certeza....  procurei disfarar, nunca tinha 
citado o nome de Zrdico at ento.
 E o que ele falou?!
 "J no te dissemos que ningum vai te ajudar? Por que voc 
insiste nesse caminho? Saiba que se voc continuar insistindo, as coisas 
s vo piorar pra voc. Voc est no lugar errado, o que que voc t 
fazendo a nessa casa?!  Pois essa casa vai ser derrubada, ns vamos 
destruir todos eles e voc vai junto de encomenda!"
Sempre ficava uma sensao de mal-estar depois destes 
telefonemas; nesse dia no foi diferente. O adorvel frango de Dona 
Mrcia j no tinha o mesmo gosto, apesar de que digerimos aquelas 
palavras mais depressa do que das outras vezes.
Que fazer a respeito? No havia muita coisa. Oramos, e deixamos 
para l.
Durante a semana compartilhamos com Dona Clara, e fizemos 
oraes de guerra vrias vezes, tanto juntos quanto separados. No final 
daquela semana uma semana muito atribulada, cheia de opresso, cheia 
de problemas, sentimos a necessidade de fazer um jejum. Um jejum de 
quatro semanas.
Aquele era um perodo crtico, eu sabia. Certamente a Festa da 
Primavera tinha acrescentado mais Encantamentos contra ns, sabia 
que era assim que funcionava! Sabia exatamente que desde o incio da 
primavera, eles haviam enviado tropas de demnios contra mim. A 
semana densa j era resultado daqueles Feitios.
Cinco dias depois de iniciado o perodo de jejum, eu, Isabela e 
Dona Mrcia samos para almoar. Ns no estvamos proibidos de 
almoar, apenas cortamos alguns alimentos.
Nesse dia fui tomado, pela segunda vez, por aquela mesma 
sensao que experimentara no Fran's, quando soube da carta de So 
Francisco. Foi igualmente estranho, ns tnhamos acabado de chegar ao 
restaurante, Isabela tinha ido ao toalete junto com Dona Mrcia.
Ento veio aquela coisa estranha dentro de mim. Um sinal de 
alerta, um sinal de perigo... s que, dessa vez, o perigo estava em casa 
de Isabela. Alguma coisa estava acontecendo l.
Chacoalhei a cabea, um tanto aturdido. Relativizei novamente:
"Isso  coisa da minha cabea... no tem o menor sentido... ".
Isabela e Dona Mrcia voltaram, sentaram-se  mesa, e eu tratei 
de no pensar mais naquilo. A sensao permaneceu durante algum 
tempo ainda, mas depois esqueci dela.
O almoo foi agradvel, depois fomos tomar um caf no Shopping. 
Somente mais tarde voltamos para casa. Para a casa de Dona Mrcia.
Isabela foi at o quarto, a porta que dava para os fundos do quintal 
tinha ficado aberta. Ela saiu ali no terrao, de onde podia ver os 
cachorros atrs da cerca de madeira.
 Nen! Vem aqui um pouco!
Foi at l. Isabela tinha aberto a cerca e observava o Wolfi.
 Olha s, olha s como ele est todo ensangentado! Meu Deus 
do Cu, ser que ele brigou com o Gorbie enquanto a gente estava fora?
 Ser possvel? Eles costumam fazer isso?
 No, s sai briga aqui se for por causa de cime. S sai briga se 
tiver algum perto! Nunca aconteceu deles brigarem sozinhos! Ser 
possvel que foi isso?!
Isabela olhava o Wolfi, afastava o plo para ver de onde tinha 
sado sangue, se tinha algum sinal de mordida. Ao mesmo tempo, olhava 
para o Gorbie que, lampeiro, abanava o rabo e se torcia todo de alegria.
 Que aconteceu, Wolfinho? Voc brigou, meu chuchu?
O Wolfi no tinha nenhuma marca de mordida, e o Gorbie no 
tinha sangue. De onde teria sado aquele sangue que estava no plo do 
Wolfi?
 Nossa, Eduardo... olha s a boca dele!  daqui que est saindo 
sangue, olha s, ainda est sangrando!
 Puxa vida,  mesmo! Ser que o Gorbie mordeu ele na boca?
 No, impossvel...
Foi a que o Wolfi ps a lngua mais para fora, e vimos o estrago. 
Ele tinha um furo nela, to profundo que tinha perfurado.
Isabela se condoia, o rosto demonstrando toda a tristeza e 
preocupao. O tom de voz soou profundamente magoado.
 Mas o que ser que aconteceu? Certamente no foi o Gorbie, 
ser que ele mordeu a lngua, ele mesmo se mordeu?
Wolfi devia estar sentindo bastante dor, mesmo assim abanava o 
rabo e fazia festa.
 Puxa vida... acho melhor lev-lo ao veterinrio.
Como era domingo, no poderamos lev-lo no Hospital Veterinrio 
da USP, o lugar mais confivel. Pelo que tivemos que procurar um 
Mdico particular que estivesse de planto.
Isabela entrou em casa e, preocupada, comunicou a Dona Mrcia.
 Vamos ter que levar o Wolfi ao veterinrio. Ele perfurou a lngua 
e est sangrando bastante!
 Nossa! Que aconteceu?
 No sei. Mas tambm no vou deixar ele assim.
Isabela pegou a lista telefnica e conseguiu descobrir um 
veterinrio de planto, num bairro que julgamos ser confivel. Nunca se 
sabe que tipo de Mdicos atendem por a. Isabela sempre fazia 
restries a consultrios e profissionais de quem no tivesse indicao 
alguma.
O resto da tarde de domingo se perdeu nesse problema. Pusemos 
o Wolfi no carro e o levamos.
O consultrio estava vazio, portanto no esperamos muito. 
Explicamos o que aconteceu e o veterinrio examinou o Wolfi. Ns 
aguardvamos pela sua opinio, ansiosos. Depois de vrias perguntas, 
depois do exame, ele falou:
  estranha essa leso. Nunca vi isso! O que acho mais 
provvel,  que talvez ele tenha tido uma convulso e se machucou 
sozinho. Ele j teve isso antes?
 No...
 Pode acontecer, animais dessa idade podem desenvolver um 
quadro convulsivo... uma epilepsia! Ele j est com 10 anos, no ? Mas 
como est bem,  um animal forte, vou dar uma medicao pra dor, um 
antibitico e vamos aguardar.
Ns agradecemos. Ele fez uma medicao injetvel ali, na hora, e 
prescreveu a receita dos medicamentos a serem dados em casa. 
Enquanto eu pagava a consulta, Isabela olhava para o Wolfi com ar 
triste.
Samos de l no cair da noite. Na volta, j compramos os remdios 
e logo que chegamos em casa, Isabela estava pensativa:
 Ser mesmo que ele teve uma convulso?
A dvida ficou no ar. Mas no demorou muito a ser sanada. Na 
hora do lanche, escutamos o Gorbie latindo compulsivamente, em tom 
estranho, nervoso, inquieto.
Isabela correu na porta da cozinha e teve tempo de ver a 
convulso. Bastante assustada, ela correu para o quintal. A crise foi 
rpida, tnico-clnica, durou alguns segundos. Depois ele ficou 
ofegando, os olhos esquisitos, esbugalhados, a saliva escorrendo um 
pouco pela boca. A lngua voltou a sangrar e o furo se transformou num 
rasgo.
Gorbie e Bitinha latiam sem parar, tornando a confuso ainda 
maior, e Isabela gritava com eles para que ficassem quietos enquanto 
tentava acudir o Wolfi.
Mas logo aquele estado meio torporoso passou, ele levantou e 
caminhou normalmente, parecia que nem tinha acontecido nada!
Isabela tambm se ergueu, observando-o.
 Foi uma crise rpida,  bem mais rpido do que em seres 
humanos... um ser humano no volta assim rpido de uma crise tnico-
clnica.
Depois de observar um pouco mais, ligamos para o veterinrio. Ele 
passou um anticonvulsivante pelo telefone mesmo. Gardenal.
Mais tarde, comentei com Isabela sobre a sensao que tinha tido 
na hora do almoo.
 Mas, Eduardo... por que voc no falou nada??
 No sei, achei que fosse coisa da minha cabea...
Isabela no me culpou por no ter dito nada. Ser que tinha sido 
novamente um aviso de Deus? E se Deus avisou, ser que se 
tivssemos orado na hora nada daquilo teria acontecido? Nunca vamos 
saber, porque no oramos. Porque eu no falei nada.
Naquele ms, em outubro, gorou o segundo encontro com o Pastor 
titular da nossa Igreja, o Pastor Lucas. O primeiro encontro no tinha 
dado certo, por algum motivo que j no me lembro. Recebi um 
telefonema da Igreja adiando para nova data.
Que era naquele dia, mais ou menos no meio do ms.
Eu e Isabela chegamos  Igreja com antecedncia. Eu estava meio 
cismado pelo que Marlon me havia dito, sobre ningum ficar ao meu 
lado, inclusive meu Pastor. Isso no podia ser, eu nem o conhecia ainda, 
a no ser de vista. Na hora em que o conhecesse, que ele soubesse 
melhor da minha histria, tudo daria certo.
Chegou o horrio do encontro e a secretria nos avisou que ia 
atrasar um pouco, que ele estava com pessoas na sala. Ento ficamos 
por ali, zanzando, olhando o mural, lendo o que estava afixado.
Mas a... novamente comecei a sentir aquilo. Aquela sensao. 
Mas era diferente dessa vez, no parecia ser um alerta de nada, era s 
uma sensao ruim. Simplesmente ruim. Parecia a presena de um 
demnio, no um demnio grande, forte, Poderoso como eu conheci na 
Irmandade. Era um demnio menor... mas estava ali, na Igreja... l em 
cima!
Eu no sabia o que fazer, e de novo me recusei terminantemente a 
acreditar naquilo que meu esprito captava. No sabia ainda que aquilo 
era um Dom.
Como a sensao continuasse, comecei a me sentir at mal, no 
estava agradvel ficar ali dentro.
"No  possvel, isso tem que ser coisa da minha cabea... eu 
estou dentro da Igreja, ser possvel que tem um demnio aqui?"
Por mais que eu soubesse que demnios entram, sim, dentro de 
Igrejas, naquela hora no quis pensar nisso. Ento sa, fui ficar l no 
jardim, l fora. Ali a sensao era menor, me sentia mais confortvel. 
Apesar de estar batendo sol, eu no gostava de ficar direto naquele sol 
forte, preferia o sol  presena daquele demnio!
Fiquei quieto, olhando os carros que passavam pela rua, os 
nibus, os transeuntes; observava as casas em frente e o velhinho que 
vendia doces na porta de sua casa. At achei graa. Ele tinha armado a 
sua barraquinha na garagem do sobradinho quase em frente. No 
deixava de ser uma boa ocupao!
De repente...
 , Nen, eu estava te procurando! Por que voc sumiu? Por 
que voc quer ficar aqui nesse calor, no  melhor ficar l dentro, no 
fresquinho?
 Ah! T bom aqui! Isabela ficou um pouco comigo, mas 
realmente o sol estava forte.
 Vamos esperar l dentro, Nen. T muito quente aqui fora!  e 
dessa vez ela me olhou melhor, desconfiada.  Me conta isso direito, 
vai. Por que voc veio ficar aqui?
Ento contei. Isabela me olhava com ar admirado e falou:
 Ser que a gente no deve orar, ento?
 Se ele entrou aqui,  porque tem permisso para entrar...
 Mas no vamos ficar aqui, no! Vamos l para dentro, vamos 
orar um pouco. Ento fomos sentar dentro do templo, na ltima fileira de 
cadeiras. Lado a lado, Isabela preparava-se para orar quando escutamos 
a gritaria vindo l de cima. Nos entreolhamos.
 Nossa.....tem algum possesso a! Deus te sinalizou mesmo!
Foi minha vez de ficar espantado. Novamente eu tinha 
pressentido. Nem parecia uma coisa real!
 Vamos orar aqui debaixo pra ajudar eles que esto l em cima! 
Oramos um pouco. Foi rpido. Logo percebemos que o barulho cessou. 
Esperamos ainda um pouco mais, apenas para receber da secretria da 
Igreja a notcia de que nosso encontro teria que ser cancelado. Ficamos 
muito chateados, mas no havia nada que pudssemos fazer.
Dentre outras coisas pessoais comentamos depois com Dona 
Clara, um pouco frustrados, que j era o segundo encontro com o Pastor 
Lucas que gorava. Oramos para que pudesse acontecer. E j que 
estvamos falando do Pastor Lucas, acabei lembrando de outro Pastor, 
no final da nossa reunio:
 Eu estou meio cismado por causa do Brintti!  e eu expliquei 
rapidamente para ela quem era o Brintti.  Eu j fiz de tudo pra 
encontrar esse homem! Mas ningum tem sinal dele! A verdade  que 
ele est vivo, a Grace me disse que o encontrou em Israel h alguns 
anos, e que nessa ocasio ele comentou que estava passando por 
muitos problemas. Mas nem mesmo a Grace consegue saber dele agora. 
Mas Marlon falou com muita convico... eu sei que eles podem jogar 
verde pra colher maduro... mas eu gostaria tanto de saber onde ele est, 
como ele est! O Feitio que foi feito contra ele naquela poca foi muito 
forte, eu nunca tinha visto nada to forte...
 Vamos orar por ele, n, "Bem"? Vamos estar cobrindo em 
orao, porque ele tambm  alvo. No tempo certo, o Senhor vai 
preparar um encontro de vocs!
Foi o que fizemos. Ns no sabamos aonde estava o Pastor 
Brintti, mas Deus sabia... e nossas oraes podiam alcan-lo aonde 
quer que fosse!
O resto da semana correu normalmente, ou seja, daquele mesmo 
jeito meio atravancado, meio dificultoso; onde quer que pudssemos ter 
algum problema, esse problema acontecia. Ns dois sabamos que 
aquilo era espiritual... porque, se no fosse, ultrapassava as leis da 
probabilidade. Ou ento, teramos que admitir que ns estvamos 
debaixo da influncia da "lei de Murphy". A "lei de Murphy" estava agora 
se cumprindo nas nossas vidas bem mais do que antes!
Dois dias depois do encontro que no aconteceu, eu e Isabela 
tnhamos ido ao Wal Mart porque estvamos pesquisando preos de 
televiso. J estvamos noivos h mais de um ano, tnhamos inteno 
de casar, e Isabela no tinha uma televiso no seu quarto. s vezes era 
bom que ela tivesse o seu refgio, tinha tudo no seu quarto, at aparelho 
de som. Mas no tinha televiso.
Ento a gente estava tentando comprar uma televiso bem legal, 
que depois j servisse como compra de casamento.
Mas no conseguimos olhar nada, sem mais essa nem aquela 
comecei a sentir aquela terrvel dor de estmago. Eu no tinha comido 
nada de diferente, no tinha feito nada diferente! Mas meu estmago 
comeou a se contorcer fortemente, quando vinha a elica eu quase no 
me agentava. Nosso passeio ficou estragado e tivemos que voltar para 
casa. Sugestivo ou no, isso foi no dia 18.
Seis dias depois, no servio, de maneira totalmente inexplicvel, 
comeou de novo a mesma dor. A medicao no fazia muito efeito, a 
dor passava quando queria...
Nessa semana quem passou mal tambm foi a nossa poodle 
preta, a cachorrinha que ns tnhamos em casa de minha me. O mais 
interessante foi que eu pressenti antes, como das outras vezes, como 
tinha sido com o Wolfi.
Quanto ao nosso jejum de quatro semanas, estvamos levando a 
srio, procurando orar mais e ler mais a Bblia tambm. Mesmo assim, 
no primeiro e no segundo final de semana de outubro ns camos. Quer 
dizer, brigamos! Isso estragava o nosso perodo de descanso, nos punha 
desanimados... eram brigas que comeavam por motivos muito tolos, 
muito corriqueiros, mas atingiam propores desastrosas. No havia 
explicao para aquilo!
No meio de todas aquelas lutas esparsas, um ponto de vitria 
naquele ms foi que no terceiro e quarto finais de semana, assim que a 
fumaa comeou a surgir no ar, conseguimos abortar o problema. No 
brigamos!
Outro ponto positivo foi que Isabela retomou a escrita do livro Filho 
do Fogo. Ainda que estivesse no comeo, era importante dar seqncia. 
Normalmente ela usava perodos livres dentro do horrio de trabalho 
para fazer aquilo. Ao invs de ficar  toa, ela permanecia no consultrio 
entretida com a escrita.
Outra coisa boa foi que no fim de outubro daquele ano nos 
tornamos membros da Comunidade. J estvamos freqentando h 
quase seis meses.
 * * * *
Captulo 12
Chegou o 31 de outubro e tudo o que ns podamos fazer era orar. 
Ou melhor, continuar orando! E esperar. Esperar que nada acontecesse.
Naturalmente era esperar demais, e no fundo do corao 
sabamos que seria impossvel no haver nenhuma manifestao da 
parte deles. Isso no quer dizer que as manifestaes fossem diretas, 
excetuando os telefonemas. Mas agora j era claro, percebamos um 
padro de eventos. Que a gente podia brincar, e chamar de lei de 
Murphy, mas  claro que no era nada disso!
Houve um outro telefonema. Foi o quinto. E logo cedo, no meu 
servio.
Foi Zrdico outra vez. Assim que atendi fiquei completamente 
estupefato.
 Ns estamos te observando bem de perto. Bem mais perto do 
que voc imagina. E no h nada  tua volta! Voc no tem proteo 
nenhuma.
Naquela hora soube exatamente do que ele estava falando. 
Lembrei-me que Grace havia pedido uma proteo especial, havia 
pedido a presena dos anjos. Pelo visto, Zrdico tambm sabia disso. E 
zombava.
 Cad os anjos que te guardam? Cad a proteo? Estamos 
mais perto do que voc pode supor, estamos vigiando e controlando 
cada passo que voc d. Voc quer conservar a sua existncia? No vai 
ser levando essa vida medocre de Cristo que isso vai acontecer, se os 
anjos realmente te guardassem no seria to fcil assim para ns te 
vigiarmos de perto.
O tom de Zrdico era agressivo, quase ameaador. Marlon sempre 
teve mais pacincia comigo, mas eu sabia que Zrdico era outro tipo de 
pessoa. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, mencionou Isabela.
 Voc fez a escolha errada. Essa mulher que voc escolheu s 
vai te trazer destruio, vai trazer desgraa e runa pra tua vida. A sua 
alma gmea est aqui, no est a perto de voc. Voc j deve ter 
percebido que no d certo se envolver com essa raa medocre!
E nisso ele estava falando de todos os Cristos.
 E essa fulana que te acompanha, essa tal de Grace... no 
pense que ela  tudo isso, no! Espere e voc vai ver, ela nunca 
enfrentou esse tipo de batalha. Ela  soldado raso ainda, no tem 
patente, muito menos autoridade para confrontar o nosso exrcito. Ela 
fez umas batalhas regionais. Enfrentou o "Paraguai"!  muito diferente de 
enfrentar os "Estados Unidos"!!! Ela no conhece esse tipo de guerra. As 
pessoas da equipe dela so orgulhosas, altivas, arrogantes... esto a 
servio de si mesmas! Essa tal de Grace vai ficar sozinha nesse barco.
Eu tentei dar uma boa resposta:
 Deus cuida dos pssaros do campo. Vai cuidar de mim tambm. 
Nada vai me faltar.
Eu falei, mas l no fundo no sabia realmente se acreditava 
naquilo. Sabia muito bem o que estava enfrentando, eu conhecia o Poder 
que eles tinham. Eles estavam movimentando as peas, como num jogo 
de xadrez. Lentamente. Sem pressa. Para que a pressa? Era melhor ir 
devagar, fazendo aquele calor intensificar aos poucos, exatamente como 
vinha sendo. Uma coisa aqui... outra ali. No estavam parados. E 
certamente estavam articulando, encantando pessoas, lanando 
Feitios... para fazer com que eu me decepcionasse com a Igreja e com 
aqueles que estavam  minha volta.
Somente assim teriam chance de me recuperar, teriam chance de 
me persuadir a voltar para eles.
Se eles conseguissem fazer com que eu passasse pelo deserto, 
em todos os sentidos, aquilo me faria refletir se tinha tomado a atitude 
certa ou no.
Dei de ombros.
 Hum.
Mas o mal-estar ficava por dentro. Como lidar com aquilo??
* * * *
Naquele mesmo dia a Grace ligou, para saber de ns. Ligou em 
casa de Isabela. Era mais fcil me achar l do que em minha prpria 
casa. Oramos mais uma vez cancelando a atuao do inimigo, e ela 
marcou mais uma Ministrao para dali a cinco dias.
Contatamos tambm Dona Clara e Ricardo, para orar e pedir 
orao.
Aqueles momentos no telefone depois nos davam uma sensao 
reconfortante de proteo. No havia mais nada que pudesse ser feito.
Karine, a amiga daquela cidadezinha de interior, tambm ligou. Ela 
estudava em So Paulo e de vez em quando vinha  nossa Igreja, de 
forma que convivamos bastante com ela. Nos limitamos a dizer que tudo 
estava bem.
Aquela fumaa estava ficando mais escura. Eu sabia que eles no 
estavam com pressa. Mas agora, mais do que antes, podia perceber um 
mover diferente no Reino Espiritual.
* * * *
 Decidi vender o revlver!  exclamei para Isabela certo dia.
 Decidiu, ? E por qu?  Ah... acho que  melhor!
 Mas por qu?
 Eu preciso ir me desvinculando dessas coisas. Acho que no  
bom andar armado!
Era um final de semana e, para variar, ns estvamos dando um 
rol pelo Shopping. Estava tudo bem cheio, gente andando por todos os 
cantos, a praa de alimentao tambm estava lotada. Eu no gostava 
muito do Shopping aos sbados e domingos, mas tambm no dava 
para ficar em casa o tempo todo. Sair um pouco, mesmo que no meio de 
um Shopping cheio, sempre ajudava a espairecer a cabea!
Como quase todas as vezes, a gente foi jantar no Viena.
 Mas voc no disse que ia deixar o revlver em casa?  tornou 
Isabela.
 Eu estou tentando deixar, faz at um bom tempinho que no 
pego ele... mas, sei l! Acho mesmo que talvez seja hora de me livrar 
disso...
Isabela pensou um pouco. Por um lado ela desejava me incentivar; 
por outro...
 Ser mesmo que voc no vai precisar dele nunca mais?
Eu entendi a pergunta. Os recentes acontecimentos deixavam a 
gente pensando um pouco. Ser que andar armado no faria toda a 
diferena num momento crucial?
 Quero crer que Deus vai me proteger... quem vive pela espada, 
morre pela espada.
  Talvez seja mesmo o melhor. Tem gente que tem cabea para 
andar maquinado, mas no sei se  nosso caso!  e Isabela deu uma 
risadinha de leve.  A gente j escapou de cada uma! Tem coisas que 
s pela Graa de Deus mesmo! Lembra daquela histria da dana?!
 Puxa, se me lembro! Olha, vou te falar um negcio... aquilo ali 
foi por Deus mesmo! At hoje no sei como  que eu consegui me 
controlar. Acho que foi porque o cara baixou a bola!
 Ai, Eduardo! S voc...
 At parece que voc  muito calma! Eu e Isabela comeamos a 
rir.
 Hoje a gente d risada... mas naquele dia eu queria te matar!  
exclamou Isabela no meio do riso.
 A culpa foi sua!
 Foi minha... s porque voc quer! Que coisa!
Comeamos a lembrar do episdio enquanto espervamos pelo 
prato.
Tudo comeou porque Isabela adorava dana! Esse foi um belo 
problema entre ns dois logo de cara. Quando comeamos o namoro ela 
fazia um curso de danas de salo que adorava! Levava jeito, tinha ritmo, 
facilidade em aprender os passos. Em suma: tinha at futuro! Se no 
parasse de aprender, certamente saberia bastante.
No comecinho do nosso namoro eu estava fazendo de tudo para 
agradar Isabela. Por isso, durante as frias, logo depois que ela entrou 
na Residncia, fomos fazer um curso de pagode, em dez aulas. L na 
academia de dana que ela freqentava.
 Eu concordei em fazer aula, em aprender a danar.  exclamei. 
 Esse ponto voc tem que me dar, eu tentei te agradar porque voc 
estava toda entusiasmada. Me esforcei!
 E no era pra estar? Um dos meus maiores desejos era ter um 
parceiro pra danar comigo. No era possvel que voc no conseguisse 
fazer certos movimentos bsicos, pxa vida! Algum que faz coisas 
dificlimas no Kung Fu no ia acertar uns passinhos simples de dana?

 No  to fcil assim. Eu no estava condicionado a fazer 
aqueles movimentos.
A gente comeou a rir lembrando daquilo. As vezes era engraado 
recordar certas coisas.
 Edu, voc no tinha um pingo de boa vontade.
 Tinha, sim. Mas aqueles movimentos eram estranhos.
 No tinha nada de estranho, caramba! Eu cansava de dizer que 
voc tinha que dar o passo de lado no ritmo. Era m vontade mesmo!
 Era m vontade nada! No Kung Fu eu nunca faria um passo 
como aquele. Dar um passo daquele jeito desprotege a regio genital!
Isabela balanava a cabea, achando graa na lembrana e 
contrariada ao mesmo tempo.
 Eduardo! Era dana! Entendeu? No era luta! Chutar no faz 
parte da coreografia!!
At teria sido legal se tivesse dado certo. Mas eu no me sentia  
vontade, nem aprendia facilmente.
 Estava tudo indo to bem, Eduardo... puxa, por que voc teve 
que engrossar?  lembrou Isabela de novo.
 A culpa foi daquele rodzio especial, deram chance para as 
damas escolherem os cavalheiros... voc tinha que ter me escolhido!!  
e dei uma leve risada.
 Agora voc acha engraado, n? Mas na hora... coitado do 
cara!
 Pois  isso mesmo! Voc tinha que ter me tirado pra danar 
com voc!
 Mas voc danava muito mal, Eduardo! Eu queria poder danar 
com algum que soubesse danar, n? E eu juro que no percebi que 
voc no gostou... no foi de propsito.
 Fiquei to irado e to cheio de indignao que minha vontade 
era dar um tiro em cada um. Depois ele foi danar com voc de novo.
 Nen, era uma aula!
 Pois eu no via a hora que chegasse o fim daquela aula.
Ficamos srios por um momento, relembrando o pice daquela 
histria. Isabela continuou:
 Bem que eu achei que voc estava meio estranho quando a 
aula acabou... estava meio mudo, nem imaginei qual era o problema.
 Eu estava fervendo de raiva, no conseguir tirar os olhos do 
cara, ele estava acabando de se encontrar com a namorada que tinha 
chegado. E pensei: "Que cara de pau desse vagabundo, acabou de dar 
em cima da minha namorada, e agora vai dar uma de santo na frente da 
dele!"
E Isabela at elevou as mos  cabea, vislumbrando novamente 
a cena.
 Eu no acreditei no que eu vi, juro, Eduardo! De repente, do 
nada... voc voou pra cima dele! Empurrou o coitado na parede e 
encostou o revlver na cabea dele!
 Ai, Isabela, foi mesmo, mas eu perdi a cabea. E gritei: Te 
mato! No estou brincando! Eu te mato!!!  repeti as palavras.
Apesar da trgica situao que estvamos rememorando, Isabela 
no se conteve e comeou a rir de novo.
 Eduardo, a gente ri pra no chorar, viu? Ele nem esboou 
reao, cada vez se encolhia mais, quando lembro da cara de pavor que 
ele estava... ficava s balanando a cabea e dizendo que sim, sim, sim!
 O colarinho dele ficou todo amarfanhado!
 Coitado!!! E quando voc empurrou ele com fora, amassou 
ainda mais!
 Eu nem sabia o que estava acontecendo. Quando vi, voc j 
estava descendo as escadas, todo furioso. Fui atrs de voc, n, fazer o 
qu? Da, na rua voc pulou e acertou um soco com toda a fora na 
placa de zona azul, sim, eu lembro muito bem do seu ataque de raiva!
 Voc estava toda emburrada.
 Claro que eu estava emburrada, n? Voc queria que eu 
estivesse como? Resultado: embora Isabela j tivesse virado aquela 
pgina, eu sabia que ela ficava com uma pontinha de tristeza por causa 
da dana. Ento perguntei:
 Mas por que mesmo que a gente comeou a falar sobre isso?
 Porque voc disse que ia vender o revlver... mas, no sei, no! 
Voc j tinha tentado aposentar a arma antes, lembra? E tambm no 
deu certo!
 Quando foi isso? No estou lembrado... Isabela comeou a rir 
de novo com todo gosto.
 Ah, pois voc esqueceu? Esqueceu que comprou o "choque"!
 Putz,  mesmo!! J tinha esquecido!
  Quando voc resolveu que ia aposentar o revlver, comprou 
aquele aparelhinho de eletrocutar os outros! Ah, ah, ah, ah! S voc 
mesmo, Eduardo!
 Mas, Isabela! Eu queria mesmo largar o revlver, queria! Ento 
achei que a melhor coisa era ir deixando aos poucos de andar armado. 
Deixei o revlver em casa, mas ainda no conseguia sair na rua 
totalmente desarmado. Ento achei que se eu usasse uma coisa mais 
incua, iria me acostumando aos poucos.
 E o tiro saiu pela culatra! Acho que aquele cara t tentando 
saber at hoje o que foi que aconteceu. Ah, ah, ah, ah, ah, ah!  Isabela 
at chorava de tanto rir.
Ficamos ainda mais um bom tempo rindo daquilo.
 Eu estava super feliz porque h vrios dias que estava deixando 
o 38 em casa. Mas a, naquele dia, sa cedinho para o trabalho, como 
sempre. No tinha nem muita gente na rua, eu estava na minha, tava at 
cantando um Louvorzinho...
 Srio, ? Voc estava cantando?  indagou ela.
 Tava, "M"! Nen estava cantando.
Isabela novamente passou a mo pelo meu rosto, sorrindo.
 Tadinho, foi ficar bravo logo de manh. Mas tambm, aquele 
sujeito bem que mereceu.
 Pois ento, de repente eu vejo aquele cara da carrocinha 
laando um pobre cachorrinho! E foi arrastando o coitadinho sem a 
menor d.
 Que coisa horrvel, coitadinho dele! Voc fez muito bem.
 Eu tentei primeiro pelo mtodo pacfico: corri atrs do cara e 
falei que o cachorro era meu, que eu tinha esquecido o porto aberto e 
ele veio atrs. E perguntei todo educado se ele podia me devolver o 
bicho. A ele me deu aquela respostinha, disse que "no"! Pedi por favor, 
fui mesmo educado... e ele s apontou para a caminhonete, para o 
telefone que estava escrito. E me disse que se eu quisesse o cachorro 
de volta, tinha que ir l.  fechei os olhos e pus as mos sobre os olhos. 
 Ai, me subiu um sangue, olhei pra cara dele e o cara continuava 
mascando aquele chiclete, com aquele ar de pouco caso... ento no tive 
dvida! peguei o meu choque e bbbbzzzzzz! Eletrocutei ele! Bem no 
peito!
 Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah!!!! 
Ele mereceu!!!
 Mereceu!! Eu nunca tinha experimentado o choque, fiquei at 
espantado com o resultado. Ele desabou, simplesmente desabou! E o 
cachorrinho saiu correndo, levando a cordinha amarrada no pescoo, e 
tudo! O cara ficou no cho, meio bobo, meio zureta... foi tudo muito 
rpido! Tinha um outro cara dentro da caminhonete que veio saindo, 
perguntando se ele estava passando mal.
 E voc?
 Eu fui indo embora, ningum viu nada, quem ia imaginar uma 
coisa dessas? Quando estava na esquina, ainda olhei pra trs... o 
homem j estava levantando do cho, pondo a mo na cabea, pondo a 
mo no peito... j estava bem, j! Foi s um susto.
 Mas o cachorrinho foi salvo, que bom!
 Cada uma, n? E nisso acabou no dando nada certo, acabei 
ficando com o choque e com o revlver. Aos poucos fui voltando a andar 
com o cano. At voc andava armada, lembra? Com o revlver do seu 
pai!
 Eu sei, voc achava isso bom... eu tambm no tinha nada 
contra. Tem gente que nem pega em armas, eu no me importo.
 Numa cidade dessas, uma cidade louca como So Paulo! Eu 
achava bom mesmo que voc tivesse ficado com o revlver do seu pai e 
andasse com ele.
 Por sinal ele est l, no meu criado-mudo. A Marina, nossa 
empregada, nem tira o p da mesinha, de tanto medo de encostar na 
arma. Quando fica muito sujo, eu mesma que tenho que tirar o p.
 , voc no pode falar nada de mim! Voc no  nem uma flor-
que-se-cheire! Voc tambm  super agressiva, se fosse homem ia viver 
dando pancada em todo mundo. Se hoje voc j arruma confuso em 
cada esquina, imagina s se no fosse crente.
 Ah! Que absurdo voc est dizendo, Eduardo! No  assim 
como voc est falando, no! Pra variar voc t exagerando.
 Eu estou exagerando?! Voc no v como que voc  no 
trnsito?
 No trnsito  outra histria.
 Outra histria, nada! Qualquer dia voc pode acabar arrumando 
uma baguna de verdade. Voc  que no consegue se enxergar na 
direo, voc se transforma quando est dirigindo! Lembra daquela vez 
que voc esmurrou aquele carro?! Lembra??
Isabela desatou a rir de novo. Aquele jantar estava sendo um dos 
mais hilariantes dos ltimos tempos!
 Mas tambm quem mandou a pessoa fechar o cruzamento? Ah! 
Eu no consegui me conter.
 Pois , voc fala de mim, mas eu bem que me lembro. No 
acreditei, quando vi voc j tinha aberto a janela do carro e passou 
xingando e esmurrando a traseira da mulher.
 Quem manda entupir a minha passagem?
 E daquela vez l no Embu?
 Ah, Nen! Voc est desenterrando cada coisa... aquilo foi outra 
coisa, aquele cara mereceu!
  Ele estava manobrando, Isabela! Nem estava vendo voc.
  A obrigao de todo motorista  ver, ora essa. Mesmo porque, 
eu dei uma buzinadinha, dei um toquinho todo educado, no queria 
arrumar confuso. Mas a o cara ficou se fazendo de morto s porque eu 
sou mulher, homem no respeita mulher na direo. Voc sabe muito 
bem que  assim! Custava ele ter me dado passagem, custava ter 
afastado o carro s um pouquinho para eu passar, custava? Tambm, 
levou! E a deu passagem!
 , deu passagem porque voc bateu no carro dele...
 Foi uma batidinha de nada, v! S pra ele se tocar. Eu fingi que 
no sabia manobrar naquele espao to pequeno, ele no queria puxar o 
carro pra frente, no ? Foi a escolha dele, no foi? Pois ento... eu sou 
mulher, no sou? Mulher dirige maaaal... bati nele "sem querer"! Que 
fosse reclamar pro bispo. Ele  que no quis dar passagem.
 Sem querer foi aquele dia no Shopping!
 No, naquele dia foi querendo mesmo.  e Isabela chacoalhou 
a cabea.  Mas que mulher mais folgada, Eduardo! Voc no viu? 
Depois que pedi passagem ali no estacionamento... com educao... 
voc sabe muito bem que eu peo sempre com educao primeiro! E 
no  que a mulher me olha pelo retrovisor e faz que nem a?! Que 
folgada, que raiva!!
Foi a vez de eu dar risada. S de lembrar daquilo eu no 
conseguia parar:
 S vi a cabea da mulher pulando. Sem mais, nem menos voc 
de repente... BUM! Quase que a cara da mulher se estatelou no painel. 
Ah, ah, ah, ah, ah!
 Que exagero, Eduardo! At parece que foi assim to forte.
 Foi forte, sim. Voc  que perdeu a noo!
 Mas viu como esse tipo de coisa funciona? Viu como ela saiu 
rapidinho da minha frente?
 E teve tambm aquela outra vez... Isabela me interrompeu.
 Ah! Chega de ficar falando de mim! J sei, j sei. A gente tem o 
mesmo gnio ruim.
Se fosse s isso. Na verdade, Isabela tambm tinha uma 
capacidade toda especial de me incitar  ira tambm. Pelo menos era 
assim no comeo, e no que ela fizesse isso de propsito. Fazia parte da 
sua personalidade ficar esquentada com coisas tolas, ela tambm tinha 
pavio curto. Alis, era at mais curto do que o meu.
 * * * *
Depois da minha converso eu tinha procurado por toda lei 
dominar a minha agressividade. Uma boa parte dela tinha sido 
milagrosamente transformada do dia para a noite, sem que eu tivesse 
que fazer fora. Mas  medida que os anos foram passando parece que 
Deus comeou a me confrontar pouco a pouco. Era fato que Ele queria 
mais domnio prprio na minha alma. Eu sentia que agora era a minha 
vez. Eu tinha que fazer a minha parte.
O grosso Ele tinha tirado... agora queria limpar um pouco mais a 
minha personalidade... com a minha participao. Ia mexer um pouco 
mais. Comecei a ficar incomodado. Se havia uma coisa que eu queria 
muito, era dominar aquele instinto de violncia e ira que sempre tinha 
sido um trao muito forte do meu carter.
Certa ocasio procurei me aconselhar com um Pastor itinerante 
que vi pregar e que tinha sido um gngster barra pesada no passado. A 
pregao dele me tocou muito, bem como seu testemunho. 
Especialmente sugestivo foi o fato dele comentar sobre a agressividade 
que dominava sua vida naquela poca de incredulidade.
Dei um jeito ento de fazer a pergunta:
 E agora, Pastor? Como voc lida com isso, com a ira, a 
violncia?
Eu queria escutar dele a resposta padro, que Deus o havia 
transformado como tinha feito com a gua que virou vinho, nas Bodas de 
Can. Como num passe de mgica. Mas no foi isso que ele disse, fiquei 
at surpreso.
  O Senhor tem me dado graa, e dia-a-dia eu tenho conseguido 
ser transformado. Mas ainda est l dentro... est dominado, mas est l 
dentro. Mas eu oro a Deus que me ajude, porque eu sei que, ainda hoje, 
seria capaz de matar um homem.
A sinceridade dele me surpreendeu muito, apesar de que no 
escutei o que queria. E fiquei pensando... eu conhecia a minha ndole. 
Quando me irava, perdia a cabea completamente, perdia tambm a 
noo de tudo. Se desse o primeiro golpe, no era mais capaz de parar. 
Eu sabia disso. Ento, quando aquele processo comeou na minha vida, 
eu procurava nunca bater em ningum. Me controlava para no ter que 
dar o primeiro golpe. Mas revidava sempre de outra maneira.
Por exemplo, lembro-me de uma vez em que, depois que eu e 
Isabela fizemos ginstica, resolvemos comer num restaurante 
vegetariano nos Jardins que ela gostava bastante. Fomos para l 
satisfeitos, aproveitando a tarde de sbado. Estacionamos com certa 
dificuldade porque ainda no tinha sido liberada a zona azul. Mas o lugar 
era perfeitamente livre, perto de uma guia rebaixada.
Na pontinha da guia rebaixada tinham colocado um daqueles 
postinhos de concreto para demarcar que, a partir dali, no se podia 
estacionar. O fusca coube e no ultrapassou o limite da guia rebaixada, 
embora ficasse bem pertinho.
Fomos comer, conversamos bastante, foi agradvel. Quando 
voltamos, o tal postinho de concreto estava encostado no fusca, e tinha 
ali um arranho que... ser que tinha sido feito pelo poste...? No 
sabamos.
Ficamos na dvida, mas era certo que antes o carro estava bem 
mais distante daquele postinho! Eu olhei e no gostei. Bem em frente 
tinha uma padaria, ento mandei Isabela entrar no carro. Mas eu mesmo 
no entrei, fiquei ali fora, observando, com a cara meio fechada.
Resolvi entrar na padaria falando em tom de voz meio alto, e fui 
perguntando para o rapaz do caixa sem muita educao:
 Esse poste  de vocs, por acaso?!
 No, no...  da mulher a do lado, ela vive implicando com 
quem estaciona perto da garagem dela.
 Ah, ? Mas eu nem cheguei perto da garagem dela. No invadi 
a guia rebaixada!
Sa da padaria e olhei para cima, para o segundo andar da casa. 
Apareceu, ento, do nada, a tal da mulher na janela l em cima:
  isso mesmo, fui eu que tirei o poste do lugar, aqui  a minha 
garagem. Fiquei super irritado com tanta desfaatez. Sem mais essa 
nem aquela, para grande surpresa da mulher, peguei o poste nas mos. 
Como fosse pesado demais, arrastei-o at perto do porto dela para, 
ento, literalmente, arremess-lo contra as grades. Deu uma boa e bela 
amassada. Com um grito, a cabea dela desapareceu da janela. Claro 
que vinha voando para baixo.
 Vamos embora!  falei para Isabela.
Eu entrei no carro e ela acelerou. S tive tempo de ver a cara da 
mulher aparecendo no jardim, atarantada. E ficou l atrs, gritando. Em 
vez de se assustar e achar tudo um horror, Isabela achou graa, nem 
ligou que o porto tivesse amassado. Ela tambm tinha riscado o nosso 
carro, que nem estava defronte  garagem.
Cada coisa feia!
Mas a que estava o problema. Depois de convertido, e 
especialmente depois que comecei a namorar Isabela, situaes 
semelhantes se repetiam vez aps vez. Era uma provocao aqui, era 
um insulto ali, era um desrespeito qualquer, era uma arbitrariedade e 
outra... parecia haver um campo minado  nossa volta! E Isabela no 
fazia nada para me conter!...
Nesse mesmo episdio, essa pequena confuso com essa mulher, 
mais tarde quem terminou o servio foi ela. Algumas semanas depois 
fomos novamente almoar naquele mesmo restaurante, s que dessa 
vez Dona Mrcia, a me de Isabela, estava junto. E no  que a mulher 
reconheceu o nosso carro e a gente tambm?
Ns havamos parado quase no mesmo lugar, j esquecidos do 
que tinha acontecido. Quando demos por ns, a mulher estava vindo no 
nosso encalo. Falava toda hora que tinha avisado a polcia. Era pura 
provocao, claro!
Isabela pediu calmamente para Dona Mrcia entrar no restaurante 
e ns continuamos caminhando at o final da rua. Dona Mrcia nem 
notou. E a mulher vindo atrs de ns, com aquela cometa no nosso 
ouvido.
L pelas tantas, Isabela se irritou e mandou a mulher passear, 
gritou que no estava nem a com ela e muito menos com a polcia.
 Voc riscou o nosso carro, ns amassamos o seu porto, e da? 
E v se d sossego!
At estranhei aquela reao explosiva. A mulher nem retrucou 
mais nada, virou as costas e foi embora. Com toda calma, Isabela 
terminou:
 E agora vamos almoar!
Sem dvida, esse era um aspecto de fragilidade no nosso 
relacionamento. Eu alimentava a ira dela, e ela alimentava a minha. Mas 
a eu queria dar um passo a mais, no queria simplesmente estar  
merc daqueles sentimentos. E comecei realmente a me esforar nesse 
sentido.
Ento veio uma segunda fase.
s vezes a gente estava descontrado, contente, se divertindo, 
completamente desarmado em todos os sentidos. E sempre acontecia do 
mesmo jeito, a era Isabela quem se irritava com alguma coisa qualquer, 
ou com algum. Ela at tinha razo de se irritar, algumas vezes. Parece 
que ns conseguamos sempre atrair uma provocao gratuita.
Mas nas outras vezes acontecia porque Isabela era um pouquinho 
brava mesmo. Quero dizer... tinha o sangue meio quente e no gostava 
de aceitar desaforos de ningum. Mesmo que no fossem realmente 
desaforos. A culpa era da sua ndole agressiva. No do mesmo modo 
que a minha,  claro que Isabela nunca mataria ningum de pancadas, 
ou com um tiro. Embora ela garantisse que teria coragem para matar se 
a vida dela estivesse em risco, ou a de algum dos seus familiares.
Alis, no fssemos convertidos e teramos  penso eu  nos 
tornado algum tipo de "Bonnie e Clyde" brasileiros. A gente tinha tudo 
para isso! E talvez tivssemos o mesmo fim deles.
At apelidei Isabela mais tarde de Pit Gatinha, um singelo derivado 
de Pit Bull. Isabela era invocada, sem dvida, e a estava a questo: seu 
temperamento meio agressivo muitas vezes continuava despeitando em 
mim aqueles antigos sentimentos. Aqueles com os quais eu estava agora 
lutando com unhas e dentes para remover de mim mesmo. A ira, o 
descontrole, a agressividade. Se sair sozinho j era perigoso, com 
Isabela ficava mais perigoso ainda.
Confesso que, no incio, ao invs de ajudar, o jeito da minha 
namorada mais estimulou coisas ruins do que ajudou a apagar. Pelo 
menos, nesse sentido.
Se por um lado Isabela era romntica, sensvel, com aquele feeling 
apurado para perceber as coisas e as pessoas.... sentir o cheiro, ver 
atravs delas... por outro lado era determinada, irritadia, agressiva, 
impulsiva.
Por causa dessa sensibilidade ela se ressentia, se magoava, se 
irava com mais facilidade. Tinha o humor um tanto ou quanto instvel. 
Podia estar muito bem num minuto, e logo depois, muito mal. Assim era.
Ento decidi conversar, pr tudo aquilo em pratos limpos.
 Voc precisa me ajudar, Isabela.  eu havia dito isso ao 
perceber que ela se irritava porque agora eu estava sendo calmo demais. 
 Eu no sei direito o que  meio termo. Ou arrebento algum... ou no 
fao nada. Se eu der o primeiro soco, no consigo me controlar depois. 
Ento, preciso prestar ateno para nunca chegar nesse extremo, 
entende? Coisas menores, coisas menos ofensivas... tenho que deixar 
passar. Mas por um outro lado, sempre que procuro me conter, sinto que 
voc cobra uma atitude minha.
 Me desculpe, Nen, mas realmente s vezes no entendo. 
Voc no precisa matar algum, nada disso, pra mostrar que desgostou 
de algo. Precisa  saber agir com moderao.
 Eu sei, eu entendo isso... na minha mente. Mas no  assim 
que funciona, eu tenho tentado fazer morrer isso dentro de mim, destruir. 
 uma coisa terrvel! Eu no posso me desestabilizar...
Ela entendia. E no entendia ao mesmo tempo.
Por isso foi muito difcil a gente conseguir virar essa pgina. A 
gente no conseguia agir certo, a voz da prpria alma falava mais forte 
nessa poca. Ns no ramos dos mais dceis, essa  a verdade. E um 
sem-nmero de coisinhas acabava irritando. A maior parte das vezes a 
gente deixava passar, claro. ramos Cristos! No podamos 
simplesmente ser Bonnie e Clyde, por mais vontade que, s vezes, a 
gente tivesse. Se no fosse por Deus talvez coisas mais srias tivessem 
acontecido.
 Antes eu no tinha nada a perder, Gatinha. Era fcil dar uma de 
louco! Mas hoje eu tenho muito a perder. No posso te colocar em risco 
tambm.
Situaes de incrvel desconforto e que envolviam estranhos 
viviam acontecendo. Era impressionante o modo como havia pessoas 
capazes de agir de maneira totalmente absurda conosco, de graa! Mas, 
graas a Deus, eu estava melhorando e s perderia o controle se algum 
chegasse a encostar em mim de verdade, se partisse mesmo para a 
agresso fsica.
Caso contrrio, eu conseguiria me manter calmo.
Sendo assim, eu j no demonstrava aquela ira que podia incit-la, 
mas a sua ira ainda podia incitar a minha. Somente depois que Isabela 
comeou a compreender essa minha fraqueza, depois que passamos a 
orar especificamente por isso, pedindo o livramento do Senhor,  que as 
coisas de fato comearam a melhorar um pouco.
"Melhorar"  modo de dizer, porque logo de cara as situaes 
capazes de nos desestabilizar continuaram acontecendo com muita 
freqncia. Era em todo lugar, a toda hora. Foi um processo.
Lembro-me especialmente de uma ocasio em que um casal 
pegou descaradamente a vaga que eu estava aguardando no 
estacionamento. O homem olhou para minha cara e estacionou, sem 
mais essa nem aquela, com a maior desfaatez do mundo. Eu senti a 
raiva subindo por todo o meu corpo, minha boca estava at seca. Se 
dependesse da minha vontade, ah! Se fosse antes, se eu no fosse 
convertido...
Isso foi logo depois que eu e Isabela comeamos a orar por este 
aspecto. Nesse dia, ela conseguiu me ajudar:
 Nen, se acalma... esse homem no est normal, pra pra 
pensar... quem faz um negcio desse e ainda olha daquele jeito, t 
procurando briga mesmo, ou  louco. T na cara que ele est sendo 
manipulado por demnios. No vamos cair na armadilha!
Foi difcil. Foi dificlimo! No pela atitude dele em si, mas pelo que 
eu estava sentindo naquela hora. H momentos em que nada mais 
importa a no ser a vontade de se vingar. Mas Isabela me ajudou, e 
oramos um pouco ali no carro mesmo. Entramos no Shopping, eu ainda 
estava emburradssimo, no conseguir tirar a cabea daquilo.
 P, Eduardo, no fica assim, no... deixa isso pra l. Vamos 
procurar fazer a nossa parte e acertar.
 T bom  e me esforcei realmente para no ficar remoendo.
Entramos numa loja grande e qual no  a minha surpresa quando 
vejo o tal do cara bem ali na minha frente. Naquele dia, Deus me 
capacitou a tomar uma atitude totalmente fora dos meus padres. 
Acalmei-me e fui l falar com ele. Falei numa boa, expliquei que era 
melhor ele no fazer esse tipo de coisa toda hora, porque tinha me 
irritado bastante e podia chegar um dia que ele encontrasse algum mais 
esquentado.
Da apertei a mo do cara, disse que tinha tido que ir ali falar com 
ele pra poder me acalmar. Fui sincero. E, incrvel! Naquela hora ele j 
nem parecia o mesmo, foi super gentil, pediu desculpas e tudo o mais. 
Foi uma vitria!
Mas ns s conseguimos chegar naquele ponto porque antes 
tnhamos andado pela beira do precipcio. E durante muito tempo, 
mesmo sendo Cristos, parecia que a qualquer minuto podamos fazer 
uma besteira. Eu tinha essa conscincia! S no sabia o que fazer para 
lidar com isso.
No muito tempo antes, numa situao semelhante, nossa reao 
natural tinha sido bem diferente. Isto , final de semana num Shopping 
lotado, uma mulher pegou a minha vaga no estacionamento. O que foi 
que ns dois fizemos? Abrimos um risco monstruoso de cabo a rabo na 
lateral do carro dela.
Eu e Isabela, de alma lavada, samos de l satisfeitos e fomos 
passear como se nada tivesse acontecido, sem a menor culpa na 
conscincia.
Uma vez um vizinho tratou mal Dona Mrcia, e Isabela escutou. 
Ela perdeu o controle totalmente, saiu na rua como um co raivoso. Acho 
at mesmo que assustou o tal vizinho com sua agressividade, um senhor 
implicante, porque ele foi voltando para a casa dele. Depois disso, 
Isabela nem dormia:
 Meu pai esteve aqui durante vinte anos e esse homem no 
achou hora de tratar ningum mal. Agora, porque meu pai no est aqui, 
vou agentar o desaforo? Vou ver ele tratar a minha me com falta de 
educao e no fao nada?
Quase fizemos a coisa errada, quase falei com meus antigos 
amigos da "29". Eles iam adorar fazer um estrago na casa daquele 
sujeito. Mas ele tinha um cachorro, e foi isso que nos segurou. Ficamos 
com medo que eles matassem o cachorro. Ento deixamos passar.
Tivemos muitas outras situaes de muito risco para ns dois.
A pior delas aconteceu numa ocasio em que tnhamos deixado o 
fusca no mecnico. Eu tinha recebido indicao fidedigna, no era um 
lugar qualquer. O carro estava morrendo e largando a gente na mo toda 
hora, portanto ficou retido mais de uma semana para fazer as coisas 
mais urgentes. Era final de ano e ns iramos viajar para o interior, para 
casa de uma tia de Isabela. O carro tinha que estar bom pra pegar a 
estrada!
Na antevspera do Ano Novo, na vspera da viagem, fui buscar o 
carro. O mecnico me garantiu que tudo estava em ordem, eu paguei e 
fomos embora. Trs ou quatro quadras mais para baixo o carro morreu, e 
no pegou mais! Ns dois ficamos furiosos, e eu voltei para falar com o 
homem.
Eram mais de seis horas da tarde e ele estava fechando o 
estabelecimento. Afinal, o dia seguinte era 31 de dezembro.
Comecei a conversa em tom educado: eu tinha pagado pelo 
conserto, ele tinha que me entregar o carro em ordem. Nada mais justo! 
Mas para minha surpresa o homem foi super estpido, me tratou mal... 
quis devolver o dinheiro, mas dinheiro no resolvia meu problema. 
Quando insisti em que ele desse um jeito no carro, a coisa ficou feia. 
Isabela entrou no meio da confuso e tambm perdeu a compostura.
Em suma: no meio do bate-boca o mecnico me ameaou com 
uma garrafa, foi o que bastou para me alucinar. Saquei o revlver e 
encostei na cabea dele. No fosse pelas palavras de Isabela no sei 
que teria feito.
 Esse cara no vale isso!! No vai se sujar por causa de um lixo 
desses! Mas ela nem estava nervosa por causa do revlver, nem pelo 
que podia acontecer. Estava nervosa mesmo era com a falta de bom 
senso daquele cara. Nem sei o que foi que me segurou naquele dia. Foi 
um milagre...
Por causa disso, e tudo o mais que no cabe contar aqui nessa 
histria,  que eu tinha para mim mesmo a certeza: precisava de domnio 
prprio! Era algo urgente, algo extremamente necessrio. E me convenci 
de que a primeira coisa a fazer era me livrar da arma.
 medida que lutamos em orao por isso, as coisas foram 
acontecendo. Hoje  muito mais difcil que eu perca o controle, e Isabela 
tambm aprendeu a ficar mais calma. No viramos "perfeitos", mas 
aprendemos a ser mais vigilantes. E tambm que essa vigilncia precisa 
ser constante.
Aquele era um ponto fraco nosso, uma porta aberta ao diabo nas 
nossas vidas. Se ns continussemos seguindo aquele caminho, haveria 
de chegar a hora em que colheramos as conseqncias dos nossos 
atos.
Por isso, alm de orar, naquele momento queria me desfazer 
realmente do revlver. Eu no tinha temperamento para andar com ele, 
podia ser uma desgraa na minha mo.
Claro que me desarmar foi um processo. Eu relutei muito. O 
revlver estava sempre dentro da minha pasta durante o perodo de 
servio. Antes do expediente, estava na minha cintura; depois do 
expediente, voltava para l, embora eu fosse de nibus fretado e 
voltasse de nibus fretado.  noite, no saa da minha cabeceira. Eu 
nunca saa de casa para nada sem estar armado. At mesmo na Igreja 
eu ia armado.
Eu me sentia ameaado, sempre me senti assim. Muito mais 
depois que sada Irmandade. Parecia haver um perigo oculto em cada 
esquina.
A arma era como um Isaque para mim, por mais que eu soubesse 
ser melhor me desfazer daquilo... no conseguia! Por mais que 
parecesse que eu estava mudado em relao  minha ndole agressiva, 
eu sabia que ainda estava l dentro. Havia ainda um fogo dormente 
dentro de mim. Eu sabia que armado eu era mais perigoso.
Mas queria muito me acertar com Deus, queria entregar aquele 
Isaque a Deus.
At mesmo Grace tinha falado sobre isso.
Ento, realmente eu vendi o revlver logo depois daquele dia no 
Viena. Tambm vendi o aparelho de choque. Mas a eu andava com meu 
butterfly dentro do bolso, o nunchaku dentro do carro... e o faco de 
cortar mato do pai de Isabela tambm!
Depois... fui largando. A ponto de no andar com arma nenhuma. 
Estava totalmente nas mos de Deus. Mas levou meses, levou anos!
O processo de santificao no acontece do dia para a noite. E, 
em algumas reas, quando a gente sobe um degrau percebe que tem 
outro logo ali na frente.
Em relao  ira, mais tarde Deus cobraria outros aspectos. Mais 
tarde.
* * * *
Captulo 13
Naquela poca Deus cobrou a arma. Mas no s. Ainda em 
relao quele carter violento que eu tinha, tambm trouxe o Kung Fu  
baila. Comeou assim...
Mestre Zhy tinha me convidado a participar de um importante 
campeonato de Arte Marcial que se realizaria em So Francisco, na 
Califrnia. Se eu aceitasse a proposta, teria de treinar muito e me 
submeter a um preparo todo especial.
Ainda que me sentisse lisonjeado num primeiro momento, depois 
aquilo no caiu bem no meu corao. Comentando com Isabela, ficamos 
foi muito desconfiados daquilo. No porque o convite tivesse partido do 
Mestre Zhy, ele no tinha culpa alguma nessa histria. Mas talvez 
houvesse uma manipulao espiritual por trs daquele convite, no seria 
difcil influenciar aquele homem, fazendo-o mandar-me aos Estados 
Unidos. Talvez o diabo me quisesse em So Francisco! E essa fosse 
uma maneira de me atrair at l. No senti paz alguma, e tive de recusar 
o convite.
Nessa poca comentamos esse assunto tambm com Grace, que 
ficou bastante intranqila. Apesar disso, em momento algum ela me 
disse para sair, para largar o Kung Fu. Ela se limitava a dizer, 
seriamente:
 Voc podia estar orando a respeito... vamos ver o que Deus 
fala, o que Ele dirige... no sei se  conveniente voc continuar envolvido 
com esse tipo de coisa. Eu vou estar tambm orando por voc!
Isso era uma coisa que eu no queria nem escutar. Isabela 
tambm no estava muito aberta a isso. Parecia impensvel que Deus 
fosse exigir aquilo de mim. Orei algumas vezes, mas no achava que 
Deus fosse me responder. E continuei treinando normalmente.
Ento, Mestre Zhy convidou-me para participar de uma 
apresentao regional, dali a alguns meses. Nessa ocasio seria 
apresentada a Dana do Drago, dentre outras coisas. Ele foi muito jia, 
conhecia o meu potencial e queria me incentivar, sei disso. Por isso 
ofereceu-me um lugar de destaque: fazer a coreografia da cabea. So 
necessrias trs pessoas para compor o Drago, e a parte mais 
importante  a da cabea.
Embora me sentisse honrado, e tivesse gostado muito de participar 
da apresentao, novamente no houve paz dentro de mim.
No entanto, esse tipo de coisa eu ainda podia aceitar ou no. A 
verdade  que comearam a acontecer outras coisas dentro da 
academia, e com essas eu no sabia lidar. Porque no me era dado 
direito de recusa.
A coisa comeou a complicar para o meu lado por causa disso.
Primeiro que Mestre Zhy j estava meio cismado comigo por causa 
das minhas recentes mudanas de comportamento, por causa das 
recentes recusas. Pode-se dizer que eu estava meio entalado na sua 
garganta. No aceitar aquela honra e voto de confiana era ofensivo.
Depois foi por causa da reverncia. Logo no incio da aula, com 
aquela msica chinesa de fundo, ns ramos obrigados a reverenciar a 
fotografia do pai dele. Aquele mesmo quadro que eu tinha quebrado, 
anos antes. Como no me sentisse  vontade em continuar fazendo esse 
tipo de coisa, anteriormente to comum, fui conversar com ele.
 Olha, Zhy... eu sou Cristo... e minha crena no permite que 
eu me curve diante dos dolos.
 Mas no  um dolo!  meu pai! Voc no tem respeito? Isso  
um sinal de respeito, voc no est idolatrando nada,  um cumprimento! 
 e ficou furioso.   meu pai!
 T, t... t bom!  notei que ia ser difcil entrarmos em acordo.
Mas nisso ele ficou de olho em mim. At ento eu tinha evitado me 
curvar, ficava bem no fundo da fila, apenas parado no meio dos outros. E 
no me curvava. S que agora Mestre Zhy estava desconfiado e, na 
prxima aula, percebi que ele estava me observando. Ento me curvei. 
Mas ao mesmo tempo, resmunguei comigo mesmo:
 Esse gesto t quebrado em nome de Jesus!
Falei baixinho, mas acho que ele escutou alguma coisa porque 
estava me rondando, meio por trs. E no deixou passar. Pegou-me pelo 
brao e me levou para um canto mais afastado dos outros alunos.
 Venha c!
Eu o acompanhei e escutei o sabo:
 Como assim, "t quebrado"? Por acaso voc quer quebrar de 
novo o meu retrato, voc no ficou contente daquela vez? Quer dizer que 
foi de propsito? Voc quer quebrar o retrato do meu pai de novo?! Voc 
j no quebrou uma vez?
 No, no... claro que no, Zhy! Aquilo l foi uma outra situao! 
Foi um acidente! Eu no falei nada!
 Falou sim. Eu escutei alguma coisa que "t quebrado"!
Tentei rapidamente imaginar alguma rima qualquer que pudesse 
me livrar daquela fria. Mas no consegui pensar em nada. Dei a pior 
desculpa de todas:
 No foi nada, acho que eu pensei alguma coisa alto.
 Mas no tem que pensar! Voc est reverenciando. Respeita!  
meu pai! No tive outra alternativa seno reverenciar e ainda por cima 
ficar quieto.
Falava s na minha mente que aquele gesto estava quebrado! 
Porque Mestre Zhy no desgrudava o olho de mim.
Mas eu no estava satisfeito. Ento fui tentar falar com ele de 
novo.
 Zhy... desculpa a insistncia, e tal, mas... t vendo aquele 
mudjong ali? Aquele objeto de madeira?
 Sim.
 Pois ... voc reverenciaria o mudjong?
  Claro que no.  madeira.
  Voc reverenciaria uma rvore?
  Lgico que no.
  T bom. Ento imagine que eu pegasse uma rvore... e fosse 
esculpir alguma coisa. A eu esculpo, por exemplo, a figura do seu pai... 
voc reverenciaria o seu pai?
 Bom, mas a tem a imagem do meu pai. A  respeito!
 OK, mas e se no fosse a figura do seu pai, ento, fosse a 
figura de outra pessoa qualquer?
 Isso  uma questo de respeito!  por respeito. Se a rvore 
lembra uma pessoa, eu posso fazer por respeito. No h nenhum 
problema nisso.
No adiantava. Ele no entendia o meu ponto de vista.
 Mas, Zhy... voc tambm no est entendendo o que eu quero 
dizer, pra mim  como se eu estivesse fazendo reverncia para uma 
rvore, para um tronco! Eu no me sinto bem com isso! Eu no vou 
reverenciar rvore... tronco! Eu no me sinto bem em reverenciar um 
quadro... eu no acredito nisso. O seu pai pode ter sido uma tima 
pessoa, mas morreu...
 Mas o esprito dele est aqui. O esprito dele vem aqui.
Falei com toda a educao, tentei mesmo fazer com que ele me 
compreendesse.
 Zhy, eu no creio assim... voc cr em Deus, Zhy?
 Creio.
 Voc j leu a Bblia?
 No. Eu creio em Buda, e Buda nos aproxima de Deus. Deus  
sem forma,  algo que vem de dentro do corao. Deus  Tin-Fa. 
Corao puro. As pessoas que tm corao puro encontram Deus.
Vi que no ia ter jeito mesmo. Se quisesse continuar ali, ia ter de 
continuar reverenciando aquele retrato. Eu tinha de fazer. Embora 
fizesse apenas de corpo presente.
Mas no gostava, me sentia muito mal. O tempo todo, todas as 
vezes eu ficava me lembrando de Sadraque, Mesaque e Abedenego.
"Eles no se curvaram... mas se eu no me curvar, vou ser 
expulso daqui! E no vou mais poder treinar Kung Fu."
Que dilema! Eram aulas to boas, uma academia to boa.
Foi a que, acho at que de propsito, Mestre Zhy me incumbiu de 
cuidar do altar. As coisas s estavam piorando para o meu lado.
Eu, duas moas bem adiantadas no estilo, e o aluno mais antigo 
da academia ficamos incumbidos do altar. Cada um tinha uma funo 
especfica. A minha era esquentar a gua.
Eu devia ligar uma espiriteira e deixar a gua esquentando 
naquele foguinho, naquela chaleira enorme, antiga, meio amassada. 
Depois tinha de fazer o ch. E entregava para uma das meninas, de 
maneira reverenciai, aquele ch. Uma parte dele ficava no altar para ir se 
volatilizando para o pai do Zhy. O resto da gua era bebido por todos 
alunos, durante o treino.
Eu no podia dizer "no", ento pensei que esquentar gua e fazer 
ch... talvez tudo bem!
Depois de algumas vezes, reclamei com Mestre Zhy:
 Puxa, Zhy! Me desocupa disso, v! Puxa, qualquer um pode 
ferver a gua.
 Mas como voc no quer? Eu te dei uma posio de honra. E 
voc vem desprezar?
 Eu sei disso. Mas  que eu no quero ter que fazer nada em 
relao a esse altar.
Ele no gostou muito, mas acabou me deixando livre da funo.
Outro problema foi a questo do uniforme. Eu s tinha uma 
camiseta da academia, no estava me sobrando dinheiro para comprar 
mais. Ento procurava fazer o possvel, colocava uma camiseta branca 
embaixo da camiseta da academia para que durasse mais. Por causa 
disso s vezes ia sem a camiseta correta, simplesmente porque estava 
lavando. Mestre Zhy no gostava muito. Teve outro dia em que me 
atrapalhei e esqueci a sapatilha. Ento fui treinar de meia. D pra 
imaginar, n?
Na verdade comearam a acontecer uma sucesso de pequenos 
episdios que culminavam em uma sucesso de broncas.
Certa ocasio cheguei antes do horrio do treino e fiquei por ali um 
pouco. Tinha uma lousa numa das paredes com umas coisas escritas em 
chins. Apaguei uns pedaos e fiquei fazendo desenhos pra matar o 
tempo, achei que no tinha problema.
 Mas o que voc est mexendo a? Isso  a minha aula!  gritou 
Mestre Zhy.
 Ah! Eu pensei que isso fosse da aula passada... me desculpe.
Tudo estava colaborando para que ele pegasse implicncia 
comigo. Depois que comecei a orar, at mesmo com a tcnica do Kung 
Fu eu passei a ter problemas. Ficava cansado com mais facilidade, tinha 
dificuldades para absorver os movimentos novos. E eram coisas simples, 
coisas com as quais nunca me atrapalhei.
Parecia que minha mente estava bloqueada para aquilo que tinha 
sido sempre a minha vida!
Por causa disso eu levava mais bronca ainda, quando Mestre Zhy 
pedia para ver a tcnica, no admitia nenhuma seqncia torta nem 
malfeita. Quando terminava o treino eu saa todo humilhado, j estava 
me sentindo um rato!
 O que est acontecendo com voc?  ele me perguntava. Nem 
eu sabia explicar.
Na verdade, tudo ali na academia estava me deixando mal, estava 
me deixando pra baixo. Ento... foi assim que comecei a entender que 
talvez Deus realmente no quisesse que eu levasse adiante o Kung Fu. 
Aquilo tudo, aquela seqncia de problemas e confuses... era direo 
para eu ir embora.
Certa noite, depois de sair tarde do treino, caminhei algumas 
quadras at o metr como sempre fazia. Aquele trecho tinha algumas 
casas de prostituio, e quando passei, vi aquelas pessoas na calada 
totalmente  deriva, servindo ao diabo, prostituindo o corpo... e parece 
que alguma coisa me dizia que aquilo tambm servia para mim. Que eu 
tambm estava prostituindo o meu corpo pelo fato de estar gastando 
minha energia com algo que no era saudvel, uma coisa que no 
agradava a Deus... do mesmo jeito que aquelas pessoas que serviam o 
mundo.
Percebi que eu estava dando mais valor  destreza e  fora do 
meu punho, confiando mais no meu brao e na minha performance fsica 
do que em Deus; reverenciando dolos e fazendo alianas em jugo 
desigual.
Em outras palavras, cultuando a mim mesmo.
Sem esquecer que estava tambm de certa forma cultuando a 
violncia, por mais que a Arte Marcial preze a paz, ainda assim  a Arte 
da Guerra!
Aquela foi uma triste constatao. Pelo menos no tocante  minha 
alma.
Se eu quisesse realmente vencer a minha carne, vencer a ira, a 
agressividade, a violncia... no podia mais manter aquela porta aberta 
na minha vida.
No meu caso  e hoje eu vejo que essa foi uma direo Rhema 
para mim  manter o Kung Fu seria manter nas mos do diabo uma 
pedra contra mim, seria manter uma porta sempre aberta aos demnios.
Deus estava comeando a lidar mais profundamente com aquele 
aspecto do meu carter. A ira. Talvez o aspecto mais difcil de ser 
tratado. Aquele foi o comeo.
Um dia, ento, tomei a deciso.
"Vou parar com o Kung Fu."
Eu nunca imaginei que isso pudesse ser possvel.
O Kung Fu estava entranhado na minha alma, no meu corpo, era 
quase como um vcio. Fazia parte do meu dia-a-dia de tal maneira que se 
eu no praticasse, me sentia indefeso. Quer dizer, abandonar aquilo 
significava deixar de ser capaz de me defender sozinho. Abandonar o 
Kung Fu se traduzia em desproteo!
Fosse como fosse, eu entendi a direo de Deus. No foi ningum 
que me obrigou. Eu que entendi que isso era o certo. Fui falar com 
Mestre Zhy.
 Olha, Zhy... eu no vou mais praticar Kung Fu. Eu te agradeo 
muito por tudo que voc me ensinou.
Ele quis saber por que, ao que respondi, sem mais rodeios:
 Eu me converti ao Cristianismo, e existem divergncias de 
pensamento e de crena entre o Cristianismo e o Budismo. Infelizmente 
voc no  flexvel, voc no est respeitando a minha liberdade, quer 
impor a sua religio pra mim, pra todo mundo que pratica Kung Fu. E eu 
no posso aceitar isso!  como minha deciso j estava tomada, pude 
me abrir um pouco.
 Se  isso que voc quer, ento est bem.
Eu fui embora. E para minha surpresa, no tive mais vontade de 
praticar Arte Marcial. Foi realmente uma coisa que Deus tirou com a mo 
de dentro de mim. Eu sentia falta, sim, de esporte. Tanto  que 
futuramente viria a praticar apenas ginstica.
* * * *
Fazia trs meses que ns estvamos de carro novo!
Puxa vida, que alegria to grande! Era o nosso primeiro carro, um 
Fiat Palio 1.0, totalmente "pelado". Melhor dizendo: sem nenhum 
acessrio. Nem mesmo o espelho retrovisor direito. Foi o que deu pra 
gente fazer, estvamos os dois trabalhando, bem empregados, e 
realmente precisando de um veculo melhor!
Ento, mais do que f naquele momento, foi com a calculadora em 
mente que decidimos por um financiamento em 36 parcelas.
Dona Mrcia foi nossa fiadora, e apesar da alegria que nos invadia 
quando fechamos o negcio na concessionria, um friozinho na barriga 
tambm se fazia sentir. Era nossa primeira conta de peso, o primeiro 
compromisso financeiro que eu e Isabela assumamos juntos.
Isabela foi quem fez os oramentos nas concessionrias, era ela 
quem rebuscava nos jornais de domingo, procurando as melhores 
ofertas. Depois, telefonava para as concessionrias e fazia os 
oramentos pelo telefone. A, no resistia e ligava para meu servio  
tarde, toda entusiasmada, toda falante, me contando das opes.
Quando a gente saa juntos e Isabela via um Fiat Palio 
estacionado no Shopping, ou no supermercado, dava uma disfaradinha 
e corria para olhar por dentro.
 Olha s, Eduardo! Olha s como  lindo por dentro!
 Vo pensar que voc  uma roubadora de carros, pelo jeito 
como olha... Ela disfarava um pouco, e novamente voltava a olhar.
 Puxa, esse painel  bonito... comparado ao do fusca...
Isabela estava na febre. Mas no tiro sua razo. Ela havia dirigido 
o fusca muito mais do que eu. E no que fosse algum problema dirigir um 
fusca, o problema era dirigir aquele fusca!
Isabela tinha carta desde os 21 anos, dirigia no trnsito de So 
Paulo todo santo dia. Virava-se super bem com o guia de ruas, no tinha 
nenhum lugar que ela no conseguisse encontrar com o mapa na mo. 
Claro que eu tinha menos experincia do que ela, afinal... o tempo tinha 
passado e eu ainda no sabia dirigir!
Como boa "professora"... Isabela decidiu que se eu no tinha 
conseguido aprender a danar muito bem, talvez pudesse aprender a 
dirigir. Um dia ela resolveu que definitivamente era preciso que eu 
aprendesse a lidar com um carro.
Isso tinha sido ainda no primeiro ano de namoro.
 28 anos, Nen! Voc no quer que eu te ensine? Voc est me 
ensinando Kung Fu, eu te ensino "carro"!
Eu tinha procurado fazer parecer que sabia dirigir. E contei a 
lorota:
 Eu sei dirigir, sim! No muito bem, mas sei. S no tenho carro! 
Mas o meu amigo chins, o Wang, me deixava dirigir o carro dele.
Isabela j tinha ouvido falar de Wang e de uma srie de aventuras 
que passamos juntos. Certamente foi um tempo divertido para mim, logo 
depois que me converti. Wang passava em minha casa,  noite, a gente 
saa com outros amigos, conhecamos pessoas, conquistvamos as 
menininhas, aprontvamos um pouco... no bom sentido!
O mximo que a gente fazia era dar uns tiros em orelhes, para 
treinar. Uma vez demos uns tiros numa loja de vasos de barro, dessas 
que vendem plantas... os vasos eram timos alvos! Placas de trnsito 
tambm.
Porque sim, claro, a. converso tambm  um processo. H uma 
srie de coisas que acontecem instantaneamente no momento em que 
aceitamos Jesus, mas depois o processo continua. E muitos outros 
aspectos vo mudando, devagar.
Quando eu me converti, e deixei a Irmandade, eu e Wang nos 
tornamos muito mais prximos. Foi uma amizade sincera e muito 
bacana. Depois Wang foi fazer ps-graduao no exterior, ento nos 
afastamos. Mas volta e meia ele vinha para o Brasil, e quando no vinha, 
me ligava. Sem se preocupar com o fuso horrio. Ele nunca ligou muito 
para isso!
 OK, se o Wang te ensinou e voc sabe, pode dirigir o fusca, 
ento. Quer?  havia dito Isabela, para me testar.
Ento fui obrigado a dizer a verdade.
 Bem... ele bem que tentou me ensinar!
A verdade  que eu no sabia muito bem, no.
 Hum. Quer dizer, ento, que voc sabia dirigir?  Isabela me 
perguntava com arzinho irnico.
Fui sincero, amarrei no rosto um sorrisinho amarelo.
 Ah, eu fiquei com vergonha de admitir isso. Voc  mulher e 
dirige, e eu no sei. Isso no  justo!
Isabela poderia ajudar-me, sem dvida. E a comeou a saga da 
direo. Ns amos at a Cidade Universitria, ou ento perto de casa 
mesmo. E ela me ensinava, exatamente como tinha aprendido.
Levei um tempo para acostumar-me a dirigir um patrimnio que 
no era meu, tinha muito receio de estragar o carro. Dirigia devagar, 
quase parando, mesmo depois de semanas. Depois de meses!
Toda hora ela me dava umas broncas porque no era uma 
instrutora das mais pacientes. Ela no gostava de ver nada errado 
durante muito tempo! Seu jeito de dirigir era muito peculiar, eu 
costumava dizer que Isabela no dirigia como uma dama.
 Voc tem um volante agressivo! Corre muito, faz manobras 
ousadas. As mulheres no devem dirigir assim!
 Ah! T querendo dizer o qu? Que as mulheres no sabem 
dirigir?! Pois saiba que eu dirijo muito bem!
No tenho como no admitir... mas ela mostrava facilidade com a 
direo, a bandida! E era meio impulsiva, acho que dirigir ajudava 
Isabela a descarregar um pouco da tenso. Isso queria dizer que ela no 
respeitava absolutamente nenhuma regra de trnsito. Farol vermelho era 
o mesmo que nada. Limite de velocidade idem. Placas de trnsito no 
mereciam respeito, calada e rua eram a mesma coisa. Contramo 
estava sempre valendo desde que encurtasse o caminho, ou a livrasse 
do congestionamento. Alis, com congestionamento valia mesmo de 
tudo: desde a contramo, at passar pela calada, dar fechadas, dar r 
pelo acostamento para fugir por outra avenida.
Esse era o dia-a-dia de So Paulo. Por conseguinte, o dia-a-dia de 
Isabela. s vezes eu dava risada:
 Voc avanou dois metros com toda essa manobra, e continua 
parada. Que bela estratgia essa sua.
 Sim, mas quando o verde abrir eu passo primeiro. Se estivesse 
l atrs era capaz de ficar outra vez parada nesse farol.
Nesse aspecto confesso que talvez eu tenha sido meio mal 
ensinado. Isabela queria que eu fizesse como ela. Isto , vermelho era 
igual a verde, especialmente se fosse de noite. Amarelo merecia sempre 
uma acelerada, fosse dia ou fosse noite.
 Tpico! Mais um paulistano que sabe manejar um carro... uns 
melhor do que outros, mas...  Isabela nunca deixava de me provocar.
Eu provocava de volta:
 ... mas voc desceu a Rebouas com o breque de mo 
puxado. Voc contou! Comearam a buzinar porque estava saindo 
fumaa do carro.
 Eu sei, eu sei! Mas a eu estava de ps-planto! Foi um lapso, 
no estragou nada!
No futuro eu viraria um tremendo "Speed", pelo menos eu achava 
que sim. (J Isabela no compartilha desta minha viso).
Um dia ela passou um bom tempo contando as peripcias daquele 
carro e, depois da aula de direo.
 Ele foi at o Chile e voltou, Nen! Meu pai rodou meio Brasil 
com ele.
 Srio que vocs foram com esse carro at o Chile?!
 Se fomos! Atravessamos a Cordilheira dos Andes, mas isso no 
 nada! Sabia que o vidro dianteiro estourou no meio do caminho? No 
sei o que foi, talvez um choque trmico, mas a verdade  que estvamos 
a 1500 quilmetros do Brasil e a 2000 quilmetros do Chile. Detalhe: a 
trs dias do Natal! Meu pai fez de tudo, mas no encontrou vidro 
semelhante para substituir. No tinha outra opo e fomos daquele jeito 
mesmo. Passamos pelos Andes enrolados em cobertores, sentindo 
aquele ventinho frio. Sorte que era vero, n?
 Caramba, seu pai foi corajoso...
 E o que ele ia fazer? S no Chile encontramos pea para o 
Volkswagen. A gente ia ficar ali, parado no meio do nada? Meu pai tinha 
muita experincia na direo. Um dia desses pergunta para a minha me 
cada aventura que eles no viveram por essas estradas desse nosso 
Brasil!  comeou a dar risada.  Puxa, mas essa do Chile foi demais, 
sabia? No fim todo mundo acabou picado por abelhas, entrava de tudo 
dentro do carro, voc sabe.
 Faz muito tempo isso?
 Faz, sim. Eu tinha uns 13 anos na poca.
 Mas o fusca era bom naquela poca, hoje ele j est meio 
debilitado! Debilitado era at um elogio. Isabela continuou:
 Voc nem imagina o que eu j passei com esse carro! Cada 
uma! Ele  muito velho, toda hora d problema. Olha s... durante a 
poca da Faculdade ele teve vrias fases. Teve uma poca que ele no 
pegava, a no ser no tranco. Ento eu tinha sempre de estacionar em 
uma descida, em uma subida, sem ningum nem na frente nem atrs, 
pra conseguir lig-lo depois. Fiquei expert em fazer o carro pegar no 
tranco, pode crer! Depois, teve uma poca em que ele no tinha limpador 
de pra-brisa. Mas eu me acostumei a dirigir mesmo debaixo das 
maiores chuvas.  s perceber bem o vulto dos carros e conhecer bem o 
caminho que tudo d certo! O problema era se o carro morresse na 
chuva. Porque a no pegava tambm. Uma vez atrapalhei todo o 
trnsito, tive de descer no meio da rua, debaixo do maior toro, correr at 
um posto de gasolina e pedir que algum me ajudasse a empurrar. A 
pegava no tranco. Era sempre assim, se morresse eu parava as 
primeiras pessoas que estivessem passando e pedia que empurrassem o 
carro.
 No acredito nisso!
 Mas foi assim mesmo. Meu pai bem que consertava o carro, 
mas voltava a pifar. O carro  velho, o que se h de fazer? Depois, veja 
s... teve tambm a poca em que o breque de pedal no estava 
funcionando, ento tinha de brecar no breque de mo.
Ns dois j estvamos rolando de rir.
 E teve a poca em que, no sei por que, se tirasse o p do 
acelerador, ele ia roncando cada vez menos... e morria. Piorou tanto, que 
se eu tirasse o p do acelerador pra brecar, para parar num farol, por 
exemplo... e o carro j pifava! A soluo era deixar o motor bem 
acelerado. O carro ia berrando, quase deixava a gente surda!
 Ah! Eu sei como  isso!
 E agora, veja: o carro no tem seta, no abre o vidro da direita, 
no tem velocmetro nem marcador de gasolina. Alis, esse  um 
problema tambm, voc tem que aprender a saber se tem gasolina!  s 
dar uma brecada meio brusca e olhar o ponteiro. Se der uma leve 
mexidinha  sinal que tem gasolina. Mas se no mexer  bom parar no 
primeiro posto. Eu j fiquei na rua muitas vezes por causa disso. A tinha 
de largar o carro e campear gasolina a p!
 Isabela, voc tambm, hein? Tem de prestar mais ateno.
 Uma vez eu estava ps-planto, super cansada, achei que a 
gasolina ia dar... no fim fiquei parada na Marginal Tiet  noite, o barato 
saiu caro.
Eu achava um absurdo essas histrias. E to preocupado estava 
que sempre colocava muita gasolina no carro, para que Isabela no 
corresse o risco de ficar parada pela cidade.
 Eu admiro sua independncia, acho o maior legal voc pegar o 
carro e sair por a, sem depender de ningum, mas olha... voc tem que 
se cuidar um pouco melhor. E se acontece alguma coisa?
 Acontece nada, Nen, acontece o qu?! Depois  super natural 
eu sair sozinha, sempre foi assim, tinha minha vida, meus estudos, meu 
trabalho... no h motivo para tanta admirao. Eu no gosto de ter de 
depender dos outros. Nada como resolver tudo por mim mesma, sabe? 
Depender da boa vontade alheia  a maior roubada!
  Mas bandido continua existindo, e eu conheo isso muito bem. 
A oportunidade faz o ladro a maior parte das vezes, sabia?
 T bom, t bom. A gente enche o tanque toda semana e no vai 
mais acontecer. Mas aconteceu algumas vezes ainda. Realmente aquele 
fusca era uma coisa! E embora a gente corresse atrs dos danos, era 
consertar uma coisa e quebrar outra. Dona Mrcia vivia boquejando, 
dizendo que a gente estava destruindo o carro, mas no era bem assim. 
O carro j estava destrudo, j estava destrudo desde a poca que 
Isabela estava na Faculdade. A gente simplesmente corria atrs dos 
reparos normais de um carro muito usado.
Uma poca comeamos a escutar um barulho estranho cada vez 
que passvamos sobre uma lombada, na rua.
 Mas que coisa esse barulho.
Quando finalmente levamos ao mecnico para ver o que havia, a 
surpresa!
Aquele barulho era nada mais, nada menos do que a bateria que 
raspava nas lombadas. O fundo do carro, completamente destrudo 
daquele lado, estava deixando a bateria literalmente cair na rua. 
Percebemos que o banco do carro, do mesmo lado, comeava a 
envergar. Parte dele j estava aparecendo no fundo do carro.
No tnhamos dinheiro suficiente para fazer o conserto de 
imediato, ento o mecnico colocou ali um pedao de madeira para 
sustentar a bateria. Do jeito que deu, simplesmente para ela no cair no 
asfalto. E ningum mais sentava daquele lado, amos os dois sentados 
do lado esquerdo do carro, um na frente e outro atrs. Parecia o 
motorista levando a dondoca para passear no banco traseiro! A gente 
morria de dar risada!
Alis, o fusca sempre teve muitos buracos no fundo. Toda vez que 
chovia entrava gua e ficava tudo ensopado por dentro.
Realmente foram muitas as peripcias com o carro. Volta e meia 
ele voltava a morrer e s pegava no tranco, sempre precisando ser 
empurrado. Cada situao constrangedora, dependendo de onde 
acontecesse!
E quando pifava bem na frente do meu servio? L ia eu, de terno 
e gravata, todo arrumado, empurrar o carro para que Isabela pudesse 
faz-lo pegar! No dia seguinte, agentava as piadinhas dos colegas. 
Sempre tirando um baratinho! Ento Isabela, quando ia me buscar, 
normalmente chegava em cima da hora e esperava com o motor ligado.
E quando morria no posto de gasolina?
 Por favor, complete o tanque!  eu pedia educadamente.
A, na hora de ir embora: "Nhm, nhm, nhm, nhm, nhm!!!!"
Quem disse que o adorvel fusquinha iria nos poupar daquele 
caro mais uma vez?
Ento eu descia e, com o frentista empurrava o carro. E Isabela 
fazia pegar no tranco.
 Brigado a, hein?!
A gente saa rindo, que coisa mais chata! Cada lugar pra pifar!
Um dia Isabela, eu e Dona Mrcia tivemos de ir at o Hotel 
Macksoud Plaza. Ela ia encontrar-se com uma pessoa que dirigia um 
quarteto de cordas e que estava interessada em patrocinar uns Recitais 
do Marco. O quarteto tocava ali no Hotel. Tudo bem at a, mas na hora 
da sada os manobristas  que vinham dirigindo os carros, trazendo de 
dentro do estacionamento. Um carro atrs do outro.
De repente... eis que l vem o nosso fusquinha. Todos ficaram 
olhando. Primeiro para ns e depois para o fusquinha, que berrava 
estridentemente: "P, p, p, p, p, p, p, p!"
Ele tinha passado pela funilaria e estava com um dos pra-lamas 
preto, ainda sem pintura... lindo, lindo, lindo!
Depois que entramos, eu malhei a porta do meu lado. BUM! Ela 
no estava fechando, a no ser daquele jeito. Tinha de ir algum pelo 
lado de fora para levant-la e fech-la, mas no perdemos tempo com 
isso naquela hora.
Eu e Isabela samos rindo, Dona Mrcia reclamava que estvamos 
acabando com o carro!
 Me, ns estamos consertando o carro! Acabamos de fazer 
funilaria. Outra vez ainda, no Shopping, para variar ns dois amos jantar 
no Viena. O estacionamento do terceiro piso estava to vazio que Isabela 
no achou que fosse encher muito.
 Meio de semana, n?
Ento, prevendo as complicaes na hora de sair, deixou o carro 
em posio bem fcil para empurrar. Isto ... ocupando trs vagas na 
horizontal.
O segurana veio imediatamente, surgindo no sei de onde. E 
perguntou:
 A senhora vai deixar o carro assim? Confesso que pacincia 
no era mesmo o seu forte.
 Vou,  melhor assim. Porque o estacionamento t vazio mesmo, 
e depois esse carro no vai querer pegar na volta. Ele est com defeito.
O cara procurou ser polido e explicou:
 Mas voc no pode deixar o carro desse jeito. Isabela se irritou 
um pouquinho:
 Mas acontece que ele no vai pegar na volta, sabia? E da, 
como  que fica? Na volta, voc vai ter de empurrar o carro!
Ele foi irredutvel:
 Mas no posso permitir que a senhora deixe o carro assim. Eu 
balizei a questo:
 Tudo bem, Gatinha, vai... pe o carro direito, na volta eu 
empurro. Ela abriu a porta reclamando:
 ! Mas quem devia empurrar o carro tinha de ser esse cara a. 
Puxa, eu estou explicando, pra que implicar assim? O estacionamento 
est vazio!
Eu costumava brincar com ela, dava uma cutucadinha para 
acalm-la:
 Brava. Como a Isabela  brava! Ela  bra-va! Ela acabava rindo:
 Isso! Quer dizer, isso nada! Brava, nada. Esse guardinha  que 
 um chato! Nesse dia, por sorte o carro pegou na volta. Milagre!
Mas os problemas maiores mesmo eram os sustos! Um dia, no 
meio da manh, recebi um telefonema de Isabela:
 Nen, o carro pifou... estou parada aqui na ponte da Cidade 
Jardim, a CET me rebocou at aqui... j avisei no servio que estou com 
problema. Mas no sei o que fazer, ser que voc no podia vir aqui me 
ajudar?
Isabela estava ultra calma, dificilmente ela perdia a esportiva com 
as panes do fusca. Eu  que quase subi pelas paredes de saber que 
minha noiva estava largado no meio do nada, sem ter para onde ir!
 Antigamente eu costumava deixar o carro estacionado aonde 
fosse, pegava um nibus e s comunicava a meu pai. Normalmente ele 
acabava vindo depois, pegava o fusca, levava ao mecnico, eu no tinha 
de me preocupar com nada! Mas agora... fazer o qu, n? Tenho de 
chamar o Nen!
Fiquei super nervoso. Desliguei o telefone quase em pnico, avisei 
meu chefe, e uma colega de trabalho me levou at a ponte da Cidade 
Jardim. Assim que cheguei, ainda do outro lado da Marginal, vi o fusca 
parado ali no acostamento.
Fizemos o contorno e minha colega estacionou atrs do fusca.
 Cad Isabela?!
Fiquei super assustado, imaginando mil coisas. Tudo me passava 
pela cabea! Imaginei ento que ela devia ter telefonado do orelho mais 
prximo. Mas por que no tinha voltado para o carro?
Subi correndo a ladeira que me levava at a altura da ponte. Dali, 
ao longe, podia avistar um orelho. Corri at l. Isabela estava sentada 
numa mureta perto do telefone, comendo um chocolate. Na maior 
tranqilidade!
 Gatinha! O que voc t fazendo aqui? Voc quase me matou de 
susto! Abracei Isabela. Ela no entendia o meu nervosismo.
 Mas, Nen... eu no te disse que ia ficar esperando do lado do 
telefone? T um solzinho to bom aqui! Eu tinha uns trocados na bolsa e 
comprei esse chocolate ali na esquina. Quer um pedao?
 Agora no. Vamos tentar resolver o carro!
  Sabe o que eu acho que ? Gasolina! Acho que o ponteiro no 
estava mexendo, e eu achei que dava para chegar ao servio.
 Vou despachar a minha colega. Ela ficou esperando ali 
embaixo!
Minha colega foi embora e eu e Isabela fomos andando at o posto 
mais prximo. Compramos gasolina num saquinho e levamos at o 
fusca. Bingo! Demorou um pouco, mas ele pegou.
 Olha que eu estou acostumada com esse carro... mas dessa 
vez esse ponteiro me enganou! Agora ele vai ficar engasgando. Acho 
que entra sujeira na bomba de gasolina quando a gente a usa at o osso.
 A gente vive de susto em susto. Agora voc me leva at o 
servio de volta, e depois vai para o seu.
 Puxa, Eduardo, sabe... bem que a gente podia comear a fazer 
um oramento. Quem sabe d pra comprar um carro novo?
A gente at que estava merecendo. E ento foi assim.
No dia em que fomos  concessionria para pegar o nosso Palio 
1.0 vermelho Crdoba no dava nem para acreditar que fosse verdade! 
Eu nem quis pr a mo na direo, empurrei logo para Isabela, a 
"professora". Na verdade, no gostaria de admitir, n? Mas eu tinha 
medo de bater o carro novo!
Isabela no se intimidou e estreou o Palio. A gente no cabia em si 
de alegria! Valia a pena aquela dvida de 36 meses. S de pensar que 
agora o carro tinha seta, tinha limpador de pra-brisa, os vidros das 
janelas abriam, no entrava gua pelo fundo, no morria! E o marcador 
de gasolina funcionava! Sem contar com a aparncia esttica, nada de 
pra-lama faixa preta.
Depois disso a gente vivia lavando o carro, encerando, passando 
"pretinho" nos pneus, passando silicone no painel.... pondo perfume, 
adesivo... penduricalhos...
* * * *
Captulo 14
Quatro dias depois do Sabbath, participei de mais uma Ministrao 
com a Grace. Isso foi em uma tera-feira. J no outro dia, quarta, Isabela 
e eu fomos normalmente  nossa reunio semanal com Dona Clara. 
Chegamos cedo  Igreja, bem antes do horrio do Culto. Foi um perodo 
muito bom. J fazia trs meses que estvamos orando com Dona Clara 
todas as semanas!
Descemos da nossa sala quando os primeiros acordes do Louvor 
j se faziam ouvir. Eu me sentia animado, Isabela da mesma maneira. 
Fomos nos sentar mais ou menos no meio da Igreja, normalmente a 
gente no sentava por ali, mas naquele dia foi assim. No queramos 
atrapalhar as pessoas, e como fosse um Culto de quarta-feira, a Igreja 
no ficava lotada. Ali naquele lugar, mais ou menos no meio, ns 
estvamos praticamente sentados atrs de toda a congregao.
O Pastor Joel pregou, foi uma Palavra boa, desafiadora, que 
levava todo mundo a se sentir melhor e mais incentivado em 
experimentar um verdadeiro Cristianismo.
No finalzinho, depois que o grupo de Louvor voltou l na frente e 
tocava um pouco para o encerramento, o Pastor Joel pediu que as 
pessoas se ajuntassem em dupla para orar. Antes que a gente pudesse 
perceber, ou se mexer, uma mulher se aproximou de ns dois e comeou 
a orar por ns.
Foi uma orao diferente!... Ela orou de uma maneira especial, 
vinha de encontro a algumas coisas que tnhamos acabado de colocar 
para Deus com Dona Clara.
Quando terminou de orar, foi a vez de ns orarmos por ela. Ento, 
ela voltou para o seu lugar, umas trs fileiras mais pra frente. Nem todo 
mundo tinha terminado sua orao, de forma que o conjunto de Louvor 
continuava tocando, o Pastor continuava orando l na frente, 
direcionando a congregao... estava meio barulhento at... s que a 
aconteceu uma coisa estranha!
Senti-me observado. Acho que essa foi a primeira das sensaes.
E exatamente como acontece com todo mundo que se sente 
observado por algum tempo, uma hora, mesmo sem querer, virei o rosto 
na direo da pessoa que estava a me olhar.
Foi o que eu fiz, instintivamente.
Como estivssemos praticamente no fundo da Igreja, olhei para a 
minha direita e para trs. A Igreja era dividida em duas alas principais, 
uma  direita e outra  esquerda, separadas por um corredor central. Ns 
estvamos na ala da esquerda. Do outro lado, ao voltar o meu rosto, vi 
quem estava me mirando: um moo que eu no conhecia. Ele estava 
parado na outra ala, umas duas fileiras atrs da nossa, mais ou menos 
no meio da fileira. Somente ele estava ali, mais ou menos atrs de um 
grupo de trs moas.
Quando nossos olhos se cruzaram, ele me enviou um sorriso 
aberto. Retribu o sorriso porque imaginei que talvez fosse algum antigo 
aluno de Kung Fu. No era difcil que isso acontecesse, s vezes eu 
cruzava com algum que me era totalmente estranho, mas a a pessoa 
vinha, me cumprimentava, dizia que tinha treinado comigo e "H quanto 
tempo, hein?", etc. .. e tal.
Quem seria aquele moo?...
Ele tinha o cabelo liso e preto, escorrido como de ndio, cobrindo 
as orelhas e um pouco mais comprido atrs. Os olhos eram tambm 
escuros, ligeiramente alongados; a pele, da tonalidade dos ndios.
 verdade que eu tive muitos alunos; alm disso, na poca da 
"29", havia muitas pessoas que me conheciam de vista, mas eu no as 
conhecia de fato.
Por algum motivo estranho continuei olhando para o rapaz. Talvez 
fosse o olhar dele, to sereno, to brando... ou acho que era mesmo 
aquele sorriso, ele parecia estar feliz em me ver ali. Por alguns instantes 
continuei tentando me lembrar de onde eu o conhecia...
Mas a ele falou comigo. No saberia dizer porque escutei a sua 
voz clara e alta como se estivesse ao meu lado... e no do outro lado da 
Igreja. Na hora no me perturbei muito com isso, parecia perfeitamente 
aceitvel... j nem escutava o som do Louvor. S ouvi as suas palavras, 
de forma perfeita:
 Voc est vendo aquele senhor l na frente?  e apontou. Eu 
olhei na direo que ele apontava e perguntei:
 Aquele? Aquele ali de camisa xadrez?
 . Aquele mesmo. Ele est passando por muita dificuldade... vai 
at l depois, e ora por ele. Porque tudo que voc pedir em orao, o Pai 
vai atender!  e sorriu de novo.
Aquele sorriso era muito bonito, espelhava muito amor. Por algum 
motivo ele parecia me conhecer muito bem, mas... por que eu no me 
lembrava dele?
Olhei de novo para a frente, para aquele senhor de camisa 
xadrez... ento ia perguntar alguma outra coisa para aquele moo, voltei-
me novamente na sua direo, e...
"U?? Cad ele? Ser que j foi embora? Mas no pode ser, 
estava aqui agora mesmo!"
Ento fiquei cabreiro...
"Meu Deus... ser que eu estou vendo coisas?! Ser que eu 
imaginei isso?... Ou ser... que era um anjo...?!"
Comecei a procurar por ele na Igreja, virava o pescoo para todos 
os lados. Nem reparei que a essa altura o Louvor j estava encerrando, e 
o Pastor Joel j dava a bno final para poder despachar as pessoas.
Isabela olhava para mim, j tinha percebido alguma coisa:
 Que foi, Nen? Que aconteceu?
 Pera... ser possvel?
 Que foi? Voc viu alguma coisa?  e a voz dela j soou 
preocupada.  Voc est com uma cara estranha!
 Estou?... Espera um pouco... eu preciso fazer uma coisa antes, 
pra ter certeza... a eu te falo!  eu quase nem olhava pra ela, 
encafifadssimo, s continuava virando o pescoo para todos os lados.
Isabela esperou sem perguntar mais nada. O Culto tinha acabado. 
Voei l na frente atrs do tal senhor de camisa xadrez. Isabela nem veio 
atrs de mim, ficou me esperando sentada no mesmo lugar. 
Desconfiada. Um tantinho temerosa.
Observei de longe o homem antes de falar com ele. Eu o conhecia 
de vista. Ele estava sempre bem vestido... j tinha uma certa idade... e 
estava acompanhado da esposa.
"Ser possvel que esse homem t mesmo passando muita 
dificuldade?. Quem olha pra ele assim, no parece..."
Bati no seu ombro. No via a hora de tirar aquilo a limpo!
 Desculpe-me, mas...  me engasguei todo.  Humm... a Paz 
do Senhor! Sabe o que ? Eu acho... eu acho que eu vi um anjo... e ele 
me disse pra vir aqui orar pelo senhor, porque o senhor est passando 
por dificuldades... hum...
Na minha cabea j imaginei a resposta: na certa, ia achar que eu 
era um maluco!
Mas, para minha surpresa, os olhos dele se encheram de lgrimas, 
e a mulher se apressou em anotar o nome e o telefone deles no boletim 
da Igreja, para imediatamente empurrar pra mim!
  Ah, irmo... eu estou mesmo com problemas muito srios! 
Perdi meu emprego, e na minha idade no  fcil arrumar outro. Eu era 
gerente de uma boa Empresa, mas fui mandado embora. Estamos 
mesmo atravessando um deserto muito difcil!
Foi a minha vez de sentir uma emoo forte subindo at a 
garganta, e meus olhos marejando em lgrimas.
 Puxa vida...  eu no sabia o que dizer.  Ento foi verdade 
mesmo, eu vi um anjo! O senhor pode at no acreditar, mas ele me 
mandou aqui pra orar por voc!
 Ah, mas eu acredito sim! Eu acredito, sim!
 Ento vamos orar, n? Vamos orar pelo seu sustento, pelo seu 
emprego... Ns trs oramos ali mesmo, rapidamente, entre lgrimas. 
Ento ele me abraou, e nos despedimos. Tudo no levou mais do que 
cinco minutos. Olhei de longe e vi que Isabela me observava, l do seu 
lugar. Voltei para junto dela.
  Eduardo, me diz o que est acontecendo... nem levantei daqui, 
estou preocupada... voc por acaso viu algum... quer dizer, algum...  
baixou o tom de voz.  Satanista por aqui?
At dei risada.
 Por que voc acha isso?
 U... voc no parava de olhar pra todos os lados, como se 
estivesse procurando algum... por acaso voc viu algum que 
conhecia? Algum de l? Porque a sua cara estava muito estranha!
 Ah, Gatinha, no foi nada disso!  eu dava risada  toa.  Foi 
uma outra coisa que eu vi... eu acho que eu vi um anjo!!!
Isabela arregalou os olhos de espanto. O semblante preocupado 
se desfez na mesma hora.
 Um anjo, Nen?! Srio? Voc viu mesmo? Conta como foi isso!
 Lembra quanto que eu pedi, n? Quanto que eu pedi para ver 
anjo! A Grace at mesmo ungiu meus olhos, pediu que Deus os abrisse, 
pra poder ver os anjos... at Dona Clara orou por isso tambm! Mas 
estava demorando tanto...
Isabela me puxou pela mo, super ansiosa.
 Conta! Conta tudo, Nen!!
 Pois ...  eu estava flutuando em nuvens, meio areo.  Meu 
Deus... eu no imaginava uma coisa dessas, eu imaginava que fosse ver 
um anjo de asas, que ele fosse me visitar em casa, no meu quarto... 
nunca pensei que fosse acontecer desse jeito! Parecia um homem, 
sabe? Um homem normal.... s que bem alto!
 Ai, Eduardo, conta direito! Mas onde foi que voc viu, como foi 
que ele apareceu?
 Estava ali...  apontei para a cadeira do outro lado da Igreja, 
mais ou menos uns cinco ou seis metros de onde a gente estava. Fiquei 
quieto de novo, s pensando.
Isabela interrompeu meus pensamentos de novo.
 Mas e a, Nen? Conta, conta! Como  que ele era?
 Era alto, mais alto do que a maioria. Mas no de uma altura 
sobrenatural, era uma altura que um homem pudesse ter! Estava 
vestindo uma camisa branca fechada at em cima, de mangas 
compridas, presas no punho... de tecido mole, sabe? De gola redonda, 
me pareceu que era fechada do lado por um boto. E usava uma cala... 
tipo linho... linho azul escuro. Tinha traos que lembravam um boliviano... 
engraado... mas no era magro, dava pra perceber que era forte, 
encorpado. Ele sorriu para mim!
 E como era o sorriso dele?
 Perfeito! Uma dentio perfeita! Era um ndio boa pinta!  
segurei novamente as lgrimas no meio da risada.
 Ele falou comigo... e eu escutei como se ele estivesse aqui 
perto... aqui do nosso lado... e da...
Fui contando aquela deliciosa experincia. O rosto de Isabela se 
iluminava, e ns dois acabamos chorando juntos antes que eu 
terminasse de falar. Uma alegria muito grande invadiu os nossos 
coraes.
 Deus atendeu!  falei, ainda sem acreditar.  Atendeu meu 
pedido! Eu vi anjo! Ele tinha um olhar to especial... um olhar cheio de 
amor...  senti a voz embargada novamente.  To diferente do olhar 
dos demnios...
 Deus sabia que voc precisava disso...
 E por que voc ficou assustada?
 Eu no sabia o que estava acontecendo, olhei pra voc e o vi 
com um ar estranho, uma cara estranha. Eu j conheo essa sua cara, e 
nunca  boa coisa! E voc ficava olhando pra todos os lados, ento olhei 
tambm, eu queria ver o que  que voc estava vendo... como a gente s 
tem tido surpresas desagradveis, imaginei que voc tinha visto algum 
da "Church" aqui dentro, tinha sentido algum demnio, alguma coisa 
assim...  ela suspirou de alegria.  Mas, graas a Deus, dessa vez foi 
uma coisa boa!! Eu tambm olhei por toda a Igreja, vi muito bem aquelas 
trs meninas sentada ali do outro lado... mas no vi nenhum boliviano 
boa pinta!
Isabela riu de novo, um riso claro e aliviado. Eu ri tambm, e no 
perdi a oportunidade de brincar:
 E no  pra ver mesmo! Se voc visse, ia querer paquerar o 
anjo! Ficamos ali rindo que nem dois bobos durante algum tempo, 
falando e falando sem parar sobre aquilo. Ento Isabela lembrou:
 Vamos contar pra Dona Clara!  Isso!
Dona Clara j estava l fora, na calada. Corremos atrs dela para 
contar a novidade como duas crianas. Dona Clara ouvia, e enquanto 
ouvia dava risada, feliz da vida com o ocorrido. Acabou at chorando 
tambm umas lagriminhas.
 Deus  bom! Deus  bom! Atendeu ao nosso pedido!
Esse seria um assunto que ns dois iramos falar durante bastante 
tempo.
* * * *
Dois dias depois, na sexta-feira, Isabela encontrou comigo e foi 
logo falando:
 E a? Tem o Seminrio da Grace neste fim de semana. No 
conseguimos fazer daquela vez, por causa do seu sarampo, lembra?
 Pois   respondi.
 E tem tambm o acampamento da Igreja.  .
Procurei saber primeiro o que ela achava. Fui logo direto.         /
 Voc t a fim de ir?
Conversamos e conversamos sobre as duas possibilidades.
Ns sempre temos o livre-arbtrio para escolher o melhor. As 
possibilidades aparecem, basta fazer bom uso desse livre-arbtrio. 
Naturalmente no era obrigatrio refazer o curso da Grace, e no 
estvamos to animados para o acampamento. Mas a verdade  que 
talvez aquele final de semana fosse menos complicado se tivssemos 
nos ocupado com um dos dois eventos.
Mas ns estvamos constantemente buscando a Deus, 
constantemente em orao com Dona Clara. Estvamos tambm 
cansados de uma semana de trabalho. Nada mais justo: optamos por 
ficar em casa.
No sbado samos para passear um pouco e acabamos indo ao 
Shopping Iguatemi. Era mais raro que a gente fosse l. Mas resolvemos 
fazer um programa diferente dessa vez e, depois de rodar pra cima e pra 
baixo pelas lojas, olhar de tudo um pouco, comprar balas da Sweet 
Sweet Way (que Isabela adorava), fomos comer no Galleto's.
 Eu vinha muito aqui na poca da Stylel  olhei para o cardpio.
 , n, Nen...? Nem sei bem o que escolher neste restaurante! 
Acho tudo to caro...
Eu tinha um fraco por restaurantes legais. E no era sempre que 
dava para ir ao Galleto's. Isso era coisa dos idos de antigamente.
 O galeto daqui  bom.  sugeri.  E no  s coisa do nome,  
bom mesmo... voc pode experimentar!  olhei um pouco mais o 
cardpio e decidi logo.  Eu vou querer o espeto misto.
Isabela continuou olhando o cardpio, indecisa.
 A Gatinha ainda vai demorar a escolher, n?  brinquei, 
puxando um dos pezinhos do couvert para o meu prato.
  Pois , tenha pacincia. Pra que a pressa? Vamos aproveitar, 
n? Hoje ningum tem horrio.
O garom veio solcito at nossa mesa e foi dispensado. Fomos 
comendo o couvert, enquanto Isabela continuava dando umas analisadas 
no cardpio.
 Escolheu, menina?  perguntei, carinhoso.
 Acho que sim. Acho que vou comer o tal frango que voc falou. 
Pedimos os pratos quando a costumeira coca com gelo e limo chegou 
acompanhada da tnica shweppes tambm com gelo e limo de Isabela.
 Esse pozinho italiano do couvert  uma delcia, hein?  
exclamou Isabela passando pat no seu pozinho.  Acho que eles no 
esqueceram do po de queijo, no?
 No, no... j vem, vem quentinho!
O almoo foi ameno e agradvel, apesar do restaurante estar um 
pouco cheio. Conversamos, contamos coisas da semana um ao outro, 
rimos das partes engraadas. Depois pegamos o gravadorzinho e 
tratamos de dar seqncia no trabalho. Fazia pouco tempo que Isabela 
tinha retomado a escrita do livro.
Tnhamos adquirido um pequeno gravador de bolso para Isabela. 
Antes ela costumava fazer anotaes numa folha de papel enquanto 
conversava comigo. Depois seguia suas anotaes e contava com sua 
memria para escrever o texto completo. Mas agora ns amos de fato 
entrar em doutrinas da Irmandade, em coisas mais relacionadas ao 
Satanismo. Por isso era muito importante que as informaes no se 
perdessem.
Eu liguei o discreto aparelho e tratei de falar com a boca bem perto 
dele para encobrir o burburinho  nossa volta. Conversamos bastante e 
foi proveitoso.
Dependendo daquilo que estivssemos tratando, Isabela 
costumava fazer muitas perguntas. Ela somente se dava por satisfeita 
depois de ter compreendido muito bem cada ponto da doutrina.
Depois oramos um pouco pedindo proteo,(selando nossa 
conversa no mundo espiritual, pedido o cerco das muralhas de fogo do 
Senhor, como tnhamos aprendido a fazer com a Grace.
Encerramos nosso gostoso almoo com o infalvel cafezinho 
expresso.
 Vamos caminhar um pouco? Estou cansado de ficar sentado.
 T.
Samos de mos dadas, satisfeitos, ainda olhando um pouco para 
as vitrines.
 Voc quer alguma sobremesa?  Indaguei. Eu sabia o quanto 
Isabela era louca por um docinho.
 Daqui a pouco eu quero mesmo, Nen! Deixa assentar o 
almoo, depois a gente escolhe alguma coisa pra dividir.
Isabela me puxava pela mo para ver isto, ou aquilo. Achando isto 
ou aquilo bonito, xeretando em tudo. Ela era compulsiva por roupas, 
sempre precisava de alguma coisa. Como aquele vestido, que um dia ela 
precisaria... mas depois fica guardado...  uma saga ... desmonta a loja, 
no tem preguia de experimentar todas as peas. Mal de famlia! Dona 
Mrcia tambm  assim, compulsiva por sapatos... um dia experimentou 
a loja toda, a vendedora fez uma verdadeira maratona. Concluso da 
cliente: "Muito obrigada, mas no gostei de nada".
Para Isabela, comprar quinquilharias era outro ponto alto de 
qualquer passeio. Brinco de maritaca... colarzinho... bijuterias... 
bugigangas... esporte predileto! Mas tudo que ela compra, depois troca. 
Mesmo passando horas escolhendo... depois... "no  bem aquilo".
Puxa, ela mostrava suas manias. Essa era uma. Mas tinha outras. 
Por exemplo: mudanas radicais! Mudar a decorao do quarto, mudar 
tudo de lugar, pr tudo de pernas para o ar, fazer algum desenho na 
parede ou, melhor ainda, mudar a cor da parede.
As mudanas tambm podiam ser nela mesma! Como perfurar a 
orelha, fazer da orelha um colar de brincos! Que coisa horrvel, eu ficava 
apavorado s de ver, mas ela achava que grampear a orelha era muito 
legal. Tambm tinha as modas com o cabelo: cortes curtos, repicados, 
longos, retos, tingir o cabelo de vermelho... como um pica-pau... de 
loiro...
At essa mania me foi imposta, ela me convenceu a tingir o cabelo 
de caju. Diante de toda a famlia dela, apareci assim. "Quem  o 
namorado da Isabela?" Uma gazela que tinge o cabelo de caju. At touca 
trmica usei... imagine o terrvel Catatau... usando touca!
Ento, no meio daquela placidez, no meio daquela tarde super 
gostosa, no clima de intimidade e companheirismo que sempre existia 
entre a gente, aconteceu de novo. Como um manto denso, invisvel, uma 
discusso teve lugar. Do nada. Por causa de uma fasca tola.
A fasca era pequena, sempre: uma frase mal colocada, um 
pequeno mal-entendido. Mas as chamas oriundas da fasca tornavam-se 
gigantescas. Violentas. Inexplicavelmente. No tinha lgica.
Ela se afastou de mim, sem querer conversar. Eu me indignava 
porque Isabela no queria conversar, e acabava por desacat-la 
verbalmente. Quase sempre ela acabava revidando.
O passeio acabou.
Naquela poca ns no conseguamos ainda ver uma seqncia 
lgica em eventos que aparentemente eram desconexos, sem nenhuma 
relao entre si.
Ainda tentamos salvar o dia indo at o "Shopping do livro", como a 
gente chamava, e que ficava pertinho da avenida Pedroso de Morais. 
Mas no conseguimos nos reatar. O sbado foi totalmente estragado.
No domingo fui at a casa dela, como sempre, na hora do almoo.
S que eu continuava meio emburrado, e ela mais ainda. Dona 
Mrcia percebeu algo no ar e fez um comentrio sobre se "estava tudo 
bem". Tpica pergunta que no ajudou em nada, uma vez que tudo 
estava ruim. Explicamos em palavras hermticas, aproveitando para 
lanar farpas um no outro.
A verdade  que logo acabei me abespinhando, eu detestava 
aquele tipo de intromisso. Fui embora logo aps o almoo, furioso.
S conseguimos resolver o impasse na segunda-feira. Isabela 
passou uma noite agitada, nervosa, e levantou muito cansada. Mas ela 
ainda no sabia sobre o que se passara na vspera, no final do domingo. 
Claro que ningum tinha ido ao Culto, antes tivssemos mesmo ido ao 
curso da Grace ou ao acampamento!
Na segunda-feira  noite, quando finalmente pudemos voltar a 
conversar como duas pessoas normais, comentei com ela depois de 
abra-la e beij-la. Procurei no mudar o tom de voz nem apagar o 
sorriso.
 Ele ligou em casa ontem  comecei. Isabela deu uma leve 
estremecida. Leve.
 De novo? Ele quem, Nen, quer dizer... ele mesmo?  ela 
sabia muito bem a resposta.
Eu ainda sorria um sorriso que, ela sabia, era um sorriso um pouco 
nervoso.
 ... ele mesmo, o Marlon.
Isabela franziu a testa ainda sem dizer nada, ficou quieta alguns 
segundos processando a idia. Ento sua voz soou sria e apreensiva, 
naturalmente no era uma boa notcia. Exatamente como das outras 
vezes.
Para sermos francos, aquilo estava realmente incomodando, 
aquele assdio. Aquele fato desagradvel pelo visto ameaava tornar-se 
mais freqente.
No havia outro jeito a no ser aprender a lidar com a tenso que 
tudo aquilo causava!!
quela altura, nem eu e nem ela podamos fazer qualquer 
associao na certeza!
Volto a dizer: Os eventos pareciam no ter qualquer relao entre 
si. Quer dizer, nossa briga no sbado podia no ser nada demais  
primeira vista. Mas era o preparo para o telefonema do domingo: era 
preciso que eu no estivesse bem emocionalmente. O terreno tinha de 
estar preparado, meu corao tinha de estar envenenado. A nossa briga 
preparara tudo...
A Irmandade sempre age dentro de uma determinada lgica.  
preciso aprender a reconhecer o padro. Mas eu no tinha cabea para 
raciocinar, no conseguir conectar as coisas. Estava perdido, no parava 
para relembrar e esmiuar informaes que havia me esforado tanto 
para esquecer, que tinha lutado tanto para soterrar no esquecimento. J 
bastava o que tinha de fazer durante as Ministraes!
Foi mesmo Isabela quem comeou a perceber a lgica aps 
darmos muitas cabeadas.
Marlon ligou, de fato, na vspera. No dia 9 de novembro, nove dias 
depois do Sabbath. Nove dias depois de Zrdico.
 Mas o que foi que ele disse? Foi voc quem atendeu ao 
telefone?!  continuou Isabela, querendo que eu dissesse logo tudo.  
Conta logo... no me deixa na expectativa!
Ergui as sobrancelhas, demorei um pouquinho a responder.
 Antes tivesse sido eu mesmo... mas dessa vez ele mudou o 
padro, voc acredita que ele falou com a minha me?!
 Sua me?! Mas a troco de que isso?
 Pois , Gatinha, no sei. Ele s queria dar o recado.  afirmei, 
sem nfase, certo do que falava.
 Bom, e qual foi o recado?
Tanto eu quanto ela tnhamos o estmago meio agitado, com 
aquela sensao ligeiramente enjoada que sempre antecedia o 
desconforto de ter de lidar com aquela situao.
 Foi rpido. Ele se apresentou como sendo um amigo meu, disse 
que sabia que eu no estava em casa, mas queria s que eu recebesse 
o seu recado.
 E...?
 Ento ele disse que sabia que eu estava chateado... mas 
ningum  minha volta ligava pra isso... e que eu sabia onde encontrar 
meus verdadeiros irmos, caso precisasse de alguma coisa...
Ficamos calados por alguns segundos.
 E que eu ligasse para ele! Deixou o nmero. Novamente 
ficamos calados, processando as idias.
 Como se ele precisasse deixar o nmero!  acrescentei por 
fim.
Isabela me olhou:
 Voc se lembra?
 Sim. No mudou. Continua o mesmo.
Ela inspirou fundo, pronta para ajudar-me a rebater todas aquelas 
idias, eu sabia. Seu semblante era de preocupao. Eu sabia que eles 
no tinham a menor pressa de agir. Estavam s cutucando, espetando. 
Pondo a gua pra ferver! Plantando idias. Como que dizendo: "No est 
sentindo esquentar?  s uma farpinha... vai querer levar uma facada de 
verdade, ou j est bom? Vai escutar... ou temos de continuar 
esquentando?"
 Bem, Nen... e voc? O que voc achou disso? Eu me sentia 
melanclico.
 Ah! O que eu poderia achar?
 Puxa... pensa bem.  Isabela falava com cuidado, com carinho. 
Mas tambm com firmeza.  Voc sabe que eles no so seus irmos, 
no so sua famlia, no querem o seu bem. Isso tudo  um jogo da 
parte deles. Voc sabe disso, no ?
Assenti:
 Sei, claro que sei.
Ela continuava olhando para mim, perscrutando meu rosto, lendo 
nas entrelinhas. Isabela sabia que havia um vnculo emocional entre 
Marlon e eu. Talvez naqueles momentos ela se desse conta disso at 
com mais facilidade do que eu. Eu sabia que hoje era um vnculo virtual. 
Mesmo assim... de certa forma, poderoso. Ele tinha sido meu amigo. No 
entanto, eu no iria ceder, apesar de que me mexia com a alma.
 Voc. no vai ligar pra ele, n?  indagou Isabela.
Fiz que no com a cabea. Ela ainda insistiu, preocupada.
 Mas no vai mesmo, n, Eduardo? O diabo sabe escolher as 
palavras, puxa vida... ele vai falar aquilo que mexe com voc. Olha... 
promete que voc no vai ligar.
Respondi convictamente:
 No, no vou ligar. Eu sei que ele s est articulando bem as 
palavras...  fiz uma pequena pausa, mudei o tom de voz, olhei para ela 
como um menino privado do melhor amigo.  Ele sabia que eu estava 
chateado...
Ela segurou em minha mo, procurando consolar-me.
 ... ele sabia.  procurou as melhores palavras.  Ele sabia 
que voc estava fragilizado por causa da nossa briga. E sabe tambm 
que ns no temos muito com quem contar. Excetuando Dona Clara, 
quem est conosco mais freqentemente? Mesmo Grace... ela faz o que 
pode, mas a gente s fala com ela de vez em quando. S a v de vez em 
quando. Ele sabe que voc no tem nenhum amigo... pelo menos 
nenhum como ele, como ele mesmo foi.
Tive de dar um longo suspiro.
  uma triste realidade. A Igreja  muito dividida. Ningum quer 
saber de ningum, com honrosas excees...! Depois, ele j tinha dito 
que ningum ficaria ao meu lado.
 Mas, de qualquer forma, no importa! Ele no  mais seu 
amigo,  seu inimigo! S quer o seu mal!!
  to fcil saber onde bater... saber onde di.
 Vamos e venhamos,  incrvel como eles conseguem ligar na 
hora H, n? Impressionante!
 Bom, os demnios esto a,  nossa volta. Eles viram a briga, 
sabem como me senti. Sabem que fui  sua casa e voltei sem a gente ter 
se acertado. Eles vem as coisas!
Isabela ficou um pouco calada, pensando naquela realidade: 
nuvens de demnios ao redor; observando, levando informaes.
 Puxa, a culpa no  minha  falou de forma sentida.
 No estou dizendo que a culpa sua, s que eles vem, ele 
sabem. E levam o recado rapidamente.
Ns no tnhamos a menor idia do que fazer  ou, at mesmo, 
se havia algo a fazer  para evitar que os demnios levassem toda e 
qualquer informao da nossa vida at nossos inimigos.
  Bom... no vamos mais pensar nisso. Ele no quer o seu bem, 
mas no vai dizer isso, claro!
 Talvez ele at queira o meu bem, no duvido disso... mas o que 
ele entende como sendo o "bem" pra mim, no  o mesmo que eu vejo 
hoje.
 Vamos orar, ento?  pediu-me ela.  Vamos pedir a Deus 
para nos proteger. Oramos um pouco, cada um por sua vez. Pedimos a 
proteo do sangue do
Cordeiro, o revestimento com a armadura de Deus, a presena dos 
anjos; tudo que podia ser pedido em termos de proteo, ns pedimos. E 
que o Senhor nos ajudasse a continuar caminhando, frustrasse os 
intentos do maligno contra as nossas vidas.
Terminamos e ainda ficamos calados um pouco, nos 
entreolhamos. Ningum sabia bem o que dizer.
 Mas o que ser que eles tanto insistem com voc?  a voz de 
Isabela veio num tom ainda preocupado.
 Querem que eu volte.
 Puxa, eu sei, mas que coisa. Voc no vai voltar. Ser que eles 
no vo desistir? Que fixao com voc!
Ela no podia mesmo compreender exatamente porque o diabo 
insistia tanto. No tinha dados suficientes naquele tempo, o meu destino 
espiritual no tinha sido descortinado, as Ministraes ainda eram, de 
certa forma, "superficiais". Isto , estavam tirando "o grosso", "o externo". 
E no que dependesse de mim, ia ficar s nisso. Eu no tinha falado nada 
de importante, e eles sempre sabiam de tudo. Imagine s se eu falasse!
O livro Filho do Fogo era pouco mais do que pginas de papel 
sulfite rascunhadas, ainda bem no incio da histria.
E eu...! No sabia o que fazer para me defender. Eu sempre tinha 
estado "do outro lado". As Ministraes me faziam sentir bem, eu estava 
vendo um outro ngulo da Guerra. Mas ainda era pouco. E isso no quer 
dizer que eu fosse ficar invisvel. No sabia guerrear! E Isabela... 
tambm no sabia, seu conhecimento era quase todo terico, mas ela 
estava certa que era preciso guerrear, fosse l o que fosse isso!
O mximo que ela podia fazer era insistir para que orssemos 
juntos, e nos comunicssemos com a Grace, com Dona Clara, para orar 
mais. Fomos nos acostumando a contar com elas, as nicas pessoas 
compromissadas conosco.
No restante daquela noite procuramos fazer isso mesmo: 
desabafar com as duas, orar por telefone. Grace s atendia ao telefone 
l pela meia-noite. Dona Clara tinha um horrio mais normal.
Uma vez terminada a conversa e as oraes, ns conseguiramos 
dormir mais tranqilamente. Deus tomaria conta de ns.
* * * *
Dois dias depois, estvamos voltando da Igreja, aps uma longa  
proveitosa conversa com Dona Clara, seguida de orao. Era 
excepcionalmente horrio de almoo; normalmente ns nos 
encontrvamos no comeo da noite.
Eu tinha sado do meu emprego, aps um ano naquele lugar, por 
isso agora tinha mais tempo livre. Isabela trabalhou de manh, e depois 
ns fomos direto para a Igreja. Era j horrio de vero e fazia bastante 
calor.
Samos de l aliviados. No havia nada que no pudssemos 
conversar com Dona Clara, nenhum assunto era delicado demais, ou 
srio demais... ou perigoso demais. Ela nos fazia sentir sempre um 
acolhimento diferente. No fim sempre vinha aquele alvio, depois de 
compartilharmos abrindo nossas almas.
Eu tinha mais dificuldade em falar de mim mesmo, de abordar 
sentimentos. Mas, como Isabela me conhecia bem, procurava sempre 
me incentivar a no esconder nada, nem mesmo as menores coisas. Ela 
no deixava nada passar batido!
No momento, tnhamos de orar por um novo trabalho pra mim, 
porque tinha feito um acordo na Empresa onde trabalhava. Precisava de 
um emprego melhor. A histria do meu emprego tinha sido assim:
Depois daquele processo de seleo bastante rido, tive uma 
semana de treinamento antes de assumir oposto propriamente dito. Fui 
apresentado ao meu gerente, o Wagner. O mesmo com quem fizera uma 
das entrevistas no processo de seleo, e que tinha sido transferido do 
Rio de Janeiro para So Paulo especialmente para assumir o 
Departamento Financeiro. Ele j tinha 17 anos de casa! Naturalmente, 
esperavam muito dele.
Comecei o servio bastante animado, era uma Empresa 
conceituada, multinacional, lder no mercado dentro do seu ramo de 
atividade. Eu cheguei mais ou menos no mesmo perodo em que o meu 
gerente estava tambm assumindo seu posto.
Logo de cara entrei em contato com o plano de metas que 
deveriam ser cumpridas. Essas metas eram chamadas de RDF, a 
resultante de vrios clculos de medio de resultados; na verdade, 
aquela numerao espelhava o percentual de aproveitamento e 
desempenho do setor.
O mais legal naquela Empresa era nosso ambiente de trabalho. 
Tinha outros analistas com quem eu me dava bem, e tambm um 
estagirio que fazia parte do nosso grupo de amigos. Alm de trabalhar, 
a gente vivia brincando e dando risada o dia todo, por tudo e por nada. 
Era muito engraado quando algum ia ao banheiro "tingir a porcelana"! 
Porque se avisasse aonde ia  o que era de muito bom-tom, dentro do 
horrio de expediente  logo algum escapulia atrs para jogar papel 
higinico molhado na cabea do infeliz.
A gente tambm vivia tirando barato das roupas um do outro. O 
Mauro s tinha um par de sapatos. O Rodrigo fazia o n da gravata 
grosso como um melo. Isso era motivo de chacota! Quanto a mim, no 
largavam do meu p por causa das minhas gravatas, as gravatas que 
Isabela comprava. Naquela poca era moda usar gravatas de bichinho. 
Eram muito bonitas as minhas gravatas, mas o pessoal no perdoava.
 Qual vai ser a gravata do mestre de Kung Fu amanh? Ser 
que ele vem com a gravata de patinho?!
Era linda minha gravata de patinho, no sei porque tanto 
implicavam com ela!
O estagirio era o mais irreverente de todos. Trabalhava com a 
gente, mas tinha vindo de outro setor justamente por indisciplina. Ele 
realmente no estava a fim de nada! No entanto, como fosse engraado 
e vivesse fazendo pequenas sabotagens no departamento, a gente 
deixava passar e no dedurava para o Wagner. Isso porque era a sua 
ltima chance na Empresa!
Mas o mais engraado de tudo era mesmo tirar sarro por causa do 
RDF! Durante um ano, ns s atingimos a meta uma vez! A culpa no 
era nossa, todo mundo fazia sua parte, e fazia bem. A realidade  que o 
departamento estava funcionando muito mal por outros motivos, por 
motivos administrativos.
De quebra, o Wagner no sabia lidar bem com o pessoal: quase 
que s nos dirigia a palavra para dar ordens, ou broncas. Logo no 
primeiro ms, no dia em que saa o resultado do RDF, quando vimos que 
no tinha sido satisfatrio, Wagner reuniu todo mundo e lascou o sabo!
Nosso estagirio recm adquirido, em vez de se animar, ficou mais 
desanimado ainda. Depois disso ele chegava tarde quase todos os dias, 
e lia o jornal inteiro antes de se pr em campo para trabalhar. Sempre 
em ritmo de cruzeiro. A gente at achava graa, ele ainda estava 
fazendo Faculdade e ganhava uma mixaria. deixamos que ele fosse 
levando na maciota... por pura pena!
Em outro ms: presso, presso, presso em cima de todos ns. 
Reunio atrs de reunio. Metas, metas e mais metas. Resultado: RDF 
abaixo do esperado novamente.
Essa histria do RDF era a piada do ano! No dia em que ia sair o 
resultado eu costumava at chegar mais cedo. A encontrava outro 
colega que, ansioso como eu, tinha chegado ainda mais cedo. E punha 
um cartaz colado bem  vista de todos que entrassem: no atingimos a 
metal
Quando Wagner chegava, meio quieto, logo ficava sabendo. E 
marcava reunio. Sempre que ficava roxo de raiva todo mundo tinha a 
impresso de que sua cabea parecia inchar. Com isso ganhou o 
carinhoso apelido de "Caixa d' gua". A cada ms ele ficava mais 
desesperado, tinha vindo justamente para conseguir pr o Departamento 
Financeiro em ordem.
At mesmo Isabela costumava me ligar nesse dia para saber do 
resultado.
Talvez tenha sido por isso que convocaram uma auditoria. Nosso 
chefe, preocupado, fez uma reunio e disse com todas as letras:
 Ns vamos ser auditados, e eu quero que todos vocs digam 
que os processos esto em ordem! Que esto todos funcionando 
perfeitamente! E que ns estamos seguindo todos os manuais da 
Empresa!
Detalhe: esses manuais, "Padro de Qualidade Total", estavam 
desaparecidos h um bom tempo. Ningum nem sabia onde  que eles 
andavam, para todos os efeitos cada departamento tinha o seu. No 
nosso, "misteriosamente", no tinha. E o pobre do estagirio era o 
principal suspeito do sumio do manual... a gente sabia que ele tinha 
arquivado o manual no sexto arquivo: no cesto de lixo!
Todo mundo ria pelas costas do Wagner, que a cada dia vinha 
com a cara mais vermelha para o servio.
Fosse como fosse, a auditoria ia acontecer. E nosso chefe 
esperava que todos mentissem a respeito dos processos. No falei nada 
para ningum, mas pra mim mesmo decidi que no ia mentir coisa 
nenhuma! .
Meus colegas de servio sabiam que eu era evanglico. No sei 
que conversa estvamos tendo um dia, e cada um acabou falando se era 
catlico, ou esprita, ou outra coisa qualquer. Alm de mim, s tinha mais 
uma moa evanglica ali, e nem era do meu setor, era de um setor 
coligado.
Volta e meia, na hora do almoo, eu contava alguma histria 
Bblica para os meus colegas. Contava, porque contava. E eles 
gostavam! Viam em mim uma pessoa sincera, pelo menos, eu no 
precisava ficar me esforando muito, aquilo j estava fazendo parte de 
mim. No era difcil falar sobre a Bblia, sobre aquilo em que eu 
acreditava. Esse foi um ponto positivo, porque depois, eles mesmos me 
pediam que contasse histrias na hora do almoo.
 Mastral, conta uma histria!
Eu contava as que sabia. Eles ouviam. Gostavam.
Por esse motivo eu no estava a fim de dar um pssimo 
testemunho mentindo descaradamente, como queria o Wagner! Optei por 
arcar com as conseqncias de falar a verdade. Quando a auditoria veio, 
e eu fui entrevistado, falei mesmo a verdade.
 Os processos esto todos irregulares... ns tentamos ajustar, 
mas ningum est conseguindo seguir as normas.
O auditor ficou at meio sem jeito.
 Puxa... mas  assim mesmo?
 , sim. Quer ver uma coisa? Vou te mostrar alguns exemplos... 
 e trouxe para eles algumas pastas de processos que estavam cem por 
cento irregulares. No fiz por mal, apenas fiz o que achei que era certo. 
 Ns queremos acertar isso tudo, basta vocs passarem metas 
tangveis pra ns, e teremos prazer em fazer!
Depois disso os auditores saram da minha sala e foram atrs do 
Wagner. Eu pude ver, atravs das divisrias de vidro, que a colorao do 
rosto do meu chefe mudou de vermelha para arroxeada, e ele me 
lanava olhares de dio  distncia, fulminantes. Ganhava forma de 
caixa d'gua.
No final do dia o Wagner fez uma reunio com todos ns, depois 
que os auditores tinham ido embora. E reclamou de mim. Senti que tinha 
feito a coisa certa, mas mesmo assim seria punido.
 O Mastral me deixou com a cala na mo!  e gesticulava 
impetuosamente.  Eu no tive o que falar, e agora certamente ns 
vamos receber uma pontuao negativa! O gerente geral est de olho 
em mim! Ele vai dizer que o meu setor est naufragando, e com toda 
razo!
Alis, o gerente geral era um verdadeiro cavalo, todo mundo tinha 
medo dele. Eu conhecia a figura porque tinha feito a minha entrevista 
final com ele.
Os auditores deram trs dias para ns colocarmos em ordem tudo 
o que estava errado.
No final daquela semana havia um feriado prolongado, um feriado 
na quinta que a Empresa inteira iria emendar com a sexta. Mas por 
causa daquela situao de termos de colocar o departamento em ordem, 
o Wagner nos convocou a todos na sexta e no sbado.
Eu inventei uma desculpa, e no fui. Dessa vez optei por dar uma 
de crente carnal.
 E o Mastral, cad o Mastral?  perguntou o Wagner na sexta-
feira.
 No sei, ele ligou a, parece que pisou num prego...
 Hum... estranho isso... pisar num prego bem na sexta-feira?
No final tudo deu certo, ele no me recriminou porque eu fazia um 
servio muito bom. E, no final do perodo de auditoria, o resultado foi 
diferente do que todos ns imaginvamos. Eles acabaram me 
parabenizando pela minha atitude, me elogiaram:
 Ele foi o nico funcionrio correto, que admitiu o erro e pediu 
ajuda para ns solucionarmos o problema. Porque o objetivo da auditoria 
no  acusar,  antes orientar. Enquanto todo mundo estava mentindo, 
no havia como ajustar nem homogeneizar os processos!
Isso foi parar no relatrio da auditoria, que subiu para o gerente 
geral. Eu acabei me saindo bem por ter escolhido no mentir, meu 
salrio aumentou, e o Wagner foi transferido de setor.
Veio ento outro gerente para assumir a nossa rea. Ele era 
bacana, mais comunicativo do que o Wagner. Mas a primeira coisa que 
fez foi demitir o meu xar, um outro Eduardo que sempre fazia hora extra 
e trabalhava aos sbados. No ms anterior ele tinha ganhado o prmio 
de melhor funcionrio do ms, o prmio "superao", isto , quando voc 
consegue se superar.
O Eduardo ganhou um certificado "superao" e R$ 100 em 
compras na... onde era mesmo aquele lugar? Sei l, algum 
supermercado! A gente brincava com ele que era a "quitanda da vov"!
Mas nem bem o gerente assumiu e mandou o coitado do 
"funcionrio superao do ms" embora! E o estagirio continuava ali, 
ensebando...
Eu criei uma amizade com o novo gerente, tinha um bom 
relacionamento com ele. Tudo estava indo bem, eu estava cuidando 
muito bem de todos os meus territrios, estava tudo prosperando. Mas 
eu estava ganhando mal pela funo que exercia. Mesmo tendo recebido 
aquele aumento de salrio. Os outros analistas ganhavam menos ainda.
Vrias vezes fui me queixar, numa boa, com meu gerente:
 Chefe, eu t ganhando mal... puxa, veja s o resultado do meu 
trabalho. Todas as metas que vocs me colocaram, eu estou cumprindo.
Ele sabia que eu estava fazendo um bom trabalho. Ento falou:
 Olha... vou ser sincero com voc. Voc sabe que  um 
funcionrio terceirizado, no ? Voc no  funcionrio da Empresa 
efetivamente. Vou te falar uma coisa: eles no esto efetivando ningum.
Isso era um problema. At ento eu no participava dos benefcios 
da Empresa, mas esperava que em breve essa situao mudasse. No 
recebia dcimo quarto salrio no final do ano; no tinha a mesma 
assistncia Mdica que os funcionrios efetivos tinham; alguns bnus, 
como aquele por atingir o RDF, eu tambm no teria direito. Ns  que 
no atingimos a meta, mas se tivssemos atingido, eu no faria jus ao 
bnus. Dentre outras coisas mais. Havia uma srie de benefcios e 
regalias aos quais eu nunca teria direito como funcionrio terceirizado.
Ento, embora o meu salrio fosse maior do que o deles, eu perdia 
por outro lado. Estava esperando ser efetivado, mas depois do que meu 
gerente falou, fiquei um pouco reticente. E ele mesmo acrescentou:
 Voc est perdendo com isso, faz um bom servio, mas eu 
acho que ficar aqui nessa Empresa vai acabar te amarrando. Voc tem 
muito potencial,  um timo funcionrio, mas... eles no vo efetiv-lo, 
no esto efetivando ningum! Vou te dar um conselho: acho melhor 
voc procurar outro lugar. Voc tem tudo para crescer e ir adiante na 
vida.
Ento eu e Isabela conversamos, achamos que talvez fosse 
melhor mesmo partir em busca de outro trabalho, em outra Empresa. Eu 
nunca tinha tido dificuldade para arrumar emprego, excetuando o perodo 
em que deixei a Irmandade.
Meu chefe programou muito bem a minha sada, combinamos com 
quase 40 dias de antecedncia. Recebi toda a minha resciso contratual 
e sa.
A primeira semana que eu tinha livre era aquela segundo semana 
de novembro. Como no tinha tirado frias em um ano, resolvi tirar 
alguns dias para descansar, e depois sairia em busca de outro emprego.
Alm de orar com Dona Clara pelo emprego, havia outro motivo, 
mais sutil, mais obscuro... ns sentamos muita falta de mais pessoas 
Crists ao nosso lado. Amigos de verdade... claro que Grace e Dona 
Clara eram amigas... mas a gente precisava de pessoas da nossa idade, 
de outros casais. Pessoas com quem a gente pudesse rir e brincar, e no 
apenas tratar de coisas srias! Ns tnhamos tido nossos amigos na 
outra Igreja, mas agora parecia ser mais difcil de enturmar.
Eu tambm tinha tido meus amigos no servio, Isabela continuava 
encontrando com Mayra, tinha tambm seus colegas de trabalho... mas a 
gente gostaria de se entrosar melhor dentro da nova Igreja. Dona Clara 
entendia a nossa necessidade, fazia empatia conosco.
Depois de conversarmos bastante e orarmos, j era hora de ir 
embora.
 Tchau, Dona Clara!
Fomos caminhando devagar at a porta da Igreja, ainda 
conversando. Despedimos dela com um beijo. Ela sorria a maior parte do 
tempo, no porque fizesse disso um "tipo espiritual", mas porque ela era 
assim mesmo. Sempre risonha e de bom humor.
 Tchau, "Bem"!  Respondeu ela, indo para o telefone da 
secretaria.  Vamos esperar pra ver o que o Senhor vai fazer.
Samos lado a lado, abraados e animados, com a alma mais leve. 
O Palio estava estacionado na viela lateral, vermelhinho, todo lindo, que 
delcia!
 Ai, como  bom depois que a gente ora com a Dona Clara, n? 
 comentou Isabela.
 , sim.  respondi eu sentando no banco de passageiros.  
Voc dirige?
 Que milagre! Nen no vai dirigir?
O comentrio era meio por troa, porque normalmente ela dirigia 
mais do que eu.
 T bom, ento! Nen vai dirigir, porque a Gatinha j dirigiu 
muito.  isso a, o Speed vai nessa, ento!
Isabela deu um muxoxo s para provocar-me, de brincadeira.  
Tss,tss... Speed, n?! Hum... pois sim!
 Claro, "M"! Nen  Speed! Eu nunca bati!
  Sorte, pura sorte!  provocou de novo.  Esse seu volante 
agressivo  realmente muito agressivo  e ela queria dizer justamente o 
contrrio.
Eu ria e levava suas indiretas numa boa, aproveitando para 
revidar:
 No sou eu que levo buzinada toda hora. Isabela indignou-se:
 Buzinada?! Quem leva buzinada? Eu??! At parece, coitado...
 Pois , voc passa no farol vermelho, sobe na calada, vira na 
contramo!
 Isso prova como eu dirijo bem.
 T bom, t bom! Voc dirige bem.
Demos a volta no quarteiro e pegamos o rumo da casa de 
Isabela, para irmos almoar.
 Ser que minha me j almoou?  indagou Isabela parada no 
farol.
 Vai ver ainda no, ela sempre come tarde.
 Eu nem avisei que a gente ia, no sabia se ia dar tempo.
Depois de mais uma meia dzia de frases amenas retomei o 
assunto mais importante, aps divagar um pouco em pensamentos.
 Como seria diferente, no, Isabela...? Se houvesse mais 
pessoas na Igreja de Cristo como a Dona Clara... como a Grace?
Isabela deu um longo suspiro.
 , Eduardo. Seria diferente. Mas a Igreja  to dividida...
 O mais incrvel  que aqueles que servem ao diabo so 
capazes de ser unidos, e ns no. A gente no pode esperar muito das 
pessoas.
 Eu sei,  difcil, mas temos de olhar pra Deus.
  difcil olhar para Deus, e ao mesmo tempo constatar tanta 
coisa fora do lugar dentro do Corpo. Triste isso.
Eu estava particularmente frustrado porque at agora no tinha 
conseguido falar com o Pastor Lucas.
Chegamos em casa e Dona Mrcia tinha acabado de almoar 
havia poucos minutos. Estava de sada para ir at o supermercado.
 Tchau pra vocs, estou indo. Isabela, pea que Marina d uma 
esquentada no almoo, eu nem sabia que vocs vinham!
 Tchau!
Isabela encomendou um almoo para ns dois com a Marina, e fez 
festa para o Wolfi, o Gorbie e a Bitinha, que pulavam na porta da 
cozinha.
 Oi, fofitos! Seus coisas lindas!
Eles ficavam sempre na mesma ordem: o Wolfi no meio, a Bitinha 
no canto esquerdo, o Gorbie no canto direito, os trs se espremendo e 
pulando um pouquinho, com aqueles olhares to meigos. Agitavam-se 
para ver quem ganhava mais agrado.
Fui ao banheiro e Isabela ainda estava ali falando com os 
cachorros, quando o telefone tocou. Do banheiro mesmo ouvi-a 
atendendo.
 Al?
 Al?
Do outro lado havia algum, mas o tal algum no falava nada, 
pelo visto.
 Al?
Diante da negativa em obter resposta, Isabela desligou. Algo at 
mesmo natural, quem nunca atendeu ao telefone e a pessoa do outro 
lado no respondeu? Pode ser tanta coisa.
Mas a verdade  que algo me incomodou. A gente j tinha visto 
aquele filme. Mas, ser...?
Abri logo a porta do banheiro a fim de ir  cozinha novamente, e 
dei de cara com Isabela.
 Quem era?
Nossos olhares se cruzaram e havia em ns dois uma impresso 
que preferimos no traduzir em palavras. Ela deu de ombros.
 Ningum.
 Ningum?
 , falei "al", mas ningum respondeu. Vai ver  engano!  Vai 
ver. Foi lavar as mos de cachorro e sentamos para almoar. Quando a 
gente se servia, o telefone tocou de novo. Sem olhar para mim, ela foi 
novamente at a sala.
 Al?
Nada. O episdio se repetiu. E a pessoa no se manifestou.
Isabela sentou outra vez ao meu lado e terminamos de nos servir. 
Marina j no estava na cozinha, ns estvamos sozinhos. Engatamos 
outro assunto, comentando de coisas que deveramos fazer no resto da 
semana.
Passou-se, talvez, um quarto de hora. E novamente o som do 
telefone nos perturbou. Desta vez foi minha vez.
 Deixa tocar, Nen!  retrucou ela rapidamente.  A gente no 
precisa escutar o que eles tm a dizer!
 Acho melhor atender.
Fui at a sala enquanto Isabela ficou sentada, s ouvindo.  Al?
Nossas impresses tinham razo de ser. Logo a voz de Marlon 
veio pelo telefone.
 Filho... eu concordo com voc, a Igreja  mesmo uma instituio 
medocre. So divididos, so podres, e a sua decepo com eles est s 
comeando. Voc vai se decepcionar muito mais ainda. Voc sabe o 
quanto estou ocupado, mas sempre tive tempo para voc. E eu ainda 
tenho tempo pra voc! Voc  especial, tem um enorme potencial que a 
Igreja nunca vai reconhecer. Eles nunca vo ajud-lo. Eu gostaria de 
conversar pessoalmente... voc ainda tem um tempo pra pensar, mas 
no muito. Volte at o seu aniversrio! O tempo  curto. E lembre-se: 
preservar os segredos  preservar a vida... ah! Por sinal... esto 
precisando de um Gerente de Marketing numa excelente multinacional! 
Esse cargo pode ser seu, no precisa ficar perdendo tempo de procurar 
emprego por a. No vou voltar a ligar, espero voc ligar pra mim.
Desliguei o telefone devagar, sem responder palavra alguma. 
Parece at que Marlon tinha estado com a gente no carro. Voltei para a 
cozinha. Isabela terminava sua orao, baixinho... durante os minutos em 
que fiquei no telefone, ela havia ficado orando
 Ai, Senhor meu Deus... protege Teu filho de todo mal, de toda 
artimanha do Inferno, toda a mentira. Fecha o corao dele para todo 
engano, Senhor.... protege a gente, Pai.  e por a afora.
Sentei-me. Isabela me olhava ansiosamente tentando ler meus 
pensamentos e sondar minha reao antes que eu falasse.
 Era ele mesmo.
Ela ficou muda alguns instantes, observando o meu sorriso um 
tanto nervoso. Eu tentava amenizar o desconforto da situao. Por isso 
sorria, embora nada houvesse de engraado naquilo.
Isabela procurou manter-se calma. Aquilo j estava virando rotina.
 Bom... e o que foi desta vez?
Contei tudo. Ela se impressionava como as informaes chegavam 
rpido  Irmandade... quanto tempo fazia aquilo??!
 E comeou direto assim? Logo depois do "al"?
 . Nem se apresentou, nada.
 E era ele mesmo?
 Era. Chamou-me como antigamente, de filho.
 Ahh! Dando uma de bonzinho de novo!
 Pois . Falou que eu sou especial, tenho um grande potencial... 
quer conversar pessoalmente comigo.
 Mas isso  um absurdo, e voc no vai, n, Edu? Voc no vai 
atrs desse cara!
Sorri de novo.
 Claro que no, menina, fica tranqila! Mas no foi s isso.
 E o que mais?
 Eles querem que eu volte at o meu aniversrio...
Isabela deu um leve muxoxo. Nenhum de ns tinha vontade de 
comer.
 Eles vo realmente procurar nos intimidar. Mas ns vamos 
continuar orando. No podem simplesmente obrig-lo a voltar pra l  
continuou Isabela.
 Ele tambm sabe que eu estou procurando emprego...
Suspirei. Quanta coisa d para se dizer num minuto. Isabela 
estava um tanto indignada.
 Puxa, eles sabem tudo da nossa vida! Balancei a cabea, 
assentindo.
 ... eu sei disso.
Difcil descrever a sensao que ficava depois. Uma sensao 
mpar, como se nada daquilo fosse real. Como se nada daquilo estivesse 
realmente acontecendo. Eu at tinha o meu histrico, mas e Isabela!? 
Ela vivia situaes com as quais nunca sonhou, e aquele era somente o 
comeo, eu tinha certeza! Por enquanto... eram s os telefonemas... 
depois, eu sabia... viria todo o resto! Restava saber o que era esse resto.
A verdade  que o caminho seria muito longo.
Eu sabia do que eles eram capazes. A idia de Isabela era bem 
mais turva. Pelo menos naquele momento.
 Vamos comer, vai! O que adianta a gente ficar pensando nisso? 
 tentei animar o clima.
Isabela concordou comigo, embora acrescentasse:
 Sim, mas depois temos de ligar para a Grace e a Dona Clara. 
Precisamos deixar as duas informadas do que est rolando.
Foi exatamente o que fizemos. Mas s conseguimos contatar a 
Grace tarde da noite. Para ns era importante que elas estivessem a par 
de tudo, pois a nossa nica esperana era que nossas oraes 
pudessem fazer aquilo que ns no podamos.
Depois, deixamos o assunto para l.
O que mais havia para ser feito?
* * * *
Captulo 15
As repercusses do Sabbath daquele ano ainda estavam em 
andamento. Apesar de termos orado e procurado nos resguardar 
espiritualmente, eles continuavam fazendo contato e lanando sementes. 
Tanto verbalmente quanto pela manipulao de situaes. O objetivo era 
me enfraquecer, enfraquecer o meu relacionamento com Isabela e 
trazer-me decepes com a Igreja. Para no fim desistir de Cristo e 
retornar  Irmandade.
Isabela s vezes me questionava um pouco:
 Nen, voc acha mesmo que eles querem voc de volta? Pra 
pra pensar... voc consegue imaginar o diabo perdoando algum? O que 
voc fez foi muito srio, abandonou tudo e todos, cuspiu na cara do 
diabo... e agora ele fala manso com voc, te oferece emprego e toda a 
vida que voc tinha, de volta, assim?... Sem mais essa nem aquela?! Por 
pura bondade?!.
 , eu sei. O Marlon falou brando, macio, paternal. Eu sei que 
Lcifer no perdoa mas, por outro lado... eles precisavam de mim.
Ela no entendia isso, nem tinha como:
 Puxa, mas ningum  insubstituvel.
  verdade, mas o diabo no age assim. Quando ele escolhe 
algum h todo um conjunto de condies que precisam ser satisfeitas. 
Especialmente se ele escolheu algum para um ponto estratgico, para 
uma funo importante. Talvez por isso realmente ele at me queira de 
volta. Quer dizer, no haveria tempo pra preparar outra pessoa nas 
mesmas condies, entende?
 Hum. Por isso ele disse que o tempo  curto? Curto pra qu?
 Existe um calendrio que precisa ser cumprido, um cronograma. 
O ano que vem  muito importante.
 Mas por qu? E por que voc era to importante?
Expliquei em poucas palavras, pela primeira vez, o destino que a 
Irmandade me tinha designado. Falei rapidamente dos Trs Ciclos. Sei l 
porque falei, no fazia parte dos meus planos. Agora... j tinha falado! 
Fosse o que Deus quisesse. (Leia Filho do Fogo).
Isabela escutava num misto de espanto e agitao, fazendo 
perguntas vez por outra.
 Meu Deus, Eduardo, mas isso  muito, muito srio! Por que  
que voc no falou nada disso para a Grace? Que voc ia atuar na 
poltica, que fazia parte de uma nata de poucos escolhidos?!
 Ah! No sei. Nen esqueceu! Isabela sorriu.
 Mas que carinha de menininho.
 Nen esqueceu...
 Mas, Nen... claro que a gente tem que falar. Precisamos 
cancelar isso, n? A Ministrao  pra isso. Por isso eles no largam do 
seu p.
 OK! Mas vamos na ordem. Tem outras coisas pra falar antes.
 Eu sei, no deu tempo de ministrar tudo ainda. Mas voc no 
pode esquecer, hein? Isso  muito importante.
A conversa encerrou por a. De repente, to estranho como 
sempre, comeamos a nos desentender por nada. Qualquer casal de 
noivos passa por desentendimentos, por perodos de adaptao. Nada 
disso  o fim do mundo, ns ramos normais, no havia nada de 
diferente. A no ser aquele contexto espiritual todo particular! No fosse 
por isso, tenho certeza que ns dois no teramos passado por aquele 
calvrio todo de discusses.
Quem tinha culpa? Difcil dizer... afinal, os dois tinham culpa: o 
maior problema de Isabela era a dificuldade de conversar, a dificuldade 
de dar o brao a torcer, de abaixar a cabea. E eu no tinha um pingo de 
controle sobre a minha lngua, no auge da irritao ia falando bobagem 
sobre bobagem, o que tornava o dilogo cada vez mais impossvel. Ela ia 
ficando mais e mais calada, e eu mais e mais sem controle da boca.
Mas eu no via dessa maneira naquela poca.
Eu costumava culp-la por nossas brigas, especialmente porque 
tambm me influenciava por todas as vezes em que vi Isabela ser tida 
por culpada dentro da sua prpria casa. Tudo o que eu podia perceber  
que ela estava se comportando comigo da mesma maneira que se 
comportou em casa; sendo to ruim quanto tinha sido ali. Portanto, a 
culpa era dela, no minha. Ento eu falava sem sabedoria, sem ser 
conciliatrio. Quando tentava abra-la, ela me repelia. Estava j muito 
machucada, mas eu no compreendia isso, no enxergava isso. Sua 
reao me deixava mais furioso.
E, calada, Isabela sentia sua ira crescendo como vapor dentro de 
uma panela de presso. Ira idntica  minha. Ela no gostava de perder, 
nem eu. Ao v-la to muda, eu falava mais ainda, tocando  
verbalmente  em pontos sensveis da sua alma, pontos nevrlgicos. Eu 
no tinha idia se isso doa, ou no... eu s queria que ela percebesse o 
quanto estava errada! Eu me sentia agredido, e revidava com mais 
agresso... muita agresso!
Finalmente, quando ela explodia, explodia pra valer: gritava, 
chorava, dava o maior escndalo. Como eu odiava isso!
Aquele nosso descontrole emocional podia durar horas. Era 
impressionante o desenrolar daquelas discusses.
Naquela noite, infelizmente, no foi diferente. Ah! Ns no 
sabamos quanto ainda iramos sofrer com aquele problema... e que 
preo to alto seria pago para comear a solucion-lo, simplesmente 
comear.
Ento, se por um lado a nossa carnalidade, o nosso ego, as feridas 
da alma, as inclinaes da personalidade etc. .. etc. .. eram as "culpadas" 
por esses episdios, por um outro lado havia outro inimigo. Um inimigo 
que sabia potencializar tudo aquilo.
To inclementes quando a nossa prpria alma, mas certamente 
muito mais vorazes do que ela, os demnios  nossa volta sabiam usar 
bem das podrides humanas. Oh! sim, como sabiam! E divertiam-se s 
nossas custas.
A culpa no era somente deles, nem somente nossa. Mas a 
estava uma deliciosa associao para agradar o Inferno: carnalidade 
associada  ao de espritos imundos.
A briga comeou em casa de Dona Mrcia, l pelas sete e meia da 
noite, trs dias depois do telefonema de Marlon. Tudo aconteceu como 
os demnios esperavam, porque depois de apimentarmos mutuamente 
as nossas mentes a ponto de nos descontrolarmos por completo, no 
havamos ainda chegado a nenhuma concluso.
 Bom, pelo visto voc no quer conversar, n? Ento chega... eu 
vou indo. V se discute com as paredes agora. Eu preciso de sossego, 
de paz  vociferei.
Fui at a porta. Ela no se mexia. Antes de sair ainda me virei de 
novo para ela. No dava para acreditar naquilo, que uma pessoa adulta 
no se dispusesse a conversar.
 No vai falar, hein?  lancei novamente, em tom de voz 
agressivo.
Ela no me respondeu. Apenas lanou mais um olhar furioso na 
minha direo. Sabia que meu prximo passo era pegar o nibus e ir pra 
casa, mas ficou sentada na ponta do sof. Harpa, a gata siamesa, olhava 
para ns como se nada acontecesse. Isabela chacoalhava a perna 
cruzada numa atitude hostil, irritadssima. Virei as costas e sa.
Para entender melhor o desenrolar dessa situao,  preciso 
entender como Isabela estava pensando. Eu fui embora, me sentindo 
coberto de razo e sem peso na conscincia. E ela ficou em casa, 
pensando o que eu nem suspeitava:
"Como  que ele tem a capacidade de se comportar assim? Como 
tem coragem de me falar esse monte de barbaridades?!?"
Quanto mais ela pensava, mais nervosa ficava. A mente j estava 
enevoada pela raiva.
"Como ele pode me tratar to mal, justo eu, que estou sempre do 
lado dele! Como pode me apunhalar tanto?? Eu tenho a minha parcela 
de culpa, mas no  toda minha... o Eduardo tambm tem a sua culpa 
em cada uma dessas discusses! Nada justifica tudo isso. Sim, 
certamente ele acha que pode me virar as costas e ir embora como se 
nada fosse! Agora ele chega em casa, toma banho e vai dormir, e eu fico 
aqui, me atormentando at sei l que horas. J disse mil vezes que 
deixar essas coisas pendentes pro dia seguinte  a pior coisa. Amanh 
eu vou estar pior ainda, com mais raiva, sem ter dormido direito!  muito 
fcil virar as costas".
Eu teria dito: "Voc  que no quis conversar"; e Isabela 
responderia que:
"No conversei porque voc foi agressivo, grosso, me tratou muito 
mal."
Ah! Se ns dois tivssemos tido mais sabedoria naqueles 
momentos! Do meu lado, bastaria abrandar a voz, mudar o discurso, 
tratar com amor, no me vingar, no acusar... e ela, se conseguisse 
simplesmente esquecer as minhas palavras, deixar por menos aquilo que 
falei no momento da raiva, esfriar a cabea, esperar pelo dia seguinte, 
no gritar...
Mas era impossvel.
O fato de sentir-me extremamente magoado transformava-me 
quase em algum irracional. Isabela tambm perdia o controle, chegava 
um certo ponto em que ela j no era mais capaz de medir 
conseqncias.
L na sala da sua casa, Isabela pensava:
"Eduardo acha que s ele pode revidar! Pois ele vai ver s..."
A essa altura, eu j estava dentro do nibus que tinha passado 
assim que coloquei os ps no ponto. Percebi que Isabela no tinha nem 
aparecido no jardim. Dali, esticando o pescoo, ela podia enxergar ao 
longe, na avenida, o ponto de nibus aonde eu deveria estar parado. Ela 
no apareceu, e mesmo se aparecesse, agora j estava a caminho da 
minha casa! Ela realmente acabou levantando do sof, abriu a porta da 
rua e desceu os degraus at o portozinho do jardim.
Mas, nada de mim! Eu j estava longe!
Isso irritou Isabela ainda mais.
"Que desfaatez!!!"
Quando cheguei em casa, Isabela j estava l. Tinha estacionado 
o carro a alguns metros de distncia do meu porto, para no ficar 
exatamente na frente da janela que dava para a rua. Ela estava parada, 
s esperando. Certamente me viu pelo espelho retrovisor quando virei a 
esquina.
Eu tinha me acalmado um pouco durante a viagem de nibus, mas 
novamente me irritei ao v-la. Fui em direo ao carro, mas meu 
semblante continuava duro e minha voz spera.
Claro que no ia dar para sair nenhuma conversa. Talvez Isabela 
quisesse se acertar, mas no conseguia agir diferente, eu tambm no 
colaborava. J tinha ultrapassado minha capacidade de colaborar!
As minhas primeiras frases desagradveis e agulhadas puseram 
Isabela louca de raiva novamente.
 Como  que voc tem coragem, meu Deus? Voc sabe o 
quanto tudo isso me machuca, mas no pensa em nada, s em voc 
mesmo! Que te importa a minha tristeza? Que te importa se eu tivesse 
batido o carro, dirigindo de qualquer jeito at aqui? No pensei duas 
vezes, entrei furiosa dentro de casa e peguei a chave do carro. Entrei no 
Palio e dei r  toda, sa cantando o pneu. Voc no est nem a comigo!
 Se voc quer se matar, eu que tenho culpa?!
Isabela falava cada vez mais alto, e eu no tinha mais cabea. 
Continuei revidando com agressividade,  altura. Nem me recordo direito, 
mas acho que ela me deu uns tapas no brao e na perna, de puro 
desespero com a situao. Claro que no doeu, mas eu no podia ser 
tocado. Aquilo detonava dentro de mim um estopim indescritvel de 
violncia. Despertava os mesmos instintos da poca da "29".
Embora Deus j tivesse tratado muita coisa... e estava tratando... 
muita coisa ainda permanecia viva.
Dessa vez Isabela ia ver com quem estava lidando. Acho que foi a 
primeira vez que realmente perdi o controle da situao e de mim 
mesmo, desde que estvamos namorando.
 Vai embora daqui antes que acontea algo srio!!!
Bati a porta do carro, entrei em casa. Eu estava cego de raiva, j 
conhecia aquela sensao. Naquele estado eu era capaz de fazer 
qualquer coisa!
Da pra frente, lembro-me de pouca coisa. A noite terminou nesse 
ponto para mim, a prxima lembrana que tenho  da manh seguinte. 
Eu lembrava da briga, de ter entrado em casa, e... mais nada!
Dormi e acordei com dor de cabea. Acordei cedinho por causa da 
claridade que entrava pela janela da sala, aberta. Nem parei para pensar 
porque estava dormindo na sala. S me dava conta da dor de cabea. 
No era nada demais ter dormido na sala, antigamente isso acontecia s 
vezes.
Ento fui pra cima terminar de dormir na cama. Mais tarde, quando 
acordei, ainda na cama, no entendi porque estava dormindo de tnis...
No pude conter um sorriso de desconsolo: "Nossa, ser que eu 
estava to cansado assim ontem?"
Foi a que percebi que estava sem a minha aliana. Era meu 
hbito sempre dar uma rolada nela, costumava rol-la no dedo; por isso 
percebi logo que estava sem ela. A primeira coisa que fiz foi descer para 
procurar. Eu me lembrava de ter brigado com Isabela... mas at a... o 
que isso tinha a ver com a minha aliana?
Foi ento que me lembrei vagamente de ter tirado a aliana do 
dedo e jogado longe. Tinha escutado at o "plim". Sa na rua, olhei na 
calada... fui at l embaixo olhando com todo cuidado. Fiquei morrendo 
de raiva, vai ver algum j tinha achado. Achar uma aliana assim, de 
ouro, de brinde...
"Que droga!!"
Entrei irritado em casa, e minha me veio perguntar se estava tudo 
bem.
 Vocs brigaram ontem, n?  j foi ela dizendo. Eu nem falei 
nada, s comentei da aliana.
 Acho que perdi minha aliana. Voc no a viu por a?
 No vi, no!  e ela, com seu tpico "otimismo", j veio 
completando:  A essa altura algum j deve ter pegado. Vocs se 
acertaram?
 Como assim, "se acertaram"? Eu a mandei embora para casa, 
acho que voc se lembra, no?
 Mas imagina s! Ela entrou, ficou com voc um tempo! Levei 
at um choque, eu no lembrava; ento desconversei de novo com a 
histria da aliana.
 Voc no viu mesmo a minha aliana?
 No vi. E se eu fosse voc no ia mais gastar dinheiro com 
aliana, agora fica assim mesmo... ela com aliana e voc sem.
Fui tomar banho, encafifado com tudo aquilo. Era sbado, e no 
final da manh, Isabela me telefonou. Eu estava arredio e rebelde, bravo 
com ela. Por culpa dela eu tinha perdido a aliana. Mas ela estava 
plcida.
 Voc est melhor?  indagou Isabela.
 Estou.
 Passou aquela sensao ruim?
 Que sensao ruim!
 Aquilo que voc estava sentindo ontem, depois que entramos 
na sala... Fiquei cabreiro de novo.                                                                       
'
 Voc entrou aqui ontem?
Foi a vez de Isabela se espantar:
 Entrei, entrei sim... fiquei com voc um tempo, orei por voc... 
 seu tom de voz foi de incredulidade.  Voc no se lembra?
Eu no queria admitir que no me lembrava, ento respondi com 
evasivas.
 Lembro mais ou menos.
Isabela deve ter ficado desconfiada, ento perguntou de novo:
 Voc no se lembra do que me disse?
 Claro que eu lembro... disse para voc ir embora para casa!  
respondi com maus modos.
 Sei. Mas no  disso que estou falando. E depois? Voc no 
lembra do que falou depois?
 No lembro. Pra mim voc foi embora pra casa e eu fui dormir! 
Naturalmente Isabela deve ter percebido que havia uma lacuna em 
minha mente sobre o que havia ocorrido. Ela foi prudente em no me 
adiantar o assunto pelo telefone. Ento, se despediu com cuidado:
 A gente conversa melhor pessoalmente... daqui a pouco eu 
estou a, t bom? A gente pode tomar um capuccino no Fran's.
Apesar do meu mau humor, concordei.
Ela nem precisou buzinar, eu ouvi o motor do Palio e sa. Fomos 
para o Fran's, que era bem pertinho. Eu deixei que ela entrasse no 
assunto devagar, s esperei. No falei muito, porque no sabia o que 
falar.
Na verdade, eu no estava muito disposto a conversar, acertar. Eu 
tinha a sensao de que Isabela estava me atrapalhando.
Mesmo assim, aos poucos, ela foi conversando comigo. Muito 
sutilmente procurou perceber o que eu realmente recordava. Seu rosto 
parecia bastante preocupado ao perceber que eu no sabia do que ela 
estava falando.
 Ento voc se lembra de ter entrado em casa, e...
 A eu dormi...  declarei.  Dormi e acordei com dor de 
cabea. Ela falou brandamente:
 No. No foi s isso.
 O que aconteceu, ento?  j estava amuado. Ela foi falando 
aos poucos.
Senti atordoado em ter-me olvidado de boa parte da noite anterior. 
s vezes, de acordo com o que Isabela falava, alguma coisa parece que 
me brotava na mente. Com olhar distante, eu fazia fora para relembrar.
Ficamos os dois quietos um pouco. Meu capuccino jazia esquecido 
 minha frente. Isabela bebeu mais um pouco do seu.
Fiquei bastante chateado com o que ela foi me contando. Tempos 
mais tarde admitiria o meu prprio questionamento naquele instante: 
dvidas sobre dvidas! Claro que eu no era de ferro, toda a conjuntura 
desde que aquela carta da Irmandade tinha me chegado s mos fazia 
pensar. Eu queria servir a Deus, sabia que devia seguir a Cristo.
Por outro lado, sentia-se s e sem amigos. Isabela era especial, e 
minha melhor amiga... mas a briga da noite anterior me fez questionar se 
esse era de fato o caminho certo. Marlon falava que eu estava errado, 
Zrdico tambm... diziam que Isabela ia me destruir... que ningum ia me 
dar ateno, inclusive meu pastor...
Naquele momento me senti dividido, confuso. Praticamente tudo o 
que eles me diziam estava acontecendo. Ser mesmo que a doutrina da 
Irmandade no tinha nenhuma razo de ser?
Ouvir a voz de Marlon mexia no meu ntimo. Chacoalhei a cabea 
para no pensar, sentia-me massacrado na alma. Embora eu quisesse 
estar com Cristo, s vezes parecia que dar um passo ao Seu lado 
custava um preo enorme.
Por outro lado, embora eu amasse Isabela e nunca tivesse 
pensado em desistir do nosso relacionamento... que j durava quase trs 
anos... brigas assim me desgastavam. Claro que de forma diferente ns 
dois nos sentamos desgastados. Mas era mais fcil eu me preocupar 
apenas comigo mesmo. No parava muito pra pensar se ela estava 
sofrendo, ou no. Era mais fcil olhar para o meu prprio sofrimento, e 
apenas isso. No entendia seu jeito de pensar, de agir e reagir. Era mais 
fcil simplesmente crer que eu estava com a razo.
Eu no sabia, mas a Irmandade tinha como me manipular a 
distncia. Eles ainda podiam fazer isso, mesmo que eu no soubesse. 
Havia coisas no tratadas dentro de mim.
Mas naquela hora Isabela no estava preocupada em discutir 
quem tinha razo. Ela estava preocupada comigo.
 Depois que voc me mandou embora a primeira vez, entrou de 
novo em casa, lembra? Eu fiquei sem saber o que fazer, fiquei meio 
paralisada e s perguntei: "Meu Deus, o que eu fao???" Bem baixinho, 
pra mim mesma. Assim que voc entrou, sua me saiu, nem sei por que, 
pois ela no  de muita conversa comigo. Ela havia percebido a briga e 
comentou que voc s estava nervoso, mas que ia passar. Eu no sabia 
o que dizer, nem ia falar nada com ela. Mas no deu tempo. Voc 
apareceu no porto outra vez, furioso, veio em direo ao carro e deu um 
murro no vidro, berrando: "Vai embora daqui! Eu no quero mais ver a 
sua cara!!"
 Eu falei isso?
 Falou.  Isabela estava meio passada.  At sua me 
estranhou o seu jeito, gritou tambm alguma coisa, algo do tipo: 
"Eduardo! Que que  isso?" Mas voc ignorou totalmente, e eu estava 
meio petrificada pra olhar pra ela ou dizer qualquer coisa. Olha... voc 
estava esquisito, alucinado. Foi a que tirou do dedo a aliana, e olhou 
pra mim com tanto dio... "T vendo isso aqui? Eu no quero mais saber 
disso!!". Eu s conseguia olhar para os seus olhos, nem deu pra falar 
nada... nessa altura estava mais preocupada com voc do que comigo 
mesma. A voc berrou de novo: "E v se voc vai embora daqui!"
Eu me esforava sobremaneira para recordar de qualquer um 
daqueles detalhes.
 Eu me lembro vagamente de ter tirado a aliana e jogado 
longe... mas tudo isso a que voc est falando... realmente apagou da 
minha lembrana.
Isabela continuou a narrativa com semblante srio.
 J nem lembrava da briga, j nem tinha mais importncia. Ver 
voc naquele estado fez com que o sentimento de raiva do meu corao 
mudasse na mesma hora para preocupao. Fiquei muito nervosa, e 
imaginava, atropelando os pensamentos, o que deveria fazer. Eu no vi 
se voc tinha mesmo jogado a aliana, deu a impresso que sim, mas 
naquela hora no era bem o momento de pensar nisso.
A expresso do seu rosto me fez imaginar o quanto seu corao 
teria diminudo, de pura dor com aquele meu gesto de desprezo.
 Da... foi mais terrvel ainda: com muito dio, Nen... voc 
estava com muito dio. Chegou perto da janela do carro e falou alto uma 
frase de Encantamento. No sei se d pra voc imaginar como eu fiquei. 
Fiquei enregelada, bvio que aquilo era um Encantamento! Aquela frase 
no tinha sido dita em portugus. Como era possvel estar acontecendo 
uma coisa daquelas?! Em seguida voc fez o gesto do Pentagrama no ar 
e empurrou na minha direo.
 No acredito... no  possvel que eu fiz isso!
 Eduardo, voc estava completamente fora de si... o que mais eu 
ia pensar? Enquanto voc voltava pra dentro de casa, por mais que 
estivesse assustada,  lgico que eu no podia ir embora e deixar voc 
daquele jeito! Fiquei mesmo muito preocupada com voc. Tive medo de 
entrar, medo do que podia acontecer... mas no podia deix-lo sozinho. 
Sa do carro, fechei a porta... sua me ainda perguntou se eu ia mesmo 
entrar. Respondi que sim, respondi com calma, procurando no deixar 
transparecer o meu temor. Eu estava completamente mudo diante 
daquilo.
 Entrei na sala meio assustada, no tinha mais ningum na sua 
casa, alm da sua me. Pelo que me pareceu, pelo menos. E voc 
estava realmente enraivecido, sentado no sof, quando olhei parecia que 
toda a sua musculatura estava tensa, retesada, e a sua cabea estava 
meio abaixada, de forma que eu no conseguia ver seus olhos. Assim 
que me viu parada ali, voc levantou e bateu a porta da rua, super 
violento, e falou um palavro. Sua me, que tinha entrado atrs de mim, 
j gritou de novo perguntando se voc estava ficando louco! Nessa hora 
voc deu um urro: "V se me deixa em paz! Que encheo de saco!!"
 Puxa.....eu no me lembro disso...
 Eu s fiquei observando um pouco, orando pra mim mesma, 
procurando compreender o que estava acontecendo. Realmente... voc 
no estava normal. Ento falei pra sua me que era melhor se a gente 
pudesse conversar um pouco. Acho que ele entendeu e nos deixou 
sozinhos na sala. Mas voc estava de um jeito... estremecia um pouco, 
encolhia as mos e os ps, se remexia todo. Assim que sua me saiu da 
sala, meio espavorida at, por causa de toda aquela ira, voc continuou 
gritando, me mandando embora. E continuava falando aquelas coisas, 
aqueles Encantamentos. No meio disso tudo, voc comeou a invocar a 
presena de entidades... senti meu corao gelar de medo, fiquei quase 
em pnico. No sabia o que fazer!
  No  possvel que fiz isso...  no lembrava de ter falado 
nenhum Encantamento.  Eu falei Encantamentos?!!
 Falou, Nen.... voc falou! A gente precisa quebrar isso agora. 
O que ser que era aquilo que voc falou? Meu Deus do cu!  Isabela 
punha a mo na cabea.  Que coisa terrvel! Era alguma coisa que 
termina em "...."  repetiu umas trs slabas que tinham ficado 
arquivadas em sua mente.
Mudei a expresso do rosto e soube imediatamente do que se 
tratava.  Huummm...
 Fez, sim... e eu s continuei orando, meu Deus do cu, nos 
ajuda, que Deus nos ajude! Falava pra Deus no deixar aquilo acontecer. 
Voc mesmo estava dando abertura para os demnios! Fui orando e me 
aproximando, procurei sentar ao seu lado no sof. Acho que voc nem 
via que eu estava ali, s ficava falando aquela coisa horrvel: "Vem, que 
eu estou aqui!" Por isso que eu digo que voc estava completamente fora 
de si, obviamente s podia estar, pra chamar os demnios.
 E da?
 Comecei a chorar e instintivamente fui orando em lnguas, 
minha mente se recusava a raciocinar. No que voc estivesse 
endemoninhado, nem poderia estar, depois das Ministraes, das 
renncias. Mas entendi que o seu descontrole emocional estava sendo 
potencializado por alguma entidade, certamente. Na verdade, acho que 
foi justamente essa ira, esse descontrole, que abriu a porta para eles 
atuarem...
 Eu mudei a voz? Ou o rosto?  perguntei, estarrecido.
 No... o tempo todo foi sua voz mesmo, mas voc estava 
agitado, seu corpo parecia estar agitado. Eu no podia ver, nem sentir 
nada, mas certamente os demnios estavam ali, n? Eu s perguntava: 
"Meu Deus, o que eu devo fazer?!"
 O que voc fez?
  Bom, no parei muito pra pensar, numa situao como aquela, 
nova, estranha... eu sentia medo e preocupao por sua causa! Tudo 
que pude fazer foi ficar orando baixinho ao seu lado. Mas no passaram 
muitos minutos e voc tornou a reclamar, desta vez com a voz um pouco 
pastosa... como se tivesse bebido, sabe? E voc insistia em dizer alguma 
coisa do tipo: "Voc est me atrapalhando! J disse pra ir embora daqui! 
Vai embora daqui!" Voc estava encurvado, encolhido... nem liguei para 
aquilo que voc estava dizendo, era bom se eu realmente pudesse 
atrapalhar aquela sua comunicao com as Trevas. Meu sangue gelava 
cada vez que escutava as palavras de Encantamento que saam de sua 
boca, afinal era isso que os demnios queriam: uma legalidade 
confessada, assumida. Pouco importava se o descontrole humano o 
tinha despejado bem no meio daquela crise. Os demnios queriam uma 
palavra proferida. Eu sabia que era isto voc estava fazendo! Mas quem 
sabe minha presena podia "atrapalhar" alguma coisa, podia mudar 
alguma coisa. Toda hora tentava ver o seu rosto, mas voc mantinha os 
olhos baixos. Sua respirao estava profunda e um pouco ruidosa. Optei 
por defend-lo, custasse o que custasse. Nem pensei muito, estendi a 
mo nas suas costas, sem tocar, e mesmo sentada ali do seu lado no 
sof, comecei a resistir quele ataque. As palavras exatas  claro que 
no vou saber, nada que tenha pensado antes, nenhuma frase bonita... 
ensaiada! Simplesmente vomitei o meu mais ardente pedido, o que 
expressava a angstia da minha alma naquele momento super estranho. 
Inquietante. O mais incrvel foi que assim que eu disse aquela primeira 
frase de resistncia, seu corpo caiu pra frente, a cabea foi parar no meio 
dos joelhos, a respirao relaxou, os seus braos caram ao longo do 
corpo, tudo mole! No sei se d pra voc imaginar como eu me sentia... 
que situao mais desesperadora!  bvio que os demnios deviam 
estar ali, voc tinha chamado... mas Deus era o nico que podia impedir 
que aquilo fosse adiante. Assim que voc despencou continuei s 
impondo as mos, orando conforme me vinha na cabea: para Deus 
cobrir voc com o sangue do Cordeiro... todo o corpo, a alma e o esprito. 
Que Deus refreasse toda investida, que o revestisse com a armadura, 
com toda a armadura! Fui citando pea por pea  medida que, com as 
mos, simbolicamente eu ia ajustando no seu corpo. Pedia pro Senhor 
queimar todo o mal que foi feito, acabar com todo Feitio e 
Encantamento, ah! Sei l o que mais! S sei que fui orando, orando... 
estava ainda assustada, acho que depois fiquei ainda orando em lnguas, 
passando a mo pela sua cabea, pelas costas... nem sei mais! Parece 
que essas coisas desaparecem da mente...
Eu continuei quieto, bebendo meu capuccino devagar.
 A tentei ento erguer sua cabea. Mas ela rolava de um lado 
pro outro. Fui chamando: "Nen? Nen?!" E voc s resmungava. Eu 
continuei tentando: "Eduardo, levanta! T tudo bem?". Empurrei seus 
ombros para trs, a cabea veio junto. Voc parecia bbado mesmo, a 
reclamava da luz: "Est muito forte essa luz... apaga essa luz!". S que 
agora, apesar daquela moleza toda, era voc mesmo! No estava mais 
com toda aquela ira, s tentava encobrir o rosto. E enfiou a cabea no 
meio das pernas de novo. Eu no sabia o que fazer, ento falei, te 
explicando: "S est acesa a luz da sala, olha bem".
 Agora que voc est falando... eu me lembro disso... me lembro 
dessa luz forte, que me ofuscava. Chegou a doer na vista! Bem forte... 
bem forte... parecia que queimava a minha vista.
 Vai ver era a luz de um anjo, n?
Isabela continuou contando. Eu no lembrava das oraes, nem 
de ter ficado bobo como algum bbado.
 Eu vi que voc meio que se esforava pra olhar, mas 
continuava reclamando da intensidade da luz. Dentro de mim eu achava 
que voc devia estar enxergando outra luz. Procurei manter a calma e fui 
conversando brandamente com voc. Reparei que seus olhos estavam 
muito vermelhos, irritados, at meio inchados. Orei pouco mais em 
lnguas, toda hora eu parava e o chamava de novo: "Nen?! T tudo 
bem?" A voc comeou a me responder, mas dizia que estava com dor 
de cabea. Com dor de estmago tambm. E se contorcia apertando a 
barriga! Era to claro aquele ataque demonaco! Mas parecia que o pior 
j tinha passado, porque voc j estava mais calmo. J era bem tarde, 
Eduardo, quase uma hora da manh! Eu nem tinha visto o tempo passar, 
me sentia exausta, esgotada. Mas no tinha paz ainda com o estado das 
coisas. No podia larg-lo enquanto no tivesse certeza de que voc 
estava bem. Como voc estava completamente sem fora, ficou largado 
no sof, quieto. Achei melhor ligar para Dona Clara. Toquei at que 
algum atendesse.
 Voc ligou para a Dona Clara?!  Ento ela est sabendo disso?
 Claro, n, Eduardo? Eu estava preocupada com voc, no? 
Afinal, voc estava jogado no cho da sala sem falar coisa com coisa. Eu 
no sabia o que fazer, as coisas pareciam estar mais calmas, mas achei 
melhor orar em concordncia com algum. Na verdade foi o seu Benito 
quem atendeu. Pedi desculpas pelo horrio, que mais podia fazer? E 
pedi pra falar com Dona Clara! Sempre de olho em voc... coitados! Eles 
j estavam dormindo!    .
At fiz uma careta. Que situao desastrosa! Que 
constrangimento!
 E que foi que ela disse? Achou tudo isso um horror?!
 No... fica tranqilo! Eu expliquei, me desculpei... est tudo 
bem. Comecei at pelas desculpas.
 Ela no ficou brava?
 Ela entendeu que era uma emergncia. Disse que "Tudo bem". 
Tentei explicar em poucas palavras o que estava acontecendo. E a 
contei que voc estava ali, meio esquisito, no sabia dizer se estava 
dormindo ou no. Mas que no tinha motivos pra voc apagar assim. 
Que eu estava assustada... enfim... pedi que ela orasse comigo! Ela 
orou...
Eu continuava quieto, pesando a situao.
 E ento?
 Ela s orou comigo, oramos por voc, que Deus o protegesse, 
fortalecesse. Que as armadilhas do diabo fossem canceladas. Que voc 
ficasse bem... essas coisas. Mas, olha... agora t tudo bem. J passou.
 Foi s isso?  quis novamente saber Eduardo..
 Eu concordava com a orao dela, mas sempre prestando 
ateno em voc. Da, a coisa mais estranha: de repente voc me 
levanta do sof, apaga ostensivamente a luz da sala e se encolhe no 
cho. Ai! Que coisa horrvel!
Isabela at parou um pouco para tomar flego.
 Quando a escurido tomou conta da sala fiquei novamente 
assustada. At segurava o telefone com mais fora, tinha receio que 
voc me fizesse alguma coisa, sei l! Mas continuei orando. A 
luminosidade que vinha da rua fez com que a gente no ficasse 
totalmente no escuro, e logo minha vista se acostumou. Como voc 
estava deitado, quieto, vi que no era assim to terrvel. Terminamos 
nossa orao e Dona Clara foi se despedindo. Afinal, o que havia para 
ser feito j estava feito. Mesmo antes de telefonar, aquela fria sua j 
estava abrandada. A orao em concordncia serviu para me tranqilizar 
um pouco mais. Parece que o ataque tinha passado, pelo menos o pior. 
Mas emocionalmente eu estava bastante abalada e continuava 
preocupada. Voc no estava fingindo! Realmente tinha acontecido algo 
muito estranho!... fui acender a luz do hall de entrada para que a sala 
ficasse um pouco mais clara, indiretamente. Ento sentei no sof e fiquei 
observando, era impensvel ir embora, n? Voc dava umas risadas de 
vez em quando, bobo de tudo, Eduardo....
 Caramba, no d nem para imaginar isso.
 No meio daquele torpor todo voc reclamou algumas vezes que 
seus olhos estavam doendo. Eu fiquei sentada no cho, do seu lado, e 
dizia que j ia passar... aquele tipo de coisa que se diz para os pacientes. 
Ento resolvi buscar um pouco de gua para voc, fui at a cozinha e 
trouxe. Agachei no cho e tratei de fazer com que voc levantasse e 
bebesse, fui pegando as suas mos, puxando-o pelos braos. "Levanta 
desse cho, vai, Nen...", tive de falar vrias vezes! Eu estava muito 
chateada com aquela situao, no sabia o que mais poderia fazer pra 
que voc melhorasse. Insisti que voc tomasse um pouquinho de gua, 
que ia fazer voc se sentir melhor! Foi s a que voc sentou no cho, 
olhou pro copo... e no quis: "No, eu no quero gua". E a, de novo 
ficou com bobeira, voc colocava a mo estendida sobre a borda do 
copo, com aquele sorriso abobalhado no rosto.
Vi que realmente seus olhos continuavam avermelhados, irritados, 
como quem tem alergia a cloro de piscina. Mais ou menos daquele jeito. 
E ento voc diz: "Bebe voc a gua!" D pra acreditar, Eduardo?
  Se voc est dizendo... eu realmente no me lembro. E eu bebi 
a gua?
  Finalmente! Tomou um gole, mas da fez uma careta, e no 
quis mais beber. Disse que estava com gosto ruim. Deixei o copo de 
lado. Faltava fazer mais uma coisa, e fui mais incisiva: "Nen, vamos orar 
um pouco?" Nada de resposta. Voc no parecia muito disposto, nem em 
condies. Mas insisti. Falei que ia orar e voc repetia o que eu dissesse. 
Voc fez que sim ento eu fiz uma orao rpida, com poucas frases. 
Aquilo talvez fosse o mais necessrio. Pedimos perdo pelos nossos 
erros e afirmamos aliana com Jesus novamente. Fui falando o que 
achei fundamental, depois do que tinha visto acontecer. Orei pra que 
voc confessasse Jesus novamente. Voc repetia com voz mole, 
entrecortada. Aquilo j devia ser o suficiente. Ento voc levantou do 
cho sozinho, deitou no sof e dormiu imediatamente. Eu sentei na 
poltrona ao lado, de olho no relgio. Ainda orei por voc um pouco, pedi 
a proteo dos anjos e das muralhas de fogo de Deus. Observei durante 
um tempo, mesmo na penumbra da sala. Quando voc comeou a 
roncar, achei que poderia ir embora. Peguei o carro e voltei pra casa, 
ainda apreensiva. Intercedi um pouco mais. Eram quase trs horas da 
manh quando cheguei em casa. Claro que dormi mal e muito pouco. Foi 
uma noite de co!
Era difcil descrever as sensaes que nos invadiam a alma. No 
era pnico, nem desespero. Mas ficava uma desagradvel mistura de 
desconforto, de temor, de incredulidade pelo que estava acontecendo. 
Para dizer a verdade, ns nem sabamos direito o que tinha acontecido. 
Agora, era resolver as conseqncias.
  Acho que me lembro tambm dessa histria de voc me trazer 
um copo d'gua...
 Tadinho!... Por que voc no quis beber?
 No sei...  sacudi a cabea de leve.  Parece que tinha um 
vulto ali. Quando olhei, vi no hall esse vulto, atrs de voc.
 Atrs de mim? Um vulto? Ser? Devia ser um demnio, afinal 
voc ficou chamando por eles...
Mas eu estava amuado. No me sentia disposto a melhorar. 
Isabela tentou me animar durante um tempo, mas tambm tinha 
limitaes. Seu corao tambm estava magoado, e comeou a perceber 
que dali pra frente acabaria por se irritar com aquela atitude hostil e 
pouco convidativa da minha parte, e que eu tambm no conseguia 
mudar.
Estvamos j nos levantando para ir, paguei a conta e amos 
pegar o carro parado na esquina. Ento demos de cara com Marco.
  Oi!  falou Marco.  Como  que t?  ele olhava para mim 
com ar ligeiramente indagador, preocupado.
 E a, Marco?  respondi, apertando-lhe a mo.
Isabela havia comentado com Marco sobre o ocorrido um pouco 
antes de sair de casa. Eu nem sabia disso, mas ela, ao sair, comentou 
que estava vindo conversar comigo. E pediu que ele orasse.
Marco tinha ficado sinceramente preocupado e perguntou a ela:
 Mas ele no est pensando em voltar pra l, no ?
Isabela nem sabia o que dizer, conforme me contou depois... s 
sacudiu um pouco a cabea, suspirou fundo.
 No sei.
Ele ficou realmente preocupado, acabou largando os estudos para 
vir atrs da gente. E agora estava ali, na nossa frente.
 Como  que voc achou a gente?  perguntei. At ento no 
sabia que ele tinha vindo por minha causa.
 Bom, a Isabela falou que vinha pra sua casa. Eu tentei estudar, 
mas no estava conseguindo. Ento liguei pra sua casa, sua me disse 
que vocs tinham sado. Supus que talvez estivessem aqui. Vocs esto 
sempre aqui no Fran's!
 . Adivinhou bem.  comentou Isabela, sem ter mais nada para 
dizer. Marco era muito espontneo. Ele certamente percebeu que ns 
ainda no tnhamos conseguido nos entender. Naquele dia a chegada 
dele, de ltima hora, nos ajudou muito. Sabe-se l o que poderia 
acontecer no restante do dia... Marco foi entrando:
 Vocs j vo? J est tudo bem?
 No, no est, no.  e Isabela no se fez de rogada.
Sentamos de novo os trs. Eu no sabia o que pensar daquela 
situao, mas Marco estava sendo simptico. Fui logo perguntando se 
ele queria um caf ou um refrigerante.
  No. No vim aqui pra isso. Na verdade, vim aqui pra falar com 
voc, Eduardo.
Marco falou claramente, ento no fiz de conta que no sabia do 
que se tratava. Fiquei quieto e escutei. Sua atitude estava sendo sincera, 
ento me dispus a ouvir. Isabela ficou calada, cansada e sem ter mais o 
que falar. Talvez ela visse no meu semblante que as palavras de seu 
irmo, e sua atitude em correr atrs de ns, estavam sendo benficas.
Eu no tinha muitas pessoas que se preocupavam realmente 
comigo a ponto de deixar afazeres importantes. O nico que fazia isso, 
antigamente, era Marlon. Mas naquela tarde vi em Marco uma 
considerao verdadeira, uma vontade genuna de me ajudar.
E foi o que terminou de destravar aquela baguna.
Marco no falou muito, usou um exemplo simples de uma 
historinha infantil. A do Chapeuzinho Vermelho, que desobedeceu a 
recomendao da me e saiu da estrada, pegou o atalho pela floresta. 
Desobedecendo, foi enganada pelo lobo, e se deu mal.
Era fcil entender a analogia.
 Em outras palavras, estou incentivando-o a no sair da estrada, 
a no desobedecer a voz de Deus. O "atalho" pode parecer mais fcil, 
mais rpido. O caminho da floresta  mais fresco, mais agradvel. Mas, 
no fim, voc acaba ficando  merc do lobo, e o lobo mostra a sua 
verdadeira cara. E vai destru-lo. Voc entende o que eu quero dizer?
Eu me sentia mais leve, mais quebrantado. Parecia pouco a pouco 
voltar  realidade. Compreendia muito bem.
 Fica firme!  Marco deu uma leve batida no meu ombro.
Todos ns nos levantamos e nos despedimos dele.
 Obrigado, hein, Marco... pela sua disposio!
 No tem problema. Voc estava precisando!
Comeava a garoar um pouquinho, apesar do calor. Faltava pouco 
mais de um ms para o incio do vero.
 Tchau!  acenamos para ele, que deu a volta com o fusquinha, 
pronto para voltar ao seu estudo.
Isabela estava imensamente aliviada porque agora eu parecia 
voltar a ser eu mesmo. Sorriu para mim, e eu a abracei.
 Ama Gatinha...  disse-lhe com carinho.
As lgrimas vieram aos seus olhos. Voltamos para o Fran's a fim 
de terminar nossa conversa. Contei minha parte pela primeira vez. No 
era muito. Isabela no pde conter um sorriso de desconsolo:
 Tadinho!...
 Bom... pois ... e no fim de tudo, de manh senti que estava 
sem a aliana... Isabela ficou quieta, esperando. Eu continuei:
 Eu costumo rod-la no dedo, por isso percebi logo que estava 
sem ela. Ento desci para procurar.
 Achou?!  Perguntou ela, ansiosa.
 No...  respondi.  Sa  rua, olhei na calada... mas, nada!
Isabela estava triste. Tnhamos escolhido lindas alianas da H. 
Stern. Enfim...
 Bom, Nen... depois a gente pensa nisso.
De certa forma, ainda que no percebesse isso, eu estava muito 
acostumado ao caminho fcil. Antes, nos meus relacionamentos, era o 
senhor absoluto da situao. Tudo acontecia dentro do que me era 
conveniente. Era fcil sumir, enganar, no ter de ceder, no ter de 
mudar. Estava acostumado a sempre ter razo, mesmo que no tivesse.
E ainda tinha o Inferno a meu favor.
Mas agora, tudo era diferente. Eu ainda no tinha percebido essa 
realidade. E falava coisas que magoavam ao extremo Isabela.
 Vamos ver a coisa por outro ngulo, Nen. De certa forma, o 
que aconteceu tem sua razo de ser. De que outro modo viria  tona 
tudo isso? Sinal que ainda h o que tratar dentro de voc, dentro de mim.
 .
Devagar, ela sentiu que podia ir falando um pouco sobre si 
mesma. Sobre os seus sentimentos feridos, sobre o que eu havia dito a 
ela. S ento ns nos entendemos de vez, e compreendemos o por qu 
de nossa reao inicial. Entre lgrimas, ela contou sua parte da histria. 
E enfim, finalmente entendi! Ela no era a vil absoluta da histria.
Depois disso, naquele final de tarde acabamos encontrando alguns 
colegas daquela cidade de interior que estavam em So Paulo. Fomos 
ao Culto  noite. Espairecemos a cabea, recebemos a Palavra. 
Ningum poderia imaginar que horas terrveis a gente tinha passado h 
bem pouco tempo.
Depois, mais tarde da noite, consegui falar com Ricardo. Oramos 
juntos, e Isabela tambm intercedeu enquanto ns estvamos no 
telefone. Foi bom. No domingo estvamos l no Culto de novo. Oramos 
com Dona Clara.
A tempestade tinha passado. Mas eu continuava sem aliana.
* * * *
Captulo 16
Durante a semana ns dois estvamos em clima de romance de 
novo.
Isto , estava tudo bem entre ns, como sempre. A maior parte do 
tempo a gente estava muito bem. E um no ficava sem o outro.
Olhei para o relgio. Faltavam alguns minutos para dar o horrio 
de sada de Isabela. Resolvi dar uma ligadinha para ela, como de 
costume, para "falar oi". Nesse dia, eu estava ansioso em v-la porque 
tinha uma sugesto especial. No agentei esperar e j fui propondo 
logo pelo telefone:
 Vamos fazer alguma coisa diferente, menina?!  Exclamei 
alegremente.  O Nen quer fazer alguma coisa especial pra Gatinha.
 E o que  que Nen est querendo fazer?
 Vamos jogar boliche, "M"?
 Boliche?! Voc quer mesmo?
 Vamos? Eu sei que voc nunca jogou boliche! Queria que voc 
pudesse fazer alguma coisa diferente hoje! E eu vou te mostrar como  
que se joga.
Isabela entendeu a provocao. E no deixou passar.
 Ah! E desde quando voc  to expert assim? Que eu saiba, 
voc nunca jogou muito isso.
 , menina, mas eu no preciso jogar muito pra ser bom pra 
caramba nessa histria!  retruquei.
Ento ela deu risada e concordou.
 T bom, ento! Ento a gente vai. Quero s ver, hein, Nen?  
capaz que eu ganhe de voc!  e suspirando de leve.  Ufa! Agora eu 
me animei... no vejo a hora de sair daqui!
 T muito puxado, ?
 No, at que no. T com o mesmo movimento de sempre. Mas 
j estou cansada de ficar aqui. Quero ver o Nen!
 Logo, logo a gente j se v.
 Ichhh! Escutei um "ploft" a na minha porta. Isso quer dizer que 
tem mais uma ficha na caixinha. Acho at que j deve ter umas duas. 
Vou atender, t?
 T bom, "M". Depois a gente se v! Ama Gatinha!
 Tambm ama Nen! Tchau!
 Tchau! Bom servio. Juzo, hein? Apareceu algum carinha 
bonito pra voc examinar?
Ela suspirou exageradamente alto. Provocao era com ela 
mesmo.
 Nem te conto. Bye Bye!
 Pera a! Onde voc quer se encontrar?
 Nen que sabe.
 Posso te esperar na sua casa... da a gente j vai direto pro 
Shopping que tem boliche!
 T. Agora sossega, deixei eu atender aos pacientes!
* * * *
Comemos no Shopping, conversamos. Nossos programas, na 
maioria, eram assim. Sossegados, no extravagantes. Era gostoso 
apenas sentar, contar o dia um para o outro, fazer planos. Estar juntos. 
Para ns dois no havia melhor momento no dia.
 Ento...  comecei enquanto terminava meu cafezinho 
expresso.  Vamos jogar o boliche?
 Vamos, n? Voc no est querendo?
 Eu queria fazer alguma coisa diferente com a Gatinha!  falei 
enquanto segurava as mos dela com as minhas.
Eu sempre era carinhoso com ela. E ela gostava disso. Eu sabia 
que Isabela adorava pequenos gestos cavalheirescos, aquele clima  
moda antiga, como quando eu abria as portas para ela passar. Dava o 
casaco quando ela estava com frio. Levava flores, bombons, cartes... 
tantas vezes! Isabela adorava ser mimada. Quem no gosta? Do meu 
lado, eu gostava de mim-la! Queria ela muito mi-ma-da! Nada seria 
muito difcil para mim se fizesse Isabela feliz. Adorava v-la rindo, 
contente, com cara de bonequinha.
Ento fomos para o boliche.
Custou um pouco a chegar l porque Isabela engastalhava em 
uma ou outra loja, olhando vitrinas. Eu olhava junto, com pacincia. Ela 
queria me mostrar tudo, fazer comentrios sobre tudo, perguntar o que 
eu achava a respeito de tudo. No fundo, tambm gostava de olhar as 
vitrinas. No exatamente as mesmas vitrinas que ela, mas tambm 
gostava de olhar!
 Vamos ver se a gente consegue chegar l antes de fechar, hein, 
Isabela?  brinquei numa boa.
 Puxa, no seja to chato, Nen! S estou dando uma olhadinha. 
Chegamos ao boliche, compramos um perodo de apenas meia hora. Eu 
estava bem entusiasmado, talvez influenciado pelo Marco, que era f de 
boliche. Isabela estava ali mais para fazer a minha vontade, porque ela 
mesma achava aquele jogo meio bobo. Mas foi mesmo gostoso! Ela 
comeou errando umas duas vezes, mas a pegou o jeito e ficamos bem 
empatados.
 Ah!  assim que voc  um grande jogador de boliche, 
Eduardo? Estou quase alcanando voc!
 Que  isso, Isabela...? Eu ainda estou aquecendo. Espera s 
para ver! Estava sendo divertido. At mesmo na hora em que ela fez o 
primeiro strike.
Pura sorte/
 A!  gritou ela.  Estou virando esse jogo, Nen! Abracei 
Isabela antes que ela jogasse de novo.
 Passei voc, Nen!
 Aguarde... aguarde! Isso  pura sorte!
Peguei a bola azul e me preparei para lan-la. Dei alguns passos, 
fiz pose e j ia lanar a bola. No momento em que a atirei, tanto eu 
quanto ela ouvimos perto de ns um "plim".
Olhamos para o lado do barulho e at esquecemos de ver quantos 
pinos a bola ia derrubar.
 Acho que caiu alguma coisa do seu bolso...  comentou 
Isabela.
Ela no viu o que foi. Mas eu percebi alguma coisa que rolou perto 
de mim, e me abaixei pra pegar.
 Puxa...... murmurei, embasbacado.  Puxa.....
 Que foi?  Isabela chegou perto de mim.
Eu fiquei muito espantado, quase incrdulo, e apenas estendi a 
mo para que ela visse. Isabela olhou. E reconheceu de cara.  A 
aliana?!?
 Pois no ?  olhei bem para ver se era a minha mesmo.
 Mas de onde ela caiu? Voc tinha achado?
 No, eu no tinha achado. Desde aquele dia que ela sumiu.
 Tem certeza, Eduardo?  ela pegou a aliana para olhar por si 
mesma. Dentro dela, em letras delicadas, estava escrito o seu nome.
 Tem certeza de que no estava no seu bolso? Em algum 
bolso?!
 Absoluta! Peguei esta roupa hoje no armrio. Se estivesse em 
algum bolso, haveria de ser no da cala que usei naquele dia, n?
Ficamos os dois olhando um pra cara do outro. Completamente 
mudos. Esquecidos do jogo!
 Caramba...  murmurou ela por fim.
 Voc est pensando o mesmo que eu?
 Bom... e voc t pensando o qu? Meus olhos at marejaram.
 Deus devolveu! Ele mandou um anjo devolver. O anjo veio at 
aqui, e trouxe de volta. O que mais posso pensar? Essa aliana tinha 
ficado perdida na rua!
 ... eu estava pensando isso...
Ficamos quietos por mais um tempo, enquanto coloquei de volta a 
aliana no meu dedo.
Terminamos de jogar nosso boliche num outro clima. Uma 
satisfao toda especial permeava a nossa alma agora. Aquele gesto 
sobrenatural de Deus queria dizer muita coisa. Era uma maneira clara, 
inequvoca, do Senhor confirmar a nossa futura unio.
Aquilo foi claro para ns dois. Deus havia perdoado a nossa 
insensatez e trouxera de volta o smbolo do nosso compromisso. Sinal 
que havia algo especial no elo que nos unia. Algo que realmente estava 
nos planos e no corao do Pai.
Naquele momento aquilo foi importante.
Porque os ataques sobre o nosso relacionamento continuariam, e 
seriam cada vez mais intensos. Eu ainda no tinha conseguido perceber 
que as nossas brigas absurdas tinham, de fato, um contexto espiritual. 
Mas, independentemente disso, sabia muito bem que o diabo no nos 
queria juntos: pelo simples motivo de que ele havia escolhido outra 
pessoa para mim.
O futuro nos mostraria que este no era o nico motivo. Mas 
parece que Deus realmente desejava  e se alegrava  com nosso 
relacionamento.
Aquela atitude amorosa do Pai caiu como blsamo nos nossos 
coraes.
* * * *
Mesmo assim, a sexta-feira seguinte nos surpreendeu com nova 
desavena.
Naquele dia tnhamos combinado de ir ao Culto numa outra 
unidade de nossa Igreja, em outro bairro, onde haveria uma 
programao especial. Era ultra longe!
Mas com aquele clima de discusso pairando sobre ns, 
acabamos indo pra l brigados e obrigados. Simplesmente porque j 
havamos prometido a Dona Clara que estaramos presentes.
Eu olhava o guia de ruas com m vontade, lacnico. E Isabela 
estava muda, respondendo de vez em quando com maus modos. Para 
piorar a situao, comeou a chover bem forte. Quase desistimos. Mas, 
graas a Deus, chegamos ao nosso destino em segurana.
Foi a salvao naquele dia!
Entramos na Igreja quando comeava o Louvor. Foi melhor assim.
Louvamos o Senhor, esquecemos momentaneamente um do 
outro. Mas o corao de Isabela continuava triste. Percebi quando 
algumas lgrimas acabaram rolando dos seus olhos, ento fiquei com 
pena e segurei sua mo. J estava com remorso e, ao olhar para mim, 
Isabela encontrou no meu rosto um olhar mais simptico, de algum que 
se desculpa.
Normalmente ela seria mais turrona em aceitar a reconciliao, 
mas o clima que nos envolveu durante o Louvor facilitou.
No encontramos ningum conhecido da nossa unidade, talvez 
justamente por causa da chuva. Atravessar a cidade na sexta-feira, 
debaixo de chuva, era uma tarefa herclea que todo mundo evitava se 
pudesse.
Quando samos, j no chovia. Entramos no carro e fomos para a 
casa de Dona Mrcia. Ela estava assistindo a um filme na televiso, de 
forma que fomos tomar lanche sozinhos, excepcionalmente.
Novamente foi melhor assim, porque pudemos conversar com 
mais sossego e liberdade. Conseguimos ento pr em pratos limpos 
nossa desavena sem maiores estragos naquela noite. Mas aconteceu 
algo diferente.
Ns dois estvamos j com o lanche feito e conversvamos  
mesa quando dei um pulo na cadeira e levantei de supeto. Isabela levou 
o maior susto:
 Puxa, que foi, Eduardo?!
Corri at a porta da cozinha, olhei desconfiado, primeiro para a 
sala, e depois para o corredor que dava acesso aos quartos. A porta do 
corredor estava fechada No entanto, eu podia jurar...
 Que foi?!  Perguntou ela de novo.
Voltei para a minha cadeira e me sentei. Meneei a cabea. 
Certamente era coisa da minha imaginao, por isso nem dei seqncia 
ao assunto.
 Ah!... no foi nada... eu... achei que tinha visto um vulto passar 
ali na porta.  Vulto??
 . Mas acho que foi s minha impresso. No foi nada. Ela me 
olhou firme, sondando minha reao.
 Tem certeza?  perguntou, enftica, novamente.
 Tenho, tenho. No foi nada.  e procurei afastar da mente 
aquela impresso. Diante de minha categrica afirmao, Isabela deixou 
o assunto de lado.
 D para voc me passar o queijo, Nen?
Continuamos conversando normalmente, ali mesmo na cozinha, 
mesmo depois de terminado o lanche. Afinal, Dona Mrcia estava na sala 
com a TV ligada.
Nem sei como o assunto voltou  baila, porque Isabela nem estava 
mais lembrando. Como poderia? No foi ela quem viu ou sentiu alguma 
coisa. Mas ela xeretava no congelador e comentava comigo:
 Minha me fez supermercado e deve ter sorvete aqui. Quer, 
Nen?  Quero.
Creio que talvez Deus no quisesse o nosso esquecimento. 
Porque falei de novo, nem sei por que fiz isso:
 Puxa, foi to real o que eu vi.
 Mas o que foi que voc viu, afinal?
 Vi um vulto, j disse.
 Um vulto pode ser tanta coisa... como era esse?  Enorme. Ela 
ergueu as sobrancelhas.
 Enorme??  inquiriu.  Como assim?  Enorme. Do tamanho 
da porta!
Ela ergueu mais ainda as sobrancelhas.
  Do tamanho da porta??? Mas... mas ento deve ser alguma 
coisa sria, Eduardo! Por que voc no disse antes?
 Ah, sei l. Ser que no  coisa da minha cabea?
 Quando voc falou em vulto, no imaginei isso. Pensei que 
voc viu o vulto da Harpa, da Viola, e se enganou. Por isso nem liguei!
Harpa e Viola eram as gatas de Isabela.
 Bom... certamente no era o gato! Era alto, bem alto como a 
porta, quase do tamanho do teto... e passou rpido. Veio da sala e 
passou pro corredor. Eu vi por viso perifrica, sabe? Estava entretido 
com o lanche, e de repente vi aquilo passando, furtivamente. Mas foi to 
ntido, to ntido que pensei que algum tinha entrado aqui, algum 
estranho. Isabela ficou indignada.
 Mas por que voc no falou antes, Nen?! Puxa vida, Deus 
comea a te dar um Dom e voc no usa?
 Eu sei...  assenti.   que eu acabo relativizando porque 
acontece quando menos estou esperanto. Fico pensando se no estou 
viajando na maionese... sabe?
 PUXA VIDA, passou um demnio a, Nen! Temos de orar!
   concordei.  Vamos orar.
Oramos ali mesmo como estvamos, sentados  mesa. E nossas 
palavras eram sempre as mesmas, sempre no mesmo sentido: pela 
proteo, pela guarda dos anjos, o revestimento das muralhas de fogo, a 
cobertura do sangue de Cristo. E que Deus desfizesse toda armadilha, 
Encantamentos, Feitio e maldio contra ns. Especialmente as que 
tinham sido lanadas recentemente, no Sabbath.
Quando terminamos, eu continuei olhando pra frente; sabia que 
devia estar com aquela expresso no rosto j bem conhecida de Isabela.
 Que foi?  indagou ela.
Continuei olhando para os lados, perscrutando, e por fim falei:
 No sei, enquanto a gente estava orando senti uma presena 
to ruim aqui, uns calafrios nas costas. Quando eles esto perto d 
mesmo essa sensao de frio... no  qualquer coisa que tinha aqui, no 
 qualquer coisa...  um demnio forte! Um demnio da Irmandade... 
como se ele estivesse aqui para nos monitorar... pra criar alguma coisa, 
alguma situao ruim.
 Voc acha mesmo que eles realmente usaram a ocasio do 
Sabbath para fazer algo mais forte contra a gente?
 No tenha dvida disso  retorqui sem pestanejar. Nem 
precisava pensar dois segundos para dar aquela resposta.
 Puxa vida! Somos to importantes assim?! Dei de ombros.
  O diabo no gosta de levar a pior. Eles vo continuar lanando 
Encantamentos... para que eu faa como eles querem.
 No acho possvel que eles o aceitem de volta! Fiquei quieto.
 No sei. Se por um lado meu papel era importante, por outro 
tambm no ignoro que os demnios adorariam me pagar com juros e 
correo monetria. Todo mal feito  Irmandade deve ser retribudo nove 
vezes.
 Ui!  Isabela sacudiu a cabea, indignada.  Fato  que pouco 
importa se iriam ou no aceit-lo, porque voc no vai dar essa 
satisfao a eles.
 Isso!  concordei.
 Puxa... Deus est mesmo te dando esse Dom. Passou a 
sensao ruim?
 Passou. Enquanto a gente orava, foi diminuindo.
Diante disso, deixamos o assunto de lado. J era tarde e fui me 
despedindo.
 Aonde voc vai?  Pra casa, u!
 Sozinho? De nibus?!  Falou em tom de voz mais alto.
 Ah! "M"! T tudo bem, no precisa se preocupar!
 Eduardo, no adianta fazer essa sua carinha de nen nmero 
um.
 No precisa me levar, Gatinha. Vai descansar, vai!
 Descansar! Como? Se eu pudesse descansar, enquanto voc 
fica vagando por a,  noite, sozinho? De jeito nenhum!
Seu tom no admitia argumentao. Eram muito raras as vezes 
em que eu voltava sozinho da casa dela. Agora que ns tnhamos o 
Palio, Dona Mrcia me havia emprestado o fusca, s de quebra-galho. 
Mas o fusca estava no conserto! Ento Isabela preferia me levar, no era 
longe, bastavam 40 a 45 minutos pra ela ir e voltar. Mas eu no gostava 
de incomodar, mesmo porque depois ela voltava sozinha.
 Eu posso ir sozinho...  ainda argumentei enquanto Isabela 
rodava o banheiro e o quarto, procurando onde deixara seus sapatos. Ela 
possua o hbito de chegar em casa e tirar os sapatos em qualquer lugar, 
instintivamente, depois tinha de ficar procurando.
Era um pouquinho desorganizada... no seu quarto tinha sempre 
uma montanha de roupas empilhadas na escrivaninha. s vezes Marina 
era incumbida de dobrar as roupas. Gastava o dia naquilo... nem dava 
para ver a escrivaninha, o piano, de tanta coisa em cima. Nas suas 
refeies noturnas, deixava tudo espalhado... papis de bala, chocolate... 
vasilhas...
Por isso os sapatos estavam perdidos. Ufa!
Esperei.
 Vamos indo, Nen! Quantas vezes sa de madrugada do 
Hospital, e voltei sozinha? Agora vou deixar voc zanzando por a?
Passamos pela sala.
 Tchau, Dona Mrcia, j estou indo.
 Tchau, Eduardo, at amanh. A Isabela est indo levar voc?
 T... mas eu disse que no precisava.
 Mas  melhor assim!  respondeu ela j do jardim.
A noite estava fresca agora e no havia trnsito. Eu dirigi na ida. 
Paramos em frente a minha casa em pouco mais de quinze minutos. 
Despedimo-nos e Isabela pulou para o banco do motorista.
Fui destrancando o porto da frente.
 Vai, Gatinha.
 Entra, Nen!  respondeu ela sorrindo, acenando, meio 
marota.  Trata de ficar bem guardado a.
 Tchau! Espero voc me ligar.
 T. Tchau!
S acelerou quando eu j havia novamente trancado o porto por 
dentro.
* * * *
Quando nos encontramos no dia seguinte, eu ainda teria algo mais 
a contar. Embora no me lembrasse de imediato. A verdade  que 
aquela experincia no tinha terminado ali. Ns havamos marcado 
nosso costumeiro encontro naquele parque, pertinho de casa, para fazer 
ginstica pela manh.
Fomos caminhando de mos dadas, sentindo o ventinho 
agradvel, vendo o sol escorregar por entre a copa das rvores, 
observando as pessoas que passavam por ns fazendo cooper.
Aquele lugar sempre me dava uma sensao de nostalgia, gostava 
de contar histrias do tempo em que tinha meus alunos de Kung Fu. Dei 
muitas aulas naquele parque! Parece que cada canto tinha uma 
lembrana engraada ou agradvel. (Leia Filho do Fogo).
Isabela sempre gostava de ouvir as minhas histrias. Era motivo 
pra muita risada! Quando passamos pela casinha que guardava material 
de limpeza e manuteno, comecei a rir, comentando:
 Tinha um senhor antigamente aqui, que era chefe da 
manuteno, sabe? Ele vivia de cabelo em p com a gente porque ns 
pegvamos todas as suas vassouras.
 E pra qu, hein? Continuei rindo.
 Pra fazer uns nunchakus. s vezes a gente tambm usava pra 
fazer bastes curtos. Vassoura  timo pra isso, coitado do cara!
 Ah! Voc, hein? Voc era fogo!
 O homem no podia ver a gente chegando que j ia atrs de 
salvar as suas vassouras!
Fizemos nossa ginstica. Comecei com corrida. Isabela no 
gostava de correr, preferia a marcha acelerada, por causa da sua coluna. 
Depois fomos fazer o resto juntos.
Agora eu j no fazia Kung Fu, estava afastado da academia do 
Mestre Zhy havia alguns meses. Mas estava levando bem. No final do 
nosso treino fomos comprar gua de coco na barraquinha da entrada do 
parque.
 Bem que a gente podia fazer matrcula numa academia boa de 
verdade, n? Acabou no dando certo daquela vez, mas bem que fiquei 
com gua na boca de ser aluna numa academia como aquelas!  
comeou Isabela.  Voc no vai dar aula, mas o que nos impede de 
sermos alunos? E fazer ginstica?
At parei de beber o meu coco.
 Ta! Sabe que eu j tinha pensado nisso?  uma tima idia. 
Voc estaria disposta? Podemos usar uma parte do dinheiro da minha 
resciso!
 Ah! Acho que vai ser bom pra ns dois. Especialmente pra 
voc, n, Nen? Porque voc no pode virar uma pessoa sedentria. 
Quem  atleta tem que continuar sendo!
  isso mesmo! Eu posso no fazer mais Kung Fu, mas posso 
perfeitamente continuar a ginstica, a atividade fsica.
 Pois ento, ns no podemos descuidar da nossa sade. Quem 
sabe consigo emagrecer um pouco. Seria muito bom!
Ainda comentando sobre os benefcios de ingressarmos em uma 
academia de porte, fomos vagarosamente caminhando pela calada em 
direo ao carro.
 Pode deixar que eu dirijo, Isabela!
 T bom. Eu estou to cansada desse exerccio todo, agora vou 
descansando aqui do lado.
 Tomo um banho bem rpido em casa e ns j samos!
 T. No sei nem se vou entrar...
 Ah, mas eu vou deixar voc sozinha na rua?
 Que  que tem?  hora de almoo, no  hora de assalto.
 Como se tivesse hora pra assalto acontecer! Voc entra e sobe, 
fica no quarto esperando. Eu me arrumo logo.
 T bom, t bom.
Em cinco minutos j estvamos l. Isabela cumprimentou minha 
me e subiu atrs de mim. Enquanto eu pegava minha caixinha cheia de 
cosmticos dentro do guarda-roupa, ela se acomodou sentada na minha 
cama.
 J, j, estou aqui!  e tirei a camiseta jogando-a sobre a cama.
Ao me virar para pegar os cosmticos, parece que Isabela reparou 
em algo diferente nas minhas costas.
 U, Nen... que  isso a nas suas costas?
Olhei para ela.
 O qu?
 Essa mancha a, meio sobre as espduas... ali, olha, meio  
esquerda. No consegui ver nada, ento fui olhar no espelho do 
banheiro. Ela veio atrs de mim para olhar melhor.
 Que esquisito... voc bateu em algum lugar?  No.
 Ela  to redondinha... o que pode ter sido?
 No sei, vai ver me machuquei e nem percebi.
 Puxa, meio difcil, n? Ningum arruma um hematoma desse 
sem saber como.
  um hematoma?
 Parece. Voc tem que ter batido em algum lugar. Est doendo? 
 ela apalpou de leve a leso avermelhada, ligeiramente arroxeada nas 
bordas, redonda.
 No di nada.
 Bom... vai tomando seu banho e pensa um pouco para ver se 
lembra.
 OK, Gatinha! Nen est indo.
Quando voltei, j vestido e perfumado, estava com uma expresso 
mais sria no olhar. Mas procurei fazer de conta que nada havia 
acontecido. Talvez Isabela nem estivesse mais lembrando do tal 
hematoma. Samos e, uma vez dentro do carro, ela perguntou incisiva.  
Pelo visto voc no vai falar nada espontaneamente, n?  no 
adiantava eu querer esconder nada.  Que foi, Nen?
Ela olhou para mim mais uma vez, sem desviar a ateno do 
volante. Iramos direto para sua casa a fim de que ela pudesse tomar 
banho tambm.
 Pois ...  fiz uma pausa mais longa. Sorria de leve.
Isabela conhecia aquela minha cara. De algum que quer 
esconder algo e no est conseguindo.
 Mas o que foi, Eduardo? Fala logo de uma vez, que voc me 
deixa nervosa!
 No sei se  coisa da minha cabea...
 O que, Eduardo? Que foi que aconteceu?!
 Essa mancha... eu fiquei pensando... e a lembrei de uma coisa 
que eu sonhei.
 Essa noite?  indagou ela, ansiosa em saber logo de que se 
tratava.
 .  respondi com calma, ainda processando as idias.  Eu 
sonhei que estava num Ritual... mas no pra participar, entende?... Na 
verdade... eu estava numa cama... de mrmore.
Ela me olhava com seriedade. Erguia as sobrancelhas sentindo j 
aquela sensao desconfortvel, antevendo o restante:
 Voc quer dizer... uma mesa de sacrifcio?  falou, baixo.
 .  retorqui; e fiquei quieto.
Ela esperava. Como eu no dissesse nada, cutucou de novo, 
impaciente e tensa:
 Puxa, e da?
 Bom... foi to real que s vezes nem parece sonho. Foi to 
vivido... me lembro de cada detalhe... que no vem ao caso! Mas sentia 
muito calor... calor de fogo! Estava muito quente. Uma sensao horrvel! 
Ento, vi uns olhos olhando para mim, s uns olhos, no escuro...
 Olhos de quem?
 Dele...
Naturalmente que o assunto era bastante desagradvel.
 Do Abraxas,  isso?...
 Eu creio que sim. Apertei os lbios um no outro, no sabia o 
que dizer. Ela esperava para ouvir o resto.
 Da, de repente comecei a consegui distinguir o vulto dele, 
sabe? No escuro. Percebi que na mo dele tinha uma faca longa. Vi 
muito bem.
Tornei a apertar a boca. Quanto a Isabela, olhava para mim com ar 
de espanto e assustada ao mesmo tempo, sempre que o volante 
permitia.
 E...?  incentivou ela de novo.
  Bom, ento ele... me atacou! Veio com aquela faca bem direto 
pro meu corao... s que, no sei como, eu no estava amarrado. Ento 
me virei bruscamente para que a faca no atingisse o meu peito, e da... 
ela pegou nas costas... entende?
 Nas... costas?!  Sei. Hum...  Ela olhou para mim realmente 
sem saber o que dizer. Puxa, mas... ser possvel, meu Deus?!...
 Sei l. O sonho foi muito real. E ficou uma marca.  inspirei 
fundo.  E difcil de acreditar que isso possa acontecer de verdade.
A voz de Isabela soou sria de pesar. Deu um muxoxo ressentido, 
seguido de um largo suspiro como o meu.
 Ai! Eu nem sei o que pensar. O que mais podemos pensar??
 Pois . A verdade  que no importa muito "como" aconteceu, e 
sim, que aconteceu. Quer a gente queira aceitar, ou no, entender ou 
no.
 Entender realmente fica difcil. Mas o ferimento ficou a.
Ns sabamos que os demnios poderiam ter causado o sonho, 
afinal eles tm esse poder de interferir na mente. Seria tambm muito 
simples para Abraxas, parado ao lado da minha cama, causar tambm 
aquela marca no meu corpo. Tudo bem, aquele era um conhecimento 
terico... muito diferente era ver acontecer. Conosco.
No havia nada que pudssemos fazer a no ser orar. Melhor 
dizendo, continuar orando! Continuar pedindo proteo de Deus. Claro 
que o recado do Inferno tinha sido dado... de novo. Nem parecia que as 
oraes surtiam efeito.
Oramos um pouco ali mesmo, no carro. Quando chegamos a casa 
de Isabela, ela foi tomar seu banho. To logo acabou, veio comentando:
 Acho que a gente podia ungir isto, no?
 Pode ser.  uma boa coisa. Vamos fazer.
Grace nos havia dado leo de uno, orientou para que 
ungssemos nossos quartos, nossas camas, consagrando ao Senhor, 
pedindo proteo.
Isabela pegou o frasquinho. Oramos primeiro em concordncia. Se 
Deus,, atravs daquela situao, sinalizava a inteno do inimigo, a 
verdade  que no era nenhuma novidade. Deus nada permite sem 
propsito definido. Embora tudo aquilo sempre nos pegasse de surpresa, 
desabando desagradavelmente sobre ns, se assim era... era porque o 
Senhor o permitia!
E se Ele permitia,  porque queria mostrar as reais intenes do 
inimigo. Talvez nem se tratasse de morte fsica, pode ser que o sonho 
simbolizasse a morte espiritual. Ela seria o estopim, o ponto fundamental, 
a coisa certa a ser feita para que eu retornasse  Irmandade. Decepo. 
Frustrao. Morte espiritual.
Certamente eles estavam agindo nesse sentido, o sonho apenas 
confirmava uma coisa que ns j sabamos. Mas  claro que a sensao 
de temor ficava durante um tempo... isso era inevitvel!
A reao imediata de Isabela era orar; e ela me arrastava junto 
neste propsito.
Pedimos fora e coragem, fundamental para que pudssemos 
percorrer aquele caminho difcil. Que Deus embaraasse os planos dos 
nossos inimigos.
Depois, Isabela mesma pegou o leo de uno, abriu o frasquinho, 
ps uma pequena quantidade na palma da mo.
 Senhor, em nome de Jesus, toca nesse ferimento com a Tua 
mo, toca com o Teu sangue. Limpa de toda contaminao do inimigo,  
passa Teu blsamo de cura, e faz com que no seja mais do que um 
ferimento comum. Limpa o Teu filho, protege Teu filho de todo mal, e 
toda artimanha de Satans. Destri os planos dele. Amm!
Ela orou com toda a convico que lhe foi possvel, com todo 
mpeto e determinao.
 Pronto, "M".  murmurei.  Est entregue a Deus. Amm.  
Amm.
Trs dias depois, no nosso encontro semanal com Dona Clara, 
compartilhamos o sonho. Mas foi mais por desencargo de conscincia e 
zelo espiritual, porque o tal hematoma j praticamente nem existia mais.
  incrvel, Dona Clara!  comentei.  Ns ungimos e j quase 
desapareceu tudo.
  Realmente um hematoma como aquele no ia reabsorver to 
rpido!  acrescentou Isabela.
 Sinal que a coisa tinha origem espiritual mesmo!  respondeu 
ela.  Quando Deus mostra algo assim, no quer dizer que aquilo vai 
acontecer. Na verdade, ao revelar a inteno do inimigo, o que o Senhor 
quer de ns  que tomemos posio no Reino do Esprito em relao a 
isso. A nossa parte  essa: interceder! Porque assim podemos frustrar os 
planos do maligno. Ns fazemos nossa parte, Deus faz a dele. Deus 
apenas confirmou aquilo que vocs j sabiam!
Ns ouvamos sempre com ateno.
Esse foi um princpio que aprendemos com Dona Clara, que nunca 
esqueceramos. A questo de tomar posio no Reino Espiritual. Deus 
no estava revelando aquilo para nos trazer pnico, mas para nos fazer 
participantes daquela guerra. E qual era a maneira de participar? 
Naquele momento no havia outra: orando. Haveria momentos em que o 
Senhor daria outras diretrizes.
Por sinal, essa histria de ferimento espiritual aconteceu mais duas 
vezes.
No futuro, conheceramos pessoas que ficavam apavoradas com 
vises ou discernimento espiritual de "tragdias". Quando Deus traz a 
revelao  sempre para o bem, para que possamos fazer melhor a 
nossa parte, para que no fiquemos ignorantes do que intenta o inimigo.
Aprendemos que, quando procuramos verdadeiramente nos 
alinhar com a Vontade de Deus, e buscar o Seu caminho perfeito de todo 
corao, Ele no deixa encobertas as ciladas do diabo.
 Vocs esto procurando servir ao Senhor com seriedade, por 
isso Ele traz a revelao. Esse  o nosso Deus!  e Dona Clara ria.
Ns sorrimos de volta, mais confiantes. Nunca Dona Clara pareceu 
incerta do Poder e do Amor de Deus. O seu Cristianismo era como o de 
uma criana, cheio de f, cheio de temor. Ela foi a conselheira mais cheia 
de sabedoria que conhecemos... quando abria a boca, trazia sempre 
uma direo sbia!
No houve uma nica vez, nos quase quatro anos de 
acompanhamento semanal que tivemos com ela, em que nos faltasse o 
alvio necessrio. Dona Clara no julgava, no especulava, no era 
curiosa nem fofoqueira, de ouvidos sempre atentos, com um corao 
disposto e cheio de empatia para conosco; nossa alegria a alegrava, e a 
nossa tristeza a entristecia. Foi um suporte todo especial naqueles anos. 
Ao nosso lado, ela produziria muitas coisas para o Reino de Deus.
 Nen, e o que era mesmo aquilo l que voc falou sobre estar 
decepcionado com a Igreja? Isso tem a ver com isso que eles querem, 
com essa morte espiritual.
 Bom,  verdade...  desembuchei.  Se eu for pensar em uma 
morte espiritual, de certa forma isso tem que envolver a Igreja... e as 
pessoas! Sabe, Dona Clara,  impossvel no haver uma certa... 
comparao!
Dona Clara entendeu logo. Alis, ela j sabia do nosso sentimento:
 Comparao com o lado "de l".
   afirmou Isabela.
 A senhora sabe... a Igreja no  unida... o povo de Deus no se 
ajuda!
 , "Bem"... essa  uma realidade! Mas ns, que estamos vendo 
isso, temos de nos colocar na brecha por essa situao. Infelizmente, 
ns no chegamos l ainda. S o Senhor para dar Graa, fora...
  que  difcil escutar o Marlon, n, Dona Clara? A senhora 
sabe que faz falta pro Eduardo ter um amigo, um amigo homem...  
continuou Isabela.
 Eu sei que eu no posso olhar para as pessoas. Mas  difcil!
E ela ia aconselhando com calma, com brandura, mas ao mesmo 
tempo com firmeza. Compreendia nossa decepo, mas nunca a 
encorajava. No  porque os outros erravam, que ns tnhamos o direito 
de errar tambm. Dona Clara sempre procurou, at mesmo sem 
perceber, forjar em ns um carter ntegro.
 Deus vai prover o amigo, o companheiro. Vai suprir! O diabo  
sujo mesmo, ele vai usar as deficincias da Igreja pra jogar. Eu sei que  
difcil... mas o que eu posso dizer pra vocs? No posso endossar o erro. 
Nem sempre o caminho do Senhor ser fcil. Mas, no final, a nossa 
coroa vai estar preparada! Vamos permanecer firmes!
Outras vezes, ela guerreava ferreamente conosco. E no final da 
reunio, virava para ns, rindo, espantada muitas vezes:
 Puxa, eu nem imaginava o que o Senhor ia fazer hoje... Ele est 
sempre nos surpreendendo! Vamos aguardar pra ver o livramento que o 
Senhor vai trazer. 0 que Ele fez aqui hoje ns ainda nem imaginamos!
Assim era Dona Clara, praticamente uma me para ns. E Deus a 
usava.
Ns no sabamos bem que coisas o Senhor nos reservava para o 
futuro. A bem da verdade, nem queramos saber! Certamente que uma 
delas haveria de ser o livro Filho do Fogo. Mas esse era um trabalho 
moroso. Isabela escrevia durante um tempo, depois parava outro tanto, 
quando as coisas apertavam pro nosso lado... ento voltava a escrever... 
e pensava se aquilo realmente era vontade de Deus, ento parava de 
novo. A achava que era sim, ento reescrevia. O relato era uma colcha 
de retalhos, de pedaos, de emendas, de coisas que eu ia lembrando 
dentro e fora das Ministraes.
Ns queramos e no queramos escrever. quela altura dos 
acontecimentos, ningum dava muita bola para o livro, mas a Grace nos 
havia incentivado a pr a histria no papel. Nem ns, nem Grace, nem 
Dona Clara estvamos muito preocupados com o livro. Embora a gente 
achasse que um dia  a gosto de Deus  talvez aquela histria 
devesse estar escrita.
Ns tnhamos optado por no esconder nada de Dona Clara e 
Grace. Era preciso confiar em algum. E, para elas, ns contvamos 
tudo.
Naquela noite, depois da reunio, samos alegres e com a alma 
mais leve, as emoes mais balizadas. Como aquelas reunies faziam 
bem... davam uma sensao boa de "dever cumprido". Isto , ns j 
havamos orado e colocado diante de Deus tudo o que havia. Agora, o 
Pai faria o resto.
* * * *
Isabela Conta
Captulo 17
No final do ms de novembro fomos para uma cidadezinha do 
interior de Minas Gerais. Tratava-se de uma programao especial da 
nossa Igreja, um encontro de casais. Para dizer a verdade, era o primeiro 
encontro de casais organizado pela liderana.
Nossas brigas, embora tivessem um componente espiritual, talvez 
pudessem melhorar se ns dois procurssemos acertar em todos os 
mbitos. Isso , tnhamos que levar em conta tambm o lado emocional 
do relacionamento. Diferenas, divergncias, defeitos... todo mundo tem, 
e todo casal precisa aprender a lidar com isso.
Tanto eu quanto Eduardo queramos investir no nosso 
relacionamento. J tnhamos passado por muitas coisas juntos, 
admitamos as virtudes um do outro e, enfim... nenhum de ns queria 
jogar o noivado pro alto, mas sim buscar melhorar mais e mais.
Especialmente agora, que um anjo do Senhor havia trazido de 
volta a aliana de Eduardo!
Foi Dona Clara quem sugeriu, fazendo eco com a inclinao do 
nosso prprio corao.
 Vocs vo para o encontro? Eu e o Benito vamos!  Ah, vamos 
sim!
 Vocs somente precisam pedir permisso ao Pastor Jaime, 
porque o encontro, na verdade  para casais casados. Mas eu acho que 
vocs vo se beneficiar bastante.
 Eu estou super a fim de ir. Acho que no vai ter problema, n? 
 perguntei.
 No vai, no, porque o Pastor Joel vai tambm com a noiva. 
Eles tambm no so casados.
 Oba! Ento a gente se acerta.
De fato no houve problema. O encontro seria num hotel fazenda, 
comeava na sexta-feira  noite e ia at domingo no horrio de almoo.
Optamos em ir com o Palio, e no com o nibus fretado, porque 
poderamos passear na cidadezinha turstica no domingo antes de voltar 
para So Paulo. Ns nunca saamos de casa assim, era muito raro. Foi 
divertido arrumar as coisas no carro, falar tchau e pegar a estrada.
 Que gostoso poder fazer algo diferente!  comentvamos um 
com o outro. Paramos uma ou duas vezes na estrada para tomar caf, 
mas chegamos no horrio certo apesar de levarmos mais de trs horas 
na viagem. O nibus fretado ainda no tinha chegado e no havia 
ningum.
Achei estranho perceber que havia outras pessoas no hotel. No 
imaginei que o nosso encontro seria feito num local to grande e to 
cheio de gente. Minha idia de acampamento era aquela: retiro espiritual 
mesmo!  Eu estava acostumada com o acampamento em que tinha 
levado Eduardo.
 Que estranho, n, Eduardo? Vamos ficar junto com toda essa 
gente?  No sei.
 Imaginei que o local estava separado s pra gente.
 Eu tambm. Enfim.... vai ser diferente. E foi mesmo.
Eu, particularmente, no apreciei muito o ambiente. Era estranho 
ver gente quase sem roupa na piscina, e os caras paquerando a mulher 
dos outros. Mas, fora isso, a palestra da noite foi boa e o jantar tambm. 
Eu fiquei com um quarto s pra mim, pois a noiva do Pastor Joel no 
pde ir, e eu estava escalada para ficar no mesmo quarto que ela.
Eduardo tambm ficou sozinho no quarto que iria compartilhar com 
o Pastor Joel.
 Caramba...  ele estava frustrado.  Eu estava to animado 
pra ficar aqui com o Pastor Joel... j tinha formulado um monte de 
perguntas, ia ter o Pastor pra conversar s comigo.
Fiz um cafunzinho de leve no alto da sua cabea:
 Tadinho! Perdeu a chance!.......
Fitei o semblante um pouco decepcionado dele e procurei anim-
lo:
 Por outro lado, voc tem o quarto s pra voc! Isso tambm  
bom!
Ele fez um muxoxo de pouco caso e tratamos de ir dormir aps 
combinar o horrio de nos encontrarmos pela manh pra tomar caf. 
Eduardo era sempre todo aflito com o horrio, tinha sempre que fazer 
tudo com muita antecedncia; eu, pelo contrrio, gostava de dormir mais, 
me aprontar rpido e chegar no horrio cravado.
Nossas diferenas de personalidade e modo de agir faziam com 
que, no raro, nossas previses de horrio variassem em mais de uma 
hora. Da, era preciso achar o meio termo: eu levantava mais cedo, e 
Eduardo controlava sua ansiedade um pouco. Coisa tremendamente 
difcil!
Alis, foi justamente por causa disso que a encrenca comeou logo 
cedo no sbado. Conseguimos controlar a situao, embora nossos 
nimos ficassem um pouco  flor da pele. Fomos os dois meio de ovo 
para a palestra da manh.
No entanto o Louvor, o tema abordado e a Ministrao do final 
ajudaram a gente a acalmar. Ficamos de bem novamente, de mos 
dadas, sorrindo.
 Todo mundo est faminto, o refeitrio est cheio...  comentou 
Eduardo espiando pela janela.
  mesmo. Mas e se a gente fosse mais tarde? O salo s fecha 
s duas e meia.
Olhamos para o outro lado: na mesma proporo em que o 
refeitrio estava cheio, a piscina estava vazia. E o sol estava forte, 
poderoso, a pino.
 Que tal se a gente experimentasse a piscina agora e fosse 
comer depois?!  Exclamei.
 Acho uma boa! Ta!
 Outra hora no vai dar. No  legal o clima dessa piscina, tem 
gente demais, que nem  irmo.
 Isso, Gatinha! Vamos rpido, ento!
 T, vou trocar a roupa e te encontro l.
Ficamos com a piscina s pra gente. Todo mundo naquele hotel 
tinha ido cuidar do estmago.
 Olha!  falou Eduardo.  Eu trouxe a mquina fotogrfica.
 Oba! Vamos tirar vrias fotos!
Nossa mquina era simples, sem muitos recursos, mas sempre pra 
l de requisitada. Um dos nossos fracos era bater fotografias, tnhamos 
j vrios lbuns.
Ficamos inventando poses e ngulos diferentes. Temos estas fotos 
at hoje, saram coloridas, iluminadas. J perto das duas horas da tarde, 
quando o pessoal j ia invadindo a rea novamente, pusemos a roupa 
por cima dos mais e fomos almoar. Ainda tinha um pessoalzinho 
retardatrio da Igreja por ali. Sentamos perto, conversamos, tiramos 
papelzinho de amigo secreto. Seria realizado no domingo, no 
encerramento do encontro.
Eduardo sacou o papelzinho com o nome de um casal que ns no 
conhecamos.
 Vocs presenteiam o casal, t?  explicaram-nos.
 OK! E como comprar o presente?
 Hoje  tarde  livre. Todo mundo pode dar uma volta pela 
cidade. Vocs podem ir de carro prprio, ou com o nibus.
 Ah, entendi!
Como atrasamos no almoo, j no dava tempo de tomar banho 
com sossego e aproveitar a sada do nibus. O centro comercial da 
cidade no ficava longe, e resolvemos sair com o Palio.
Pra qu?!?
Por causa de um desencontro tolo na cidade, os nimos exaltados 
da manh voltaram com carga dupla. E acabamos discutindo. Sorte que 
eu j havia escolhido o presente para o casal! Mas a verdade  que 
nossa tarde ficou estragada. Que desperdcio!...
Algumas vezes nosso relacionamento parecia um campo minado, 
no parecia uma situao normal. Alis... no era mesmo uma situao 
normal, sabamos que ramos alvo. Nosso noivado tinha que acabar de 
qualquer jeito, no entender dos nossos inimigos!
E que falta de sensatez nossa, no sabamos exatamente como 
resistir quelas situaes. Brigar num encontro de casais era realmente o 
fim da picada!!! No tinha o menor sentido, eu amava Eduardo, Eduardo 
me amava, e estvamos ali justamente em busca de aprimoramento... 
que coisa indescritvel.
No conseguimos nos entender e voltamos para o hotel. Eduardo 
me largou sozinha e passei o resto da tarde no lago, chorando. Ns dois 
ramos culpados e inocentes ao mesmo tempo.
Inocentes, porque pontos vulnerveis da nossa alma eram 
tocados. Tanto eu quanto ele nos desestabilizvamos ao mesmo tempo. 
E culpados, porque dvamos vazo  carne, sem retroceder. Boas 
intenes no bastam!
Que situao difcil!...
E difcil para explicar. No peo que ningum compreenda, apenas 
que aceite como uma situao sobre a qual no conseguamos ter 
controle! Ia totalmente alm das nossas foras! Nosso desejo era acertar, 
agradar um ao outro. Mas como parecia ser impossvel atingir este 
objetivo naqueles delicados e terrveis momentos!
* * * *
 noite, Eduardo jantou sozinho. No d para acreditar, no?! 
Fiquei no quarto at quase dar o horrio da palestra.
"Ele me largou, foi comer sem mim: pois que coma sozinho, 
ento!"
Foi duro arrumar nimo para ir  palestra da noite, da Pastora 
Ruth. Eu estava muito triste e queria que Eduardo se sentisse culpado 
por ter me tratado mal. Fiquei dando voltas e mais voltas no quarto. 
Inquieta, abri a janela, senti o ar fresco da noite, escutei ao longe o som 
de msica.
Por fim, repensei e resolvi sair. Desvencilhei-me de perguntas e 
acabei entrando no salo da palestra no horrio justo de comear.
"Acho que ningum vai reparar se eu sentar aqui atrs...", pensei 
comigo mesma ao vislumbrar a cabea de Eduardo l na frente.
Eu no queria ter que dar o brao a torcer, sentando ao lado dele. 
Ele tinha me largado! No entanto, se as pessoas percebessem iriam, no 
mnimo, achar muito estranho que estivssemos to distantes.
"Ele me largou sozinha, fiquei sozinha  tarde toda, chorando 
sozinha!"
E aquilo me doa no corao.
Por fim resolvi ir at l. Tudo o que eu queria era ficar de bem com 
Eduardo novamente, mas sem ter que dar o brao a torcer, sem ter que 
voltar atrs! Quem diz que eu conseguia tomar uma atitude mais 
conciliatria? Aquilo era muito difcil pra mim...
Mesmo querendo, no conseguia agir diferente. Quando a raiva de 
Eduardo passava, ele tentava ser bonzinho, mas antes que isso 
acontecesse ele usava todo tipo de frases erradas, em cujo fundo havia 
sempre aquele tom acusativo.
Sentei ao lado dele j no incio do Culto, exatamente para no dar 
tempo de nenhuma manifestao mal colocada. Meu rosto demonstrava 
exatamente o que eu sentia, no estava acostumada a fazer tipo. E no 
gostava daquela situao!
Ao final da reunio da noite, Eduardo estava mais ameno. Tratou-
me bem, abraou-me e, embora eu estivesse chateada ainda, o tom de 
voz amoroso terminou por dobrar meu orgulho. Sempre que Eduardo 
falava com sabedoria e mansido conseguia de mim o melhor.
Fomos conversar sentados no corredor, perto da porta dos nossos 
quartos. Os casais da Igreja passavam por ns, cumprimentavam, 
entravam e saam. Por fim, foram dizendo boa-noite, e s sobramos ns 
dois sentados no corredor perto da porta, falando baixinho pra no 
incomodar ningum. Nos aceitamos plenamente, e continuamos 
conversando outros assuntos.
 Olha...  disse por fim Eduardo.  Acho que Deus realmente 
tem apurado o Dom que me deu. Eu  que tenho sido negligente em no 
dar ateno quilo que Deus sinaliza.
Olhei pra ele com ateno:
 Por qu? Que foi que aconteceu?!
 No foi nada. T tudo bem agora.
 O que foi, Eduardo? Que aconteceu?
 Eu no sei lidar com isso  murmurou Eduardo sacudindo a 
cabea.  Deus precisa me ajudar!
 Sim, mas... que foi agora?  indaguei novamente muito 
apreensiva.
 De manh cedinho eu senti opresso... sabe, no me pergunte 
o que  essa "opresso", porque no sei dizer. S sei que , entende? 
Era como se Deus avisasse de uma armadilha! Deus avisou, eu no 
liguei. De manh, conseguimos estar imunes porque fomos pro Culto, pra 
palestra, logo de cara. No sei se voc se lembra, mas logo cedo quase 
brigamos. S que,  tarde... acabamos brigando mesmo...  to claro que 
as nossas desavenas tm tambm esse forte contexto espiritual! E 
depois, no sei... este lugar no est leve,  como se fssemos... 
intrusos!
 De certa forma somos mesmo... esse lugar no foi separado s 
pra nossa Igreja, ns  que estamos ocupando um lugar que  do 
mundo! Mais ou menos por a, sabe?
Eduardo sacudiu a cabea vrias vezes.
 No, no, no... no  isso que estou falando. Quero dizer, o 
ambiente no est bom. Espiritualmente falando. Ns somos intrusos de 
verdade! Entende?
Baixei os olhos, insatisfeita. Suspirei com fora, deixando o ar fluir 
dos pulmes ruidosamente.
 Pxa, Nen... caramba! Por que voc esconde essas coisas de 
mim? O que precisa acontecer pra voc falar?! Como posso saber se 
voc no me diz nada?
Eduardo cerrou os olhos, ergueu uma das mos:
 Eu sei, eu sei... voc no precisa falar mais nada. Eu errei. 
Relativizei de novo. Achei que era coisa da minha cabea.
Virei pra ele com firmeza.
 Mas no ! No  coisa da sua cabea, ser que voc no 
percebe? Deus no tem te dado prova suficiente? No fundo, no fundo, 
quando vm essas sinalizaes voc no sabe que so verdade! Sabe 
ou no sabe?
Ele assentiu.
  Sei. Mas parece que minha mente se recusa a aceitar esse 
sobrenatural. Estou aprendendo!
 Olha... daqui pra frente, no deixa de me falar. Quando Deus te 
mostra algo,  pra gente orar, e no ignorar. Temos que orar na hora, 
no podemos deixar pra depois, pro dia seguinte, porque pode ser tarde 
para isso. Entende? Temos que tomar posio! Se Deus fala,  porque 
quer uma postura da gente!
Eduardo fez uma carinha de quem aprontou e no quer mais levar 
bronca. E falou com ar sorridente e de quem pede desculpas ao mesmo 
tempo:
 Tem mais uma coisa...
 O que?
 Senti opresso de novo agora  noite, durante a palestra. Mas 
no era como de manh. De manh Deus estava sinalizando uma 
armadilha contra ns... e ns camos nela, infelizmente... j foi. Mas 
agora  noite era um outro tipo de alerta, como se algo estivesse 
acontecendo, algo que precisasse da minha orao... naquela hora. Algo 
na sua casa  falou ele com cuidado.
Senti meu corao gelar.
 O qu? O qu?! Voc ligou? Que aconteceu?!  Minha cabea 
tinha facilidade pra imaginar montes de coisas horrveis em flashes.
 Calma, eu liguei. Liguei assim que acabou a palestra, enquanto 
voc falava com Dona Clara. Est tudo bem, calma. Foi o Wolfi que caiu 
do telhado.
 O Wolfi?!  Meu ar certamente era de horror.  Mas como ele 
est? Como foi que isso aconteceu?
 Calma, est tudo bem. Aconteceu agora  noite, durante a 
palestra, mas graas a Deus ele no se machucou. Est bem. Foi s um 
susto.
Eu j estava  beira das lgrimas por causa do meu cachorro.
 Ah, meu Deus! Foi como da outra vez. Mas que falta de 
sossego! Por que aconteceu isso?
 Olha... voc sabe que se eles no puderem nos atacar de frente 
todas as vezes, vo atacar  nossa volta. Vo procurar nos desestabilizar 
emocionalmente. Quando nos desestabilizamos, ento vem outro golpe, 
mais certeiro.  assim que funciona! Voc sabe que tambm comprou 
uma briga com o Inferno, Isabela! Eles no te querem ao meu lado, 
sabem que voc tem sido companheira, amiga, tem incentivado a orar, a 
buscar as Ministraes. Vo procurar te derrubar tambm! Se 
derrubarem voc, fica mais fcil me derrubar tambm. O que aconteceu 
com o Wolfi  s pra desviar sua ateno, pra fazer voc ficar deprimida, 
questionando valores, questionando Deus. Questionando a proteo de 
Deus! Esse no  o principal golpe!
Enxuguei duas lgrimas, com a cabea baixa. Certamente o diabo 
sabia como mexer comigo. Uma das maneiras mais fceis e rpidas era 
provocar uma briga com Eduardo. Ou com meus familiares. Outra era 
tocar nos meus animais.
Eduardo tentava me animar:
 Mas, veja, o cachorrinho est bem. Os demnios tentaram, mas 
Deus no permitiu que nada de pior acontecesse.
   resmunguei passando a mo no nariz.
Ficamos em silncio algum tempo, enquanto Eduardo segurava 
minha mo. Fiz a pergunta que me incomodava:
 Voc orou? Orou quando sentiu o aviso de Deus? Eduardo 
tambm estava triste consigo mesmo.
 No. No orei. Mas fiquei com aquilo na cabea e fui ligar pra 
sua me assim que pude.
 Bom, Eduardo... eu no posso fazer isso por voc. Voc vai ter 
que resolver se vai dar ateno, ou no, ao que Deus fala.  No falei 
mais nada.
 Eu sei. Isso no vai mais acontecer. Vamos orar agora? 
Balancei a cabea seguidas vezes, meio contrariada.
 Vamos  concordei.
Foi o que fizemos. Depois disso, parece que a exausto tomou 
conta de ns. Tanto eu quanto ele j estvamos mais pra l do que para 
c. Eu sabia lidar melhor com o cansao, mas Eduardo j nem conseguia 
manter os olhos abertos. Com o tempo, mas aprenderamos que o 
cansao mais intenso  aquele que vem como fruto de sobrecarga 
espiritual.
O Reino do Esprito se movia  nossa volta, muito mais real do que 
o Reino Fsico. O Reino Fsico, o que ? Pura iluso! Pessoas correndo 
atrs do vento, perseguindo a felicidade, os bens materiais, a beleza, a 
prosperidade financeira, o sucesso... coisas que passam!
O Reino Espiritual, ao contrrio...  eterno!
Ele se movia, era vivo, palpvel. Nossos olhos ainda no viam 
bem, nosso esprito no captava bem os sinais espirituais. Nossa mente 
no compreendia o sobrenatural nem os propsitos Deus. Mas algo 
muito srio estava sendo armado em torno de ns, ainda que no 
pudssemos ver e, na maior parte das vezes, perceber.
s vezes, Deus permitia que uma fagulha de tudo aquilo chegasse 
ao nosso conhecimento. Por qu? Por qu?
No porque Ele no fosse suficientemente Poderoso, ou porque 
gostasse de contemplar nosso sofrimento. Mas aquilo era o incio de um 
lapidar, o incio de um treinamento.
Comeamos a entender que quando Deus mostrava algo Ele 
queria, na verdade, a nossa participao. Seria muito fcil para Ele 
resolver tudo sozinho. Mas isso no traria nenhum conhecimento, 
nenhum aprendizado para ns.
Beijei Eduardo rapidamente e fui para o meu quarto, pensativa.
 V se descansa, Nen.
Entrei, escovei os dentes olhando pra mim mesma no espelho. 
Ento fui deitar. Demorei a dormir, dormi mal, como sempre. Dormir fora 
de casa era horrvel!
* * * *
No domingo  o ltimo dia do encontro  acordamos cedo.
 Nen? Nen!?  eu chamava Eduardo pela sacada do meu 
quarto, onde batia um sol forte j desde cedinho.
Ele abriu a porta de madeira que dava acesso  sua prpria 
sacada. Abriu logo o sorriso:
 Oi, Gatinha! Voc j t acesa?
 Acabei acordando antes... ento imaginei que voc j devia 
estar em p. A gente pode tomar caf mais cedo e dar uma voltinha por 
a.
  mesmo, n? Foi tudo to corrido e aqui  to grande! Vamos 
explorar um pouco.
 Voc descansou? Eduardo fez ar de alvio:
 Descansei. E voc?
 Mais ou menos. Deu pro gasto.
 Pera! Deixa eu tirar uma foto sua a na sacada.
 T bom, pega l a mquina.
Eduardo correu pra dentro e voltou com a cmera. Ele tirou minha 
foto e depois eu quis tirar a dele. Primeiro gastei vrios segundos vendo 
qual seria o melhor ngulo e a melhor vista.
 Quando voc estiver pronta, avisa, hein?  caoou Eduardo 
por causa da minha demora.
 Calma... OK! Vou bater!
Eduardo fez pose com a perna em cima da balaustrada e o muque 
estendido.
 Como voc gosta de fazer pose!
Terminada a sesso de fotos, fomos para o refeitrio. Ns j 
sabamos o lugar onde o pessoal da Igreja ficava. Tomamos nosso caf 
e fomos dar nossa voltinha por ali mesmo. Embora fosse tudo muito 
grande, cheio de cantos pra explorar, ia ficar para depois do Culto. No 
dava tempo.
 Oi, Dona Clara! Oi, seu Benito!  cumprimentamos ao sair do 
refeitrio.  Esto indo tomar caf?
 Sim, estamos.
 A gente vai dar uma rodada por a. At mais!
 At mais. Andamos um pouco pelo jardim, observando os 
canteiros, as peas decorativas...
 Como tem mosca nesse lugar, no?  comentei.   
impressionante! Nunca vi nada igual.
 O mais engraado  que no tem motivo, j reparou?
 Pois . No tem lixo, no tem nada pra atrair tanta mosca 
assim. At na piscina, lembra?
 Lembro. E ali s tinha gua, cadeiras de sol... realmente  
estranho. Ser que  da regio, ou da poca?
 Sei l. S sei que elas incomodam mesmo.
Em determinado local, uma espcie de salo ao ar livre, havia 
enormes vasos ornamentais pesadssimos. Foi Eduardo que chamou 
minha ateno, aps observar um pouco.
 Olha s isso, Isabela...  murmurou com espanto.
 O que?
Discretamente ele apontou os desenhos em alto relevo, em toda a 
borda dos vasos. Olhei, e entendi logo.
 Puxa...  o que estou pensando?
 . Isso no est a por acaso.
Eram cenas de uma Festa Ritual, com smbolos subliminares entre 
elas.
 Ah! s vezes t a por acaso. Esse  um hotel do mundo! No 
viaja! Eduardo continuou olhando. Eu no liguei muito, porque nada 
provava que aquilo tinha sido colocado ali de propsito.
 . Mas ontem de manh Deus mostrou que esse ambiente no 
estava leve. Mesmo sendo um hotel do mundo. A questo no  essa, 
tem alguma coisa a mais aqui. Alguma coisa forte...
 Bom... ento vamos sair daqui! Tendo ou no, o Culto j vai 
comear. A gente podia orar um pouco l no salo, antes de comear.
 T bom. Vamos sim!
Entramos no nosso salo, sentamos na frente, num dos cantos. 
Estavam arrumando a aparelhagem de som e as pessoas iam chegando 
aos poucos. Logo algum comeou a dedilhar o violo, sozinho, 
melodiosamente. Aquela melodia entrou em nossos ouvidos, o lugar 
estava relativamente silencioso ainda.
 Vamos orar?  perguntou Eduardo.
 E como oramos? Em que sentido?
 No temos que guerrear contra ningum. Se aqui existe algo 
mais, estamos no territrio dele.
 Puxa, mas e se for verdade?
 Temos somente que pedir proteo pra ns, para os filhos de 
Deus que esto aqui.
 Ser possvel que viemos parar num lugar que tem alguma 
coisa a ver com o Satanismo?
 No que acontea algo aqui. Mas, o dono... ou os donos... sei 
l!
 No vamos ficar achando nada. Vamos orar!
Foi o que fizemos, no embalo da melodia. Eduardo pediu que se 
houvesse algo que o Pai quisesse mostrar, que o fizesse. Talvez ns no 
tivssemos visto aqueles objetos por mero acaso, e o Senhor tivesse um 
propsito nisso. Pedimos tambm proteo e livramento para todos ns 
que participvamos do congresso.
 Amm!  falei, ao fim da orao.
Eduardo ainda permaneceu de olhos fechados, absorto, com uma 
expresso diferente no rosto, difcil de descrever em palavras. Eu olhava 
para ele, nossos ombros se tocavam e ns nos apoivamos com os 
cotovelos nos joelhos. Esperei que ele se manifestasse, sem querer 
quebrar sua introspeco.
Quando abriu os olhos, e me olhou, murmurei a pergunta:
 Que foi?  eu sempre sabia quando tinha acontecido algo, 
quando o Senhor falava algo.
 Eu disse que no ia mais relativizar... quando a gente estava 
orando, era como se Deus dissesse que aqui neste lugar, neste hotel, 
tem algo espiritual realmente. Algo relacionado  Irmandade. As moscas 
no so por acaso.
Eu estava espantada:
 Por qu?
 Sabia que Belzebu  tambm chamado de "senhor das 
moscas"? Uma espcie de linguagem popular.
 ?
Eduardo explicou rapidamente (Leia Filho do Fogo).
 As moscas so um sinal da contaminao espiritual deste lugar, 
no da contaminao fsica, do acmulo de lixo.
 , porque nem tem lixo\
 Sabe, quando eu servia a Irmandade, as moscas no nos 
tocavam. s vezes havia churrascos enormes em fazendas, ao ar livre... 
e no tinha uma s mosca!
Fiquei admirada.  Caramba...
 O Senhor tambm disse que eu preciso ligar pra casa.  A 
sua?  A minha. At eu duvidei um pouco naquele instante. Aquilo tudo 
era to diferente para ns dois...
 Eduardo, pensa bem... voc tem certeza?  Tem certeza do que 
est falando? Ele fez que sim com a cabea. E acrescentou:
 Tenho!
Saiu para ligar, tal era a sua convico. Quando voltou, o Louvor j 
tinha comeado. Perguntei apenas o que interessava naquele momento:
 T tudo bem? Ele apertou minha mo. T.
Continuamos louvando, de mos dadas, e eu no perguntei mais 
nada. Podia ficar para depois. O Culto foi bom, a palestra igualmente. 
Certamente que os casais iam sair renovados. Ns, pelo menos, 
estvamos sendo edificados. Ao final da manh, terminada a Palavra, os 
Pastores nos informaram que iam fazer uma coisa diferente para 
encerrar o encontro.
 Ns vamos ungir as alianas dos casais como um smbolo da 
entrega e consagrao destes relacionamentos ao Senhor. Que Ele os 
capacite a serem transformados! Claro que ningum  obrigado a 
participar, mas os casais que quiserem receber esta orao especial e a 
uno das alianas, podem ir formando uma fila ali no corredor da 
esquerda. Deus os abenoe!
Alguns casais j foram levantando e formando fila. Olhei para 
Eduardo, a pergunta nos meus olhos:
 Ns tambm vamos, n?
 Acho que sim, no faz mal que no somos ainda casados. 
Vamos consagrar o relacionamento da mesma forma, e esperar pelo 
casamento.
Sorri abertamente.
 Isso!
Fomos ento nos postar tambm na fila. Ela caminhava morosa 
porque cada casal estava recebendo uma orao especfica do casal de 
Pastores ali na frente.O ambiente estava gostoso, o Louvor continuava 
baixinho, os casais permaneciam abraados na fila, em clima de 
harmonia, de serenidade. Alguns oravam juntos antes mesmo de chegar 
a sua vez de serem ungidos.
O clima estava fresco dentro do salo por causa do ar-
condicionado, mas o sol passava por baixo das grossas cortinas 
fechadas em toda extenso da parede esquerda. Ali tambm eu e 
Eduardo estvamos encostados, de mos dadas, esperando. Oramos 
um pouco agradecendo a Deus um pelo outro, por estarmos juntos, por 
podermos caminhar lado a lado. Pedimos que o Senhor protegesse o 
nosso relacionamento, ajudasse nas dificuldades naturais e espirituais, 
alm de permitir o casamento em breve. Nos consagramos e oferecemos 
a Deus o nosso noivado.
Ento chegou a nossa vez.
Colocamo-nos defronte ao casal de Pastores, que sorriram e 
comearam a orar por ns. Baixei a cabea, Eduardo tambm; cerramos 
os olhos e ficamos concordando com a orao deles. Reconhecamos a 
importncia daquele momento...
Quando terminaram, todos ns abrimos os olhos. Ento eles 
pediram para a gente estender a mo direita, onde estavam nossas 
alianas. Tornei a fechar os olhos quando senti o leo tocar minha pele, 
colocado pelas mos da Pastora. O Pastor fazia o mesmo com Eduardo.
 Amm!  dissemos todos.
Voltamos para o nosso lugar. Eu caminhei na frente e ele atrs de 
mim; assim que nos sentamos olhei para Eduardo, sorrindo, satisfeita... e 
notei aquela expresso no rosto dele! Aquela expresso que j estava se 
tornando freqente.
 Que que foi, Nen?  perguntei baixinho e com voz suave. No 
queria quebrar a docilidade daquele momento.
 Isso  bom..... respondeu Eduardo por fim, balbuciando.
Ele olhava pra frente, incapaz de falar, as lgrimas pensando j em 
escorrer... e seus olhos percorriam o plpito. Fiquei quieta por um pouco, 
mas voltei a insistir, plcida.
 O que foi que voc viu?  eu estava adivinhando.
Ele olhava, olhava, e chorava. Senti um n na minha garganta 
tambm. Baixei a cabea, esperei, ainda orando em lnguas e 
aproveitando o mover do Esprito Santo. Ento Eduardo tambm se 
inclinou, orando um pouco mais, sozinho.
Por fim, quando olhei de novo, ele j estava mais recomposto, 
tinha enxugado as lgrimas. Eu no agentava de curiosidade, 
praticamente antecipando o que ele iria me dizer. Ainda tinha gente na 
fila, por isso cheguei bem perto, passando meu brao pelo dele, e 
indaguei ansiosamente:
 Que foi? Que foi, Nen?! O que voc viu? O que?!?
Eduardo ainda olhou novamente para o plpito, de relance, e 
respondeu:
 Eu vi... eu vi quatro anjos!!  E quase comeou a chorar de 
novo.
 Quatro?! Ai, Nen, que coisa! Me conta, me conta!
 Bom... o primeiro estava mais ou menos ali... naquele canto do 
plpito...
 Mas voc viu assim, sem mais nem menos? Do nada? Conta 
direito!
 Quando os Pastores comearam a ungir as nossas alianas eu 
estava de olhos fechados, normalmente. Ento, de repente eu senti que 
minha vista foi iluminada, sabe?
 Quer dizer, voc abriu os olhos?
 No... sabe quando voc est de olhos fechados e algum 
acende a luz? D pra sentir que a luz acendeu, mesmo sem abrir os 
olhos, no ? Foi assim, me pareceu que algum tinha aberto as cortinas 
ali da janela, e a luz do sol bateu no meu rosto. Senti aquele calor no 
rosto, como se o sol realmente estivesse batendo em mim ...  fez uma 
pausa, relembrando as recentes sensaes, com os olhos distantes.  
No... no era como o sol, no era como o calor do sol... no sei... era 
um calor diferente!
 E a?  eu at atropelava as palavras.
  A eu comecei a sentir uma sensao... que no sei 
descrever... uma tranqilidade, uma sensao de aconchego... da 
presena de algum... muito difcil de traduzir. Algo bom... algo bom... 
uma presena forte!
 A presena de algum?...
 No sei... sabe quando algum passa perto, bem perto, e voc 
sente aquele ventinho, o deslocamento de ar causado pelo movimento 
do corpo da pessoa? A diferena  que esse ventinho vinha... mas de 
forma constante... como se algo estivesse vindo. Simplesmente vinhal 
Parece que aquela "brisa" me atravessava, no sei dizer, porque no era 
s no rosto, eu sentia nas costas, nos braos... no corpo todo.
 Voc imaginava que era um anjo?  meus olhos estavam bem 
abertos.
 De jeito nenhum... pensei que fosse o efeito da orao! Mas 
ento abri os olhos... e vi que ningum tinha mexido nas cortinas.  
Eduardo fez fora para segurar as lgrimas outra vez.  A eu vi...! Vi 
uma luz forte, enorme, e ela foi formando um vulto. Um vulto muito 
grande; e ento, apareceu! Apareceu mesmo. No sei dizer o que me 
impactou mais, se a sensao, ou se a viso propriamente dita.
Senti novamente a garganta apertar.
 Ele estava olhando pra gente... e sorria. Nem sei dizer! Acho 
que a mente da gente vai rodando muito rpido. Eu no conseguia 
acreditar! A primeira coisa que reparei foi no tamanho!
 Qual  o tamanho?
 Enorme!!! No d pra quantificar direito, mas certamente uns 
oito metros de altura, pelo menos. Eu forava a vista, piscava. Ser que 
eu estou mesmo vendo isso? Ah! Mas como eu vejo e os outros no? E 
pensava rpido, as idias vinham. Ento eles existem mesmo!! 
Finalmente aquela viso distorcida da Irmandade caiu por terra. Eu j 
tinha visto aquele outro anjo na Igreja, mas ele parecia um homem. Esse 
era totalmente diferente! A vi que no tinha asa, no tinha, que coisa!
 E como era o rosto?
 Eu no pude ver bem, por causa do brilho. Brilhava muito, mas 
de novo no era como o brilho do sol, no ofuscava! Mesmo assim no 
dava para ficar olhando muito tempo.
  Voc disse que ele olhava pra gente?  eu no sabia bem 
como perguntar.  Pra mim tambm??  Aquilo era muito importante.
Eduardo nem pestanejou, nem entendeu minha pergunta:
 Sim, claro. Pra ns dois! E ficou claro pra mim que ele estava 
satisfeito com o que a gente estava fazendo.
Uma ou duas lgrimas correram pelas minhas faces. Como aquela 
manifestao de amor do Pai aquecia os nossos coraes!
 Ele estava satisfeito?  perguntei tolamente.
 ...  respondeu Eduardo em tom de voz quase infantil.  Era 
como se dissesse que ns estvamos tomando a deciso certa.
 Como se Deus confirmasse a nossa aliana,  isso?
 .
Eduardo fez nova pausa.
 Continua!  incitei.
 Ento ele disse: "Deus no tira nada sem dar em dobro".
 Pxa...  estava to extasiada com o relato.
 A ele fez um gesto... ergueu o brao e apontou na minha 
direo, sempre olhando pra mim. Depois deslizou o brao na direo do 
plpito... e apontou pra l. Imediatamente eu entendi o que ele estava 
querendo dizer;  engraado isso... o entendimento vem como uma 
clarssima revelao no esprito... queria dizer que eu ia estar ali.
 No plpito?!
 ... estranho isso. Eu nunca quis... no quero! A eu me lembro 
que pensei: "No plpito? Eu? No... ali  um lugar muito desprotegido,  
muito arriscado". E foi como se ele pudesse ler meus pensamentos. 
Ento sorriu de novo, fez um gesto, apontou para o plpito de novo. De 
repente, rpido, foi como se uma cortina invisvel fosse puxada... ela foi 
puxada e minha viso abriu mais... ento vi mais trs anjos lado a lado, 
grandes como o primeiro! Eram guerreiros!... Todos eles!  exclamou 
Eduardo com a voz embargada.  O que mais me tocava era aquela 
sensao da presena deles... uma coisa muito, muito forte... um Poder 
muito grande!
Eu olhava para ele, olhava e tentava absorver tudo o que Eduardo 
estava dizendo.
 Por que voc diz que eram guerreiros?
 Porque o peito deles brilhava tanto, como um espelho... como o 
sol batendo num espelho, e dava a impresso de que era a armadura 
que refletia aquele brilho.
 Nossa, que coisa mais linda! Que coisa linda!
 E no  s isso, era como se eles estivessem ali observando 
tudo, protegendo. Na poca, Eduardo no entendeu porque o primeiro 
anjo revelou os outros.
Anos mais tarde, tendo aprendido com o Senhor, Eduardo 
compreenderia melhor aquele gesto. Diante da sua reao temerosa em 
expor-se num plpito, abraar um Ministrio, diante do risco que isso 
representava, o Senhor mostrava que podia cercar aquele lugar com 
anjos.
Mas, naquela manh de domingo, nem eu nem ele 
compreendemos exatamente tudo o que acontecia. Apenas uma coisa 
ficou latejando no corao: aquilo parecia ser um chamado. Um chamado 
de Deus para um Ministrio que ns ainda no conhecamos. E que 
certamente envolvia um risco, caso contrrio o Senhor no se daria 
pressa em mostrar a proteo. E eu fazia parte disso tambm, de uma 
forma ou de outra, porque Deus confirmava a nossa aliana!
Saindo do Culto ns ainda estvamos meio zonzos com o que 
acontecera. Eduardo estava alheio a tudo em derredor, tendo que ser 
chamado vrias vezes para prestar ateno ao que eu dizia. Da minha 
parte, uma alegria enorme e uma satisfao me invadiam. Toda hora 
voltvamos a comentar o ocorrido.
 E como foi que eles sumiram?
 No sei. Num piscar de olhos. De repente, no estavam mais 
l... aquela sensao do incio, da presena deles, foi diminuindo aos 
poucos, como se eu estivesse sendo levado de volta  realidade. Mas 
eles continuavam l, apesar de eu no poder mais ver e nem sentir.
 Puxa... isso  tremendo, n?
 Deus trouxe um recado, o recado foi dado. Ele aprova a nossa 
unio... e est preparando algo... algo Ministerial!
Fiquei quieta, pensativa. Depois, indaguei:
 Mas o que ser? Ser que Deus quer que voc seja Pastor?!
 No sei. S sei que ele apontou o plpito.  meio vago, n? 
Pode ser tanta coisa. Eu entendi que  algo Ministerial.
 E voc conseguiu ver o rosto dos outros?
 No. Brilhava muito. No dava pra olhar muito tempo.
 E o primeiro? Voc conseguiu ver?
 Ele estava mais perto, embaixo, na frente do plpito, de frente 
pra mim... no pude ver os detalhes do rosto, apenas o sorriso... e, 
puxa... ele era ruivo! Ta uma coisa que eu nunca ia imaginar! O anjo era 
ruivo.
* * * *
Passou o encontro.
Quando compartilhamos com Dona Clara a viso e o recado dos 
anjos, ela ria  toa, satisfeita, em jbilo.
 Deus  bom!  repetia ela.  Glria a Deus!
Ns dois tambm ramos por tudo e por nada, animados, um 
atropelando o outro na hora de contar.
 Puxa, Deus atendeu meu pedido! Eu vi anjo, Dona Clara!  
exclamou Eduardo novamente.
Dona Clara riu de novo.
 No  mesmo, "Bem"? Ele sabia que voc precisava de uma 
experincia assim!
 Isso d um outro nimo pra gente!
 Ah, mas teve mais coisa. Conta pra ela, Nen!
  verdade. No sei se a senhora notou algo estranho naquele 
lugar, mas... no sei dizer, parece que Deus me sinalizou alguma coisa.
Interrompi-o:
 Ele est dizendo "parece", mas no foi bem assim, Dona Clara! 
 aquela mente racional dele tentando negar que Deus est lhe dando 
um Dom de Discernimento!
Dona Clara concordou. Olhava para Eduardo sorrindo, sem 
recrimin-lo.
 Pra de fazer isso, menino! Deus est falando com voc!
Ento Eduardo contou tudo. Da sensao de opresso, da 
armadilha que nos tinha sido criada, dos vasos ornamentais, das 
moscas, do tombo do Wolfi...
 E no foi s isso. Antes do ltimo Culto, Deus me disse pra ligar 
para minha casa. Ns tnhamos orado, pedindo proteo, se realmente 
havia influncia espiritual maligna ali. E que se Deus tivesse algo a 
mostrar, se aquilo no era uma "viajada", que confirmasse a minha 
impresso. Foi a que senti a direo de ligar pra casa.
Dona Clara ouvia com ateno, apenas murmurando, absorta no 
relato.
 H...h.......
  Pois ... a foi mais estranho ainda. Eu liguei mais por 
desencargo de conscincia, porque no imaginei realmente que pudesse 
haver nada de importante...  Eduardo sorria, como que se desculpando 
por sua atitude incrdula.
 T vendo s, Dona Clara?  retruquei.
 Ento falei com minha me, e em casa estava tudo bem. Mas j 
tinham telefonado pra l duas vezes e deixado um recado que ela no 
entendeu.
 Sim  fez Dona Clara.
 Eu entendi o que eles quiseram dizer. Em suma: algum ligou 
duas vezes perguntando se eu j havia telefonado pra casa. Minha me 
falou que no, ento a pessoa disse que quando eu ligasse, que me 
fosse transmitido o seguinte recado: "Se ele no foi bem recebido na 
nossa casa, a culpa no  nossa".
 Hummm..... fez novamente Dona Clara, entendendo tudo.
Em momento algum ela tratava aquelas informaes com pouco 
caso, de maneira especulativa, sensacionalista ou leviana. Era isso o que 
a fazia totalmente confivel.
 O que a senhora acha?  indaguei.
 ,  realmente estranho.
 Ser possvel que aquele lugar tem alguma coisa a ver com a 
Irmandade? Como  que pode? Seria terrvel o encontro ter sido feito 
justo ali. Mas quando a gente pediu confirmao, Deus mandou 
telefonar... e algum da Irmandade tinha ligado falando justamente em 
"casa deles".
 Quando o Senhor permite que coisas assim aconteam, so 
para nos ensinar. No houve muita orao no sentido de procurar o 
melhor lugar. Pode ter havido um engano. Mas quando a gente cai numa 
armadilha,  pra aprender a no cair de novo.
 A senhora notou aqueles vasos no salo de fora?
Para nossa surpresa, Dona Clara tambm tinha visto os tais.
 Eu notei, at falei pro Benito. Naquela noite tive um sonho 
estranho, que estava num lugar com muita sujeira, muita sujeira. Que 
ns tentvamos varrer aquela sujeira, puxar com rodo, mas ela voltava. 
Mais algum do grupo de orao teve sensaes semelhantes em 
relao ao lugar, e estivemos intercedendo.
Suspiramos, eu e Eduardo. Dona Clara queria mais informaes 
de cunho prtico:
 Se de fato isso realmente aconteceu... e estivemos expostos... 
que tipo de coisa eles procurariam fazer contra ns?
 Ahh! Se foi mesmo, eles lanariam todo tipo de Encantamento 
para que o encontro no tivesse qualquer fruto. Para que fosse algo 
totalmente estril Certamente tambm colocariam coisas na nossa 
comida, na bebida, pra ajudar a contaminar. Lanariam Feitios e 
Maldies nos quartos, deixariam tudo bem preparado. Afinal, era 
territrio deles! O objetivo principal seria amaldioar os casais e famlias 
da Igreja.
 O Senhor tem Poder pra reverter isso. Se Ele revelou, mostrou 
as artimanhas do inimigo, cabe a ns pedir perdo pela nossa 
ingenuidade, em primeiro lugar. Depois, em segundo, pedir a restaurao 
dos casais e o cancelamento de tudo que foi feito. E, numa prxima vez, 
temos que ser mais prudentes, aprender a ter mais viso, depender mais 
de Deus e da Sua orientao.
O assunto morreu ali. Fomos compartilhando outras coisas e 
outros motivos de orao pessoais. De qualquer forma, quer aquilo 
tivesse ou no afetado a Igreja, j tnhamos entregado o recado a Dona 
Clara. Ela poderia levar naquela informao  Liderana.
Nunca soubemos se alguma coisa prtica foi feita, nem mesmo se 
aquela informao foi levada em considerao. Mas, coincidncia ou 
no, nunca mais houve outro encontro de casais.
A inteno era que houvesse um por ano.
* * * *
Captulo 18
Passou a semana. Entramos no ms de dezembro. Completamos 
trs anos de relacionamento. A vida continuava normalmente. Ou melhor, 
"normalmente" dentro do possvel. Era to difcil a gente conseguir estar 
em paz por muito tempo, levar uma vida corriqueira! Ns queramos levar 
uma vida normal, mas parecia ser isso impossvel. Nossa realidade era 
to diferente de todos os que ns conhecamos...
Havia um fogo cruzado, uma manifestao estranha do Reino 
Espiritual, algo denso, inexplicvel... e que sempre acabava por nos 
tomar de sobressalto, de forma quase sempre imprevisvel. Havia algo 
em derredor, algo que no se cansava nunca, no desistia nunca, jamais 
retrocederia sem ter antes seu objetivo concretizado.
Quer quisssemos aceitar... ou no!
Mas agora Eduardo comeava a perceber com mais freqncia as 
sinalizaes de Deus. Duro era saber lidar com isso! Como naquela noite 
em que fomos ao Teatro. Foi para comemorar nosso aniversrio. 
Compramos as entradas com antecedncia, no comeo da semana, pois 
estava em cartaz uma pea que j fazia tempo que me interessava. 
Fazia parte da nossa comemorao de trs anos! Eu continuava 
adorando Teatro. Se bem selecionadas, a pea podia ser um 
entretenimento bastante vlido.
No comeo Eduardo no gostava.
 Como que uma coisa chata como Teatro pode atrair tanta 
gente?
 Porque Teatro no  chato!
Assim iniciado, Eduardo percebeu que vez por outra no era to 
terrvel assim, pelo contrrio.
Naquela noite Eduardo pressentiu algo nos acompanhando desde 
o minuto em que samos de casa. Mais tarde, irritado, nervoso, a 
caminho do Fran's depois da pea, finalmente ele desabafou.
 Desde que a gente saiu de casa que sinto algo nos 
acompanhando...
 Algo? Algo?!  Sei! O que voc quer dizer com algo?
 Algo ruim.
 Sim, pois , j entendi!  eu estava brava e indignada, meu 
tom de voz no ajudou.  E posso saber por que cargas d'gua voc 
no disse nada, Eduardo?
E continuei falando at chegarmos no Fran's. Confesso que fui 
chata.
 Alis... voc ainda est sentindo que algo nos acompanha?
 Sim
Oramos.
 Ento...?  inquiri um tanto seca.
 Melhorou  respondeu Eduardo, com ar mais aliviado.  O ar 
est limpo agora!
Entramos para tomar o nosso infalvel capuccino com po de 
batata. Mesmo assim, meu desapontamento no passou por completo. A 
questo agora j no era espiritual, mas uma reao natural da alma.
Eduardo procurou me animar, mas s fui melhorar mais tarde, em 
casa.
Foi uma semi-vitria...
* * * *
Naturalmente que o Senhor queria ensinar algo a ns, seno no 
permitiria tantos ataques seguidos. Praticamente a gente no conseguia 
passar uma semana sem ter problemas naquela esfera. Ms aps ms, 
semana aps semana. Era final de ano e estvamos cansados. 
Queramos poder descansar, queramos poder tirar a cabea daquela 
histria de guerra! Mas assim como ningum aprende a nadar sem entrar 
na gua... sem beber gua... tambm ningum aprende a guerrear sem 
entrar na guerra. Sem receber os duros golpes do inimigo.
Claro que no tnhamos a menor idia de porque Deus no nos 
permitia descansar... vez por outra chegvamos a ficar meio 
desacoroados. Por que Deus permitia aquilo?!
A maioria das pessoas j estava em ritmo de cruzeiro, pensando 
nas frias. Ser que no haveria uma trgua para ns?...
Pelo visto, no.
Dois dias depois do Teatro foi aquela incrvel dor de estmago de 
Eduardo. No dia do aniversrio da minha me tnhamos sado para fazer 
umas compras. Precisvamos comprar um presentinho para Grace, 
Dona Clara e o intercessor Ricardo.
O passeio foi estragado pela dor e mal-estar. Voltamos para casa. 
Eduardo ficou mal a tarde toda, acabou tendo que deitar e dormir na 
cama do Marco.  noite, tudo continuava igual a despeito do 
medicamento.
Resolvi sugerir:
 Voc no acha que devemos orar?
 Voc acha que devemos?
 Mal no vai fazer, n?
 T bom  ele novamente se contorcia de dor.  Voc ora?
 Eu posso comear. Mas depois voc ora tambm, com a sua 
boca, t?  T.
Orei de maneira simples, pedindo que se havia alguma influncia 
espiritual naqueles sintomas, que fosse cancelada. Pedi que Deus 
arrancasse todas as setas envenenadas do inimigo e protegesse 
Eduardo, cobrindo-o com o sangue de Cristo. E que o Senhor desse 
ordem aos seus anjos para guerrear a nosso favor.
 Amm!
Eduardo continuou em seguida, pedindo ele mesmo a proteo 
sobre si, o livramento, a recuperao.
 E ento?  arrisquei.
Eduardo me olhava com ar de incredulidade.
 Passou.
 Passou?  eu no esperava ouvir aquilo.
  Passou.  Passou mesmo?!
 Passou!  ele riu.  Incrvel!
E prestava ateno para ver se era verdade.
 Estou timo! No sinto nada.
 Como nas outras vezes... no te disse?
 Puxa vida... no sei nem o que pensar...
 E mesmo, n? A gente precisa dar mais valor  orao. 
Levamos o dia inteiro pra chegar nisso. Mas agora vamos comer! Ainda 
sobrou bolo!
Atravs destas pequenas coisas Deus nos mostrava Sua 
Fidelidade, mostrava que estava ouvindo nossas oraes, e que estava 
pronto a atend-las. Bastava que ns nos decidssemos a abrir a boca. 
Esta certeza seria muito preciosa no futuro.
Coisas assim viraram feijo com arroz. Parecia que conseguamos, 
aos poucos, discernir melhor o Mundo do Esprito  nossa volta.
 Por que ser que Deus permite isso?  a gente se questionava 
vez por outra.
 No sei. Um propsito deve ter, n? Deus no h de querer que 
a gente s fique se estrepando!
 E verdade. Tem acontecido umas coisas bem diferentes, bem 
estranhas.
 Temos que ficar firmes. Uma hora a gente vai entender melhor.
 J reparou que quando as coisas apertam, a gente se aproxima 
mais de Deus? De que outro jeito a gente ia ver Deus se mover? J 
parou pra pensar nisso?
 E. Essas situaes tm servido pra isso. Pelo menos pra isso.
 A gente comea a ver que o Poder de Deus  real mesmo, que 
Deus fala, se move, interfere! Hoje voc j no v Deus de maneira 
diferente?  perguntei eu.
 Vejo... com certeza. Voc tambm, n?
 Tambm.
 Hoje eu percebo que no tem outra maneira de apreender 
certas coisas...
 A gente cresce no deserto. Essa  uma maneira de Deus 
lapidar o carter. Eu nem precisaria ter dito isso, Eduardo tambm j 
estava percebendo por ele mesmo.
 No  fcil!  acrescentei.  Mas essa  a maneira de Deus 
fazer algo novo em ns. E por ns!
* * * *
E por falar em fazer algo novo, um pouco antes do Natal haveria 
mais uma Ministrao de Eduardo com a Grace. Certamente aquela era 
tambm uma maneira de transformar todas as coisas velhas em novas!
* * * *
Era difcil arrumar vaga para o carro naquele lugar, por isso fomos 
de metr. A Grace costumava atender numa Igreja de fcil acesso pelo 
metr.
Fazia j um tempo que no a vamos pessoalmente, embora ela 
estivesse a par de tudo o que nos acontecia. Pelo telefone,  claro, e 
quase sempre depois da meia-noite!
A cada dia, a cada encontro, a cada conversa Grace tornava-se 
uma pessoa mais cara ao nosso corao. E no perdia o lado maternal. 
Grace era especial, disso ns no tnhamos dvida. Se por um lado 
Dona Clara era um pilar de aconselhamento, Grace era um pilar de 
guerra. E, mesmo sem querer, ela foi tambm uma "professora" para 
ns.
Uma parte do nosso aprendizado, talvez a parte mais substancial, 
veio como fruto das nossas prprias  e algumas vezes malfadadas  
experincias. Todas elas, depois de bem compreendidas, acrescentavam 
um novo conhecimento. Outra parte do aprendizado veio atravs de 
Dona Clara e Grace, que utilizavam as suas prprias experincias para 
nos ensinar, mas tambm daquelas que Deus permitiu que todos ns 
vivssemos juntos.
Dona Clara trabalhava com as experincias atuais; Grace, mais 
com as experincias antigas. E tudo isso somado trouxe para todos ns 
um aprendizado completamente novo.
Dona Clara ouvia nossas peties do dia-a-dia, nossos queixumes, 
nossas alegrias, nossas derrotas e conquistas. Era com ela que a gente 
podia falar de todos os aspectos de nossa vida pessoal, familiar, 
profissional, etc.
J Grace enfrentou outro aspecto da guerra, a guerra de libertar 
Eduardo de todas as fortes amarras que o prendiam ainda. A guerra 
contra os verdadeiros filhos do diabo, o verdadeiro Satanismo, contra as 
mais altas hierarquias do Inferno. Ela viveu aquela histria conosco! 
Cada detalhe, cada pormenor, mas sem alegrar-se com o 
sensacionalismo, muitas vezes entristecida por tudo o que Eduardo 
passara. Grace fez tudo praticamente sozinha ao longo daqueles anos, 
contando apenas com a ajuda de um intercessor nestes momentos.
Se pararmos para pensar, nada de estratosfrico acontecia ali. 
Deus  simples, seu modo de agir  simples. Do incio ao fim, a 
Ministrao era uma grande orao em concordncia, que clamava pela 
destruio de todos os envolvimentos apresentados e a cura de suas 
conseqncias na vida de Eduardo. Era um processo lento justamente 
por ser muito especfico, como passaramos a perceber. Nada podia ser 
esquecido. O prprio Deus se incumbiu de nos mostrar que assim 
deveria ser. O Esprito Santo se movia tanto, e de maneira to 
incontestvel, que no restavam dvidas sobre o caminho a seguir.
O ritmo das Ministraes era varivel. Por vezes, ficvamos quase 
cinco ou seis horas seguidas, e tinha mais na semana seguinte. Outras 
vezes passavam semanas, at meses, sem nada para ministrar.
Ento Eduardo se lembrava de algo, comentava alguma coisa, e 
eu logo dizia:
 Precisamos contar isso para a Grace. Precisamos ministrar 
isso!
 Ser?  Eduardo nem sempre estava muito animado.
Ele no teria condio alguma de fazer tudo de uma vez. Em Sua 
Sabedoria, o Senhor ia aprofundando as Ministraes aos poucos, na 
medida em que Ele sabia ser suportvel a Eduardo. Normalmente ns 
conversvamos antes, ele me contava tudo, anotava os pontos 
importantes numa folha de papel, e ns amos. Na expectativa, sim, e 
quase sempre com o corao apertado... mas confiantes na atuao do 
Senhor!
Cada Ministrao era diferente da anterior, Deus sempre nos 
surpreendia!
Se Eduardo no tivesse se submetido ao processo de libertao, 
hoje talvez no estivesse mais entre ns. Havia muita legalidade em sua 
vida, mesmo aps a converso. Todas as prticas da Irmandade abriram 
grandes lacunas, que precisavam ser fechadas.
Todo pecado confessado  perdoado. O pecado ocultado, que 
desgraa! Cedo ou tarde seria a nossa runa!
* * * *
Chegamos no horrio certinho, Grace j estava l. Ela nunca 
atrasava, e ns a admirvamos pela pontualidade.
 Oi, Grace!  fomos chegando sorridentes e abaixando para 
beij-la. Grace tinha um jeitinho especial de falar, uma entonao de voz 
diferente s vezes.
 Oi... como  que vocs esto? Tava com saudade!  A gente 
tambm!
 Ainda bem que sobrou um espacinho ainda neste ano, n, 
Grace?
 Pois , eu tenho corrido tanto que vocs no fazem idia  ela 
comeou a contar sobre a Ministrao da manh.  Atendi um Pastor 
to quebrantado, coitadinho! Com a vida arrebentada... graas a Deus 
que o Senhor j est comeando a restaurar. Deixa eu beber um pouco 
de gua, vocs no querem?  Grace olhou no relgio.  O Ricardo 
ainda no chegou... vo entrando, que eu vou at o banheiro e j volto. 
Comi por aqui mesmo hoje, no tinha muito tempo.
Coloquei minhas coisas e as de Eduardo sobre uma cadeira, ao 
lado da sacolinha com as duas caixinhas de presente: a blusa de Grace 
e a camisa de Ricardo. Dentro da caixa, com a roupa, eu tinha colocado 
tambm um pequeno chocolate artesanal, com cartezinhos de 
agradecimento. Ficava para depois da Ministrao.
Eduardo foi com Grace pegar gua no bebedouro e logo voltou, 
trazendo-me um copo e deixando o outro de reserva sobre a mesa. Era 
bom estar ali, mas no nosso ntimo havia aquela sensao de tenso 
porque o assunto abordado era pesado. J tinha completado um ano 
desde o incio das Ministraes de Eduardo.
Grace voltou, sempre falante, foi sentando aps ajustar o 
ventilador mais na nossa direo. A saleta era pequena, sem janelas, e 
estava bem abafado. Havia uma mesinha branca de plstico no centro, 
algumas cadeiras ao redor encostadas nas paredes.
 Eduardo, voc no quer trazer mais uns copos de gua pra 
deixar aqui? Eduardo foi e voltou, colocando mais trs copos d'gua 
sobre a mesa, ao lado do rolo de papel higinico. gua e papel higinico 
eram indispensveis para a Ministrao. Dava sede, e no se pode ficar 
saindo a toda hora para beber gua. E lgrimas sempre faziam parte, por 
isso o papel. O costumeiro cestinho de lixo, j conhecido de Eduardo, 
estava bem ali, estrategicamente posicionado.
Sentamos lado a lado, eu e Eduardo, de frente para Grace que 
cruzou a perna e olhou para ns, sorridente:
 Mas, ento, e vocs? Como  que esto as coisas?
 Bom...  respondeu Eduardo.  As principais coisas foram 
aquelas que j te contei pelo telefone. De l para c est tudo tranqilo.
Ela nunca tomava postura de dona da verdade, ou de quem sabe 
tudo por ter um Ministrio j to antigo voltado para a Batalha Espiritual. 
Ouvia com ateno e sua admirao pela ousadia dos Satanistas era 
verdadeira. As informaes que Eduardo trazia, ao que parece, eram 
valiosas para Grace.
 ... e foi assim que aconteceu... depois disso...
Grace o interrompeu de repente, com um gesto muito particular 
dela:
 Vamos orar pedindo para o Pai selar esse lugar... Pai, em nome 
de Jesus envia todos os anjos necessrios para esta tarde, para esta 
Ministrao, todos, todos, todos os que vamos precisar. Cerca com 
paredes de fogo esta sala, com carpetes de fogo, teto de fogo! Sela esta 
nossa conversa, cada palavra que for dita aqui, que seja encoberta no 
Reino Espiritual. Mandamos embora agora todo espio, todo demnio, 
Principado ou Potestade que possa ter acompanhado Eduardo, ou 
Isabela, ou a mim. Torna este lugar invisvel no Reino Espiritual, e nada, 
nada, nada do que formos falar caia em mos do inimigo.
Mesmo de olhos fechados ouvimos Grace levantar da sua cadeira 
e pegar seu frasquinho de leo, aproximando-se de ns.
 Pai, entregamos esta mente a ti!  disse ela passando vrias 
vezes a mo sobre a cabea de Eduardo, ungindo-o vigorosamente.  
Faz com que ele se lembre de cada coisa que for importante, que ele 
possa colocar tudo nas Tuas mos. Fortalece esse Teu filho, e traz o 
genuno arrependimento nesta tarde.
Eduardo orava baixo, com as palmas das mos estendidas, em 
sinal de submisso e recebimento. Seu rosto contrado demonstrava sua 
convico da presena do Esprito Santo e dos anjos. Eu orava junto 
com ele, a maior parte do tempo em lnguas, intensamente.
Ento Grace aproximou-se de mim:
 Guarda essa Tua filha, ns agradecemos porque o Senhor 
colocou Isabela junto de Eduardo, para que ele no caminhasse sozinho. 
Muito, muito obrigada! E agora eu peo que o Senhor d a ela a uno 
necessria para interceder hoje de acordo com a Tua Vontade, meu Pai! 
Muito obrigada. Amm!
As oraes de Grace eram curtas, intensas, sem muitos arroubos 
de vocabulrio, simples como quem conversa, como quem sabe da 
autoridade que tem em Cristo e no precisa ficar repetindo e repetindo as 
mesmas coisas. Nunca gritava. Esse era o seu jeito.
Abrimos os olhos e ajeitamos o cabelo, despenteados pelas mos 
de Grace durante a uno. Limpamos o leo da testa e ela foi novamente 
sentando:
 Vamos comear. Ricardo est atrasado, mas ele deve chegar.
  Ele falou que vinha?  perguntei, preocupada que no 
houvesse um intercessor "de verdade". Eu no me considerava 
intercessora, embora orasse todo o tempo com toda a fora que tinha, 
sentindo a dor de Eduardo junto com ele.
 Sim, ele confirmou com a minha secretria que estava tudo 
certo. Acho que ele deve estar vindo. Mas no vamos perder tempo, no 
?
Assentimos. Ela indagou, olhando para Eduardo.
 OK. Ento?
Eduardo comeou a falar, a explicar cada item da sua lista. Grace 
ouvia, comentava, fazia algumas perguntas e anotava o que era 
importante para ser ministrado depois. Vez por outra, arregalava os 
olhos, compadecia-se com Eduardo. Nunca  nunca, em hiptese 
alguma  Grace julgava.
Ricardo chegou com duas horas de atraso. Bateu na porta, entrou 
bem no meio de uma parte delicada. Naquele dia a Grace ministrava o 
envolvimento de Eduardo dentro do contexto dos Rituais. (Leia Filho do 
Fogo).
Como isso era feito?
Eduardo contou em termos gerais cada etapa do Ritual de 
Iniciao, e o objetivo delas. Grace era perspicaz em no se ater  
histria em si, que no era relevante, mas aos itens que tinham efeito 
legal no Reino do Esprito.
Isto : no importava saber como estava o dia, nem como Eduardo 
se sentia, por exemplo. Realmente, os detalhes que criariam o romance 
Filho do Fogo seriam contados muito mais tarde, apenas para mim, para 
que eu pudesse escrever. No tinham nada a ver com a Ministrao. Ali, 
o objetivo era outro! No se tratava de um bate-papo com intento 
especulativo.
Visava cancelar toda e qualquer legalidade diablica sobre a vida 
de Eduardo.
Por esse motivo a Ministrao s vezes tinha o aspecto de uma 
grande colcha de retalhos, pedaos de uma histria que ia se formando 
aos poucos. Aprendemos que um territrio, ou rea da vida, que uma vez 
foi entregue ao diabo consciente ou inconscientemente tem que ser 
tomado de volta. Satans no devolve espontaneamente nada que um 
dia foi dele. O texto Bblico de Isaas 53 diz que Jesus toma sobre si as 
nossas Maldies. Sabemos que Jesus trouxe
Redeno espiritual, emocional e fsica. Jesus j pagou o preo na 
Cruz h mais de 2000 anos, mas s recebemos o Dom da Salvao, por 
exemplo  a redeno espiritual , uma vez que tomamos posse desta, 
pela confisso da nossa boca, crendo no corao.
No  diferente em se tratando de Maldies. Toda rea ocupada 
pelo diabo torna-se maldita. Mas sabemos que Jesus tomou no madeiro 
toda Maldio, no entanto, da mesma forma como acontece com a 
Salvao,  preciso tomar posse disto! A Salvao est disponvel a todo 
ser o humano, mas s a recebemos quando tomamos posse dela. Com 
as maldies  a mesma coisa.
A Ministrao no  um passe de mgica, nem uma prtica 
mirabolante. O seu objetivo  libertar e curar.
Claro que Deus tinha feito muito quando Eduardo aceitou Cristo 
como Senhor e Salvador. Desde aquele dia ele estava perdoado, lavado, 
purificado, era feito filho de Deus, recebeu o selo do Esprito Santo. 
Nunca mais Abraxas ou qualquer outro demnio poderia canaliz-lo sem 
o seu consentimento. J no era filho do Fogo, mas filho de Deus.
Apesar disso, seu andar ainda era coxo! Coxo, sim, em 
conseqncia das feridas profundas causadas pelo diabo ao longo da 
sua vida, e especialmente nos anos em que pertenceu  Irmandade. 
Coxo por causa de amarras e cadeias invisveis que ainda existiam como 
conseqncia do pecado. Deus perdoou o pecado, mas sobraram efeitos 
na vida de Eduardo.
Esse  o ponto aonde entra o nosso livre-arbtrio, a nossa prpria 
vontade:  preciso querer que nosso andar no seja mais coxo, antes 
perfeito e saudvel.
Jesus poderia ter ressuscitado Lzaro sem a ajuda daqueles que 
retiraram a pedra e as tiras de pano do seu corpo! Lzaro no podia 
fazer isso sozinho, por si mesmo. Ele precisava dos homens que se 
dispuseram a crer na ordem de Jesus. Embora o Filho de Deus no 
dependesse destes, quis contar com a sua participao.
Assim tambm  a Ministrao: Deus poderia fazer tudo sozinho, 
literalmente ressuscitar Eduardo, tir-lo so e salvo das Trevas para a 
Luz. No no sentido do novo nascimento, mas no sentido de libert-lo e 
cur-lo completamente de todo o efeito danoso que ainda existia em 
decorrncia da sua vida passada. No entanto, para pr em andamento 
esse processo, Deus preferiu contar com a ajuda de Grace para "retirar a 
pedra e as faixas", pois Eduardo no poderia faz-lo por si mesmo.
Terminado o relato, Grace cumprimentou Ricardo.
 Que aconteceu?  quis ela saber.                                                        
 S tive problema. Passei mal. Engraado que meu cachorro 
tambm.
 A gata da Isabela tambm!  retrucou Eduardo.  Vomitou, 
teve diarria.
 E voc no resistiu em orao?  perguntou Grace a Ricardo 
novamente.
 Bom... no exatamente.
Grace olhava meio indignada para ele. Apesar disso, falou calma e 
baixinho:
 Mas que que  isso, irmo? Voc discerne o ataque, tem que 
orar! No pode fazer assim.
Pedi licena para beber gua. Nossos copos j haviam secado. Fui 
e trouxe mais gua para todos. Agora podamos dar continuidade  
Ministrao com a presena de Ricardo.
 Eduardo, voc senta de frente para Ricardo e olha nos olhos 
dele. Eu oro e voc repete, sempre olhando pra ele.
Grace foi renunciando cada ponto importante do Ritual. Eduardo 
repetia, comeando pelas "palavras".
 Cada palavra de Encantamento que foi pronunciada sobre a 
minha cabea, eu cancelo agora, rejeito, torno sem efeito. Toda 
consagrao feita pela minha boca, toda orao "ao contrrio", toda 
palavra que entregou minha vida ao Satanismo e  Irmandade, torno sem 
efeito. Toda renncia do Cristianismo, cada palavra nesse sentido eu 
quero apagar do Reino Espiritual e cancelar todos os seus efeitos. Toda 
palavra que saiu da minha boca para entregar minha vida a Abraxas, eu 
tambm cancelo agora. Declaro que ele no  meu Guardio, nem meu 
protetor; meu Protetor  Jesus Cristo, Ele  meu Senhor e Salvador!
Depois, Grace pedia que Eduardo orasse por ele mesmo, pedindo 
perdo por toda palavra de consagrao. Ns intercedamos todo o 
tempo. Ento amos adiante: "alianas". Grace orava, Eduardo repetia.
 Senhor Jesus, eu renuncio a toda aliana firmada naquela noite. 
Renuncio  aliana com minha "alma gmea". Eu no tenho parte com 
ela, porque eu sou da Luz. Corto agora toda a aliana espiritual. No 
tenho alma gmea, quem decidiu isso foi o diabo, e eu no tenho mais 
parte com ele nem com nenhum plano que ele tenha preparado para 
mim.
 Em que dedo voc usava a aliana dela?  interrompeu Grace.
 Neste  fez Eduardo.
 Ento, simbolicamente, tire esta aliana do dedo e entregue a 
Jesus. Eduardo no questionou, apenas obedeceu, orando e fazendo o 
gesto de retirar o anel.
 Eu tiro agora a aliana de Thalya do meu dedo, declarando que 
todo contrato est desfeito, todo acordo que nos envolvia, todo o futuro 
que estava proposto. Em nome de Jesus, amm!
  Deus, passa Teu Fogo sobre esta aliana e a destri 
completamente. Declaramos que ela est anulada pelo Poder maior da 
Aliana que o Teu filho tem com Cristo. Tudo o que ela representou um 
dia ns renunciamos e tornamos sem efeito!  continuou Grace logo em 
seguida.  Pode repetir agora, Eduardo...!
Eduardo foi repetindo:
 Toda a aliana firmada com a Irmandade naquela noite, eu 
tambm cancelo completamente. Declaro com minha boca que eles no 
so meus irmos e eu nada mais tenho com eles. Tambm da aliana 
com Lcifer, da aliana com Abraxas eu me desfao, em nome de Jesus, 
me desligo. Peo a Deus que torne tais alianas inoperantes, que passe 
Fogo sobre a minha vida e me purifique.
Normalmente eu ficava calada a maior parte do tempo, pois no 
queria interromper e nem atrapalhar a Ministrao. Apenas orava e 
observava. Mas naquele momento fiz um aparte, assim que Grace 
terminou:
 Ele no deveria renunciar tambm  aliana com Marlon? 
Indiretamente ela tambm foi confirmada no Rito de Iniciao.
 Sim  fez Grace.  Pode orar voc, Eduardo, e depois j ore 
tambm pedindo perdo por ter consentido nestas alianas.
Eduardo obedeceu. E ns seguimos adiante.
 Nesta noite voc abriu um Portal, certo?  perguntou Grace, 
olhando para suas anotaes.  Como era mesmo que isso funcionava?
Eduardo explicou. Ento Grace novamente tomou as rdeas da 
Ministrao:
 Quais eram os Portais que Abraxas usava?
Eduardo continuou explicando. Sem maiores delongas, Grace 
levantou-se para ungir os ditos Portais. Pediu a limpeza, a 
descontaminao, o fechamento daquelas portas de entrada para 
Abraxas. E seguiu nas oraes de renncia e consagrao.
 O que mais foi dito naquela noite?  Grace relanceou com os 
olhos suas anotaes.
 Bem... teve o que comi e bebi.
 OK. Olhe para Ricardo.
Eduardo foi repetindo frase aps frase.
 Toda espcie de "hstia" que recebi, e comi, como smbolo de 
consagrao da minha vida ao Inferno, peo que o Senhor esteja 
anulando completamente hoje! Limpa tambm o meu organismo de toda 
contaminao. Senhor Jesus, passa Teu Sangue pelo meu aparelho 
digestivo e por todos os sistemas que foram contaminados. Limpa-me 
completamente! E todo o efeito espiritual, todo o efeito de consagrao 
eu tambm cancelo e renuncio. Declaro que no fao parte da 
Irmandade e nem da mesa de Lcifer. Declaro que eles no so minha 
famlia, minha famlia  o Povo de Deus. Da mesma forma, tudo que bebi 
para me consagrar  Irmandade e a Abraxas, eu tambm vomito agora 
espiritualmente. Limpa meu organismo de toda a sujeira e efeito 
malfico. Toda bebida que foi fruto de magia e Encantamento, toda a 
bebida do caldeiro eu rejeito. Cada componente, cada ingrediente, e 
todo efeito est cancelado agora pelo sangue de Jesus!
Grace ungiu a boca de Eduardo, e tambm seu estmago.
Ele estava visivelmente incomodado, entristecido. Tudo aquilo era 
um assunto que o desgastava bastante. Alm do peso espiritual havia 
uma carga emocional muito forte. A Ministrao seguiu adiante at o fim, 
at o ltimo ponto.
Em dado momento, Grace pediu que Eduardo renunciasse s 
palavras de Encantamento que eram usadas para invocar Abraxas.
 Tinha uma maneira certa de fazer isso no?
 Oh, sim! Certamente. Em aramaico.
 Tudo bem!  apressou-se em advertir Grace.  Pode falar 
aqui. Depois ore para renunciar essas palavras de invocao especficas 
para ele, que era o seu principal Guia.
 T bem...  melhor mesmo ir por partes!
 OK, sempre olhando para Ricardo... pode falar.
Grace nessa altura j estava de p ao lado deles, que se olhavam 
um ao outro enquanto Eduardo orava alto e Ricardo intercedia baixo. 
Eduardo estava com a respirao ligeiramente acelerada.
 Pode orar voc, Eduardo.
  Senhor Deus, eu me desfao completamente da aliana com 
Abraxas, renuncio ao Poder dele sobre mim e tambm ao Poder de 
invoc-lo por meio dessas palavras....  ento falou aquela frase 
estranha, uma lngua completamente desconhecida.
 Amm!  falou Grace, observando-o.
 Amm  repetiu Eduardo.  Nossa......mas que coisa!!...
 Que foi?  indagou Grace.
 Voc tambm sentiu?  perguntou Ricardo, desta vez um tanto 
surpreso.
 Senti... que estranho! Que coisa horrvel!... Quer dizer, voc 
sentiu? Parecia uma anestesia de dentista... quando orei e falei aquela 
frase senti todo o meu lado esquerdo paralisado, dormente. Ele... 
Abraxas... sempre se aproximava de mim deste lado!
 Exatamente! Boa descrio, como uma anestesia de dentista... 
uma opresso muito forte! S que eu senti do meu lado direito, pois 
estamos frente a frente. Sinal que algo realmente se aproximou por este 
canto da sala.
 Mas que ousadia!  exclamou Eduardo.  Como  que 
pode?!! Vir at aqui? Grace no parou para ficar com comentrios. 
Firmemente declarou, sem pestanejar:
 Vamos continuar.
Eu somente observava e intercedia. Realmente Eduardo tornava-
se sensvel. Eu via Deus confirmando e confirmando aquele Dom de 
Discernimento para ele. Ricardo no se espantava tanto porque ele 
prprio tinha vises e discernimento espiritual daquela maneira. Incrvel! 
Os dois perceberam do mesmo jeito, no mesmo instante, sem qualquer 
aviso prvio.
Mais tarde eu entenderia que Principados e Potestades so 
demnios de caractersticas peculiares, muito Poderosos. Tinha ficado 
claro que Abraxas ainda podia aproximar-se de Eduardo, e mesmo 
invadir nossa sala apesar da orao de Grace resistindo ao inimigo. Ele 
estava ali desde o incio. E no momento exato da renncia, Deus permitiu 
que a presena dele fosse revelada.
Ficava cada vez mais claro que enquanto a Ministrao no 
terminasse, e todas as portas abertas na vida de Eduardo estivessem 
fechadas, nem sempre as nossas oraes de resistncia teriam 
realmente Poder para impedir o avano do inimigo. Enquanto existissem 
legalidades, eles poderiam aproximar-se.
Depois do grosso, as arestas foram sendo aparadas. Tudo foi 
colocado em orao de renncia: as vestes utilizadas, as msicas 
ouvidas, os cheiros inalados, tudo o que entrou pelos rgos dos 
sentidos e ficou arquivado na mente de uma forma ou de outra. At 
mesmo o jantar foi renunciado.
Enfim: todo simbolismo daquela noite foi devidamente cancelado 
no Reino Espiritual. Aquilo se traduzia em muitas "portas fechadas" na 
vida de Eduardo, portas estas que estavam antes abertas e permitiam o 
acesso das Trevas.
Tinham sido muitas horas de conversa e orao, tanto as que 
Grace pedia que Eduardo repetisse, quanto as que ele devia fazer 
sozinho. Mas o Senhor agiu. Muitas foram as lgrimas de Eduardo e 
vrios foram os momentos difceis.
Na seqncia, Grace aproveitou e ministrou rapidamente os 
pontos importantes dos outros tipos de Rituais: os de Abertura de Portais 
e as Festas Rituais. Para isso bastou levar em conta as diferenas 
bsicas entre um e outro, ao mesmo tempo em que os Principados que 
haviam feito aliana com Eduardo eram rigorosamente rejeitados. Foi 
uma grande limpeza espiritual naquele dia!
Foram horas bastante duras para Eduardo, que chorava vrias 
vezes e de vez em quando no conseguia ir adiante. Eu me desgastava 
junto com ele, sofrendo tambm, inclusive chorando junto. Mas sempre 
intercedendo em lnguas.
Certa vez, algum que tambm labutava na rea de Batalha 
Espiritual nos disse algo sobre a questo da especificidade da 
Ministrao.
Eu havia me questionado sobre se era necessrio orar e renunciar 
cada detalhezinho, ou apenas os pilares fundamentais. Trocando em 
midos, se o diabo plantou sementes malignas na vida de algum, e 
estas frutificaram produzindo uma grande rvore,  necessrio derrub-
la. Mas basta podar apenas as razes e os principais galhos, ou  
necessrio ater-se a cada folhinha que brotou em cada galho? Ou seja, 
no basta cortar o tronco, mas  preciso incendiar cada folha de cada 
galho?
Pelo que estvamos aprendendo e vivenciando, a resposta era 
que cada folhinha deveria ser apresentada diante do Trono de Deus para 
ser confessada e destruda pelo Fogo consumidor do Senhor dos 
Exrcitos. E no apenas os galhos e razes principais.
Longe de querermos fazer disso uma doutrina, compreendemos 
hoje que isso foi Rhema para ns. Porque o envolvimento de Eduardo 
tinha sido muito profundo.
Mas aquela pessoa havia nos dito o contrrio, que quando voc 
destri um grande galho, todos os envolvimentos e prticas menores (as 
"folhinhas e galhinhos") caem instantaneamente sem que haja 
necessidade de ministrar um a um. E secam!
Ou seja, no caso do Rito de Iniciao bastaria ter renunciado ao 
Rito como um todo, os pontos principais, sem a necessidade de nos 
preocuparmos com detalhes de menor importncia como roupas usadas, 
msicas ouvidas, alimentos ingeridos, etc. .. pois a raiz principal j tinha 
sido derrubada.
So vises doutrinrias diferentes, e durante um tempo ns no 
sabamos exatamente qual seria a resposta correta. At que Deus nos 
mostrou algo que terminou de tirar nossas dvidas. Ento deixamos de 
nos questionar. Deus se alegra com o questionamento genuno e que 
visa edificao; Ele sabia que o nosso desejo era agrad-Lo acima de 
tudo, ento Deus deixou bem claro que, no nosso caso, cada detalhe 
tinha valor pelo simples fato de que a Irmandade no desperdia os seus 
simbolismos. Cada um daqueles detalhes tinha por objetivo realmente 
agradar a Lcifer e ao Inferno, realmente eram prticas  todas elas  
capazes de abrir grandes lacunas na vida espiritual de algum.
No quer dizer que essa direo v ser igual para tudo e todos.  
importante buscar e discernir a direo de Deus para cada caso.
A experincia que Deus nos deu foi a seguinte: naquele mesmo 
dia, quando j praticamente Grace dava por encerrada a Ministrao, o 
Senhor trouxe algo mais. Isso  o que eu achava mais tremendo de tudo! 
Quando o nosso entendimento humano chega ao fim, quando fazemos 
cabalmente a nossa parte, Deus mesmo se incumbe de nos trazer a 
ajuda especfica no momento certo.
 Grace...  comeou Ricardo.  Deus est me mostrando uma 
coisa. Posso falar?
 Claro que pode!
Ricardo voltou-se para Eduardo:
  Eu no sei se isso aconteceu, ou no, mas eu vi voc falando 
uns Encantamentos e olhando num espelho. Ento, por trs de voc 
apareceu a imagem de um demnio, e o reflexo dele apareceu tambm 
no espelho, ao seu lado, meio por trs... e a foi esquisito, era como se o 
seu rosto e o rosto desse demnio  que no era Abraxas  se 
sobrepunham e se tornavam uma coisa s!
Durante alguns segundos Eduardo olhou para Ricardo com 
admirao. Ento sorriu:
 , Deus te mostrou mesmo isso, porque eu mesmo j nem 
lembrava mais. No era nem uma coisa importante!...
Eduardo explicou que aquela foi uma das primeiras prticas 
realizadas na Escola de Iniciados e que tinha por objetivo revelar um "ser 
de uma dimenso superior".
 Foi uma coisa tola, nem sei que demnio era aquele. Tratava-se 
apenas de uma experincia  concluiu Eduardo. (Leia Filho do Fogo).
Essa foi a primeira vez que o Senhor trouxe  tona episdios que 
Eduardo nem sequer nomearia, por consider-los sem importncia diante 
do resto. Eram apenas pequenas "folhas", um "galhozinho" de nada. Mas 
a verdade  que Satans pode fazer de uma coisinha aparentemente 
sem importncia uma porta de entrada escondida em nossas vidas. Esta 
foi a lio do Senhor naquele dia.  um buraquinho aqui e outro ali que 
podem tornar uma pessoa comprometida com Cristo ainda vulnervel 
aos ataques do diabo.
Mas teramos no futuro muitas ocasies para comprovar a 
veracidade disto!
Ao final, um pouco brilhante por causa do leo com o qual foi 
ungido vrias vezes, Eduardo estava com o semblante renovado e Grace 
o mirava com olhos compassivos.
 Que estrago o diabo fez nessa sua alma...  murmurou ela de 
maneira terna.  Mas o nosso Deus  grande, no  mesmo?
Todos ns assentimos com um "amm".
 Que coisa....  ela ainda orou mais uma vez por ele.  
Obrigada pelos Teus feitos neste dia, Senhor. Nosso corao agradece 
pois no h nada que o Senhor no possa fazer! Derrama Teu Blsamo 
sobre a alma do Teu filho, traz sobre ele a Paz, cobre com Bnos a 
vida dele. Que nestes dias o Teu Esprito continue se movendo. 
Obrigada pela libertao, pela restaurao que o Senhor est fazendo, 
preparando Teu filho para as coisas que ho de vir. Muito, muito 
obrigada!
Ento ela aproximou-se de mim:
 Guarda tambm Tua filha, ns agradecemos pela vida dela. D 
tambm a Tua Paz e a Tua Proteo sobre a Isabela, sobre sua famlia, 
seus animais, seu emprego. Que ela seja mais e mais uma auxiliadora 
do Eduardo. E agora leva os dois debaixo de Tuas Asas, debaixo da 
proteo do Sangue do Cordeiro. Obrigada pelos anjos que esto 
sempre acompanhando os Teus filhos, e traz mais anjos, Pai. Guarda o 
carro deles, e as suas casas. Tenha Misericrdia! Amm!
 Amm!
Todos ns sorramos mais leve agora. Um grande peso havia sido 
tirado de mim e de Eduardo, aquela montoeira de lixo havia sido 
entregue a Deus, com arrependimento e lgrimas, com quebrantamento 
e f. J no existia mais! Mais uma etapa fora vencida!
Que alegria!!!
Fomos todos nos erguendo. Sem aviso, novamente, Grace 
lembrou-se em tempo:
 Vamos limpar esta sala!  sem esperar a resposta, ela pediu a 
Ricardo que o fizesse.
Ricardo orou efetivamente pondo ponto final naquela batalha.
 Senhor Deus, em nome de Jesus ns pedimos que toda 
contaminao que possa ter ficado aqui neste lugar, como conseqncia 
desta Ministrao, seja retirada agora. Limpa este ambiente, esta sala, 
este ar. E tudo o que  do inimigo ns mandamos embora, em nome de 
Jesus, para bem longe daqui, para o lugar que o Senhor determinar. Ns 
tambm nos limpamos, limpamos a nossa armadura. Passa sobre ns o 
Sangue de Cristo e nos purifica. Amm.
 Glria a Deus!  exclamou Grace.  Deus  bom!
Eduardo foi ao banheiro, Ricardo saiu atrs dele para ir tambm. 
Eu e Grace ficamos na salinha, ainda conversando. Ela quis saber como 
estava minha me, como estava Marco. Eu fui falando um pouco. Grace 
arrumava suas coisas, e por fim me abraou:
 Voc  muito amada, viu?!
 Voc tambm !  respondi meio sem jeito.  Voc  muito 
querida, de verdade!
Eu amava muito a Grace, e sabia tambm que ela me falava aquilo 
com sinceridade. Eu sentia!  Meu feeling sempre foi muito aguado, e 
Grace no estava falando apenas por falar. Ela provava seu amor em 
cada atitude, cada palavra, cada gesto. Era dispensvel que dissesse 
qualquer coisa. As palavras apenas reiteravam o que eu j sabia atravs 
das atitudes prticas. Ns sabamos do seu amor, carinho e zelo por ns.
A bem da verdade, eu e Eduardo amos ouvir muitas vezes 
aquelas palavras: "vocs so amados"! Pena que fossem somente 
palavras, na maioria das vezes.
Eduardo e Ricardo foram entrando na sala novamente, 
conversando com animao. Os dois tinham mais ou menos a mesma 
idade. Olhei para Eduardo significativamente. Ele lembrou e falou pra 
mim, sem interromper Ricardo, que contava de um filme que ele julgava 
satnico.
 Pode dar, pode dar...
 Olha, Grace, isso aqui  pra voc!  falei eu me animando e 
estendendo a caixinha decorada para ela.
 Ahh... mas no precisava! O que  isso? Muito obrigada!  
falou Grace em resposta, sorridente, sempre no tom de voz calmo to 
caracterstico.
 Este  pra voc, Ricardo!  foi a vez de Eduardo estender a 
outra caixinha, dando-lhe uns tapinhas no ombro.  Pensou que pra 
voc no tinha nada, ?
 Puxa, obrigado!
 Isso  s uma lembrancinha, um smbolo do nosso carinho por 
vocs.
 Vocs so muito especiais pra gente!  Que Deus abenoe!
 Oh, que bonita! Fico muito agradecida.
 A gente achou que combinava com voc, Grace.
 Abre logo o seu, Ricardo. Tem que ver agora!
 Olha s...  observava Grace.   a cara dele, combina muito 
bem!  Obrigado, obrigado mesmo pela lembrana.
 Tem at bombom.  Faam bom uso!
Fomos saindo da sala abafada. J tinha cado a noitinha. Grace e 
Ricardo iam ficar ali ainda um pouco mais. Despedimo-nos. Grace 
realmente era ocupada. Ela no parava nunca, que flego tinha aquela 
mulher!
 Tchau!
 Tchau, Deus abenoe!
Samos. Cansados, mas alegres. A Ministrao esgotava o corpo e 
as emoes, mas a alegria que vinha do esprito passava por cima 
daquilo. E ns sempre tnhamos muito o que comentar, muito o que 
agradecer! E mais ainda, do que nos alegrar!
* * * *
Captulo 19
Eu e Eduardo samos da academia. Da nova academia! Da 
Coliseum! Faltavam apenas trs dias para o Natal e tnhamos que 
aproveitar para gastar muitas calorias! Melhor compensar antes, do que 
depois.
Mas gastar calorias no era o nico motivo de malhar. Ns 
havamos realmente empenhado um bom dinheiro na matrcula, na 
mensalidade, no exame Mdico, no incio daquele ms de dezembro. 
Eduardo ainda contava com recursos da sua resciso contratual e apesar 
de no haver dvidas de que logo conseguiria outro emprego melhor, 
no se podia desperdiar dinheiro. Por isso tnhamos mais  que 
aproveitar, sem ficar preocupados com aquele gasto.
Afinal, estvamos investindo, em ltima anlise, em sade! Nada 
melhor do que cuidar bem dela.
E assim a gente fazia: Eduardo era louco para correr naquela 
formidvel esteira pneumtica e computadorizada, para fazer 
musculao. Eu fazia minha parte aerbica de maneira mais 
diversificada, com spinning, com transport ou, principalmente, com aulas 
de aerodance, street funk, coisas assim. Eu gostava dessas aulas em 
que o professor ia dando aos poucos uma coreografia, e cada aluno 
acompanhava por si mesmo. Eu matava um pouco minhas bichas de 
vontade de danar, e Eduardo no se implicava, afinal ningum danava 
aos pares. Depois, deixava para fazer a minha parte muscular nas aulas 
de ginstica localizada. No era ainda plenamente adepta da 
musculao, embora fosse ser no futuro. Muito adepta.
Foi assim durante o ms todo. Mas naquele dia comeamos a ter 
mais motivos para nos preocupar com a questo financeira.
Eu j estava tendo alguns problemas com meu emprego h algum 
tempo, e eles acabaram por estourar naquela data. Certamente que em 
parte a culpa era minha porque negligenciei um pouco o esquema dos 
convnios. Para dizer a verdade, eu nem sabia qual era o "esquema" dos 
convnios. Para mim Medicina era Medicina.
Sempre estive acostumada com uma outra realidade, com a 
realidade do Hospital Escola, do Hospital Pblico. Agora eu trabalhava 
num Ambulatrio de Empresa, e a coisa era completamente diferente. O 
que mais me incomodava era o fato de que quase cem por cento das 
consultas eram bobocas, corriqueiras, e eu tinha que ficar paparicando 
pessoas que queriam boicotar o servio pelo maior espao de tempo 
possvel.
Realmente s vezes os funcionrios abusavam da comodidade de 
ter o servio Mdico ali mesmo, no ambiente de trabalho. Tinha sempre 
os espertinhos que queriam me fazer de otria, inventando problemas 
para conseguir um atestado. E tinha gente que s queria mesmo bater 
um bom papo, no se limitava a falar sobre o problema em si, pegar a 
receita, e voltar para o departamento.
E eu no tinha muito jogo de cintura para aquilo, confesso. Pelo 
simples fato de no estar acostumada. Era meu primeiro emprego, eu 
vinha de um ritmo diferente, minha mente ainda era mente de PS, mente 
de UTI, mente de enfermaria e de Ambulatrios de doenas especficas. 
Confesso que era muito chato aturar gripe, dores de estmago, de 
coluna... em suma, males do cotidiano! Para que estudar tanto, se agora 
meu dia a dia se resumia nisso? No que o Ambulatrio de Empresa no 
fosse importante, mas a realidade  que eu no gostava daquilo!
No entanto, eu atendia as pessoas bem, fazia o melhor que estava 
ao meu alcance. Conversava sobre o problema, explicava, receitava. 
Mas de maneira concisa. s vezes pedia um exame um pouco mais 
complexo do que o velho "check-up", mas isso era, quando muito, uma 
EDA ou um ECO. As patologias mais especficas eram encaminhadas 
para os especialistas, geralmente o Gineco, ou o Gastro ou o Crdio.
Que servio chato! O tempo no passava. Na Faculdade a gente 
no via o tempo passar. Ali era o contrrio.
Eu entrava s sete horas, mas vez por outra chegava atrasada 
propositadamente porque preferia que os pacientes agendados fossem 
atendidos todos de uma vez s, um atrs do outro. Ento fazia com que 
eles esperassem um pouco para facilitar meu trabalho.
No raro nove horas da manh j tinha atendido todas as 
consultas. Era tudo muito simples. Eu tinha conscincia de que fazia meu 
trabalho direito, mas comecei a perceber que os pacientes do convnio, 
que pagam, no querem apenas sair com a receita. Precisam ser 
paparicados, mimados, lambidos para sentirem-se confortveis com o 
dinheiro investido no plano de sade.
Ah! Que problema.
Por outro lado, pedir exames era problemtico: durante um perodo 
apareceu tanta gastrite que pedi vrias EDA's: elas me revelaram at 
mesmo algumas lceras e helicobacter pylorii, era legal trat-las, ver 
melhorar. No meu entender no havia o menor problema, nunca fui 
ensinada a economizar exames no Hospital Escola. Se era para o bem 
do paciente... alm do que, estes pacientes pagavam por isso.
Logo fui chamada  ordem por pedir exames demais. No 
acreditei! Isso nunca teria acontecido na Faculdade. Fiquei meio 
implicada com aquela postura, a partir da lavei as mos: encaminhava a 
maioria das minhas queixas digestivas, ao invs de trat-las ali mesmo. 
Tratava s os casos mais brandos. Ficava pior para o paciente, que tinha 
que agendar uma nova consulta com o especialista fora da Empresa, e 
perdia normalmente um perodo inteiro do expediente. Claro que tambm 
ficava pior para a Empresa, que tinha que dispensar o funcionrio.
Problema do Gastro! Eu que no ia me complicar por causa das 
Endoscopias! As queixas mais leves curavam somente com tratamento e 
dieta, no havia necessidade de uma investigao maior.
Depois foi o problema dos atestados. Eu tinha um critrio para 
dispensar algum. No ms de inverno surgiu ali uma epidemia forte de 
gripe, a ponto de 90% das consultas serem todas iguais. Eu mesma 
peguei uma horrvel gripe de tanto que tossiam e espirravam em cima da 
minha mesa. Fato  que ningum com febre merece ficar no servio, a 
febre derruba muito!
Dispensei vrios pacientes naquele ms e isso foi o suficiente para 
que voltassem a advertir-me: "Voc est dispensando gente demais!" 
Quase respondi: "Que posso fazer? As gripes chegam no Clnico Geral, 
no no dentista!"
Novamente, ento, procurei segurar ao mximo as dispensas. Mas 
a eram os pacientes que ficavam de bico e saam boquejando contra 
mim: "A Mdica ingrata e insensvel!!"
Que situao, eu ficava entre a cruz e a caldeirinha! Por que 
simplesmente no me deixavam trabalhar em paz? J no bastava terem 
seu diagnstico e tratamento bem feito?! Que droga!
s vezes eu via as anotaes de Clnicos anteriores, em 
pronturios mais antigos, certas coisas absurdas, concluses grotescas, 
diagnsticos errados. Que Faculdade teriam feito??? Eu podia no ter 
pacincia de lamber os pacientes como mame-gata com seus gatinhos, 
mas eu no ia cometer aquele tipo de engano! Minha formao tinha 
ficado deficiente, claro, pela falta da Residncia, mas o bsico era 
sempre o bsico!
Finalmente meu chefe ligou-me um dia. Ele era um senhor grisalho 
bastante paternal, educado muito simptico.
 Tenho uma boa notcia!  ele amenizava a situao tentando 
convencer-me de que aquilo era um negcio da China.
E me falou sobre uma vaga em outro Ambulatrio do convnio, 
que no era Empresarial.
 Precisamos de algum pra cobrir umas frias, e pensei em 
voc, sabe por qu?
 Por qu?
 Porque vai vagar um horrio no Ambulatrio da Lapa que voc 
queria,  tarde, no ms que vem, ento imaginei que voc poderia ir 
desligando-se j da. Voc cobre as frias no Ambulatrio que estamos 
precisando, agora, e no ms que vem vai para a Lapa.
De fato, quando fui contratada, e me inteirei dos diversos 
Ambulatrios, fiquei bastante interessada pelo do Alto da Lapa. Era um 
bairro gostoso, residencial, a meio caminho entre minha casa e a casa de 
Eduardo. Mas, na poca, no havia vaga ali. Meu chefe garantiu que, 
caso vagasse, entraria em contato comigo.
 Puxa, mas eu j estou adaptada aqui... a bem da verdade... so 
vrios meses...
 Tudo bem, olha, no h nada definitivo, pense um pouco!  
dissera ele.  E a gente volta a conversar no fim da semana.
Na verdade, como entendi depois, no haveria escolha. Eu no 
estava muito a fim de sair da Empresa porque j me acostumara com o 
ambiente, com as enfermeiras, com o servio (apesar de um pouco 
chato!). Eu estava me esforando!
E, embora bastante longe, o que me fazia pegar um bom trecho de 
trnsito todo dia na Marginal Pinheiros, aquele lugar tinha um diferencial: 
era ultra perto do servio de Eduardo. Durante o ano, muitas e muitas 
vezes nos encontramos no horrio de almoo, comemos juntos antes de 
eu voltar para casa e ele para o trabalho.
Enfim... agora Eduardo j no trabalhava mais l! Que haveria de 
ser feito?!?...
Quando meu chefe tornou a ligar, foi mais incisivo. Certamente 
queriam trocar-me por algum mais adequado ao perfil de Empresa. 
Fiquei chateada, mas tive que concordar.
Ento, durante um ms fui cobrir o horrio vago no outro 
Ambulatrio. A vantagem daquele lugar era ser extremamente perto da 
casa de minha me. O ambiente era gostozinho e, diferente da Empresa, 
havia vrios Mdicos pois funcionavam ali tambm algumas outras 
especialidades alm da Clnica Geral.
Tinha uma cozinha bem ajeitada pra gente, com cafezinho e 
bolacha. No meio das consultas dava para fazer uma pausa, dar uma 
descida, e fui conhecendo aos poucos os outros colegas, fui me 
adaptando. Adaptei-me rpido.
A facilidade de ir e vir contava, naturalmente, pois as distncias e o 
trnsito de So Paulo no so brinquedo. Depois de um tempo comecei 
a achar que realmente tinha sido o melhor, e minha vontade era 
continuar ali mesmo. Alm do qu, no tinha mais o tormento dos 
atestados. Quem vinha j tinha agendado consulta com antecedncia, 
era difcil que algum acordasse com diarria e viesse buscar atestado 
pra faltar ao servio. Isso era mais coisa de pronto atendimento, de PS... 
e de Ambulatrio de Empresa!
Mais ou menos no meio do ms, conversando com os colegas, 
fiquei sabendo que era provvel que aquela vaga ficasse em aberto, que 
talvez o antigo Clnico no retornasse. Fiquei satisfeita e imaginei que 
talvez pudesse continuar ali. Nem estava mais querendo ir para a Lapa. 
Liguei para meu chefe, apenas para receber a triste notcia.
 Infelizmente j foi contratada uma pessoa para ficar a, que j 
est trazendo os documentos e tudo mais. Ns j colocamos voc na 
Lapa e no tem como voltar atrs.
 Puxa, no tem mesmo? Est to fcil pra mim trabalhar aqui!  
to perto!
  No tem jeito porque no fui eu que a contratei, mas o outro 
Mdico recrutador. Ns dois selecionamos os Mdicos para os 
Ambulatrios, mas cada um tem os seus territrios, por assim dizer. E ele 
 o responsvel a pelo Ambulatrio onde voc est. Eu emprestei voc 
provisoriamente, mas quem fecha as vagas  ele. E como voc estava 
interessada na Lapa...
Encurtei a conversa. Nada podia fazer para mudar aquilo. Ficaria 
ali apenas mais duas semanas, e s:
 Tudo bem, doutor Paulo, eu entendo. No tem problema 
nenhum.
 Tudo bem mesmo?  Tudo bem.
Mas fiquei triste. Que droga! De repente, estava tudo to 
complicado........
No final do ms eu fui para o Ambulatrio no Alto da Lapa.
No que aquele lugar no fosse bom, pelo contrrio. Era uma 
Clnica ampla, agradvel, bonita... minha sala era ensolarada e eu 
passaria a trabalhar de tarde, o que era bom para mim. Pelo menos, era 
antes. Eu queria estar ocupada  tarde para sair do servio mais ou 
menos em horrio compatvel com o de Eduardo. Mesmo porque, 
preferia poder levantar mais tarde porque gostava de ir para a cama 
tardssimo!
Mas agora  que pena!  ele estava livre e eu ocupada o dia 
todo. Fiquei amargurada com aquela falta de sorte! Se ele levasse um 
ms ou dois para arrumar outro trabalho teramos tido a chance de 
aproveitar bem melhor os nossos dias... mas agora eu teria as tardes 
ocupadas!...
Para ele de certa forma era bom, pois teria todo o tempo para ir em 
busca de emprego, sem ter que preocupar-se comigo. Mas eu estava 
frustrada!
Mais frustrada fiquei quando recebi o holerite referente ao ms que 
ficara cobrindo as tais "frias" l no outro Ambulatrio. Havia um dficit 
de quase 20% no valor total.
"Pxa, mas o que significa isso?", pensei comigo mesma, 
indignada. "Ser possvel uma coisa dessas? Deve ser um engano. Por 
que ser?"
Liguei para o Departamento Pessoal para checar o holerite. 
Informaram-me que aquele era o valor correto, o valor pago naquela 
regio.
 Como assim, "naquela regio"?
 Fora de So Paulo.
Suspirei. De fato. Embora encostado em So Paulo, a ponto de 
uma rua pertencer  capital e a esquina seguinte j no mais, a verdade 
 que estvamos fora do permetro urbano. Desliguei o telefone, furiosa. 
Claro que ningum se daria ao trabalho de me avisar!
"Que falta de tica! Esses convnios no tm mais onde lucrar em 
cima da gente!"
Tive que me conformar. Passou o ms, eu esperava novamente 
pelo meu pagamento, agora o primeiro salrio que receberia aps estar 
trabalhando na Lapa. Os demonstrativos eram entregues a ns, os 
Mdicos, no prprio Ambulatrio.
A atendente bateu na porta, no meio de uma consulta.
 Doutora, o holerite!
Eu estava de costas, tirando a presso do homem deitado na 
maca. Virei-me para ela:
 Ah, obrigada! Pode deixar a. Obrigada.
Terminada a consulta, enviei o paciente  salinha da medicao 
para tomar o seu Adalat SL e ficar em observao um pouco at sair do 
pice da crise hipertensiva.
  Seu Cristvo, no pode parar de tomar o remdio da presso. 
Seu cardiologista no explicou isso pro senhor, no?
  Ah, Doutora... mas  que a gente fez um churrasquinho nesse 
final de semana... da a patroa disse que no era bom misturar cerveja 
com remdio...
 OK, ento o senhor se enche de sal de churrasco e pra a 
medicao? No pode fazer isso, seu Cristvo... hoje no aconteceu 
nada de mais srio, mas em hiptese alguma o senhor pode interromper 
a medicao por conta prpria, ouviu?
Expliquei rapidamente os malefcios daquilo e as provveis 
conseqncias.
 Mas  que eu no estava sentindo nada...
 Tudo bem, seu Cristvo... o mais importante agora  o senhor 
tomar a medicao e ficar deitado l no repouso. Daqui a pouco vou l 
pra medir de novo a sua presso e ver se voc j est melhorando, t 
bom? Depois conversamos de novo. E eu vou encaminh-lo para o seu 
Cardiologista outra vez, viu?
Seu Cristvo saiu do consultrio em companhia da enfermeira, 
direto para o repouso. E eu fui abrir meu holerite.
"E no  que meu salrio est reduzido outra vez??"
Aquilo me enfureceu novamente e liguei imediatamente para o 
Departamento Pessoal. No entanto, eles me garantiram que o salrio 
estava correto e sugeriram que eu entrasse em contato com meu chefe. 
Foi o que fiz em seguida aps ter-me acalmado um pouco conversando 
com Eduardo pelo telefone.
 Liga l  dissera ele.  Devem ter errado em alguma coisa. 
Vai ver voc ainda est cadastrada como estando no outro Ambulatrio, 
fora de So Paulo. Do jeito como tudo funciona bem neste Pas!
 ...  resmunguei.  H de ser isso. Eu no posso abdicar de 
quase 20% do meu salrio outra vez. A gente trabalha o ms inteiro 
contando com um determinado valor, puxa vida! Que falta de respeito!!
Ento liguei para o doutor Paulo a fim de tomar informao.
 Mas o salrio  esse mesmo!  falou ele aps eu ter explicado 
o ocorrido. Fiquei muda por alguns instantes. Mas logo me recobrei e 
indaguei:
 Mas... como assim?
 O salrio pago aos Mdicos do Ambulatrio  esse, o que voc 
recebia a mais era um bnus concedidos aos Mdicos que trabalham em 
Ambulatrios de Empresa.
 Mas... mas ningum me avisou sobre isso e j faz dois meses 
que meu salrio vem reduzido!  respondi em tom azedo, embora no 
fosse essa a minha inteno. Ou melhor, at era, mas eu tinha que me 
controlar.
  uma pena que este detalhe tenha passado despercebido.
 Pxa, no  um detalhe qualquer! Eu no fui contratada para 
ganhar este salrio. A obrigao de vocs era ter avisado sobre isso! Eu 
nunca soube que ganhava nenhum bnus, na verdade fui contratada 
para ganhar um salrio naquele valor.
 Olha, voc nos perdoe a nossa falha. Mas o salrio  esse 
mesmo. Suspirei fundo e fiquei quieta na linha ainda por um tempo.
 OK  respondi meio seca.  Obrigada pela informao!
 Precisando de algo,  s ligar.
 Obrigada. At logo.
Desliguei o telefone insatisfeita, irritada, me sentindo lesada, 
roubada. Feita de idiota!
"Como que ningum me avisa nada, e me largam trabalhando dois 
meses como se eu tivesse obrigao de adivinhar?! No tenho bola de 
cristal! Eu deveria ter tido a chance de optar se queria continuar aqui 
depois de baixarem o meu salrio!!!"
Certa ou errada na minha posio, aquilo realmente foi um 
tremendo banho de gua fria para mim. Procurei fazer o melhor que 
pude, mas no gostava daquele trabalho chato de Ambulatrio de 
convnio! Mesmo assim, estava ali trabalhando, e trabalhando direito.
No entanto aquele servio estava muito longe da Medicina que 
conhecia. Eu fazia fora para no pensar nisso, no me influenciar. Mas 
aquele estado de coisa serviu para me baquear um pouco.
Quando contei a Eduardo, ele tambm no gostou e concordou 
comigo que era um grande desaforo. Eu s estava esperando pela 
palavra de aval dele.
Ns nem sequer pensamos em orar, ou consultar Deus sobre o 
que fazer naquela situao. A impulsividade da nossa alma, uma 
caracterstica j nossa, potencializada pela ira e indignao, falou mais 
alto. E nem paramos para pensar se ramos ou no Cristos naquele 
momento. Nem o que Deus desejava que fizssemos.
Realmente Deus teria ainda muito trabalho para nos moldar, para 
nos ensinar que Ele deveria ser consultado em toda e qualquer situao. 
Ns no percebemos, mas durante todos aqueles meses os demnios 
tinham trabalhado para fomentar aquela crise que estvamos vivendo 
agora. Tocando nas fraquezas da minha alma, que eles conheciam tanto 
por observar quanto por ouvir minhas declaraes de insatisfao, eles 
criaram situaes de desconforto. Uma aps a outra!
E agora, eu mesma deflagraria o estopim da minha sorte. No 
tnhamos pensando em orar mais especificamente pedindo proteo 
sobre os nossos empregos, no tnhamos idia de que isso fosse 
necessrio. Eram reas desguarnecidas, onde os demnios tiveram 
chance de agir. Eram reas no devidamente cobertas por orao.
Ento, Eduardo declarou diante do meu semblante cheio de 
expectativa e rancor:
 Chuta logo o balde deste emprego duma vez, Isabela! Me enchi 
de regozijo por dentro.
 Voc acha?
Ele deu de ombros.
 Descansa um pouco, umas duas ou trs semanas. Deixa passar 
o Natal e o Ano Novo. Depois voc arruma coisa melhor!
Era tudo o que eu queria ouvir. Ele me tirava um enorme peso das 
costas.
  isso a! Vou fazer isso mesmo!
 Pois faa mesmo, deixa essa gente falando sozinha!
Olhei para Eduardo com o rosto iluminado, no pude conter o 
sorriso que teimava em estampar-se no meu rosto.
 Ai, Nen, obrigada por voc ficar do meu lado!
Ele me abraou e ficou alegre por eu estar de alma lavada pelo 
que iria fazer. Nem pensamos, novamente, se era para ter sido assim.
  verdade. Ento, vou dizer que no vai dar pra continuar 
trabalhando com esse salrio. Talvez eles at me mandem embora.
 Se mandarem, voc recebe resciso completa. Cocei a cabea:
 Acho difcil, ningum faz acordo!
 Ah, tudo bem. Se voc avacalhasse um pouco...
 No... no levo jeito! Vou pedir demisso.
A verdade  que o tiro saiu pela culatra. Comeou que, de cara, 
eles me obrigaram a cumprir o aviso prvio to logo dei entrada com o 
pedido de demisso. Estaria presa ali por 30 dias ainda, at quase o final 
do ms de dezembro!
 Eu me recuso!!! Estou pedindo demisso e eles ainda querem 
que eu fique mais um ms, recebendo esse salrio?!  Eu reclamava 
com Eduardo.  No vou fazer! No vou fazer isso!
Ele me acalmava.
  Estranho exigirem isso. Todo mundo sabe que  um perigo 
conservar funcionrio insatisfeito em aviso prvio... pra que isso?
 No sei, no sei, no sei!  eu subia pelas paredes, enfurecida 
com aquela situao de desconforto.  Agora que no vejo mesmo a 
hora de sair de l!!!
 Bom... voc pode simplesmente faltar... Encarei Eduardo 
subitamente interessada:
 Faltar?? Mas o ms todo!?
 No, isso no pode. Parece que se voc faltar mais de quinze 
dias seguidos,  demisso por justa causa. Ento, voc falta uns catorze 
dias, vai uns dois dias, e depois falta o resto do ms!
 Puxa... ser que pode fazer isso?...
 Poder, pode... se voc tiver cara de pau para isso. O detalhe  
que eles vo te descontar as faltas. Mas, mesmo sendo demitida, voc 
tem direito ao seu dcimo terceiro e frias proporcionais ao tempo de 
trabalho. Voc no vai receber esses dias que faltar, mas frias e dcimo 
terceiro  direito de todo trabalhador!
Foi nessa informao que Eduardo acabou por equivocar-se.
Ele sempre fizera acordo ao desligar-se das Empresas aonde 
trabalhou, e no sabia que as frias e o dcimo terceiro eram pagos ao 
funcionrio que pede demisso aps um ano de casa. Pelo menos foi 
isso que o convnio alegou, mais tarde, para no me pagar.
Afoita como eu estava para dar um chute naquele emprego que 
tinha comeado to bom, mas que a cada dia me deixava mais 
insatisfeita, optei por fazer o que ele dissera. Quanta inconseqncia 
nossa!
Ele, por me estimular ao erro... eu, por aceitar sem questionar. Ns 
queramos que a nossa vontade prevalecesse. E ponto!
Assim aconteceu. Faltei, faltei e faltei. Despistei as perguntas da 
minha me, que estava com a pulga atrs da orelha com minhas faltas. 
Isso porque ela s viu algumas! Eu e Eduardo saamos de tarde, amos 
passear nos dias em que ele no tinha nenhuma entrevista ou processo 
de seleo marcado. Aproveitvamos as nossas "frias" do nosso jeito, 
do jeito que dava... isto , agora no dava para fazer muita coisa porque 
estvamos os dois sem trabalho! No exatamente por vontade nossa, 
mas tanto para mim quanto para ele as circunstncias colaboraram para 
que chegssemos neste fim.
Eduardo queria arrumar logo um bom emprego. Mas, no entender 
dele, eu podia descansar um pouco.
 S um pouco, Nen. Depois arrumo outro lugar melhor para 
trabalhar. Agora j estou mais escolada; antes, no tinha nem idia do 
que era trabalhar em convnio.
Dei as caras no aviso prvio por dois dias apenas.
 Passa um leo de peroba a, Isabela!
 leo de peroba?
 Nessa sua cara de pau!  ele morria de rir com meu jeito do 
tipo "no t nem a, fao mesmo".
 Quem manda eles me obrigarem a fazer o que no quero? Se 
eu quero ser demitida, eles tm mais  que me demitir. Que histria  
essa de piorar a situao? Eles querem uma situao ruim? Pois vo ter!
E acabou acontecendo assim mesmo. Nenhum de ns dois teve 
juzo! Finalmente iria receber o ltimo holerite e o salrio proporcional 
seria depositado. Fui buscar o holerite ansiosamente no Ambulatrio, no 
dia 22 de dezembro. Minha surpresa foi igualmente desagradvel: estava 
bem aqum do esperado. Havia l o valor proporcional aos dois dias 
trabalhados, mas nada de 13 e frias pagas.
 U?  senti j um calafrio. J tinha aprendido que estava 
sempre tudo certo, e nunca nada era mudado. Se o valor era aquele... 
era porque era aquele.
Foi no horrio de almoo, e Eduardo no estava em casa. Naquela 
manh ele tinha uma dinmica em grupo e iria direto para minha casa 
almoar.
Voltei para casa voando e fui direto pro telefone, tomar 
informaes. Quando Eduardo chegou eu j tinha brigado com minha 
me, que me acusava de ter jogado para o alto meu emprego. Com 
razo. (Mas ela poderia falar de outro jeito)!
Eu j estava tensa, o clima tambm estava tenso, tudo estava 
tenso.
 Eduardo, no tenho direito a receber nada alm dos dois dias 
que trabalhei!
 Mas como no?
 Eu precisava ter um ano de casa, Eduardo! Voc no me 
avisou!
 E voc no tem?
Eu olhava para ele com ar glacial, completamente azeda.
 Sabe quanto tempo faltava? Seis dias. SEIS DIAS!!!! Por causa 
de seis dias eu deixei de receber uma bolada de grana! Se eu tivesse 
esperado mais uma semana pra pedir demisso agora estaria tudo certo. 
Por que voc no se informou antes de falar do que no sabia?
Comecei a gritar, mesmo sem querer, nervosa e inconformada. 
Quanto dinheiro eu havia perdido em trs meses! Quanto roubo!
Em vez de Eduardo procurar me acalmar, s ps mais lenha na 
fogueira. Em suma: briga!
 tarde fomos para a academia emburrados, em clima de velrio, 
quase sem falar um com o outro. Estvamos to revoltados e 
decepcionados com a situao que nem a ginstica serviu para 
amenizar. Ele foi para o canto dele fazer musculao e eu fui para a 
minha aula de localizada.
Depois nos encontramos. Orar que  bom, nada! Nossa alma 
gritava, a carne falava alto, ningum se posicionava espiritualmente. Em 
suma: mais briga!
Impossvel descrever a tenso daquele dia. J ia alm do normal, 
alm do puramente natural. Uma fasca perto de ns era suficiente para 
detonar quilos de mau humor e amargura.
 Acho que j deu o que tinha que dar por hoje!  retruquei eu, 
super nervosa e j sem foras para continuar a aturar Eduardo.
Naturalmente ele sentia-se do mesmo jeito.
 Pois eu estou indo, ento!  vociferou ele em resposta.
Nos separamos. Eduardo foi de nibus e eu peguei o carro. 
Quando cheguei em casa minha me continuava de ovo comigo. Eu s 
queria dormir! Parecia que minha cabea ia estourar de tanta dor. Me 
entupi de analgsico e fui para o quarto.
 Ai!  suspirei.  Deus que me perdoe, mas estou cheia de 
tudo......
Assim perdi meu primeiro emprego. Eu tinha minha parcela de 
culpa, mas no era de todo minha. Ali havia tambm o dedo do diabo. 
Tudo fora muito bem calculado.
A verdade  que a gente muitas vezes tem que errar.... colher as 
conseqncias........compreender que errou.......para ento acertar!
Comigo e com Eduardo no foi diferente. Ns tambm erramos 
muito, camos muitas vezes, batemos com a cabea na parede. Errar faz 
parte do processo de aprendizado.
E aprendemos que no podemos esperar que Deus faa a parte 
Dele, se no fizermos a nossa.
* * * *
Captulo 20
No dia seguinte, antevspera de Natal, Eduardo teria uma 
entrevista com os diretores de uma determinada Empresa, um processo 
de seleo que j estava bem adiantado. Seria no final da manh, de 
forma que eu simplesmente fiquei em casa esperando que ele 
aparecesse com uma boa notcia e aquilo pusesse fim  nossa 
divergncia.
Agora ns no tnhamos todo o dinheiro que pensvamos ter, e 
isso mudava totalmente as coisas. Teramos que nos apressar em 
arrumar outro trabalho.
"Por causa de seis dias..."
Eu j estava conformada com aquilo, no adiantava chorar sobre o 
leite derramado. Mais difcil de tudo era me conformar em estar mal com 
Eduardo. Certamente esse era o ponto nevrlgico que causava toda a 
tristeza e desnimo daquela manh. No havia nada capaz de me afetar 
tanto...
Realmente Eduardo ligou assim que saiu da entrevista. Estava 
diferente, o tom de voz brando, ameno. Aquilo tinha o poder de um 
blsamo! Quando ele falava assim, se minha raiva j tinha passado e se 
transformado apenas em tristeza, suas palavras tinham um poder 
conciliatrio indescritvel.
 Oi, Gatinha. Voc dormiu bem?  Mais ou menos...
 Ser que voc no quer sair para tomar um caf, para a gente 
conversar?
 Sei l.  respondi, meio chocha.  Voc que sabe.
 Vamos sair, sim  ele respondeu carinhosamente. Aquele era o 
Eduardo que eu conhecia.  Vai ser melhor. Olha, eu estou indo a. 
Voc se apronta que eu chego em meia hora, quarenta minutos, t? A a 
gente conversa.
 T.
 Ama Gatinha...  fez Eduardo simplesmente. Demorou um 
pouco, mas a resposta veio.
 T, Nen. Gatinha tambm ama.
Fui me trocar. Senti imediatamente o desnimo diminuir, a tristeza 
comear a me abandonar. Como era horrvel acordar sabendo que eu e 
Eduardo no estvamos bem. Nada era to bom quanto ouvir ele falar 
comigo carinhosamente!
Esperei por ele na sala. Ouvi quando abriu o porto, e depois a 
porta. No levantei, mas esperei ali sentada, com ar murcho. Eduardo 
tinha muito mais facilidade do que eu em abraar, demonstrar afeto.
"Anos de prtica", eu costumava dizer para pegar no p dele.
 Oi, Gatinha.
 Oi, Nen...  naquele momento nada disse, apenas aproveitei 
o seu abrao forte, carinhoso, acolhedor. No comeo ainda estava meio 
dura, algumas lgrimas j estavam caindo.
 Desculpa, menina... perdoa minha insensibilidade.
 Eu estava to nervosa ontem por causa do emprego... j tinha 
brigado com a minha me, no estava no meu normal.
 Eu sei, Isabela. Eu devia ter tido mais cabea... sabe... ontem, 
assim que cheguei aqui, sentia a opresso...
 Aqui em casa?  indaguei me afastando um pouco dele. Sentei 
na ponta do sof.  Mas voc no disse nada...
 Eu sei. Eu relativizei de novo, errei. Estava uma opresso forte, 
desde l da rua eu j estava sentindo. Quando entrei, estava um clima 
ruim. Mas no era porque vocs tinham brigado, era opresso mesmo. 
Forte... de um demnio forte!
 Realmente no d nem pra te dizer em palavras o quanto eu 
estava angustiada.
 Pois . E eu fui pelo caminho errado, tentei te acalmar na alma 
ao invs de orar. Havia um demnio forte aqui pra tornar a situao bem 
pior do que j estava. Essa histria toda do seu emprego no deve ter 
sido por acaso...
Fiquei quieta.
 Bom... nem vou falar nada. Acho que voc j sabe, n? Se a 
gente tivesse orado, talvez nosso dia e nossa noite fossem diferentes.
 Eu sei...  Eduardo baixou a cabea. Eu estou procurando 
acertar.  difcil,  algo to novo para mim.
 T bom, Nen. OK. J foi. Passou. E o emprego?
 Ainda no foi desta vez. Mas no tem problema. Logo, logo 
aparece.
 Que pena.
 Vamos tomar um caf a em cima? Ou vamos no Fran's?  
Eduardo sorria tentando me animar.
 Podemos ir a em cima mesmo  eu ainda estava desanimada.
Samos. Fomos conversando de coisas mais amenas at estarmos 
com nosso caf  frente. Ento Eduardo comeou a contar.
 Ontem, depois que nos separamos, eu estava inconformado 
com a situao. Parece que o diabo tem levado a melhor contra ns...
 Tambm no  assim!
 Era como eu me sentia... estava triste, chateado... imaginando 
quanto tempo vamos conseguir permanecer de p.
Fiquei quieta, s escutei.
 Eu sei que Poder tem a Irmandade. Uma coisa  a gente 
somente ouvir falar... outra,  ver de perto esse Poder. Sei que Deus  
mais Poderoso... que Ele quer nos ensinar. Mas, mesmo assim, s vezes 
as circunstncias mexem comigo.
 Eduardo...  eu tentava faz-lo ver por outro ngulo, embora 
suas palavras me assustassem. Eu sentia na pele uma pequena parte do 
Poder do inimigo. Aquela pequena parte que Deus permitia que nos 
tocasse.  Ns temos que aprender a resistir... no  isso que a Bblia 
diz? Temos que orar mais, resistir mais. Quando voc sente a opresso, 
especialmente, a que temos que orar mesmo!
Eu falava meio atropelada; a verdade  que ns no sabamos 
exatamente o que fazer para resistir. A nica arma parecia ser a orao, 
o jejum que volta e meia fazamos as Ministraes. O que mais???
Porm, parecia que no estava adiantando como deveria... pois o 
inimigo se aproximava aparentemente com muita facilidade. Sabia tudo a 
nosso respeito, e vivia dificultando a nossa vida. At mesmo na 
Ministrao, afinal Abraxas tinha entrado l sem ter que fazer muito 
esforo! Quanto mais fora dela! O que estaria acontecendo?
Somente o futuro poderia nos ensinar.
 Eu sei. Eu sei disso  respondeu Eduardo.  Mas ontem eu 
estava triste, imaginando que tudo isso  somente o comeo... eles no 
esto fazendo nada ainda). Esto esperando.
Fiquei quieta de novo, mordi o lbio inferior sem saber o que dizer. 
Como eu poderia argumentar contra aquilo, se eu mesma j tinha me 
pegado pensando a mesma coisa?
 Mas...  eu ia comear de novo, ansiosa em fazer Eduardo 
enxergar de outra maneira.
  Espera...  ele fechou os olhos por uns instantes, segurou 
minha mo.
 Espera. Fica calma. Estou dizendo como eu estava me sentindo 
quando cheguei em casa... mas aconteceu uma coisa....  isso que quero 
contar.
Olhei para ele com um rosto curioso e cheio de expectativa, de 
repente. O tom da sua voz me fez calar e esperar. Eu no desgrudei 
mais os olhos dele, escutando sua histria. Sua incrvel histria!
 Quando cheguei em casa fui para o quarto, fui orar. Orei 
bastante, li a Bblia. Ento deitei e dormi. E sonhei. Sonhei que estava 
dormindo!  ele at riu.
 Sonhar que est dormindo  legal, hein?
 Mas ento? O que voc sonhou?
 Bom, eu estava sonhando que estava ali no meu quarto mesmo, 
deitado na minha cama... dormindo. Mas a a luz acendeu, e eu pensei 
que fosse o Otvio chegando. Levantei a cabea meio indignado: "Pxa, 
ele chega tarde e acende a luz na minha cara?". Mas a vi que a luz no 
vinha do teto, da lmpada no teto, mas da porta. O hall, me pareceu, 
estava iluminado... e a luz entrava pela porta, mas no era uma luz que 
ofuscava....  Eduardo falava mais devagar, escolhendo as palavras 
para descrever.  Era uma luminosidade tnue, num tom meio azulado, 
meio esverdeado. No era branca, nem amarela! E a aquela luz que 
estava no hall parece que entrou pela porta do quarto, chegou mais 
perto... e foi formando um contorno. E eu vi ele!!
 Ele quem?
 Dessa vez foi com muitos detalhes! Era aquele mesmo anjo 
ruivo que eu vi no encontro, h um ms e pouco! Ainda que a minha 
primeira sensao fosse de espanto, de surpresa... parece que tinha 
conscincia de que aquilo era um sonho, por uma frao de segundos eu 
pensei comigo mesmo: "Gozado... eu estou sonhando com aquele anjo".
 Puxa, Eduardo, que legal! E a? Conta, conta! Que sonho legal! 
 eu me sentia animada agora.
 Ento... como a luz era tnue, diferente daquele dia l no 
encontro, pude ver os detalhes do rosto dessa vez. Porque ele chegou 
bem perto. Vi os olhos, os dentes, o cabelo...
 E como ele ?  eu j estava at esquecida de que se tratava 
de um sonho. E embora Eduardo j tivesse dito isso, eu queria escutar 
de novo.
 Ele  muito bonito. Uma beleza perfeita. Os olhos me olhavam 
com brandura, com amor... com simpatia! Os dentes so perfeitos, o 
sorriso  perfeito, parece um piano, bem branco, bem claro! O cabelo, 
como eu j disse,  ruivo, mas no aquele ruivo excessivamente 
vermelho.  um ruivo meio alourado. E no  liso,  meio ondulado e 
chega at aqui.  Eduardo bateu na altura do ombro, repetindo tudo de 
novo.  Sem franja!
 Puxa....
 Me chamaram muito a ateno os braceletes nos seus braos, 
do punho ao cotovelo, de ouro, que brilhavam... e tinham umas 
inscries gravadas, alguns desenhos... mas nada que eu pudesse 
entender... era alguma outra lngua.
 ...............
 Ele entrou no quarto devagar, sorrindo, como que aguardando a 
minha reao. Esperando que eu absorvesse aquilo. No senti medo 
nenhum, a presena dele me trazia uma sensao de paz. De paz! A luz 
que emanava era como o calorzinho de um sol clido, brando... e dava 
uma sensao de tranqilidade, de refrigrio.
Eu ouvia sorvendo cada palavra, sem falar, como se cada palavra 
que saa da boca de Eduardo pudesse me trazer uma parte daquela 
sensao.
 A ele falou comigo... eu tinha perdido a noo do tempo, a 
noo do espao... at esqueci que eu estava ali no quarto... e quando 
ele falou, fiquei realmente surpreso, e pensei comigo: "Puxa,  pra mim 
mesmo essa palavra... esse anjo veio especialmente para falar comigo!" 
E eu me senti importante... honrado... Deus estava me dando uma 
ateno especial. No meu inconsciente eu ainda me lembrava das 
visitaes das Entidades demonacas, quando um demnio vinha at 
minha casa aquilo era especial, era especfico para mim. Ento, numa 
frao de segundos eu entendi que aquele anjo estava vindo at ali 
especialmente para falar comigo!
 E o que foi que ele falou?
 Bom... eu fiquei esperando, cheio de expectativa, sabendo 
intimamente que ele tinha vindo com um propsito. Com voz suave, mas 
firme, ele disse: "Acorda, voc que est dormindo, e abra bem seus 
ouvidos para o que eu vou te dizer.  hora de comear o trabalho". Ento 
eu respondi, me justificando: "Mas eu estou procurando emprego".
Dei uma risada meio molhada, j emocionada. Certamente aquele 
no era um sonho comum. Eduardo tambm riu, igualmente molhado. 
Continuou:
 Bem... ele ignorou esse meu comentrio, e falou: "Na segunda 
quinzena de fevereiro voc comea o seu Ministrio". A quem no 
entendeu fui eu, e perguntei com espanto: "Mas comeo como?". E ele 
responde: "Primeiro com os seus, com os que esto mais prximos. Na 
sua Igreja. Voc deve falar do seu testemunho e alertar o povo quanto  
estratgia do inimigo. Mais tarde isso ser expandido."
Eu estava at com a respirao presa. Quando Eduardo fez uma 
pausa, inspirei profundamente sem falar nada. Claro que eu tinha uma 
idia das implicaes daquilo tudo.
 Voc tem certeza de que foi isso que ele disse?  indaguei, 
meio apreensiva.
 Absoluta. Eu sei o que voc est pensando. E  claro que eu 
pensei a mesma coisa, que isso  muito perigoso! Ns estamos aqui 
quietinhos, sem falar nada, e j percebemos que as coisas no esto 
normais para nosso lado. Imagine sair por a testemunhando! Por isso 
mesmo que eu j fui dizendo: "No... no tem condies... eu no estou 
pronto! No tenho condies de fazer isso". Neste momento, no meu 
ntimo, eu achei que ele estivesse enganado. Talvez ele tivesse errado a 
casa! No era possvel que aquele fosse o recado!
 E a?
 Eu no queria dizer "No quero". Isso pareceria pouco gentil da 
minha parte, ento procurei de todas as maneiras encontrar algum outro 
empecilho. Mas tudo que conseguia dizer era que no seria capaz! Falei 
vrias vezes, mas ele deu um leve sorriso, e ignorou de novo as minhas 
respostas. Continuou: "Voc vai escrever uma carta para o seu Pastor. E 
eu vou tocar fundo nele para que ele compreenda o propsito do Pai";  
claro que eu tornei a perguntar: "Mas o que eu vou escrever?" Ele, 
sempre sorrindo, respondeu outra vez: "Quando voc for fazer isso, ore 
antes. O Esprito Santo ir inspir-lo e a carta ir fluir. No precisa se 
preocupar agora. Mas escreva esta carta no incio do ano. Porque o 
tempo  curto!".
Eduardo parou novamente com os olhos fixos no vazio. Passava a 
mo de leve pela cabea.
 Ele disse isso vrias vezes. Que o tempo "era curto". Seja l o 
que for que isso queira dizer. Eu no conseguia entender exatamente o 
que ele queria de mim, e que Ministrio seria esse que vai comear. 
Ento perguntei, meio nervoso: "Mas e o meu trabalho, meu emprego?... 
E a Isabela?". "No se preocupe com o trabalho", ele respondeu, 
"Quanto a Isabela, este no  ainda o momento dela abandonar a 
profisso. Isso vai acontecer, mas no agora. Neste ano que chega, ela 
tem de terminar o que j foi comeado; pois esta informao  
importante. Antes de concluir este ano, o livro vai estar publicado. Porque 
o tempo  curto!"
 Meu Deus... isso quer dizer que  mesmo pra escrever, n? 
Realmente ns vamos publicar essa histria.
Por um lado, a sensao era de regozijo pela direo de Deus; 
mas, por outro, tambm de temor pelo que teramos de enfrentar. 
Sabamos que o fato de Deus estar conosco no nos isentaria das lutas, 
das perseguies... e sabe-se l do que mais.
 "Mas eu no estou preparado", eu retruquei de novo, muito 
incomodado. "No estou preparado para nada disso. Tenho medo!". A o 
anjo disse: "Ns estaremos guardando vocs. Haver doze anjos com 
voc, e doze anjos com Isabela". Ainda assim choraminguei, no estava 
a fim de concordar: "Eu no estou preparado!"
Eu estava ansiosa.
 Sim, e o que ele respondeu?!
 Dessa vez... nada! Fez um gesto com as mos, juntou-as e 
ergueu para o alto. A manga da camisa, que parecia de um tecido mole, 
sedoso, escorregou pelo brao. E ento eu vi aquela musculatura, 
Isabela... perfeita!  Puxa vida, que musculatura! Foi nessa hora que vi os 
braceletes! E vi tambm que escorreu pelo antebrao dele, lentamente, 
uma espcie de lquido grosso, transparente... mas ele no tinha nada 
nas mos antes! No sei de onde saiu... e eu ainda pensei: "Ser que 
isso a  leo de uno?!"  Durante alguns flashes eu me lembrei de 
Davi, por quem sempre tive muita admirao, Davi, que foi ungido por 
Samuel... lembrei do significado da uno, que estava comeando a 
aprender com a Grace... e refleti de novo, quase sem compreender: "Mas 
o que ser que esse leo est fazendo na mo dele?". A ele caminhou 
na minha direo... dava a impresso que o assoalho ia balanar, 
Isabela, com aquele peso enorme dele. Mas no fez nenhum barulho! 
Ele chegou bem perto e falou: "No se preocupe, voc vai saber como 
agir. Eu estou te trazendo a capacitao". Ento ele derramou aquilo que 
tinha nas mos sobre a minha cabea. E, olha... eu senti mesmo, senti 
escorrer aquele lquido por toda a minha cabea e por trs do pescoo, o 
frescor daquele leo! Senti aquilo com muita intensidade... e meu 
corao se aquietou, eu tinha uma certeza diferente de que tudo estaria 
no controle de Deus... tudo o que viesse a acontecer dali pra frente. Mas 
a j era como se tudo aquilo no estivesse acontecendo, a realidade se 
misturou com a fico... era como se no estivesse acontecendo... 
enquanto ele derramava o leo sobre a minha cabea, falou algumas 
coisas em outra lngua, algumas coisas que no entendi. Naquele 
momento senti como se estivesse sendo mergulhado numa piscina de 
gua morna, gostosa, de alvio... eu podia perceber a leveza do meu 
corpo... alguma coisa nesse sentido. Um alvio! O cho no tremeu, no 
caiu fogo do cu, nada disso... foi s uma sensao de paz, de leveza, 
de tranqilidade...
 Nossa, Nen, srio? Que coisa mais diferente! Foi um sonho 
muito diferente!
 Calma...  murmurou Eduardo de novo.  No acabou ainda. 
Eu ainda estou processando as idias, mas... no acabou ainda!
Super empolgada, continuei ouvindo.  No me lembro de mais 
nada depois disso. Durante todo o tempo havia essa sensao de 
sonho... foi como se fosse um sonho, entende? Eu no me lembro de ter 
dormido, nem de ter acordado... nem de ter voltado a dormir. Por isso 
que eu achava que tinha sido sonho.
 E no foi?  eu estava meio incrdula, olhava para ele 
tentando sond-lo. Eduardo tentava achar as melhores palavras ao 
mesmo tempo em que perscrutava seu prprio corao.
 Eu acho que no...
 Mas por qu?
 De manh eu acordei e no lembrei de nada, nadinha. Tinha 
esquecido completamente. Desci, brinquei com a Maila, comi panettone. 
Da liguei para sua casa, falei com sua me.
 Ah, foi? Falou?
 E fui tomar banho. Tinha que me arrumar pra entrevista. No 
banho... quando fui molhar o cabelo.... os fios estavam oleosos, Isabela! 
Passei a mo e saiu na minha mo aquele negcio transparente, 
perfumado. Era como um blsamo, era mesmo leo de uno!  e 
Eduardo no mais segurou as lgrimas, sua voz embargou pela emoo. 
 Ento percebi que no tinha sido sonho, tinha sido real! Foi um 
impacto tremendo, de repente lembrei de tudo... e a achei que ningum 
ia acreditar, que essa minha histria seria um verdadeiro absurdo, que se 
eu contasse isso para as pessoas todo mundo ia achar que eu estava 
ficando louco! Estava surtando, precisava de um psiquiatra! Ento decidi 
contar s para voc... talvez conte para Dona Clara...
Eu estava sem fala. Olhava para ele, olhava... como era possvel 
acontecer algo assim?!!
 Chorei muito ali no banheiro... fui lembrando devagar de cada 
detalhe daquele "sonho"... que no foi sonho! Talvez Deus tenha feito 
assim para minimizar um pouco o impacto dessa experincia... talvez 
tenha sido necessrio que parecesse um sonho, numa primeira 
instncia... mesmo assim, foi to real!
Ns nos entreolhamos e nos abraamos sentindo o corao 
transbordante. Deus era bom! Estava conosco!
 Puxa vida............. isso  incrvel! Voc tem certeza disso tudo? 
 no sabia o que dizer, queria ter certeza de que Eduardo tinha certeza 
de que tudo aquilo era verdade.
 Tenho, tenho certeza. Eu sou o primeiro que tomo cuidado com 
isso. Mas foi verdade, sim!
Ficamos calados por um tempo, de mos dadas apenas, deixando 
aquela experincia e o seu significado carem nos nossos coraes 
profundamente. Iria levar um pouco de tempo para que o significado mais 
profundo de tudo aquilo realmente penetrasse nos nossos coraes. No 
parei para pensar que a intensidade das experincias vividas com Deus 
tambm seriam  altura da intensidade das provas a que seramos 
submetidos com o inimigo. Naquela hora nada disso importava... o que 
importava era que Deus tinha se manifestado. O cansao, o mal-estar, a 
tristeza, as dvidas, tudo isso se dissipou diante do Amor do Pai. Como 
era real o Reino Espiritual!
Depois daqueles momentos de introspeco e embevecimento, 
voltamos um pouco  realidade e Eduardo pediu uma Coca-Cola com 
duas coxinhas. Foi a deixa para que eu voltasse a ench-lo de perguntas 
sobre o anjo ruivo. Eduardo repetia cada detalhe e eu me deleitava 
naquilo, sugando das suas palavras algo novo, algo indito tambm para 
mim. No fazia diferena que eu no tivesse visto nem ouvido: a direo 
tambm tinha sido dada para mim! O recado tinha sido para ns dois! De 
certa forma, Deus tinha traado um futuro para ns dois!
 Ento quer dizer que realmente Deus est nos separando para 
o Ministrio, no ?
 Acho que sim...
 O que ser esse Ministrio?
 No sei. Mas ele disse que comea na segunda quinzena de 
fevereiro do ano que vem.
Ns no podamos vislumbrar nada que pudesse acontecer at l 
para mudar nossas vidas a esse ponto. O que no entendamos  que 
todo Ministrio comea com o preparo para ele. No que algum preparo 
j no estivesse acontecendo. Mas a partir daquele perodo seria mais 
especfico e mais intenso. S que, na cabea de Eduardo, ele j 
imaginava que tinha que sair pregando... e no entendia como isso 
poderia acontecer em to pouco tempo.
 Puxa, j est a mesmo!... O que ser que vai acontecer??
 No sei... mas algo vai acontecer  falou Eduardo com 
convico. Sua convico me bastava.
 Realmente  uma coisa arriscada... falei, ponderadamente.
 Mas Deus disse que estava dando uma guarda: doze anjos para 
mim e doze para voc.
 Ser que aqui do nosso lado tem, ento, vinte e quatro anjos? 
Agora mesmo?!
 Deve ter, n?
Ficamos sorrindo apenas em contemplar aquela possibilidade. 
Chegou a nossa coca com coxinha. Eduardo serviu nossos copos em 
silncio.
 Se Deus est dando essa guarda,  porque vamos precisar  
continuei.
 Sim. Vamos precisar.
 Ele disse mesmo que tinha doze comigo? S comigo?
 Disse.
 Ento,  sinal que o ataque  o mesmo sobre ns dois. Porque 
a guarda  a mesma.
 Mas no tenha dvida disso!  ele brincou um pouco, 
procurando descontrair.
 Todos esses demoninhos chatos esto loucos da vida com a 
Gatinha! Eles olham pra ela e pensam logo: "De novo?"  e Eduardo 
fazia voz de falsete, imitando desenho animado.  "De novo, no!".
Dei risada. Mas depois fiquei sria de novo.
  Ser, Eduardo? Ser mesmo que eles esto me atacando 
tambm? De verdade?
 No tem a menor dvida, j disse. Mas Deus j deu a guarda, 
por isso no vamos nos preocupar.
 Por que ser que ele disse que o tempo  curto?
 No sei. Mas falou vrias vezes!
  E a tal da carta para o Pastor Lucas? Voc vai escrever, n?
  Vou. Mas s no comeo do ano. Parece que Deus quer que 
nosso Pastor esteja a par de minha histria. Talvez agora a gente 
consiga conversar melhor com ele!
 Acho que sim.
Ns j havamos tentado marcar um encontro de verdade, mas 
nunca dava certo. Parecia realmente haver um impedimento na nossa 
comunho. Por mais de uma vez Eduardo havia tentado compartilhar 
parte da sua experincia passada com os Pastores, e tambm o que 
vnhamos vivendo naqueles ltimos meses. Mas at aquele momento as 
tentativas tinham sido frustradas.
 Mas Deus tem interesse nisso. Agora h de ser diferente!  
falei.
E realmente ficamos naquela expectativa. Ento mudei novamente 
o curso da conversa:
 E o anjo falou que no era ainda o tempo de abandonar a 
Medicina? Ento, isso quer dizer que no vou mais ser Mdica?
 Foi o que eu entendi. Mas futuramente. No ainda. Eu entendi 
que voc estar ao meu lado nesse Ministrio que Deus vai dar. O 
Ministrio no  s meu. E quando chegar esse tempo... o tempo de "ser 
expandido"... ento no haver mais ocasio para trabalho secular. Mas 
ainda no chegou esse tempo!
 Isso quer dizer que Deus quer que eu arrume outro emprego 
agora. Ser que Ele no ficou muito satisfeito em eu ter sado do 
convnio?...
 Ele no disse isso, Isabela. Apenas que voc ainda vai trabalhar 
como Mdica durante um tempo. Depois, no mais! E eu tambm vou 
trabalhar agora.
Eu estava pensativa.  E tem o livro...  .
 Se a gente ainda tinha dvida, agora no temos mais 
desculpa... Eduardo suspirou.
 ...
 Tenho de recomear, ento. Parece que nossos problemas 
aumentam vertiginosamente assim que ponho a mo na caneta. No d 
nem nimo! Mas  agora que Deus deixou claro... no vou discutir. Com 
ou sem ataque, com ou sem ameaa... tenho que ir em frente. Temos, 
n? Precisamos voltar a conversar, a gravar nossas fitas. Preciso ver em 
que p est esse livro!
Eu me animava em poder fazer algo de acordo com os planos de 
Deus.
 Vai dar tudo certo, menina. Ns vamos conseguir! No importa 
o tamanho da luta, Deus provou que est conosco.
Aquela no era uma frase feita. Ali estvamos somente ns dois, 
no havia por que fingir ou fazer de conta. Deus tinha mandado Seu 
recado na hora certa, mandava Sua coragem, capacitao, nimo e 
fora.
Quanto a ns... continuamos falando do anjo, tudo de novo, e de 
novo outra vez.
Que alegria isso trazia sobre ns!
* * * *
Durante dias a sensao de reconforto gerada pela visitao do 
anjo ruivo seria um blsamo para ns dois. Volta e meia a gente voltava 
a comentar, voltava a tentar entender mais ainda o recado de Deus.
  Voc foi ungido... voc foi ungido, Eduardo... por mos que no 
eram humanas. Sabe-se l o que  isso, no?
Volta e meia ele ainda tornava a emocionar-se com o ocorrido. E 
custava reter as lgrimas.
 O tempo vai dizer.
Certamente que a visitao desse anjo tambm tinha colocado os 
demnios em polvorosa. Claro que eles sabiam! Outro detalhe 
caprichoso de Deus  que tinha acontecido exatamente na noite da Festa 
do Vero (Leia Filho do Fogo). Como Deus era caprichoso!
O fato  que aquela visita no tinha sido encoberta no Reino do 
Esprito, e certamente que haveria agora um "contra mover" por parte do 
diabo, porque a Irmandade estaria informada sobre a uno, sobre a 
promessa, sobre a direo. Nossas conversas teriam sido suficientes 
para denunciar a direo que Deus havia dado, se os demnios ainda 
no estivessem a par do que acontecera.
Claro que haveria um contra-ataque!
Mas, naquela poca... nem mesmo nos lembramos desta 
possibilidade. Mas sempre que a Irmandade v algo promissor em 
algum, v algum em quem Deus tem interesse, a verdade  que fazem 
um cerco e tornam a vigilncia bastante acirrada. Justamente com a 
inteno de impedir que haja avano em qualquer direo.
No dia de Natal retomei a escrita do livro. Eu tinha novos dados 
sobre a vida passada de Eduardo, tambm novos dados sobre a 
Irmandade. Agora era necessrio colocar aquilo numa seqncia 
coerente e transformar aquele rido relato num texto agradvel de ler. 
Aquelas experincias desconectas tinham que ser unidas, eu precisava 
entender o porqu de cada uma delas. Haveria necessidade de 
mergulhar na doutrina, na forma de pensar, viver e ver o mundo da 
Irmandade. Eu teria que ajudar Eduardo a olhar novamente para cada 
dia, cada momento experimentado naquele Inferno. Para poder escrever 
bem... eu teria que saber do que estava falando.
Muitas vezes Eduardo no parava para pensar em sentimentos, 
pensamentos, sensaes. s vezes ele misturava momentos diferentes, 
contextos diferentes. Adiantava idias que, para ele, j estavam 
completas. Mas no para mim. No tinha outro caminho: teramos que ir 
devagar, teramos que sentar e nos dispor a horas e horas de trabalho 
para a reconstruo daquela histria. Parte por parte.
Praticamente toda a infncia e a adolescncia de Eduardo estava 
relatada. Agora eu poderia deixar esta parte de lado e comear pelo 
comeo.
 E qual  o comeo?  perguntou Eduardo no dia de Natal.
 E  voc que me pergunta? O comeo  o comeo! Me fala das 
cartas para So Francisco, seu primeiro encontro com Marlon. Em 
detalhes. Depois, comea a me contar sobre a Escola de Iniciados.
Os dias que se seguiram teriam parte deles consumida naqueles 
relatos. No especulei detalhes irrelevantes, mas eu tinha que entender o 
porqu das prticas, o objetivo de cada uma delas. Eduardo explicava. 
Ele tinha uma memria fantstica!
A minha pergunta mais comum era mais ou menos do tipo:
 Por que era assim? Para que vocs faziam isso?
Eduardo explicava de novo. Eu entendia. Quando no, interrogava 
at ficar satisfeita, interrogava at compreender tudo de maneira muito 
clara. A segunda pergunta mais comum era mais ou menos assim:
 E o que foi que voc sentiu? O que voc pensou? Como voc 
encarava isso? Me descreva com detalhes. Vai l!
Alm disso, a vida continuava como sempre. E o nosso final de 
ano continuava tambm sendo visitado e monitorado por demnios. Volta 
e meia Eduardo sentia opresso. Ele nada dizia e ns no orvamos. 
Logo acabava comeando uma nova briga. Situaes desgastantes e 
desconfortveis se sucediam a intervalos curtos entre uma e outra.
Parecia que os demnios se esforavam ao mximo em desfazer 
os feitos de Deus. Era como um cabo-de-guerra, intenso e inexorvel. De 
um lado, Deus trazia revelaes e experincias sobrenaturais. Do outro, 
o Reino das Trevas tentava nos enredar numa rede to densa de 
angstias a ponto de que ns mesmos nos cansssemos de tudo aquilo 
e jogssemos para o alto. Estava comeando ali uma luta de nuanas 
diferentes, coisas que no conseguiramos descrever em palavras, mas o 
corpo, a alma e o esprito absorveriam os efeitos.
Quando se enfrenta um inimigo inteligente e Poderoso como os 
demnios que tm aliana com a Irmandade, muita coisa acontece que a 
gente no consegue expressar humanamente. Eles so inteligentes, 
muito inteligentes... muito mais do que os homens! Tm Poderes 
realmente especiais, uma capacidade toda especial de interferir no fsico, 
no emocional, no espiritual. So capazes de manipular pessoas e 
situaes de uma maneira indescritvel. Quando tecem a sua teia, 
quando armam a sua armadilha... geralmente ela  bem feita, certeira...
Naquele momento ns no sabamos de nada disso, ou melhor, 
Eduardo at sabia... mas ele nunca tinha experimentado estar do lado de 
c... e eu... menos ainda! Por isso a melhor palavra para descrever 
aquele perodo era "difcil". Por uma srie de coisas no muito fceis de 
serem explicadas mas que, quando somadas, tinham forte impacto sobre 
o ser humano.
O diabo no pode impedir que o plano de Deus se concretize. Mas, 
em sua fria e indignao, ele pode criar situaes para que ns 
mesmos, com nossas mos e vontade prpria, desistamos do plano e da 
Vontade de Deus. Era mais ou menos isso o que ele estava fazendo nos 
ltimos meses.
Houve muitas e muitas vezes em que, no fosse a lembrana de 
experincias como a da uno de Eduardo, e ns teramos desistido. 
Desistido de lutar, de caminhar, de escrever, de ministrar, de orar e 
buscar a ajuda de pessoas. Desistido de tudo! At mesmo de crer em 
Deus... o Poder denso do Inferno, em ltima anlise, ao fazer com que a 
nossa vida se tornasse "difcil" em todos os sentidos... nos punha por 
vezes pensando que seria melhor desistir de Deus... afinal, a nica 
realidade que conseguamos contemplar eram as mentiras do diabo! 
Porque o corpo, a alma e o esprito tambm se tornam cansados e, 
cansados,  mais fcil perceber o mover das Trevas do que o mover de 
Deus.
O Senhor sabia disso, sabia que Eduardo  especialmente  
precisava vivenciar o sobrenatural Divino. Somente isso nos faria 
continuar caminhando. Hoje eu penso que, se Deus no nos tivesse 
dado algumas experincias especiais com Ele... teramos realmente 
jogado tudo para o alto!
E assim ns amos vivendo, no havia trgua alguma. Os 
demnios nos impediam de ter mais do que dois ou trs dias de paz. 
Aquela era uma poca de festas, onde todo mundo procurava descanso, 
saa de viagem. Inclusive Grace, Dona Clara...
Mas para ns no houve descanso. Digo isso no sentido literal da 
palavra, claro que havia um descanso que vinha como conseqncia 
direta do mover de Deus... mas no havia descanso real, isto , 
descanso fsico, descanso emocional. Aquela coisa de tirar a cabea dos 
problemas, calar o chinelo, passear... no pensar em nada!
A verdade  que isso no aconteceria to cedo para ns. Todo o 
refrigrio que conheceramos seria uma breve trgua no meio daquela 
luta que teimava em crescer a cada dia! E, naquele perodo, ainda por 
cima no tnhamos ningum para orar conosco.
Sabamos que tudo estava no controle de Deus. Mas ns no 
ramos diferentes de ningum: o corpo pede arrego, cedo ou tarde. 
Especialmente eu, futuramente, encontrar-me-ia em um estado de fadiga 
crnica.
Nada alm da Poderosa Mo de Deus poderia ter nos mantido em 
p durante tanto tempo.
Todo tipo de problema era criado ao nosso redor. At nas coisas 
mais simples, mais corriqueiras, os demnios colocariam suas patas para 
interferir; especialmente agora haveria um aperto maior na rea 
financeira, momento "perfeito" para as coisas quebrarem causando 
gastos imprevistos de dinheiro.
Mas o contra-ataque verdadeiro viria cinco dias depois da visitao 
do anjo. Dia 27. Dia "sugestivo"!
Eduardo sentiu a opresso, mas demoramos a nos posicionar. 
Passamos horas em p de guerra um com outro, e no com o inimigo. 
S quando Eduardo perdeu de vez as estribeiras comigo, e berrou no 
volante do carro, com o perigo de provocar um acidente,  que tentei eu 
mesma contornar a situao. Sozinha.
Comecei a orar, depois oramos um pouco juntos, muito pouco, na 
rua mesmo. Melhorou levemente, parece que parte da tenso do ar ao 
nosso redor relaxou. Quando voltamos para minha casa entramos 
sozinhos na cozinha para comer, eu ainda estava entristecida mas j 
tinha dado o assunto por encerrado.
Era j noite, pus a toalha na ponta da mesa.
 O que voc vai querer?
 O que tiver. No precisa se preocupar.
De costas para ele, rebuscando na geladeira, eu ia dizendo as 
opes.
 Voc quer comer comida, ou s tomar lanche?
 S lanche.
Fui pondo a mesa, sentei. Eu me sentia muito cansada. 
Comeamos  a comer, meio em silncio. No meio da refeio, Eduardo 
parou.
 Acho que ns temos que orar...
 Por qu? O que foi?
 Desde que entramos aqui...  ele at falava esquisito, meio 
entrecortado.  Que tem uma opresso medonha nessa cozinha, nunca 
senti nada assim, tem um demnio Poderoso nos acompanhando, j faz 
tempo... sinto peso de morte... ao nosso redor.
Percebi que Eduardo estava realmente sentindo alguma coisa. Ele 
podia at questionar o discernimento que Deus tinha dado, mas eu no 
questionava. Todas as vezes que Deus mostrava alguma coisa, era 
certeira. Eduardo estremeceu, e voltou a falar:
 Sinto calafrios no meu corpo, o ar est denso... quase 
irrespirvel!
 Vamos orar!  no havia nada mais a perguntar, muito menos 
a esperar. Assim fizemos, sem alarido, sentados na mesa, somente ns 
dois. Pedimos que Deus afastasse todo demnio dali, nos trouxesse a 
proteo. Assim pedimos, at que Eduardo sentiu paz, em poucos 
minutos. Terminada a orao, retomamos nosso prato mais calados do 
que antes. Depois do lanche ainda voltamos a orar um pouco mais.
Mais tarde, quando Eduardo j ia se despedir de mim, na rua, 
parado ao lado do carro, orientou-me:
 Devemos orar pelos animais.
 Tem certeza?  eu olhava para ele, receosa. Tinha pavor de 
pensar que meus animais pudessem ser tocados.   voc que est 
dizendo isso, ou  algo que Deus te mostra?
 Creio que  Deus que mostra.
 OK  no questionei mais nada.  Eu vou orar. Voc tambm 
ora, n?
 Sim. J vou orando pelo caminho.
 Tchau, ento, vai com Deus.
 Tchau. V se descansa!
 Me liga quando chegar.
 T.  Eduardo bateu a porta do carro. Agora que eu no 
precisava do Palio para trabalhar, ele ficava mais  disposio de 
Eduardo.
Em vinte minutos liguei eu mesma para Eduardo:
"J est demorando! Ser que ele teve qualquer problema pelo 
caminho?"
Foi ele quem atendeu ao telefone.
 Oi, Gatinha! Acabei de fechar a porta e voc ligou. J cheguei!
 Que bom... voc orou pelos bichos?
 Orei. Agora vamos ficar em paz.
 T, descansa, hein? Ama Nen!
 Tambm ama Gatinha...  Tchau.
 Tchau!
Depois que desliguei o telefone acabei indo assistir um pouco de 
TV, espairecer a cabea. Num dos intervalos fui  cozinha pegar algum 
quitute da geladeira. Era to bom lambiscar  noite! Pena que no era 
muito saudvel para o corpo, o que fazia com que a gente tivesse que 
malhar mais durante a semana.
De repente, escutei o Gorbie latindo compulsivamente. A Bitinha 
acompanhava, os dois estavam no maior desespero. Eu j conhecia 
aqueles latidos.
 Meu Deus, que foi isso?!
Abri o portozinho e fui para perto do Wolfi, que babava e ofegava 
profundamente. A convulso foi passando. A musculatura relaxou.
 Fica quieto, Gorbie!  ao me abaixar perto do outro, o Gorbie 
pulava e lambia a minha orelha.
Mas eu s queria ver como o Wolfi estava. Segurei sua cabea e 
orei baixinho ali no meio dos trs. O Wolfi ficou meio letrgico por alguns 
segundos, com olhar abobalhado. Ento levantou, normalmente, como 
se nada fosse. E foi beber gua. No tinha sido nada grave.
Observei-o ainda um pouco. Fazia tempo que ele no 
convulsionava. Estava sendo acompanhado por uma veterinria de 
confiana.
Seria s questo de reajustar a dose do remdio... ou aquilo 
tambm tinha algo espiritual no meio?
Pelo sim, pelo no, voltei a ligar para Eduardo. Ele ainda estava 
acordado. Passava um pouquinho da meia-noite. Expliquei em poucas 
palavras o que acontecera e ns dois oramos em concordncia. Mais 
tranqila, o resto da noite decorreu sem problemas.
Mas no dia seguinte o Wolfi voltou a convulsionar mais duas 
vezes. Aumentei ligeiramente a dose da medicao dele.
E eu e Eduardo tambm jejuamos naquele dia, orando e 
declarando a Palavra. Sabamos que os ataques sobre os animais 
tinham sempre aquele efeito de desajustar nosso emocional, de impedir 
a gente de ficar em paz, de criar preocupao... e isso preparava para 
outros golpes. Por isso resolvemos ficar bem alertas!
Na semana seguinte, na outra sexta-feira, a primeira do ano, o 
problema foi com a Viola, minha gata. Ela simplesmente desapareceu, 
coisa muito rara de acontecer. Eu acordei de madrugada e ouvi ela miar 
na porta do meu quarto, a porta que dava para o quintal. Abri, deixei Vivi 
entrar, e permiti que ela passasse pelo corredor e fosse dormir na 
cozinha, onde ela gostava.
Voltei para a cama, acordei tarde no sbado. E nada de Viola!
Procurei-a por todo canto, chamei, vasculhei tudo. Minha me 
ajudou um pouco, Eduardo tambm, depois que chegou. Mas de nada 
resolveu. Eu fiquei arrasada. A Viola j tinha quase doze anos e eu 
adorava aquela coisinha fofa, branquinha, peludinha!
Eduardo tentou me animar, ento fomos passear num Shopping 
mais afastado, o Lar Center. Era gostoso ficar olhando coisas para casa, 
pensando no casamento. Mas naquele dia eu no tinha nimo, me sentia 
esgotada, volta e meia acabava lembrando e chorando por causa da 
Viola. Estava morta de medo que aquilo tivesse alguma coisa a ver com 
as lutas que estvamos enfrentando.
 Mas ns oramos pelos bichos! Por todos eles! A gente sempre 
ora! No pode acontecer nada de srio!
Foi muito difcil, mas finalmente oramos ali no Shopping mesmo, 
sentados num banco, e eu consegui entregar a Viola para Deus. E falei 
com toda a fora e f que podia tirar do meu corao:
 O dia da morte dela s o Senhor  que sabe. Eu desejo que ela 
volte, mas tudo est nas Tuas Mos. De qualquer forma, somente o 
Senhor pode lev-la, no nossos inimigos, porque ela est coberta pelas 
nossas oraes. Se isso vem das Tuas Mos, meu Pai, eu aceito. Mas 
se vem dos nossos inimigos, ns resistimos a esse intento, e cancelamos 
os seus efeitos. Eu no aceito que o diabo tire a minha gata de mim, 
Deus! Torno a falar, s o Senhor tem esse direito, s o Senhor sabe qual 
vai ser esse dia, e como ela vai morrer. Toda interferncia do Inferno 
nessa situao, te pedimos que desfaa! E agora, por favor, ajuda meu 
corao a ficar em paz... eu quero ficar em paz...
A gente sabia que tambm nisso Deus queria nos ensinar. Nem 
sempre as coisas acontecem como queremos e perdas so inevitveis. 
Eu sempre ficava muito desestabilizada com qualquer problema referente 
aos animais. Isso era uma maneira de me enfraquecer, de me fazer 
baixar a guarda.
 O golpe final no  esse...  dizia Eduardo.  Eles esto 
preparando o terreno, e tocar nos bichos  uma boa forma de fazer isso, 
voc sabe. Temos que nos reestruturar!
H que diferenciar duas hipteses, e isso ns sabamos bem: h 
coisas que fazem parte do plano de Deus, e nossa orao no tem o 
poder de mudar isso. No entanto, outras situaes de perda tm o dedo 
do diabo no meio. Nesses casos a orao  eficaz para reverter o plano 
do inimigo. Nem sempre a gente consegue diferenciar as duas coisas, 
portanto o mais sbio era colocar tanto uma, quanto outra hiptese 
diante de Deus.
No fundo, no fundo, embora no falssemos mais claramente, 
tanto eu quanto Eduardo tnhamos por bem achar que aquilo era um 
ataque espiritual. Mesmo porque Deus tinha avisado sobre esse ataque 
contra os animais.
Quando Eduardo pressentiu aquele ataque de morte, se ns no 
pudssemos ser atingidos diretamente, a verdade  que aqueles que 
esto  nossa volta podem sofrer retaliao. Ns sabamos que Deus 
no permitiria que ningum da nossa famlia fosse tocado, mas o diabo 
tambm sabia que parte do seu intento podia ser concretizado se ele 
comeasse atacando um dos bichos. Criando a situao de desconforto, 
ele poderia conseguir desviar nossa ateno e isso facilitaria agresses 
posteriores mais intensas.
Realmente, no fundo do nosso esprito ficava a inquietao, o 
desconforto. A dvida. Somente a orao liberada tinha o poder de 
diminuir a sensao de mal-estar. Uma vez tendo feito a nossa parte, isto 
, entregado aquele problema nas mos de Deus, tnhamos a certeza de 
que agora era Ele que daria as diretrizes. E no o inimigo.
Encerrada a orao, procurei no falar mais a respeito, no chorar, 
no pensar mais. Apenas me distrair um pouco. Apesar da tristeza, tudo 
aquilo estava completamente entregue nas mos do Senhor. E, se 
tivesse o dedo de Satans, no seria por falta de intercesso que ele ia 
continuar agindo livremente.
Tudo o que havia para ser feito ns j havamos feito, Deus j 
tinha ouvido nossa splica. Era o que bastava.
 noite, depois do passeio, Eduardo deixou-me em casa.
 Me liga quando chegar  pedi. Quando ele ligou, falei mais 
uma vez:
 Vamos orar de novo pela Viola? S mais uma vez? Eduardo 
orou. E depois, falou:
 No se preocupe. Ela vai voltar. Deus quer te ensinar a 
descansar Nele, a no idolatrar os bichos. Voc tem que aprender. Fica 
em paz, ela vai voltar!
Ainda chorei um pouco, apesar de estar procurando com todas as 
foras fazer o que era certo. Ao desligar o telefone, enquanto ia 
preparando as coisas para tomar banho, entre lgrimas fui falando com 
Deus:
 Eu quero te agradar, sabe, Deus... quero mesmo, o Senhor 
sabe disso. Sei que tenho que conseguir entregar os bichos a Ti... esse  
um ponto fraco meu. Mas no quero fazer nada errado, me comportar 
errado... me ajuda na minha fraqueza, na minha dificuldade... que cada 
coisa ocupe o seu devido lugar e tenha o seu devido valor, nem mais 
nem menos. Mas eu gosto tanto da Vivi, Senhor... onde ser que ela 
pode estar? Ela no some! Trs ela de volta, o Senhor pode fazer isso! O 
Senhor pode fazer qualquer coisa... no deixa nossos inimigos levarem 
ela embora, tirarem ela de mim...
Sa do banho, fui para a sala onde minha me fazia palavras 
cruzadas. Liguei uma msica, fiquei zanzando por ali ainda. L pela 
meia-noite fui chamar a Viola mais uma vez, antes de ir deitar. Abri a 
porta da cozinha, olhei para o quintal. O Wolfi, o Gorbie e a Bitinha j 
vieram para se empoleirar no portozinho.
 Pss, pss, pssss.... Viooola!  chamei em tom baixo. No 
precisava mais do que isso: ela conhecia a minha voz. Eram doze anos 
da mesma coisa, todos os dias.
Se estivesse por perto, responderia ao meu chamado. E, miando, 
viria pelos telhados e pelo muro. Era sempre assim!
Os trs cachorros rebolavam no degrau na porta. Passei a mo 
pela cabea deles, distrada. Voltei a olhar para o cu escuro e para o 
telhado do rancho, para o muro.
 Pss, pss....Viviiiii!
 Pruauuuu....  eu conhecia aquele sonzinho.  Vivi!!!
 Miau!
Ela sempre conversava comigo. E, de repente, a Viola estava ali, 
bem em cima da laje do vizinho.
 Ah, Violinha, que alegria! Voc t a, sua coisinha?! Me, a 
Viola voltou! Minha me veio at a cozinha, ns duas olhvamos para a 
Viola que continuava sentadinha na laje.
 Mas que sem vergonha essa gata! Onde ser que ela estava?
Viola veio, entrou. Parecia cansada e estava bem suja. Comeu um 
monte de rao e foi dormir. Eu olhava para aquela rodinha suja sobre o 
tapete da cozinha.  Ah, meu Deus... obrigada! Obrigada! Encostei de 
leve nela.
 Pr!  ela sempre fazia aquele barulhinho, parecia uma 
pomba arrulhando. A Viola s iria morrer com 16 anos, e era to especial 
que o Senhor avisou que ela iria embora. Falou para Eduardo a causa da 
morte, apesar dos veterinrios no terem podido precisar um diagnstico. 
Ela teve um derrame.
* * * *
Captulo 21
Tivemos uns oito ou nove dias de sossego. Aproveitamos os dias e 
a companhia um do outro. Na segunda quinzena de janeiro eu comearia 
a procurar outro emprego, por isso queria tentar descansar tudo o que 
pudesse. O final do ano tinha sido muito cansativo... o comeo daquele 
ano tambm!
Eduardo procurava o emprego dele criteriosamente, participando 
de entrevistas. Agora era comear tudo de novo, pois comeavam a 
aparecer novas oportunidades no mercado. Os processos de seleo 
dele, ao contrrio dos meus, eram sempre muito morosos, cheios de 
testes, dinmicas, entrevistas... e depois mais entrevistas  medida que 
os candidatos iam sendo eliminados.
Eduardo era inteligente, vivaz, dinmico. Mas estava demorando 
tanto desta vez a achar alguma coisa que valesse a pena em termos de 
cargo e salrio! Ele j estava sem emprego h mais de dois meses, e 
apesar de procurarmos economizar ao mximo nosso dinheiro, logo 
acabaria.
Porque na nossa aplicao financeira ns nem pensvamos em 
mexer,  claro! Podia apertar o quanto fosse, mas aquele dinheiro era 
sagrado. Logo poderamos nos casar... j tnhamos visto montanhas de 
apartamentos para comprar nos bairros que nos interessavam. Faltava 
somente juntar um pouco mais de dinheiro, e ento... era s dar entrada 
no nosso lar!
Eu tinha guardada comigo uma pasta enorme cheia de anncios 
de apartamentos e de oramentos de corretores. Visitamos muita coisa, 
o que eu mais gostava de fazer era colecionar os recortes de jornal de 
domingo, aqueles que falavam das oportunidades no mercado 
imobilirio. Muitas vezes eu tinha ido at mesmo sozinha, rodava pelos 
bairros, dando uma olhada na fachada dos prdios. Mais tarde, no final 
de semana, voltava com Eduardo. Eu sonhava de olhos abertos com o 
dia em que pudssemos encontrar o nosso ninho.
Faltava s mais um pouco! Agora, de acordo com o ltimo extrato 
bancrio que Eduardo recebera, tnhamos quase R$ 25.000,00 na 
aplicao. As economias de trs anos! Isso sem contar que tnhamos 
financiado o carro, fazamos agora uma boa academia tambm.
A gente falava com entusiasmo e alegria sobre o casamento, 
apesar das nossas brigas. Porque se fssemos pensar, em quase todo o 
tempo ns nos dvamos muito bem. Na verdade, excepcionalmente bem. 
Ns dois ramos muito amigos, companheiros, havia fidelidade no nosso 
relacionamento, sinceridade, atrao, envolvimento. Havia cumplicidade. 
E, acima de tudo, gostvamos realmente da companhia um do outro, era 
muito bom estar junto.
Quanto s brigas... ns tnhamos nossos defeitos e haveramos de 
trat-los com o tempo. Isso era algo totalmente normal, totalmente 
aceitvel em qualquer relacionamento. Era algo humano.
Tudo o que ia alm disso  uma boa e considervel parte, alis  
ns sabamos, tinha a ver com nosso contexto espiritual. Ns sabamos 
de cor e salteado o quanto tramavam contra ns, especialmente contra a 
nossa aliana.
Eles queriam Eduardo sozinho a todo custo, mas eu teimava em 
estar ao lado dele. No ia ser assim to fcil nos separar! Aquilo que 
Deus juntou, ningum pode separar. Por isso fazamos, sim, planos e 
planos para o casamento. Nosso noivado j durava dois anos, era hora 
de pensar seriamente em algo mais.
 Acertando nossos empregos acho que em mais uns trs ou 
quatro meses j teremos dinheiro pra dar entrada no apartamento, n, 
Nen?
 Acho que sim, "M"! No mais tardar no meio do ano. Voc sabe 
que vamos ter uma dvida grande durante muito tempo, por isso temos 
que estar bem satisfeitos com os empregos, bem estabelecidos.
 , eu sei... mas vai dar tudo certo.  s fazer a coisa bem "p 
no cho". Temos que ter uma prestao com a qual possamos arcar sem 
nos desgastar demais.
 Ns temos condio disso. Dando uma boa entrada, no vai ter 
problema. Se a gente der R$ 30.000,00 de entrada est timo!
 E ns somos novos ainda, vamos conseguir construir o nosso 
patrimnio aos poucos. N, Nen, n?! Voc no acha?
Eduardo sorria e participava do meu entusiasmo.
 , Gatinha, vamos conseguir. Temos tudo pra isso! Somando 
foras a gente consegue.
 O mais legal de tudo isso  que a gente est conseguindo as 
coisas pela gente mesmo. Nem voc nem eu somos parasitas do papai e 
da mame.
 Isso  verdade. Eu, nem que quisesse, ia poder contar com 
ningum nesse sentido...
 Ah, em casa tambm no tem jeito! Mesmo que minha me 
quisesse, no ia poder me dar um apartamento de presente de 
casamento.
 ...  bem mais fcil casar hoje em dia quando os outros 
ajudam. Dei de ombros.
 Isso l  verdade... tem tanta gente que casa com a maior 
facilidade. Os pais de um do a casa, os pais do outro do a moblia...
 E os avs montam o casamento inteiro!  Eduardo j ria.
 E os outros avs do a lua-de-mel!  eu ria tambm.  E 
perguntam o que est faltando!
 ... assim  mais fcil!
Parei um pouco para pensar no tamanho da despesa. Era 
assustador!
 Nossa, Eduardo... como  que as pessoas casam hoje em dia 
sem contar com a famlia? Precisa ter muito dinheiro!
 Ah, naquela base, n? No d pra fazer muita extravagncia.
 Mas a gente s casa uma vez na vida... no d tambm pra 
economizar em tudo, caramba! O problema  que So Paulo  uma 
cidade carssima! Se a gente morasse no interior seria muito mais fcil!
 Gatinha, no se desespere de antemo. Ns vamos ter 
condio de fazer as coisas como a gente quer.
 Isso, Nen. S temos que economizar mais alguns meses. 
Assim que a gente estiver empregado, cada centavo extra vai pro banco!
E ns fazamos planos e planos, continuvamos colecionando 
propagandas de imveis, pesquisando preos, agendando visitas com 
corretores. Era muito importante conhecer os bairros e as opes, que 
eram infindveis.
Ento novamente chegaram dias de luta e ataque, dias tortuosos, 
carregados de tenso.
Tudo sempre comeava com a desestabilizao emocional. Em 
quase cem por cento das vezes era assim que a porta das nossas vidas 
ficava aberta  ao demonaca. O conflito, a ira, as palavras afiadas, a 
separao entre ns dois, a ausncia de resistncia em orao... tudo 
isso era um terreno perfeito para o inimigo. As portas eram escancaradas 
e eles atuavam rapidamente, potencializando ainda mais o conflito.
Como era terrvel.....e como ns demoraramos a aprender!
O fato  que, uma vez minada nossa resistncia e conseguido o 
afastamento, ns nos tornvamos extremamente vulnerveis. Juntos, 
ramos mais fortes..... separados.... era sempre o prenncio de um caos.
Ns no percebamos essa realidade com clareza. E cada um 
queria fazer prevalecer seus direitos e o seu ponto de vista.
Certa noite, ainda na primeira quinzena de janeiro, fomos jantar 
com um casal de amigos. Eles eram Missionrios, muito simpticos, um 
pouco mais velhos do que ns. Foi uma noite agradvel, comemos, 
conversamos, demos risada, descontramos.
Ao sair, j nem me recordo o motivo, mas Eduardo e eu 
comeamos a ter problemas. Era j muito tarde para estender qualquer 
discusso, de modo que tudo acabaria por arrastar-se para o dia 
seguinte. Fui deitar quase quatro horas da manh.
Com Eduardo no foi diferente. Mesmo assim, orando ao chegar 
em sua casa, sem sono, ele decidiu-se a escrever a carta para nosso 
Pastor. A carta que tinha sido encomendada pelo anjo ruivo, e que 
deveria ser escrita no comeo do ano.
No dia seguinte tudo voltou ao normal. Oramos, nos reconciliamos. 
Eduardo mostrou-me a carta, a qual li com calma, observando os 
detalhes. Era relativamente curta e contava em poucas linhas sobre seu 
passado, alm de acrescentar que aquele relato era fruto de obedincia 
a uma ordem de Deus. Certamente o Senhor queria que o Pastor Lucas 
conhecesse o testemunho de Eduardo, por isso mostramos interesse em 
agendar uma conversa para compartilhar.
Sem dvida no era algo muito fcil para ns. Expor a nossa vida 
e os nossos problemas para algum que no conhecamos bem, a no 
ser de escutar suas Pregaes. As quais eram, alis, muito boas!
Ns admirvamos o Pastor Lucas pela uno que ele tinha na 
Palavra. Mas da a sair compartilhando aquela histria de Irmandade... 
ns queramos a convivncia, no necessariamente a exposio.
Enfim, o anjo deixara claro que "aquela era uma informao 
importante, que Eduardo deveria comear falando com os seus, com 
aqueles da nossa prpria Igreja... com nosso Pastor". No havia outra 
alternativa seno obedecer.
Naquele mesmo dia aps o Culto  domingo , Eduardo 
entregou a carta em mos. E avisou que iria procurar a secretria da 
Igreja na segunda-feira e marcar um horrio para conversarmos. Dito e 
feito, assim foi.
Ficou agendado para dali a quinze dias, com o Pastor Lucas e um 
dos Pastores auxiliares, o Joel, seu principal companheiro, um homem 
simples mas com uma especial uno Proftica.
Ficamos aguardando pelo encontro no fim do ms. Eduardo, 
especialmente, estava bastante ansioso. Embora ele no dissesse muito 
a esse respeito eu sentia o quanto necessitava de um amigo. Um 
homem, algum que o "adotasse", que caminhasse com ele. Eu estaria 
ao seu lado sempre para o que desse e viesse, e Eduardo considerava 
isso com valor. Mas... eu sabia... o lugar que Marlon havia ocupado em 
sua vida estava vazio havia anos. Quem sabe Deus no lhe mandaria um 
outro amigo? Quem sabe o Pastor no ocuparia, pelo menos em parte... 
aquele lugar?
Eduardo animava-se com essa possibilidade, especialmente 
porque tinha sido Grace quem indicara aquela Igreja.
Quanto a mim, particularmente no acreditava muito. Nem 
esperava muito das pessoas. Se acontecesse, muito que bem... mas, se 
no... tambm no ia ser o fim do mundo para mim. Minha histria de 
vida tinha me ensinado isso, assim era. Vim de um contexto muito 
diferente do de Eduardo. Se ele aprendeu a contar com amigos que lhe 
foram caros, dentro da "29", mas principalmente na Irmandade (justia 
seja feita), eu, pelo contrrio, conhecia melhor a ndole dos Cristos. 
Excetuando meu tempo de A.B.U., nunca tive ningum que se me 
tornasse especial dentro da Igreja: era mais ou menos "cada um por si e 
Deus por todos".
Por isso, j no esperava muito de ningum. J tinha me 
acostumado.
Neste aspecto Eduardo era mais crdulo do que eu, mais 
esperanoso, mais carente, mais ingnuo. Ele realmente esperava algo 
de bom dos outros, acreditava nas pessoas, caa mais "de cabea". 
Tinha o corao mais puro. E eu, do meu lado, ia com cautela, 
ponderava, no me entregava logo de cara, muito menos confiava 
abertamente. Ainda que desejasse me relacionar com as pessoas, 
esperava um pouco mais para saber em que terreno estava pisando. At 
prova em contrrio, todo "irmo" ou " irm" tem um enorme potencial 
para machucar o corao alheio. Pelo menos eu assim sentia. Coisas da 
vida.....!
E claro que Grace e Dona Clara vinham provando ser a exceo 
desta triste regra. Eu dava graas a Deus por elas!
Ento... esperamos pelo encontro. Eduardo, ansioso e cheio de 
expectativa; eu, um pouquinho desconfiada. Porm, aquela era a 
vontade de Deus, ento nos rendamos a ela.
O Mundo Espiritual ia mover-se, disso no havia dvida. Afinal, 
havia um decreto especial naquele sentido, de que no nos 
relacionaramos com nosso Pastor. O Inferno estaria incomodado com 
aquele encontro, pelo menos imaginvamos que sim. O motivo principal, 
como j foi dito, era fazer com que Eduardo se decepcionasse com a 
Igreja e ficasse mais propenso em retornar  Irmandade. Se Deus tinha 
algum outro propsito em fazer o Pastor Lucas ciente da realidade da 
Irmandade, isso j era um outro assunto... no nos dizia respeito 
pessoalmente. Caberia a ele buscar de Deus o que fazer com aquelas 
informaes.
Realmente a coisa no ia ser muito fcil porque no dia seguinte 
mesmo, na tera-feira, fomos surpreendidos numa briga feia, 
desconcertante, interminvel. Ou melhor, terminou quando Eduardo foi 
s para a academia. Eu desisti, no tinha a menor condio de fazer 
ginstica.
Mas estava furiosa com Eduardo!!!
Fiquei em casa tentando fazer de tudo para me sentir melhor, o 
que no adiantou de nada. A noite no nos falamos pelo telefone, isso 
nunca acontecia, dormi tarde e muito mal. O dia seguinte encontrou-me 
ao meio-dia ainda na cama, cheia de mau humor. No adiantava querer 
falar com Eduardo pois ele tinha sado naquela manh para dar 
continuidade  sua procura de emprego. Eu sabia que ele ficaria o dia 
todo na rua, o que significava que eu teria ainda pela frente uma tarde 
horrvel e desagradvel. No porque fosse ficar sem ele, mas sim porque 
estvamos mal um com outro.
Como aquilo tinha o poder de transformar a minha vida num 
Inferno!
Era terrvel a gente estar brigado. Eu gostaria muito de saber virar 
a pgina, esquecer, fazer alguma coisa que me relaxasse e tirasse 
aquele peso indescritvel do corpo, da mente. Uma sensao ruim, 
angustiante, horrorosa...
As horas correram lentamente e nada me entretinha.
"Por que ele no liga? Estar tudo bem?!"
A sensao de inquietao me invadia, me enchia de mal-estar. 
Era impossvel concentrar-me em qualquer coisa. Orei frases soltas, 
esparsas, o que me vinhal cabea.
 Deus, ajuda a gente a se reconciliar...
Intimamente eu sabia que no era seguro manter aquela situao 
por muito tempo.
"Ah, que sensao de inquietao!..."
Ao cair da tardezinha Eduardo me ligou, mais calmo e animado 
com oportunidades de trabalho. No era a melhor coisa conversarmos 
por telefone, de modo que combinamos um encontro na Comunidade, no 
Culto de todas as quartas-feiras.
 T bem  concordei.
Ns costumvamos mesmo ir a todos os Cultos da semana, todos 
os domingos e quartas.
 Assistimos o Culto, depois podemos tomar um caf e 
conversamos  sugeriu Eduardo.
Ficou assim combinado e, como j estivesse pronta, peguei o carro 
e fui para a Igreja. J eram oito horas da noite e o Culto estava 
comeando; acabei me atrasando um pouquinho por motivo de fora 
maior.
Eduardo tambm se atrasaria pois tinha que pegar nibus. De 
qualquer forma, seria a melhor coisa nos encontrarmos na Igreja, assistir 
o Culto, receber a Palavra como sempre fazamos... para depois 
conversar! Era possvel at mesmo orar um pouco com Dona Clara, se 
fosse necessrio, apesar de no ser dia de encontro. Ela tinha viajado 
um pouco no fim do ano, mas j estava de volta.
Cheguei  Igreja, escutei de fora o som do Louvor. Ia ser bom, 
muito bom restaurar as foras, o corpo, a alma e o esprito. Sentei mais 
ou menos atrs, diferente do nosso costume de pegar lugar na primeira 
ou segunda fileira. Assim Eduardo poderia me achar com mais facilidade 
quando chegasse. A Igreja nunca lotava nas quartas-feiras.
Me afundei no Louvor e, com os olhos fechados o tempo todo, no 
me distra com nada. Quando terminou aquele perodo e foram dados os 
avisos, olhei para trs. Notei que Eduardo ainda no tinha chegado. 
"Nada dele!"
No me perturbei, afinal podia ser tudo culpa do nibus. Logo ele 
estaria ali!
Comeou a pregao. Nas quartas-feiras era sempre o Pastor Joel 
que pregava.
Chegou o meio da pregao... e Eduardo no aparecia! Procurei 
controlar a preocupao  medida que olhava para o relgio e via os 
minutos passando vagarosamente. Sem perder o fio da meada do 
sermo, imaginei ento que Eduardo deveria ter-se demorado em casa 
antes de sair. Era isso.
Esperei mais um pouco, vez por outra olhando por cima do ombro. 
Como ele no aparecesse imaginei mil coisas.
"Acho que alm de se demorar em casa, o nibus tambm deve ter 
atrasado muito... ."
J fazia um bom tempo que eu orava em lnguas, baixinho, sem 
conseguir deixar de me sentir conturbada.
O Culto estava acabando e Eduardo no vinha! Durante a orao 
final, eu me levantei e sa antes mesmo que ela terminasse.
"No  possvel... alguma coisa deve ter acontecido, meu Deus! 
Ele j deveria estar aqui de velho!"
Bem defronte  Igreja havia um orelho. Peguei o telefone e 
comecei a discar... nada!
"Mas que droga de orelho!!"
Bati vrias vezes no boto, tentando linha. Estava quebrado. Mas 
havia outro logo ali no quarteiro de cima. Atravessei a rua correndo, 
tentei ligar do outro telefone. Sentia meu corao batendo forte na 
garganta, estava extremamente preocupada.
 Droga, droga, droga!  falei alto e bati com fora o telefone no 
gancho novamente.  Que hora pra todos os orelhes quebrarem!!
Voltei correndo para a frente da Igreja. O Culto estava acabando e 
eu no sabia exatamente o que fazer.
"Onde ser que est o Nen?? Onde?"
Eu olhava o tempo todo para os lados, andando pela calada com 
o semblante carregado de preocupao e pensando no que deveria fazer 
a seguir.
"Bom, vou at l! Pego o carro em quinze minutos t l!"
Caminhei em passos rpidos at o carro, nem lembrei de pr o 
cinto de segurana e sa desabaladamente, como s eu sabia fazer. Sem 
parar de orar, mas sentindo toda a musculatura cervical tensionada, voei 
rua acima. Algumas quadras l na frente relanceei o olhar de repente 
num outro orelho.
"Ser?..."
Minha dvida durou menos de um segundo. Num rpido olhar nos 
espelhos, virei o carro rapidamente e embiquei na calada do outro lado 
da rua. Assim que o fluxo permitiu fiz uma rpida contramo para parar 
bem em frente ao telefone pblico. Pulei do carro, deixando-o ligado ali 
ao meu lado, sob minhas vistas. Tirei o telefone do gancho e escutei 
ansiosamente:
 Arre! Algo ainda funciona neste mundo!
Disquei para a casa de Eduardo. Estava to nervosa que errei na 
discagem e ca em outro lugar. A voz respondeu sem muita educao:
  engano!
Nem respondi nada, desliguei e liguei de novo, desta vez com mais 
calma. Foi Dona Odete quem atendeu. Procurei dar o tom mais casual 
possvel  minha voz. Cumprimentei, e perguntei logo por Eduardo.
 Puxa, j faz tempo que ele saiu, viu, Isabela?! Saiu dizendo que 
ia para a Igreja.
 Mas a que horas ele saiu mesmo?  eu falava naturalmente.  
Ser que o nibus demorou pra passar? Porque ele ainda no chegou.
 Ele saiu umas oito e pouco, oito e quinze, por a.
Agora eu me sentia assustada de verdade... eram mais de dez 
horas da noite! Mesmo assim ainda usei um tom corriqueiro. Ela no 
poderia ajudar mesmo!
 T bom, ento... se ele ligar, diz que eu liguei  aquilo era s 
pr-forma.
 Eu falo. Mas o que ser que pode ter acontecido, hein? Porque 
logo que ele saiu daqui, no deu nem cinco minutos, e ligou um amigo 
dele da Igreja.
Senti novamente uma onda de preocupao aguda percorrer o 
meu corpo.
 Amigo da Igreja? Mas... que amigo?!
 Ele disse que se chamava Marlon, era um amigo do Eduardo, 
da Igreja. A perguntou se o Eduardo ia hoje no Culto.
Eu estava muda. Em choque. Esttica. Dona Odete continuou:
 Eu disse que sim, que ele tinha acabado de sair. Ento o tal 
amigo perguntou se o Eduardo estava de nibus; como eu disse que sim, 
ele ento desligou avisando que passava no ponto pra pegar o Eduardo. 
Dava uma carona pra ele porque tambm estava indo para o Culto. Vai 
ver eles pararam em algum lugar antes!
Eu sentia o pnico me invadir de maneira indescritvel.
 Ah... deve ser isso, ento......... respondi calmamente.  T 
bom, qualquer coisa diz pra ele me ligar quando chegar.
 Tudo bem, Isabela.  T... tchau, ento...  Tchau!
Desliguei o telefone com as mos frias. Montei no carro e desci a 
rua em direo  Igreja novamente, a toda velocidade. Parei o carro em 
frente, como deu, nem sei se podia parar ali.
Corri para procurar Dona Clara. Ela estava conversando com 
algum, sentada num cantinho da Igreja, no ltimo banco, perto da porta.
 Dona Clara, ah! Me desculpe, mas eu preciso conversar um 
pouco com a senhora!  fui dizendo.
Acho que alguma coisa na expresso do meu rosto deve ter feito 
com que a pessoa diante de Dona Clara se apressasse na despedida.
 Tchau, querida... a gente se fala!
 Tchau, "Bem"!  respondeu Dona Clara, e em seguida olhou 
para mim.
 Vamos conversar ali dentro, Dona Clara?  apontei uma 
espcie de ante-sala, perto da Secretaria e das escadas, que estava 
mais privativa naquele momento.
Ela concordou, ento entramos as duas e eu encostei a porta.
 Dona Clara, precisamos orar pelo Eduardo, eu no sei o que 
aconteceu com ele, Dona Clara!  comecei j a chorar, embora fosse 
difcil que isso acontecesse. Comecei a explicar o mais depressa que 
pude.  Eu... quer dizer, ns brigamos ontem... mas conversamos hoje 
pelo telefone... e marcamos de nos encontrar aqui no Culto! Mas ele no 
chegou, eu liguei pra l... e a me dele me disse que o Marlon foi buscar 
ele no ponto de nibus. At agora no sei dele! No sei onde ele est, e 
aquele homem foi atrs dele!
 Calma  disse Dona Clara com semblante srio.  Vamos orar 
e entregar essa situao ao Senhor. Ele est no controle. Vamos orar.
 Vamos!
Dona Clara orou alto, e eu concordava fortemente com a sua 
orao, chorando bem quietinha e torcendo ligeiramente as mos. 
Pedimos a proteo do Senhor e o desmantelamento da armadilha do 
inimigo. Fora e sabedoria sobre Eduardo.
No foi uma orao longa. Dona Clara parecia confiante de que 
nada de mal aconteceria. No fez escndalo, nem alarido.
No final, eu enxuguei as lgrimas mais aliviada. No havia o que 
fazer a no ser ir para casa. Estava entregue ao Senhor! Ele era 
Poderoso, faria o que mais ningum podia fazer: trazer paz no meio 
daquela confuso!
 Obrigada, Dona Clara, pela sua ajuda...  tornei, com o 
corao realmente grato.
 O Senhor  quem nos sustenta, n, "Bem"?  ela respondeu, 
sorrindo.  Vai ficar tudo bem. Tem coisas que a gente tem que passar, 
no tem jeito, mas o Senhor  conosco! Vamos em frente, n?!
Dona Clara no era demagoga. Ela falava aquilo sempre com a 
simplicidade decorrente da f genuna, fruto de quem conhece o Pai.
Acalmei-me. Passou aquela sensao de desespero. Deus estava 
no controle. Mas minha alma estava entristecida.
 Bom... vou indo, ento...
 T bom, vai com Deus!
Trocamos um beijo de despedida. Eu sa devagar da Igreja e 
resolvi ligar de novo para a casa de Eduardo. Fazia uns vinte minutos 
que tinha ligado, talvez at um pouco mais. Voltei at o orelho que 
funcionava, estacionei o carro. Liguei.
E Eduardo atendeu!!!
 Al?  Fez a voz dele pelo aparelho.
 Nen???  voc?? O que aconteceu?! Por que voc no veio?!
 Eu acabei de te ligar, pensei que voc j devia ter voltado do 
Culto. Aconteceu uma coisa... por isso no fui.
 Eu sei, eu sei!  parte daquele pnico ainda me tomava.  O 
Marlon te procurou, no foi? Ele se espantou:
 Como  que voc sabe?
 Foi sua me que disse. Eu j tinha ligado!
 Ela me falou. Mas o que foi que ela te disse? Contei. Mas eu 
estava ansiosa e preocupada.
 E ento, Nen? Ele foi mesmo atrs de voc?  Foi, Gatinha...
 Mas... mas que ousadia dessa gente, Eduardo!! Ser que no 
vo mesmo te deixar em paz, esquecer que voc existe?
 Pois ... voc j comeu?
 Se comi? Claro que no, n? V l se tinha algum clima pra 
comer! Fiquei orando o Culto todo, depois fiquei orando com Dona Clara 
por voc, a antes de ir pra casa resolvi ligar de novo...
 Ento voc no est em casa!?
 No, estou no meio da rua, no orelho.
 Ah, Isabela, no fica a, no! Estamos em So Paulo!
Olhei ao redor. A rua estava deserta, o carro continuava ligado. 
Realmente no era prudente!
 T bom. Eu vou para casa e te ligo em seguida. Nen... est 
tudo bem com voc?
 T tudo bem, menina. Eu t bem.
 Mas t bem mesmo?  T, t sim.
Desabafei um longo suspiro, finalmente sentindo a tenso da noite 
antepor, de todo o dia e das ltimas horas comeando a relaxar.
 Ai, que bom que voc est em casa... ama Nen...
 Eu sei, "M". Nen tambm ama. Vai pra casa agora, no fica 
a, no!
 T. T indo.
Peguei o carro novamente, agradecendo a Deus por Eduardo estar 
em casa. Eu necessariamente tinha que passar diante da Igreja para ir 
para minha casa. Ento parei rapidamente, talvez Dona Clara ainda 
estivesse l.
De fato. Despedia-se na porta. Eu pulei do carro, satisfeita, fui at 
ela com o sorriso estampado no rosto.
 Liguei pra ele, Dona Clara! Ele tinha acabado de chegar.
 T vendo? Graas a Deus! Est tudo bem, ento?  Parece 
que sim. No sei ainda o que aconteceu, mas o pior j passou....
 T bem. Deus abenoe!
 Tchau!
* * * *
At no dia seguinte eu e Eduardo ainda comentvamos o que tinha 
acontecido. Realmente, eles estavam fazendo presso... primeiro a carta, 
depois aquele monte de telefonemas, agora...
 Quando cheguei no ponto, estava s com a Bblia na mo e 
tinha umas duas ou trs pessoas ali. Lembro que reparei quando vi 
passar o carro preto, importado, de vidros escuros. No  toda hora que 
a gente v um assim. Mas no imaginei que pudesse ser ele, justo ele! 
Nem vi que o carro estacionou bem ali mesmo, em frente  Igreja 
Catlica, no mesmo lugar de antigamente. Eu estava distrado olhando 
os nibus, queria que passasse logo algum que me servisse pra ir 
embora. De repente, algum bateu no meu ombro... e era ele!
 E voc? Voc assustou?
 No. A bem da verdade, no... ele era meu amigo! Confesso 
que fiquei feliz em v-lo! Ele tomou a iniciativa e me abraou forte, como 
sempre fazia, ento... abracei ele tambm! E falei a primeira coisa que 
me veio na cabea, nem pensei pra dizer isso: "Puxa, Marlon, voc no 
mudou nada, hein, cara?" Ele riu e disse que tinha vindo especialmente 
pra me ver. "Voc no deveria estar em Braslia, em plena quarta-feira?" 
perguntei depois. Ento ele respondeu que sabia que eu estava 
precisando... e que pra mim ele sempre teria tempo.
 Humpf!  dei um muxoxo seco.
 Ento ele foi falando, super simptico: "Voc no quer dar uma 
volta, bater um papo?"
Fiquei de cabelo em p.
 E voc foi, Eduardo?  exclamei horrorizada.
 No, no! Tambm no sou to louco assim!
 Ento vocs ficaram todo aquele tempo conversando no ponto 
de nibus?!
 No carro dele. Parados ali, o tempo todo.
 Ah, menos mal. E qual foi a dele?
 Bom... a gente falou bastante... fazia tempo mas... em suma...
 Em suma, no! Me conta isso direito.
 De cara ele veio falando da minha situao financeira. Conhecia 
muito bem os problemas que temos passado. Eles sabem mesmo de 
tudo... e sabem que nosso dinheiro est miando. Mesmo quando voc 
comear a trabalhar, no vai ser suficiente para toda a nossa despesa. 
Logo me ofereceu R$ 5.000,00. Abriu a carteira, tirou, foi me dando 
enquanto falava: "Aceita isso como uma ajuda de um amigo, voc vai 
precisar". E eu respondi: "Pera, Marlon... eu no quero seu dinheiro!" 
Mas ele continuou: " sem compromisso, olhe... voc vai precisar". Eu 
olhei e, bvio, fiquei tentado. Cinco mil, assim, ali na minha frente, dando 
sopa.
 Voc no pegou mesmo, n?
 No. Eu achei que no era certo.
 Fez bem, Nen. Imagina s, aceitar dinheiro dessa gente... 
Deus nos livre!
 A ele comeou a dizer que sente minha falta... todos sentem... 
foi muito paternal, me tratou muito bem... foi falando como estavam as 
coisas, como estava o preparo...
 Claro! Ele no ia vir mesmo soltando fogo pela boca  eu tinha 
receio que Eduardo se deixasse envolver emocionalmente.  Ele pode 
ter sido seu amigo, mas hoje  seu inimigo.
 No ele...  retorquiu Eduardo.  No a pessoa dele...
 Eu sei, mas o que est por trs dele, sim, com certeza... voc 
no pode esquecer que ele est sendo manipulado para servir aos 
interesses do diabo. Voc no vai se deixar levar por isso, n?  eu 
falava com brandura na voz, mas tambm com convico.  N, 
Nen?...
 No, no vou me deixar levar... tanto  que estou aqui. Se 
dependesse dele...
 Ai, Eduardo, nem me fala uma loucura dessas... pelo amor de 
Deus!  s de pensar meu corao apertava.
 Bom... ento ele disse que as coisas vo piorar. Vo piorar 
muito mais. Ate agora ningum do lado de l est fazendo nada. Tudo 
vai ficar difcil... e ningum vai me ajudar. Foi muito categrico em dizer 
isso, que ningum ficaria ao meu lado! Acho que ele quis dizer 
financeiramente falando... e tambm em termos de amizade... eu no 
vou ter nenhum amigo. E quando as coisas apertarem, o dinheiro vai 
faltar.
Fiquei calada, esperando pelo resto. Eduardo tinha o aspecto triste 
e preocupado ao mesmo tempo, assim como eu.
 Ele j sabia da carta que escrevi e entreguei ao Pastor Lucas. E 
me disse que ele no vai dar nenhuma importncia pra isso. No vai ligar 
pra minha histria, e nem pra mim.
 E voc falou o qu?
 Eu quase no falei muito, s escutei. Mas nessa altura tive que 
retrucar, disse que no me importa se as pessoas vo, ou no, ficar ao 
meu lado. "Deus  meu Pai", respondi. "E Ele vai cuidar de mim". Marlon 
riu, nem ligou pro que eu disse. Continuou afirmando: "Esse seu Pastor 
no vai dar a mnima pra voc. Voc duvida? Ento liga pra ele", e me 
estendeu o telefone. Eu respondi: "No tenho o nmero da casa dele"; e 
a ele mesmo me deu. "O nmero  tal".
Fiquei surpresa.
 Ele tinha o nmero da casa do Pastor?!
 No h nenhuma dificuldade nisso, voc sabe. Me deu o 
nmero, falou para eu fazer um teste. Como eu no quisesse, ento 
mudou o rumo da conversa e continuou me advertindo de que o meu 
tempo se esgotava, e no haveria nada, nem ningum capaz de me 
proteger. "Deus no poder te proteger". Ento pegou minha Bblia, 
educadamente, e abriu em Lamentaes 2.13. Leu: "Que poderei dizer-
te? A quem te compararei,  filha de Jerusalm? A quem te 
assemelharei, para te consolar a ti,  virgem, filha de Sio? Porque 
grande como o mar  a tua calamidade; quem te acudir?" E continuou 
dizendo que Deus no est me protegendo. "Na verdade, eu  que estou 
te protegendo, porque eu ainda te amo muito, te quero muito bem. Eu 
tenho intercedido a seu favor, impedindo que o clice de ira seja 
derramado sobre voc. Tenho impedido, desta forma, que algo de muito 
ruim te acontea. Voc  especial, filho, e s ns reconhecemos o seu 
potencial. Eles esto dispostos a te dar uma nova chance, voc sabe 
disso, mas o seu tempo se esgota. Esses Cristozinhos de bosta no 
vo ficar ao seu lado quando a coisa apertar de verdade, e nem Deus 
poder te livrar".
Volta e meia eu coava a cabea, apertava a mo contra a outra, 
quieta, escutando. Que dura situao para Eduardo enfrentar!...
 Puxa, Nen... eu sei que isso tudo mexe com a gente. O que 
mais ele disse?
 Tentei eu dizer alguma coisa. E falei que Deus tinha protegido o 
Pastor Brintti... no me veio nada melhor para dizer.
 E...?
 Ele disse que certas Maldies so como certos tipos de 
frutos... levam tempo para amadurecer. "Como ele est hoje? Voc 
sabe?" Eu no sabia, no sei nada do Brintti... ento fiquei quieto. Ele 
estava muito confiante! Parecia saber de coisas que no sei.
 Onde ser que est esse Pastor, no?
 No sei. Ningum sabe dele. Nem a Grace!
De fato ns j tnhamos tentado saber do Pastor Brintti de todos os 
modos mas nossas buscas terminavam em nada. Era sempre alarme 
falso! Mas ele estava vivo, isso ns sabamos.
 Ento, eu tentei por outro lado, e disse que os anjos me 
protegiam. Ele deu outra risada e retrucou que os anjos so uns bichas, 
e que devem estar dormindo pois no impediram que ele se aproximasse 
de mim naquele momento. Mais ou menos a mesma coisa que Zrdico 
disse pelo telefone. Eu tambm no soube o que responder. O que eu ia 
dizer? Tinha sido pego de surpresa completamente. A comeou a falar 
de Thalya, que ela sentia minha falta, que ela era a pessoa certa pra 
mim...
Rilhei os dentes fortemente, mas nada falei.
 Ficou dizendo que voc no  mulher para mim, que voc vai 
me levar pro Inferno, que eu tinha que me afastar de voc... coisas 
assim. Foi muito incisivo nesse ponto.
Fiquei triste e calada.
 Mas isso no  verdade...  reiterou Eduardo.  Ele fala isso 
s pra me convencer a fazer o que ele quer. Pareceu muito insistente em 
que eu largasse de voc. E voc sabe, ns temos tido tanto problema... 
tem sido to difcil! E ele tem que aparecer bem na hora em que a gente 
no t bem. Ele sabe a hora certa!
Olhei para ele com olhos de cachorrinho esperando agrado.
 Ah, Nen...  eu estava sentida.  A gente precisa parar de ter 
tanto problema...
 , Gatinha.  Eduardo acomodou minha cabea no seu ombro. 
 Vai dar tudo certo.
Aquela frase parecia ter um amplo significado em si mesma. 
Queria dizer muita coisa.
 E foi s isso?  meio inquieta, eu levantei novamente a cabea 
para poder v-lo melhor.
 A ele disse que tinha que ir para resolver uns compromissos. 
Me ofereceu de novo o dinheiro... que recusei, claro... e disse para eu 
pensar no que ele havia dito. "Voc tem at o seu aniversrio para me 
dar uma resposta. Depois desta data eu no vou mais poder ajud-lo. 
Este ano  diferente, voc sabe!", terminou ele por fim.
 Foi tudo?
 Falou que at o final da semana eu veria como ele tinha razo, 
meu Pastor no vai me dar importncia. Antes de nos despedirmos, 
peguei a Bblia, lembrando subitamente do texto de Malaquias 3.14-18. 
Li, mas ele no pareceu ligar muito. Antes que eu sasse do carro, pensei 
em orar por ele. E disse mesmo: "Vou orar por voc". Mas ele me olhou 
com uma cara, Isabela... o semblante dele se transformou! Eu desisti, 
n? Vai que ele ficava possesso ali dentro do carro... de qualquer forma, 
ele no ia mesmo permitir que eu orasse! A sa do carro... e voltei para 
casa!
* * * *
Captulo 22
No fim de semana, ns estvamos um pouco preocupados. Tudo 
aquilo estava mexendo tanto com a gente que, em certos momentos, 
acabvamos titubeando. Acabvamos at mesmo nos esquecendo da 
uno e ficvamos pensando se aquele "sonho" tinha sido mesmo 
enviado por Deus!
Tudo parecia confuso. Nossas emoes ficavam de tal forma em 
polvorosa, e havia tambm uma influncia espiritual to grande na mente 
que, por instantes, parecia realmente que o diabo estava falando a 
verdade, e Deus estava mentindo. Havia uma presso grande  volta... 
se assim no fosse, no chegaramos a questionar a Verdade de Deus.
Certamente que estvamos procurando fazer tudo conforme o anjo 
ruivo tinha dito. Por outro lado, Marlon tambm estava confiante e, ainda 
por cima, eles tinham estabelecido uma data limite para o retorno de 
Eduardo. O seu aniversrio seria em pouco menos de dois meses!
Eles no pareciam dispostos a desistir. E ns sabamos, sentindo 
na pele, que aquela luta que apenas comeava no parecia ter hora para 
acabar. Mesmo porque... de que jeito acabaria?
Samos de minha casa no incio da noite e fomos tomar nosso 
capuccino no Fran's. No havia dinheiro para muito mais do que aquilo. 
Na segunda-feira eu retornaria minha busca por um emprego melhor, j 
havia descansado quase quatro semanas. No dava para chamar isso de 
frias... mas fazer o qu?...
Agora era tempo de pensar em trabalho.
Estacionamos perto do Fran's e, antes de descer, comeamos a 
conversar um pouco sobre nossas dvidas, com o corao um pouco 
temeroso. Estava um tempo meio geladinho, coisa da frente fria, e caa 
uma garoinha no pra-brisa do carro. Eu cruzei os braos me 
aconchegando na malha fina da blusa.
 Eu sei que o sonho veio de Deus...  dizia Eduardo.  Foi tudo 
to claro... e teve o leo... e a sensao de paz, de fora que vinha 
dele... mas, mesmo assim, vamos pedir para Deus confirmar tudo isso?
 Se voc acha... ento podemos pedir, mas sabe... ser que 
esse "sonho" j no foi uma espcie de confirmao de outro sonho? 
Sabe que eu estava pensando nisso? Voc no lembra mais?
 Do qu?
 No comeo de novembro do ano passado, est fazendo mais ou 
menos uns dois meses... voc teve aquele sonho, com aqueles anjos... 
lembra?
O rosto de Eduardo iluminou:
 Ahh! E verdade! Aquilo foi sonho realmente, mas mesmo assim 
foi um sonho diferente. Sonhei que fui pra Igreja, que estava na ltima 
quarta-feira da corrente de orao do Pastor Joel, a stima quarta-feira. 
Ento, o Pastor falou que eu iria pregar naquele dia, e no ele, porque 
Deus tinha lhe dado essa direo Da eu lembro que pensei em contar 
sobre Mefibosete... Eu lembrava com ele.
 Pois , desde que voc assistiu aquela pregao daquele 
Pastor estrangeiro na Igreja de minha me, que voc s fala no 
Mefibosete!
 Eu gostei muito do que ele disse, me tocou bastante. E, no 
sonho, j que o Pastor estava dizendo para eu pregar na Igreja, que 
Deus tinha trazido essa direo, pensei em falar sobre Mefibosete.
 Mas a apareceram os anjos!
 Pois ... nessa altura eu no tinha ainda visto os anjos no 
Congresso de Casais, s aquele na Igreja, que parecia um homem. Que 
coisa, n? Mas a, no sonho, quando subi ao plpito vi um anjo ao meu 
lado, e ele disse que primeiro eu deveria dar o meu testemunho. E 
depois podia falar de Mefibosete. Ento eu morri de medo, fiquei 
realmente assustado com aquela ordem. Gozado, n?... Eu ainda no 
tinha recebido nenhuma direo nesse sentido, a primeira foi no 
Encontro de Casais, depois o anjo ruivo confirmou de novo, em casa. 
Como tivesse ficado assustado, ento o anjo do sonho respondeu: "Ns 
estamos com voc!"  a voz de Eduardo tremeu levemente. Ele sempre 
se comovia ao falar dos anjos.  Da eu vi mais anjos ao redor do 
plpito, eles tinham espadas, eram enormes, e apoiavam as espadas 
desembainhadas com a ponta no cho... ento eu me decidi a falar. A, 
conforme eu falava ia entrando muita gente na Igreja... tinha gente at do 
lado de fora! Depois que dei o testemunho, falei de Mefibosete e fiz 
apelo, falei tambm do Salmo 40 que lembrei na hora. E via mais anjos, 
muitos, muitos... eles flutuavam, parecia que a Igreja j no tinha mais 
teto, e eles tocavam as pessoas que pediam.
Eduardo parou um instante, relembrando. E comentou:
 Puxa, eu j tinha at esquecido disso.
 Mas o mais importante  que voc pediu para Deus confirmar 
esse sonho. Antes do final do ano!
  verdade, acordei com uma sensao estranha, como se 
aquele sonho fosse diferente de alguma maneira... porque no era como 
os outros, parecia algo que veio mesmo de Deus. E foi antes do Encontro 
de Casais, n? Puxa vida! Eu pedi mesmo que Deus confirmasse esse 
sonho, dando um sinal atravs de um anjo ou de um profeta.
 A, no Encontro, voc v anjos de verdade, e o ruivo aponta o 
plpito para voc... semanas mais tarde ele vem, te unge, fala do nosso 
Ministrio, diz para escrever a carta, fala do livro, que as informaes 
que voc tem so importantes... falou at da Medicina! E tudo isso veio 
antes do fim do ano! Voc havia pedido que Deus desse direo pra 
nossa vida antes do fim do ano, e Ele deu. Por isso que tudo isso j  
uma confirmao. Ser que se a gente pedir outra vez, Deus vai 
atender?
 Eu acho que Deus vai atender, sim!  respondeu Eduardo.  
Eu sei que foi Ele que falou atravs do anjo ruivo, que praticamente no 
existe nenhuma possibilidade de engano. Mas, por mais remota que seja 
essa chance... acho que  bom a gente ter cem por cento de certeza. 
No podemos tomar o caminho errado. Qualquer erro...  morte certa! 
Esse  um caminho muito perigoso. Deus tambm sabe disso, por isso 
tem sido pronto em atender nossas oraes, no sentido de confirmar a 
direo.
Assenti vrias vezes com a cabea:
 Pois ... j que vamos ter que pr o pescoo na guilhotina...  
procurei tornar a coisa mais amena.   bom mesmo estarmos certos 
disso.  uma coisa sria demais, arriscada demais, para ns dois...
 Se Deus confirmar de novo, ento vamos saber que  isso 
mesmo!
  T. Ah, e teve tambm os trs sonhos com o beb...
 Isso foi super esquisito, mas tambm tinha aquele jeito de 
diferente, de ser um sonho diferente...
 Voc sonhou com o nosso filho, n?
 Pois ... ta uma coisa que eu nunca ia pensar, a gente ainda 
nem casou. Mas foi trs vezes seguidas, eu vi ele direitinho.
 E voc tem certeza que eu era a me, no ?  perguntei, 
sorrindo, s para ter certeza mais uma vez.
 . Voc era a me. Voc estava l! E a gente no estava aqui 
no Brasil...
O tempo futuro mostraria que todos esses sonhos eram profticos. 
Naquela hora, no entanto, eu no tinha l muita convico de que Deus 
fosse falar mais alguma coisa. Aquelas experincias que Eduardo tivera 
valiam por muito mais do que palavras. Mas.......realmente era bom ter 
certeza. Nosso corao ficava pequeno cada vez que a gente pensava 
no assunto de Ministrio. Era muito legal que o Senhor estivesse nos 
chamando para isso, mas... tinha que envolver algo to perigoso? Quem 
ramos ns na ordem das coisas?! H tantos Ministrios bem menos 
perigosos.......!
 Ento vamos orar. Vamos pedir.
Oramos com toda fora que possuamos, com toda a f que nos 
era possvel ter. Fomos sinceros em falar de nossa insegurana, nosso 
temor... afinal, de Deus  que ns no estvamos escondendo nada! 
Falamos tambm do nosso desejo de agradarmos ao corao do Pai. E 
pedimos por fim que o Senhor voltasse a confirmar o caminho Ministerial, 
se era isso mesmo... e tambm se Ele estaria realmente conosco!
Depois, enquanto eu enxugava minhas lgrimas e olhava para 
Eduardo, ele falou:
 Deus vai responder. Nosso pedido  sincero...  justo... voc vai 
ver! No se preocupe.
 Eu me preocupo mais por voc do que por mim. Deus tem que 
estar te protegendo, Nen!
 ...  Eduardo murmurou.  Ns dois! Tem que proteger ns 
dois.
 E minha famlia tambm!
Eduardo sorria; ns ainda estvamos com aquela sensao de 
temor espelhada no semblante.
 Vamos l! Vamos tomar o nosso capuccino! Agora a Gatinha vai 
ganhar capuccino com mentinha!
Procurei me animar. Olhei para o vidro todo respingado de chuva e 
para a folhagem das plantas sacudida pelo vento. Estava um bom tempo 
para capuccino.  Isso, vamos l! Corremos, fugindo da garoa, e 
entramos no Caf.
* * * *
Realmente Deus atendeu nossa orao. Falou mais trs vezes o 
que s ns sabamos.
No dia seguinte pela manh fomos a uma outra unidade de nossa 
Igreja que ficava bem longe, na zona norte da cidade. Uma das Pastoras 
havia me pedido se seria possvel que eu desse uma examinada numa 
mulher pobre que vinha freqentando a Igreja.
 Me parece que ela est grvida!  tinha dito a Pastora.  
Comecei a notar a barriguinha dela e fui dar os parabns. Pra minha 
surpresa ela nem sabe se est ou no grvida. No tem convnio, no 
tem nada. Ser que voc podia examinar?
 Eu posso, sim. Pelo exame ginecolgico d pra ter uma idia. 
Mas ela tem que fazer o teste de gravidez, n? E tem que fazer o pr-
natal, nem que seja no posto de sade.
 Eu queria tirar a dvida. Depois disso a gente d um jeito de 
encaminhar. Ento ficou combinado assim. Ento Eduardo e eu fomos de 
manh at l.
Assistimos o Culto e, mais ou menos no final, o Pastor pediu para 
que orssemos uns pelos outros.
Um dicono gordinho que ns conhecamos de vista aproximou-se 
de Eduardo para orar com ele. Eu orei com uma senhora ao meu lado.
Terminado o Culto, Eduardo ficou conversando e a Pastora veio 
para me apresentar a paciente. Junto com a filha, que era estudante de 
Enfermagem, improvisaram numa sala um lugar que servisse de maca. 
Fiz um exame clnico e tambm o ginecolgico. O exame clnico estava 
normal, a presso arterial boa. Eclampsia existe!
 Existe a possibilidade de voc estar grvida?  perguntei, 
antes de continuar o exame.
 Existir, existe...
Realmente o tero estava aumentado, quase alcanando a cicatriz 
umbilical.
Tirei a luva e expliquei:
 Olha,  quase certo voc estar grvida. J est com mais ou 
menos uns quatro meses, hein?  bom fazer o teste e j comear o pr-
natal no posto. No pode largar, viu?
Dadas as orientaes, fui saindo da sala ao lado da Pastora.
 Obrigada  disse ela.  Quanto eu te devo? At dei uma 
risadinha.
 Bom, no  nada, n? No tem cabimento cobrar por isso.
 Mas foi uma consulta.
 Ah, mas deixa pra l.
Agradecimentos  parte, conversamos um pouco mais e logo 
Eduardo veio para o meu lado.
 Vamos indo?
 Vamos. Tchau, Pastora!  Vo com Deus!
J no carro, eu fui dirigindo. E Eduardo comentou:
 Sabe, confirmao ou no... o dicono, ao orar por mim, pediu 
muita proteo e falou para que "eu no selasse os meus lbios, porque 
o Senhor  comigo. Que espantasse as dvidas do meu corao porque 
Deus tinha me chamado para ser um guerreiro". Dentre outras tantas 
coisas. Foi uma orao profunda para quem no me conhece!
  mesmo. Legal isso, n? Ser que j  a resposta da nossa 
orao?
 Veio em boa hora!
* * * *
No final de semana seguinte, de sexta a domingo, ns dois 
participamos de um "Congresso Internacional de Batalha Espiritual". 
Seria numa Igreja bastante grande, e Grace era uma das preletoras. Ela 
estava voltando de frias e tinha nos incentivado a fazer o curso. De 
forma que ali estvamos ns.
No sbado de manh chegamos cedo, trouxemos at garrafinha 
de gua e almofada para pr na cadeira de plstico, pouco confortvel. A 
manh correu rpida, e o calor foi aumentando. No horrio de almoo 
estava abafadssimo, o ar parado, sem nenhuma brisa. Os ventiladores 
no serviam para muita coisa. No entanto, todo mundo estava animado 
com o evento, ns inclusive.
Haveria lanche ali mesmo para quem quisesse. A Igreja estava 
apinhada de gente, havia filas enormes nos banheiros e tambm para 
pegar o lanche. Mesmo assim eu e Eduardo no nos preocupamos.
 Acho que a gente deve esperar um pouco mais antes de ir 
pegar o lanche, n, Nen?
 Tambm acho. Por enquanto, eu s vou ao banheiro. Voc 
tambm vai?
 Ah, ainda no. Deixo pra mais tarde, quando tiver menos fila. Eu 
espero voc aqui sentada, ento!
 T. Espero no demorar.
 Os homens so mais rpidos!
Fiquei observando o enorme salo, a movimentao das pessoas. 
Ns havamos visto Grace de longe, no plpito, sentada ao lado de mais 
alguns Pastores convidados. Ela tinha uma sala privativa e no adiantava 
ir atrs para nada, pois estaria ocupada. Portanto, s nos restava comer, 
descansar, olhar os livros que estavam  venda, os CDs.
Quase no havia conhecidos nossos ali. s vezes, de longe, no 
meio da multido, eu reconhecia algum de nossa Igreja. Mas foram 
pouqussimos os rostos conhecidos.
Puseram um Louvor para tocar, e era uma msica que eu gostava 
muito. Fiquei ouvindo, orando um pouco mais, devagar, aproveitando 
aquele momento. Fechei os olhos agradecendo a Deus, s falando com 
Ele frases soltas, pensamentos... sentimentos...
Subitamente algum encostou em mim e at dei um pulo de susto!
 Pxa, Nen! Voc me assustou! Foi rpido, hein?
 Como voc disse, os homens so rpidos! No tinha nem 
espelho nesse banheiro...  Eduardo estava com o rosto diferente, 
iluminado.
Eu ia fazer um comentrio sobre o banheiro feminino tambm no 
ter espelhos, e que isso deveria ser estratgico, para fazer as filas 
andarem mais depressa. No entanto, olhando para ele, desisti. E 
perguntei, desconfiada:
 Que foi?
 Agora acho que Deus confirmou mesmo! Aconteceu um negcio 
to estranho l no banheiro...  Eduardo sentou ao meu lado.
Pessoas passavam perto de ns, sorriam, riam e conversavam, 
mas por alguns minutos ficamos alheios  elas.
 Eu estava lavando as mos, j pra sair e voltar pra c, e estava 
aquele clima de congresso no banheiro, sabe? "Amm", "Aleluia", "Irmo" 
pra c e pra l.  gostoso isso, n?
 ,  gostoso sim.
 Ento tinha um senhor perto de mim, um Pastor. Ele ficou me 
olhando... me olhando um tempo. J estava at desconfiando, vai 
saber... mas a ele veio para perto de mim e falou, sem mais essa nem 
aquela: "Voc vai ser um grande Ministro de Deus".
 Falou assim, ? Do nada?
 Pois , do nada! Mas no comeo eu no liguei muito, esse clima 
de congresso influencia as pessoas, todo mundo comea a achar que 
todo mundo tem um grande Ministrio. Mas a ele continuou olhando e 
continuou falando, muito categoricamente: "Voc vai ser, porque Deus 
no d uma guarda dessas para qualquer um". Pxa, Isabela, quando ele 
disse isso at senti um frio na espinha. E a fui eu que fiquei olhando 
para ele, mudo...
Muda fiquei eu. Eduardo comeou a chorar e eu fui atrs.
 A ele falou... "Eu estou vendo doze anjos com voc!"
 Ah, Nen...!  no havia nada de melhor para dizer naquele 
momento. Nosso corao se encheu de alegria. No havia palavras para 
descrever, era algo nico, completamente mpar. Realmente Deus tinha 
nos ouvido e estava respondendo!
 Deus est respondendo... isso quer dizer que nosso caminho  
esse. Senti tremores involuntrios pelo meu corpo. Ento veio 
novamente o medo, misturado com aquela alegria, aquele verdadeiro 
espanto por estarmos vivendo aquelas experincias. Deus parecia ter 
tanta presteza em responder-nos. Eu nunca tinha experimentado nada 
igual.
 Ai, Nen, mas como  que vai ser?
 No sei. Eu tambm tenho medo. Mas Deus est garantindo 
que vai estar conosco. Vamos orar, vamos agradecer pelo que Deus fez, 
e por ter atendido nossa orao.
Comeamos a orar, abraados, com a cabea bem curvada, perto 
dos joelhos. Entre lgrimas confessamos nosso medo, nossa fraqueza, 
ao mesmo tempo em que agradecamos o Amor e Fidelidade do Senhor.
O espao e barulho  nossa volta pareciam no existir...
At que algum comeou a orar conosco, tendo primeiro abraado 
Eduardo por trs, colocando as mos nos ombros dele. Era o mesmo 
dicono, nosso conhecido, que tinha orado com ele na Igreja. Orou um 
pouco conosco e por fim falou novamente o que precisvamos ouvir.
 Deus est com vocs. No tenham medo porque Ele est com 
vocs. Ele tem colocado uma dzia de anjos ao lado de vocs!
Ele se despediu de ns sem falar praticamente mais nada e foi 
cuidar de outras coisas. E ns ficamos ali ainda um tempo, pisando em 
nuvens, flutuando, entre animados e estupefatos. Deus era tremendo!
 Quem vai ao banheiro agora sou eu!  anunciei, olhando o 
banheiro praticamente liberado ao longe.  V se me espera a, Nen!
Entrei no banheiro sorridente, cantarolando.
"No precisamos ter medo. Deus  grande!"
Naquele momento tanto eu quanto ele sentamos ser tudo 
possvel. Quando sa, Eduardo estava parado ao lado de uma das 
enormes portas do salo, observando o tempo.
 Voc no acha que seria melhor eu trazer o carro para colocar 
aqui dentro?  indagou Eduardo.
Ele era todo cismado em deixar o carro na rua. Quando chegamos 
de manh no havia a menor possibilidade de estacionar no ptio da 
Igreja.
 Ah, Eduardo... no precisa, vai! O carro t a mesmo, no tem 
nem dois quarteires de distncia daqui. T numa tima vaga. Pra que 
cismar, perder tempo? Deixa l mesmo. Vamos almoar!
Mas Eduardo foi irredutvel.
 T armando o maior p d'gua: olha s o cu.
 Pois vai ser bom mesmo chover um pouco. Do jeito que est 
calor! Vai ficar bem melhor aqui no congresso se refrescar um pouco.
 Ento eu vou buscar o carro rapidinho, menina. E estaciono 
aqui dentro acho que  melhor. Se voc quiser, vai pegando a fila do 
lanche.
 No, eu te espero... pxa, que coisa, vai de uma vez buscar 
esse carro, j que voc quer tanto. No sei pra que isso!
 Shhhhh!  brincou ele.  No fica "Pit"! Eu j volto. So s 
cinco minutos. Dei um sorriso de volta.
 T bom, vai logo, vai!
Nem pensei em ir junto porque o carro estava muito perto. Eduardo 
foi. Antes no tivesse ido. Teimosia!
Nem bem ele saiu e em segundos desabou o mundo num 
aguaceiro s! Fiquei na porta, observando de longe o porto do ptio, 
imaginando que em poucos minutos nosso Palio vermelho entraria por 
ali, pilotado pelo Nen!
Eu espero, que espero, que espero!......
"Cad Eduardo, meu Deus?"
Comecei a andar de um lado pro outro, esforando-me para 
manter a calma. Olhava a toda hora no relgio, j passava de meia hora, 
o que podia ter havido??? Minha cabea rodopiava com todo tipo de 
pensamentos e possibilidades. J pensava em tudo, at que Eduardo 
pudesse ter sido raptado por Satanistas! Pode parecer engraado, mas 
na hora no foi nem um pouco.
"Quarenta minutos!"
E nada de Eduardo. J estava muito difcil manter a cabea fria. 
Instintivamente eu orava em lnguas, mas naquele instante vi Ricardo 
passando por ali: ele tambm fora convocado por Grace. Fui at ele, 
expliquei o que acontecia, pedi que ele estivesse orando.
Felizmente Eduardo levou apenas mais cinco minutos para 
aparecer, exatamente 45 minutos depois de ter sado. Meu corao 
relaxou no peito quando vi o Palio, e voei at ele pela chuva mesmo, que 
j estava mais branda, to logo ele entrou pelo porto.
 Nen! Que aconteceu? Meu Deus, estou super preocupada!
Ele estava irritado:
 Nem te conto! As drogas das ruas desse bairro no tm um 
pingo de lgica, no so bem programadas. No tinha mo pra voltar 
para c!
 Como no tinha, Eduardo?  aquilo para mim parecia 
inconcebvel, inexplicvel.  Voc ficou rodando at agora?
 Sorte minha estar aqui. Eu no enxergava nada com essa 
chuva, ca na avenida l em cima e, de repente, vi um nibus virar  
direita. Achei que devia ser esse o sentido pra vir para c... j estava 
tudo alagado, enxurradas para todo lado!
Entendi tudo. Pus as mos na cintura.
 Ento voc se perdeu, Nen!?
Ele fez carinha de menino, e admitiu:
 Me perdi, "M"... Nen se perdeu debaixo da chuva! H!  
aquele barulhinho era caracterstico dos momentos em que Eduardo se 
sentia constrangido.  Mas a, s nibus podia fazer converso  direita. 
Assim que ultrapassei o nibus, percebi que estava em plena contramo. 
A, que azar! Bem ali tinha um posto de gasolina... e um policial estava 
com o carro estacionado, e me viu. Escutei na mesma hora o apito!
 Nen, e o que voc fez?
 Parei, n? O guardinha veio correndo, apitando, debaixo da 
chuva. Se ensopou todo! A, imaginei que se eu esperasse por ele ia ser 
pior...
Comecei a esboar um sorriso involuntrio:
 Ento voc no esperou o guarda?
 No, "M"... pesei a situao e achei que era melhor levar s 
multa por trafegar na contramo, e no por dirigir sem carta, alm de 
tudo. Da acelerei e larguei ele l, debaixo de chuva, apitando mais 
ainda.  Eduardo no pde conter uma risadinha.  Ele deve ter ficado 
louco da vida porque veio debaixo de chuva!
Comecei a rir tambm.  No acredito!
 Ele j tava com a cara na janela, e me mandei!
Ns dois comeamos a rir compulsivamente e descontramos.
 Ah, no tinha o que fazer. Deus que me perdoe!  fez Eduardo.
Fomos almoar rapidamente o nosso lanche porque j nem havia 
tanto tempo para isso. E o resto do congresso transcorreu sem outros 
imprevistos.
* * * *
Quando voltvamos para casa Eduardo teve apenas mais um 
comentrio a acrescentar.
 Encontrei com Ricardo na livraria um pouco antes da gente vir 
embora. E sabe o que foi que ele me disse? Falou direitinho sobre o final 
do Terceiro Ciclo!  incrvel, hein? (Leia Filho do Fogo).
 O Terceiro Ciclo termina agora... neste ano\ timo! E o que isso 
significa?
 J explico. Mas o mais incrvel  que Ricardo falou isso!
 Dos trs Ciclos?
 No, no dos trs Ciclos, mas do perodo de 666 dias depois 
que termina o Terceiro Ciclo. Olha s, ele veio me dizer que Deus tinha 
revelado algo para ele quando orava por mim. Deus mostrou que estava 
terminando um importante perodo para a Irmandade, e que comeava 
um novo perodo, um perodo de 666 dias. E que esse seria um perodo 
muito difcil para ns. A data para esse perodo comear  6 de maro.
 E  a que termina o Terceiro Ciclo?
 Sim. De 6 de maro at a virada de 1999 para 2000 tem 666 
dias. Esse  um importante perodo de preparo estratgico da 
Irmandade. Senti at um arrepio.
 E ele disse que esse vai ser um perodo difcil pra gente... quer 
dizer, mais difcil?
 Mas repare s no detalhe: isso bate com a data limite que foi 
estabelecida pela Irmandade, e que Marlon veio trazer. Eu no tinha me 
tocado disso, fiz tanta fora para esquecer todos esses detalhes... Marlon 
disse que eu tinha que voltar at o meu aniversrio porque, depois disso, 
no poderia fazer mais nada por mim. Isso  bvio...
 Por qu?
 Porque eles entram nesse outro perodo de preparo... quem 
est dentro... est... e quem no est, no est...  isso! Segundo 
Marlon, essa  minha ltima chance.
Dei de ombros. Procurei no prestar ateno na sensao de 
desconforto que aquilo causava.
 Bom, o que ele diz  o que menos importa!
Eduardo ficou um tempo em silncio, olhando a Marginal que 
passava rpida pelo vidro do banco de passageiros. O sol estava 
brilhante, quente, as cores estavam vivas depois da chuva da vspera. 
Eu tambm fiquei quieta e pensativa, dirigia sem prestar ateno no 
caminho, por inrcia.
"666 dias..."
As revelaes vinham, uma aps outra, e muito daquilo era difcil 
de acreditar, de aceitar, por isso eu tornava-me introspectiva e calada. E, 
naquela introspeco... pensava e pensava... e pensava. No fazia 
sentido.
"Por que Eduardo? Por que eu?!"
Ele quebrou o silncio:
 O mais incrvel  Ricardo ter acertado em cheio. Ele j tinha 
comentado isso com Grace.
Realmente tudo o que ele diz, quando fruto de discernimento, vem 
de Deus. Vai alm de qualquer coincidncia!
 .
E continuamos pensativos.
* * * *
Realmente o Senhor sabia que ns precisvamos das Suas 
confirmaes. Porque o caminho seria sobremodo rido. Por isso Ele no 
economizou em sinais naquele perodo, como fruto das nossas oraes.
Engraado como, na poca, no percebemos muito claramente 
esse mover do Esprito Santo. No como hoje o enxergamos.
Talvez o temor, a inquietao gerada pelo desconhecido, o fato de 
estarmos to atnitos tantas vezes... quer fosse pelo sobrenatural de 
Deus ou pelas investidas do inimigo... fato  que tudo isso facilmente nos 
cegava e impedia de discernir com maior clareza.
Relembrando hoje percebemos que Deus foi Fiel em nos apontar o 
caminho a ser seguido.
Mas naquele tempo a gente no estava to  vontade assim em 
caminhar por estas novas veredas. To novas que, por vezes, eram 
terrivelmente assustadoras!
O encontro com o Pastor Lucas aproximava-se. Seria na semana 
seguinte. Estvamos um pouco cabreiros, at mesmo Eduardo se sentia 
dessa forma, mas mesmo assim continuava ansioso.
Marlon havia dito que ele no nos ouviria. Tinha dito inclusive que 
"antes do final daquela semana Eduardo teria confirmao de que o que 
ele estava dizendo era verdade".
Por causa dessa afirmao, Eduardo, um tanto incomodado, 
abordou o Pastor no final do Culto naquele fim de semana. Tinha que 
tirar a limpo aquela histria. Puxou conversa, perguntou o que ele tinha 
achado da carta, comentou que o encontro j estava marcado para o fim 
do ms... etc... etc.
Nosso Pastor estava apressado e no teve muito que falar. 
Realmente no pareceu muito preocupado e nem interessado na histria 
cuja prvia fora relatada na carta.
 Na verdade, todo aquele que nao serve Cristo  do diabo!
Eduardo tentou discordar em poucas palavras, no era bem assim 
porque h nveis e nveis de compromisso com as Trevas... 
conseqentemente, nveis e nveis de guerra. O homem incrdulo, ou at 
mesmo um pai-de-santo, so muito diferentes dos verdadeiros 
Satanistas, e...
 Bom, a gente conversa no fim do ms!
Eduardo decepcionou-se tremendamente com aquela atitude. 
Mesmo assim preferimos acreditar que tinha sido meramente obra do 
acaso, que ele estava de fato apressado. Durante a semana estivemos 
orando com Dona Clara para que Deus preparasse o encontro, a 
conversa, o que devia e o que no devia ser dito. E, principalmente, que 
o propsito de Deus fosse cumprido.
Tnhamos inteno de compartilhar com o Pastor Lucas e com seu 
principal auxiliar, o Pastor Joel, de uma s vez. Mas no tinha sido 
possvel por falta de horrios comuns. Ento no nos demos por 
achados, marcamos dois encontros: no primeiro dia, com o Pastor Joel; e 
no dia seguinte, com o Pastor Lucas.
Fomos para o primeiro encontro cheios de expectativa. Eduardo 
comeou compartilhando o "sonho" como sendo o estopim daquele 
encontro. Depois explicou tambm as ameaas de Marlon. Um pouco de 
cada coisa, apenas o suficiente para contextualizar, para que ele 
compreendesse o que estvamos dizendo. Eduardo tambm explicou o 
que foi possvel do seu envolvimento passado com a Irmandade, naquele 
curto espao de tempo.
O Pastor ouvia com olhos espantados, ar srio. Sei l se estava 
acreditando de verdade no que a gente dizia. Mas, no final das contas, o 
encontro foi muito bom porque, tendo ele uma uno Proftica, quando 
orou por ns no final, Deus o usou para trazer novas confirmaes. E 
direes.
Ns no havamos falado nada sobre o chamado Ministerial 
porque Deus havia dito para compartilharmos o testemunho.
Mas o Pastor Joel, orando primeiro por Eduardo, trouxe muitas 
palavras de encorajamento e confirmou o chamado dizendo que Deus 
lhe dava algo especial, grande, como poucos receberam. Falou um 
pouco mais sobre isso, sobre como seria no futuro, o que no convm 
liberar at que se cumpra. Ele foi o primeiro a dizer isso, mas este 
aspecto do nosso futuro Ministrio viria outras vezes ao longo dos anos.
Depois, orou por mim. Engraado que orou mais por mim do que 
por Eduardo, o que no era comum. E como ele no sabia bulhufas a 
meu respeito, recebi de corao aberto suas palavras porque os detalhes 
provaram que elas vinham do alto.
 Voc  formosa, filha minha, bela aos Meus olhos. s vezes 
voc acha que sua orao como intercessora no tem valor, no tem 
Poder, mas eu estou ouvindo cada palavra sua. Estou preparando lugar, 
filha, no Ministrio que tenho guardado para ti. Eu vou curar toda ferida 
na sua alma, todo trauma emocional.
Depois, atravs da boca daquele Profeta, o Senhor tambm 
acalmou meu principal medo. Nessa altura eu j chorava, porque aquelas 
palavras eram to certeiras.
O Pastor ento repreendeu o ataque noturno contra mim, e todo 
esprito de morte.
 Protege a mente da Tua filha. Protege a mente dela de todo o 
ataque... Terminou dizendo que Deus estava me preparando. 
Preparando para o Ministrio que Ele tinha nos dado. Mais uma vez 
ficava claro que Deus estava chamando ns dois, e no somente 
Eduardo.
Samos de l renovados, encorajados, animados. Quando Deus 
realmente age  incontestvel. Quando se tem contato com algum que 
manifesta os Dons verdadeiros do Esprito, encontramos paz, fora e 
amor.
No dia seguinte compartilhamos praticamente a mesma coisa com 
o Pastor Lucas. Foi um pouco mais difcil chegarmos aos finalmente 
porque ele falava bastante e toda hora perdamos o fio da meada em 
conversas paralelas. Por fim, no permitiu que Eduardo desse qualquer 
testemunho de sua histria na Igreja, nem mesmo com os lderes ou o 
grupo de intercessores pessoais dele. Compreendemos que talvez 
realmente no fosse o tempo de fazer isso. Mas cumprimos nossa parte 
ao deix-lo devidamente informado.
Depois, ao saber de nossos problemas mais recentes, ofereceu-se 
para encaminhar um currculo de Eduardo.
 Se voc no se ofender, tenho tambm algumas roupas, um par 
de sapatos quase novo. Eu poderia te dar!
 No me ofendo, no, Pastor! Se o senhor quiser me dar, eu 
agradeo.
Mas samos de l sem saber se ele tinha compreendido realmente 
o propsito do encontro. Nem mesmo se tinha acreditado em ns. O fato 
do anjo ruivo ter dado diretamente essa direo parece que passou 
despercebido.
* * * *
Captulo 23
No d ia 11 de fevereiro Grace ligou para Eduardo.
 Oi, Daniel... como vocs esto?  ela sempre chamava 
Eduardo de Daniel e sempre falava no plural, me incluindo.
 Tudo bem, Grace... e a, como est voc tambm? A gente no 
se v e nem se fala desde o congresso.
 Pois ... eu vou indo bem, estive viajando, mas agora j 
cheguei. E as coisas? Eduardo contou um pouco. Ento Grace falou ao 
que vinha:
 Na verdade, estou pedindo sua ajuda, Daniel. No precisa me 
responder j, OK?
 Sim, Grace! Pode falar!
 Estou organizando um pequeno evento, na verdade nem d 
para chamar de congresso,  um encontro para alguns lderes. Escolhi a 
dedo algumas pessoas, s gente de confiana e que j tem um Ministrio 
voltado para a rea de Batalha Espiritual. Dentre eles, conto com a 
presena de seu Pastor!
Eduardo escutava ainda sem entender:  Sim...OK!
 Olha, eu te peo que voc confie em mim, t? "Nossa, que 
ser?!?", Eduardo pensava consigo. E alto:
 Claro que eu confio em voc, Grace.
 Bem... ns vamos falar sobre Satanismo nesse encontro. Sero 
s dois dias e vamos passar o tempo juntos nas dependncias de uma 
Misso que fica pertinho de So Paulo. Sabe, estou percebendo que 
temos que abordar esse assunto. Eu mesma tenho tido vrias 
experincias com grupos de adoradores do diabo. No pessoas como 
voc, da Irmandade, mas... isso  algo que est a! E voc me ajudaria 
muito se pudesse vir. No vai ser nada muito formal, vamos conversar, 
compartilhar experincias... dividir experincias, na verdade!
 E eu iria... pra falar alguma coisa?  Eduardo tinha uma leve 
preocupao na voz. Grace talvez tenha percebido.
 Olha, no precisa responder agora. Ora um pouco, e vamos ver 
o que o Senhor te diz.
 Quando vai ser o encontro?
 No final da semana. Na verdade, eu gostaria que voc desse 
um pequeno testemunho no dia 14.
Aquilo de repente veio como fogo no seu corao.  Grace... eu... 
olha... puxa vida!
 Que foi?
 Lembra daquele sonho com o anjo ruivo? Aquilo que te contei?
 Lembro, lembro sim.
 Pois ... ele falou segunda quinzena de fevereiro! Isto , na 
segunda metade... e dado que fevereiro no tem 30 dias... dia 14 j  a 
segunda metade!... Acho que no tem o que orar, n?
 Eu no me lembrava desta data. Realmente ns nem pensamos 
nisso. E, a bem da verdade, eu estava indecisa se devia expor voc ou 
no, por isso no avisei com antecedncia. Mas parece que Deus 
colocou isso no meu corao de ltima hora!
 Bem... voc pode contar comigo ento. Deus j avisou, mas... 
essas pessoas so de confiana mesmo, n, Grace?
Tendo Deus avisado ou no, aquela era uma situao que gerava 
um leve desconforto. Ia haver uma exposio diante de pessoas 
desconhecidas. Enfim, ns tnhamos certeza de que Grace sabia o que 
estava fazendo! Tanto eu quanto Eduardo confivamos muito nela.
 Eu convidei um a um, por carta, pedi a confirmao por escrito. 
No seremos mais do que 40 ou 50 pessoas.  explicou a Grace.
No dia seguinte Eduardo veio me contar com detalhes aquela 
conversa. A princpio fiquei um pouco em estado de choque. No porque 
ele fosse falar qualquer coisa, mas...
 Caramba, Deus cumpriu mesmo a data, hein?!
Nem parecia realidade, especialmente por causa daquela data to 
certeira...
 E ns vamos dormir l?  perguntei a Eduardo depois de 
colocar os ps no cho outra vez.
 Vamos, sim. A Grace disse que o lugar  muito agradvel. J 
fez retiro da equipe dela l! Disse que ns vamos gostar. Vamos na 
sexta-feira de manh.
 T bom. Acho ento que voc vai ter que ir com algum, porque 
no sei se d para sair do servio mais cedo...
 Ela ficou feliz de saber que voc comeou a trabalhar!
 Pois , e no posso faltar assim de cara.
 Ser que no tem jeito mesmo?
 Acho melhor no... eu vou mais tarde, sozinha. Com quem ser 
que voc pode ir?
 A Grace disse que no tem problema pra eles me darem uma 
carona, me convidou pra ir com ela!
* * * *
Eduardo foi para o tal encontro com Grace, na sexta-feira de 
manh, enquanto eu ainda estava no servio.
Sa do trabalho rapidamente e peguei a estrada, pensativa, 
escutando um Louvor e divagando em idias. Cheguei na Misso com a 
tarde j avanada, sem problemas para encontrar o lugar. S tive de 
perguntar uma vez. O lugar parecia ser bem grande, procurei estacionar 
o carro sem perder tempo. O tempo estava fechado, o cu cheio de 
nuvens escuras. Certamente vinha chuva por a. Um pouco mais difcil do 
que achar a Misso foi achar a sala onde Grace estava com os 
participantes do congresso.
Finalmente me deram a informao certa e entrei na sala no meio 
de uma palestra em andamento. Sentei-me numa cadeira vazia mais ou 
menos do outro lado de onde Eduardo se encontrava. Ao seu lado no 
havia cadeira vaga, pois as duas estavam ocupadas por Grace e 
Ricardo. Sorri de leve para ele, acenando com a mo.
Alis, as nicas pessoas conhecidas ali eram Ricardo e uma 
Pastora de nossa Igreja. Aquela mesma que me tinha pedido para 
examinar a mulher grvida. Eu observei cada rosto enquanto escutava, 
quieta no meu canto. Estvamos sentados lado a lado na sala no muito 
grande, as cadeiras espalhadas em crculo, onde todos podiam ver 
todos.
No demorou muito mais e Grace encerrou.
 Vou dar um perodo de descanso agora, antes do jantar. 
Retomamos mais tarde,  noite.
Fui direto para perto de Eduardo, cumprimentei Grace e Ricardo. 
Todo mundo foi saindo ao mesmo tempo, conversando e falando entre 
eles.
 E a?  perguntei a Eduardo.
 Todo mundo se apresentou, mas Grace falou por mim. No me 
apresentou formalmente, disse apenas que eu era algum que ela vinha 
ministrando h pouco mais de um ano.
 Vamos indo tambm? Voc j conheceu a fora?
 Eu no tive ainda oportunidade de xeretar, mas podemos dar 
uma olhadinha agora.
 T bom.
Na verdade no deu para irmos muito longe porque comeou a 
chover. Ento, tratamos de conhecer os dormitrios, onde j estava a 
maioria das pessoas. Eu fui para o das mulheres junto com a Pastora da 
nossa Igreja, com quem cruzamos pelo caminho. Eduardo foi com 
Ricardo conhecer o seu.
Assim que ajeitamos nossas coisas voltamos a nos encontrar do 
lado de fora.
 Estou num quarto junto com Ricardo e mais cinco ou seis 
Pastores  falou Eduardo. Embora ele nada comentasse comigo, 
Eduardo notara que, quando eles comearam a arrumar suas coisas, na 
bagagem deles havia algo crucial que faltava na sua: roupa de cama!
Puxa vida!.... Que mancada! Grace no lhe tinha dito nada sobre 
isso imaginando que fosse algo bvio. Eduardo no falou nada, e deixou 
sua mochila sobre o colcho pelado. A caminha de todos ficou arrumada, 
menos a dele.
"No  o fim do mundo."
E nem se preocupou mais.
Depois do jantar, voltamos para nossa salinha para darmos 
seqncia ao encontro. Eu e Eduardo, de mos dadas dessa vez, 
perguntamos para Grace:
 E o Pastor Lucas? Voc no disse que ele vinha?
 Vinha. Mas parece que ele teve um imprevisto de ltima hora. 
Que coisa.  uma pena!
Realmente era uma pena, porque se ele participasse do encontro 
talvez mudasse de opinio sobre o testemunho de Eduardo na Igreja.
No final da noite, pouco antes de encerrar, Grace dirigiu o grupo 
todo a orar pedindo proteo naquele lugar. Ao que parecia, mais de 
uma pessoa tinha ido falar com ela sobre uma inquietao neste sentido.
   como se estivssemos sendo espionados. Mas vamos orar 
agora em concordncia!  fez Grace aps explicar o motivo pelo qual 
pedia uma orao to insistente.
Foi levantado um clamor de guerra ali. Quando terminou, um 
Pastor de cabelos grisalhos compartilhou a viso que o Senhor lhe 
trouxera. Ns dois j estvamos nos acostumando com aquilo.
 Enquanto a gente orava, o Senhor foi estendendo uma cpula 
de proteo ao redor de toda a Misso, englobando todo o permetro 
deste lugar. Ela foi se erguendo de baixo para cima e, quando a cpula 
estava para se fechar, alguma coisa perfurou o bloqueio e entrou. Entrou 
aqui dentro, ficou dentro da cpula  avisou ele.
 Seja l o que for...  retorquiu Grace.  Vamos continuar 
orando para que seja paralisado.
Terminadas as oraes e o perodo de estudo da noite, Eduardo 
me acompanhou at a porta do meu dormitrio.
 Boa noite, "M"!  falou ele.  V se descansa bem, t?
 Amanh  o dia, n?  comentei s para puxar papo, s para 
descontrair um pouco a minha prpria inquietao.
 Voc est preocupada?
 No  bem essa a palavra... estou mais ansiosa do que 
qualquer coisa. Como ser que vai ser?
 A Grace falou para eu no me preocupar, ela vai dirigir tudo. 
No vou ter que falar sozinho.
Suspirei. Dei-lhe um abrao e bocejei:
 Foi um dia cheio. Dorme bem, Nen!
 Tchau! At amanh.
* * * *
Dormi mais ou menos. Demorei um pouco a sair debaixo da 
coberta, fiquei apenas deitada na cama, quieta, observando as mulheres 
que se levantavam uma aps a outra.
 Levanta, menina!  fez uma das Pastoras.
 Estou tentando acordar.
Me arrumei, arrumei minha cama, acabei conhecendo a moa 
japonesa que estava dormindo na cama ao lado da minha. Diferente das 
demais mulheres, mais velhas do que ns, ela tambm era novinha. 
Conversamos um pouco e fomos caminhando para o refeitrio, para o 
caf da manh.
Eduardo j estava l, e veio ao nosso encontro, todo sorridente. 
Fiz as apresentaes, e fomos para a mesa. Naquela hora ele no me 
contou nada sobre como tinha sido logo cedo por causa da presena da 
moa. No entanto, depois de comermos, acabamos voltando para o 
dormitrio a fim de escovar os dentes. Ento ele contou.
 Foi esquisito hoje de manh... no entendi nada!  Que foi?
 Eu dormi bem  noite, bem at demais. Para mim foi uma noite 
tranqila e s acordei no dia seguinte. De manhzinha os Pastores 
estavam todos levantando e eu fui direto para o banheiro tomar um 
banho. Como sempre. Fui falando "bom-dia" para aqueles com quem 
cruzava pelo caminho. "Bom-dia!", respondeu um dos Pastores, "Voc 
dormiu bem?...". E foi a que comecei a achar estranho, senti algo nas 
entrelinhas daquela pergunta, muito sutil, mas no dei importncia. 
Respondi que tinha dormido bem, sim... mas dali a pouco era outro: 
"Dormiu bem...?" E eu respondia de novo que sim. A eu estava 
escovando os dentes e mais um outro, que tinha ficado me olhando pelo 
espelho, veio com a mesma pergunta. Gozado!... Parecia que tinha algo 
mais na expresso deles, no tom, sei l! Algo alm de uma simples 
cortesia, sabe?
 U...
 Fiquei encafifado, me perguntando "que ser?" Quando sa do 
banho dei de cara com Ricardo. Ele deixou transparecer uma 
preocupao a mais que os outros no deixaram. Talvez porque j me 
conhecesse melhor. E veio logo dizendo a mesma coisa: "Voc dormiu 
bem?" Eu j estava implicado n? "Dormi, pxa! Por que todo mundo t 
me perguntando isso e me olhando com cara estranha?"
 Pois !  exclamei.
 Mas ele insistiu um pouco mais e perguntou de novo: "Dormiu 
bem mesmo!? No sentiu nada de diferente, de anormal?" Eu falei que 
no, que estava tudo normal.
 Mas por que tudo isso?
 Olha, vou te contar. Aconteceu um negcio bem esquisito  
noite.  Mas o que foi?
 O Ricardo acabou me dizendo. Acho que todo mundo estava 
meio dormindo no nosso quarto, j devia ser bem tarde. Ele acabou 
acordando com algum que abriu a porta do quarto, e pensou que era 
um dos Pastores voltando do banheiro. Nessa hora viu que um outro 
Pastor tambm estava acordado, e este perguntou ao que entrava: "T 
tudo bem?" Certamente tambm pensando que o cara tava passando 
mal, tendo que ir ao banheiro naquela hora.  Sei.
 Da o tal que entrou fez sinal de silncio, ps o dedo sobre a 
boca como quem diz para ficar quieto. Ricardo diz que viu muito bem, o 
outro Pastor tambm. Mas a  que foi o mais estranho, o que entrou no 
quarto foi at minha cama e me pegou pelo pescoo, comeou a me 
enforcar!
Isabela franziu a testa, achando aquela histria um osso duro de 
roer.
 Mas ser....? Essa histria no est meio mal contada, no?
 Alguma coisa eles devem ter visto, porque estava todo mundo 
cabreiro de manh. Mas escuta o resto... Ricardo disse que foi a que eu 
emiti um som alto, um som de quem est engasgado, sufocado mesmo. 
E com isso mais uns dois ou trs acordaram! Por isso que est todo 
mundo meio estranho comigo, sem entender.
 Voc no sentiu nada mesmo?  indagou Isabela novamente.
 Eu fiquei mais encafifado do que eles depois que Ricardo me 
contou essa histria. Pelo que ele me disse, todo mundo garantiu que viu 
e ouviu a mesma coisa... mas eu... nossa ... no senti nada, no vi nada. 
Ricardo disse que eles oraram. E foi s.
 E a tal figura que entrou no quarto? Que que aconteceu?
 Do mesmo jeito que entrou, saiu... pelo que ele disse.
 Que coisa mais estranha... vai ver foi um demnio, o que mais?
 Mas todo mundo orou ontem pedindo proteo.
 ... mas lembra que aquele Pastor falou que alguma coisa 
entrou aqui antes da cpula fechar?
 Ento sei l! Vamos falar com a Grace?
  Lembra tambm quando Abraxas entrou dentro da nossa sala 
de Ministrao, at que voc e Ricardo sentiram o mesmo tipo de 
opresso? Ns tambm tnhamos orado pedindo proteo, pedindo que 
Deus selasse aquele lugar. E ele entrou do mesmo jeito!
 Vamos falar com a Grace.
Corremos at ela. Grace j estava a par de tudo. Pelo visto a 
histria tinha corrido rpido e todos estavam incomodados com aquilo.
 Sim, vieram me contar  comeou ela.  Vamos conversar 
sobre isso antes do almoo. Deus permitiu, ento  porque h um 
propsito.
Realmente. Um dos Pastores, justamente o que tinha visto o vulto 
entrar no quarto e colocar o dedo sobre os lbios em sinal de silncio, 
estava particularmente confuso.
 No sei dizer...  ele repetia vrias vezes.  Eu conheo a 
opresso demonaca, mas quem entrou ali no era demnio... porque 
no transmitia opresso, entendem? Por isso naquela hora fiquei sem 
saber se era de Deus ou do diabo aquela apario. Se por um lado a 
atitude dele pareceu suspeita, por outro... no tinha nenhuma opresso, 
nenhuma! Parecia uma pessoa comum. Por isso que, logo que a gente 
acordou, pensamos que fosse um dos nossos entrando no quarto.
 E como era o vulto?
 Um homem! Um homem de cinqenta e poucos anos, um pouco 
grisalho...
  isso mesmo!  Ricardo concordou, falando tambm.
Eu demorei um pouco para compreender, mas Eduardo, j 
sentindo um calafrio por dentro, compreendeu imediatamente. Sabia 
exatamente de que se tratava. No era realmente um demnio, mas o 
esprito humano de algum... algum que viera por desdobramento... e, 
exercendo seu Poder, invadira a rea de proteo estendida ao redor da 
Misso. (Leia Filho do Fogo.)
"Esse algum... um homem... cinqenta e poucos anos. Seria 
Marlon?! Ou... Zrdico?!"
Ningum havia orado especificamente pedindo proteo contra 
aquele tipo de artimanha. Se os demnios tiveram que obedecer ao 
comando daqueles homens e mulheres de Deus, a verdade  que um 
esprito humano no  demnio. Nossa orao no tinha sido especfica 
o suficiente. Por isso o Pastor no sentiu qualquer opresso, claro. O 
esprito de algum no transmite opresso!
A falta de orao neste sentido permitiu que ele tivesse liberdade 
de entrar no nosso meio. Eduardo nada falou, mas assistiu  discusso e 
viu a que concluses foram chegando. Elas tinham sido precisas. A 
revelao acerca dos espritos humanos vinha chegando  Igreja, 
especialmente depois do lanamento do livro de Rebecca Brown.
Deus permitira o acontecido. Todos puderam comprovar naquela 
ocasio a veracidade destes fatos. Embora eles ainda no pudessem 
vislumbrar por que aquele esprito tinha atacado Eduardo, a verdade  
que aquilo era mais um aviso da Irmandade para ele.
Eles sabiam que Eduardo iria falar...
Mais tarde, ele comentou somente comigo. Estvamos bastante 
conscientes do verdadeiro motivo daquele episdio. Eu estava um pouco 
preocupada, como no podia deixar de ser. Mas Eduardo se sentia 
estranhamente tranqilo. Fomos comentar com Grace:
 Pode ser que tenha sido Marlon, eu sei que ele acompanha 
cada passo meu, mas tambm pode ter sido Zrdico  falou Eduardo.  
Certamente eles sabem da sua proposta, Grace, sabem que eu estou 
aqui. Sabem que eu vou falar... no tem nenhuma dificuldade para um 
Sumo Sacerdote da Irmandade usar o Poder do desdobramento.
 Mas Deus revelou a inteno do inimigo, e tambm te protegeu. 
No vamos ficar com medo e fazer a vontade do diabo!
* * * *
Aps o almoo, sentada ao lado de Eduardo, s larguei da sua 
mo quando Grace comeou a direcionar o testemunho.
No durou muito, nem ele precisou falar demais. Grace tinha 
montado aquele perodo em forma de perguntas e respostas. Ela fazia 
uma pergunta direcionada e Eduardo respondia. Dessa forma, em pouco 
mais de quarenta minutos, Eduardo deixou claro aos presentes que a 
Irmandade de fato existia, que ele tinha feito parte desta organizao, e 
que ela estava empenhada em concretizar seus objetivos a todo custo.
O grupo todo olhava para ele estranhamente, e ouvia. No sei at 
que ponto acreditaram na realidade daquilo. Agora j no se tratava de 
algo to distante, uma realidade dos Estados Unidos, uma realidade de 
outra cultura. A julgar pelas caras e pelos olhares, aquilo que Eduardo 
compartilhou, em breves nuanas, no era exatamente o que as pessoas 
esperavam. Quer dizer, ningum esperava ouvir falar na Irmandade 
como fazendo parte do nosso cotidiano, sendo algo to prximo de todos 
ns.
Eduardo era brasileiro e o que ele estava contando fazia parte da 
nossa sociedade brasileira. Depois, ele era tambm muito novo; uma 
pessoa comum. Creio que tambm por isso a maioria dos presentes 
tinha uma certa relutncia em aceitar sua histria.
Confesso que, fragmentada, era mesmo um osso duro de roer. 
Estratosfrica demais para ser digna de crdito.
Mas a verdade era uma s: Deus cumprira com a Sua Promessa!
Para Eduardo, para mim, era o que contava naquele momento!
* * * *
Aquilo havia sido um sinal de Deus para ns. Na nossa cabea, 
imaginvamos que talvez Eduardo j fosse comear a dar testemunhos 
em Igrejas, afinal, o que mais Deus haveria de querer? Mas no foi assim 
que aconteceu.
Todo Ministrio comea com o preparo para ele!
Assim foi com Davi que, ungido por Samuel, ocupou o trono 
apenas anos mais tarde, depois das perseguies que serviram de 
treinamento para ele. Assim foi tambm com Moiss, que passou 
quarenta anos no deserto antes de voltar ao Egito como libertador... 
assim foi com os apstolos de Jesus, que primeiro caminharam com o 
Mestre, e somente depois da descida do Esprito Santo  que estiveram 
aptos a prosseguir adiante
Comeamos a aprender naquele ano que a uno leva um tempo 
para se manifestar. O carter precisa ser lapidado para que sejamos de 
fato transformados em vasos de honra, prontos para exercer a funo 
predestinada a ns. Geralmente esse lapidar no acontece sem dor, sem 
perdas, sem lgrimas.
E, sem isso, no h como a uno se manifestar.
Davi foi perseguido por Saul e sofreu muito. Moiss abandonou 
toda a opulncia do Egito para viver entre aqueles que nada eram. 
Conosco tambm seria assim, embora ns no o percebssemos 
naquele incio da nossa trajetria.
Teramos que esperar, o Ministrio estava comeando, sim... mas 
ele comeava com treinamento! A partir daquele final de ms o 
treinamento seria de outra estirpe.
Enquanto Eduardo no entendeu isso, errou. E eu, tambm por 
no entender endossei o seu erro algumas vezes, fizemos coisas em 
tempo errado, da maneira errada.
Foi mais ou menos isso o que aconteceu logo depois, no carnaval. 
Viajamos para aquela mesma cidadezinha de interior onde tnhamos 
estado no ano passado. Claro que se lembravam de Eduardo e do 
pequeno testemunho que ele havia dado (sob presso!). O Pastor Dcio 
logo veio insistindo para que ele falasse novamente, o que acabamos 
concordando com menos relutncia, afinal... Deus havia dito mesmo para 
Eduardo falar.
S que ainda no era tempo de falar. Foi uma pena que tenha 
acontecido assim. O Reino Espiritual foi sacudido mais uma vez, eles 
estavam em processo de mudana, tentando banir de uma vez por todas 
a maonaria do seu meio. Mas no conseguiriam suportar o contra-
ataque do Inferno. Era preciso uma srie de cuidados, principalmente 
orao intercessria!
No demorou muito tempo para o Pastor Dcio ser destitudo, e os 
membros comearem a se dispersar. A Maonaria continuou sediada ali 
naquela Igreja. Seria um local que, futuramente, daria pena de ver. Tudo 
porque todos ns acabamos fazendo aquilo que Deus no tinha 
mandado fazer.
Mas... naquele carnaval ningum estava pensando nisso, muito 
menos tinha condio de vislumbrar isso!
Eu j estava implicada e tinha l minhas razes. No havia nem 
uma hora para estarmos juntos, pois o tempo inteiro as pessoas 
assediavam Eduardo com perguntas. Ele no se importava muito. Mas 
realmente no conseguimos descansar naquele feriado.
Aproximava-se o momento em que Eduardo deveria falar, no 
ltimo dia, mas no havia ningum orando e eu me sentia muito 
preocupada com esse descuido. Recordava-me do recente episdio com 
o esprito humano e ficava imaginando o quo desguarnecido estava 
aquele acampamento! Eduardo ia novamente se expor, falar das 
mesmas coisas, sem nenhuma cobertura de orao... aquilo me parecia 
completamente inconcebvel! No ano anterior, ainda v l... mas agora 
de novo?!
Eu o chamei vrias vezes para orar naquele dia, mas ele no 
conseguia se desvencilhar das pessoas. Parecia mesmo esquecido da 
importncia de orarmos um pouco.
 Pelo menos vamos orar ns dois, Eduardo!  eu havia dito, 
meio em pnico, com o rosto tenso.  No vai se expor assim desse 
jeito!
Mas havia pessoas ao redor dele falando, falando, falando, 
batendo no seu ombro, fazendo perguntas, cercando. E ns no 
sabamos como sair dali sem sermos mal-educados. Eu olhava no 
relgio toda hora, sorria meio amarelo e j nem prestava ateno a nada. 
Talvez achassem que eu fosse chata, apavorada. S conseguia me 
recordar de Grace e de todos aqueles Pastores orando em concordncia, 
e mesmo assim aquele esprito humano invadiu o quarto e pde tocar em 
Eduardo...
Sentia meu corao apertado porque todos aqueles jovens  
nossa volta tratavam daquele assunto como quem discute um filme muito 
interessante de televiso!
No agentei mais e cochichei para Eduardo, baixo, sem que os 
outros percebessem:
 Olha, eu vou comear a orar sozinha, t?  meu tom de voz 
prenunciava um pouco de irritao.  Estou l no carro!
Sem esperar mais, escapuli sem nem voltar o rosto novamente 
para trs. Entrei no carro, fechei a porta e cruzei as pernas sobre o 
banco, abraando os joelhos perto do peito. Na primeira frase da minha 
orao j estava chorando, de pura tenso, de puro nervoso com aquela 
situao desleixada. Desabei em lgrimas diante de Deus...
 Senhor, tenha misericrdia de ns, por favor! Estou me sentindo 
mal, no consigo me sentir em paz, sinto meu corao apertado. Tenha 
misericrdia dessa situao porque as pessoas no sabem exatamente 
com o que esto lidando... por favor, Pai, estende Tua Proteo sobre 
este lugar.
Chorei, orando em lnguas no meio das minhas splicas por 
proteo.
 Envia Teus anjos para c, Senhor, d ordem a eles para que 
venham nos cercar!  abri os olhos e comecei a orar de olhos abertos, 
enquanto observava as rvores perto do carro.  Que os Seus anjos 
formem uma cerca viva em todo o permetro desta chcara, no deixa 
nenhum espao vazio, que eles cerquem completamente todo este 
lugar... uma cerca dupla, com anjos por dentro e por fora, costas a 
costas, lado a lado. Enche esse lugar com anjos, meu Pai!
Continuei orando nesse sentido por mais algum tempo, depois 
outra vez em lnguas, depois voltava a falar nos anjos e na cerca viva 
que eu gostaria que o Senhor formasse.
Eduardo s conseguiu vir ao meu encontro uns vinte minutos 
depois. Ele no se sentia to preocupado assim, eu no conseguia 
compreender aquela calma. Quando ele abriu a porta do carro eu estava 
com o rosto banhado de lgrimas, e at me assustei com a sua presena 
pois no estava prestando muita ateno ao que acontecia  volta.
 Que foi?
 Nada, no foi nada. Vamos orar em concordncia que  mais 
importante, no tem muito tempo.
Oramos, cada um por sua vez. Mesmo que eu j tivesse orado, 
sabia ser muito importante orarmos em concordncia. Entardecia e 
garoava, realmente o nico lugar privativo e sossegado ali na chcara 
era o interior do nosso carro.
Eduardo tambm observava as fileiras de rvores ao redor da 
chcara enquanto orava, o cho de terra coberta de cascalho, as 
gotinhas de chuva que respingavam no pra-brisa.... de repente, 
enquanto eu orava, ele soltou uma interjeio de espanto:
 Nossa! Olha, eles esto ali! E ali tambm!!
Eduardo j chorava olhando em todas as direes, virando a 
cabea para todos os cantos. Seu corpo at parecia tremer de emoo.
 Ali em cima do telhado tambm tem!
Comecei a agradecer a Deus, com o rosto marejado, sentindo 
sumir o que ainda restava da minha tenso. Eu sabia do que Eduardo 
estava falando! Eu no os pude ver como ele, embora tivesse olhado 
com olhos meio compridos para onde Eduardo apontava. Mas, em 
segundos, percebi que a viso fechou. Durou apenas alguns instantes, 
s para que soubssemos que eles estavam ali. Logo que encerramos 
nossa orao eu o cravejei de perguntas sobre os anjos:
 Eles estavam onde?!
 Em toda a volta do acampamento, formando como se fosse 
mesmo uma cerca... dupla!
 Por dentro e por fora?!
 ,  isso mesmo. A fileira de dentro estava de costas para a 
fileira de fora, a de dentro olhava para dentro da chcara, e a fileira de 
fora olhava para fora...
Foi a minha vez de ficar emocionada.
 Eu pedi isso!! Exatamente isso! Antes de voc chegar. Eu 
nunca tinha pensado em pedir isso, mas estava assustada, ento pedi 
essa cerca de anjos por dentro e por fora, em toda a volta deste lugar!
 Puxa... ento Deus atendeu! Foi exatamente isso que eu vi. 
Deus abriu a viso certamente para que voc soubesse da proteo, 
porque voc estava muito nervosa. Ele me mostrou justamente para que 
eu pudesse te descrever, e voc ficasse sabendo que sua orao foi 
atendida. Aconteceu to de repente, enquanto a gente orava vi uma luz 
brilhando perto de mim, meio que por viso perifrica. Mas a, quando dei 
por mim, eu j estava enxergando eles: uma longa fileira de anjos... uma 
verdadeira cerca viva de anjos!!  Ia at l embaixo! Custei a acreditar, 
parece que a mente pra de trabalhar nesses momentos. Tinha anjos 
tambm em cima do telhado ali da casa principal, e a mesma luz 
aparecia meio indistinta em algumas rvores, como se eles estivessem 
tambm na copa das rvores. Quer dizer, esse lugar est repleto da 
proteo de Deus. Ainda bem que oramos!
Eu estava muito feliz, Eduardo tambm. Como o sobrenatural de 
Deus era real!!!
 Aqui est cheio de anjos!  murmurei novamente.  Eu pedi 
que Deus enchesse esse lugar de anjos!
 Mais os vinte e quatro que esto conosco.
 Isso voc no viu, n?
 No. Mas eles esto aqui  afirmou Eduardo.
Ns nos abraamos, alegres e gratos. Deus estava nos 
protegendo. Apesar  hoje ns cremos assim  de que, mais uma vez, 
aquela no era a Vontade Perfeita do Pai, mas Sua Vontade Permissiva. 
Ele conhecia a inteno do nosso corao Ns achvamos que o 
Ministrio deveria comear, por isso ns fizemos de corao puro, de 
pura ingenuidade. Aquele erro poderia ter sido evitado se tivssemos 
perguntado a opinio de Grace.
O Culto de encerramento, em que o Pastor cedeu seu lugar para 
Eduardo, acabou s dez da noite. Mas fomos at as duas da manh 
conversando, compartilhando, orando com os colegas do acampamento.
Depois disso o Pastor Dcio se animou pois percebeu que 
Eduardo facilmente arrebanhava as pessoas com a fascinao da sua 
histria e carisma pessoal. Ento quis aproveitar para organizar logo 
depois um evento que, segundo ele, seria "mega". Um Louvorzo para 
todas as cidades da regio com o testemunho de Eduardo no final. Para 
"salvar vidas"!
Eduardo ficou bastante animado, no viu mal. Mas eu fui 
imediatamente do contra:
  Ele no est preocupado com voc, nem mesmo se essa  a 
maneira de Deus. No acho isso bom! Ele est te explorando, 
esquecendo que  um assunto muito srio.
 Eu no confirmei ainda se vou ou no. Mas mesmo assim ele 
est dando andamento nas coisas.
 T vendo? Ele j est certo que voc vai! Acho que voc devia 
consultar a Grace antes de sair por a.
 Mas Deus falou!  retruquei.  E ela mesma me convidou pra 
testemunhar. Continuei insistindo, paciente:
 , mas veja a diferena! Foi tudo feito direitinho, tinha orao 
pelo menos! Grace escolheu a dedo os participantes. No era um evento 
evangelstico, feito no meio do nada, para pessoas do mundo!! Uma 
coisa no combina com a outra.
Discutimos ainda um pouco mais, pesando prs e contras. 
Eduardo era cabea dura, teimoso. Mas eu tambm era. Preocupava-me 
com a sua segurana, e especialmente se Deus queria que a gente 
fizesse daquela maneira.
 Eu tambm quero agradar a Deus!  continuei.  Mas no sei 
se essa direo desse Pastor est correta... desde o ano passado que 
eles deviam ter se posicionado melhor contra essa histria de Maonaria 
e no fizeram! Desde o ano passado que eles deviam ter orado melhor 
pelo seu testemunho, e tambm no fizeram. Eles no conseguem pr a 
casa deles em ordem, e vo dizer o que voc deve fazer? Cuidado com 
essa histria!
Consegui convenc-lo a comunicar Grace antes de dar qualquer 
resposta ao Pastor. Aquele era um princpio fundamental que iramos 
introjetar dentro de ns: pedir conselho a pessoas idneas.
 Isso! Fale com a Grace!  disse eu mal-humorada com tanta 
teimosia.
 Isso!! Vou falar com a Grace.
 O que ela disser... t valendo! OK?
 T bom.
Dei de ombros e nem falei mais nada. Mudamos de assunto.
Mais tarde, em sua casa, Eduardo ligou para Grace certo de que 
ela ficaria muito feliz com a oportunidade. Mas, para sua grande 
surpresa, ela foi terminantemente contra. Exatamente como eu havia 
dito.
 Mas por que no, Grace?...
 Porque voc no est pronto para uma exposio dessas.  
explicou ela, calma a princpio.  No nosso encontro, mesmo com todo o 
cuidado que tivemos, com pessoas que tm viso aberta e tudo mais, 
aquele fulano conseguiu entrar e ir at o seu quarto. Imagine uma coisa 
assim, num evento destes. Esse Pastor no est agindo bem. Acho 
melhor eu falar com ele... precisa tomar mais cuidado...
Eduardo ainda questionou um pouco mais, totalmente 
inconformado.
"Talvez, se eu insistir, mesmo que ela continue no concordando... 
talvez, quem sabe, pelo menos no me proba...", pensou ele.
Mas Grace no permitiu mesmo.
Conhecemos nessa ocasio uma outra faceta do seu amor. Muitas 
vezes o amor exorta e disciplina. Se ela tivesse passado a mo na 
cabea de Eduardo, e se isentado de qualquer responsabilidade, ele 
talvez ficasse muito satisfeito num primeiro momento. Mas ela estaria lhe 
fazendo o mal, e no o bem. Ele era um verdadeiro beb dentro do 
contexto Ministerial. Hoje louvamos a Deus pela vida da Grace, porque 
quando Eduardo foi mais incisivo...
 Ento voc no me d a sua bno?
 No. Para isso no.  Grace foi categrica, muito firme, sem 
meias palavras.  Eu no estou autorizando voc a ir. E se voc for, no 
venha me procurar depois quando estiver sendo retaliado! Porque eu no 
vou te ajudar!
Eduardo ficou at mudo. E no teve outra alternativa seno 
concordar. De bico.
 T bom.
Mas ficou mesmo de bico. Durante vrios dias, talvez at mesmo 
algumas semanas.
"Quem  que ela pensa que ?"
E sua vontade era ir assim mesmo. Que sorte eu ter ficado ao seu 
lado nessas horas, para colocar os seus pezinhos no cho. Ao saber da 
opinio de Grace, coloquei um sorrisinho no rosto:
 No te disse?  espetei carinhosamente.
 Ah, "M"!!! Eu no entendo por que isso.
Fiz o papel de consoladora, procurando convenc-lo por bem que 
no havia prudncia nenhuma naquilo. E que o tempo certo chegaria. 
No tivemos coragem de desobedecer a Grace, comeamos a aprender 
logo de incio que obedincia e totalmente fundamental para quem quer 
exercer qualquer cargo Ministerial. s vezes a gente se acha muito 
capaz, muito esperto, muito maduro... usamos a desculpa de que "Deus 
me falou", e no escutamos ningum... mas nisso j est explcita boa 
parte da nossa infantilidade!
Como bebs que ns ramos, pelo menos em termos ministeriais, 
nada melhor do que escutar Grace... que tinha anos e anos e anos de 
experincia nas costas. Mais ainda: conhecia nosso contexto!
Com o passar dos dias Eduardo ficou mais calmo, mas no de 
todo. Como era difcil ter que se submeter! Ele no estava muito 
acostumado a isso.
Dona Clara foi outra que escutou seus resmungos de indignao 
contra a Grace:
  E voc acha, Dona Clara? Ela disse pra eu nem procurar mais 
ela se desobedecesse!  aquilo realmente o tinha incomodado.  Est 
sendo difcil pra mim, Grace est querendo me controlar.
 Isso  zelo pela sua vida. Cuidado com voc! Deus colocou 
voc perto dela, para ela cuidar de voc.  isso que ela est fazendo!
E foi falando. Eu tambm ajudei. E ele foi se acalmando. At o 
ponto de ficar bem de novo.
Depois, no prximo encontro com Grace, Eduardo desabafou seus 
sentimentos. Se no falasse, no conseguiria ficar em paz de todo. Isso 
ns tambm teramos sempre como princpio... acertar nossas 
pendncias com os irmos! No tem prato mais cheio para o diabo do 
que um corao magoado.
Grace escutou e a explicou, com carinho e pacincia, o que Dona 
Clara j tinha dito:
  zelo, Daniel... eu no posso aprovar uma coisa dessas. Deus 
trouxe voc at aqui, me incumbiu de uma responsabilidade em relao 
a voc... entende? Eu estou vendo aquilo que voc no v, no posso 
deixar voc ir direto para a boca do lobo.
E etc. .. etc. .. etc. ..!
Eduardo entendeu. E tudo ficou bem. Mas bem que dou umas 
risadinhas at hoje!
* * * *
Naquele  ms de fevereiro comeamos a fazer uma espcie de 
Seminrio na Comunidade. Na verdade, era o chamado "Curso de 
Formao de Lderes". Ns tnhamos assistido  Formatura dos 
participantes do primeiro curso, que tinha acontecido no ano passado, e 
ficamos sabendo que um novo curso teria incio naquele ms. Seria toda 
sexta-feira  noite, at dezembro, e aprenderamos com os diversos 
Pastores da nossa Igreja o bsico sobre diversas matrias teolgicas. Eu 
me entusiasmei logo de cara e Eduardo tambm achou interessante, de 
forma que fizemos nossa matrcula. Muita coisa que seria ensinada ali eu 
j tinha aprendido por conta prpria, em leituras que tinha feito ou 
mesmo atravs dos estudos da A.B.U. Desde sempre eu costumava 
estudar a Bblia por conta prpria, fazia devocional no carro, cedinho, 
desde a poca da Faculdade.
Mas alguns temas pude aprender melhor, como certos aspectos da 
Histria panormica de Israel, que estava no Velho Testamento, e dicas 
de cunho prtico sobre a montagem de Sermes. Para Eduardo boa 
parte de todo o curso foi nova e bastante proveitosa. A gente fazia todos 
os trabalhos e ao longo do ano faramos todas as provas.
O coordenador daquele curso j tinha explicado que bem menos 
da metade das pessoas efetivamente se formava no final do ano, e ele 
desejava que naquela turma mais pessoas estivessem dispostas a 
encarar os estudos at o fim. Intimamente, Eduardo e eu nos 
dispusemos quilo.
Assim nossa vida continuou rolando normalmente.
* * * *
Eduardo Conta
Captulo 24
No final de fevereiro, no muitos dias depois do acampamento, eu 
iria passar por uma dura prova. Sozinho.
Esta foi a nica vez em que eu no contei nada a Isabela. Nem a 
Dona Clara. Nem a Grace.
Tivemos algumas brigas no comeo do ms e tanto eu quanto ele 
estvamos angustiados com tudo aquilo. Me recusava a aceitar que 
minhas atitudes durante as discusses  e as dela tambm  
pudessem ser fruto, pelo menos em parte, de uma srie de ataques que 
visavam algo maior. Por mais incrvel que parea, levei muito tempo para 
enxergar isso, simplesmente no conseguia ver com muita clareza.
Isabela tinha uma viso mais balizada do Reino Espiritual, e estava 
sempre me chamando a ateno nesse sentido. Mas minha mente talvez 
estivesse cauterizada, e a Irmandade certamente lanou Feitios fortes 
para cegar-me ainda mais.
Eu no conseguia ver o contexto espiritual nos nossos 
desentendimentos. Claro, nem tudo  culpa do diabo, temos as nossas 
reas de fraqueza. Isso  natural em todo ser humano. Mas o que os 
demnios faziam, e muito bem-feito, diga-se de passagem, era tocar 
exatamente nestas reas de fraqueza. Depois disso ficavam  volta, s 
esperando a gente reagir para poderem atuar mais.
E a gente reagia. Isso facilitava  muito!  a sua capacidade de 
influncia. O principal ficava para depois: eram estes os melhores 
momentos para lanar novas sementes malignas no meu corao, logo 
aps as crises emocionais geradas pelas desavenas. Quando eu no 
enxergava mais nada, a no ser que Isabela era culpada!
Hoje percebemos melhor como foi que o inimigo agiu.
Eu estava desgastado, ela tambm. As promessas de Deus j 
pareciam longnquas e sem brilho diante da agressividade dos ataques 
de Potestades e Principados. Sabamos bem o quanto ramos visitados 
por eles.
Ns amos vivendo e esperando para ver o que aconteceria. Isto , 
se Deus realmente ia abrir a porta do Ministrio. No meu ntimo, para 
dizer a verdade, quando vinha a crise emocional meu desejo era que 
antes no acontecesse nada!
Foi nessa altura que levei um golpe que quase me derrubou. Se 
por um lado Deus dissera que o Ministrio comeava na segunda 
quinzena de fevereiro, Marlon tambm tinha estabelecido a primeira 
semana de maro como prazo limite para meu retorno.
Certamente que estava havendo a um confronto, mas eu no 
estava pensando nisso, no estava vendo. A gente procurava no pensar 
nisso, tnhamos que nos preocupar com as coisas do dia-a-dia. Ningum 
pensa em guerra o tempo todo!
Mas a verdade  que eu teria que escolher... eles no iam 
simplesmente deixar barato!
E num pssimo dia, levantei chateado depois da nossa 
indisposio na vspera... e resolvi sair para caminhar um pouco. Nada 
melhor do que ir at o parque perto de casa. Levantei, tomei banho e sa.
Fui andando devagar, minha mente estava povoada pelas 
lembranas dos ltimos dias... eu pensava em todas as coisas que Deus 
tinha feito! Ainda estava embasbacado porque Grace me tinha chamado 
exatamente na segunda quinzena de fevereiro... que coisa! Eu ficava 
matutando o que seria aquele Ministrio, como ia ser no futuro. No tinha 
idia.
"O que ser que vai ser, ser que eu vou ficar dando testemunho 
por a? Mas de que adianta? L no acampamento as pessoas foram 
movidas somente pela curiosidade... mesmo no congresso da Grace... 
eram todos Lderes, Pastores, mas no sei se me deram crdito... que 
ser que Deus quer de mim?"
Apesar das promessas de Deus eu me sentia um pouco temeroso 
a respeito do que viria pela frente, como se estivesse sendo lanado num 
quarto escuro, no soubesse o que tinha ali, e o caminho fosse iluminado 
a cada passo. Apenas a cada passo.
"Eu entendo que Deus est iluminando este caminho, mas  um 
caminho onde eu posso enxergar apenas o prximo passo, quando 
muito."
No podia contemplar nada a distncia, no era nada muito claro, 
no era nada muito cheio de luz... no dava para saber o que ia 
acontecer. Isso me assustava um pouco, incomodava; por outro lado, 
nossa situao financeira tambm estava particularmente me 
perturbando.
"Meu Deus... e essa questo financeira? Puxa vida... como vou ter 
um Ministrio assim desse jeito, como vou me sustentar, como posso 
pensar em ter uma famlia? Deus precisa me abrir uma porta de 
emprego!"
Nunca me passou pela cabea que fssemos viver do Ministrio, 
quer dizer, financeiramente falando. Deus havia dito que Isabela largaria 
a Medicina, mas no havia dito que eu deixaria de ter meu trabalho 
secular, meu emprego, minha fonte de renda. Eu imaginava que o 
Ministrio do qual Deus estava falando significava dar ocasionalmente 
um testemunho, escrever o livro... mas nunca largar meu trabalho, minha 
segurana!
Vislumbrei ao longe as rvores do parque. Eu carregava comigo 
meu san-ti-kuan, ali era o nico lugar com espao suficiente para 
manej-lo. Embora tivesse realmente entregado o Kung Fu para Deus, 
vez por outra ainda mexia com o nunchaku, com o san-ti-kuan.
Atravessei o porto e percebi que o lugar estava praticamente 
vazio, como era comum num dia de semana, naquele horrio. Estava 
muito agradvel, o sol atravessava a copa das rvores e pessoas idosas 
caminhavam ou se sentavam nos bancos. Fui at meu local costumeiro, 
rodei um pouco meu san-ti-kuan, mas me cansei logo. Minha cabea 
estava em outro lugar.
Ento fui beber gua e sentei sobre uma daquelas mesinhas de 
pedra que ficam ali perto. Estava uma manh pacata, silenciosa, e 
apenas apoiei o cotovelo sobre o joelho, o queixo no punho, e fiquei 
escutando o canto dos passarinhos enquanto observava um senhor 
entretido nos seus movimentos lentos e suaves de Tai-Chi. Fiquei me 
lembrando das aulas que eu mesmo dava naquele exato lugar. Se 
dissesse que no fiquei ligeiramente saudosista estaria mentindo. 
Quanto que minha vida tinha mudado....
Um dos funcionrios do parque acabou vindo at onde eu estava 
para reclamar comigo:
 Voc no pode ficar sentado em cima da mesa. Seria melhor 
que voc sentasse no banco.
 Pxa, mas a mesa  de concreto... at parece que estou 
quebrando a mesa!
 Mas no pode...  ordem da segurana. Depois, sobra pra mim.
Fiquei um pouco irritado com aquele cara. Ele foi embora 
esperando que eu acatasse sua ordem, mas ignorei, no desci. Acho que 
eu estava um pouco irritado com tudo. No demorou muito e ele voltou, 
tentou me convencer a descer da mesa humildemente. Como ele fosse 
educado, acabei cedendo. Mas fiquei um pouco emburrado.
"Mas que cara chato... custa me deixar em paz? Estou aqui, 
quieto, sem incomodar ningum! Ser que ele no tem mais nada pra 
fazer, no?"
Fiquei um pouco sentado no banco, mas estava incmodo porque 
ele era muito pequeno. Ento voltei a sentar na mesa. No demorou 
muito e escutei passos atrs de mim.
"Pronto, aquele cara j est voltando para me encher...", pensei ao 
voltar a cabea.
Mas no era o funcionrio do parque. Era Marlon! Vinha 
caminhando devagar, sem pressa, vestindo um jeans, uma camisa para 
fora da cala, bem despojado.
Ainda de longe ele me enviou um sorriso e falou:
 Eu j conheo essa sua cara!
 Que cara?  respondi devolvendo o sorriso.
 J implicaram com voc, n? Tive que rir um pouco mais.
 ... implicaram... no querem que eu sente aqui em cima!
A presena dele ali dispensava maiores explicaes. Eu no tinha 
por que sentir medo de Marlon, nem raiva, nem mgoa. Ele sempre tinha 
sido meu amigo. Eu estava introspectivo, queria conversar com algum... 
ento fiquei feliz em v-lo ali ao meu lado. No vi nenhuma maldade 
naquela situao, nada premeditado da parte dele.
Ele chegou perto da mesa e, meio injuriado, reclamou:
 Voc no vai nem me dar um abrao?  Ah!
Levantei e ns dois nos abraamos. Realmente estava contente 
em v-lo de novo. Era algum com quem podia bater um papo. No era 
um inimigo.
 Que que voc est fazendo por aqui?  indaguei.
 Vim caminhar um pouco. s vezes eu venho caminhar aqui!
 P... e voc no t ocupado com outras coisas?
 Hoje no. Est tudo sob controle! Mesmo porque, eu imaginava 
que ia te encontrar aqui.
 Ah,?
Como era do feitio de Marlon, ele se acomodou e comeou 
simplesmente a conversar comigo da mesma maneira de antes.
  Puxa... voc mudou em algumas coisas, no? J reparou isso? 
Voc t diferente!
 No acho, eu ainda sou o mesmo... o que mudou foi a minha 
forma de pensar... minha maneira de agir. A experincia que tenho tido 
com Deus tem feito isso, tem feito minha vida mudar, mas  um processo 
gradativo!
Ele se limitou a dar um sorriso e no contestou. Mas colocou a 
mo sobre o meu ombro num gesto amigvel. Sua voz soou amistosa.
 Voc est de fato feliz? Voc est contente com a sua deciso? 
Eu tenho estado preocupado com voc...  ele olhava bem dentro dos 
meus olhos.
 Sim. Eu estou contente!
Talvez eu no tenha usado de muita convico.
Ele tinha me pegado numa manh em que eu no estava muito 
bem. No tinha mais o mesmo nmero de amigos, e isso me frustrava, 
sem dvida. Tambm me sentia como um mero objeto de curiosidade, 
ningum se aproximava de mim por mim mesmo, mas por causa da 
minha histria. Quando as pessoas vieram conversar comigo, no 
acampamento, foi apenas para me encher de perguntas. Mesmo no 
congresso da Grace: ningum ligou para mim, nem mesmo para me 
emprestar um lenol. Eu tinha dormido usando a mochila de travesseiro e 
o casaco de cobertor; todo mundo viu isso, mas ningum me ofereceu 
nada.
A verdade  que ningum queria saber quem eu era de fato. E a 
minha grande dvida  se o Ministrio ia ser isso, se eu ia ser tratado 
como um macaquinho amestrado o tempo todo! E as pessoas iam me 
chamar para repetir e repetir e repetir a mesma coisa...
Isso, claro, no me deixava contente. Especialmente naquela 
manh. Parece que essa perspectiva estava pesando um pouco mais.
Claro que eu no ia dizer nada disso a ele, mas acho que Marlon 
percebeu que as minhas palavras estavam um pouco vazias. Meu 
semblante no condizia com o que estava falando.
 Olha... talvez voc no se lembre, mas os Estados Unidos  um 
lugar muito bom!  ele comeou a me contar sobre vrias cidades.
Para mim aquilo era pouco familiar por isso no me lembro quais 
foram as cidades que ele citou.
  .... e nesse lugar as ruas so lindas, largas, tudo  cheio de 
rvores! Os shoppings so enormes, uma coisa indescritvel, muito 
diferente daqui. Isso sem falar na qualidade de vida, pas de primeiro 
mundo  outra coisa! Alis, eu estive l pela ltima vez no faz muito 
tempo. Tenho at algumas fotos aqui comigo!
Casualmente Marlon foi tirando do bolso as tais fotos. Foi me 
mostrando diversos lugares, paisagens bonitas, lagos, montanhas... eu 
escutava, fazendo um ou outro comentrio de vez em quando. Ento, 
numa das fotos estava Thalya.
 Ah, eu tinha esquecido de te falar que Thalya tambm esteve 
conosco. Isso aqui  a vista de uma casa que ns temos l, num 
condomnio fechado. Essa  a sacada que mostra uma das vistas mais 
bonitas!
Thalya estava naquela sacada, sozinha, mostrando a paisagem. 
No fiz qualquer comentrio.
 Ns fomos pra l desta vez num grupo pequeno, porque havia 
uma reunio especial. Voc sabe, n? Estamos caminhando! Voc tem 
acompanhado? Tudo o que ns falamos que ia acontecer, est 
acontecendo!  E vai acontecer!
 Marlon, eu no vou discutir isso com voc. Eu creio numa coisa, 
voc cr em outra, ns vemos tudo sob pontos de vistas diferentes.
 Mas ser mesmo que voc no est no engano? Ser que... em 
algum momento voc no se deixou enganar? Por que afinal... o que  o 
diabo? O que so os demnios? Se voc for olhar ao longo da Histria 
toda crena, toda religio tinha os seus Deuses. E os judeus fizeram 
questo de chamar os deuses dos outros povos de demnios. Poderia 
muito bem ter sido o contrrio! Voc sabe que todo ser humano tem uma 
certa poro de maldade dentro de si, o mal est dentro de cada ser 
humano. E o ser humano, para tentar se desculpar da maldade dele, joga 
a culpa no diabo. Voc sabe muito bem que nem tudo  culpa do diabo! 
Voc sabe muito bem como Lcifer age... muita coisa que os Cristos 
pintam e crem, dizem por a que  culpa dele, voc sabe muito bem que 
no , que ele no tem nada a ver. Ele s age aonde existe a essncia, e 
a essncia do mal est em todo ser humano, ento ele tem liberdade de 
agir em todo ser humano! Assim como Deus tambm tem a liberdade de 
agir em todo ser humano porque a essncia do bem tambm existe em 
todo mundo. No  preciso ensinar isto a ningum: todo mundo tem 
conscincia do Bem e do Mal, ningum precisa ensinar porque est 
dentro de voc.
Fiquei ouvindo porque eu gostava de ouvir Marlon falar. Sabia que 
ele estava lanando sementes para tecer uma idia... e ele sempre 
falava com inteligncia e profundidade, por isso gostei de escutar. Mas 
naquele momento tive que interromper:
 Bem, no vou ficar discutindo isso... esse  o seu ponto de 
vista! O que para mim  fato,  inevitvel,  que hoje eu tenho uma paz 
que eu nunca tive  e isso realmente era verdade. Fui muito sincero ao 
dizer.  Quanto sangue  derramado pelas tuas mos? Quanto? O que 
voc acha disso? Quer dizer, isso  a essncia do mal que Deus colocou 
dentro de voc, quando te criou? Ou seja, o culpado de tudo isso  
Deus?!
 No! Mais uma vez eu te digo: ns no temos que culpar Deus, 
nem o diabo... ns, humanos, temos o livre-arbtrio, temos poder de 
deciso! Mas, veja bem, no  isso que eu quero discutir, no  isso que 
eu quero falar com voc. No vim aqui para deblaterar com voc, eu te 
amo, quero o seu bem... e voc faz falta na nossa famlia! Aonde voc 
est hoje, no faz parte de nenhuma famlia. Ou faz?
E a Marlon comeou a pegar no ponto certo.
 Algum te d ateno? Algum te ouve? Algum est de fato 
preocupado com voc? Ou ser que eles esto mais preocupados com a 
histria que podem tirar de voc? O que  o Cristianismo, afinal? Esse 
Cristianismo que voc est vendo nas Igrejas? Ser que voc no pra 
pra pensar, pra fazer um mnimo de comparao? Em qual das duas 
famlias voc se sentia melhor?
Ele fez uma pausa e eu no respondi. Pelo que ele continuou:
 Vou te dizer uma coisa, Eduardo... voc no quer mudar de 
vida?
 No. Eu j tomei uma deciso. No posso voltar atrs!
 Talvez voc esteja com receio, com medo. Do que as pessoas 
vo pensar, ou como voc vai lidar com essa situao... eu sei, se eu 
estivesse no seu lugar, pensaria a mesma coisa.
Eu compreendi que ele estava se referindo aos poucos amigos que 
eu tinha construdo naqueles anos: Grace, Dona Clara... Isabela...
 Talvez voc esteja preocupado porque, se aceitar minha 
sugesto, vai decepcionar os poucos que investiram em voc, que 
acreditaram em voc. Eu sei que voc sempre procurou o acolhimento 
de algum, e de repente encontrou um pouco disso, est recebendo uma 
ateno diferente de algumas pessoas. Na sua carncia emocional voc 
se entregou a estas pessoas, e elas conseguiram te convencer de que 
Lcifer tem um Poder limitado. No me importo se elas de fato acreditam 
nisso, nem estou questionando se estes laos que voc criou so 
realmente verdadeiros, ou no... mas a verdade  que eles esto 
enganados! Eu sei que voc tem estado exposto a uma outra doutrina, e 
talvez tenha medo de decepcionar algumas pessoas.
Marlon sabia muito bem do que estava falando. E eu sei que falava 
sinceramente, como algum preocupado em ver um amigo caminhar pelo 
caminho que julgava ser o errado. Sabia muito bem que ao longo de 
todos aqueles anos eu
no tinha conseguido criar vnculos fortes com nenhum Cristo; 
mas sabia tambm das duas ou trs pessoas que estavam mais 
prximas de mim. E sabia que isso tinha um peso, no mnimo, emocional. 
Como ele me conhecia profundamente, era capaz de adivinhar que eu 
no gostaria de decepcionar aqueles que tinham me feito algo de bom. 
Talvez Marlon estivesse achando que esse era o verdadeiro empecilho.
  Vamos fazer uma coisa? Eu vou simplificar pra voc: voc 
some! Te dou a chance de voc simplesmente desaparecer, de se tornar 
um fantasma.
 Como assim, um fantasma?
  isso que estou dizendo, voc some. Ns podemos simular a 
sua morte! E nisso eu te poupo do constrangimento de ter que dar as 
costas para essas poucas pessoas... voc pode morrer num acidente 
areo, por exemplo, eu coloco seu nome na lista dos mortos, o seu corpo 
nunca mais vai ser achado, ponto final! Ou num acidente de carro, mais 
fcil ainda. E voc vai com outra identidade para os Estados Unidos. Ns 
vamos juntos, e eu vou te dar uma outra vida, uma outra  oportunidade. 
Todos ns somos a sua verdadeira famlia, queremos receber voc  de 
braos abertos. Eu j tinha te falado da ltima vez sobre a data limite,  
importante que voc tome conscincia disso de uma vez por todas!
Novamente ele fez uma pausa. Ento concluiu:
 Eu te ofereo uma nova vida! Uma vida de verdade! No uma 
Vida depois da vida, mas uma vida agora... enquanto voc tem vida! Vida 
depois da vida  aquilo que Deus promete, voc pasta na Terra para 
depois ganhar a Eternidade. Mas Lcifer, no... ele oferece vida, na vida!
 Puxa... mas h um preo a ser pago por isso. Para onde voc 
vai depois?
 Deus cobra dos seus filhos  prestao... dia a dia! Ento, para 
voc estar alinhado com Deus  preciso fazer uma srie de coisas... isso, 
isso, e isso... e no olha para o lado, e no peca, e no fala isso, e no 
pensa em sexo, e domina a ira, e larga disso e mais aquilo... e te limita. 
O que  isso? Voc est pagando um preo nessa sua vida Crist dia a 
dia, em parcelas. Deus cobra em parcelas! Todos os dias voc tem que 
pagar uma prestao, at o ltimo dia da sua vida, para somente no final, 
depois que a vida j passou, voc ter direito ao Cu, ao Paraso. O que 
Lcifer oferece? A vida aqui, agora! Os custos so os mesmos... ns 
vamos pagar um preo, sim... no estou dizendo que estamos isentos 
deste preo. Mas ns vamos pagar numa parcela s: no final. O que  
este pagamento  vista? E a Batalha Final! O ltimo Confronto. Quando 
eu sei que ns vamos ter baixas... assim como do outro lado tambm vai 
haver baixas... em muitos segmentos! A proposta  simples, e ela inclui 
voc tambm: ns vamos ter muitos anos de felicidade, mas vai haver 
um momento, o momento desta Guerra, desta Peleja Final, e ento ns 
teremos que pagar parte deste preo... parte do custo! Porque para tudo 
h um preo...
Eu ouvia Marlon articulando aquelas idias sem interromper. 
Queria ver aonde ele ia chegar.
 Deus condiciona o homem a pagar parcelas na Terra, para 
depois usufruir da Eternidade, mas estas parcelas esto dentro de um 
limite temporal. Da mesma maneira eu estou dizendo a voc que, talvez 
no ltimo ano da sua vida, Lcifer v exigir mais. Ele vai exigir uma 
dedicao toda especial: "Eu investi em voc, meu filho, durante todos 
estes anos. Agora  o momento!  o momento de voc me dar o 
retorno!" Entende o que eu digo? No final vai haver esse momento, 
quando todo o seu tempo, toda a sua alma, todo seu sangue tem que 
estar voltado para a causa... que voc sabe muito bem qual ! Nos 
ltimos anos voc vai ter que ceder a sua vida, vai ter que ceder tudo 
para ele. O momento da cobrana  o momento da reta final,  o 
momento do tudo ou nada!  ganhar... ou ganhar!  Ningum vai ficar de 
brincadeira nessa hora. Ele vai dizer para voc: "Todos esses anos eu te 
dei tudo, agora eu preciso de voc, agora  voc que tem que me dar, 
tem que fazer o que eu mando. Tem que seguir as minhas ordens, no 
deve question-las!"
Ele estava falando exatamente do perodo do anticristo, 
preparando a minha mente para isso.
 A vida toda Deus d ordens aos seus filhos, e no permite que 
elas sejam contestadas. Voc tem que obedecer, porque se no 
obedecer, est em pecado. No  assim? E se o Cristo fica em pecado, 
o diabo vem e chuta a bunda dele... essa  a filosofia de Deus, mas a 
filosofia de Lcifer  diferente. Ele sempre te d toda a liberdade ao 
longo da sua vida, mas durante um momento, agora sim! Durante o 
perodo final ele vai exigir de voc, durante esse perodo voc vai ter que 
estar disposto a uma obedincia cega. Ele vai exigir que voc faa tudo o 
que ele disser, sem questionar: matar... morrer... qualquer coisa! Esse  
o preo. Marlon no tinha uma postura triunfalista, sabia muito bem do 
preo. Do custo. Daquilo que a sua escolha exigiria dele mesmo. E 
novamente me fazia ver dois Reinos quase que de igual para igual, 
apenas com um "sistema de gerenciamento" diferente. A Eternidade no 
estava em jogo porque, para eles, o Inferno era a casa do pai.
Por mais que eu entendesse a sua lgica como sendo at que 
muito lgica... o meu interior me dizia algo diferente. Minha razo 
entendia a posio de Marlon, e a princpio at gostei da idia. Mas no 
havia testificao no meu interior.
 Com Deus voc est sempre em dbito... voc nunca tem 
crdito! Ou voc no est sentindo na pele uma parte do preo que Deus 
j comeou a cobrar? Com Lcifer no  assim, primeiro ele te d o 
crdito. E s vai cobrar depois. "Ele est mentindo, em algum lugar tem 
mentira nessa histria..." Mas eu no conseguia saber aonde estava a 
mentira, me sentia um pouco enredado por toda aquela argumentao. 
Eu tinha imaginado o nosso encontro como realmente uma casualidade, 
somente depois, muito depois, por incrvel que parea, foi que consegui 
discernir que nada daquilo foi por acaso. E os demnios vieram com ele, 
para influenciar minha mente e minhas emoes. Por isso  que no tive 
capacidade de perceber a dimenso do engano.
Naquele momento, Marlon argumentava sabendo exatamente que 
tocava nos pontos certos da minha alma... nenhuma das suas palavras 
foi  toa, jogada ao vento. Os demnios sabiam exatamente onde tocar 
fundo. Ele me pegou num momento interessante e usou uma 
argumentao que, ele sabia, iria me confundir. Naquela poca eu no 
sabia o que sei hoje sobre a obra Redentora de Cristo. Que a Salvao 
no vem das obras, mas  Dom de Deus, vem por meio da f. Foi 
certeiro da parte deles.
 Veja s Paulo... "sejam meus imitadores, como eu sou de 
Cristo". De que adiantou isso? De que adiantou isso no fim da vida dele? 
Ou Pedro? Adiantou?
 T bom... e qual  a sua proposta?  perguntei por fim, 
suspirando. Ento ele se interessou. At aprumou o corpo. E me 
convidou:
 Ento vamos ali na padaria! Vamos comer alguma coisa!
Samos do parque e atravessamos a rua. Bem em frente tinha 
aquela velha e antiga padaria.
 Pea o que voc quiser!  exclamou Marlon, bem-humorado. 
 Voc no quer uma coca?
 No, quero s um caf mesmo... e um po com manteiga.
Enquanto a gente esperava pelo lanche ele bateu no meu ombro e 
retomou a conversa.
 Imagina s uma coisa, imagina os Estados Unidos... imagina 
voc vivendo num pas de primeiro mundo! E com muito dinheiro... 
dinheiro que nunca mais vai acabar! Por mais que voc gaste ele nunca 
vai ter fim.  como se voc tivesse uma Coca-Cola pra tomar e um 
iceberg inteiro de gelo: nunca ia faltar gelo na sua Coca-Cola!  Marlon 
brincava, entusiasmado.   isso que eu estou te oferecendo: um 
iceberg de oportunidades! O que estou te falando agora  s a ponta 
dele. Ns vamos mudar a sua identidade, o seu nome... voc vai mudar 
de pas, vai para os Estados Unidos... e vai ter muito dinheiro! E voc 
retoma o seu lugar, o lugar que est preparado pra voc desde o seu 
nascimento. Eu j vou providenciar o seu passaporte, e tudo mais que 
voc vai precisar!
 Pera um pouquinho! Mas... eu estou namorando! Voc sabe 
disso! Tem a Isabela!  e fiz a pergunta chave.  Ela vai tambm?
Marlon estava sorrindo, mas naquele instante fechou a cara. Ficou 
srio.
 No.  lgico que no!  foi at rude.  Ela no  mulher pra 
voc! Voc no percebeu isso ainda? Ela s tem feito voc sofrer!! Tem 
destrudo sua vida, tem sido um cncer... est te matando! Olha s a sua 
cara, sabia que voc est envelhecendo? Voc nunca passou tanto 
nervoso na sua vida, tanto sofrimento! Alguma vez a Thalya fez isso pra 
voc? Alguma vez ela fez voc gritar e perder o controle? Pra pra 
pensar! Ela  a tua alma gmea, ela que te ama de verdade, foi criada 
pra estar ao seu lado...  uma mulher bonita, meiga, charmosa e 
gostosa....
E blblbl, blblbl, blblbl! Comeou a usar um monte de 
adjetivos, inclusive aqueles que eu mesmo sabia que no se adequavam 
muito bem em Thalya.
 Voc no acha isso?  inquiriu Marlon indignado.
 Eu gostei dela... isso acontece... mas, agora eu encontrei uma 
pessoa que me complementa, que est do meu lado de verdade! E vou 
dizer uma coisa pra voc, Marlon... quer voc acredite ou no, quer voc 
entenda ou no... eu amo a Isabela! Eu amo ela... no teria coragem de 
largar dela assim, desse jeito!
 O que  voc pra ela? Um estepe, um bom substituto... um 
embuste! Como o amor da vida dela morreu, aquele tal de Renato, ela 
est transferindo isso para voc... daqui a pouco ela vai querer que voc 
tinja o cabelo de loiro! Voc no tem crebro, no? No sabe olhar e ver 
o que est olhando? Ser possvel que voc perdeu a noo? A Thalya 
sempre gostou de voc como voc ! Para que isso? Voc est sendo 
um tapa buraco, fruto de uma carncia, de uma necessidade. Voc no  
o principal,  o secundrio... o bote salva-vidas!
Ele tentava me persuadir nesse ponto a qualquer custo. Mas fui 
obrigado a discordar.
 No. Voc est enganado! Tudo bem, teve horas em que eu 
fiquei mesmo bravo com isso, mas no  assim como voc est 
falando... eu no vejo assim, no!
 Voc no v porque no quer ver! Eu estou abrindo seus olhos: 
essa  uma menina complicada, ela s vai te causar problemas, te dar 
dor de cabea, trazer desgraa na sua vida. Ela tem muitos problemas!
 Mas ela tem me ajudado!
 Ajudar! Ela  s mais uma que est interessada na sua histria!
 Eu no sinto assim.
 Pra com isso, que bobagem voc est falando...
Continuei contestando. Em relao quilo, eu sabia que Marlon 
estava enganado. Como ele continuasse insistindo demais, comecei a 
ficar desconfiado. Por que ele parecia to incomodado com o nosso 
relacionamento? Nunca tinha sido assim antes.
 Ela no vai ficar muito tempo em p  retrucou ele por fim.  E 
se voc insistir nisso, ns vamos acabar com ela, ns vamos mat-la. 
Antes que ela acabe com voc! Ela no  sua alma gmea!!! Ela est 
ocupando o lugar da pessoa certa!! Deus nunca fez nada por voc, ns  
que sempre fizemos. Ter te dado esta mulher faz parte da negligncia 
Dele! Tudo que voc sempre teve de bom, foi Lcifer que te deu. Ento 
pense bem, estamos dispostos a te perdoar... na verdade, no precisaria 
nem perdoar porque ns nunca tivemos raiva de voc, mgoa de voc! 
Volta pra gente, acerta seu prumo, pensa melhor... eu vou te dar um 
tempo pra pensar. E eu tenho certeza da sua resposta!  afirmou ele 
categoricamente.
 Enquanto isso eu j vou providenciando os documentos. Assim 
que voc partir ns vamos arrumar a maneira certa de forjar tudo! Eu 
cuido de tudo isso e te dou cinco dias. Em cinco dias a gente est 
viajando.
 Mas eu vou sumir assim, Marlon?
 Voc vai sumir. Pra todos os efeitos, voc est morto! As 
pessoas vo chorar, vo se lamentar... depois esquecem! E voc vai ser 
somente uma sombra. Nunca ningum vai ficar se preocupando com 
voc, nem lembrando da sua existncia. Voc no fez nada de 
importante para eles! Ento... essa dor vai ser s durante um tempo... 
depois, pensa bem: voc est no meio de um bando de loucos! Eles so 
um bando de loucos!
 Como assim?
 Eu sei exatamente. A Grace e aquela equipe dela, voc no viu 
o que eles fizeram com voc? Eles esto vendo fios na sua cabea, 
raciocina, Eduardo!
 No, voc no entende, Marlon... aquilo  uma linguagem 
metafrica!
 Pouco se me d. O que eu sei  que o pessoal daquela equipe 
 tudo orgulhoso, altivo, so um bando de prepotentes, alm de loucos! 
Eles so mais usados pelo diabo do que por Deus. Voc acha que est 
no meio de Cristos?  ele meneou a cabea.  Pois no est... eles 
no so seus amigos, e nem nunca vo ser. O tempo iria te mostrar isso. 
Mas voc no precisa estar aqui para ver. Voc sabe que no houve 
nenhuma dificuldade em saber de tudo que aconteceu naquele 
Congresso, no ?! E por qu? Porque eles no tm fora pra fazer 
resistncia, no neste nvel de guerra. Se voc soubesse o que eu sei, 
da podrido na vida de tanta gente ali...
Fiquei quieto. Ele passou o brao pelos meus ombros.
 Cinco dias. Em cinco dias eu te ligo. Levantou, deu-me um 
abrao e foi embora.
 Que voc tome a deciso certa!
Eu fiquei pensando. Mas no senti tranqilidade naquilo. Era algo 
estranho demais, insistente demais.
"E por que me tirar do Pas? Ser que eu no posso simplesmente 
ir para um outro Estado?"
Aquela histria de querer me deixar muito, muito longe, 
completamente inacessvel no cheirava bem. Se eu aceitasse uma 
coisa dessas nunca mais conseguiria fugir deles, nunca mais conseguiria 
me comunicar com ningum. Com Isabela, com Grace... com quem quer 
que seja, para pedir qualquer tipo de ajuda!
Mil coisas me passavam pela cabea... de certa forma, nas 
entrelinhas, a insistncia de Marlon me fazia crer que aquelas pessoas 
tinham realmente o poder de influenciar o meu destino. Se no fosse 
assim a Irmandade no estaria to inclinada a me afastar deles. Ou 
melhor... delas! Especialmente aquela rejeio em relao a Isabela me 
encafifou.
Voltei para o parque, orei um pouco, do meu jeito. Embora eu no 
soubesse discernir muito bem a Voz de Deus, o Esprito Santo habitava 
em mim! Com isso realmente Marlon no contava.
"Pxa, Senhor... isso  uma direo Sua? Voc quer que eu volte 
para a Irmandade? O Senhor no me quer mais? No estou sendo um 
bom filho pra Voc? Est me mandando de volta pro meu velho lar... me 
tirou do orfanato pra agora me mandar de volta?"
Nos dias que se seguiram pensei nas promessas de Deus, no anjo 
ruivo, na uno, no Ministrio... pensei em Isabela... era a primeira vez 
que eu estava de fato empolgado com uma mulher...
"Hoje eu contemplo a idia de um casamento... antes no era 
assim! Nunca foi assim... enquanto eu pudesse enrolar, melhor. Puxa... a 
Isabela tem um bom corao,  boazinha comigo. Tem valores nobres!"
E de repente fui invadido por uma convico:
"No vou fazer isso... imagina s! S se eu estivesse louco..." E 
fiquei com a minha deciso tomada, aguardando pelo telefonema. Marlon 
ligou antes mesmo que completassem os cinco dias. Em trs dias o 
telefone tocou e quando atendi, ele j foi falando imediatamente, 
animado:
  Olha! J estou com o seu passaporte aqui na minha mo! Toda 
a sua documentao est pronta. OK? Vamos nos encontrar? Aonde 
voc prefere que seja? Pode ser no Shopping Ibirapuera?! Quer que eu 
mande um carro para te buscar? Vou te mostrar tudo, toda a 
documentao, vamos combinar o plano direitinho, e em mais cinco dias 
estamos indo embora! Voc j est fora do Pas!
 No... eu j pensei...
 Eu sei. Eu sei que voc j pensou! Voc tinha que tomar a 
deciso certa mesmo.                                                                              :
 Eu no vou.
Silncio do outro lado. Ele ficou mudo. Eu at podia imaginar a sua 
cara.
 Marlon!?... Voc t a?...
 O que  que voc falou?  a voz dele veio seca.
 E isso mesmo que voc ouviu. Eu no vou. Eu pensei melhor... 
e, olha, voc pode at no acreditar... mas eu vi um anjo, e esse anjo 
falou que eu tenho um Ministrio! E tambm no vou largar a Isabela, eu 
sei que encontrei a mulher da minha vida, eu quero casar, ter filhos com 
ela... eu amo a Isabela e no vou trocar ela por nada, no!
Novamente ele ficou mudo. Ento a voz dele veio mais uma vez, 
ligeiramente paternal, como eu conhecia.
 Hum... voc est gostando mesmo dessa moa, hein?  T!
 ... isso no  bom... ela vai acabar com voc. Espero que voc 
acorde enquanto  tempo.
Senti uma grande tristeza na voz dele. Um grande pesar pela 
minha deciso.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, desligou. Eu no veria 
Marlon pessoalmente to cedo.
Eu havia recusado a oferta, tinha traado o meu destino. Tinha 
feito minha escolha. At ento eles estavam esperando. Tinha sido um 
perodo de "bandeira branca", de pura seduo da parte deles. Mas esse 
tempo tinha acabado. A partir da, eu sabia que haveria de colher alguma 
conseqncia. Algum outro tipo de conseqncia!
Meu tempo tinha se esgotado... se eu no estava com eles, estava 
contra eles!
* * * *
Captulo 25
Logo chegaria meu aniversrio, eu faria 31 anos. Isabela estava 
com 28. O episdio do parque ainda estava fresco em minha memria 
quando veio o baque pior de todos, o mais terrvel at ento. Certamente 
deste ns levaramos mais tempo para nos recuperar.
Mesmo sabendo que tudo estava debaixo do controle do Senhor, e 
que tudo coopera para o nosso bem, para o bem daqueles que so 
chamados segundo o Seu propsito... quando vem a crise... no d para 
dizer que a dor no vem tambm junto com ela! Ah, e que dor!
No foi nada fcil na hora, e nas semanas e meses que se 
seguiram eu nada compreendi. Simplesmente confiamos em Deus, 
procuramos descansar na certeza de saber que Ele era Senhor sobre 
tudo... e sobre todos!  Inclusive a Irmandade e seus adeptos...
Apesar de eu ter conhecido o "outro lado", e saber que 
praticamente tudo poderia acontecer conosco agora que eu tinha 
recusado a oferta de Marlon, normalmente eu no me ligava em datas.
Claro, eu poderia saber de cor e salteado os melhores dias, as 
melhores horas... poderia at quase adivinhar o que viria, e quando viria. 
Mas minha mente parecia um pouco bloqueada! No que eu "me 
recusasse" a pensar. Mas eu no me lembrava de pensar em nada 
daquilo. Era mais fcil Isabela ter conscincia dessas coisas antes do 
que eu!
Acho que talvez eu no quisesse pensar. Queria esperar. E, 
principalmente, esperar na Proteo de Deus, na Fidelidade de Deus. Se 
a toda hora ficasse matutando do que a Irmandade seria capaz de nos 
fazer, a mim e a ela, no conseguiria mais viver.
Ento eu procurava esperar na esperana de que Deus estaria 
comigo, me valeria na hora certa... no fundo, no fundo da alma eu 
desejava no ter que me preocupar com o que meus ex-irmos 
procurariam arquitetar contra minha vida... contra a vida de Isabela.
Era mesmo ela quem costumeiramente me tirava deste torpor 
mental, fazendo-me lembrar de datas importantes. Como na poca das 
Festas de passagem de estao, por exemplo. Era tambm Isabela que 
muitas vezes descobria padres nas aes do inimigo: em datas 
derivadas do nmero nove... ou nas sextas-feiras e finais de semana. 
Quando ela falava chamando minha ateno e convidando-me para orar, 
dependendo das circunstncias eu acabava me dando conta de que 
Isabela tinha razo.
Mas naquela ocasio no havia porque ela pensar em algo, no 
havia como prever algo. Isabela nem sabia da minha conversa com 
Marlon. Quando nos demos conta, j no tinha mais jeito. Creio que, de 
qualquer modo, no haveria nada que pudesse ter sido feito!
Era sexta-feira, dia 27 de fevereiro. O fato da soma dos dgitos dar 
nove no tinha a menor importncia para mim naquela manh.
Eu tinha levantado cedinho e saa do banho para me enfarpelar 
todo num dos meus ternos. Agora eu quase no tinha roupas boas. 
Isabela  quem vivia investindo no meu guarda-roupa, mas da maneira 
como a maioria dos mortais faz: em pequenas quantidades e muitas 
vezes a prazo. Eu mesmo j no me preocupava em gastar dinheiro 
comigo mesmo. Mas Isabela gostava de me ver bem arrumado; sempre 
que podia trazia camisas e gravatas novas.
Vesti a melhor cala que tinha: a preta (presente de Isabela); junto 
usei a camisa azul de gola e punhos brancos (presente de Isabela), pus 
a gravata azul de patinhos (tambm presente da Gatinha), a mesma que 
meus colegas de trabalho viviam caoando. E calcei os sapatos pretos 
(que Isabela insistiu para que eu comprasse).
Dei-me por arrumado. Faltava apenas passar gel no cabelo. 
Olhando no espelho, estava pronto para a entrevista daquela manh. 
Olhei no relgio porque no poderia atrasar-me de forma alguma. Desci 
as escadas de madeira, rangedoras, e j estava vistoriando minha 
pochette para sair. Eram sete horas da manh. Ento o telefone tocou.
"Puxa, quem pode ser nessa hora? Ser Isabela, ligando para dar 
bom dia?" J com um sorriso no rosto, atendi:  Al?
A voz feminina do outro lado no era da minha noiva.  Seu 
tempo est esgotado. E o que voc tinha, agora no tem mais. Mas 
quando voc descobrir, no vo acreditar. Porque a raiz do mal habita 
em ti  disse a pessoa com voz dura. E desligou.
Passado o choque inicial, fiquei muito encafifado. Eu sabia que era 
algum da Irmandade, bvio. Mas no era Thalya. Embora j fizesse 
tempo, aquela voz me parecia ser de Rbia.
"Mas que raio de recado  esse que mandaram entregar?! No 
entendi." Fui pensando um pouco pelo caminho, mas logo cheguei ao 
local da entrevista. Entretido com os afazeres da seleo, aquilo caiu no 
esquecimento. Eu estava esperanoso porque precisava de dinheiro o 
quanto antes. O salrio de Isabela segurava a barra, mas no era 
suficiente. Ela poderia ter dois empregos, mas no daria conta, no seria 
justo. Isabela no gostava do convnio; eu sabia o quanto ela estava se 
esforando, um emprego era o mximo que ela podia dar de si.
No dia seguinte tambm no houve tempo para eu me lembrar 
daquele telefonema. Porque eu e Isabela discutimos (no sbado, claro, 
nosso dia de descanso). Voltei para casa bravo e somente quando 
cheguei l  que verifiquei que a chave do estacionamento 
desaparecera. Ns tnhamos alugado uma vaga num estacionamento 
pequeno porque algumas vezes eu vinha com o carro para casa, 
especialmente aos finais de semana, e no era prudente deix-lo na rua.
Como no pude estacionar o carro, liguei de volta para Isabela 
para saber se tinha esquecido a chave l. No estava. No tinha 
coragem de deixar o Palio dormir na rua, ento resolvi voltar para a casa 
dela.
Fui dirigindo normalmente, agora j um pouco mais calmo. Quando 
fui passar por aquele farol perto da avenida do cemitrio, o volante do 
carro simplesmente travou! Travou mesmo, e o volante de um automvel 
no trava quando ele est em movimento. Fiz fora tentando faz-lo 
funcionar e, quase instintivamente, orei alto algumas frases em lnguas.
No vinha ningum na contramo, por sorte, mas naqueles breves 
segundos de pnico, de repente vi uma luz ao lado do carro. No meu 
esprito quase pude vislumbrar a espada de fogo do anjo que partiu a 
corrente que prendia o volante. No me pea para explicar, somente sei 
que foi assim! Aconteceu to rpido, que depois custei a acreditar.
No entanto, o volante voltou a funcionar imediatamente! Minha 
curtssima orao de socorro foi atendida. Fui orando o resto do 
caminho.
Aquele contratempo todo serviu para, pelo menos, acalmar nossos 
nimos, o meu e o de Isabela. Cheguei em sua casa e fui abrindo a porta 
da rua com a minha chave. Dona Mrcia estranhou minha chegada.
 U? Que aconteceu?
 A senhora acredita que sumiu a chave do estacionamento?!  
Respondi.  Ela est sempre no chaveiro, na pochette, mas 
desapareceu... a gente no fica muito  vontade de deixar o carro dormir 
na rua.
Isabela apareceu, vindo l de dentro:
 , me, acho que hoje ele vai dormir aqui. Amanh a gente 
tenta achar algum chaveiro.
 No precisa, meu irmo tem a chave  falei novamente.  
Mas esperar ele chegar em pleno sbado  noite...
 Tudo bem, ento  respondeu Dona Mrcia.  Dorme a,  
melhor mesmo no facilitar com o carro.
Ento contei para Isabela o que tinha acontecido, apenas para ela, 
sobre o volante do carro. E voltamos  razo, pondo um fim na 
desavena. Dormi por l mesmo, mais tranqilo em saber que o carro 
estaria seguro, na garagem da casa de Dona Mrcia.
O domingo nos encontrou extremamente cansados. Aquele era um 
cansao diferente, desproporcional. O esgotamento no era fsico, numa 
primeira instncia, mas principalmente espiritual e emocional: uma guerra 
travava-se ali, no havia trgua. O esprito capta. As emoes se 
abalam. E o corpo se ressente.
Foi uma tarde modorrenta, mas encontramos alento ao fazermos 
as pazes completamente um com o outro. Foi somente depois do Culto, 
um pouco antes de irmos embora da Igreja, que me lembrei:
 Ah, Isabela... recebi um telefonema na sexta-feira!
Expliquei. Nem sabia o que explicar diante de um recado to 
esdrxulo. Mesmo assim, compartilhei com ela. Isabela tambm ficou na 
mesma.
 Temos que orar, s no sei em que sentido... que ser isso?! 
Esquisito!
O dia seguinte traria resposta. Uma tremenda e desagradvel e 
desconcertante resposta...!
* * * *
Levantei mais ou menos s nove horas, tomei banho e desci. 
Minha me estava na cozinha e tinha caf fresco. Sentei para tomar um 
gole. No sei nem a troco de que saiu a conversa.
Estvamos lembrando de quando eu e meus irmos ramos 
pequenos, ento minha me comentou do meu nascimento, meio que do 
nada. Conversa vai, conversa vem, recuamos no tempo e ela acabou 
contando algo sobre o dia em que nasci.
Contou uma histria totalmente imprevisvel para mim, sobre ter-
me consagrado a "So" Leviathan por orientao de uma capela catlica 
na maternidade (Leia Filho do Fogo). Fiquei estarrecido e at me esqueci 
do caf. Incrvel aquela informao nunca, nunca ter vindo  tona! Mais 
incrvel ainda era minha me lembrar direitinho daquele nome  
Leviathan , to pouco comum para ela.
A revelao caiu no meu corao de forma esquisita, com gosto de 
fel.
"Como que eu nunca fiquei sabendo disso??? Como  possvel eu 
ter sido consagrado na poca do meu nascimento? Por qu?! Por que 
Marlon nunca disse nada?"
Claro que aquilo no era obra do acaso!
Aquilo tudo teve o poder de me incomodar de tal forma que fiquei 
quieto, pensativo, e minha me ficou falando com as paredes.
"Eu sempre imaginei que havia buscado a Irmandade de livre e 
espontnea vontade aos 17 anos. Mas... e aquela consagrao? Eles j 
estavam esperando que eu seguisse aquele caminho... quanto do meu 
destino futuro teve a ver com isso??"
Por enquanto aquelas eram perguntas sem resposta. Eu ouvia 
minha me tagarelando sem parar perto de mim, mas j nem escutava o 
que ela dizia. S digeria aquela estranha informao nova. Fiquei 
completamente alheio at que ela foi para a sala, comentando:
 Vou ligar pra sua av e ver se ela achou a sua fotografia que 
sumiu! "Sumiu.....?"
Sa da minha nvoa de pensamentos num estalo s. Aquele no 
foi um "estalo qualquer, mas uma sensao parecida com aquela quando 
eu tinha discernimento espiritual de alguma coisa.
"A minha chave tambm sumiu..." E alto:
 Sumiu uma fotografia? Que fotografia? Sumiu alguma fotografia 
minha? Era uma verdadeira onda de sumios: primeiro tinha sido meu 
sapato; algumas semanas antes, mais ou menos no comeo do ano, 
perdi uma entrevista porque meu nico par de sapatos sociais 
simplesmente desapareceu! H poucos dias tinha sido a chave do 
estacionamento; e agora, mais essa... fotos?! "A troco de qu?"
 Pois   foi dizendo minha me.  Sua av comentou comigo 
que foi olhar o lbum de fotos de vocs esses dias, e deu por falta de 
algumas. Os buracos estavam vazios e, pela legenda embaixo, ela 
percebeu que eram fotografias s suas, fotografias em que voc aparecia 
sozinho! Ela at ligou para mim nesse fim de semana querendo saber se 
no tinha sido voc mesmo quem pegou. Eu disse que achava que no, 
que voc no tinha comentado nada. Voc no pegou, n?
 No peguei.
 E tambm neste fim de semana ela reclamou que sumiu a sua 
foto grande, aquela que estava no porta-retrato em cima da estante. 
Sabe qual , n? Aquela quando voc era pequeno...
 Sei, sei, sei... vai ver a empregada quebrou o porta-retrato e 
deu sumio na foto achando que a v no ia notar!
 No, no, o porta-retrato est l, no lugar dele. S a foto  que 
sumiu. Que esquisito, n? No foi mesmo voc?
 No, no mexi em nada!
Enquanto ela ficava de papo com minha av, gritando pelo telefone 
porque a v no estava escutando muito bem, minha cabea literalmente 
girava. Lembrei confusamente de todos os recentes sumios, e agora 
mais isso. Todos esses acontecimentos se misturavam na minha mente 
e eu no conseguia achar o fio da meada da lgica.
Fora isso, lembrei tambm do Pastor Lucas, que tinha se 
esquecido da promessa de dar-me o par de sapatos e as roupas que 
prometera... j fazia mais de um ms. Era muita coisa junta. Muita perda 
junta!
Ento senti novamente aquela sensao no esprito. Recordei do 
telefonema da sexta-feira como num eco, num sussurro: "...o que voc 
tinha, voc no tem mais..."
De imediato algo me incomodou. E desta vez no foi em relao 
s fotos.
"O que eu tinha... no tenho... mais..." Como uma seta o 
pensamento me penetrou na mente: "O dinheiro! Nossa aplicao 
financeira^
Com o corao batendo forte no peito a ponto de poder sentir a 
cabea latejar junto, subi que nem furaco at meu quarto. Eu 
costumava guardar o contrato, os extratos e todos os comprovantes de 
depsito na minha pasta de documentos. A pasta ficava dentro do 
guarda-roupa, e tinha um fecho com segredo.
Abri a pasta com dedos nervosos, meus olhos bateram na ponta 
do invlucro de plstico dentro do qual estavam os documentos do 
banco. Quase suspirei de alvio.
"Mas no parece haver alvio no ar..."
A frase me passou pela mente em milsimos de segundo. Ao 
mesmo tempo puxei o invlucro... estava leve demais! Meus olhos e 
meus sentidos recusavam-se a acreditar no que viam... vazio!!! Vazio!!
Rebusquei pela pasta, tirando tudo no lugar, revirando tudo, 
falando sozinho de mim para mim. Mas no encontrei nada. 
Absolutamente nada que se referisse  nossa conta!
"No... isso no est acontecendo... isso no  possvel, 
simplesmente no  possvel... Deus no pode estar permitindo isso !!"
Joguei tudo de volta na pasta de qualquer jeito. Havia uma ltima 
esperana: h alguns dias eu havia recebido um extrato... e ele ainda 
deveria estar l embaixo, na estante da sala, naquela gamelinha, com 
outras correspondncias.
"Sim, claro, ele tem que estar l, afinal eu no tinha ainda 
guardado com os outros..."
Minha me ainda falava ao telefone, contando proezas do Otvio, 
e me olhou com olhares indagativos quando revirei a gamelinha.
"Tem que estar aqui, tem que estar... meu Deus do cu, por favor, 
tem que estar aqui!"
Mas no estava. Isso queria dizer que eu no tinha comigo 
qualquer comprovante da nossa conta aplicao. Comecei a entrar em 
pnico. Uma sensao angustiante, terrivelmente desagradvel me 
invadia. Eu s imaginava o que estava por vir  luz!
"O que voc tinha voc no tem mais."
Aquela frase me martelava o crebro, vez aps vez.
Sa de casa, e literalmente corri at o banco. Era um pouco longe, 
por isso cheguei l meio com a lngua de fora. Em parte por causa da 
corrida, em parte por causa da adrenalina extra que jorrava no meu 
sangue.
Consultei a conta pelo caixa eletrnico, como estava acostumado a 
fazer. Meus dedos tremiam. No consegui completar a transao. O 
computador informava "conta inexistente" todas as vezes. Tentei mais 
vezes. Decididamente aquilo no era real!
"H de ter uma explicao!"
Desisti do caixa eletrnico e entrei no banco, fui direto para as 
mesas da gerncia:
 O sistema est com problema?  perguntei.
 No, est tudo funcionando.
  que... olha, no estou conseguindo consultar a minha 
aplicao... no sei o que est acontecendo! Acho que devo ter digitado 
algum nmero errado, esqueci algo, sei l! Ser que voc podia verificar? 
 procurei manter a calma.
 Pois no! Me d o nmero do seu CPF e o seu nome. Sente-se, 
por favor! Eu estalava os dedos, em silncio, sentindo as mos geladas, 
olhando fixamente para ele, aguardando o resultado. Eu j sabia... mas 
quem sabe, por um milagre... somente um milagre... eu precisava de um 
milagre!
O gerente olhava para a tela do computador, a olhava para o meu 
CPF e o meu nome, tornava a digitar. Ento olhava novamente... digitava 
outra vez...
No era real!
 Engraado... essa conta aparece como inexistente.
 Mas no  possvel!  meu corao saa pela boca.  No  
possvel!!
 Tem certeza que voc tem conta nesse banco?
 Claro! Claro que tenho!
 H quanto tempo voc tem conta aqui?
 Tenho essa aplicao h trs anos, ainda na semana passada 
mesmo recebi um extrato!  comecei a entrar em genuno desespero, 
perdi completamente a noo de onde eu estava.
 Voc est com o extrato a?  fez o gerente.
 No... no est aqui.
 Voc tem algum comprovante de depsito, alguma coisa? 
Minha compostura foi para o espao. Eu me sentia desesperado. 
Comecei a falar cada vez mais alto, batendo na mesa, torcendo as mos.
 No tenho! No tenho! Eles sumiram! Meus comprovantes 
sumiram! Mas isso no  possvel, voc pode consultar de novo? Como 
pode desaparecer o meu dinheiro desse jeito do banco?! Olha a de 
novo!
Ele fez o que eu pedia s que infelizmente nada mudou. Eu 
continuei gritando e dando murros na mesa do gerente. As pessoas  
volta olhavam com estranheza. Comecei a chorar de aflio. Nem me 
reconhecia, nunca tive uma reao semelhante.
 Esse  todo meu dinheiro, todo\ Tem quase R$ 25.000,00 a!!! 
No  possvel, tem que ter algum registro da minha conta em algum 
lugar. Eu tenho essa conta h trs anos!!! Como pode sumir assim?!
 Senhor, por favor... procure se acalmar!  dizia ele 
polidamente, com um semblante de compaixo.  Solange!
Uma moa veio para perto de ns meio assustada, e ele pediu 
para ela trazer gua com acar.
 Eu no quero gua com acar, quero meu dinheiro!
 Olha, eu sei que voc est falando a verdade... ns vamos 
pesquisar isso, eu mesmo vou verificar. Mas leva alguns dias...  ele 
comeou a me explicar o que poderia ser feito.
A tal Solange ps o copo de gua com acar na minha frente e eu 
bebi sem perceber, sem pensar. Precisava fazer alguma coisa com as 
mos.
 Vou fazer todo o possvel. Por enquanto, procure ficar calmo... 
Agradeci ao gerente e sa do banco me sentindo amassado por um 
caminho. "Isso no est acontecendo.........."
No meu ntimo eu precisava crer, por toda lei, que a tal pesquisa 
teria sucesso. Em algum lugar alguma coisa referente  minha conta 
surgiria.
"Ns vamos orar e... e Deus vai reverter esse roubo!"
Aquilo acabou com o meu dia. Aproveitei que estava por ali mesmo 
e fui at a Caixa Econmica para receber uma das parcelas do meu 
seguro desemprego que estava prevista para aquele dia.
Neca! No havia chegado ainda.
Voltei para casa que nem um rob, completamente areo.
* * * *
Mais tarde encontrei com Isabela na academia. Ela ia para l direto 
do servio.
Eu estava certo de que Isabela teria uma das trs reaes: 
primeiro, entraria em franco desespero junto comigo, e passaramos a 
semana chorando juntos.
Segundo, ela ficaria terrivelmente assustada e se recusaria a 
continuar trilhando naquele caminho. Parece at que eu j podia ouvir 
suas palavras: "Estamos lutando contra uma mfia e daqui pra frente 
tudo pode acontecer. Vamos desistir dessa loucura!"
E, em terceiro lugar, Isabela tambm poderia ficar furiosa. 
Especialmente porque ela tinha pedido para que eu deixasse os 
comprovantes de depsito com ela (Isabela achava que eu no estava 
guardando direito).
Quando cheguei, ela estava fazendo aula de spinning, por isso no 
a vi de imediato. Entrei no salo de musculao por pura inrcia, tinha 
que me obrigar a fazer um pouco de ginstica. Mas parece que os pesos 
tinham ficado mais pesados de repente! Alheio ao que acontecia  minha 
volta, sem reparar no trana-trana de alunos e professores, nem vi 
Isabela chegar.
 Oi, Nen!
 Ah, oi, Gatinha!  procurei sorrir e me comportar normalmente. 
Ela foi sentando no banco de um dos aparelhos ao lado.
 E a? J fez a parte aerbica?
 No fiz. Acho que hoje no vou fazer, estou meio cansado. E 
voc? Como foi de servio?
 Tudo bem, nada de especial, n?  ela foi contando um pouco. 
 E como foi o seu dia?
 No saiu minha parcela do seguro-desemprego. T atrasada!
Eu preferia ir falando de amenidades. Na verdade, seria melhor se 
eu nem precisasse lhe contar nada. Talvez pudesse esperar uns dias 
para ver o que o gerente teria a dizer, quem sabe ele tinha alguma boa 
notcia e assim eu a pouparia de passar pelo mesmo desgosto.
Mas Isabela tinha sempre aquele feeling aguado. Ela cheirava as 
coisas no ar. No adiantava querer disfarar!
 Que que foi, hein, Nen?  perguntou ela no muito depois 
com o olhar cravado no meu rosto, analisando-o.
 Nada, Gatinha... por qu?
 No inventa, Eduardo. Voc t esquisito. Diz logo, vai! Que 
aconteceu?  ela j falava em tom preocupado, como quem pressente 
"o que foi desta vez?"
Como continuasse me olhando inquiridora, eu me sentei ao lado 
dela com um profundo suspiro.
 No tenho uma boa notcia pra te dar.
Ela mudou a expresso do rosto, visivelmente assustada, 
pensando imediatamente nas piores coisas.
 Que aconteceu, Eduardo?
 No  definitivo ainda... pode ser que a situao reverta...  eu 
tentava realmente amenizar as palavras.
 T bem, mas o que foi?
Inspirei fundo: "L vai!"
 Hoje eu fui consultar a nossa conta... e.... nosso dinheiro 
sumiu.....
Ela continuava me olhando sem entender, sem esboar ainda 
nenhuma reao.
 Como assim, sumiu?
 Sumiu. Simplesmente sumiu. A conta no existe mais.
Isabela ficou muda por uns dois ou trs segundos. E raciocinou:
  Bom, se foi um problema do banco, ento no importa, ns 
temos os comprovantes,  s...
 Eles tambm desapareceram  interrompi.
A ela percebeu a gravidade da nossa situao. Mas no entrou 
em pnico como eu, o que me surpreendeu bastante. Ficou calada por 
mais alguns segundos, processando as idias. Ao nosso redor um monte 
de alunos puxava peso, se esbaforiam. Ns nem ligvamos para eles. 
Por fim, Isabela falou com voz at que bem controlada:
 Mas como  possvel isso, Eduardo?
Eu sabia o que ela estava perguntando. No me fiz de rogado.
 Possvel ... voc sabe.
  Ser que foi um esprito humano que entrou na sua casa e 
levou os comprovantes.....?
 Pode ser. Mas tambm pode ter sido um demnio. Mais 
provvel at, porque eles teriam toda facilidade pra desmaterializar os 
documentos...
 E algum facilmente deletaria a conta do computador bancrio. 
Uma pessoa da Irmandade, de alto escalo, talvez... no haveria 
nenhuma dificuldade... tudo se compra com dinheiro nesse Pas. Nesse 
mundo!
 Nem seria necessria a interveno dessa pessoa que voc 
est cogitando. O prprio demnio poderia fazer isso. Ou, nesse caso, 
um esprito humano. Nem haveria necessidade de comprar algum com 
dinheiro. Isso  algo simples para a Irmandade! Como voc pode ver, as 
possibilidades so muitas.
 ....  Isabela continuava pensativa. Ento concluiu 
tristemente:  Mas, ento... a nossa conta simplesmente deixou de 
existir,  isso?  como se ela nunca tivesse existido?
Assenti.
 E no temos como provar nada.
Isabela abraou os dois joelhos, apoiou o queixo neles e, distrada 
em pensamentos, sria, deixou-se ficar por alguns momentos. Abracei-a.
 Mas, veja... o gerente vai pesquisar. Talvez ache alguma coisa. 
Ela inspirou profundamente:
 Ah, voc acha?... No sei, no. Vamos orar, e tudo, mas... 
ser?
Um clima profundo de tristeza recaiu sobre ns. A gente olhava um 
para o outro, sem saber o que mais dizer, e j no havia nenhum sentido 
em continuar ali na academia.
 Acho que j chega de ginstica por hoje.
Nem fomos tomar banho, simplesmente samos para tomar um 
caf e conversar. Por incrvel que parea, Isabela no teve nenhuma das 
reaes que eu esperava! Eu esperava tudo dela, menos aquela 
placidez! Realmente fiquei surpreso, pois ela permaneceu calma e com a 
cabea no lugar. Entristecida, sim, mas no desesperada nem 
desanimada.
J eu me encontrava totalmente em frangalhos... foi Isabela quem 
passou a me consolar, com voz suave e firme ao mesmo tempo, com 
olhar compassivo, mais preocupada comigo do que com o dinheiro.
 Nen... olha... pensa bem... no h de ser o fim do mundo! 
Dinheiro a gente junta de novo. Muito pior seria se algum tivesse 
morrido, no  verdade? S pra isso no tem soluo.
 Isso .
 E tambm nenhum de ns est doente, com alguma doena 
sria, nem ningum da nossa famlia. T tudo bem, vai! Estamos aqui, 
estamos juntos. Isso  o que importa! No vamos nos deixar abalar. 
Tudo bem, a gente vai ter que mudar um pouco de planos, mas... 
estamos juntos...
Eu escutava, murcho, desanimado. Anestesiado, para dizer a 
verdade. Ela continuou:
 Pode ter certeza: Deus  Deus, n, Eduardo? O nosso 
casamento no vai atrasar nem um dia por causa disso. Deus  Deus! 
No quero dizer que a gente tem que cair no conformismo, mas no 
vamos tambm achar que a vida acabou.  Eu sei. Mas quando penso 
em toda privao que a gente j passou, economizando aqui e ali, 
guardando dinheiro todo ms... voc sabe que foi com sacrifcio que a 
gente juntou R$ 25.000,00! Isabela sacudiu a cabea..
 Mas a gente junta de novo.
Eu no me contentava com aquela idia. Continuei tentando provar 
a mim mesmo que nem tudo estava perdido.
 Talvez aparea  falei novamente.
 Pois , talvez!  Isabela terminou seu caf. E foi mais prtica 
do que eu.  Precisamos falar com a Grace, com Dona Clara, temos de 
pedir orao. Agora que esse gerente vai estar procurando o rastro da 
nossa conta, temos que perseverar e pedir que Deus intervenha.
 Tem tambm aquele casal que conhecemos no encontro da 
Grace. Eles inspiraram confiana.
  verdade! Voc j ligou pra algum?
 No, nem pensei nisso. Isabela comeou a se mexer.
 Ento vamos. Vamos telefonar. No podemos ficar parados!
 Ah, eu no estou a fim de falar com ningum  resmunguei.
 Tudo bem, eu falo. Vamos. No podemos ficar aqui sentados 
sem fazer nada. Se orarmos, pode ser que nosso dinheiro volte!
 No quero falar com ningum.
Isabela me olhava com ar compadecido, preocupado.
 Vamos, Nen, vai! nimo! No fica desse jeito, temos que 
contatar as pessoas.
Ento fomos  procura de um orelho vazio no Shopping. S tinha 
l embaixo. Isabela foi discando com determinao. O telefone da Grace 
caa na secretria eletrnica, ento ela deixou recado dizendo que algo 
srio tinha acontecido e que voltaramos a ligar. Dona Clara no estava 
em casa. Tinha reunio nas segundas-feiras  noite.
Ento resolvemos ligar para o casal conhecido da Grace: Sarah e 
Jefferson. Eles eram mais ou menos da mesma idade da Grace, muito 
mais velhos do que ns. Mas foram simpticos conosco no encontro e 
haviam nos convidado para ir  casa deles compartilhar com calma o 
meu testemunho.
No vimos mal naquilo, e realmente fomos, acompanhados por 
Dona Clara. Eles moravam num condomnio fechado, um lugar muito 
bonito.
Essa foi a primeira vez que Dona Clara, de olhos espantados, 
escutou boa parte da minha histria. E, bem tratados, confiamos neles. 
Sarah e Jefferson agora tambm eram referenciais para ns.
Isabela ligou. Foi Jefferson que atendeu, e ela tentou explicar em 
poucas palavras do que se tratava. Ele ouviu, ficou aparentemente 
atnito e disse que estariam orando. Isabela volta e meia olhava para 
mim. Eu realmente me sentia sem foras, ento me quedei quieto, 
sentado no banco um pouco a distncia, apenas olhando.
 Posso falar um pouco com a Sarah?  escutei Isabela pedir.
Fiquei observando ela falar, gesticulando enquanto se explicava. 
A fez um sinal me chamando. Fui a contragosto:
 No quero falar com ningum.
 Ela que quer falar com voc.
No era verdade. Mas Isabela estava preocupada com meu estado 
de nimo e tinha pedido que Sarah conversasse comigo, orasse comigo. 
Peguei o telefone. Sarah procurou me acalmar e garantiu que eles 
estariam orando.
 Satans vai devolver esse dinheiro. Fica tranqilo!
Sarah normalmente passava uma viso otimista, forte, de maneira 
que me senti um pouco melhor. Marcamos um encontro na casa deles 
para a prxima quinta-feira. Ento ela orou comigo, enquanto Isabela 
tambm intercedia ali ao meu lado, bem perto de mim, ora em lnguas, 
ora em portugus. O que ela mais queria era que eu estivesse bem.
Quando terminamos, agradeci e desliguei o telefone.
Isabela me olhava, sondando meu semblante, tentando perceber 
se eu estava melhor. Ns nos abraamos, sem dizer palavra, sentindo o 
gosto amargo da decepo misturado com uma sensao de alvio. Algo 
muito difcil de descrever. Aquela era uma situao totalmente mpar, 
ningum pode supor o que  isso. Ento Isabela convenceu-me a falar 
tambm com Ricardo.
  importante que essas pessoas estejam sabendo.  T.
Dessa vez eu liguei, j me sentia um pouco melhor. Mas no 
consegui conversar, O telefone comeou a dar uma horrvel interferncia 
que boicotou o dilogo, Deixamos pra l. No dia seguinte, logo cedo, 
consegui falar com Grace da minha casa. Mas comeou novamente a 
mesma interferncia.
 Al? A...?.. A...l?!  Eu ouvia a voz dela longe, entrecortada. 
Finalmente consegui entender:
 Vamos orar!  exclamou Grace.
Ela orou de um lado, eu do outro. Com isso a interferncia cessou 
e pude explicar o ocorrido. Grace ficou sinceramente condoda, alm de 
muito admirada, nunca tinha vivido uma situao semelhante, nem 
conhecia ningum que tivesse passado algo assim.
Ento orou comigo novamente pelo assunto, orou por Isabela, 
pediu proteo sobre ns. E arrumou um jeito de nos encontrarmos 
pessoalmente no dia seguinte, dada a gravidade do ataque.
Eu sabia o quanto ela nos considerava, o quanto nos queria bem. 
Sua agenda era muito apertada, mas Grace sempre dava um jeito de 
arrumar tempo para nos. Mesmo porque, aquela era uma situao de 
emergncia, algo totalmente inesperado, eu e Isabela no sabamos o 
que fazer. Na verdade ningum sabia bem o que fazer!
Mas a verdade  que se o dinheiro no aparecesse, adeus o sonho 
ao apartamento! E a ltima coisa que ns queramos era casar tendo que 
comear a vida pagando aluguel!...
Depois de falar com Grace dei um pulo no banco procurando pelo 
gerente que tinha me atendido na vspera.
 Nada por enquanto...  esclareceu ele.
Meu Deus, meu Deus... que situao!
* * * *
A semana passou. Encontramos com Grace, oramos. 
Encontramos com Sarah e Jefferson, oramos. Encontramos com Dona 
Clara... oramos. Pedimos, naturalmente, a restituio do dinheiro. Agora 
cabia a Deus fazer o resto. Fosse l o que fosse que isso significasse.
* * * *

Captulo 26
Isabela procurou ser forte o quanto pde durante os dias que se 
seguiram. Sempre me consolava e procurava ajudar-me, pois confesso 
que aquilo realmente me abalou, me colocou completamente fora do 
prumo. Mas apesar dessa fora que demonstrou ter, claro que tambm 
estava arrasada e triste, com os nervos abalados.
No sbado seguinte, talvez como conseqncia de toda esta 
somatria, brigamos novamente. Para variar, no final de semana. Aquele 
seria o primeiro dia daquela semana tensa e atribulada que Isabela teria 
para descanso. Mas no aconteceu assim.
Pobre da Isabela! Ela se ressentia pela falta de descanso. Eu 
ainda no tinha conseguido emprego, mas ela estava trabalhando fora e 
tambm escrevendo o livro. Havia bastante responsabilidade sobre ela.
Aqueles dias tinham sido muito desgastantes porque,  procura de 
ajuda, correndo atrs de orao, tivemos que repetir vrias vezes a 
mesma histria, as mesmas coisas. As pessoas escutavam e 
naturalmente se sentiam enternecidas. Mas, depois, cuidavam de sua 
prpria vida e seus prprios afazeres. Punham a cabea no travesseiro e 
dormiam com tranqilidade porque aquilo no estava acontecendo com 
eles, era conosco que estava acontecendo!
O peso era muito diferente. O alvo estava desenhado nas nossas 
costas, era contra ns que a Irmandade avanava! E no h palavras 
fortes o suficiente para traduzir o estado de alma em que nos 
encontrvamos, vrias vezes. No era pnico, no era desespero... 
antes era uma constante sensao de peso sobre os ombros, muito 
peso. O nico alvio vinha da certeza do Poder maior do Senhor.
Mas por que o Senhor permitia todas essas coisas???...
s vezes ns ficvamos cheios de incertezas e questionamentos. 
Realmente... o que mais nos poderia fazer a Irmandade?! E se Deus no 
nos protegesse?
Era melhor no pensar muito nisso.
Agora, mais do que nunca, eu preferia pensar em arrumar um 
trabalho; agora, mais do que nunca eu estava aflito com aquilo. Nosso 
casamento dependia de conseguirmos juntar dinheiro. Como juntar 
dinheiro se todo o salrio de Isabela era consumido durante o ms, e 
ainda faltava?
E o meu seguro desemprego no saa, de forma que estvamos 
muito apertados financeiramente. Eu sabia que a Irmandade devia estar 
fazendo alguma coisa muito forte, nunca tinha sentido aquela mar de 
azar em relao aos empregos. Nada dava certo!
Isso me angustiava terrivelmente, no conseguia dormir direito e 
no conseguia pensar em outra coisa. Tambm o dinheiro do banco, 
apesar de nossas oraes, no dava o ar da graa. Dia a dia a gente 
tinha menos esperana de recuper-lo. Aquela tenso toda me fazia 
irritadio e impaciente.
Por isso no poupei palavreado na nossa discusso daquele 
sbado e, louco de raiva, deixei Isabela sozinha em casa no incio da 
noite. Ela estava fora de si e, para variar, veio atrs de mim com o carro. 
Isto , eu no sabia que ela tinha vindo atrs do nibus.
Quando desci, acabei cruzando com alguns antigos amigos da 
poca em que eu ainda era o Catatau (Leia Filho do Fogo). O pessoal 
me fez festa e eu, sobrecarregado como estava, fiquei jogando um pouco 
de conversa fora, relaxando a cabea. Conforme contou Isabela depois, 
ela ficou no carro em frente de minha casa, esperando. Orou um pouco, 
se acalmou. E, como eu no aparecesse, voltou para sua casa.
Quando finalmente eu cheguei, mais descontrado, j estava me 
roendo de remorsos pelo que tinha feito a ela. Ento liguei. Como 
estivesse mais calmo, controlei melhor a lngua. Isabela estava muito 
triste. Fui falando com mais sabedoria do que antes, ento Isabela teve 
pacincia de me escutar.
 T bom... no vamos deixar isso estragar o nosso sbado  
considerei eu.  Vou at a de novo!
 Vou esperar voc.
No era tarde. Sa novamente e caminhei at a avenida. De l eu 
poderia pegar somente um nibus e economizar dinheiro. A caminhada 
era meio longa, mas a economia valia a pena. Naquela poca, s vezes 
Isabela surrupiava umas moedinhas da Dona Mrcia para eu pegar 
conduo. Foi um tempo em que dividimos at xampu e cafezinho 
expresso. Nosso plano na academia venceu e no pudemos renov-lo. 
Que pena!... Meu maior temor era atrasar a prestao do Palio. Tambm 
tinha que pagar as contas em casa, pr gasolina no carro, cobrir os 
cheques pr-datados que j havamos dado... alm de ter um dinheirinho 
para passar o ms.
Entrei no nibus, sentei. Fiquei olhando o caminho sem v-lo, 
afastado do mundo, mergulhado em mim mesmo, pensando na vida. L 
pelas tantas, quando acordei dos meus sonhos de divagao, vi que 
estava num lugar totalmente nada a ver, fora da rota que me levaria  
casa de Isabela.
Olhei, olhei, e no reconheci o caminho.
"Ser que peguei o nibus errado?!"
Perguntei ao cobrador. Ele respondeu meio de m vontade:
 Esse nibus aqui  "relgio", passa s de vez em quando e d 
um monte de voltas pelos bairros. Tava escrito "relgio" l fora, no painel. 
Voc no viu, no?
Fiz uma negativa com a cabea, meio azedo.
"Como se eu fosse enxergar isso,  noite, justo hoje, justo agora! 
Que droga!!!"
E tive que me armar de pacincia. J estava tenso de novo, 
preocupado... eu sabia que, nessa altura, Isabela tambm j deveria 
estar preocupada com minha demora. Com tantas coisas estranhas 
acontecendo uma atrs da outra, at detalhes simples como me enganar 
de nibus j causavam mal-estar. Para ela, que no sabia o que estava 
acontecendo, certamente causava todo tipo de pensamentos absurdos.
Alm do mais aquele nibus no me deixava na esquina da casa 
dela, mas algumas quadras mais adiante. Finalmente saltei, e fui direto 
para o orelho.
"Vou avisar que est tudo bem e que chego em cinco minutos!"
Toca, toca, toca... e ningum atende!
"Mas onde est a Isabela?! Ela ia me esperar em casa!"
A fui eu que fiquei preocupado.
"Ser que ela saiu pra me procurar? No pode ser."
Corri at a casa dela. Entrei com minha chave aps tocar 
estridentemente a campainha. Ela atendeu a porta de mau humor.
 Que foi?  perguntei, ansioso, ao sentir o clima carregado.
 Nada  fez ela em resposta.  Se voc no ia sair naquela 
hora no custava nada ter avisado, afinal...
 Mas eu sa! Eu sa!  tudo o que eu no queria era brigar de 
novo.
 Saiu!! Saiu e chega aqui s agora? Eu estava morta de 
preocupao, vai que voc est no ponto e me aparece aquele fulano de 
novo!
 Que fulano?
 O Marlon, n?! Quem mais?
 No foi nada disso, peguei o nibus errado, um tal de "relgio" 
que faz um caminho doido. Me deixou l na outra avenida!
Ento Isabela falou com mais moderao.
 Puxa vida... no paguei nem pro susto!
 Eu liguei pra c assim que desci. Voc no atendeu!
 E nem podia. Eu estava te esperando no ponto, to nervosa que 
fiquei!
 Bom, mas eu liguei.
Aquela noite parecia interminvel para ns dois. Depois de uma 
semana daquela, um sbado como aquele!
Fizemos errado mais uma vez. Ao invs de orarmos primeiro e 
depois conversarmos, tentamos conversar logo de cara. Apesar dos 
nimos terem sido apaziguados momentaneamente, o cansao 
aumentava e a recordao das recentes injustias que fizemos um ao 
outro acabaram no sendo boa combinao.
Logo mais estvamos novamente discutindo. Incrvel... que poder 
aquilo tinha de sugar as foras! Eram j onze e meia da noite, nosso 
sbado tinha sido jogado no lixo. Minha indignao no tinha limites. Eu 
s conseguia enxergar meu prprio ponto de vista e Isabela j estava 
completamente exausta, esmagada, embora eu nem notasse isso.
 Se voc veio aqui pra isso, pra me deixar louca, no sei pra que 
vir  vociferou ela  l pelas tantas.
Foi para a cozinha pegar um copo de gua. Seu rosto estava muito 
triste, seus olhos estavam tristes. Fui atrs dela, mas novamente no 
liguei muito, nem enxerguei seu estado, nem percebi. Especialmente 
porque comecei a sentir a opresso crescendo em derredor.
Dessa vez foi muito diferente das anteriores. Eu reconheci o 
cheiro... adocicado... intenso... familiar! Sabia que era Abraxas... Abraxas 
estava ali. E por algum motivo que eu no sabia explicar, no houve 
medo em mim. Era uma sensao semelhante  do homem que ficou 
muito tempo longe do seu cachorro de estimao...
Abraxas vinha para perto de mim, como um co, me rondando, me 
sentindo, farejando. Eu fiquei quieto. Esperei. Da mesma maneira que 
Marlon, no conseguia ver Abraxas como um inimigo em potencial.
"Ele  um demnio, apenas isso...  a natureza dele. Eu fico 
quieto... e espero... talvez ele no me faa nada."
Isabela apenas bebia gua, no sentia isso, no percebia a 
presena dele. Ento, continuou a conversa exatamente do lugar aonde 
a gente tinha parado. A presena de Abraxas se fazia cada vez mais 
palpvel, a opresso aumentava, mas eu no chamava aquilo de 
opresso. Fui ficando cada vez mais introspectivo, mais calado, apenas 
esperando. O que, eu no sabia, eu apenas esperava...
Isabela voltou para a sala, sentou-se no sof. Eu fui atrs 
novamente... mas o ambiente daquela sala... estava indescritvel! Assim 
que adentrei nela parecia que me enfiava dentro de um freezer. 
Caminhei at a cadeira de balano e me acomodei ali. Perguntei apenas 
por perguntar:
 Est frio aqui?
 No.
Tornei a me calar.
Agora j no era somente a sensao da presena dele, eu sentia 
aquele campo energtico fortssimo ao meu redor... e frio, frio, frio, cada 
vez mais frio. Somente ento percebi que no era a sala que estava fria, 
era realmente Abraxas tirando minha energia de superfcie, sugando o 
meu biocampo, arrancando calor do meu corpo. Uma sensao 
semelhante quela de antes de uma canalizao (Leia Filho do Fogo). 
S que mais intensa.
"Mas Abraxas no pode me canalizar mais", pensei, meio voando.
E continuei  espera. Eu j nem sabia o que Isabela estava 
falando, nem conseguia escutar mais nada. Perdi a noo do espao. 
Meu corpo tremia involuntariamente de vez em quando.
Ele no parava mais. Continuava fazendo aquilo, simplesmente 
no parava. Ento comecei a sentir o meu corpo enfraquecer. Minha 
mente comeou a ficar ainda mais longe. Agora eu sabia que Abraxas 
estava tambm roubando minha energia vital porque eu sentia as pernas 
ficando dormentes, os braos tambm, os lbios formigavam.
Ele ia tirar minha energia vital at que meu corao parasse de 
bater. Seria essa a soluo para mim?
"Eu vou pro Cu e meus problemas acabam....."
 Eduardo?  de repente ouvi a voz de Isabela.  Eduardo? T 
tudo bem?!
 H...?  eu percebi que estremecia de frio, estava com o corpo 
semi-inclinado para frente na inteno de me aquecer.
 Voc est bem?
O tom de voz dela ainda no era dos mais cordiais. Ela no podia 
adivinhar o que estava acontecendo. Eu no queria ter que falar nada, 
falar o que estava acontecendo... no conseguiria falar... sentia uma 
enorme fraqueza, o corpo pesado, dormente... um sono forte. Mal 
conseguia abrir os olhos.
Tive a impresso de que ele continuaria me sugando at que meu 
corpo e mente desfalecessem, e meu corao silenciasse. Ento, por 
algum motivo, vinda no sei de onde... aquela certeza...
"Abraxas vai me matar......"
Ento me arrisquei a falar, fiz fora e balbuciei:
 Acho que precisamos orar... agora. Senti Isabela mudar de 
atitude na mesma hora. E inquiriu rapidamente:
 Mas o que foi?
Eu no tinha condio de explicar nada, o tempo todo apenas 
cruzava fortemente os braos sobre mim mesmo, tentava me aquecer, 
estremecia e meus olhos queriam permanecer fechados. No tinha 
foras para mais nada. Consegui falar novamente:
 No pergunta nada agora... s faz o que estou te pedindo. 
Vamos orar um pouco.
Ento perdi a noo de tudo.
No sei mais dizer exatamente o que aconteceu. Para Isabela, 
aquele foi um dos momentos mais difceis at ento. Ela ainda demorou 
alguns segundos sem saber o que fazer. A sua alma estava em 
polvorosa, as emoes em turbilho, a tristeza gritando no corao, a 
mente cansada, frustrada, decepcionada... e eu lhe pedia para 
simplesmente esquecer de tudo isso, tudo o que era natural de se 
sentir... e orarV. Partir imediatamente para o espiritual?!!
Tarefa rdua. Muito difcil! Ela curvou a cabea e fechou os olhos. 
Mais alguns segundos de silncio. Ento eu acho que a ouvi dizer:
 No consigo orar....  revelou.  No consigo! Voc no quer 
comear desta vez?
J  nem sabia por que ela estava dizendo aquilo.
 H?...No...  eu s sentia aquela sensao desesperadora, 
lancinante.  Comea voc.
Isabela suspirou fundo. Foi difcil, mas ela comeou.
 Pai... nos d fora agora..... aquilo foi uma splica. Sua voz 
estava amarga.
Procurou buscar dentro de si toda a coragem necessria, inspirou 
profundamente buscando ar como se ele pudesse aumentar sua fora. 
Eu j no ouvia mais nada. No sei o que ela falou.
 Pai... perdoa a nossa insensatez, nossa atitude... por favor... 
nos ajuda agora... precisamos de Ti!
Ela orava mais para si mesma do que para mim. Orava 
lentamente, baixo. Recordo-me que no conseguia acompanh-la, volta 
e meia minha mente sumia. Ela lutou sozinha naquele momento, mesmo 
sem saber. Eu s tive foras para pedir socorro, no para lutar. Quem 
lutou foi ela. Eu sentia um sono... e um tremendo cansao.
"Que sono!..."
 Cerca a gente com Tua proteo... com Teu cerco de anjos... 
com Tuas muralhas de fogo. Precisamos de Ti, meu Deus, como 
precisamos de Ti! Desfaz as armadilhas do inimigo contra ns  ela 
orava sem saber exatamente o que acontecia.  Tem sido to duro, meu 
Pai!
Isabela deve ter olhado para mim e achado que eu no estava 
bem, pois indagou aps orar um pouco mais:
 Voc t sentindo alguma coisa?  sua voz soou assustada.
Eu continuava encolhido, de olhos fechados, e quando ela falava 
comigo parece que isso me ajudava a sair do torpor.
 Continua orando... continua orando...
Nessa altura Isabela j estava certa de que havia algo ao nosso 
redor, embora no pudesse sentir por si mesma. Mas confiava muito no 
Dom que eu tinha recebido do Senhor. Ela sabia que eu estava captando 
alguma coisa espiritual, sofrendo as conseqncias de algum ataque.
Ento comeou a orar com mais intensidade buscando a proteo 
de Deus.
 Senhor... todo demnio, toda a fora do mal que est aqui... 
manda embora, em nome de Jesus. Senhor, protege com o Teu Sangue 
o Teu filho. Ns resistimos a toda ao do inimigo! Cobre o seu corao, 
os seus pulmes, cada clula desse corpo com o Sangue do Cordeiro. 
Cobre toda essa musculatura! Protege Teu filho de toda a investida do 
Mal!
Eu no escutei nem uma palavra dessa orao, mas em dado 
momento percebi que ela se ergueu de onde estava, e acho que 
caminhou at a outra sala sem parar de orar:
 Para isso se manifestou o Filho de Deus... para destruir as 
obras do diabo!
Ela continuava orando, baixinho; depois orava em lnguas, sempre 
baixinho. Eu at tentava concordar com ela, mas s consegui pescar 
uma palavra ou outra. Parece que escutei Isabela folhear algo. Depois 
voltei a me dispersar. Mas ela orava a Palavra, com deciso, embora eu 
no escutasse nada.
 Te invocamos, Senhor Deus, e seremos salvos dos nossos 
inimigos. Gritamos por socorro a Ti, ouve nossa voz, ouve nosso clamor. 
Faz a terra se abalar e tremer, por causa da Tua indignao. Que saia 
fumaa das Tuas narinas, saia fogo devorador da Tua boca, agora, eu te 
peo! Saiam brasas ardentes... destri nossos inimigos!... Troveja, 
Senhor! Troveja, Altssimo! Levanta a Tua Voz contra eles, Senhor dos 
Exrcitos! Dispara Tuas setas e espalha nossos inimigos, desbarata-os.
Comecei a sentir alvio  medida que ela orava declarando a 
Palavra. Minha mente parece que desanuviou. O frio intenso e a 
opresso foram diminuindo, os tremores foram cessando, a dormncia foi 
sumindo. Menos nas pernas.
Isabela parece que percebeu que sua orao estava fazendo 
efeito. Ao todo, ela no precisou orar mais do que cinco minutos. A 
Potestade que estivera ali, fosse Abraxas ou outro qualquer, e que me 
atacara fisicamente, parecia ter ido embora. O ar estava leve!
Mesmo assim Isabela ainda orou um pouco mais, declarando 
trechos de agradecimento e adorao:
 Ns te amamos, Senhor, pois Tu s nossa fora. Nossa rocha, 
nossa cidadela, nosso libertador. Tu s o nosso Deus, o rochedo onde 
podemos encontrar refgio. Nosso escudo, a fora da nossa salvao, 
nosso baluarte! Obrigada, Deus, por tua interveno hoje. Tu s digno de 
ser louvado, fomos salvos de nossos inimigos nessa noite... obrigada, 
Pai... amm!
 Amm....  respondi tambm. Ento olhei para ela. Ela olhava 
para mim com ar desconfiado.
 Voc t bem?
Eu estava bem porque Abraxas tinha sado dali. Estava bem 
porque Deus respondera com presteza nossa orao. Mas a nossa 
negligncia e demora em nos posicionarmos no Reino Espiritual fez com 
que colhssemos muitas conseqncias naquele dia. Essa era to 
somente a ltima delas.
Tentei me movimentar na cadeira... e nada! Minhas pernas 
estavam paralisadas.
 Estou bem  falei. Era melhor esperar um pouco. Talvez 
passasse logo. "Ou... ser?..." Fiquei nervoso. Teria ele causado alguma 
leso mais sria??!
Isabela continuava me olhando, me analisando, em silncio. Com 
que cara eu estaria? Atordoado? Atnito? Assustado? Ou talvez no 
fosse nada disso, talvez fosse apenas a sua extrema sensibilidade.
 Voc tem certeza, Nen? Quer orar um pouco mais?
 No precisa. Deus j ouviu.
 Mas o que voc est sentindo?  ela continuava a insistir. Eu 
no queria dizer que minhas pernas estavam insensveis e 
completamente imveis. Isabela iria assustar-se  toa. "Logo j deve 
melhorar..." Como ela continuasse a me observar com ar preocupado, 
tentei dar um jeito de distrair sua ateno. Tinha que ver como estavam 
minhas pernas sem que ela percebesse.
 Me traz um copo de gua?  pedi.  Gelada!  T.
"timo!"
Assim que ela saiu um pouco da sala eu tentei mudar rapidamente 
de lugar.
Queria sair da cadeira de balano e deitar no sof, pois me sentia 
muito cansado.
Alm disso, deitado ficava mais fcil disfarar o problema. 
Precisava pesar o prejuzo sem que ela notasse. Mas a verdade  que eu 
no conseguia me levantar.
"No  possvel eu estar assim...", pensei comigo mesmo 
enquanto ouvia Isabela abrindo a geladeira na cozinha.
"Eu preciso conseguir levantar... preciso me mexer....!"
No desespero, consegui me jogar da cadeira de balano para o 
cho e fui me arrastando at o sof. Isabela fez que demorou, de 
propsito. Enquanto eu arrastava e puxava minhas pernas com as mos, 
pois no me obedeciam, ela espiava no cantinho da parede. Logo veio 
ao meu encontro com o semblante muito assustado. Ajoelhou-se ao meu 
lado, a meio caminho entre a cadeira e o sof. Largou o copo no cho:
 Eduardo... que  isso?! Voc no t conseguindo se mexer?!?
Meus ps jaziam cados ao meu lado, ento eu os arrumei com as 
mos para deix-los em posio mais normal. Procurei tranqiliz-la:
 Calma, t tudo bem. J vai passar.  assim mesmo.
 Mas, como " assim mesmo"? Voc no t bem, meu Deus do 
cu... voc no t bem!
 T, eu t, sim. Vai passar!
Ficamos sentados no cho lado a lado. Isabela estava aflita 
comigo, assustada com o ocorrido, com o Poder demonstrado pelo 
inimigo, que ela no conhecia.
Mas no tinha perdido a cabea, era uma aflio controlada. A 
bem da verdade, nunca vi Isabela em pnico, desesperada. Isso era 
bom. Ela s se descontrolava de verdade quando brigava comigo! 
Estiquei o brao para alcanar a gua, esquecida no cho. Isabela 
alcanou antes e estendeu-a para mim. Bebi. Ela continuava esperando 
uma explicao para aquilo. Fui explicando que quando demnios fortes 
como Principados e Potestades se aproximam dos seres humanos, 
precisam roubar parte da sua energia de superfcie porque eles prprios 
tm um fortssimo campo eletromagntico. Para que no haja 
interferncia na aproximao, e os demnios possam canalizar o filho do 
fogo,  preciso que o biocampo humano seja enfraquecido. Por isso 
aquela sensao de frio!
Mas naquela noite a inteno de Abraxas no era simplesmente 
me "canalizar".
Ele queria sugar-me at a morte.
 Ele no tirou somente a minha energia de superfcie, ele estava 
arrancando tambm a minha energia vital... e quando ela  retirada em 
excesso o corpo fica assim, sem foras, mole, no responde a comandos 
motores. Mas depois passa.
 Oh, meu Deus, Eduardo... por que voc no pediu para orar 
antes?
 No tinha clima. Depois... no achei que ele fosse me fazer mal! 
Isabela suspirou, desta vez atordoada.
 Pxa, Nen... como no achou?
Estvamos exaustos. Ficamos ali lado a lado, oramos um pouco 
mais, pedimos a restaurao fsica, emocional e espiritual. Desta vez 
consegui orar.
Aos poucos comecei a recuperar os movimentos, comecei a ter 
novamente sensibilidade nas pernas, passou a dormncia. Graas a 
Deus!
 Quer tentar sentar no sof?  perguntou ela.
 Quero... bom... resta saber se consigo... Isabela tinha no rosto 
um ar de desalento, seus olhos estavam tristes e
preocupados.
 Vamos... eu te ajudo.
Com a ajuda dela eu consegui erguer-me e sentei no sof. Depois 
deitei. Que esgotamento!
Isabela acomodou minha cabea em seu colo, comeou a fazer 
cafunzinho, em silncio. Adormeci.
No sei como Dona Mrcia no notava essas coisas, como a gente 
conseguia passar com todos aqueles problemas despercebidos. A 
verdade  que ela estava assistindo TV no seu quarto e, naquela hora da 
noite, estava bem mais entretida com o filme do que conosco. Mesmo 
porque, para todos os efeitos, eu j tinha ido embora de velho! Coitada...! 
Era melhor assim. Ns dois realmente vamos nisso que Deus a 
poupava.
L pelas tantas acordei com Isabela me chamando:
 Vem deitar na cama do Marco, Nen.
 Hum? Hum...? No, eu vou pra casa. J estou bem. Isabela 
falava baixinho, e eu estava grogue. Ela nem discutia:
 Vem. J falei com minha me, t tudo certo. Vem dormir direito, 
na cama. Aqui t ruim pra voc.
A ltima coisa que eu queria era incomodar. Minha voz saa mais 
mole que maria-mole.
 Avisou sua me...? Tudo bem? Isabela me puxava pelos 
braos, devagar.
 Tudo, tudo bem. Vem, Nen. Eu te ajudo.
Nessa hora percebi que minhas pernas, embora bambas e muito 
cansadas, j me obedeciam. Mas eu me sentia como se pesasse 
duzentos quilos. Isabela me ajudou e cheguei ao quarto do Marco 
apoiando-me nela e nas paredes.
Desabei na cama. Acho que Isabela deve ter tirado meus sapatos, 
porque despertei sem eles. Mas eu no me recordo. Dormi a noite toda 
sem acordar.
* * * *
Minhas pernas voltaram ao normal embora eu tenha ficado com 
uma tnue dor durante um dia. Parecia dor muscular, como aquela que 
d depois de muito exerccio fsico. Alm de uma ligeira fraqueza. Mas 
tudo passou em um dia. Dois dias depois foi meu aniversrio, que 
transcorreu sem incidentes. Isabela e eu ficamos um pouco perturbados 
depois, pensando naquilo. Por que Deus permitia que os demnios se 
aproximassem tanto? Chegassem to perto? A gente no tinha 
entendido ainda o conceito das brechas... a culpa no era de Deus... era 
nossa! Com as nossas prprias mos abramos a porta para os 
demnios. Ns estvamos procurando nos acertar... sim, isso era fato, 
mas havia brechas! E a gente no conseguia entender por que tudo 
aquilo acontecia conosco. Mas onde h brechas... os demnios podem 
se aproximar. O futuro nos mostraria que, mesmo mnimas, os demnios 
conseguem perceber e utilizar tais brechas. No haveria nenhuma 
possibilidade de acerto sem viver essas terrveis situaes. Mas 
demoramos muito a aprender, demoramos a compreender o mecanismo 
daqueles ataques.
Segundo Marlon, agora as coisas iam esquentar para valer. E, 
tambm segundo ele, ningum ficaria ao nosso lado.
S nos restava esperar.
Isabela conversou comigo depois sobre aquela sensao estranha 
que tive, de no temer a aproximao de Abraxas, no conseguir 
enxerg-lo como um inimigo. Realmente minha mente deveria estar 
ainda cauterizada, pois eu no via os demnios como meus adversrios. 
Reais adversrios! E Isabela parecia tremendamente desconfortvel com 
aquela minha maneira de pensar.
 Eduardo, eles so seus inimigos! Querem a sua morte, sua 
destruio. Se voc pressente uma opresso, voc tem que sinalizar, e 
ns temos que orar. Me promete, vai, que voc no vai mais agir assim, 
Nen?
 Eu sei, entendo o que voc est falando.  que eu no 
imaginava que ele fosse me fazer mal, imaginava que ele estava... s ali.
Isabela meneava a cabea.
 Os demnios nunca vo estar "s ali", n, Eduardo? Se Deus te 
mostra a presena deles, est na realidade mostrando o mal que eles 
querem fazer contra voc, contra mim. Viu a que ponto chegou ontem  
noite?
 Eu sei. Foi uma coisa nova para mim tambm.  que, s pelo 
fato de eu pressentir um demnio, no imaginei que tinha que mandar 
uma chuva de fogo em cima dele, entende? Eu sei que isso est errado, 
eu sou filho de Deus e por isso eles me odeiam. Mas  que eu conheci o 
outro lado... na minha alma ainda lembro de Abraxas como o meu Guia, 
meu Guardio. Mas hoje eu tive certeza de que realmente ele me odeia, 
assim como toda a Irmandade! Comeou um novo tempo...
Isabela compreendeu.
 Entendi... eu posso te entender. Mas voc no pode mais ver o 
Reino Espiritual com olhos humanos, com olhos da alma. Se um 
demnio se aproxima de voc, nunca  por acaso, nunca ele vai deixar 
de agir. E sempre que fizer isso vai ser querendo teu mal! Essa  a 
verdadeira natureza deles: m! Aquela natureza "bondosa", "amiga" era 
totalmente falsa. Voc precisa se desvincular totalmente disso! Eles so 
seus inimigos... eles chegam perto... e voc se defende! Entendeu? No 
fique achando que existe neles coisa alguma boa.
 Eu sei. Sei disso perfeitamente. Sei porque a Bblia diz. Incrvel 
como eu agia mesmo pelas minhas emoes.
Depois disso Isabela entregou-me para Grace. No dia seguinte ao 
meu aniversrio ns tnhamos uma Ministrao agendada, e Isabela 
colocou aquele meu sentimento no rol de aspectos a serem ministrados.
 Compreendo  disse ela.   preciso haver um desligamento 
de almas a. O desligamento espiritual j aconteceu, mas h marcas que 
foram deixadas na alma... nas emoes.
A gente entendia isso meio que intuitivamente. Vou tentar explicar.
Quando existe envolvimento com as Trevas, mais especificamente 
com um demnio qualquer, existem basicamente dois tipos de seqelas. 
A primeira  puramente espiritual. Em se tratando de Abraxas, eram 
vrias as conseqncias espirituais decorrentes do meu envolvimento 
com ele: o fato dele poder me canalizar quando quisesse, poder 
manipular o meu corpo, a minha mente, falar comigo, me dar poderes 
sobrenaturais, etc. .. (Leia Filho do Fogo).
A segunda conseqncia  fruto da primeira, mas muito mais sutil, 
e envolve a alma. Minha alma, indiretamente, tambm ficou marcada por 
Abraxas: minhas emoes foram tocadas, minha vontade, meu 
intelecto... e essas marcas s vezes perduram por muito mais tempo do 
que as primeiras.
As conseqncias espirituais de certa forma j tinham sido 
tratadas no exato momento em que me converti, e depois durante as 
Ministraes tambm. Abraxas j no podia me canalizar, no podia 
manipular meu corpo; e os Poderes que eu tinha, deixei de ter.
Mas as marcas que ele deixou na minha alma ainda podiam ser 
manipuladas, de alguma maneira. Ele ainda podia interferir na minha 
vontade, nos meus sentimentos, na minha mente.
Isso ficou claro depois daquele ltimo episdio. Obviamente que 
eu no agi de uma forma espiritual sadia naquela situao, mas de uma 
maneira puramente emocional, fruto de uma contaminao nas minhas 
emoes. Quer dizer, em algum lugar obscuro da minha alma eu ainda 
enxergava Abraxas como um amigo, e isso foi mais forte do que qualquer 
outra impresso naquele momento crtico.
Isso  mais ou menos o que acontece quando um casal se separa, 
por exemplo. O relacionamento de um casal  intenso, portanto quando 
acontece a separao  como se cada um levasse consigo uma parte da 
alma do outro. No literalmente, mas cada um carrega consigo as 
influncias que sofreu durante a convivncia com o outro. Se uma mulher 
conviveu com um marido violento, durante muito tempo ela pode ter 
medo de brigas tolas com qualquer outro homem. Isso  uma marca que 
ficou na alma dela como fruto daquele relacionamento!
Mesmo os dois tendo-se separado fisicamente, terem deixado de 
ser uma s carne, durante muito tempo, ou at mesmo pelo resto da 
vida, em algum momento vo manifestar as influncias que receberam 
na alma.
Meu relacionamento com Abraxas tinha sido to profundo quanto 
um casamento. Ns tnhamos uma aliana de sangue um com o outro!
Grace explicava melhor o "desligamento de almas" usando um 
exemplo simples: ela costumava mostrar duas folhas de papel, de cores 
diferentes, coladas uma na outra.
 Veja s: a folha verde  o homem, a amarela  a mulher. Se 
este relacionamento acaba, e eles se separam...  Grace puxou as duas 
folhas. Elas descolaram, mas parte de uma ficou na outra, e vice-versa. 
 Percebem? Esse pedao aqui, amarelo, no faz parte da folha verde. 
Mas ficou grudado nela! E um pedao da verde ficou grudado na 
amarela.  mais ou menos isso o que acontece depois de envolvimentos 
profundos com pessoas, ou at mesmo Entidades Espirituais. E preciso 
pedir perdo e orar a Deus pela restituio de cada coisa ao seu lugar.
Aquele episdio fez com que eu comeasse a perceber o quanto 
minha alma tinha sido afetada por Abraxas... talvez aquela minha reao 
fosse apenas a ponta de um iceberg.
Compreendi melhor aquele tpico da Ministrao, o "desligamento 
de alma", como sendo algo importante. Eu j conhecia Grace o suficiente 
para saber que esse termo era apenas uma questo de nomenclatura. 
Mas, em ltima anlise, no deixava de ser uma parte perifrica da Cura 
Interior. Que visava sanar feridas no mais espirituais, mas emocionais, 
resultantes do meu envolvimento com Abraxas.
 O fato de Daniel ter tido dificuldade em expulsar Abraxas, foi 
porque alguma coisa de Abraxas ficou com ele: lembranas, palavras, 
acontecimentos, promessas...  continuou explicando Grace.  Parte 
da personalidade de Abraxas ficou impregnada no Daniel, e isso o 
paralisou naquele momento crucial. Mas agora vai ser diferente! Deus vai 
tratar desta ferida emocional. E quando Daniel estiver curado, vai 
conseguir olhar para o Reino das Trevas com outros olhos. Sob um novo 
prisma.
Ricardo estava chegando, desta vez no horrio.
Naquela tarde comeamos ento exatamente por a, pelos 
"desligamentos de alma".
 Eduardo, comece pedindo perdo pelo seu envolvimento com 
Abraxas. Voc j renunciou  aliana espiritual em outras Ministraes, 
mas agora renuncie toda conversa, toda orientao, toda promessa, todo 
Encantamento do qual ele participou com voc e atravs de voc.
 Tinha tambm aquele Rito de Celebrao, logo no comeo, que 
era feito especialmente para entrar em simbiose com Abraxas...  
lembrou Isabela 
Eu orei enquanto os demais intercediam em concordncia. Depois 
Grace continuou:
 Olhe agora para Ricardo e repita comigo: Senhor Deus, entrego 
todos estes pecados diante de Teu Altar, todos os pecados que cometi 
ao me envolver com Abraxas, ao permitir que ele tivesse aliana comigo, 
e usasse meu corpo. Peo que o Senhor passe Teu Fogo em todos eles. 
E agora, em nome de Jesus, eu me desligo emocionalmente de Abraxas. 
Tudo o que  meu, e ficou com ele, tudo que faz parte da minha alma, e 
ficou impregnada nele, eu trago de volta para mim. E tudo que  dele, 
mas ficou em mim, eu devolvo a ele! Declaro que estamos totalmente 
separados emocionalmente pelo Sangue de Cristo. Eu me limpo, limpo a 
minha alma de toda a contaminao de Abraxas. Amm!
Pode parecer curioso orar neste sentido em relao a um ser 
espiritual. Porm o relacionamento de todo Satanista com os seus Guias 
 estreito demais.
 Seria bom fazer o desligamento de almas tambm com Marlon 
e Thalya. Eles foram importantes para o Eduardo...  lembrou 
novamente Isabela.
Embora j tivssemos orado pelo desvinculamento de toda 
aliana, esta era uma outra etapa. A quebra das alianas destri um elo 
espiritual. O desligamento de almas pressupe elos emocionais. E no 
meu caso, meu relacionamento com Marlon, quase como o de um filho 
com um pai, tambm merecia ser tratado desta maneira especial. Com 
Thalya, conforme explicou Grace, a questo era mais sexual.
 Faa o desligamento de alma com Thalya, mas aproveite para 
renunciar tambm a todo relacionamento sexual que voc tenha tido com 
outra mulher. Sempre que existe envolvimento sexual  mais delicado. 
Quando acontece a separao, a alma fica muito ferida. Daniel, pode 
orar agora, do mesmo jeito, primeiro pedindo perdo. Depois, vamos 
devolver a alma deles que est em voc, e pegar de volta a sua que ficou 
com eles.
Feito isso, repetia a orao de Grace para consolidar o 
desligamento de alma. O prximo passo foi orar entregando Camila e 
outras moas com que tive relacionamento "prximo" do sexual. Fiquei 
meio envergonhado de fazer aquilo, dar nomes e tudo mais.
No entanto ningum parecia estar me julgando, nem Isabela, que 
continuava em orao. Todos mantinham a seriedade que o momento 
requeria e aquilo me aliviou!
A Ministrao foi fluindo. Ponto a ponto, etapa por etapa, tudo que 
me parecia relevante eu ia compartilhando. E Grace anotava o que 
deveria ser orado depois.
Deus foi bom comigo. Eu tinha conscincia de estar como que 
coberto por tiras de pano sujo, como Lzaro. O trabalho de Grace era ir 
tirando, uma a uma, todas estas tiras. Comeando das mais externas, as 
mais evidentes, as mais grossas, as maiores. Depois viriam as menores. 
Depois at aquilo que eu no tinha nem conscincia.
Quando a Ministrao acabava eu saa mais leve, mais contente... 
agora estava completamente livre! Mas ento, em poucos dias vinham 
novas lembranas. Ou ento, eram os acontecimentos do dia-a-dia, as 
minhas reaes, certos tipos de pensamentos repetitivos que traziam  
tona novos pontos a serem ministrados. Quase cem por cento das vezes 
era Isabela que percebia estes padres de comportamento "defeituosos".
Era como se Deus estivesse me "descascando", como uma 
cebola. Tirando pele por pele. s vezes sangrava. s vezes, por baixo de 
uma pelcula aparentemente inocente havia uma grande e terrvel ferida 
infectada. To dolorosa que somente a Mo do Esprito Santo, atravs 
de Grace, poderia tocar ali. Feridas que se mostravam surpreendentes 
at mesmo para mim, eu nem imaginava que as possua!
Fui percebendo que as camadas internas nunca seriam tratadas se 
eu no tivesse primeiro tratado as externas. Era um processo lento... em 
Sua Sabedoria o Senhor foi fazendo parte a parte, momento a momento, 
lembrana a lembrana. Quando imaginava que tinha acabado, percebia 
que ainda existia algo mais. E depois... algo mais. E depois... ainda algo 
mais!
As lembranas no vieram todas de uma vez, nem seria possvel 
uma coisa dessas. Mas  medida que me submetia ao processo, muitas 
vezes com urros de dor e lamento, eu ia mergulhando em mim mesmo. E 
tudo aquilo resultava em cura para mim.
Hoje eu sei que, sem as Ministraes, eu no poderia abraar o 
chamado que Deus tinha feito. Nunca estaria pronto para ser usado por 
Ele sem ter passado por aquilo. O soldado nunca  enviado ao front de 
guerra ferido. Primeiro ele  tratado... depois treinado... depois enviado.
Mais tarde eu e Isabela fomos compreender por que Deus dissera 
que o Ministrio comeava na segunda quinzena de fevereiro. Seria um 
tempo em que nossos inimigos arrochariam a perseguio, e da 
tiraramos o nosso treinamento. Alm do que, o processo de Libertao e 
Cura na minha vida continuaria, agora em outro nvel. Um nvel j mais 
profundo.
* * * *
Realmente foi necessrio. Deus fez literalmente milagres de 
transformao em minha vida. Milagres que no seriam concretizados 
sem aquelas horas e horas de orao, arrependimento e renncia, em 
companhia de servos de Deus.
Quantas amarras eu tinha em mim, quantas! Quantas lacunas, 
quantas portas abertas, fruto de meu envolvimento com a Irmandade.
Todo pecado no confessado: uma porta, uma janela aberta... uma 
brecha para o inimigo.
Naturalmente a transformao no vem do dia para a noite. O 
processo de santificao pode durar toda uma vida. A Bblia diz que "as 
coisas velhas se passaram e tudo se fez novo"!
Isso  um fato. Mas s vezes no acontece num piscar de olhos.
Uma vez convertido, h um tempo de se "desvestir" das roupas 
velhas. Isto  as roupas da mentira, falta de honra, orgulho, idolatria, 
avareza, etc. .. etc. Algum que se converte no deixa de lado toda a 
prtica pecaminosa de imediato. Claro, h coisas que so instantneas, 
com todo novo convertido. Outras vo vindo aos poucos, na medida em 
que percebemos o pecado, nos arrependemos dele, e o deixamos. Nem 
sempre deixar o pecado  fcil, pois a carne grita e fala alto. "O bem que 
queremos fazer, nem sempre fazemos... mas o mal que no queremos, 
ah, este sim o fazemos"! No  assim?
Comigo no foi diferente. Muita coisa mudou da gua para o vinho 
no momento em que me converti. Mas depois disso, aos poucos eu teria 
que desvestir cada pea de roupa de Satanista, at estar nu de tudo 
aquilo. E ento eu me vestiria das roupas do Cristo.  um processo de 
uma vida toda. Mas creio que Deus tinha pressa conosco. Ele queria que 
nos alinhssemos o quanto antes.
No foi fcil me desvestir. Foi terrivelmente doloroso. No foi fcil 
me vestir com roupas novas.
s vezes eu me contentava em saber que tinha abandonado o 
Satanismo, isso deveria ser suficiente. Na minha mente, no meu 
inconsciente era mesmo. Aos poucos fui vendo que somente isso no 
era suficiente. Eu tinha que ser transformado  imagem de Cristo, 
transformado num verdadeiro Cristo.
As lutas que estvamos vivendo tinham, certamente, esse objetivo. 
Lapidar a mim e a Isabela.
Depois que terminamos a Ministrao daquela tarde e j Grace ia 
orar para "limpar" a sala, Ricardo interrompeu.
 S mais uma coisa, Grace. Quando orei por ele desta ltima vez 
o Senhor me mostrou uma lana atravessando o corao e o pulmo 
dele.
 Vamos tirar ento!  fez Grace em resposta.
Ns j estvamos, de certa forma, acostumados com a linguagem 
simblica das vises. Deus mostrava um ataque de morte, revelava a 
inteno do inimigo. Em suma: nada de novo!...
Cabia a ns orar, contra-atacar, resistir, defender-nos no Reino do 
Esprito.
O mais interessante  que trs dias antes, durante o ataque de 
Abraxas, Isabela orou especificamente cobrindo meu sistema respiratrio 
e meu corao. E tambm minha musculatura, que foi afetada na hora.
 Senhor, em nome de Jesus, tiramos esta lana agora do Teu 
filho!  orou Grace, e fez o movimento de puxar dali aquela arma.  E 
todo intento do inimigo ns destrumos, e proibimos Satans e seus 
demnios de tocar em Daniel. Toda armadilha, todo Encantamento, todo 
Feitio e retaliao ns can-ce-la-mos, em nome de Teu Filho Jesus 
Cristo de Nazar!
Eu orei junto, de olhos fechados, compenetrado. Senti que Grace 
ungiu meu corao e tambm minhas costas, na altura dos pulmes. 
Ungiu-me a cabea, pediu proteo sobre mim.
Quando ia fazer o mesmo por Isabela, Ricardo interveio 
novamente:  Eu vi voc  falou para Isabela.  Voc estava com um 
escudo na mo, sabe? Um escudo desses de exrcito antigo, exrcito 
romano, no sei. E eu via voc. Virando este escudo para um lado, 
depois para outro. s vezes voc quase caa, mas logo se erguia, e 
continuava na defensiva, com o escudo na mo. Para todo o lado!
Grace olhava para Isabela:
 Mas que bom isso! Isso  tua orao intercessria por Daniel, e 
por voc mesma.
 Eu nem oro muito por mim. Oro mais por ele, e com ele.
 Mas o problema, Grace,  que eu a via muito cansada. Muito 
cansada.  ... na verdade vocs dois precisam de intercessores. Quem 
ora por vocs? Eu e Isabela nos entreolhamos.
 Bom...  comecei.  At agora, s temos Dona Clara. E voc, 
Grace. No consigo me fazer entender na minha Igreja.
 . Ns j tentamos, mas no parece que tenha dado resultado.
Grace escutou um pouco mais. Ento ela mesma orou para que as 
barreiras colocadas entre ns e a liderana de nossa Igreja cassem e os 
propsitos de Deus fossem alcanados.
 Vou falar com seu Pastor! Agradecemos. Nos despedimos.
Mais adiante, depois de eu j ter sido bem "descascado", Deus 
comearia a tratar as feridas de Isabela. Ento o processo continuaria 
para os dois. Naturalmente ns no sabamos disso ainda.
As minhas ltimas Ministraes seriam marcadas no muito depois 
desta data.
Pelo menos, todos ns achvamos que eram as ltimas! Inclusive 
Grace. Tudo que era possvel ser feito naquele primeiro momento j tinha 
sido feito. J se tinham passado pouco mais de quinze meses desde a 
primeira Ministrao; foram cerca de dez longos encontros, e a metade 
deles nos primeiros doze meses. Eu relatara todo meu envolvimento, 
tudo quanto eu me recordava tinha sido colocado para fora. Pelo menos 
aquilo que eu julgava menos comprometedor. Algumas coisas 
simplesmente omiti.
Mas, como j mencionei, Deus estava apenas mudando de fase, 
mudando de nvel. Como ns viramos a perceber, haveria muito a 
ministrar ainda. Haveria muitos "algo mais"!...
Mas estes somente viriam  tona em cerca de um ano, um ano e 
pouco. Eu e Isabela samos abraados na noite quente, resolvemos 
comer esfiha  no Habib's, pois era mais barato. Nosso dinheiro estava no 
fim. Estvamos alegres por mais uma etapa da Ministrao ter sido 
completada.
Por outro lado, s vezes a gente se lembrava da nossa conta 
aplicao e dos sonhos que tinham ido por gua abaixo.
Grace havia perguntado logo no incio da Ministrao.
 Tem alguma notcia?
 Nada, Grace. O gerente do banco no achou qualquer registro. 
Para todos os efeitos, essa conta nunca existiu.
Quando Ricardo ficou sabendo, seu semblante se encheu de 
fascinao. Ele se esqueceu que por trs daquela situao estavam dois 
seres humanos, eu e Isabela.
  Nossa!  dissera ele.  Mas que Poder indescritvel. Como 
eles se fortaleceram! A que ponto podem chegar!
Fiquei escutando. Mas Isabela, apesar de ter Ricardo em alta 
conta por causa do seu Dom de Discernimento, no conseguiu. Logo deu 
um jeito de ir beber gua, ir ao banheiro.
 Puxa... comentou ela depois.  S falta ele bater palma 
como criana, como quem assistiu "mgica". Que falta de empatia! Que 
falta de bom senso!
Dei um muxoxo.
 . Ele nem ligou para a gente. Mas no fez por mal...  que 
nunca viu nenhuma atuao demonaca superior. E para ele, n, que lida 
com isso deve ser muito interessante!
 Interessante!  Isabela estava exasperada. S porque ele est 
na cadeira de espectador. Vem participar do filme para ver se  gostoso!
Comemos nossas esfihas comentando a Ministrao. Mas depois 
nossa satisfao foi sendo progressivamente substituda por 
preocupaes financeiras.
 Amanh acabar todo meu dinheiro. Precisamos fazer umas 
contas para ver se o seu salrio cobre nossas despesas. Temos que 
pagar o carro, e tambm os cartes de crdito. Tenho que pagar as 
contas de casa. Tem que sobrar um dinheiro para passar o ms...
 Quando ser que vai dar para a gente comear a juntar de 
novo?  indagou Isabela com tristeza.
Por vezes era ela quem ficava abatida com a situao, e a 
chorava um pouco. E ento eu que fazia as vezes de consolador, de 
"forte".
 Sabe de uma coisa?   disse ela depois de enxugar as 
lgrimas.  Ns estamos fazendo algo muito errado em relao  nossa 
rea financeira... ns no estamos dizimando, n, Nen? Eu bem que 
falei.
Realmente eu era meio avesso ao dzimo, ainda influenciado por 
idias subversivas da doutrina Satnica. E nunca dizimava, apesar de 
Isabela ter sugerido que, antes de fazermos o depsito em nossa conta, 
deveramos dar o dzimo do salrio.
Naquela poca desconversei um pouco, pensando em todas as 
falcatruas que lderes fazem com o dinheiro dos fiis, explorando a f, 
tornando-se verdadeiros mercadores da credulidade do povo. 
Profissionais da f! Mas havia concordado em dar o dzimo quando 
sacssemos o dinheiro para comprar nosso apartamento.
 A a gente dizima  eu dissera.
Isabela, por no ter sido membro de Igreja durante muito tempo, 
aprendera pouco sobre o dzimo e a sua importncia. Por isso no 
insistiu muito.
Tivemos que aprender pelo pior caminho como se fecha a boca do 
devorador.
 , Isabela... voc tem razo. Acho que ns erramos mesmo. E 
deixamos a uma rea desguarnecida. Demos uma legalidade. Aquele 
dinheiro era nosso Isaque, nossa "segurana"...
 Pois voc no acha? O nosso dinheiro no tinha proteo 
nenhuma! No adianta orar por isso. O que adianta, de agora em diante, 
 dizimar, ofertar, obedecer. Temos que comear.
Eu assenti. Pensativo e preocupado.
 Eu sei. Por um lado eu sei... por outro... justo agora que a gente 
est com a grana to curta?
 Ah, Eduardo, no vamos mais pensar nisso. Vamos obedecer e 
acabou!
A partir da, nunca mais falhamos nos dzimos. Depois, 
aprendemos a ofertar. Ofertar de verdade, sem mesquinharia. E, num 
futuro prximo veramos que aquele tombo tinha sido necessrio, porque 
nos ensinara a respeitar e a cumprir um princpio espiritual.
* * * *
No dia seguinte saiu o pagamento de Isabela, que foi quase todo 
torrado no pagamento de nossas contas. Usamos tambm R$ 50,00 que 
eu havia ganhado de minha av, de presente de aniversrio, para ajudar 
a pag-las.
Na verdade minha av tinha dado R$ 100,00 na mo de minha 
me para comprar bolo e coisinhas para fazer uma festinha. O resto do 
dinheiro seria meu. Mas minha me comprou um bolo no supermercado 
mais barato, comeram sem mim. Aproveitou para comprar carne, ovos, e 
algumas outras coisas para a casa.
No fim, fiquei sem festinha, e s com R$ 50,00. Eu no fazia conta 
da festa, nunca tive isso na vida. Ningum me esperou, meu irmo 
Otvio  que comeu tudo. E meu presente ficou reduzido pela metade. 
R$ 100,00 reais cairiam bem naquela ocasio. Como pagamos a 
prestao do carro com atraso, houve um acrscimo de R$ 30,00. Os 
juros do cheque especial estourado, "comeram" mais R$ 40,00.
Em uma semana estvamos sem dinheiro. Sobrou o bsico para a 
gasolina e nibus.
 Nossa salvao  a parcela do seguro desemprego! Logo j 
vem outra. Deve sair no fim do ms.
 Mas faltam mais dez dias ainda. O que a gente faz?
 Bom, vamos "esticando" o dinheiro... quem sabe antecipam?  
Eu sabia que aquilo era muito improvvel, mas quem sabe?
Estacionamos o carro perto da Igreja. Eram quase oito horas da 
noite, o Culto de quarta-feira logo comearia.
Entramos na Igreja j nos primeiros acordes do Louvor. No havia 
ainda muita gente, era comum as pessoas se atrasarem um pouco. 
Fomos ao nosso lugar costumeiro, no canto da parede, na primeira fila 
ou na segunda.
Os Cultos de quarta-feira tinham o poder de levantar nosso nimo 
muitas vezes. Era um verdadeiro pronto-socorro no meio da semana.
Naquela noite foi feito um apelo. Um desafio na verdade. Com 
base no texto pregado, "Pedi, e dar-se-vos-".
A pregao tinha me tocado muito, e senti-me encorajado a dar 
aquele passo de f.
"Deus, voc sabe que ns precisamos de dinheiro. Para as 
mnimas coisas. O Senhor sabe disso."
Fiquei em p. Isabela tambm. No sei o que ela pediu. Mas eu 
pedi pela parcela do meu seguro desemprego:
"Faltam ainda quase duas semanas, mas o que temos no vai dar. 
Antecipa a parcela, meu Deus. Antecipa a parcela porque o Senhor sabe 
que eu preciso dela. Este  meu pedido para o Senhor, hoje!"
Samos os dois da Igreja mais aliviados pelo Louvor, pela 
Pregao, pelo consolo do Amor de Deus sobre ns.
Isabela levou-me para casa, depois foi para a casa dela. Telefonou 
para dizer que tinha chegado. Cumprido nosso ritualzinho, bem 
despedidos e acomodados em nossas respectivas casas, voltei a pensar 
no pedido que tinha feito para Deus naquela noite.
* * * *
Captulo 27
No dia seguinte, levantei cheio de expectativa e, muito ansioso, fui 
at a Caixa Econmica. No meu corao eu sabia que Deus deveria ter 
atendido ao meu pedido, e meu dinheiro estaria exatamente l, no banco, 
 minha disposio, esperando por mim!
Levantei e nem tomei banho, como de costume. Vesti qualquer 
roupa e fui trotando at a avenida. Intimamente eu falava para Deus:
"O Senhor sabe que eu preciso. Sabe que est fazendo falta. Eu 
pedi... o Senhor vai me dar porque meu pedido  justo!"
Cheguei ao banco, peguei minha senha e esperei, confiante com a 
expectativa aumentando. Logo chegou minha vez e eu me aproximei do 
caixa correspondente a minha senha.
 Pois no?  fez a moa do caixa.
 Vim pegar minha parcela do seguro desemprego!  eu nem 
cogitei em pedir para verificar se estava l: era claro que estava.
 Voc pode me emprestar seu carto do PIS?
Entreguei-o. Ela digitou no computador. E rapidamente veio a 
resposta:
 Olha,  s no fim do ms, viu?
 S no fim do ms...?  indaguei, frustrado.
 , a sua remessa s vem no fim do ms.
Esperei alguns segundos processando tudo aquilo. Minha reao 
foi rpida e talvez impensada, mas eu me recusava a aceitar que Deus 
recusaria um pedido to justo de minha parte. Afinal, todo nosso dinheiro 
havia sido roubado! Ento falei, com convico:
 Olha, eu no sei qual  a sua crena. Mas eu sou filho do Rei! 
Amanh eu vou voltar aqui, e meu dinheiro vai estar na conta. E voc vai 
ver a Glria de Deus!
Ela me olhou com os olhos meio espantados, esperando qualquer 
reao, menos aquela.
 Oh, sim?  a moa exibia uma expresso um tanto irnica. 
Peguei meu carto do PIS.
 Voc vai ver que Deus vai me atender!  exclamei eu, ainda, 
antes de dar meia volta guardando o carto.
Fui para casa orando. At de forma inconsciente, dialoguei com 
Deus tentando dar as diretrizes a Ele:
"Olha s, Senhor... se o dinheiro estiver l, aquela mulher vai ver 
que eu disse a verdade, que o Senhor  Poderoso mesmo. E vai se 
converter! Se o Senhor agir vai ser um grande testemunho. Talvez at 
mais gente daquele banco se converta.
Talvez o banco vire uma Igreja. Afinal, eu nem estou te pedindo 
muito, s o valor da parcela, s aquele dinheirinho. O Senhor sabe que 
eu preciso. E eu testemunhei no Teu Nome, no deixa Teu Nome ser 
envergonhado!"
E fui falando, argumentando. Eu me convenci com meus 
argumentos, procurei permanecer firme na minha f. E esperava que 
tivesse conseguido convencer tambm a Deus que eu tinha razo. No 
meu corao a petio era genuna, minha orao era sincera. Eu insisti 
com Deus por saber que Ele era Pai, no iria... no poderia me deixar na 
mo.
"Quando o filho pede po, o Pai no d pedra...", murmurei para 
mim mesmo.
Mas eu no percebi que estava barganhando com Deus, 
empenhando o Nome Dele para, de certa forma, coloc-lo contra a 
parede e fazer com que me atendesse.
Naquele dia comentei com Isabela das minhas expectativas, e ela 
foi um pouco mais p no cho. Procurou balizar meus sentidos 
cautelosamente, sem necessariamente me desanimar.
 Se for o propsito de Deus, Ele vai fazer, porque Deus pode 
fazer qualquer coisa. Se no for... Ele d um outro jeito. Eu posso 
tambm pedir emprestado a minha me.
Eu no queria pedir nada emprestado. No respondi nada. Mas 
Deus tinha que fazer algo, tinha que me atender. Naquela altura eu j 
achava que, se o dinheiro estivesse l na sexta-feira, podia ser que o 
banco inteiro se convertesse, olha s!!!
No dia seguinte levantei bem mais cedo. Eu tinha uma entrevista 
de emprego naquele dia, no final da manh, por isso precisava ser o 
primeiro atendido no banco. Alm do que, eu no tinha nem um centavo 
para nada, nem mesmo para pagar o nibus.
"No faz mal... quando pegar o dinheiro acaba este problema."
Fui tomar banho e novamente me enfarpelei todo com terno, 
gravata, perfume, gel no cabelo, tudo o que eu estava acostumado a 
usar normalmente no dia-a-dia. Quando estava empregado.
Desci olhando o relgio, peguei minha pochette  busca de meu 
precioso vasoconstritor nasal. Eu usava aquilo h mais de 20 anos por 
causa da rinite alrgica. J tinha feito vrios tratamentos para tentar me 
livrar da droga, mas nada havia surtido efeito. O jeito era continuar 
usando.
Isabela vivia de cabelo em p por causa daquilo, preocupada com 
o uso crnico do vasoconstritor tpico. Mas nenhum alergista ou otorrino 
tinha dado jeito em mim.
E naquela manh....
"Oh, que azar!!!!"
O frasquinho estava vazio. Acho que tinha usado muito  noite 
sem perceber. Agora aquela catstrofe! O nariz j estava comeando a 
entupir. Quando entupia de verdade eu ficava com dois verdadeiros 
tampes horrveis enfiados no nariz, no passava nem um fio de ar; at 
engolir era difcil, o ouvido tambm se ressentia. Era uma sensao 
medonha, insuportvel. Eu precisava daquele remdio!
"Tudo bem... pego o dinheiro e vou direto para a farmcia. Vai dar 
tudo certo. No posso ir para a entrevista deste jeito."
Joguei algumas gotas de gua dentro do frasquinho do 
vasoconstritor, chacoalhei vigorosamente e esguichei todo o contedo 
nas duas narinas. Ajudou um pouquinho. Pelo menos uma das narinas 
comeou a funcionar melhor.
Sa de casa caminhando devagar, pois era relativamente cedo, e 
eu teria que esperar o banco abrir. Fazia uma manh bonita, ensolarada. 
Eu estava confiante. Tudo daria certo.
Fiquei esperando em frente  Caixa Econmica, perto exatamente 
daquele outro banco que h anos eu me preparei para assaltar com 
amigos... (Leia Filho do Fogo). Hoje, nenhum deles vivia mais. Eu tinha 
sido poupado.
Fiquei ali sentado, observando os transeuntes e o movimento dos 
estabelecimentos comerciais. Olhava no relgio a todo minuto. Logo eu 
estaria com meu seguro desemprego nas mos!
"Finalmente! Vai abrir!"
Fui o primeiro a entrar, o primeiro a ser atendido. Meu nmero de 
senha correspondia ao caixa exatamente vizinho ao que tinha me 
atendido na vspera. A moa com quem eu conversara estava abrindo 
seu prprio caixa e olhou-me de esguelha, procurando ser discreta. Alis, 
acho que no tinha como no me reconhecer, depois do que eu disse. 
Ela ficou na dela, fazendo de conta que no estava nem ai, mas 
certamente de anteninhas ligadas.
 Bom dia!  cumprimentou a moa que atendia.
 Bom dia! Vim sacar meu seguro desemprego.
 O carto do PIS, por favor.
Novamente entreguei-o. Senti minha respirao at acelerando, 
era hora! Ela digitou no seu computador o nmero de meu cadastro e 
deu a fatdica resposta:
 No est aqui, no. S no fim do ms.
Senti como se no apenas um balde de gua gelada fosse 
despejado sobre mim, mas pelo menos uma meia dzia. Fiquei mudo por 
alguns segundos, olhando para a atendente. A a moa ao lado no 
perdeu a deixa e largou a sua espetada, com classe:
 Pois , eu falei isso ontem para este menino, e ele disse que  
filho do Rei, e coisa e tal...!
Em suma. Eu era um maluco!
Acho que a fila inteira ouviu. Senti um caloro me subir para o 
rosto, eu tinha certeza de que estava roxo como uma acerola mais que 
madura. Peguei meu carto e sa mudo, envergonhadssimo. O nariz 
nesta hora entupiu de vez! A boca se abriu automaticamente para 
respirar.
J na porta, olhei para os dois lados, atnito, perdido, com a cara 
roxa, nariz entupido e boca aberta! Para onde eu iria agora?
No tinha dinheiro para o nibus... no tinha dinheiro para o 
remdio...
O choque e a humilhao, fizeram o nariz entupir de verdade. 
Estava triste e frustrado.
E agora??? Certamente minha me no iria me emprestar nada, 
nem que tivesse.
Fui subindo a avenida, devagar, cabisbaixo.
"Puxa vida... Deus me deixou na mo....."
De repente...
 Ei! Psiu!Ol!
Era comigo. Olhei e dei de cara com um homem sorridente  
minha frente, sado de dentro da cafeteria pequena na esquina.
 Ah...! Ol!
 Tudo bem?  inquiriu ele.  Como  que voc vai?
 Tudo bem  procurei disfarar meu desapontamento e sorrir.
Era o dono da cafeteria. Eu o havia conhecido por acaso h 
algumas semanas. Como saa todas as manhs para procurar trabalho, 
logo percebi aquela nova cafeteria recm inaugurada. Entrei uma vez 
para tomar um cafezinho expresso antes de pegar o nibus para minha 
jornada.
O lugar estava jeitosinho, agradvel. Quando fui pagar, falei para a 
mulher do caixa, que tinha toda pinta de ser a dona:
 Est muito bonito seu caf! Que Deus abenoe o seu negcio. 
O semblante dela se iluminou:
 Muito obrigada! Voc  Pastor, ? At achei engraado. S 
porque eu tinha dito "Deus abenoe"?
 No, no sou Pastor, no. Sou evanglico, mas no sou Pastor.
 Puxa, irmo, olha... eu e meu marido investimos todo nosso 
dinheiro neste caf. As coisas esto difceis e demos este passo de f. 
Somos recm convertidos, sabe, freqentamos a Igreja...
Ela foi falando, explicando a sua situao, e porque era to 
importante que aquele negcio prosperasse. Por fim, pediu:
 Ser que voc pode orar para que Deus abenoe e guarde 
nosso caf? No me pareceu um pedido absurdo, de forma que logo fiz o 
que ela pedia para poder ir cuidar da vida. Orei rapidamente, ali mesmo 
no caixa, de frente para ela, pedindo a proteo e a prosperidade.
 Muito obrigada, hein? Volte mais vezes!
 Eu  que agradeo  respondi polidamente.  Tenha um bom-
dia!
Sa de l sorrindo, os recm convertidos geralmente so to 
genunos, tm uma f to especial!
Alguns dias depois estava passando por ali de novo, e resolvi 
tomar outro caf. O marido dela estava tambm, e a mulher foi logo me 
cumprimentando e chamando seu marido:
 Olha, ele  aquele rapaz que eu te falei, que orou pela gente e 
que vai ser Pastor.
"De onde ela tirou isso?", pensei comigo mesmo.
 Bom dia! Obrigado pela sua orao, viu?  falou de novo.  
Fique  vontade.  T. Mas, olha, eu no sou Pastor...
Novamente quando fui pagar, eles no resistiram:
 Ser que voc podia orar de novo?  pediu o homem.   que 
naquele dia eu no estava, e sem querer abusar...
Sorri de volta. Realmente os recm-convertidos so diferentes, 
especiais:
 OK. Podemos orar.
Fiz de novo uma orao ali no caixa. Os dois ficaram de olhos 
fechados, e no ruidoso "amm" alguns rostos se voltaram para ns, 
indagativos e curiosos.
 Muito obrigado, hein, irmo? Foi muito bom isso que voc fez! 
No deixe de aparecer, viu?  o homem me deu uns tapinhas no ombro, 
todo sorrisos, acompanhando-me at a calada.
Depois eu at me esqueci daquele episdio, mas agora a estava 
ele, bem na minha frente. Ser que queria mais orao?
 Entra um pouco!  convidou.  Toma um caf.
Eu bem que precisava de um caf, mas com que dinheiro?! Ento 
desconversei:
 Obrigado... eu... h... j estou satisfeito.  a voz saa distorcida 
com o nariz entupido.
Ele no aceitou recusa.
 Toma um cafezinho, sim. E por conta da casa!
Bem, assim as coisas mudavam de figura. A palavra "grtis"  
realmente chamativa, ta uma palavra que tem "Poder"! Eu j no tinha 
mais compromissos. Perdera a entrevista, meu nariz estava totalmente 
entupido... teria que passar o dia em casa, at que Isabela viesse me 
buscar.
Diante deste quadro, um caf parecia um presente inusitado.
 Obrigado. Eu aceito!
Sentei na mesinha. S estava ele ali dentro, e enquanto preparava 
um caprichado caf, foi falando:
 O irmo sabe... ns chamamos esses dias a uma irmzinha da 
nossa Igreja para vir orar aqui. No se ofenda, no, ns no estamos 
desprezando a sua orao, mas  que esta irm  daquelas, do "Fogo", 
sabe? E como investimos tudo o que a gente tinha neste negcio, ento 
queramos ter certeza de que Deus estava protegendo, e abenoando, 
sabe?
Ele ps a xcara diante de mim, e acrescentou no apenas uma, 
mas duas bolachinhas como acompanhamento. Comecei a tomar meu 
caf sentindo aquilo me aquecer emocionalmente por onde passava, 
estava sendo um refrigrio para mim.
 Ah! O seu caf  muito bom!
 Obrigado. Mas o irmo sabe... ento convidamos a irmzinha 
do Fogo para vir orar aqui com a gente. Sem querer te desprezar, viu, 
que fique claro. A aconteceu uma coisa interessante. Assim que ela 
chegou aqui, antes de orar, ficou olhando um pouco aqui para a porta, 
sabe?
Eu fui escutando meio por escutar. Ele continuou, mudando um 
pouco o tom de voz:
 Olhou para a porta como se observasse algo. Ento ela disse 
assim: "No precisa mais orar pela proteo, algum j orou aqui, tem 
um anjo ali na porta protegendo este lugar".
 Puxa... fiz eu, interessado desta vez. Eu gostava, e gosto 
muito de ouvir falar de anjos.
 Pois ento! A ns comentamos que realmente tinha vindo aqui 
um rapaz que ia ser Pastor, e que orou com a gente. E expliquei. Ela 
sorriu, e ficou assim quieta, nem respondeu. S continuava olhando para 
a porta, observando, como se escutasse, sei l! Eu no entendo ainda 
muito bem estas coisas do Esprito. Mas a ela disse para ns que Deus 
estava nos dando uma direo. E se fssemos obedientes, Ele iria nos 
trazer a prosperidade que estvamos pedindo para este negcio. O anjo 
que falou isso para ela, o anjo que estava na porta, que estava ali por 
causa da sua orao!
Eu ouvia sentindo meu corao bater mais forte, at esqueci das 
bolachas.
  "Invista na vida deste rapaz, porque ele est passando uma 
grande dificuldade", foi isso o que o anjo disse para ela.
Ele estava segurando as lgrimas e eu tambm. Deus  grande! 
Quem olhasse para mim ali, vestindo terno e gravata, no poderia supor 
minhas necessidades financeiras. Mas o homem parecia disposto a ir at 
o fim naquela direo do Alto.
 Bem, o irmo, sabe... eu no sabia quem voc era, muito 
menos minha esposa. Coisas como seu nome, ou seu endereo. Ento 
ns dois fizemos um trato com Deus. E combinamos que quando voc 
passasse por aqui de novo, ns lhe ofertaramos o que tivssemos no 
caixa.
Fiquei completamente aturdido, e desta vez fui eu que no contive 
as lgrimas. Grande era a Fidelidade do Senhor, misteriosos e nicos os 
Seus caminhos! Um casal desconhecido de recm-convertidos era o 
instrumento da minha bno! Novamente o sobrenatural de Deus me 
apanhava em cheio, me atingia numa onda de alegria e surpresa, 
totalmente desprevenido, totalmente inesperado. Quando minhas 
esperanas j se faziam em pedaos pelo cho.
Compreendi imediatamente que Deus ouvira o meu pedido, e o 
considerava justo. Mas competia a Ele escolher o modo, no cabia a mim 
decidir pelo Senhor.
Compartilhei o que era vivel para alimentar a f daquele homem, 
e falei que procurava emprego h vrios meses, que realmente a 
situao estava difcil para mim. Que eu no tinha dinheiro nem para 
aquele cafezinho que ele me oferecia. 
Foi a vez dele emocionar-se. Nos encaramos, sentindo o elo que 
s pelo Esprito de Deus pode existir entre dois desconhecidos. 
Enxugamos nossas lgrimas e ele foi ver o dinheiro do caixa. Era cedo, 
no havia muito ainda. Mas Deus foi caprichoso em assinar o Seu nome 
naquela oferta: o valor era exato... exatamente o valor correspondente  
parcela de meu seguro desemprego.
Nem mais, nem menos!
* * * *
Corri para ver se conseguia chegar  entrevista, logo depois de 
aliviar-me com o vasocontritor. As lgrimas haviam dado um toque final 
ao entupimento, e foi um verdadeiro alvio jorrar ali aquele remdio!
Depois fui encontrar-me com Isabela na sada do servio dela, no 
Shopping.
Dava para a gente dividir um prato no Viena, e eu queria fazer-lhe 
uma surpresa. Fazia tempo que no podamos comer fora!
Eu a enganei de propsito, convidando-a s para um capuccino. 
A, na hora perguntei se ela no preferia dividir nosso prato preferido.
 Mas com que dinheiro, Nen?
 Ah! Eu tenho! Eu tenho dinheiro!
O rosto dela iluminou-se pela expectativa da boa notcia que eu 
tinha para dar.
 Tem? Ento deu certo o seguro desemprego? Fiz suspense, 
todo empolgado.
 No.... foi outra coisa!
 Mas o que? O que foi que aconteceu?  e dessa vez a 
pergunta tinha um tom de satisfao, de alegria. Normalmente quando 
Isabela perguntava "o que foi que aconteceu?", eu tinha algo 
desagradvel para contar a respeito da Irmandade.
 Vamos pedir primeiro? A eu te conto com calma.
 Mas e a? E a histria que voc ia contar do dinheiro?
Feito o pedido, segurei as mos dela apertando a palma com as 
minhas.
A garonete ps diante de ns a cestinha de po, cortesia do 
restaurante. Era um pozinho tipo ciabatta, quentinho, com manteiga. A 
gente adorava. Aqueles eram momentos simples, mas muito especiais, 
momentos de apenas conversar, curtir a comida. Um ao outro. No tinha 
preo, nem para mim nem para ela! Era muito bom!
Apesar de nosso contexto espiritual, ns continuvamos sendo 
duas pessoas comuns, um casal como outro qualquer, com as mesmas 
vontades, os mesmos desejos. Um casal que conversava de coisas 
comuns, que tinha um cotidiano normal, que queria levar uma vida 
normal.
A gente tambm ria, chorava, sentia, e pensava como pessoas 
comuns.
Ningum falava o tempo todo de Satanismo, como tantos incautos 
viriam a pensar no futuro. Ningum espiritualizava as coisas o tempo 
todo.
Excetuando o sobrenatural de Deus e do diabo que permeava 
nosso dia a dia... ns procurvamos viver normalmente. E vivamos. Na 
medida do possvel. Isabela foi escutando meu relato, deliciando-se com 
cada palavra, cada frase A histria lhe parecia bastante fantstica, e 
seus olhos tornavam-se ora grandes e expressivos, ora cheios de 
lgrimas, revelando como o relato lhe caa na alma e no esprito.
 Pxa... que coisa legal.... n?
 Pois . Legal mesmo.
Ela tomava seu suco de abacaxi com norteia, pensativa. Ento 
falou:
 Esse jantar  especial!  um presente de Deus para a gente! 
Foi o "Papai do Cu" que deu este jantar hoje...
  mesmo, n?...
 Acho que Ele sabia que ns precisvamos de uma coisa boa 
assim, mesmo sendo simples. Temos muito que agradecer a Deus!
 Eu j agradeci!
 Eu sei, mas a gente deve agradecer em concordncia. Deus 
trouxe a proviso que era necessria para estes dias.
* * * *
Na semana seguinte, havia outra Ministrao marcada. Havia 
muito o que colocar naqueles dias. Era assim que Deus fazia comigo: 
trazia "blocos" de lembranas, de envolvimentos. Naquele perodo veio 
um bloco grande, cheio de detalhes.
Novamente era Ricardo que vinha ser o intercessor.
Desde o incio o Senhor comprovou sua atuao atravs da vida 
dele.
Dons existem, os Dons verdadeiros existem, so muito diferentes 
dos falsos por um motivo principal: so certeiros!
No se trata de uma direo acinzentada, meio fruto da mente, 
meio fruto do esprito... no! So contundentemente certssimos, existe 
uma imediata testificao por parte de todos que esto ali presentes 
conosco.
Era algo impressionante........ inquestionvel!
Naquela tarde amos ministrar questes relacionadas  Irmandade, 
mas no final Deus trouxe  baila o Kung Fu.
Ricardo me viu cheio de armas, pelo que espiritualmente retirei-as 
de mim, uma a uma; viu tambm as vestes de guerreiro Kung Fu... que 
eu despi. s vezes ele via ideogramas ou smbolos em minha testa, que 
eram ungidos.
Me desfiz espiritualmente dos trofus, medalhas, nmero de 
registro da federao etc. Tambm do que comi e bebi ritualmente, das 
oferendas nos altares a Bodhidharmah, das reverncias a espritos 
ancestrais familiares, dos sentimentos da ira e violncia, dos sentimentos 
de auto-suficincia. Cancelei as palavras de juramento, e as rezas da 
filosofia Kung Fu.
Apagamos do Reino do Esprito meu novo nome, com o qual tinha 
sido batizado ao atingir o grau de Professor. Naquela antiga cerimnia 
meu nome foi mudado e eu fui inserido na rvore genealgica da famlia 
criadora daquele estilo. Embora eu j no tivesse mais o pingente 
comigo, retirei-o simbolicamente do pescoo.
Alm disso, anulamos as semi-canalizaes espordicas de 
Abraxas no contexto do Kung Fu, desde a quebra das vigas de madeira, 
at os campeonatos. Tambm pedi perdo pela consagrao da faixa 
preta, e do prprio Kung Fu, que fagocitava minha vida. (Leia Filho do 
Fogo.) Enfim... mais uma vez aquelas horas ali com Grace foram palco 
de uma faxina espiritual em regra!
* * * *
Na semana seguinte, a terceira Ministrao seguida.
Quando terminamos foi a vez de Isabela receber um pouco de 
ateno. Algo como um "pronto-socorro espiritual". Ela no vinha bem h 
alguns dias, triste, deprimida, cheia de dvidas com Deus.
No era a Isabela de sempre, forte e determinada. Por vezes, 
chorava e questionava se Deus realmente estava no controle da situao 
e de nossas vidas. Era muita coisa ao mesmo tempo. Eram muitos 
acontecimentos para digerir ao mesmo tempo.
Mas ela nunca cogitou deixar-me. A culpa no era minha, no seu 
entender, era do diabo. Seu lugar era ao meu lado, Isabela sabia disso.
No entanto,  comum e perfeitamente compreensvel que, s 
vezes... a gente se sinta abatido.
Uma qualidade de Isabela era que ela no "dourava a plula". Isto 
; no escondia nada, no escondia seus sentimentos; por mais 
estranhos ou desprezveis ou chocantes que pudessem ser.
Isabela encontrara em Grace algum de confiana, algum que ela 
julgava capaz de escutar qualquer coisa, sem julgamentos precipitados. 
Assim era Isabela com Grace e tambm com Dona Clara. Com mais 
ningum.
Felizmente as duas tinham sabedoria para ouvir e entender. E 
permanecer ao seu lado, mesmo que isso significasse apenas uma 
orao, uma palavra amiga, uma frase de incentivo.
Isabela realmente no escondeu seus sentimentos de 
insegurana, temor, tristeza naquela tarde diante de Grace.
 No estou me sentindo bem nestes dias... no sei bem o que . 
Motivos de certa forma no faltam. Eu sei que Deus tem permitido um 
monte de coisas, porque  necessrio. Mas no entendo bem o 
propsito, e me sinto cansada, cansada... com o corpo cansado, com a 
mente cansada, o esprito cansado. No estou conseguindo orar direito, 
nem dormir direito, e parece que Deus no est preocupado com isso. 
Poxa, de vez em quando, preciso de uma trgua. s vezes consigo 
escrever o livro, s vezes, no.
Isabela continuou o seu desabafo, e Grace ouvia. Ento, orou por 
ela, ungiu-a, pedindo a proteo das muralhas de fogo, a cobertura do 
sangue do Cordeiro, e a guarda dos anjos do Senhor. Pediu o alvio para 
a alma, a paz que excede o entendimento.
Isabela chorava baixinho, as lgrimas pingando na sua roupa. Eu 
orei um pouco junto com Grace e depois abracei minha companheira:
 Voc vai ficar bem, menina... isso vai passar, a tempestade vai 
passar! Grace ajuntava suas coisas e falava, preocupada com o mesmo 
assunto. O mesmo que tantas vezes j abordara!
 Quem ora por vocs, alm de Dona Clara? Vocs precisam de 
intercessores com urgncia.
 Ns bem que tentamos, Grace... mas  muito difcil...  
retruquei devagar.
 Voc no falou com seus Pastores?
  Bom... de certa forma eu falei sim. Eles tm uma idia do que 
est acontecendo.
Isabela j foi mais especfica:
 A Igreja  muito grande. Ele no pode dar ateno a todos. 
Grace suspirava e ficou quieta. E prometia:
 Vou ver se falo com eles.
 O Marlon disse que ningum ia ficar do nosso lado... 
murmurou Isabela.
 Mas eu estou aqui, no estou?  interveio Grace.  E Dona 
Clara tambm tem estado firme.
Isabela no se deu por vencida no seu argumento.
 Eu sei. Mas acho que no era de vocs que eles estavam 
falando. Temos orado com Dona Clara  nesse sentido, para que as 
barreiras caam por terra, mas... Deus tem que fazer algo novo. Vamos 
aguardar... ns tambm sentimos que precisamos de mais gente orando 
por ns. Orando de verdade!
  Tem gente que diz que ora, mas no h um compromisso real 
com a intercesso diria. E tambm no  para todo mundo que a gente 
pode abrir estas coisas  expliquei.
 OK!  fez Grace.  Mas vamos continuar confiando no 
Senhor.
* * * *
O ms de abril trouxe um Congresso muito comentado no meio 
evanglico, de um preletor estrangeiro. Teria a durao de uma semana 
e terminaria no Domingo de Pscoa.
Foram Sarah e Jefferson que nos convidaram para estar 
presentes, pois eles prprios participariam com o seu grupo de 
intercessores. Fariam parte dos bastidores do Congresso, contribuindo 
com sua intercesso.
Ento eu e Isabela nos programamos para ir na sexta-feira, e no 
sbado, pois Isabela trabalhava durante a semana e eu continuava 
compromissado com aqueles interminveis processos de seleo que 
no davam em coisa alguma. As portas pareciam estar fechadas para 
mim.
Durante a semana tudo correu normalmente, exceto por estarmos 
atravessando um perodo de depresso e abatimento. Apesar das 
Ministraes com Grace, eu no vinha muito bem, nem Isabela.
  O que voc acha de escrevermos uma carta para aqueles 
Pastores que estiveram presentes naquele encontro da Grace? Naquele 
dia em que ela me convidou para falar algo?  perguntei para Isabela 
certa noite, sentado na mesa da cozinha da casa dela.
 Por qu?
 No sei bem. Pedir orao. Pedir ajuda. No consigo arrumar 
trabalho... tenho certeza de a Irmandade tem fechado todas as portas de 
emprego, e isso  s o comeo, como disse Marlon. Havia mais de 
cinqenta Pastores ali, quem sabe algum assumisse compromisso de 
orao pela gente? No vai dar para a gente se arrumar nesta misria 
por muito tempo. J recebi a ltima parcela do seguro desemprego.
 Eu talvez pudesse trabalhar em perodo integral... posso 
arrumar outro emprego.
 No! No quero te sobrecarregar. No  justo. Vamos escrever 
uma carta padro compartilhando nossas dificuldades, pedindo orao. 
Quem sabe algum pode nos ajudar de alguma forma?
No meu corao eu imaginava que aquelas pessoas, por terem 
conhecido uma pequena parte da minha histria, e por serem meus 
irmos, estariam do meu lado. E no nos negariam ajuda. Poderiam orar 
por ns. Encaminhar meu currculo, sei l! Eu s queria poder dividir a 
insegurana daqueles dias. Receber uma palavra a mais... um incentivo 
qualquer!
E tinha que provar para mim mesmo que Marlon estava errado. Se 
ele dissera que ningum ficaria do meu lado, era hora de mostrar ao 
Reino Espiritual que ele estava errado.
 T bem... assentiu Isabela, procurando sentir-se animada.  
Talvez voc tenha razo... no custa pedir orao, compartilhar. Eles 
agora tm uma idia de sua histria. Vamos falar um pouco do que 
temos vivido desde aquele dia.
Ela sentou-se ao meu lado e escrevemos uma carta sincera, mas 
um pouco tensa. Parte de nosso temor ficou impregnado naquele 
desabafo. Talvez tenha sido por isso que no recebemos resposta de 
ningum.
Isabela no falava nada, como que j adivinhando que seria assim 
mesmo. Mas eu estava decepcionado. Por que o diabo decretava 
sentenas e assim acontecia?!?
Mas, com ou sem resposta, nossa depresso passou e novamente 
nos reerguemos, contando apenas com nossas prprias oraes e o 
consolo invisvel do Esprito Santo. Pelo menos naqueles dias. O Culto 
da quarta-feira, antes do feriado de Pscoa, nos trouxe renovao. 
Naquele dia em especial, Isabela estava muito desanimada, nervosa, e 
s chorava. No era medo, no era falta de amor a Deus. Difcil dizer o 
que era, difcil traduzir em palavras. S algum que do dia para a noite, 
passa a ter sua vida ameaada pode sentir, pode entender.
A insegurana e a incerteza por vezes nos invadiam. Era s isso.
Como terminaria a nossa histria? Para que se arriscar? Em nome 
de qu? Por causa de quem? Se sequer tinham se dado ao trabalho de 
responder nossa carta... ou ouvir nossa histria... ou fazer empatia 
conosco?!?
Excetuando poucos, quem mais estava ao nosso lado?
Quem realmente se importava com o que pudesse nos acontecer? 
Se o pior acontecesse, a maioria se limitaria a dizer: "Que pena... Deus 
quis assim". E continuariam a vida.
Por que deveramos nos arriscar por causa da Igreja, se ela sequer 
sabia de nossa existncia?
Eram tantas dvidas, s vezes; amarguras reclusas da nossa 
alma, pensamentos inslitos, sentimentos pouco nobres... mas reais, 
verdadeiros!
E o Pai conhecia cada um deles. Talvez, justamente por conhec-
los,  que trazia sobre ns uma fora desconhecida, uma coragem 
especial que nos fazia sacudir a poeira da mente e, nos convencia de 
que valia a pena servir a Deus. A qualquer preo. Com Ele estaramos 
salvos, mesmo que a morte nos rondasse, mesmo que falar nos custasse 
a vida. Vida humana, sim, mas no a Vida Eterna.
Talvez o Corpo de Cristo no soubesse de nossa existncia, talvez 
aqueles ao nosso redor pouco se importassem com nossa sorte. Mas o 
Senhor dos Exrcitos merecia ser atendido. E Ele havia dito: "Ide!"
Era isso que faramos. Isabela enxugou as lgrimas, e nossos 
coraes subitamente se alegraram.
Mais uma crise tinha passado.
* * * *
Captulo 28
Grace sabia das cartas, pois alguns haviam comentado com ela. 
Dissemos no ter recebido nenhuma resposta. Nossa amiga foi discreta 
em no tecer comentrios, apenas explicou que minha histria era 
"diferente", e nem todos iriam colocar a mo no fogo por mim. Uma coisa 
 voc sentar, ouvir e saber. Outra...  se envolver. Entendemos o que 
ela queria dizer e no perguntamos mais nada.
Apesar disso, Grace pediu meu currculo, pois conhecia algum 
que talvez pudesse ajudar-me. Um empresrio. Eu fiquei novamente na 
expectativa; e Isabela no ligou muito.
Naquela semana, como se j no bastasse o resto, chegou uma 
multa de trnsito de mais de R$ 200,00. Isso porque Isabela j estava to 
"domesticada" que no cometia mais infrao no trnsito. Foi uma 
distrao... e uma surpresa a mais para ns.
Porm fomos animados para o Congresso na sexta-feira da 
Paixo. O evento estava acontecendo em um ginsio e havia gente por 
todos os lados. A parte mais legal, pelo menos para mim, era o Louvor. 
Raramente eu vi tantos Cristos reunidos e louvando a Deus em um s 
lugar.
Coisas assim, grandes, de porte, eu estava acostumado a 
conhecer apenas dentro da Irmandade. Era bom ver que os Cristos de 
vez em quando tambm se reuniam naquelas propores.
Na hora do almoo eu comi sanduche com Isabela, e depois 
sentamos perto de um gramado na parte externa do Estdio. Ficamos ali 
conversando at que comeasse o perodo da tarde. Quando amos 
entrando pelo porto de uma das alas, dei de cara com Jeferson. Ele 
veio todo sorrisos para nos abraar:
 Oi, Daniel, Isabela! Que bom que vocs vieram. Aonde vocs 
estavam?
 A dentro, na ala 09  respondi.
 Durante a semana no pudemos vir por causa do meu servio 
 disse Isabela.
 Bom, mas agora vocs esto aqui! J encontraram a Sarah?
 No, ela est a?
 Est l dentro, na salinha de intercesso. Est havendo um 
revezamento por equipes.
 Ah!
Ns ficamos impressionados com tudo o que acontecia nos 
bastidores de um Congresso, conforme foi explicando Jefferson.
 E a?  perguntou-me ele por fim.  Como est a procura por 
emprego? Recebemos sua carta, estamos orando por vocs.
 Pois ...  respondi.  Vamos aguardar em Deus, porque 
parece que tudo tem se fechado...
 Isso  verdade, sabe?  fez Isabela.  No  querer falar 
demais no, mas Eduardo tem capacidade. Realmente ns estamos 
precisando de intercesso, nisso tem o dedo do diabo.
 Ele est procurando secar nossa fonte financeira, arroxar de 
todos os lados. Desabafamos um pouco, Jefferson ouviu e procurou nos 
tranqilizar dizendo que perseverariam em orao. Ento foi chamar 
Sarah. Ela veio amorosa e cheio de incentivo para dar.
 Oi, queridos, recebemos a carta de vocs!  ela nos abraava 
fortemente, um de cada vez.  Olha, no se preocupem, no. O Senhor 
est com vocs. Ele  o Deus Todo-Poderoso, simplesmente o Todo-
Poderoso.
Sarah falava com firmeza e convico, e ns passamos a ouvi-la 
deixando suas palavras de f entrarem em nosso corao. Ela nos 
transmitia fora e coragem naqueles minutos. Parecia que perto dela nos 
sentamos mais seguros, e tudo daria certo. Ela tinha razo no que dizia. 
Deus nos consolou atravs dela.
 E como  que vocs esto?
Falamos novamente do emprego, do dinheiro desaparecido, das 
nossas dvidas.
Depois Sarah mudou de assunto, e comentou que Deus havia 
revelado a presena de Satanistas naquele lugar. Eu particularmente no 
liguei muito, Isabela tampouco. Se havia algo com o que ns no 
queramos realmente nos preocupar naquele momento era com 
Satanistas. J era necessrio que perdssemos muito tempo nos 
preocupando com eles, e naquele dia ns estvamos ali para receber a 
Palavra e a Ministrao do Senhor. Pelo que no esticamos demais o 
assunto.
 Olha, eu j tenho que voltar!  exclamou Sarah mirando no 
relgio.  Mas no sumam, vocs dois, hein?! Ns vamos estar aqui, 
sempre atrs desta porta. Se vocs precisarem de qualquer coisa,  s 
vir aqui, t bem?
Eu e Isabela sorrimos abertamente, agradecemos pela gentileza 
do seu oferecimento. Ns tnhamos aprendido a gostar muito de Sarah, a 
confiar nela. Parecia ter um compromisso autntico com o Senhor e no 
temia a luta que enfrentvamos. Era algum que parecia no recear 
colocar-se ao nosso lado.
Ali mesmo, antes de entrar, orou conosco pedindo livramento, 
direo e proteo. Sua orao foi forte e convicta, nos ajudou muito.
 Ah, amados!  falou Sarah com carinho.  Mantenham 
contato com a gente. Estamos orando tambm pelo dinheiro que 
desapareceu. Deus vai restituir o que foi roubado.
 No sei se vai ser da maneira como a gente gostaria...  
murmurou Isabela, transparente.
E explicou sobre nosso erro com o dzimo.
 Ah!  Sarah balanou a cabea.  Realmente foi um duro 
aprendizado esse. Mas Deus  grande, vai trazer resposta! Nada  por 
acaso.
 Obrigado por suas oraes!  acrescentei, sinceramente 
comovido pela atitude amigvel dela.  Voc e o Jefferson tm sido 
pessoas preciosas para ns. Muito obrigado mesmo.
 Deus  grande, e vamos caminhar juntos. Deus abenoe vocs! 
 ela outra vez nos estendeu seus braos.
 Tchau!
Dei a mo para Isabela e fomos nos encaminhando para a ala 09.
 Puxa... que simpatia dos dois!  fiz eu, ligeiramente atordoado 
pela atitude do casal.
  verdade. Eles parecem ser diferentes dos demais. Quem 
sabe sero amigos de verdade? Pelo menos j so referencial para ns.
Eu me sentia com a alma mais aquecida depois daqueles abraos, 
mais tranqilo, mais em paz. s vezes eu precisava de abraos assim...! 
Gestos como estes, de pessoas que se intitulam "irmos de f", j tinham 
ficado perdidos no passado. Num negro passado.
A tarde passou sem nada de diferente. No encontramos ningum 
conhecido, embora soubssemos que Dona Clara e algumas pessoas de 
nossa Igreja estavam ali, em algum lugar.
Caiu a noite. O local encheu-se mais ainda para o Culto noturno. 
L pelas sete e meia da noite, os primeiros acordes de Louvor 
comeavam a encher o ar. Agora o ginsio estava bem cheio, e em todas 
as arquibancadas ns podamos ver a movimentao das pessoas que 
iam chegando atrasadas e procuravam lugar para sentar. Era muito difcil 
o povo se aquietar por inteiro, mas eu procurei no dar ateno para o 
trana-trana. Eu estava ali por outro motivo. Olhei de soslaio para 
Isabela que estava com os olhos totalmente fechados, com as mos por 
vezes erguidas, o semblante denotava que estava concentrada somente 
na Pessoa do Senhor.
Ergui meu brao direito, alto, cantei aquela cano que comeava 
agora, o som fez meu corpo estremecer. Eu gostava dos dizeres daquele 
cntico.
Concentrei meus pensamentos em Deus, na Sua Fidelidade, Seu 
amor... a voz de centenas e centenas de pessoas cantando juntas tinha 
um impacto diferente.
No entanto....................
O Louvor no estava ainda na metade e eu me recusava a prestar 
ateno naquela sensao incmoda...
Sim, uma sensao leve... completamente... desagradvel... a 
presena de algo que no deveria estar ali.
"Lgico!  bvio que no deve estar aqui,  s uma coisa da minha 
cabea..."
E procurei continuar concentrado no Louvor. Mas meu esforo foi 
em vo. Desta vez abri os olhos e perscrutei ao meu redor. No havia 
nenhuma congruncia naqueles sentimentos, naqueles pensamentos da 
minha cabea. Naturalmente era s um alarme falso!
"Mas eu conheo esta sensao..."
Novamente olhei ao redor. Dessa vez, por algum motivo os olhos 
de Isabela se abriram e eles cruzaram com os meus. Talvez meu rosto 
demonstrasse parte do que eu estava sentindo, porque ela perguntou:
 Voc no vai louvar? O que foi? Fiquei quieto.
 Nada.
Ela deu um leve sorriso e me cutucou com o cotovelo:
 Ento louva e no pensa em mais nada.
"Sim, eu quero louvar... ela no precisa me dizer isso... eu sempre 
louvo... mas, pxa, isso est me incomodando!"
Realmente no podia continuar ignorando aquilo, mas era 
totalmente sem lgica.
"Estou sentindo opresso, sei disso. Conheo isso! Mas como  
que pode, meu Deus? Estamos em um Congresso Internacional... grupos 
de intercessores se revezam durante o dia todo... estamos reunidos com 
o Corpo de Cristo, bem no meio do Louvor.... ento...? Como pode um 
demnio estar aqui??? Bem aqui... por perto... eu sei... aqui dentro! Se 
est aqui tem permisso para estar..."
Tornei a abrir discretamente os olhos. Diante de mim eu via o 
plpito montado no palco, l embaixo, os instrumentistas e levitas..., ao 
redor, arquibancadas cheias de crentes.
Ao longo do tempo parece que Deus vinha aprimorando o Dom, 
pois eu sabia que se tratava de um Principado. Dele desprendia aquela 
opresso forte, densa, pesada. E ele estava ali dentro. Tinha a ousadia 
de estar ali dentro!
"Mas se tem um Principado aqui,  porque certamente deve estar 
acompanhando algum... e  claro que no est acompanhando um pai-
de-santo. Somente algum realmente compromissado... com Lcifer... 
tem esta guarda!"
A opresso vinha de trs. Ns estvamos na primeira fila da 
arquibancada, ento virei a cabea devagar.
"Eles so muito cabalsticos. Se tem algum aqui, talvez esteja 
justamente aqui... na plataforma 09!"
Realmente a sinalizao de Deus foi perfeita, no precisei nem 
procurar.
 minha esquerda, na diagonal, duas fileiras acima, dei de cara 
com eles. Senti meu sangue gelar e o corao bater mais forte. Nossos 
olhares se cruzaram pelo que parecia uma eternidade. Eles tambm 
estavam fixados na nossa direo. Quando digo "nossa", quero 
realmente dizer nossa. O dio se desprendia deles por minha causa e 
tambm por causa de Isabela. O rosto era frio, o olhar cortante, frio, 
congelado de desprezo e ira.
Virei imediatamente para frente sentindo as batidas 
descompassadas de meu corao. Novamente Isabela olhava para mim. 
Parece que ela pressentia!
 O que foi?  perguntou, preocupada.
No quis alarm-la. Mas eu os conhecia muito bem, sabia que 
Zrdico e Taolez eram Sumo Sacerdotes, treinados para suportar o 
Louvor e Uno de lugares como aquele. Na verdade os demnios de 
alta patente conseguem entrar em qualquer lugar, mesmo que seja uma 
Igreja, um congresso, ou uma reunio de orao. A questo  
basicamente a legalidade que deveria haver em algum lugar. Eu no sei 
onde. S sei que eles so legalistas, e aquele Principado estava bem ali!
s vezes, quando h muita uno no lugar, os demnios se 
afastam, mas os seus colaboradores humanos ficam. Se saem podem 
voltar por desdobramento. Para impedir a entrada deles  preciso muito, 
muito preparo espiritual. Jejum, intercesso por muitos dias, uno com 
leo. Alm de santidade na vida de quem est imbudo de fazer tudo 
isso. Seno... no adianta! E o fato era um s: ali estavam eles. Procurei 
manter a calma. Eu s queria ter certeza. Talvez meus olhos tivessem 
me enganado, talvez fosse uma alucinao. H quantos anos eu no os 
via, e l estavam eles... mortos de dio!
 O que foi, Eduardo?  perguntou Isabela outra vez.
 Olha para trs nessa direo...  apontei discretamente com a 
cabea.  D uma olhadinha para a terceira fila do lado de l, onde tem 
dois homens. Veja se eles esto olhando para c.
O olhar dela revelou uma ponta de susto diante do meu 
comentrio, mas Isabela virou lentamente o pescoo para trs. Eu s 
esperei, virado para frente.
 Nossa, Eduardo... eles me fuzilaram com os olhos! Quem  
essa gente, voc... voc conhece? So da Irmandade?  ela j havia 
compreendido tudo s de ver a atitude deles.
Isabela parecia mais aturdida do que assustada.
 Que ar de dio. Se pudessem nos comiam vivos.
 Continua louvando. Eu conheo eles, sim.
Isabela olhava para frente, e no disse mais nada. Fechou 
novamente os olhos, ergueu a mo, continuou louvando. Mas eu no 
consegui, porque a opresso continuava ali e estava me incomodando.
Eu no queria ficar na vista deles.
 Vamos l para trs? L no fundo?  perguntei.
 T bom!  fez Isabela.
Nos mudamos para o fundo do ginsio, l no alto. Fomos bem 
longe, para o outro lado. E quando sentamos de novo e demos por ns, 
nada deles. Tinham sado de l!
Eu e Isabela oramos um pouco pedindo proteo. Sabia que eles 
seriam capazes de fazer qualquer coisa ali... no meio da multido... e o 
tumulto poderia escond-los.
E l pelas tantas, depois da Palavra (na qual no conseguimos 
prestar ateno), ns decidimos comunicar Sarah e Jefferson no dia 
seguinte para que o grupo intercedesse e orasse mais especificamente.
Sabendo ou no da presena de Satanistas  como ela mesma 
havia comentado, mais cedo , fato  que eles continuavam ali. No 
tinham se dado ao trabalho de ir embora. E nem parecia haver nenhuma 
dificuldade em estar ali. No era a primeira vez que ns constataramos a 
presena de Satanistas da Irmandade, nas horas e lugares mais 
inusitados e improvveis, furando o cerco, mesmo em vigncia da orao 
dos servos de Deus. Tinha sido assim nas minhas Ministraes, tinha 
sido assim no evento da Grace... agora ali, num Congresso daquele 
porte. Como parecia ser fcil para eles irem e virem, sem que ns, 
Cristos, tivssemos fora para impedir!
Por que isso acontecia, por qu?
* * * *
No dia seguinte, penltimo dia do Congresso, chegamos no horrio 
de almoo para poder participar da parte da tarde. Antes disso fomos 
bater na porta atrs da qual Sarah nos disse que estaria.
A pessoa que abriu a porta no era conhecida.
 Por favor, a Sarah e o Jefferson esto a?
 S um minuto.
Sarah veio em seguida. Ns comunicamos o ocorrido e ela no 
pareceu se espantar.
 Pessoas de nossa equipe j tinham tido discernimento.
 Bom... orem bastante neste sentido, porque eles estavam a.
 Talvez j no estejam mais. Qualquer coisa,  melhor vocs 
virem para c. Ficam mais protegidos. Mas acho que j no deve ter 
ningum a.
Contou algumas histrias do que vinha acontecendo durante a 
semana e como Deus havia mostrado as pessoas compromissadas com 
as Trevas. Como estava j na hora de comear, nos despedimos.
 Mas com ou sem orao, a verdade  que eles estavam aqui 
ontem  disse Isabela mais uma vez.
Fomos nos acomodar em outro lugar completamente diferente 
daquele da vspera. E inacreditavelmente, novamente no meio do 
Louvor l veio de novo aquela opresso.
"No  possvel!"
Virei o pescoo para trs. L estava Zrdico bem atrs de ns, 
duas fileiras mais acima.
Nem precisei falar para Isabela, ela j estava esperta ao ver 
Zrdico pelas costas. Ele se levantara e saa do seu lugar. Num impulso 
impensado Isabela tambm se ergueu e subiu as escadas atrs dele.
 Quero ver melhor a cara deste homem.
No tive tempo de impedi-la. Mas que atitude tola!?! Logo ela 
retornou. Sentou-se ao meu lado. O Louvor continuava, e todos  nossa 
volta estavam alheios ao que acontecia.
 Por que voc fez isso?  perguntei.
 Ah, sei l... s queria ver ele melhor.
 E viu?
 De relance. Quando passei ele estava de papo com um dos 
responsveis pela segurana. Por que ele saiu depressa?
Dei de ombros.
 Talvez porque j tenha feito o que tinha que fazer  respondi 
enquanto Isabela ficou quieta, tinha o semblante indignado.
 Puxa! Que audcia desta gente! Tiram barato da nossa cara 
dando uma de "espio", e ningum nem nota. Olha s!
Novamente respondi sem emoo. Eu j conhecia esta histria.
 Eles monitoram os eventos evanglicos.
 Mas tem gente orando. Ser que isso no conta, no?
 Bom... h um preparo para isso. Depois como oram? "Abenoe 
esta reunio?" isso no adianta... ningum os proibiu de entrar, ento 
entram. Ou talvez alguns at orem proibindo que eles venham, mas no 
tm autoridade para isso. Consegue imaginar um padeiro te parando na 
rua e lhe pedindo seus documentos? Ele no pode fazer isso, pois no 
tem poder de polcia. J um delegado ou um policial tem esta autoridade, 
tem preparo e treinamento para isso! A voc tem que obedecer, 
reconhecer a autoridade dele. No Mundo Espiritual  a mesma coisa! 
Muitos usam de uma autoridade que no tm! So meras palavras... sem 
efeito no Reino Espiritual. Por isso eles at manipulam situaes para 
colocar pessoas sem preparo no comando destes eventos... e a ficam 
com toda a liberdade para entrar e sair... entende? Assim me diziam que 
era, quando eu estava l!
 Puxa... ser que eles lanariam algum Encantamento na gente? 
Aproveitariam a oportunidade de ter dado de cara...?
 Certamente!
 Bom, vamos orar e nos cobrir, ento. Puxa,  o fim da picada. A 
gente veio aqui para participar de um Congresso e ter um pouco de 
sossego. Esquecer dessa coisa de Satanismo. Que perseguio!
Oramos um pouco, cancelando toda palavra de maldio, que 
tivesse sido enviada sobre ns durante aqueles momentos de contato 
visual. A melhor coisa a fazer era no subestimar o Poder do inimigo. E 
nem o Poder de Deus, forte o suficiente para destruir todo o Poder 
maligno.
Que outra arma tnhamos em mos alm da orao?
Da Isabela continuou a questionar:   Ser seguro continuar 
aqui?  Voc acha que deveramos ficar l na intercesso com Sarah?
 Vamos?  fez Isabela, sorrindo.
 Vamos.
Samos de onde estvamos e fomos para l. Novamente avisamos 
o que tnhamos visto. De l, por incrvel que parea, foi possvel localizar 
Zrdico com o binculo, sentado exatamente no lugar de antes.
Justamente neste momento havia um clima de adorao, e o levita 
que dirigia o Louvor pediu que todos dessem as mos. Eu e Isabela 
observvamos do corredor separado aos intercessores com olhos 
compridos, e Sarah mantinha os olhos no binculo, orando.
Vi Zrdico dar suas mos para quem estava ao seu lado. Ento 
todos os presentes ergueram suas mos dadas, e o momento era muito 
bonito e especial, a no ser pelo fato de Zrdico tambm erguer suas 
mos. Terminado aquele curto momento, no sei se pelo fato da orao 
de guerra ter sado dali como um raio, a verdade  que ele levantou de l 
e sumiu. Ns no o vimos mais.
 Sabe que ele nem costuma usar essas roupas?  comentei 
com Isabela.  Ele sempre usa roupas mais elegantes, e caras.
 , mas aqui esse tal precisava estar mais parecido com o povo 
evanglico. Ficamos ali at o trmino da Pregao. Observvamos as 
pessoas intercedendo o tempo todo. No eram muitas, quando 
comparado ao grande nmero l fora, no ginsio.
Dona Clara tambm fazia parte do grupo voluntrio de intercesso.
Em dado momento algum bateu no meu ombro: era uma pessoa 
do grupo de intercesso.
 Esto chamando voc l na sala.  Ah... OK.
Isabela olhou para mim e cochichou no meu ouvido:
 Tambm vou.
Eu olhei para a pessoa que tinha vindo me chamar.
 Ela pode ir tambm?
  melhor voc vir sozinho.
Isabela fez um ar contrariado, e dessa vez eu via preocupao 
genuna em seus olhos. Sabia o que ela deveria estar pensando: "O que 
ser to grave que eu no posso ouvir?"
 Espera aqui, t, "M"? Eu j volto.
Quando cheguei  pequena sala, Sarah me esperava com mais 
duas mulheres. Uma delas era irm Esther, da equipe da Grace, a outra 
era cunhada de Dona Clara. Jefferson ficou num canto, quieto.
Sarah apontou o lugar para eu me acomodar, sorrindo:
 Oi, amado. Que bom que voc j est aqui. Senta um pouco, 
ns queremos orar por voc.
Estranhei um pouco.
 Mas e Isabela?
 J estamos orando por ela. Deus trouxe nesta madrugada 
revelao sobre ela. Mas talvez ainda no esteja pronta para ouvir, ento 
queremos passar isso a voc.
Elas oraram e ento conversaram comigo. Eu escutei. A revelao 
testificava, no era novidade, apenas trazia confirmao de nossas 
prprias convices. Realmente Deus tinha falado claro com elas. E a 
orientao vinha do Alto.
 Mas, olha... no tem problema Isabela ficar sabendo disso. Na 
verdade ela j sabe. Isabela tem estado ao meu lado nisso tudo desde o 
incio.
 Voc acha que no tem problema?  perguntou Sarah.
 Acho que no.
Todos ento concordaram, menos a cunhada de Dona Clara. 
Retornei ao banco onde Isabela me esperava. Imediatamente ela quis 
saber se estava tudo bem.  T tudo bem, sim. Pode se tranqilizar.
 Ento?  Lembra que Sarah falou que estava orando pelo 
nosso dinheiro roubado?
 H-h!
 Pois ... ele no vai mais voltar. A irm Esther teve uma viso 
do dinheiro sendo retirado de nossa conta e sendo transferido para 
outras seis contas diferentes. E Deus disse que este dinheiro no vir de 
novo a nossas mos... pelo menos agora.
Isabela no sorriu, mas tambm no teve o que acrescentar.
 Bom...  fez ela tristonha.  De certa forma a gente j sabia. 
 Pois ...
 E foi s isso? O que mais? Voc ficou l tanto tempo. Eu no 
mentiria para ela.
 Olha... procure entender...  fui falando em tom manso.  
Talvez seja melhor voc no saber o resto.
Imediatamente a expresso dela mudou, assumindo um ar 
horrorizado:
 Como assim? O que  que vai acontecer?
 Elas queriam te poupar...  isso! J oraram, est tudo bem!
 Mas eu no quero ser poupada. No fui poupada at agora. 
Fao parte desta histria com voc.
Sarah estava passando por ali, e logo Isabela foi at ela para 
inquiri-la sobre o que estava acontecendo. Sarah sentou-se ao nosso 
lado, e mandou chamar as outras intercessoras. Falou calmamente a 
Isabela:
  Realmente no  bom voc ficar na ignorncia. Na verdade era 
uma preocupao com a sua preservao, mas acho que no saber  
pior mesmo. Ontem  noite, a irm Esther e a cunhada da irm Clara 
oravam por vocs dois, e tiveram uma viso. Viram uma mulher loira 
fazendo Encantamentos, e o alvo no era ele, mas sim voc!
Isabela s ouvia.
 O desaparecimento do dinheiro era somente, digamos assim, 
para distrair a ateno de vocs, apenas para desestabilizar o Daniel, e 
enfraquec-los. Para um outro golpe mais forte.
 Bom... eu sei que tenho sido alvo  falou Isabela, subitamente 
demonstrando alvio.  Eu pensei que fosse alguma coisa com ele, eu 
no iria poder respirar sem saber de que se tratava. Isso no  nada de 
muito especial, saber que esto me atacando. No precisava todo esse 
segredo!
Irm Esther vinha ao nosso encontro.
 Voc contou para ela?
 Achamos melhor ela ficar sabendo  explicou Sarah.  Explica 
para ela o que voc viu.
 Eu vi uma reunio com algumas pessoas da Irmandade, e nesta 
reunio estavam acertando tudo em relao a ela, todos os ataques, 
metas, estratgias. No  um ataque qualquer, mas uma sentena de 
morte. O tiro foi apontado para voc.
Isabela novamente assentiu. Aquilo no era novidade para ela. O 
discernimento daquelas servas de Deus apenas faria com que 
orssemos mais especificamente e em concordncia. Marlon havia dito 
aquilo, que eles iriam mat-la.
A cunhada da Dona Clara tambm chegou e falou da viso da 
mulher loira fazendo Encantamentos contra Isabela.
A verdade  que ela estava bem mais tranqila depois da 
revelao. Ns nunca corremos atrs de Profecias, ela to somente 
vinham at ns. E traziam confirmao daquilo que j sabamos ou 
desconfivamos. Nunca eram vises mirabolantes, trazendo direo 
totalmente nova.
Havia sempre um padro nas revelaes, uma marca de Deus, 
uma assinatura do Esprito Santo. Que testificava com nosso esprito. E 
no trazia dores, antes alvio, mesmo diante da adversidade. O fato de 
Deus revelar o ataque mostrava Sua Fidelidade, Sua Proteo; mostrava 
que Ele no se descuidava das nossas vidas.
Ento todas elas oraram de novo por ns, agora especificamente 
por Isabela, com ela.
* * * *
A semana passou sem qualquer intercorrncia. O Congresso tinha 
passado. A injeo de nimo maior veio atravs da orao daquelas 
mulheres. Mas o fato de saber com certeza que nosso dinheiro no mais 
voltaria era uma faca de dois gumes.
Por um lado aliviava, pois a expectativa adiada traz males ao 
corao. Era bem melhor saber que nossas economias estavam perdidas 
do que continuar achando que um milagre poderia acontecer a qualquer 
momento. Deus deixava claro que este milagre Ele no iria fazer. Pelo 
menos no agora, no do jeito que imaginvamos.
Saber que havia um ataque de morte sobre Isabela tambm no 
era novidade, mas isso j estava coberto em orao. De forma que 
pusemos uma pedra em cima de tudo aquilo e continuamos tocando 
nossa vida.
Ns queramos casar.
J no era sem tempo. Eu s precisava arrumar um emprego, e 
ns tnhamos que conseguir juntar a maior quantia possvel de dinheiro 
em pouco tempo.
Mas naquele sbado de abril ns estvamos em clima de 
romance, de pombinhos apaixonados, passeando no Shopping Morumbi, 
olhando as lojas, de mos dadas, abraados, sem nos preocuparmos 
com absolutamente nada que dissesse respeito a Batalha Espiritual, a 
demnios, a Satanistas, a Irmandade, a ataques de morte, perseguies, 
Ministraes etc. ..etc. ..etc. ..etc. ..
ramos somente um casal de jovens comuns, totalmente comuns. 
Completamente esquecidos daquela eterna luta com o Imprio das 
Trevas. Antes eles tambm se esquecessem de ns por um minuto que 
fosse. Mas... seria esperar demais!
A tarde tinha sido agradvel. Isabela tinha algum dinheiro a mais 
de algumas horas extras que tinha feito, de forma que nos sobrava uns 
trocados para satisfazer o desejo de tomar um sorvete, um caf. O 
restante seria para nossas despesas do ms, mas dava para algo 
simples naquele dia.
Olhando as lojas, acabamos por entrar na "Little Darling". Naquela 
poca Isabela vivia entrando naquela loja, gostava dela. Das roupas que 
tinha l!
 S vou dar uma olhadinha....
 Sei... sei que  s uma olhadinha!  olhadinhas da Isabela 
levavam horas!
 , sim. S vou ver.
Eu andava atrs dela, olhando junto, rindo, fazendo brincadeiras. 
Isabela ria de volta, descontrada. A eu a vi olhando muito para certa 
blusinha. Aproximei-me mais, abraando-a.
 A Gatinha gostou?
 Ah, gostei... mas no d para gastar dinheiro com isso.
 Pxa, mas se a Gatinha quer... ganha! Podemos fazer a 
"loucura" de gastar R$ 15,00 nesta blusinha. Depois a gente v...
Isabela procurou pr o p no cho.
 No, no, no, Nen! No d. Vamos, vamos indo!
Continuamos olhando as coisas, mas a minha cabea dava voltas 
tentando achar uma soluo. Me partia o corao ver Isabela querer algo 
to simples e no poder lhe dar.
Ento dei um estalo:
 J sei! Podemos fazer um carto de crdito da "Little Darling"! 
Fica pronto na hora, e voc poder parcelar no carto, at em cinco 
vezes!
Isabela parou para pensar.  Ser...?
 , sim, "M"! Vem! Vamos l no atendimento ao cliente para a 
gente se informar.
Eu a peguei pela mo e fomos. Era s entrar com o pedido do 
carto, eles
consultavam o SPC na hora e j podamos usufruir do 
parcelamento. Ento preenchemos a ficha cadastral, apresentamos os 
documentos. Isabela estava radiante.
 Oba! Oba! Nen v se escolhe alguma coisa para voc 
tambm! Aqui tambm tem artigos masculinos.
 No, Nen no precisa de nada.
 Ah, mas eu quero dar alguma coisa para voc! O dinheiro  
meu! Faz tanto tempo que a gente no se d um presente... vai escolher 
algo pra voc!
 No, Gatinha... no preciso mesmo de nada agora!
 Precisa, sim! Nen precisa tanto quanto a Gatinha. Vamos l! 
Vamos ganhar presente. Todo mundo ganha presente!
Ento escolhemos, experimentamos, demoramos um tempo. 
Isabela me fez experimentar um monte de coisas para no fim 
escolhermos uma camisa.
Munidos com minha camisa e a blusinha dela, sorridentes e 
animados, fomos tratar de ver a quantas andava a aprovao do carto 
para poder passar no caixa.
Foi a surpresa das surpresas:
 Ns no vamos poder lhe conceder o carto porque constam 
dbitos em seu nome... explicou gentilmente a moa do balco.
Eu gelei e Isabela tambm deixou morrer o sorriso:
 Dbitos? Mas no  possvel! Que dbitos?!? Ela olhava para o 
computador.
 Tem um cheque devolvido aqui... de uma concessionria de 
automveis, no de aluguel de automveis...
 Ah! Eu sei o que  isso! Mas... no  possvel... isso j foi 
resolvido h anos!
 Mas ainda consta em aberto?
 Olha, eu sei que voc no tem nada com isso... fui dizendo 
para a moa.  Mas tudo isso j foi resolvido. Isabela foi furtada anos 
atrs, e j foi tudo esclarecido. Isso remonta  poca dos cruzados. No 
pode ter esta pendncia a! Ela tem cheque especial, carto de crdito, e 
tudo o mais... posteriores a este problema. Ela no pode ento parcelar 
no carto de crdito dela?
 No, nesta rede de lojas s parcelamos com o nosso prprio 
carto.
Ela foi educada e ns agradecemos, no havia mais nada a ser 
feito. Deixamos as compras ali mesmo e samos, calmamente, com a 
cara no cho, envergonhadssimos pelo constrangimento.
Paramos na porta da loja, totalmente atordoados. Ns nos 
sentamos como quem acaba de levar uma pancada na cabea. Ficamos 
mudos e sem saber o que fazer por um momento. Estava estranho 
aquilo...
Decidimos voltar e perguntar melhor para a moa sobre aquilo. 
Precisvamos de mais dados. Voltamos.
 Ns gostaramos de pegar todos os dados do cheque para 
podermos tomar as providncias.
 Tudo bem. Qual  mesmo o CPF?
Isabela falou, e logo a moa abria a tela do computador mais uma 
vez.
 No estou entendendo... cad o cheque?  perguntou Isabela.
  assim: a tela est dividida em duas partes. Na parte de cima 
aparecem seus dados, est vendo? Nome completo, data de nascimento, 
etc. Se houver algum protesto, aparece no campo inferior da tela  ela 
apontava com o lpis.  Embaixo est o cheque de R$ 13.000,00; e 
seus dados aparecem novamente.
Isabela notou algo que at ento a moa no havia notado:
 Olha s! A minha data de nascimento est errada a na parte de 
baixo da tela, olha s!
  mesmo... deve ser um erro de digitao. Isabela foi sincera 
at demais:
 Erro de digitao?! Mas errar tudo deste jeito?
Isabela olhou significativamente para mim e falou em tom srio:
 Vem s dar uma olhada.
Eu olhei e houve entendimento na hora. O significado era claro 
como gua.
 Est escrito 31.12.1999...  Pois ...
A moa no podia entender o porqu de nossa inquietao. 
Copiamos o nmero do cheque, agradecemos e samos de novo. Eu 
estava indignado.
 Que audcia!!! Mexer comigo tudo bem, a tem sentido. Eu tra 
a Irmandade. Mas o que voc tem a ver com isso?
Isabela olhava para o papel com os dados.
 A soma dos dgitos do nmero do cheque resulta em 9. O 
nmero 13, valor do cheque,  nmero de morte, certo? E aquela data... 
na tela do computador... parecia... parecia ser...
 Uma lpide, no  isso? Isabela me olhou estranhamente:
 Voc tambm achou isso?
 Para mim  muito claro.
 Foi o que pensei. Em cima a data de meu nascimento, e meu 
nome; embaixo a data da minha morte... o cheque foi reinserido no 
computador, para dar um aviso... falta mais de um ano para esta data 
chegar...
Abracei Isabela, mas meu sangue fervia de raiva.
 Nada vai acontecer. Voc sabe que Deus  por ns.
 Eu sei... s estou digerindo isso... aquele cheque foi escolhido a 
dedo, hein? Os seus nmeros tambm nos trazem uma mensagem 
subliminar.
 Isso  verdade. Eles deixaram a assinatura, para que ns 
pudssemos saber.
 Quando a Esther falou sobre a revelao de ataque de morte, 
imaginei que eles tentariam algo mais imediato. Mas marcaram a data 
para longe.
 No seria agora. A morte, no entender deles  um prmio. Uma 
libertao.
Tem que haver, antes, muito sofrimento! A ponto de desejarmos a 
morte e no a encontrarmos. No seria agora. Alis... no vai ser nem 
agora nem depois! Mas acabei deixando escapar:
 Um pouco antes da minha, pelo que parece.
Dessa vez Isabela sobressaltou-se de verdade. O que se referia a 
ela parecia no pesar tanto, mas tudo que se referia a mim era 
angustiante:
 Como assim, a sua? Voc acha que vai mesmo morrer?! ? Me 
dei conta de ter dado com a lngua nos dentes.
 Ah!  bobagem...
 Bobagem?! Sua morte?
 No vai acontecer... Deus est guardando. Mas disseram que 
eu morreria com dor e sofrimento como Ele mesmo morreu.
 Deus no vai permitir isso... ela procurava convencer tanto a 
si mesma quanto a mim.  Que sentido teria isso? Labutar, labutar, 
comer literalmente "o po que o diabo amassou"... para no fim... 
simplesmente se cumprir o decreto deles? "Voc vai morrer"... e voc 
morre mesmo! Que sentido tem isso? Ou eu...? Chega o dia 31.12.1999, 
e eu morro tambm?  Isabela procurava engolir o temor e ficar bem 
convencida do contrrio.
 Ento... por isso que estou dizendo: Deus est nos guardando.
 Claro, est guardando!  Isabela elevou um pouco o tom de 
voz, levemente irritada, fruto da tenso de sua alma.  Oxa, que gente 
que no desiste!!
Procurei brincar um pouco para descontrair o clima tenso.
 Eles esto loucos da vida com a gente, n? Agora at voc 
entrou para o rol dos "procurados": Procura-se vivos ou mortos, Kid Nen 
e Gatinha Miau!
Isabela riu meio nervosa.
 Sabe de uma coisa? Nunca imaginei estar vivendo uma histria 
dessa. S acredito porque est acontecendo comigo.  duro crer que 
Deus vai dar um fim feliz nisso tudo bem, agora que nosso dinheiro 
sumiu, meu nome est protestado de novo, e no encontramos apoio de 
quase ningum. Exatamente como eles disseram que seria. Disseram 
que tudo pioraria depois de maro, e assim est sendo. s vezes  difcil 
ter bom nimo, no  mesmo?
Abraamo-nos. Claro que o emocional se abala. Ns no somos 
de ferro! Mas l no fundo, no ntimo, uma certeza reinava. Podia at 
parecer que o diabo estava ganhando terreno, e os filhos do Fogo tinham 
aparentemente mais Poder que ns, Cristos... mas no seria assim para 
sempre. Era como Isabela disse: "Que sentido teria tudo isso... se no 
final o diabo triunfasse?"
 OK. Eu vou falar com Grace para ns orarmos logo sobre isso. 
Agora temos que orar tambm por voc. Estou me lembrando melhor 
acho que realmente havia um decreto sobre isso tambm... se algum 
"tomasse" o lugar de Thalya, a suposta "alma gmea", morreria de forma 
violenta e inesperada, um pouco antes de mim. Bate bem, n? Voc em 
31.12.1999... e eu, no mais tardar, no incio de maro de  2000. Antes de 
eu morrer, tudo  minha volta teria que ser destrudo. Isabela balanou 
vrias vezes a cabea, bufando.  Bom... isso eles dizem. Ns temos 
que fazer nossa parte, que  compartilhar e orar.
 Faremos isso.
* * * *
De fato foi o que fizemos. De resto, passado o desconforto 
passado na "Little Darling", eu fui atrs de saber o que tinha acontecido 
com aquele cheque de R$ 13.000,00. O dono do estabelecimento sabia 
menos do que eu.
 Ah, ?  exclamou ele, estupefato.  Foi reinserido o cheque? 
Mas que coisa mais esquisita! No fomos ns que fizemos isso.
 Pois eu  que no estou entendendo nada. O senhor podia 
fazer o favor de ver o que aconteceu?
 Certamente.
Ele ficou com meu nmero de telefone para me dar um retorno. 
Em dois dias ligou novamente:
  Olha, como aconteceu eu no sei... mas de alguma forma o 
cheque foi novamente inserido, no ms de maro deste ano, no SPC. 
Desculpe-me... j tomei as providncias e est tudo em ordem. Perdoem-
me pelo transtorno.
 Em maro... tudo bem, obrigado!
Depois contei a Isabela que tudo j estava resolvido.
 Eles s queriam dar o recado.  Bem, conseguiram dar.
 O recado, sim. O resto... cabe a Deus.   isso!
Parecia que a Irmandade estava em todos os lugares e tinha 
Poder sobre tudo.
* * * *
Captulo 29
Naquele ms de abril, apenas uma semana depois, fomos 
obrigados a vender o pouco que tnhamos. Precisvamos arcar com 
nossas despesas. A soluo que encontramos foi vender nossa geladeira 
e nossa televiso, os nicos bens comprados para o casamento antes da 
nossa conta ser deletada do banco.
A geladeira estava fechada na caixa e guardada no quintal da casa 
de Isabela h vrios meses. A TV e o vdeo de ltima gerao estavam 
sendo usados por ela, mas no tinha outro jeito. Isabela nunca teve TV e 
vdeo particular, no quarto, mas eu tinha achado timo que ela pudesse 
usufruir deste pequeno benefcio. s vezes o tempo esquentava na sua 
casa, e era bom que tivesse um lugar de refrigrio no seu quarto.
Realmente era uma alegria para mim saber que podia proporcionar 
a ela o conforto de pegar um filme de vdeo e assisti-lo com pipoca e 
refrigerante, sozinha, em seu quarto.
Anunciamos primeiro a TV por um preo bem abaixo do mercado. 
Vendeu rpido como um raio. No final de semana aquele homem foi at 
a casa de Isabela para pegar a TV Estava felicssimo!
Para mim foi uma dor to grande...
 Puxa... tanta privao ns tivemos para comprar essas coisas, 
para juntar nosso dinheiro. No temos quase nada e o pouco que temos 
est indo embora...  desabafei com Isabela.
 Ah, Nen...  Isabela passou a mo de leve ajeitando meu 
cabelo.  Eu tambm estou triste, mas no vamos nos deixar abater, 
no. Olha s... com esse dinheiro viveremos com mais tranqilidade at 
que voc encontre um bom trabalho. Isso vai ser bom, no vai?
Senti um n na garganta. Mas eu s conseguia pensar em nossa 
TV Philips de 25 polegadas, novinha, brilhando, indo para aquele carro. E 
o homem feliz da vida com nossa desgraa.
Pode parecer bobo, mas at chorei. No tinha sido fcil conseguir 
estas coisas. Tudo era fruto de nosso trabalho, nosso esforo. Eu nunca 
tinha conseguido acumular nada, e pelo visto ia continuar sem ter nada.
 Nen, ns temos um ao outro e temos nossa sade. A TV  de 
menos, depois compramos outra. Parece que o diabo est ganhando, 
mas isso  iluso, as coisas vo mudar!
 Voc est certa... uma hora isso termina. A tempestade no vai 
durar para sempre. O sol h de brilhar em nossas vidas!  s uma TV
 Pelo menos vendemos rpido. Agora temos para as despesas 
bsicas.
 Assim que eu arrumar um emprego, compro outra! Uma TV 
melhor ainda!
 T bom. Mas agora procura no pensar mais nisso.
Isabela ficou quieta um pouco... e falou de uma vez, s 
relembrando.
 Olha... minha me vai mesmo ficar com a geladeira, viu?
 Eu sei. Vender para algum da famlia  melhor. No d tanto 
peso... pelo menos estamos ajudando-a de alguma forma. A geladeira 
dela est ruim mesmo. E vamos vender a um bom preo.
Logo fomos pegar a linda e enorme Brastemp no quintal e 
colocamos na cozinha. Ficou jia!
E ns desafogamos um pouco financeiramente falando.
* * * *
Eu levaria mais um ms para estar empregado. Arre!!! No era o 
emprego dos meus sonhos, nem o salrio dos sonhos. Mas estava bem 
empregado em uma Multinacional, como Analista Econmico Financeiro, 
pertinho do servio da Isabela.
Aquela situao no estava fcil... muitas vezes tinha que dividir 
at mesmo um cafezinho com Isabela, bem como o frasco de xampu. 
Mas no perodo de escassez aprendemos muito sobre dzimos e ofertas. 
Mais tarde compreenderamos que tudo aquilo fora necessrio, e muito 
importante. No era o diabo que estava triunfando, mas Deus permitindo 
o ataque do inimigo para nos ensinar. H princpios que s so 
aprendidos atravs da dor, no meio da tristeza. Foi importante ter 
passado por tudo aquilo.
* * * *
Realmente, embora constatssemos o Poderoso ataque contra 
ns, me sentia amortecido, paralisado. Isabela insistia na orao em 
concordncia e no jejum, que tantas vezes fizemos. Ela cria no haver 
outro caminho. Mas... seria mesmo suficiente?
No era medo, no era terror ou pnico! S estava um pouco sem 
direo. Talvez na minha mente, bem l no fundo, eu esperasse pelo 
Pastor Brintti.
Se eu pudesse encontr-lo! Se algum pudesse me dizer aonde 
aquele homem se encontrava! Ele certamente poderia me dizer algo 
mais.
Claro, Grace era tima, tinha grande autoridade. Disso eu estava 
certo. H mais de um ano ela me ministrava, e por incrvel que parea, 
continuava firme!
O nome dela no era mencionado entre aqueles que o diabo jurou 
que derrubaria, jurou que no ficariam ao nosso lado. Dona Clara era 
outra pessoa especial, e tambm continuava caminhando conosco.
Ns havamos aprendido muito com ela.
Porm as bombas continuavam estourando e continuavam nos 
atingindo! Essa era a verdade! Ser que estvamos mesmo tendo 
vitria? A vitria esmagadora e indiscutvel prometida na Palavra de 
Deus?
Ser mesmo que nossos ps pisavam serpentes e escorpies, e 
tnhamos autoridade sobre todo o Poder do maligno??! Ser que mil 
caam de um lado, dez mil a direita e... ns no ramos atingidos?
Jesus era cabea de todo Principado e Potestade, eu sabia disso, 
eu cria nisso porque estava escrito. No meu ntimo e no de Isabela havia 
uma latente convico de que seramos acudidos na hora "H", e nossos 
olhos no contemplariam a escurido da morte.
No agora. No na data marcada por eles...
Mas, at l... at l o que estava destinado a ns? Que linhas 
Deus escrevera a nosso respeito?
Nesse exato momento, nesta semana.... estaria realmente a Mo 
do Senhor dos Exrcitos sobre ns???
* * * *
 claro que estava... s vezes a presso emocional e espiritual era 
to grande que nossos olhos, como os de Pedro, desviavam-se de 
Jesus. E contemplvamos a tempestade. Por alguns instantes era 
possvel afundar num mar de dvidas e inquietaes, o gosto e o pavor 
da morte quase penetravam em nossa boca.
Mas a mo de Jesus era estendida, nos livrava da fora das guas 
e da tempestade. Nos punha novamente em terra firme.
  Ah! Filhos de pequena f!
De fato. Por um dia, dois, trs, a f esmorecia, ficava pequena. A 
amargura e o desnimo cresciam.
Mas l estava a mo de Jesus.
Sim. A mo de Jesus no nos abandonou.
* * * *
Era quase o fim do ms de setembro.
Sarah tinha convidado Isabela para participar de um jejum de 21 
dias. Ela e sua pequena equipe de discipulantes iam jejuar pelo 
Ministrio de Sarah e Jefferson, e tambm por suas vidas pessoais.
Como ns estvamos agora em contato mais freqente com eles, 
indo a uma reunio de orao que dirigiam em sua casa, Sarah 
comentou sobre o jejum e Isabela aderiu. A primeira semana tirava do 
cardpio carnes vermelhas, doces, refrigerantes, feituras. Na segunda 
semana somente se comia frutas, legumes e verduras. Na terceira 
semana somente lquidos, embora Sarah tivesse dito que poderia ser 
igual  segunda semana.
Isabela fez o jejum direitinho, separou um perodo para orao e 
leitura da Palavra. E tambm procurou outro emprego, o qual veio rpido. 
Ela tinha muita facilidade para arrumar trabalho, e dos bons. Agora ela 
iria trabalhar no perodo da manh, perto de sua casa, num Ambulatrio 
sediado no Centro Administrativo um grande banco. Era um lugar muito 
amplo e bonito. O salrio era cerca de 25% maior. Os colegas de 
trabalho eram acessveis, tanto os Mdicos como a equipe de 
enfermagem.                                                     
No entanto, Isabela agora no tinha tanto tempo livre no horrio de 
trabalho para escrever o livro. Porque aumentou bastante o nmero de 
consultas. Ento, para compensar, ela trabalhava em Filho do Fogo 
arduamente na parte da tarde. As partes um e dois do livro j estavam 
escritas, mas tudo a mo. Ento Isabela resolveu comear a digitar e 
reler aquele material, uma vez que muitas coisas j estavam perdidas em 
sua memria ao longo daqueles trs anos e meio desde que iniciara a 
escrita.
O nico detalhe  que Isabela no sabia digitar. Nunca tinha 
aprendido datilografia e no estava inteirada dos recursos do 
computador. Determinada, mesmo assim ela encarou a digitao do 
texto. Passava a tarde toda trabalhando, at a hora de encontrar-se 
comigo na academia, que tnhamos retomado. Eu ia direto do servio 
para l, e ela vinha da casa dela.
Estava um pouco mais fcil agora, pois Dona Mrcia tinha me 
emprestado o fusquinha amarelo e eu podia me locomover mais rpido 
com carro. Isabela ficou com o Palio.
Nossa semana estava bem puxada, s segundas-feiras amos 
para a casa de Sarah e Jefferson, para a reunio de orao.
Tera, academia. Quarta tnhamos aconselhamento com Dona 
Clara, e em seguida o Culto. Quinta, academia de novo. Sexta-feira,  
noite, o curso de preparao de lderes da Comunidade.
Saamos de l em torno das dez e meia da noite e amos direto 
para a casa de Isabela, brincando pela rua de ultrapassar um ao outro. 
Afinal, eu chegara no fusca e ela no Palio. Normalmente sexta-feira era 
dia de fazer macarro. A gente ia para a cozinha, Dona Mrcia ia atrs, 
comia junto conosco. Era bastante agradvel, a gente punha o papo em 
dia, conversava sobre a semana.
Eu gostava de Dona Mrcia, me dava muito bem com ela. Quase 
sempre ela me tratava como mais um filho na casa.
Assim amos levando as semanas, o ms. Sbado era dia de 
passear, espairecer, ir ao Shopping, olhar vitrinas, tomar um caf. Coisas 
assim. Ou ento pegar um filme de vdeo e assistir com pipoca e 
refrigerante.
Domingo, dia de comida especial na casa de Dona Mrcia. E  
noite, Culto, onde renovvamos nossas foras espirituais com o Louvor e 
a Palavra.
ramos praticamente os ltimos a sair da Igreja, quase sempre 
tinham que nos "expulsar", por causa das conversas interminveis com 
Dona Clara. Lgico que a gente jogava uma conversa fora com outras 
pessoas. Mas com Dona Clara era diferente, aquela para quem a gente 
tinha prazer em contar tanto as bnos, quanto as lutas, aquela que 
estava sempre a par de tudo, aquela que tinha sempre a palavra certa 
para dar.
O marido dela, seu Benito, era paciente; deixava Dona Clara com 
a gente at as luzes da Igreja comearem a apagar. Este seria um tempo 
do qual sentiramos falta no futuro...
Da, vinha outra segunda-feira, outra semana....
Outubro foi ms de eleies.
Naturalmente era espantoso e estranho ao mesmo tempo dar de 
cara com alguns daqueles noventa, aqueles escolhidos pelo prncipe 
deste mundo para ocuparem posies estratgicas dentro do contexto 
poltico brasileiro.
Mais espantoso ainda era observar que o palco estava sendo 
armado, o cenrio se completava, e nada parecia impedi-los. Grace e 
Dona Clara foram as nicas que acreditaram realmente em mim, naquela 
poca. A orao destas servas de Deus, com mais um pequeno grupo de 
guerreiros, impediu que um daqueles homens abraasse o poder.
Foi algo que nos ensinou alguns princpios que valeriam muito, e 
sobre os quais nos pautaramos em decises futuras. Aprendemos que 
Deus no precisava de muita gente especulando e fuxicando, poucos 
guerreiros compromissados com a orao intercessria podem mudar a 
histria!
Aquele homem caiu, e me enchi de espanto. E muito no ntimo, 
enquanto todos se regozijavam, eu senti uma ponta de incmodo. No 
por causa do Morrit (Leia Filho do Fogo), afinal eu o vira muito pouco, 
mas porque Marlon o havia apresentado a mim, confiando aquele 
segredo.
Outros entraram. H certas coisas que so inevitveis. Uma delas 
 o Apocalipse. O Apocalipse vai acontecer, e ningum vai mudar nem 
impedir isso. O placo ser montado. Vai acontecer.
Mas o fato de v-los me trouxe certo pesar. Eu sabia que estavam 
cumprindo um cronograma. Tive pena, to enganados.... foi bom ver o 
rosto deles, mesmo que por poucos segundos. Tinham sido meus 
amigos enquanto eu tambm estava no engano. No senti ira, nem 
averso: apenas misericrdia.
Realmente era uma sensao esquisita, mpar, difcil de descrever. 
Eu deveria estar entre eles. Eu era um dos 90. Seria lanado naquele 
ano, subiria ao poder, parte do meu destino comearia naquele ms de 
outubro.
No entanto o Senhor dos Exrcitos havia mudado tudo aquilo. Era 
confortvel lembrar que se no fosse a Misericrdia e o Amor de Deus eu 
ainda estaria entre eles. Ainda bem que escolhi permanecer do lado de 
Deus. Mas... quem teria tomado meu lugar?
Marlon tinha dito em algum momento que a estratgia tinha sido 
modificada, no havia tempo e nem condies de me substituir. Isso me 
deixara um pouco confuso, afinal, eu tinha passado apenas seis anos na 
Irmandade! Outros seis anos no teriam preparado outro nas mesmas 
condies e com as mesmas caractersticas?! Porque seria to 
insubstituvel!?
Aquele ms trouxe-me um pouco de confuso.  um grande 
equvoco pensar que todos os traumas de um ser humano podem ser 
apagados como o vento que sopra, e passa, de um dia para o outro.
Aparentemente o processo de libertao havia terminado, mas 
meu corao e alma tinham verdadeiros abismos a serem tratados, ainda 
chagas e feridas profundas para serem curadas.
Eu passei alguns dias pensando... pensando... orei... repensei. 
Quando estava convencido, Isabela j tinha at mesmo pedido orao e 
compartilhado o problema com Grace, Dona Clara e Sarah.
Um destes problemas veio logo depois das eleies.
Tinha falado para Isabela:
 Tenho me sentindo mal, sabe?... Um verdadeiro traidor, um... 
um Judas!
 U? O que voc quer dizer com isso?
Nem eu sabia explicar direito, mas aquela era uma sensao tnue 
que vinha me invadindo j havia algum tempo. Eu no sabia traduzi-la 
bem, mas o termo mais prximo era talvez aquele: traio.
  difcil de explicar... Isabela tentava entender.
 Mas espera um pouco! Voc est se sentindo um Judas por ter 
sado da Irmandade e abandonado o barco, deixando esse pessoal para 
trs!?
 No, no...  sacudi a cabea.  Eu optei por abandonar 
Lcifer! Mas as pessoas foram minhas amigas enquanto eu estava l... 
eles me deram o que tinham de melhor. Entende? Por mais que 
estivessem enganados, mesmo seu engano no os isentou de me 
proporcionar o melhor. Aquilo que entendiam como sendo verdade. Eu 
recebi muito deles, no sei se voc est entendendo...
Isabela tinha seu rosto compassivo, os olhos cheios de 
compreenso e uma certa ternura expressa neles. Suspirou.
 Eu entendo, Nen!
  isso... sabe... eu no tenho raiva deles, das pessoas. O 
culpado  o diabo. Eu recebi muito deles, muito mais do que tenho 
recebido dos crentes. Marlon me confiou segredos, planos, estratgias. E 
aqui estou eu, dedurando tudo.
Desta vez Isabela se mexeu na cadeira.
 Mas, Eduardo, a voc se engana. Voc no fez nada errado, 
fazia parte da sua Ministrao, e...
 Eu sei!
 Mas voc no deve fidelidade a eles, Nen, mas a Cristo.
  Voc no est entendendo, eu sei disso! Mas no meu ntimo 
fica essa sensao... uma sensao de ser um Judas! Claro que minha 
fidelidade  para com Deus, mas entenda isso. Se eventualmente, por 
algum motivo qualquer, de repente eu comeasse a achar que o 
Cristianismo no expressa a Verdade. E me convertesse, por exemplo, 
ao Islamismo, ou virasse um Krishna... eu nunca ia falar mal da Grace, 
da Dona Clara... de voc! Entende? Ainda que no mais compartilhasse 
da mesma viso, eu iria trazer na lembrana o bem que vocs me 
fizeram.
Isabela calou um pouco... e por fim disse:
 Eu entendo seu sentimento, Nen. Ainda que o seu esprito 
tenha tomado a deciso certa... a alma se ressente mesmo. Eu 
compreendo, no esprito, que voc tomou a deciso certa. Porm voc 
no pode viver assim. Deus no quer isso para sua vida. A confisso e o 
perdo de Deus tem que trazer paz em sua alma Imagine o que Moiss 
no deve ter sentido quando saiu do Egito! Para todos os efeitos, era sua 
terra natal. Tinha amigos l! Depois teve que voltar e confrontar Fara, 
que um dia foi seu amigo...
 ... no deve ter sido fcil...
 De qualquer forma vamos pedir orao, viu? Vamos conversar 
sobre isso com a Grace e buscar de Deus o livramento deste peso sobre 
sua alma.
Nos prximos dias realmente eu compartilhei aqueles sentimentos 
que me incomodavam, com toda a sinceridade, sem ocultar nada. Foi um 
alvio no me sentir julgado, nem crucificado, mas compreendido. 
Realmente h aspectos da transformao que no acontecem do dia 
para a noite. Seria hipocrisia e uma grande mentira dizer o contrrio.
* * * *
Sa bem cansado do servio naquela tarde. No era por causa do 
excesso de trabalho, mas devido a eu no ter dormido bem na noite 
anterior.
Meu sono fora agitado, e pela manh meus olhos pesavam. 
Levantei dando-me conta pela primeira vez que aquele sonho j se 
repetia por trs vezes consecutivas.
Por algum motivo eu esquecia assim que me arrumava para o 
trabalho, e no comentava com ningum. Mas desta vez... foi to real, 
que pensei nele o dia inteiro. No meio da agitao do trabalho em um 
Departamento Financeiro, volta e meia eu me via lembrando daquele 
estranho sonho...
"Ser um aviso de Deus?... Por que eu sonharia isso por trs 
vezes???"
No fim do dia fui encontrar com Isabela na academia.
Atravessei a catraca eletrnica como de costume.
A msica tocava animada, mas no de forma ensurdecedora, 
gente bonita elegantemente uniformizada zanzava por todos os lados. 
Fui colocar a roupa de ginstica e tentei me motivar a fazer um treino 
leve.
Mas no consegui... fiquei ali parado...
Isabela chegou logo.
 Voc j acabou?
 No, nem fiz nada.  que eu dormi mal esta noite.
 Foi? Mas por qu?
 Sei l. Tive um sonho esquisito, acho que foi isso.
 Que sonho?
 J  a terceira vez. Mas acho que no deve ter nada a ver, no, 
sabe? Deve ser coisa de minha cabea.
 Mas, o que foi?
 Bom... so sempre situaes diferentes, mas acaba caindo na 
mesma coisa, e foi isso que me marcou.
 H-h...!
 Lembro que estava em algum lugar, no me recordo qual, mas 
eu percebia algum que no parava de me encarar. Um homem. Eu no 
gostei dele, e logo pensei em me afastar. Peguei o carro e fui embora, 
em direo da minha casa. Ele veio atrs de mim, continuou me 
seguindo.
 Sei...
 Quando eu desci do carro, ele desceu tambm e veio na minha 
direo. Lembro-me bem dele: era bem alto, muito magro, bem magro 
mesmo, ossudo. Dava para ver o contorno dos ossos faciais, sabe? 
Tinha uns cinqenta anos. O que me chamava a ateno nele era seu 
olhar. Era um olhar maldoso, cruel!
 Como assim?  fez Isabela, muito intrigada.
  No sei como descrever...  pensei um pouco.   uma coisa 
to sem parmetros!
Ainda pensei um pouco mais. Lembrei de um antigo exemplo que 
Marlon usou comigo para me explicar um ponto da doutrina Satnica.
 Uma vez Marlon me disse que no temos o rosto simtrico. Por 
isso se pegssemos uma foto de algum e no centro desta 
colocssemos um espelho, este iria refletir o mesmo lado da face, e a 
teramos um conjunto simtrico. Um destes conjuntos vai resultar num 
semblante bondoso... representa o lado bom... o outro conjunto ter um 
semblante ruim, maligno,  o lado negro. Claro, isso era s para ilustrar 
uma questo, no podemos nos pautar neste exemplo como sendo 
realidade. Mas isso ilustra bem o que aquele rosto representava. Um 
rosto cem por cento mal.
 Hummm...
 Pois, . O tal homem se aproximou de mim me tratando com 
muita educao e polidez. Apesar daquele olhar. Ele me estendeu a mo 
e perguntou por que eu estava fugindo dele.
 .......
 E a me deu um aperto de mo. Com uma fora descomunal, 
parecia que meus ossos iriam estourar. Tinha uma fora desproporcional 
 sua estatura. Suas mos mais se pareciam com morsas.
 Pxa, que coisa. E voc sonhou isso trs vezes?
 Foi, mas as outras situaes eram diferentes. Mas sempre 
terminava com o mesmo homem magro, alto, cerca de cinqenta anos, 
olhar maligno, me perseguindo e depois apertando minha mo. Quase 
quebrando meus ossos.
 Bom... pelo sim, pelo no, vamos orar por isso. Talvez Deus nos 
fale algo! Retruquei com um "" meio da boca para fora. Eu no queria 
pensar muito a respeito daquilo. Nem me lembro se realmente oramos a 
respeito.
* * * *
Eu e Isabela tnhamos decidido pr um fim em nosso noivado e 
enfrentar o
desafio do matrimnio. Escolhemos a data. Calhou de contarmos 
primeiro para Sarah e Jefferson, que aprovaram nossa deciso. Naquela 
noite, oramos os quatro, selando no Reino do Esprito aquela data. Final 
de fevereiro do prximo ano
 Creio que Deus nos convenceu de que  o tempo...  dissera 
Isabela.
  verdade  eu acrescentei.  Nunca tivemos coragem de dar 
esse passo de f, mesmo quando tnhamos mais condies. Mas agora 
estamos convencidos de que o tempo chegou. Se ficarmos esperando 
juntar dinheiro, ter isso aqui, aquilo ali... no casaremos nunca! No vai 
dar para comprar apartamento, mas tudo bem.
Sarah acrescentou convicta:
 Vocs esto dando um importante passo de f. Deus far 
grandes coisas, vocs vo ver.
Naquela noite samos de l felizes. No havia outra palavra.
Isabela comunicou Dona Mrcia. Aquela notcia ela no esperava, 
assim to de repente. Nem acreditou muito, imaginando que fosse 
apenas um alarme falso.
Mas no seria assim. No voltaramos atrs. Isso era certo tanto 
para Isabela como para mim. Aquela data no seria adiada!
Grace aprovou sem contestao. Dona Clara imediatamente. 
Havia completa unanimidade e testificao em todos!
Claro que no seria to fcil...
A comear pela minha insatisfao com meu novo emprego. Meu 
chefe era um chato! O departamento uma baguna. Estavam 
implantando ou melhor tentando implantar um novo sistema de trabalho. 
E nada funcionava como o previsto, era trabalho e retrabalho o tempo 
todo. Como eu entrei em uma posio acima dos mais antigos, tambm 
tinha que conviver com a inveja de meus colegas de servio. Queria algo 
melhor!
 Nen, voc sempre me apoiou com os meus desvarios em 
relao ao meu trabalho. Desde a poca em que larguei a residncia, 
voc me apoiou e me ajudou a encontrar a soluo para minha 
insatisfao. Eu no poderia agir diferente com voc. Quero que esteja 
bem, satisfeito.
Fiquei sinceramente comovido. Ela continuou, com sinceridade:
 Uma coisa  certa... por enquanto... enquanto voc est na 
casa de sua me e no estamos casados,  perfeitamente plausvel 
procurar outro emprego. Ainda temos alguns meses at o casamento, 
pode ser que neste tempo voc ache algo melhor. Seja estivssemos 
casados, no poderia ser assim. Mas agora, podemos arriscar!
Me animei com a postura otimista dela.
 Pxa, Gatinha... talvez voc tenha razo! Ser mesmo?
 Claro, Nen! No custa voc tentar procurar algo melhor, n? 
Eu estou do seu lado para isso!
 Mas como vou procurar emprego se trabalho o dia todo? Eu 
precisaria de uns dias livres para poder ir atrs.
  verdade  os olhos de Isabela brilharam.  E quem disse 
que a gente no pode dar um jeitinho nisso?
Olhei para ela, j com uma risada na garganta.
 Voc acha... que talvez eu possa ficar "muito doente"? Isabela 
comeou a rir tambm.
 E por que no? Se voc tivesse uns dez dias j era uma boa 
oportunidade, no ?
Geralmente Isabela dava conselhos bons e balizados, mas hoje 
reconheo que daquela vez ns dois chutamos o balde. Engraado como 
 isso... nossa conscincia para com Deus nem doeu. Na verdade, nem 
ligamos para o fato de estarmos armando uma mentira, nem pensamos 
em perguntar para Deus se aquela era a direo certa, a coisa certa a 
fazer: procurar outro emprego.
Querer melhorar no  errado, mas aquela tramia toda...
 Mas o que a gente faz, ento?  tornei a perguntar.  Como 
vou conseguir atestado Mdico? Tem que ser um Mdico do convnio 
que a Empresa tem, seno eles no vo aceitar. Tem que ser atestado 
do convnio Banco Classe A.
 Tolinho! Voc se esqueceu que eu trabalho no Centro 
Administrativo do Banco Classe A? Todos os formulrios de sade esto 
ali, na minha mesa!
Ns riamos com a corda toda, animados com aquela facilidade to 
a mo. Deus ficou do lado de fora daquela trama toda.
  Bem, o que eu vou ter?
 Hummm... que tal um problema ortopdico? Alm dos dias em 
que voc estiver "engessado", ainda viro depois as sesses de 
"fisioterapia".
 Fechado!
 Mas vamos fazer direito, lentamente. Primeiro voc comea a 
se queixar de dor, manca uns dias, voc se machucou na academia 
fazendo ginstica. Depois diz que no est mais agentando, que no 
passa com nada... ento vai ao Mdico.
 E o que eu terei?
 Bom... como todos sabem que voc faz ginstica, e corre... mas 
no sabem o quanto voc corre. Vamos criar uma sintomatologia de 
tendinite de Aquiles. Do tendo de Aquiles, comum em corredores. 
Depois eu fao o encaminhamento, para voc passar naquele 
Hospitalzinho perto de sua casa. Ele faz parte da rede de seu convnio.
 Ah, sim. O que tem m fama?
 Pois , eu dou uma induzida no encaminhamento e acho que 
voc sai de l engessado. Eu, como Clnica Geral no posso pedir que te 
engessem. Mas o ortopedista pode. E o Hospital  conveniado, ento...
 timo, amanh mesmo j estarei com dor na perna. Aonde eu 
devo sentir dor?
Isabela me explicou tudo sobre a dor, principalmente porque eu 
deveria convencer o ortopedista.
Na manh seguinte comecei a falar para todo mundo do meu 
"problema" No final do dia vrias pessoas j tinham me orientado.
 V se vai ao Mdico, cara! E se piorar?
No dia seguinte at o chato do meu chefe comentou que eu 
deveria me tratar.
 T bom, vou ver o que  isso amanh pela manh, mas sinto 
um "peso" em ficar faltando aqui no servio, tem tanto o que fazer... 
chego antes do almoo, t?
Passei um leo de peroba facial, para hidratar a cara de pau.
Fui no Mdico no dia seguinte, pela manh. Contei ao ortopedista 
tudo o que tinha sido orientado a falar. Fui engessado!
Aquele Hospital tinha fama de engessar todo mundo. Chegava l 
com uma dorzinha na mo; gesso nela! Dor no p; gesso nele! Se 
sentisse dores pelo corpo... saia de l uma mmia!
Mas logo constatei que no tinha condies de voltar para casa 
sozinho... o gesso pesava e estava ainda meio mole, se andasse ele iria 
se destruir.
Meu irmo Roberto estava em casa e liguei para ele me buscar. 
Imagine o testemunho que eu estava dando! Meu Deus...!!!
"Ficaria" com o gesso por dez dias!
Isabela me pegou em casa mais tarde e me levou para a Empresa, 
onde fiz questo de desfilar com o gesso e entregar pessoalmente o 
atestado nas mos de meu chefe:
 Sinto muito... mas tiveram que engessar... vou ficar dez dias em 
casa. Se eu puder fazer algo em casa mesmo para ajudar... (torci para 
que a resposta fosse negativa).
 No, no h o que voc possa fazer, cuide-se!
"Yessssss."
Cheguei ao carro que me aguardava no estacionamento, com 
Isabela no volante, animada!
 E a? Tudo certo?  perguntou ela.
 Tudo em cima! Vamos comemorar! Estou de "frias"!
 Puxa, que loucura ns fizemos.
 , mas foi por uma boa causa, amanh mesmo passarei o dia 
todo procurando algo novo!
Foi exatamente o que fiz. Encontrei uma boa oportunidade. O 
processo seletivo estava iniciando. Foi super moroso. Os dez dias no 
foram suficientes para as trs entrevistas, uma dinmica de grupo e duas 
provas escritas, fora os psicotcnicos. Isso foi gradativamente eliminando 
os concorrentes. Eu fui ficando, ficando, ficando e logo era um dos 
finalistas.
Nesse nterim, eu j estava fazendo "fisioterapia". Mas estvamos 
com a conscincia pesando... queramos que aquela mentira terminasse 
logo.
Fiquei na final com outro rapaz. Mas o Diretor Financeiro estava 
viajando, e a ltima palavra seria dele. Por isso tive que esperar.
O peso de estar desagradando a Deus comeou a incomodar. 
Pedimos perdo, e prometemos nunca mais nos comportar daquela 
maneira. Existe um preo a ser pago pela verdade. E como filhos de 
Deus, nosso compromisso deveria ser com a verdade a todo o custo.
Oh, que Deus tivesse misericrdia!
E no  que o emprego to sonhado, gorou? O Diretor Financeiro 
trouxe uma pessoa do exterior para preencher a vaga em aberto. Fiquei 
na mesma. Aprendemos mais uma vez, pelo pior caminho, que  melhor 
sempre consultar a Deus para TUDO, antes de tomar qualquer deciso 
louca e impensada. De nada adiantou toda aquela nossa enrolao.
E por falar em Diretor Financeiro, tambm nosso departamento 
estava vivendo uma situao bem atpica.
Fazia j seis meses que nosso ex-diretor tinha sido sumariamente 
demitido, aps vrios anos de casa. Eu o vi pouco, porque ele saiu logo 
depois que eu entrei. Tinha sido com ele uma das entrevistas finais no 
processo de seleo.
Logo de cara o homem comentou comigo algo sobre Jesus, 
naturalmente, ali, no meio da conversa.
"Ser que este homem  Cristo?"
Depois de admitido, to logo surgiu oportunidade dei um jeito de 
perguntar a ele. Apareceu a deixa e fui indagando:
 Voc  evanglico?
 Sou. H um ms. Me converti h um ms, e logo serei batizado.
 Puxa! Que coisa boa!
Ele me contou seu testemunho de converso em poucas palavras. 
E do pouco que ouvi pude notar a f genuna daquele homem. Mas to 
logo assumi o cargo, em uma semana ele convocou uma reunio com 
todo o departamento e avisou do seu desligamento.
 Estou indo para um lugar melhor. Sei que Deus tem o melhor 
para a minha vida. Se esta porta est se fechando, Ele abrir outra ainda 
maior  e fez um discurso de pregador, com entusiasmo e muita f.  
Que Deus abenoe a todos vocs.
Achei estranho. Parecia que sua converso tinha lhe rendido o 
bilhete azul.
Lembrei do que Ricardo dissera, sobre haver pessoas da 
Irmandade naquele lugar. O que era bem provvel, pois o ramo de 
atividade ali estava diretamente ligado  Mdia, um filo muito importante.
Tudo tinha um ar esotrico. A proteo de tela dos computadores, 
os quadros nas paredes, at o desenho dos carpetes no cho... tudo era 
permeado com uma mensagem subliminar.
Um dia Mrcio, meu chefe, chamou a todos ns para dar a notcia:
 Olha  disse ele  quanto ao nosso trabalho, temos que 
deixar tudo muito organizado, hein? O cara est vindo direto importado 
dos Estados Unidos e dizem que  um verdadeiro "Bam-Bam-Bam"! Ele 
tem que encontrar nosso departamento nos "trinques".
 Quem est vindo?  perguntei.
 Ah, vocs no esto sabendo ainda?! O novo Diretor 
Financeiro.
 Ah,  mesmo?
 Puxa, um gringo... no encontraram nenhum brasileiro  altura?
 Quando ele chega?
Mrcio tinha tudo bem informado:
 Na segunda quinzena de novembro ele est a. Por isso no 
quero nada fora do lugar. Vamos trabalhar dobrado para pr a casa em 
ordem, est bem?
Fui encarregado de supervisionar o trabalho do grupo de perto, 
especialmente dos estagirios. Meu chefe no parava de me perguntar:
 Mastral! Est tudo em ordem?
 Sim, Mrcio, tudo em ordem.  Tudo tem que estar direitinho!
 OK! Tudo vai sair direitinho!
* * * *
Nove dias depois do Sabbath eu tinha marcado um encontro com 
meu antigo amigo Wang. No era sempre que ele estava no Brasil.
Infelizmente no dia do encontro eu e Isabela discutimos feio, pelo 
telefone. E eu acabei indo ver meu amigo tenso, atordoado, irado. E sem 
orar.
Isso era importante pois eu j tinha evangelizado Wang algumas 
vezes e desejava muito sua converso. Isabela, que conhecia Wang de 
vista, vinha orando por ele j havia algum tempo.
Fui ao encontro, no Shopping West Plaza, reclamando muito na 
mente.
"Como Isabela faz isso comigo? Parece que est contra mim!"
Ele ainda no estava l. Logo apareceu acompanhado de um 
amigo chins.
Tnhamos marcado o ponto de encontro em frente ao Amrica, um 
restaurante.
 Vamos sentar?  convidou Wang.
Fomos entrando e ocupamos uma das mesas do canto. No 
entendi por que Wang trouxe seu amigo Chen, mas me pareceu que eles 
tinham algo a fazer depois daquele encontro comigo.
Wang estava bem animado, de bliser, todo arrumadinho. E Chen 
estava  vontade de cala jeans e camisa. Fui obrigado a reparar no 
enorme medalho que ele usava e que eu podia perceber, apesar de 
estar por baixo da camisa. Em um verdadeiro "escudo"!
A impresso que eu tinha era que ele estava enjoado com o jantar 
e no via a hora daquilo acabar para poder ir embora. Apesar de tudo, 
ele riu um pouco. Logo nos sentamos, e ele perguntou algo ao Wang em 
chins.
 Ele quer saber se voc fala algo de chins!  disse Wang.
 Eu, no falo. Voc sabe disso. Mas, pera! Ele no falava 
portugus? Pelo amor de Deus! No  casado com uma brasileira?
 , ele fala sim  tornou Wang.
Chen s me olhava com certo desprezo. Ento eu retribu o olhar e 
disse a ele:
 Ento fala na minha lngua comigo!
Ele respondeu em chins, para Wang me traduzir.
 Ele fala portugus, sim. Mas no quer falar  ele est  meio de 
frescura hoje!  arrematou Wang.
 Pois , estou percebendo!!!  me enfezei. Que chins chato!  
t bom, j que ele no fala portugus, posso ficar mais  vontade. Por 
sinal esse seu amigo tem uma cara de "Bambi", voc no notou? E este 
"escudo" que ele pendura no pescoo, no d problema de coluna?
Agora Chen j  falava meu idioma:
 No, no... este medalho aqui  muito especial!  respondeu.
 Ah, voc fala, hein?
 Sim, eu falo!  disse secamente.
 Prazer, sou Eduardo, terrqueo, natural do hemisfrio sul do 
globo terrestre. Como vo as coisas em Saturno? Voc deve ser 
saturnino... alis, sabia que quando era criana eu assistia um filme que 
o heri era um pato? Com este nome, Saturnino! Voc via este filme? 
Lembra um pouco de voc, com as penas arrepiadas em cima da 
cabea!
Todos ns demos boas risadas, incluindo ele mesmo.
 Nasci em Pequim.
Enquanto Wang olhava o cardpio, eu conversei um pouco com 
Chen, que passou a me explicar o significado do tal medalho.
 Puxa, legal!
Depois disso puxei assunto para Pequim, seno a gente no sairia 
do tema: "medalho"! Ele passou a discorrer com entusiasmo:
 L a densidade populacional  enorme. Mas os ndices de 
violncia, roubo e crimes como seqestro so praticamente inexistentes. 
Se fssemos to desorganizados como vocs aqui do Brasil, estaramos 
no meio do caos! L h um senso de valores nobres! Honra, dignidade, 
honestidade, fidelidade, respeito. Aqui  tudo descambado! Ningum 
respeita ningum,  uma lata de lixo gigante, suja, que fede de longe... e 
muito bagunada!
E continuou seu discurso metendo a boca nos brasileiros. Eu me 
irritei com tamanha grosseria. O que estava fazendo aqui, ento? 
Detesto estrangeiro que vem aqui e mete o pau no Brasil. Por que no 
ficam l na terra deles? Ento retruquei:
 Ah, ? Ento volta para a China! O que voc est fazendo aqui?
 Aqui  um excelente lugar para ganhar dinheiro  respondeu 
Chen, sem se intimidar.   muito fcil ganhar dinheiro aqui, onde as 
leis no funcionam, no h fiscalizao, todo mundo aceita suborno, e 
ainda por cima o povo  burro, ignorante, compram at coc enlatado, se 
for importado! No acreditei no que eu estava ouvindo!
 Ah, ?!! Voc se acha mesmo, n? Acha a China muito melhor? 
Vocs comem qualquer coisa que ande ou rasteje, cobra, minhoca, tatu, 
besouros, at cachorro! Se coc andasse vocs comeriam tambm! 
Depois, pelo que vejo na TV, l  tudo muito sujo, vocs nem tomam 
banho, pensa que no sei?!  chutei o balde!
 Voc esteve l, por acaso?  rosnou ele.
 No estive, no, mas eu sei!
Wang nem ligava para nossa discusso e j tinha feito o pedido 
por todos ns.
  O Mestre Zhy me contou que l eles usam a manga da camisa, 
como guardanapo! Ela  branca para este fim! Ali, sim,  um chiqueiro!
 Isso foi em outro tempo. Mas apesar de tudo  um chiqueiro 
com ordem!
 P! Calma, calma! Que conversa, hein? Vocs mal se 
conhecem!  disse Wang colocando paz.
Apaziguamos os nimos, ficou provado que todo povo tem sua 
elite e sua escria. Suas qualidades e defeitos; deixamos de lado a 
polmica.
 O Eduardo  gente boa, Chen  disse Wang.
 Eu percebi isso! Olha, no me entenda mal, voc me parece 
mesmo excelente pessoa. No estava falando de voc, viu, Eduardo?
Apesar daquele pseudopedido de desculpas, Chen no tirava do 
rosto aquele arzinho de superioridade. Deixei aquilo de lado. Logo o 
garom trouxe o refrigerante e uma poro de batatas fritas.
 Refrigerante? No vamos tomar um drink?  indagou Chen.
 No, depois temos que dirigir, no vamos beber  respondeu 
Wang. Chen foi logo acendendo um charuto.
 Chen, aqui no pode fumar, voc no viu a placa?  
repreendeu Wang de novo.
 No leio em portugus. Quando pedirem para eu parar, eu paro. 
No agentei:
 P, Chen, se toca. Depois vem dizer que ns  que no temos 
educao! Aqui  o povo que no tem educao, n?
Chen ouviu, e continuou fumando. S fez cara de quem comeu e 
no gostou.
Como iria conseguir evangeliz-los com esse clima? Mas tinha que 
aproveitar a oportunidade. Toda hora Chen mudava de assunto passava 
a contar uma ou outra vantagem e mostrar o quanto ele era superior. 
Ento resolvi fazer outro caminho.
 Chen, voc  budista, n? Como o Wang, certo?
 Sim, somos budistas  fez uma leve pausa, sempre me 
olhando com aquele ar petulante.  Voc  Cristo, n? Wang me 
contou.
 Sim, sou Cristo.
 Pois .... no  muito mais bonito ver a imagem de Buda feliz, 
sorrindo, alegre, saudvel... do que a imagem de Cristo crucificado, 
pendurado, sangrando, sofrendo, agonizando? O que lhe traz mais paz?
Bem, consegui chegar no tema. Mas no exatamente como queria. 
Procurei com sabedoria as palavras.
 No distora as coisas. A imagem de Cristo crucificado  muito 
comum em Igrejas Catlicas, para lembrar do sofrimento dEle por ns. 
Porm, entre os Protestantes, os Evanglicos, no  assim. No 
colocamos mais Cristo na cruz, nem voc ver numa Igreja evanglica 
uma cruz. Se tiver, ela estar vazia porque Jesus ressuscitou. A 
crucificao j foi, tudo foi consumado... e agora Jesus vive, ressurreto! 
No est mais morto, est vivo e ativo!
Chen deu de ombros. Wang s escutava. Eu continuei.
 No vou discutir com voc os valores de sua crena. Mas a 
verdade  que Jesus ressuscitou dentre os mortos, curou enfermos, fez 
milagres e prodgios, e hoje a Histria da Humanidade foi dividida por 
Sua causa! Nosso calendrio demonstra este marco. Antes e depois de 
Cristo. Tambm quase em todo o mundo se comemora o Natal, 
lembrando do nascimento de Jesus, embora a data no seja essa. Buda 
no ressuscitou, no fez milagres, no mudou o calendrio. Porque foi 
homem. Sbio, bondoso, ajudou muita gente, mas era apenas homem. 
Limitado. Jesus  Deus em forma de homem! Jesus  o nico Caminho, 
a Verdade e a Vida!
Virei-me para Wang:
 E voc, Wang, leu o Evangelho de Joo como lhe orientei?
 Sim, li. Mas comparando com os outros evangelistas, vi que 
existem diferenas em suas narraes. O cego de Jeric, o 
endemoninhado Gadareno, por exemplo. No entendi o por que disso...
(Ele falava de Mateus 8.28 e Lucas 8.27. O mesmo acontece com 
Mateus 20.30 e Marcos 10.46).
 Cada Evangelho teve uma abordagem, e destinava-se a 
pessoas diferentes. Mateus, por exemplo, escreveu para os judeus, por 
isso ele faz tantas citaes do velho testamento. As pequenas diferenas 
acontecem porque s vezes um fato  narrado sob pontos de vista 
diferentes. Cada evangelista que viu aquele mesmo fato acabou 
contando a histria de forma pessoal, ressaltando o que, a seu ver, era 
de maior importncia. Havia dois homens possessos, mas um deles 
chamou mais a ateno. Dois cegos, mas um deles era mais popular ali. 
Isso no faz da Bblia um livro mentiroso.
Wang ouvia com ateno. Chen olhava de canto de olho, mas 
prestava ateno. Mesmo assim insistia em parecer desinteressado e 
comer suas batatas fritas.
 Olha s que legal! Jesus ressuscitou mesmo! Imagine s, 
lembram do exrcito romano? Era o exrcito mais bem preparado do 
mundo conhecido na poca. A armadura deles no tinha proteo nas 
costas, pois um soldado romano jamais daria as costas a seu inimigo. 
Eram super treinados! Um peloto de elite foi destacado para tomar 
conta do tmulo de Jesus, para evitar que seus discpulos levassem o 
corpo e sassem dizendo que Ele havia ressuscitado. Havia rumores 
disso. O que acontece? Aqueles homens super treinados, talvez quinze 
ou vinte, tinham a misso de tomar conta de um... tmulo! Imagina s 
isso, aqueles soldados altamente qualificados vigiando um tmulo. De 
repente... alguma coisa aconteceu... e aqueles homens so lanados por 
terra! Ficaram assombrados! Pois Jesus ressuscitou de fato! Como ser 
que ficou o capito daquele peloto diante de seus subordinados? E 
como este peloto ficou diante do exrcito? Claro que algo de 
sobrenatural aconteceu ali... algo que eles no conheciam... que os 
assustou... Jesus ressuscitou!
Wang prestava muita ateno. Via a questo da ressurreio de 
Cristo por um outro prisma.
 Sabe... nunca tinha pensado nisso...
Mas naquele instante no pude prestar muita ateno em Wang, 
pois o olhar de Chen na minha direo destilava dio puro. Foi a primeira 
vez que olhei diretamente para ele. Seu rosto mudou completamente em 
segundos, de uma maneira estranha. A musculatura retesou repuxando a 
pele do rosto, at os ossos da mandbula e do maxilar pareciam assumir 
contornos diferentes. Os olhos dele  o branco dos olhos  comearam 
a avermelhar-se como se os microvasos estivessem estourando, como 
algum com conjuntivite.
Realmente, ele foi literalmente transformado, transfigurando diante 
dos meus olhos. Eu nunca tinha visto algo assim... a canalizao de 
demnios na Irmandade no deixava a pessoa com aquela aparncia. 
Mas aquilo era um endemoninhamento real!
Wang continuava falando comigo, e a princpio no percebeu 
aquela situao tenebrosa ao lado dele. Eu fiquei sem fala. Os olhos dele 
estavam cravados em mim, com ira. A respirao de Chen estava agora 
profunda, pesada, e suas mos crispavam-se furiosas sobre a mesa.
No consegui processar o que estava acontecendo at Chen abrir 
a boca e falar. Um som grave saiu de sua boca, um som gutural, 
poderoso. Mas em tom baixo, sem escndalo, sem alarido, calmo.
 Voc est falando tanto da Bblia, dos discpulos, mas est se 
esquecendo de um personagem.
Wang olhou, estranhando o tom. Do ngulo em que ele se 
encontrava no podia vislumbrar perfeitamente a mudana ocorrida em 
Chen. O demnio literalmente o ignorava, sem voltar-se em sua direo. 
Estava mais preocupado em despejar seu dio sobre mim.
 Voc deve gostar muito de Judas, no?  tornou o demnio. 
Wang se rebelou:
 O que  isso, Chen? Por que voc est falando assim? E por 
que seu rosto est esquisito? Voc est bem?
A entidade de alta patente que tinha semicanalizado Chen no 
parecia importar  se com Wang. E continuou:
 Voc est esquecendo de falar de Judas.
 Chen voc est bem? Sua voz est diferente!  retorquiu 
Wang.
At ento o duelo de olhares se travava entre mim e aquele 
demnio, talvez um Principado, pois a opresso naquele lugar estava 
enorme!
 Voc  o Judas. Voc  o traidor!  o som daquela voz 
medonha me deixava paralisado.
 No  nada disso, Chen... ele s est contando uma histria, 
voc no est entendendo  continuou Wang.
 Cala a boca, voc!  rugiu o demnio.
 nossa volta ningum parecia tomar conhecimento de nada. O 
restaurante estava vazio e ns num canto.
 A destruio em sua vida est s comeando. Voc era 
especial para mim, mas agora no tem mais famlia. Quem se levantar 
para te ajudar, eu derrubarei! Voc vai ficar sozinho. E a voc ver quem 
 mais forte!
Naquele instante eu senti como se alguma coisa impedisse minha 
voz de sair. No era um aperto externo na garganta, no era isso, mas 
algo semelhante a quando algum pe a mo sobre as cordas de um 
violo e elas no podem mais vibrar. Era como se aquela Entidade 
parada ali na minha frente, semicanalizando Chen, tivesse suas mos 
livres para literalmente paralisar minhas cordas vocais. Eu queria abrir a 
boca, orar, fazer alguma coisa, mas minha voz tinha desaparecido. Era 
uma incapacidade total de produzir som.
Seria possvel que aquilo estava mesmo acontecendo de 
verdade???
Estava aturdido... a opresso entrou em cada poro do meu ser, 
densa, forte, sinistra... estranha... uma sensao difcil de descrever! 
Como estar em uma enorme montanha-russa, sentindo aquele frio na 
barriga, e a certeza de que, no final daquela descida vertiginosa, h um 
abismo. Algo assim: alguma coisa ruim est prestes a acontecer, mas 
no h como evitar. A iminncia de algo terrvel!
Tentei, tentei por alguns segundos falar algo em som audvel, 
aquele demnio no poderia continuar ali! Foi a que lembrei que Deus 
podia ouvir meus pensamentos, Deus  Onisciente! Deus poderia escutar 
meu pedido de ajuda, mesmo que a palavra no me chegasse  boca.
"Em nome de Jesus, Senhor Deus, me ajude! Cad seus anjos?"
Na hora em que orei assim, em pensamento, parece que minha 
garganta "soltou". Como se uma rolha fosse retirada dali. As cordas 
vocais se moveram, num engasgo, e instintivamente falei algo, uma 
frase, em lnguas. Apenas saiu.
No meu ntimo eu temia que aquele demnio se debatesse, e 
fizesse um escndalo ali. Mas no foi o que aconteceu. O brao de Chen 
recuou lentamente, seus dedos voltados para baixo como garras 
riscando a mesa.
O dio expresso naqueles olhos no pode ser descrito em 
parmetros humanos.
 Lembre bem do que te disse hoje!
Ele no parecia intimidado. O recado foi dado.
E ento o corpo de Chen desabou!
Ele se inclinou para frente como quem desmaia profundamente. O 
rosto foi direto para o prato de batatas fritas cheio de catchup que ele 
tinha puxado para bem perto de si.
Wang tentou pux-lo de volta, desta vez visivelmente assustado.
 Chen! Que foi? Que aconteceu?
Eu tambm tentei ajudar e, ao tocar suas mos e braos na 
tentativa de ergu-lo, percebi que estava frio, gelado... como se no 
circulasse sangue em seu corpo.
Wang passava o guardanapo pelo seu rosto e o garom desta vez 
notou o que se passava. Aproximou-se solcito e com um ar de 
interrogao:
 Ele desmaiou? Posso ajud-los?
Eu olhava para Chen tentando ver como ele estava. O demnio 
havia sugado muito sua energia vital, poderia t-lo matado. Chen 
inspirava com dificuldade. Enquanto Wang continuava falando, 
explicando ao garom, eu o observava.
 Acho que ele desmaiou mesmo!
 Voc est bem, Chen?  perguntei.
Ele estava atordoado. Nem conseguia falar nada.
 Onde  o banheiro?  fez Wang.
 Por aqui, venham, vamos jogar uma gua no rosto dele, me 
acompanhem  disse o garom.
Fiquei ali na mesa em estado de choque, tanto pelo ocorrido como 
pelas palavras ameaadoras. Fiquei orando baixinho, pedindo ao Senhor 
que trouxesse o livramento para Chen, que o livrasse de toda a 
contaminao espiritual que tinha ficado nele.
Quando eles voltaram, Chen j parecia melhor. Se bem que ainda 
frio.
 Como voc est?  perguntei novamente.
 Estou com uma dor de cabea muito forte... o que aconteceu 
comigo? Wang pediu a conta e logo samos. Ele estava bem preocupado 
com o amigo.
 Puxa Chen... mas o que ser que aconteceu? Chen tinha 
perdido seu ar arrogante:
 O que aconteceu comigo? Eu no lembro....
 Voc no lembra, Chen?  perguntei.  No lembra de nada 
mesmo?
 Ah, lembro que voc estava conversando, falando... de 
repente... eu s lembro que j estava com a cara no prato. E... puxa... 
minha cabea t explodindo!
Chegamos no estacionamento e instintivamente entramos no 
carro.
 Olha, vou te dizer uma coisa Chen... e isso serve para voc 
tambm, Wang. Vocs podem no acreditar, mas... lembra de 
Shakespeare? Existem mais coisas entre o cu e a terra do que sonha 
nossa v filosofia. E, quer vocs acreditem ou no, demnios existem, 
assim como os anjos de Deus tambm existem  fui falando, meio sem 
pensar, os dois olhavam com ateno.  O diabo existe, assim como 
Deus existe. Voc, Chen, canalizou um demnio, quer dizer, ficou 
possesso! Uma Entidade demonaca usou seu corpo!
 Ele foi "possudo"? Isso que voc quer dizer?  retorquiu 
Wang.  Nossaaa! Bem que eu achei que a sua cara estava estranha... 
e a sua voz mudou mesmo, Chen! Ser possvel uma coisa dessas em 
pleno sculo vinte? Meu Deus...!!!
 Mas como no me lembro de nada?
 Isso foi um demnio?  continuou Wang.  Isso foi um 
demnio.
Embora budistas, eles tinham bem idia do que seria um demnio 
por causa dos filmes de terror.
 No agento mais de dor de cabea... acho que vou ao 
banheiro de novo  e Chen foi saindo do carro.
Fiquei sozinho com Wang.
 Acredite no que te falo. Foi um demnio. Ele se incomodou com 
a nossa conversa.
Wang me olhava demoradamente:
 Mas se foi isso de fato... que negcio  esse de destruio que 
ele te disse? Ele te ameaou. O que voc fez?!
 bvio que eu no podia dizer.
 Isso  uma histria antiga... o que aconteceu tem sua razo de 
ser. Mas eu no posso te falar agora.
Eu estava bastante desconfortvel com as palavras do demnio, e 
tambm pelo fato dele no ter ido embora estrebuchando. Tinha ido to 
calmo, to na dele...
 O que foi aquilo que voc falou, Eduardo? Algum 
Encantamento? Pois quando voc falou, meu amigo caiu!
 Aquilo foi uma linguagem espiritual. Mas no fui eu que fiz ele 
cair, foi a Entidade que saiu do corpo dele.
Wang ficou pensativo. Logo chegou Chen de novo.
 Olha, o que aconteceu com voc hoje tem um propsito, Chen. 
Deus se interessa pela sua vida. Vamos ver se tornamos a nos 
encontrar. Procure pensar um pouco no que te falei.
Chen apertou-me a mo, desta vez olhando-me com ternura:  
Realmente h algo diferente em voc...  foi tudo o que disse. As 
palavras daquela noite ficaram em minha mente. Martelando.
* * * *
Captulo 30
Nove dias se passaram depois deste episdio. Eu estava 
calmamente no servio retornando do almoo. Naquela manh ns 
estivemos esperando pelo novo Diretor Financeiro, que assumiria ento 
o seu posto. Mas at aquele momento ns no o tnhamos visto, uma 
vez que ele passara toda manh em reunies com a alta cpula da 
Empresa.
Mrcio estava alvoroado. E os demais, esperanosos com a vinda 
do novo Diretor. Quem sabe ele mandava comprar mais mesas de 
trabalho? O "movimento dos sem-mesa" estava atento! Muitos 
estagirios tinham que dividir o mesmo espao de trabalho.
No incio da tarde o homem finalmente chegou. Eu j estava em 
minha mesa trabalhando em alguns relatrios financeiros. No percebi 
que se tratava do novo Diretor, apenas notei um burburinho por ali.
At que vislumbrei, ali de onde eu estava, l na porta do 
departamento, um homem de caractersticas tipicamente americanas: 
meia-idade, cabelos dourados bem penteados, pele clara. Vinha em 
companhia da secretria, mansinho, cumprimentando um a um, sendo 
apresentado, falando polidamente e com sotaque.
"Que cara magro, meu Deus! Parece at que vai quebrar!", refleti 
alternando o olhar entre o computador e a figura bastante alta que 
caminhava ali do outro lado.
Mas no perdi muito tempo, uma vez que estava no meio de um 
clculo complexo. Logo ele estaria ali, acabaria por chegar  minha 
mesa.
Dito e feito, a secretria aproximou-se de mim.
 Boa-tarde, Eduardo! Deixa eu te apresentar nosso novo Diretor 
Financeiro, Dr. Arnold.
Parada ali na minha frente, ela continuou:
  Esse  Eduardo, Analista Snior e responsvel pelos 
estagirios do departamento.
De perto o homem parecia ainda mais alto. Os olhos claros, 
acinzentados, pousaram em mim. Ele me olhou profundamente e falou 
alguma coisa meio baixo, uma frase solta, que pensei ser em ingls. Eu 
me ergui educadamente.
 Muito prazer!  estendi a mo.
Ele tambm estendeu a sua. E me esmagou fortemente num 
aperto brutal. Parecia que meus ossos iam trincar. O cumprimento durou 
alguns segundos, durante os quais eu tentei em vo me libertar!
 O prazer  todo meu  retrucou ele com polidez.
Eu nada disse, pensando que realmente fosse o jeito dele. Cada 
um tem uma maneira de apertar a mo. Uns do a mo mole, fraca; 
outros apertam com fora; outros do as pontas dos dedos... sei l..!
Ele afastou-se com a secretria, e eu fiquei com uma vaga 
sensao de "dej v", de j ter visto ou vivido aquela cena. Aquilo me 
parecia levemente familiar, embora no conseguisse me recordar de 
imediato...
"De onde ser que eu conheo este homem?"
Eu massageava a mo levemente enquanto observava a figura 
alta e magra se afastar.
"Engraado..."
Retornei a meus afazeres.
Cerca de uns quinze minutos mais tarde, vi a sombra de algum se 
aproximar novamente de minha mesa. Ergui a cabea e era ele. Bateu 
com os ns dos dedos no tampo da mesa e falou:
 Por favor, venha  minha sala. Quero conversar com voc!
Fiquei animado. Eu era o nico Analista Snior daquele 
departamento. Certamente ele iria elogiar meu trabalho, ou quem sabe? 
Me promover?
"Tenho j um monte de idias para discutir com ele!"
Todo sorridente eu me levantei prontamente para acompanh-lo. A 
sala dele, envidraada, tinha aquelas persianas de fechar.
 Sente-se por favor!  convidou ele apontando a cadeira diante 
da mesa. Fechou a porta.  Fique  vontade!
Acomodei-me e o observei cerrar todas as persianas. Pelo visto 
tnhamos muito trabalho a discutir!
Assim que ficamos realmente sozinhos e ele se sentou diante de 
mim, sua atitude mudou. O semblante endureceu e ele olhou-me nos 
olhos, silencioso, durante um pequeno tempo. Parecia analisar-me 
durante aqueles instantes, mas seu olhar era desagradvel.
Por fim lanou a sua primeira frase em tom frio e cortante, um tom 
de quem tem diante de si um espcime raro.
 Ento  voc o traidor?
Eu no entendi. Aquele no era bem o feliz incio de uma reunio 
de trabalho.
 Traidor? Que traidor?! Como assim?
O Diretor ignorou minha pergunta. Meneou a cabea devagar, 
sempre com os olhos fixos em mim.
 Voc tinha tudo. Tudo! Tudo para crescer. Tinha tanto potencial. 
Sabe quanto foi investido em voc? No s em tempo e dedicao... mas 
em dlares!  Voc tem idia do custo do investimento em sua pessoa?
Eu ainda no estava entendendo; ou talvez, no quisesse 
entender. Retruquei:
 Mas, pera! Eu acho que voc deve estar me confundindo com 
algum!... Voc sabe meu nome completo? No confundiu com outro 
Eduardo?
 No, no confundi. Voc  Eduardo Daniel Mastral.  A seguir 
deu minha ficha completa: idade, data de nascimento, filiao, endereo, 
telefone, amigos mais prximos...
Eu estava atordoado! O Diretor continuou.
 Inclusive eu lhe trago lembranas da Tassa, ou melhor... da 
Thalya Edna Legrad. Ou voc j se esqueceu dela? Tambm transmito 
os cumprimentos do Marlon. Mais conhecido como (....)  e falou o 
nome verdadeiro de meu antigo mentor e amigo.
Era verdadeiramente estarrecedor. Eu estava grudado no cho. 
Minha lngua estava grudada, minhas mos grudadas na mesa, no 
conseguia esboar reao. Apenas meu corao parecia continuar 
funcionando, batendo surdamente no peito. Estava completamente 
chocado com aquela revelao nua e crua, sem rodeios.
Um sorriso irnico brotou-lhe nos lbios.
 Voc acha que esse seu Deus pode te proteger?
A pergunta me fez despertar um pouco, mas a surpresa do 
momento ainda me dominava.
 Sim...  gaguejei.  Sim! Claro... a Bblia diz que Deus cuida 
at dos pardais... dos pssaros do campo! Ento, ns... ns que somos 
filhos de Deus... quer dizer, eu, n? Eu que sou filho de Deus, no voc... 
 acho que estava me enrolando todo.  Ele cuida dos Seus filhos... e 
cuida de mim!
 T bom. Voc acha que Deus esta cuidando de voc agora? 
Neste instante?
 T, sim.
 Pois voc est demitido!!  afirmou ele rispidamente, fuzilando-
me.
Eu fiquei mudo. Literalmente paralisado. No sabia o que dizer ou 
o que fazer.
 Mas... mas por qu?
 Simples. Porque voc agora se tornou nosso inimigo. E isso  
s o comeo. A destruio na sua vida est s comeando. Hoje  no 
dia de hoje   o incio do fim  lanou-me um olhar ruim.  Voc 
ainda vai ter inveja dos mortos. Vai arrepender-se amargamente do que 
fez!
Num momento inusitado de bravura tentei esboar uma reao.
 Voc est enganado. Deus  mais forte! Voc que est no 
engano.
 Ah, ?  ele era cnico.  Olhe  sua volta...
Eu j sabia o que vinha depois: aquela filosofia distorcida do diabo.
 Quem ser que est ganhando, no?  continuou ele.  
Alis... olhe para a Igreja que voc freqenta. Quem est do seu lado? 
Voc tem amigos de verdade l como os que tinha antes?
Calei-me.
 Fidelidade... aonde est a fidelidade? Esta realidade que voc 
contempla hoje na Igreja, nunca enfrentou dentro da Irmandade. Ali 
realmente somos um s! Caminhamos juntos, somos unidos. Voc sabe 
disso. Agora... aqui fora, onde voc acha que Deus  Soberano, 
Supremo... que engano o seu! A Igreja  fraca,  dividida, voc est 
vendo isso com seus prprios olhos! Na Igreja  cada um por si e Deus 
contra todos. Deus no faz nada para melhorar a vida de ningum. No 
fez nada para melhorar sua vida! Ou fez? E hoje, eu te digo, isso  s o 
comeo. Voc ainda vai sofrer muito por causa dessa sua deciso, vai 
colher as conseqncias!
Eu no sabia o que dizer. Estava esttico! O eco das suas 
palavras me trazia  lembrana o confronto com aquele demnio, nove 
dias antes. Que, por sinal, tambm tinha sido nove dias depois do 
Sabbath.
Em tudo eles tinham que deixar sua assinatura!
 Alguns instantes de incmodo silncio, e a voz dele cortou o ar 
mais uma vez:
 Ningum vai te ajudar! Os nicos amigos que voc tinha esto 
do outro lado. Mas agora voc j tomou a sua deciso  e 
grosseiramente continuou.
 Saia de minha sala!
Me levantei para sair, e ele ainda lembrou-se de dar mais um 
recado:
 Ah, a propsito! Esse "Filho" no vai nascer.
Fechei a porta atrs de mim, caminhei at minha mesa sem sentir 
o cho, sem enxergar nada. Ser sumariamente demitido assim, desse 
jeito, nessas circunstncias... realmente eu estava sem cho!
Peguei minhas coisas calado, mas o Mrcio viu e veio at mim.  
Vai embora? Voc tem Mdico hoje?
 No...  desembuchei.  Fui despedido. T saindo. O Diretor 
me mandou embora.
 Mas como? Mandou embora?! Ele acaba de chegar, nem te 
conhece!!! No sabe a qualidade do seu trabalho! Isso  um absurdo, 
no, no, no! Espere aqui um pouco, eu vou falar com ele.
Voou na sala do Diretor. No ia adiantar nada. Ele retornou em 
cinco minutos, desenxabido.
 Puxa... por essa eu no esperava. No entendi! Ele disse que 
voc no se enquadra no perfil da Empresa, alm do que pretende cortar 
gastos. Infelizmente no pude fazer nada.
 Eu sei. Eu entendo. Bom... vou indo! Tchau, Mrcio, nem vou 
me despedir dos demais, diga que deixei um abrao a todos!
Fui ao departamento pessoal completamente arrasado e com 
aquelas palavras martelando em meus ouvidos.
"Ningum vai te ajudar... voc acha que Deus te guarda? Veja o 
que acontece com voc agora... esse "Filho" no vai nascer.... Deus te 
ajuda?.... Quem so os teus amigos?.... A destruio est s 
comeando...."
Sa super chateado, perdido, sem rumo. Peguei at nibus errado. 
Tinha que fazer exame Mdico demissional em outro lugar, quando dei 
por mim, estava num caminho nada a ver.
"Tenho que ligar para Isabela. Certamente ela vai me ligar mais 
tarde.  melhor eu ligar antes."
Fui ao orelho e liguei para o servio dela.
 Al?! Nen?  Sua voz veio em tom preocupado.  O que 
aconteceu?
 Oi Gatinha!  dei um tom alegre  minha voz.  Tudo bem?
 Eduardo, eu liguei l no seu trabalho. Onde voc est? O que 
aconteceu?
 Ah... voc j sabe, ento?
 Faz uns 40 minutos e te liguei para falar oi. Simplesmente 
disseram que voc no trabalhava mais l!
 Estou indo fazer meu exame Mdico demissional, depois 
conversamos pessoalmente. Voc no vai nem acreditar!
 No! Me adianta alguma coisa. No vou conseguir fazer nada 
se voc no me contar.
 Ele era um deles.  Ele quem?!
 O Diretor.
 O Diretor Financeiro?! ? Mas... voc tem certeza, Eduardo?
 Absoluta.
 Ele... ele falou isso? Ele afirmou isso? Como voc pode ter 
certeza?
Fui contando e Isabela tambm ficava praticamente em estado de 
choque, como eu.
 Meu Deus... eu nem sei o que dizer...  duro lidar com isso.  
muito duro dizer que isso no tem o poder de nos afetar! E agora, como 
 que vai ser? E nosso casamento? Faltam trs meses. No pretendo 
adiar a data.
 Nem eu! Seria o fim da picada! Acabamos de selar essa data no 
Reino do Esprito! Deus vai ter que dar um jeito. Preciso de outro 
emprego, e logo! Amanh mesmo saio em campo, no se preocupe.
 T. Vamos ficar calmos. Vai dar tudo certo... no , Nen?
 Vai. Tudo dar certo! Vou indo fazer o exame Mdico, depois 
nos encontramos no Shopping, e te conto melhor!
 At l, fique com Deus.  Amm.
* * * *
Passei a procurar emprego como um desvairado. A nica coisa 
boa naquilo  que eu tinha recebido uma boa verba rescisria. Meu chefe 
tambm foi muito legal, e deu um jeito de eu receber um bnus por bom 
desempenho. Eu no contava com isso.
L veio a saga de compartilhar com Dona Clara, Grace e Sarah. 
Estavam indignadas com a ousadia dos Satanistas. E se mantinham na 
brecha por nossas vidas!
A deciso de no adiarmos nosso casamento foi tomada de forma 
homognea por todos ns. Oramos ento para que Deus nos desse as 
condies.
Eu e Isabela tnhamos conseguido juntar novamente um pequeno 
capital, ao qual se somava o dinheiro da resciso. Mas no era muito. 
Cada passo agora teria que ser muito bem calculado. Mas... eu precisava 
de um trabalho fixo.
Mais por desencargo de conscincia resolvemos nos aconselhar 
com nossos Pastores e o Pastor Jaime, vice-presidente da Comunidade. 
Tnhamos tido algumas matrias do seminrio com ele. J fazia quase 
trs anos que freqentvamos aquela Igreja assiduamente. Embora a 
liderana soubesse um pouco de nossa histria, muitos ainda no 
acreditavam nela. Mas o vice-presidente naquele momento nos inspirou 
confiana, e fomos buscar conselho prudente com ele.
Ele nos recebeu e expusemos nossa situao a ele, com todos os 
detalhes possveis. O Pastor no falava muito, apenas ouvia, com os 
olhos fixos em ns.
 Bem...  disse por fim Isabela.  Ns no podemos nos dar ao 
luxo de errar agora. J nos aconselhamos com Dona Clara, e com 
Grace. Gostaramos de ouvir sua opinio como nosso Pastor.
 Com relao ao casamento, creio que vocs  que tm que 
atrapalhar os planos do diabo, no ele os de vocs. Casem!
Eu e Isabela nos entreolhamos. De fato aquilo era mesmo o certo 
a fazer. Samos de l alegres. Fomos tomar uma gua de coco e 
conversar melhor.
 Vamos esboar aqui um pouco do que temos que preparar?  
mesmo sem esperar resposta Isabela j ia rabiscando idias.
 Eu no sei quanto vamos gastar. Talvez seja melhor fazermos 
uns oramentos. O que  necessrio para casar?  falei entusiasmado.
Isabela vivia olhando revistas de noivas. Nem sempre comprava, 
as importadas eram caras. Mas a verdade  que realizar o casamento 
dos sonhos  uma tarefa bem detalhista e incrivelmente rdua.
Tivemos que pensar na recepo, na decorao da Igreja, em que 
Igreja casar, nas fotografias, no vestido de noiva, no meu traje, no traje 
dos padrinhos, e quem seriam eles, etc. etc. etc. ...
Fizemos primeiro uma planilha do nosso dinheiro. Tnhamos que 
usar com muito critrio, no podia haver desperdcio. A questo 
financeira era um incmodo para mim... mas eu cria que Deus iria dar um 
jeito, e uma porta de emprego em breve seria aberta!
Isabela tratou de cuidar dos oramentos dos Buffet's e tambm 
fomos visitar vrias Igrejas. As mais bonitas. Mas cobravam um absurdo 
de aluguel... ficamos um pouco desanimados...
 A soluo vai ser a gente casar em nossa Igreja mesmo, pelo 
menos no vo nos cobrar aluguel! E, de certa forma, estamos em casa!
 Pois ... o templo no  muito bonito, mas acho que vai ser 
melhor. Conversei com o Pastor e a data ficou marcada.
Agora era decidir onde fazer a festa! Durante o ms de dezembro 
Isabela fazia vrios oramentos por telefone, dentro do que nosso 
oramento permitia. Depois, fomos a vrios lugares para a prova de 
salgadinhos. Tinham alguns simplesmente horrveis! J levava um sal de 
fruta junto comigo.
* * * *
Estava em um processo de seleo muito competitivo. Era para 
uma Multinacional com sede na Avenida Paulista. Todos os concorrentes 
eram muito bem preparados, a maioria falava mais de uma lngua. De 
incio fiquei um pouco receoso de concorrer com candidatos to fortes. 
Mas logo as dinmicas e as entrevistas afunilaram o processo, restando 
apenas cinco candidatos. Eu estava entre eles.
Minha entrevista durou mais de uma hora. O Diretor estava 
curiosssimo comigo.
 Como  que algum que no fez uma Faculdade consegue 
acumular tanto conhecimento e se virar to bem?  perguntou ele com 
simpatia e sorrisos.  Depois de ver seus testes e seu currculo fiquei 
com vontade de conhec-lo.
 Bem, a Faculdade  muito importante, mas h outros meios de 
se obter conhecimento. Sou um pouco autodidata e isso facilita muito. 
Existem pessoas que precisam do ensino para aprender, outros no 
necessitam tanto. A histria est cheia de exemplos assim, temos 
pintores, msicos, cientistas e at lderes polticos que nunca cursaram 
uma Faculdade. Mas isso no refletiu negativamente em seu 
desempenho como profissional.
 Voc tem um excelente currculo. Impressionante! Bem, 
aguarde nossa avaliao, mas antecipo que gostei de voc. s vezes 
temos candidatos muito bem preparados, PHD, etc. Mas no tm a 
mnima noo de relacionamento interpessoal, isso afeta a inteligncia 
emocional da equipe, causando uma quebra na capacidade produtiva do 
departamento. Precisamos de pessoas jovens, dinmicas, ativas, 
capazes de aceitar novos desafios e principalmente, que aceitem serem 
moldadas dentro do perfil da Empresa. Voc parece possuir alguns 
destes atributos. Vamos ver... ah! E ainda voc pratica Kung Fu h mais 
de vinte anos!?
 No, no pratico mais. No sobra tempo.
 Bem, isso denota que voc tem disciplina e perseverana. Vinte 
anos...  um bom tempo! Espero que voc no se importe de resolver 
algumas questes para mim agora. Aceita?
 Sim.
No era praxe aquela situao, fazer um teste prtico ali na frente 
do diretor. Mas aceitei. Estava acostumado com as rotinas do 
departamento financeiro, FASB, balanos, investimentos, relatrios, 
mapas financeiros, anlise de custos e contratos, etc. ...
O teste foi especfico, mas me sa bem! Deu-me a calculadora 
financeira HP12C e fiz vrios procedimentos de amortizao de juros 
pela tabela Price, e clculos usando vrias variantes de indexadores.
Tudo foi relativamente fcil, pois eram coisas a que eu j estava 
acostumado no dia a dia. No me fiz de rogado nem diante do nico 
problema  real.
 Voc no fala francs... por ora no  fundamental. Mas se fizer 
carreira aqui, mais pra frente ser necessrio. O que voc tem a dizer?
 Posso aprender. Vocs no vo se arrepender se investirem em 
mim. No tenho medo de trabalho. Vou dar o retorno  altura!
Ele levantou-se e me estendeu a mo.
 Se voc for selecionado, arcaremos com seu curso de francs.
Sa de l certo de que o emprego seria meu! Todos estavam 
orando para que tudo desse certo.
"Quem sabe Deus no vai me dar algo bem melhor?"
 * * * *
Neste nterim, voltei a me encontrar com Wang e Chen.
Era quase boca do Natal e eles iriam viajar na poca de festas. 
Mas tanto eu quanto eles estvamos sentindo a necessidade de um novo 
encontro.
Wang conversava comigo pelo telefone para marcar o dia e 
comentou da estranheza que ambos ainda sentiam com relao ao 
desastroso episdio.
  Queremos conversar de novo  disse Wang.  Entender 
melhor o que aconteceu, sabe? Foi tudo muito estranho.
 Tudo bem, vamos marcar o dia. O Chen tambm vai?
 Vai, vai sim. Ele ficou confuso, acho que precisa ouvir um pouco 
mais do que voc tem a dizer.
E marcamos a data. Eu e Isabela estvamos em orao. Ela se 
animava com o que estava acontecendo:
 Eles vo se converter!  s uma questo de tempo.
No dia do encontro eles estavam com outra postura, 
particularmente Chen. Ele tinha o semblante mais srio, duro, como se 
estivesse sentindo muita dor.
Nem bem chegaram e j fui falando, falando... compartilhei meu 
testemunho, sem muitos detalhes, claro. Expliquei sobre o plano da 
Salvao, a Bblia, falei de Jesus, fiz at apelo.
Eles no atenderam ao apelo, embora estivessem srios e 
compenetrados.
Acabamos por mudar de assunto. E eles se comprometeram a 
"pensar a respeito" sobre o que eu tinha dito.
Chen por fim falou:
 Desde aquele ltimo encontro que estou com uma dor de 
cabea que no passa com nada, tomei tudo quanto foi remdio, 
consultei Mdicos, fiz exames. Ningum acha nenhuma causa para isso! 
At ressonncia magntica eu fiz!
Ele no estava associando aquilo com o episdio do demnio. Mas 
naquele momento senti um desejo muito forte de orar por ele.
 Posso orar por voc, Chen? Chen aceitou, para minha surpresa!
 OK, mas no aqui, no Shopping  eu tinha medo de que 
houvesse alguma manifestao estranha, ali em pblico. Tudo podia 
acontecer depois do que eu tinha visto.  Ser que a gente pode ir para 
o seu carro?
 Claro, vamos.
Os dois me acompanharam. Chegamos ao estacionamento e 
sentamos os trs no banco de trs do carro espaoso de Chen. Eu fiquei 
ao lado de uma das janelas e Chen ficou no meio.
 Voc pode fechar os olhos?  pedi.  Vamos falar com Deus, 
e fechando os olhos voc no se distrai com nada ao seu redor. Mas se 
quiser falar com Deus de olhos abertos, tambm pode, viu? Os dois 
concordaram.
 Deus vai te curar  afirmei.
Eles no responderam nada. Eu orei, pedi a visitao de anjos, da 
presena de Deus, do toque do Esprito Santo, e que eles percebessem 
o Amor do Pai!
 Pai, escuta meu pedido agora e cura esta dor do Chen, que seja 
um sinal para ele de Seu Poder. Amm!
Erguemos nossas cabeas e eu olhei para ele:
 Ento? Como voc est? Melhorou? Ele foi categrico:
 No melhorou nada!
Wang me encarava como se eu fosse louco.
 Vou orar de novo, t?
Imediatamente eles curvaram suas cabeas e fecharam os olhos.
Reuni toda a f que pude, toda a coragem, impus as mos sobre a 
cabea de Chen e tornei a orar. Desta vez eu no escolhi palavras, 
deixei-me levar pelo Esprito Santo. Orei em lnguas, em portugus, fui 
orando sem pensar no que eles estariam pensando.
Comecei a sentir aquela opresso. Forte. Parecia que minhas 
mos estavam geladas, a cabea de Chen estava fria. Orei, orei, orei, 
clamei o Poder da Cruz! Comecei a sentir a opresso diminuir... ento 
parei. Abri os olhos.
Chen estava com a cabea bem baixa entre as pernas. Ergueu-se 
levemente e percebi que lgrimas escorriam pela sua face.
Ele no olhou para mim, olhou antes para Wang. E falou algo em 
chins. Wang respondeu e os dois trocaram algumas frases. Wang ento 
se voltou para mim, com um semblante que deixava transparecer sua 
emoo.
 A dor passou...  murmurou ele.
E traduzia as frases do Chen, que continuava a falar seu idioma. 
Desta vez no porque estivesse querendo zombar de mim, mas porque, 
tomado pela intensidade do momento, talvez nem se recordasse que eu 
no entendia o que ele falava.
 Eu no conheo esse seu Deus...  repetia Wang, aps Chen. 
 Mas Ele deve te amar muito... pois atendeu seu pedido.
A alegria da presena de Deus foi invadindo nossos coraes. 
Abracei os dois e choramos na presena do Criador! O Deus que tudo 
pode! Uma semente foi plantada naqueles coraes naquele dia.
* * * *
A deciso final de meu emprego sairia na ante vspera do Natal. A 
entrevista com o Diretor tinha sido boa, de verdade. Uma coisa era fato: 
eles gostaram de mim, do meu perfil como pessoa e como profissional.
"Que expectativa... ah! Tem que dar certo!"
Aparentemente tudo estava se encaixando. Deus sabia que eu 
queria e precisava daquele emprego. Queria constituir famlia, me 
aquietar em um s emprego, e fazer carreira! Aquela Empresa era 
excelente! Um lugar muito promissor; e teria um salrio muito bom!
"Puxa! Como estou ansioso... no consigo pensar em mais nada, 
meu Deus..."
Isabela tambm estava na expectativa. Tanto que a gente at 
evitava falar do assunto, para no ter um treco.
"Talvez Deus tenha permitido que eu fosse despedido naquelas 
circunstncias para transformar a maldio em bno. No  possvel 
que esse decreto de destruio que vem do Inferno v se cumprir. Tudo 
bem que de fato no tem muitas pessoas ao nosso lado, mas Grace e 
Dona Clara esto fazendo a parte delas. Temos tambm convivido com 
Sarah. Deus no precisa de quantidade, mas de poucos guerreiros fiis."
Enfim o resultado saiu. Era dia 23 de dezembro. Isabela estava no 
Ambulatrio esperando ansiosamente. E eu no conseguia criar coragem 
para ligar para ela.
Sentia um n na garganta, uma sensao indescritvel de 
impotncia, uma revolta na alma. A tristeza tomou conta de mim.
Eu esperava que Deus nos desse um presente especial de Natal.
Mas tinha acontecido assim. Infelizmente.
"Por que teve que ser desse jeito, Deus? Por acaso o Senhor acha 
que eu sou de ferro??"
H pouco tinha desligado o telefone, emudecido, acabado, 
atordoado.
"Do que ns vamos viver, meu Deus?  justo Isabela trabalhar por 
dois e eu ficar aqui, vendo as nuvens, Senhor? Se ela quiser adiar o 
casamento vou entender muito bem!"
Custei a conter as lgrimas. Tomei o telefone nas mos 
novamente. Era preciso dar-lhe a notcia.
 Oi Nen! Tudo bem?
 No,"M"...
Isabela compreendeu logo.
 Ah, Nen... te deram a resposta, ?  Deram...
 Ento eles no te escolheram?... Mas estavam to 
interessados.... Suspirei fundo, lutando para conter a emoo.
 Eles me escolheram, sim, Gatinha. A recrutadora j tinha me 
dado os parabns, j estava me passando a lista de documentos para 
levar e tudo o mais, eu ia acertar tudo antes de te ligar, mas ela ligou de 
volta dizendo que havia um problema...
 Mas que problema, Eduardo? Que foi dessa vez? Foi algo da 
Irmandade?
 No. O meu nome est protestado!  exclamei, amargurado. 
Isabela sabia disso, e no acreditava na argumentao.
Quando sa da Irmandade perdi tudo o que tinha. E ainda no 
consegui pagar dvidas contradas em viagens, roupas, etc. Tentei vrios 
acordos, que consegui pagar aos poucos, mas alguns destes acordos 
no deram certo... e tinham me protestado!
 Isso nunca foi problema antes, Eduardo! Por que agora?
  um banco internacional, Isabela, uma Instituio Financeira 
de porte. Faz parte.  praxe. Quando consultaram minhas referncias 
viram o protesto. E o valor  muito elevado, no tenho como pagar.
 Pxa... a gente orou tanto... foi um ano to difcil...
 No entendo...  assim que Deus quer abenoar nosso 
casamento? Desabafei, entre irado e amargurado.  No seria melhor 
que Deus no tivesse me deixado passar, que no chegasse ao fim... 
para que este sofrimento?
 Eu te entendo... no tenho a resposta. Procure se acalmar, 
deve ter um motivo, um propsito!
 Sim, um motivo que s Ele sabe!
 No fale assim, vamos orar?  Vamos...
 Senhor Deus... esse  um momento muito difcil, o Senhor sabe. 
Toda nossa expectativa, a angstia, o nosso desejo... agora estamos 
frustrados. Mas apesar de tudo, Deus... continuamos confiando em Ti. 
Confiando na Tua Proteo, e que o Senhor vai prover o que 
precisamos... o Senhor sabe que vamos nos casar, que  chegado o 
tempo. Se preciso for casaremos mesmo sem emprego!
Entregamos tudo o que temos diante de Teu Altar. Consola nossos 
coraes de forma especial. Temos a certeza de que foi o Senhor, e no 
o diabo, que fechou esta porta, porque ns oramos... sentimo-nos como 
talvez Davi tenha se sentido no salmo 13. Ajuda-nos Pai! Protege-nos na 
sombra de Tua Mo, guia nossos passos, no permita que a chama da 
nossa f se apague! Em nome de Jesus te pedimos, amm!
  Amm!
Isabela estava fungando do outro lado da linha.
 Foi bom termos orado, Gatinha.
 Voc est se sentindo melhor?
 Sabe, Nen?
 O qu?
 Gatinha tem orgulho do Nen, viu?
 Mas no consegui o emprego.
 Por causa do protesto, no por causa da sua capacidade.
 OK, tudo vai dar certo. Deus  por ns! Um beijo, bom servio.
 Outro, fique com Deus.
* * * *
Dia 30, antevspera de Ano Novo, mais um stress sobreveio sobre 
ns, particularmente sobre Isabela.
Quando cheguei em sua casa, no final da tarde, ela estava 
assustadssima com o estado de sade da Bitinha, sua cachorrinha 
preta.
 A Bitinha no est bem, Eduardo!  falou Isabela com ar 
preocupado.  No sei o que est havendo. Ela vomitou um pouco, 
pensei que fosse apenas uma indisposio, comprei Plasil e apliquei 
nela... mas ainda no est melhor.
 Ser possvel, Isabela?  fui olhar a cachorra pela porta da 
cozinha. Isabela sofria visivelmente, angustiada em ver sua cachorrinha 
piorar a olhos vistos, do nada, de repente! Ela estava bem, era forte, 
sadia, com plo brilhante, ativa, no tinha nenhum problema de sade.
Talvez tenha sido nossa exausto que nos impediu de tomar uma 
atitude mais drstica, mais ativa.
 A Vanessa acabou de viajar! Faz dois dias!
Vanessa era a veterinria que conhecamos e confivamos, e que 
costumeiramente vinha consultar os animais em casa e estava tambm 
acompanhando o Wolfi. Que, por sinal, veio piorando muito do quadro 
convulsivo ao longo dos meses. Claro que nada iria acontecer enquanto 
fosse fcil localiz-la. Era sempre assim! Nos piores momentos. O 
Hospital Veterinrio da USP j estava fechado.
 Ela piorou repentinamente, seno j teria levado no Hospital da 
USP. Bitinha estava deitada na porta da cozinha, com seus olhos 
plcidos olhando para ns, a respirao meio acelerada.
 O que a gente faz?  perguntou Isabela.
 Vamos esperar. No pode ser nada grave. Vai ver comeu 
alguma coisa e est passando um pouco mal. Vamos orar por ela.
Oramos. No dia seguinte Isabela me liga logo cedinho.
 Nen, vem aqui!  ela chorava, quase desesperada.  Ela vai 
morrer, a Bitinha vai morrer!
 Fica calma! Eu j vou at a. Vamos lev-la a outro veterinrio.
 Acho que no vai dar tempo....
Sa  toda de casa. Isabela esperou que eu chegasse olhando 
para a cachorrinha de longe. Cheguei l antes das sete da manha. 
Isabela tinha um aspecto horrvel por causa da angstia que passara.
 Como ela est?  perguntei rpido ao entrar.
 No tenho mais coragem de olhar. Levantei cedo e fui direto 
para o quintal na esperana que ela estivesse bem. Mas...
Corri para fora sozinho, apenas para encontr-la morta. No retve 
as lgrimas de pura revolta.
 At quando, Senhor? At quando?...
Era 31 de dezembro. Isabela estava sem rumo. Mas nessa altura 
tnhamos aprendido a no mais mentir e ter sempre zelo com tudo o que 
fazamos. Isabela no quis faltar ao emprego. Sei que aquilo foi 
durssimo para ela. Tempos atrs Isabela no hesitaria em inventar a 
morte de um parente para faltar no emprego, sem culpa alguma na 
conscincia. Mas isso hoje no seria mais cogitvel. Deus teve que 
trabalhar muito em sua vida para conseguir esse resultado. Acho que 
nem eu pude supor quanta fora de vontade ela usou naquele dia.
Levei-a ao trabalho. Como ela estava to triste...
Despedi-me com um beijo e um forte abrao, voltei  sua casa e 
passei toda a manh cavando um tmulo para a Bitinha no jardim de 
Dona Mrcia. Bitinha tinha dez anos. E era a mais meiga dos trs.
Depois, no final da manh, fui buscar Isabela no servio.
Claro que a passagem de ano estava estragada. Comemorar o 
qu? At Marco no pde vir naquele ano.
Eu estava um pouco encafifado com aquela histria, mas minhas 
suspeitas s ficariam mais claras depois.
Naquela noite procuramos no pensar no assunto. Ainda durante a 
ceia, outro problema; o Wolfi que estava at compensado, agora piorava, 
piorava... toda hora Isabela ia at o quintal v-lo. Depois que a 
"comemorao" acabou, fui embora e Dona Mrcia foi deitar tambm. 
Mas Isabela passou mais uma noite em viglia observando o Wolfi, 
acariciando-o, ouvindo seus ltimos lamentos.
Pela manh, vimos que ele no tinha mais recuperao. Liguei 
para uma Clnica veterinria que estava de planto e pedimos que o 
sacrificassem. Era dia primeiro do ano.
A veterinria veio e o examinou. S executam o sacrifcio se 
realmente no h mais nada a fazer. No tinha...
Isabela ficou no seu quarto, chorando, orando, suportando sua dor.
Eu acompanhei a veterinria, e a partida do Wolfi. Seu sofrimento 
estava acabado!
Isabela estava esgotada com olhos inchados e muita dor de 
cabea por tantas horas de tenso.
O dia estava claro, ensolarado. Dona Mrcia fez caf e eu fui cavar 
outro tmulo no jardim. Sentada nos degraus do jardim, plida, Isabela 
ficou olhando.
Foi um duro fim de ano!...
* * * *
Depois disso, Isabela ficou alguns dias colhendo a tristeza 
daqueles dias, tanta coisa acumulada. Dormia mal, mas no faltou um s 
dia no seu trabalho.
Volta e meia falava dos animais. Tinham sido tantos ataques sobre 
eles que j havamos perdido a conta. Vrios estranhos sumios da 
Viola, a Harpa que foi mordida pelo Wolfi e teve que ser operada, quase 
morreu. Depois desapareceu, e s surgiu depois de muita orao.
 Na primeira vez que ungi a casa e os animais, foi to esquisito... 
quando ungi a Bitinha ela foi logo para a casinha dela e vomitou  
lembrou Isabela.
  mesmo, ? No sabia disso!
 Pois ... uma cachorra no  sugestionvel como o ser 
humano... eu orei no mesmo tom de voz que falo com eles. Quando a 
ungi, ela vomitou, na hora. Exatamente como acontece com pessoas 
debaixo de forte opresso.
 Coitadinhos...
 Que fim de ano... voc reparou o dia em que a Bitinha morreu? 
Parece que h algo a mais nisso, no acha?  Isabela estava sria.
 Dia 31.
 , 31 de dezembro. Isso no te lembra nada?  Acho que 
sim...
 Lembra de 31.12.1999?  como se a morte da Bitinha fosse um 
prenncio... de minha morte... um sinal do inimigo, sabe? E o Wolfi 
morreu logo depois dela... de sofrer muito. S no sofreu mais porque o 
sacrificamos. A Bitinha morreu de repente, de forma sbita, sem causa 
aparente. O Wolfi lentamente.
A ficha caiu pesada. Era verdade!
 Uma fmea, e um macho. Um casal. Ela primeiro; ele depois, 
com dor. Numa data to "sugestiva". Um ano antes. Entende o recado? 
 continuou Isabela.  Por que Deus permitiu isso no sei... por que 
esse avano do inimigo, por que meus animais inocentes tm que passar 
por isso?  e j chorava de novo.  Mas eu entendi bem o recado, 
muito bem.
Senti em mim a testificao imediata. No poderia ter sido mera 
casualidade! No ano seguinte, na data marcada, ns saberamos que 
no estvamos sonhando!
* * * *
(CONTINUA EM GUERREIROS DA LUZ VOLUME II)
* * * *
Nota - A partir do volume II, passaremos a utilizar Lucifr no lugar de 
Lcifer, pois esta  a forma como se referem a ele nos bastidores da 
Seita.

CONVITES PARA SEMINRIOS
Daniel e Isabela Mastral visitam Igrejas
compartilhando suas experincias
atravs de palestras. As propostas e
sugestes para cada visita podem ser
feitas atravs do seguinte contato
E-mail: danielmastral@hotmail.com
 
 
 
 
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